domingo, 25 de novembro de 2012

Estatísticas

Não tenho nada contra as cujas; minha irmã, inclusive, é estatística de formação. Não tenho nada contra o saudabilíssimo procedimento de, quantificando, ter uma certa ideia do andamento dos fatos. O que me agride está do outro lado do processo: a fabricação desavergonhada de fatos para se enfiarem confortaveizinhos nas desejadas estatísticas. A massinhagem-de-modelar pornográfica que se executa sobre as realidades mais rotas para surgirem lindonas na foto. A nojenta inversão da caverna – em que a vida, a vida, a vida, com suas chagas palpáveis, seus arranhões sangrentos, não existe para os autos. Só existe no reflexo difuso da pedra, na maquiagem indetalhada dos números. Só existe reinventada.

Que o digamos nós, os que levam vida de professorete. Vez por outra nos chegam criaturas – senão de mente – de alma analfabeta. Ou os pequenos cérebros foram criminosamente empurrados séries a fio, sem uma reprovação que lhes farolasse a ignorância, ou, se puderam aprender um qualquer beabá, mastigaram embutido o elogio da mediocridade. Primeira lição mamadeirada pelo aluninho de município: pouco já basta. Já basta para a aprovação com média anual 3,2-que-é-quase-4-que-é-quase-5. Já basta para o gabaritar dos testes de prefeitura oficiais, cunhados para os de idade mental três anos inferior. Já basta para o ganho da bolsa-cartão-família-help-auxílio-carioca, garantidaça a despeito do rendimento escolar mais vexatório. Já basta para a formatura colegial cheia de flor e banda, farta de eleitores radiantemente presentes e futuros. É ensinada desde sempre ao povo miúdo – e seus geradores – a utilidade da paralisia, a vantagem da aceitação cretina, do pensamento desesforçado, em troca da diplomação em massa que parece abrir novas portas e felizes. Tu me dás números de urna, eu te honro com porcentagens de aprovação a serem lidas pelo Márcio Gomes num sorriso de uma à outra têmpora. Eu finjo que te preparo para um dia me questionares, tu fazes de conta que um dia conseguirás ser meu servidor passando no próximo concurso. Bem está o que bem acaba. Beijo de amor. Aplausos. Pano rápido.

Que também o diga Marido, revisor de quantos textos acadêmicos rabiscados por PhDs de Harvard que confundem “mas” e “mais”, por professores-doutores-organizadores do Departamento de Etceterices Latino-Americanas que inauguram e não encerram frase, por mestres yodas das mais altas comandas que separam de vírgula o sujeito e um seu predicado. E vá tentar remendar-lhes o período incompreensível; “deixe como está” – é, entre bufos, o resmungo geral. Desde que a taxa de publicações anuais caia bonitinha no Lattes, desde que os artigos tais e tantos saiam com as titulações em gordo negrito, desde que as sumidades completem a meta do semestre com algum quasímodo embrulhado em capa colorida, quem é que se amofina com o leitor boiandão na leitura, expulso da página onde foi bater de pires na mão? Estatísticas, as bezerras de ouro. Que %s de tijolo e cimento arrendem a antiga terra da beleza inquilina. Ao menos a da justa clareza.

Que as expectativas polianas de vida cortinem de fumaça a medicina que lhe injeta café com leite na veia. Que os pibões balofos fantasiem de glitter as mesas esqueléticas da caatinga. Que os bons números do atacado disfarcem quem morre à míngua no varejo. Que as menores natalidades médias escondam quem tem quinze filhos por profissão. Que o grosso regenere o particular, o global maquie o detalhe, a eficiência morta do algarismo redima a mediocrização galopante da minúcia. Que nos asfaltemos. Que nos generiquemos. Que nos desindividualizemos dentro do Cérebro que se apropria da ciência para nos nivelar subsolamente – com sorriso de Olimpo impresso na cara.

(Já basta.)

sábado, 24 de novembro de 2012

Gente que nunca

Chegam por aí as natalices, e por causa delas me recordo de uma reportagem que uma vez trabalhei em sala de aula, sobre moradores do lixão. Não, não é notícia da era Carminha; faz tempo. Era texto já velhusco quando o descobri e utilizei, anos atrás. Lembro que o sonho de um dos catadores (idosos) entrevistados na matéria sempre fora o de provar panetone. O pobre revirava caixas bauduccas que vinham em caminhões de lixo, na esperança de alguém ter deixado um restim, mas qual; tudo raspadíssimo da silva. Lembro também que a reportagem me moeu o coração com ralador de queijo, e mói ainda (embora não falte a esperança de algum leitor da época haver presenteado o catador com uma tonelada de embalagens preenchidas). Doeu-me a simplicidade do pedido, tão à mão e tão irrealizável, tão encontrável em qualquer esquina – ainda mais agora que há panetoninhos-bebês para verbas menores – e tão inacessível. Provar panetone é um “nunca” da nudez extrema. Da mais abusada miséria.  

O nunca de Tião (posso quase jurar que o nome dele era Tião) me dá quilos de vergonha quando penso em meus nuncas classe-médios, afastados de qualquer fome, irrealizados sem culpa de caminhões que não trouxeram o pedaço certo: nunca fui à Europa, nunca passeei de helicóptero e balão, nunca aprendi a costurar, nunca estudei francês, nunca fiz cruzeiro, nunca me inscrevi na dança de salão, nunca tive cartão de crédito, nunca estive com Marido numa festa à fantasia. Importa? nuns casos, algum tanto; em outros, pouquíssimo. Mesmo se importasse muitão, não havia de ser calamitoso como certos nuncas alheios que me trituram o coração no liquidificador. Tem gente, minha nossa – gente talvez do quarteirão, do prédio talvez – que nunca devorou um livro desde o cheiro até o personagem, nunca ultrapassou o analfabetismo emocional de não se entregar à história, de não curtir um pequenino luto quando o enredo se fecha, definitivo e saudoso. Tem gente que cruza com a gente na rua e nunca suspeitou do que fosse um Natal harmonizado em família. Gente que, meu Deus, nunca recebeu indício do que fosse família. Gente que nunca teve a quem apelidar de “mãe” ou a quem, nas horas maiores, enfeitar com o título. Gente que nunca fez um trajeto que terminasse em “obrigado”. Gente que nunca provocou um “obrigado”. Gente que nunca concebeu entranhadamente o sentido de um “te amo”. Gente que nunca desprendeu gargalhada sem que houvesse a ferida de outro envolvida. Gente que nunca respirou à larga em viagem. Gente que nunca cantarolou por dentro enquanto esperava o ônibus. Gente que nunca (se) confessou estar exausta. Gente que nunca conheceu quem lhe ouvisse os defeitos mais retumbantes sem perigo de chantagem. Gente que nunca conheceu quem lhe percebesse a mudança, a enxaqueca, o sumiço. Gente que nunca mereceu confidência. Que nunca tocou noutro rosto. Que nunca roçou noutro cabelo. Que nunca suspirou alívios ao voltar pra casa. Que nunca se flagrou em casa. O pior, fortemente o pior: gente que nunca desejou. Nada. Nunca. Alma noves fora zero.  

Me assusta demais da conta, me espanta cem vezes mais que o querer panetone e não ter panetone, essa incapacidade de querer. Esse jeito de ser e não ser pessoa, esse vácuo fundamental. Gente tão despida de gentice – espoliada de si, quem sabe, pelo máximo da dor – a ponto de nunca ou nunca mais esperar o príncipe, as férias, o níver, o melhor emprego, a próxima edição da revista, o último capítulo da novela, o filho que anda distante, dez quilos a menos, dez amigos a mais, o véu, a grinalda, o beija-flor, o carteiro, a paz mundial. Gente que não tem curiosidade de caviar ou carne de rã, não anota a estreia de um filme, não planeja terminar a reforma ou o ensino médio, não cobiça um salário ou sapato, não folheia um romance ou roteiro, não imagina um castelo, não projeta um desfile, não cria um enredo, não se arruma para a visita, não faz curso, não faz concurso, não cogita trabalho voluntário. Gente que assinou renúncia mui antes da hora; que, se pudesse, puxava a cordinha e mandava parar o mundo para bocejantemente descer.                

Tenho pânico de tropeçar para dentro desses espíritos que viraram cotoco. Que jamais brotaram além do cotoco. Tenho medo ancestral de pegar contágio dos que desistiram do jogo e vêm tocando a bola só para cumprir o tempo regulamentar.

Tenho medo de almas deste mundo que não criam memória. Que, de tão exclusivamente sólidas, no segundo em que morrem desmancham no ar.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A primeira flor

“Quando tudo for pedra, atire a primeira flor”, li contentemente no Face agora há pouco. Quem dera. Em oito palavras e um estender de braço, resolvia-se o mundo. Claro, sempre nascerão os bélicos, os viciados em complicar com exagero para terem o pretexto de resolver na paulada e despressurizar as frustrações. Mas nossas vovós já juravam que quando um não quer, dois não brigam – e se o ditado é velho a resolução é novíssima, estalando de fresca. Nada espanta mais ineditamente os raivosos que a tranquilidade sensata. Pacifismo é o eterno moderno.

Quando o grupo estacionar a conversa em torno de como aquela atriz anda piranhando por aí, quando interromper o fluxo de ideias para chafurdar em boataria autocomplacente, seja o primeiro a balancear o tema lembrando que essa, essa mesma, visitou aquele hospital de câncer infantil no fim de semana, quantos da roda foram lá plantar iguais alegrias? Quando a vizinhança assentar de ter antipatia unânime pelo novato do 307, tão absorto em solidões que se esquece de cumprimentar no elevador, seja o primeiro a crer em segundas chances levando-lhe à porta uma fatia da festa. Quando a batida no trânsito calhar de ser num bélico que só precisa de um “isso” para lhe esbodegar a vida, seja o primeiro a sacar o número do seguro, do advogado, do guincho e, possível sendo, do táxi e do almoço. Quando o chefe vomitar injustiças de momento, seja o primeiro a bater em retirada com o melhor dos sorrisos e deixar que só a fonte da fúria cause ressaca em si mesma. Quando a turma puxar perseguição, deboche, descaso, vacilo, fofoca, propina, quando as intenções forem de bully, quando o clima for de exclusão, quando as nuvens sussurrarem pretensões de chumbo e se fecharem em cinzento de batalha, quando o mero encostar na pedra for tudo que se aguarda para principiar a avalanche – seja o primeiro a chegar de vontade limpa, a se revelar com boa-fé voluntária, a declinar da zoação temerária, a recuar da provocação infértil, a não se apossar do xingamento feito na febre, a não prosseguir na tolice engatada no susto. Seja o primeiro a desconfundir o suposto servilismo e a valentia de não se calcar em opiniões neanderthais. Seja o primeiro a diferenciar o falso puxa-saquismo e a gentileza de não se aprisionar em impressões de encomenda. O primeiro a não comprar guerra de ciumentos e machinhos-alfa. O primeiro a desprezar teorias – sobretudo práticas – de conspiração. A escolher lealdade contra todas as cusparadas. A optar por lucidez sobre todos os preconceitos. A estar. A permanecer. A oferecer.

Deixa-disso é ninharia. Quando a coisa apertar, seja o primeiro da turma do tô-contigo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Doadores

Um conhecido resolveu gritar, no status do Face, que é doador de órgãos. Imagino que o ato tenha a ver com alguma situação de doença entre os próximos, mas eis o bonito da coisa: dizer o necessário, proclamar o necessário enquanto há tempo desprecisa de um porquê. Sou doador, ponto, a quem e quando interessar possa; é uma informação de amor inguardável para consumo interno, um essencial feito para ser gentilmente berrado à luz do dia, até com o objetivo de não sobrepesar de dúvida uma família já tonta de dor (aliás – e podem me atirar o Corcovado na cabeça –, eu ignoraria solenemente a vontade de um morto que tivesse o egoísmo último de não pretender salvar outras vidas. Me espanca aí, se seu estômago aguentaria assinar um N-Ã-O na cara da senhorinha que está vendo, mês a mês, o coração do filho único necrosar. Tá indignadinho? morre pra longe de mim. Questão de prioridades. Tenho a esquisita tendência de favorecer quem teima em continuar respirando). Em tempo: sou doadora, não haja questionamento possível a um blog todito por testemunha. Terei a honra mais inteira de dissolver-me em diferentes anfitriões, em partir permanecendo, tão amante da vida a ponto de virar-lhe semente. Na esperança, é claro, de não amofinar muito o hospedeiro com a memória emprestada de 1.568 tirinhas da Mafalda, aulas de orações adverbiais e hits do Roupa Nova. Doar é também contaminar um pouco.

Antes de chegarmos aos finalmentes do desmanche físico, porém, há que nos distribuirmos em fragmentos de nós, em tantas transfusões de nós quantas forem fundamentais para a manutenção de existências vizinhas. Na impossibilidade de plantar uma aurícula ou ventrículo de pensamento saudável no meio de um tórax muito, muito corroído de desistência, plantamos às vezes uma única palavra-lâmpada, um único germe de ideia, único grão de estrada nova. Na dificuldade de arrancar a córnea e metê-la dentro duma cegueira autodestrutiva, damos às vezes uns bofetões de luz – broncas tinhosas, perseguições implacáveis, teimosias de anjo da guarda profissa. Na proibição de cedermos um dos pulmões ao amigo sufocado de mundo, realizamos uma traqueotomia de abraço que abra fresta para a tristeza respirar. Não podemos emprestar pele, mas podemos tecer a cicatriz e cultivar tato; não podemos entregar tímpanos, mas podemos costurar entendimentos; não podemos oferecer braços, mas podemos nos enfiar no mutirão. Não podemos nos fatiar ainda, por mais que possuídos de ternura excessiva; e no entanto devemos – sem listas nem burôs nem bisturis nem nove-horas – devemos absolutamente tomar vidas a peito, na víscera que as enfraquece, na vitamina que lhes falte. Nascemos não simplesmente colegas, não contemporâneos apenas: somos ampolas, somos mútuos suprimentos. Estoques recíprocos. Daí o encanto das diferenças – que não interditam, antes aquecem a troca. Todo amor encaixa. Todo amor é compatível.

Ser imprestável para doação em vida é o melhor indício de morte cerebral.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Solucionáticas

Outra do Face; citação atribuída à minha xará Fernanda Longatto: “Por um mundo com menos ‘estou com saudades’ e com mais ‘desce que eu estou te esperando’”. Curti e compartilhei, naturalmente. Tal qual a autora, eu creio na prática. Creio na prova. Creio no mundo que cansa de ficar dando pinta com palavra bonita de rede social e parte pro vamuvê. O mundo que finalmente se percebe exausto de teorias, obeso mórbido de promessas, farto e refarto de lero-lero que engravida, engravida e não dá à luz. Não que eu seja modelo de resolucionismo – I wish; empurro para adiante o mais docemente possível cada perrenguice não urgente. Mas não falo de perrenguices. Falo de coisas teoricamente amadas, de desejos supostos. De quereres que insistimos em querer devagarinho demais, low-profily demais, quem sabe com o medo eterno de desmistificar os privilégios não eternizados. Quem sabe com o medo eterno de corromper em fatos o até então sonhado como privilégio. Com o terror de buscar o clímax para não desencantar a relação. Com o mau e velho pânico de sair da caverna.

Sair da caverna é preciso, contanto que para maior luz. É preciso desengavetar necessidades de viagem, necessidades antigas, compridamente acalentadas, ainda não materializadas em trens e aviões porque nos vem sendo mais reconfortante suspirar “um dia” do que nos meter em consulados, passaportes, bagagens e poupanças. É preciso efetuar o encontro com a passada turma, ainda não organizado porque talvez nos fique mais macio trocar textos, fofices e amabilidades facebookas do que encarar rugas atuais – amarrotamentos físicos ou simbólicos. É preciso escrever para aquele amor mais primeiro e infinito, ainda não procurado porque temos o receio absurdo de ser imaginados como já não somos, em vez de assumir que estamos muito melhores e mais próximos do que idealmente seremos. É preciso enviar o currículo que ficou pardo de espera no armário, o currículo ainda não endereçado porque, no fundo, por mais que nosso trabalho faça o inferno de cada dia, é já o inferno mapeado – e tomar uma atitude salvadora nos põe menos apaixonadinhos pelo destino super-herói. É preciso economizar hoje o primeiro real da festa. É preciso experimentar hoje a primeira ideia do vestido. É preciso encomendar hoje o primeiro mimo da troca de presentes. É preciso tomar hoje a primeira colherada do tratamento. É preciso pagar hoje a primeira parcela da segunda chance. É preciso pegar hoje os filhos na escola e lanchar aquela conversa. É preciso se declarar. É preciso escolher a cor. É preciso mandar o cartão de desculpas. É preciso comprar o ingresso da peça. É preciso surpreender a criatura específica com o ingresso da peça. Com o beijo de e-foram-felizes. Com a cesta de café da manhã. Com o quadro finalmente na parede. Com o filme alugado de uma vez. Com a hospedagem-surpresa da amiga de São Luís. Com a mala feita. O hotel reservado. A passagem garantida. Bora? 

Bora. Melhor que agora não há, pra dar entrada nos papéis de ser feliz mais cedo.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Eu sou você amanhã

Numa deliciosa tirinha do Calvin publicada no Face, o protagonista mais safado das agaquês recebe e lê uma carta de seu “eu passado”: “Caro futuro Calvin, eu escrevi esta carta alguns dias antes de você recebê-la. Você fez coisas que eu não fiz. Viu coisas que eu não vi. Sabe coisas que eu não sei. Seu sortudo de uma figa! Seu camarada, Calvin”. O moleque arremata enxugando uma lágrima e suspirando a pena que sente de si mesmo dois dias atrás. Entendo à perfeição. Não raro me flagro em clima de piedade e alívio com relação a tantos meus eus que ralaram, coitados, para que estivesse aqui-agora esta euzinha duarte, supostamente livre de tamanhas ignorâncias e, felizmente, ignorante quanto a meu estágio de evolução futura. Sempre é produtivo não ter noção completa da magnitude do rombo a ser reparado, ou pularíamos todos do barco, encarnados em desespero.

A infância: que linda. Quantas vezes a criatura não se pega, em meio à tsunâmi adulta, censurando de tarja preta os pedaços de agudo sofrimento moral da meninice e desejando, cantando, recitando – ai, que saudades que eu tenho?... Eu não. Fui muito feliz, tal e coisa, com a felicidade de miúdas ilusões que então me cabia; mas jamais-em-tempo-algum trocaria, pelas dores superlativas da época, aquelas hoje dimensionadas conforme o devido. Não que a infância me tenha doído mais que a de qualquer outro. O caso é que, quando somos e formamos mundo pequeno, as agruras menorezinhas nos engolem em proporção. Cortar o cabelo relativamente curto ou tirar nota um bocadinho mais baixa nos mergulham no inferno de antecipar a zombaria da turma. Gostar de um menino da sala e ver que ele passou o recreio brincando com outra nos joga na depressão mais inteira. Esperar a mãe voltar do trabalho para ver-lhe a reação à queixa da avó nos atira ao precipício de terror e culpa. Todo tormento é over, toda encanação é máxi. Não temos (se somos crianças minimamente limpas de cinismo) escudo bastante contra os horrores que vêm de fora, equilíbrio bastante para regrar as aflições agudíssimas de dentro. Na adolescência, o mundo cresce para ao menos termos espaço de sobrevida à revoada dos hormônios. Chegam sentires mais fisicamente pulsantes, pressões mais definitivas, conhecimentos academicamente mais cruéis: tudo bonito, intenso, poético – graças a Deus que passou. Nada como lembrar-se das intensidades e maravilhas belíssimas quando a cicatriz já há fechado em segurança.

Nada como não ter de chorar sangue estudando as Físicas e Químicas odientas. Nada como saber que não precisamos de cabelo na cintura para ser tão igualmente femininas. Nada como perceber que óculos de lente menor nos deixam enxergar tão igualmente bem. Nada como fazer as pazes com fígados, berinjelas, praias, parques aquáticos. Nada como perder o receio da vida de casada. Nada como já ter organizado o casamento. Já ter montado o apartamento. Já ter anos de experiência para dosar o ferro-e-fogo inicial de sala de aula. Já ter passado por aeroporto americano. Nada como não ter mais de fazer prova de Matemática. Nada como não ter mais de fazer prova oral de Inglês. Nada como não ter mais de fazer prova. Nada como não mais topar com latins e filologias no currículo. Nada como não enfrentar as febres e sufocações da dúvida amorosa. Nada como assinar o ponto em vez de levar carimbada a caderneta. Nada como não ser obrigada a usar lápis. Nada como não chorar porque o brinquedo rachou ou a casa está cravejada de formigas. Nada como assistir a um canal enquanto se grava outro. Nada como relaxar na gravação porque é só procurar o episódio no site. Nada como comer rango sólido e misturado. Nada como mexer com desenvoltura na máquina de lavar. Nada como ter visto impensáveis filmes, peças, expôsis; ter passado sem grilo por duas endoscopias; ter recebido o ato de investidura das duas matrículas. Nada como ter entendido mais ou menos a situação política do Irã nos anos 80. Nada como ter permitido que se quebrasse, ou encolhesse, um caminhão de manias e delírios e preconceitos. Nada como ficar à vontade com o mundo para pegar leve nos rótulos. Nada como aceitar alegremente que ele está dividido em, por baixo, 2.050 tons de cinza. Nada como crescer.

E reaparecer.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Os ruminantes

É uma gente com a qual, admito, me falta paciência: os ruminantes. Aquele povo que, em vez de nutrir-se numa assentada, ingerindo as melhores e piores coisas e, em consequência, procedendo à boa ou confusa – anyway, definitiva – digestão, fica de lero-lero estomacal. Come, mastiga, engole, desengole, remastiga, trimastiga, masca, reengole, sem nunca efetivamente chegar às vias de fato que tornam alimento a comida; sem nunca encerrar a refeição com a alegria cabível e expectar a próxima. Todo mundo conhece esses tais: criaturas que não vão adiante. Estacam no tempo e no espaço gozando infinitamente a dor de cada arranhão, engrolando a delícia de cada afronta, comprazendo-se interminavelmente em mágoas aumentadas, inventadas, pisadas, repisadas. Seu mundo não está apto a digerir; engasga-se em minúcias com cada bocado, na avareza, decerto, de economizar emoção com a novidade seguinte.

Uma minha tia-avó, por exemplo. Sempre foi medalhista em ruminância, mas depois da morte de Vó, sua irmã (sim, recentemente perdi Vó), ficou recordista de ouro. Encasquetou com a necessidade de velório – embora nem Mãe, nem eu, nem qualquer elemento da família nuclear seja de modo algum chegado a rituais longuíssimos de sepultamento, que só estendem infertilmente a morte infértil e nos fazem ter a obrigação de chorar mais tempo. Não se conseguiu capela, realizou-se a só meia hora de exposição do corpo (caixão fechado: ela inchara muito), suficiente para as devidas orações e despedidas. Pouca gente. Algumas flores. Tudo simples e digno. Mas Tia parece ter descrido da humanidade depois dessa ligeireza que julgou imbastante, e, em lugar de prosseguir a vida com seus aniversários, reuniões e celebrações, continuou velando velando velando. Prefere mascar a “ofensa” de agosto a reunir-se natalinamente conosco em dezembro. Cearão os três: ela, o marido e o ressentimento eterno – cada vez mais encarnudado por lhe darem de comer vinte e quatro momentos ao dia.            

Claro, existe o luto. Mas o luto, tristeza de saudade e vácuo de perda, não supõe amargura. Não supõe o câncer da amargura. Porque essa amargura – fim em si mesma – nada mais é que a birra do ego desatendido em suas exigências de universo, birra só pretextada pela (no caso) morte do outro. Mágoas retroalimentadas ad aeternum são festas ao contrário: circo armado permanentemente para descomemorar a existência; centro de gravidade profundo, sem fundo, que brota da feridinha micra e vai devorando o entorno, como bactéria antropófaga. Quem propaga essas inconveniências? Os que aguardam o fora da primeira namorada para serem infelizes para sempre – e fazerem as segundas namoradas infelizes para sempre. Os que esperam o nascimento de um filho para traumatizá-lo de culpa pela perda da beleza. Os que transformam os problemas com trabalho de grupo no 7º. ano em metralhadas na turma de faculdade. Os que tornam um placar ruim na última partida em assassinato a pauladas do torcedor adversário. Nazistas eram ruminantes. Psicopatas são ruminantes. Homicidas são ruminantes. Espíritos de porco são ruminantes. Pais (incluindo mães) azedos são ruminantes. Aqueles que ninguém quer escolher pra equipe ou aguenta na roda de conversa: 89% de chance de serem ruminantes. A ruminância é autorraiva que transborda; sua veneno, baba veneno, espirra veneno e acaba contaminando ambientes com partículas dos próprios desacertos internos. Ruminância é o machucado sem mercúrio-cromo. Ruminância é o vaso sem descarga. Ruminância é o lixão sem recolhimento da Comlurb. O único câncer (já a chamei de câncer) que pega a criatura mais próxima para paraíso fiscal de suas metástases.

Já bem disseram: não importa o que fizeram com você, importa o que você faz com isso. Ruminantes não fazem nada com isso. Voltam pra cama e deixam necrosar.

domingo, 18 de novembro de 2012

The yes men

Dez anos de formatura na faculdade. Bodas de estanho de nossa turmita com o bacharelado. Alguns núcleos ainda se esbarram, se apadrinham, mas muito por causa da data redonda surgiu a necessidade: bora reunir o grupo todo para celebrar? Bora. Primeira tentativa em setembro, mês do aniversário: comunidade criada no Face, hipóteses levantadas, decidiu-se um restaurante. Venha o restaurante. Afora um ou três pilhados, entretanto, a coisa foi esfriando no esquecimento; hipóteses viraram desculpas conforme chegava a data aventada. Entre os animados e firmes, nossa colega de outro município, quaquilhões de afazeres e um casal de gêmeos pequenos. Vou sim, vou sim, vamos, vamos. Mas andorinha só não faz reunião, e o projeto faleceu de inanição aguda. Paciência. Algum tanto depois, achei que a turma merecia revanche contra as cotidianices, mais uma chance de se encontrar comme il faut, e voltei a amofinar com insistências. Que tal um evento de fim de ano, com direito a amigo oculto literário? Reacordou o ânimo geral: bora. Discussão calendária e relógia no Face, hipóteses levantadas, decidiu-se – não um restaurante – um shopping. Venha o shopping. E as várias confirmações, por problemas vários, desconfirmaram no dia. Na hora. Nossa colega de outro município animada e firme: vou sim, vou sim, já estou a caminho do Rio! Celebramos eu, Marido e ela, em nome dos próximos e distantes ausentes. Naturalmente o amigo oculto não houve, houve o amigo presente; fiz questão de, antes, passar na livraria e levar para a colega um de crônicas da Martha – o que mais ou menos equivale a eu cravar comanda da Imperial Ordem da Rosa em peito alheio. Honras de estado e bandinha.

Vejam: não discuto que imprevistos, maçadas, cansaços, esquecimentos, distâncias, obrigações acontecem, e são perfeitamente justificáveis (sobretudo nesta época atabalhoada do ano). Por isso mesmo não tenho remota intenção de crítica. Soa mais ensolarado o caminho oposto: exaltar a trupe do sim. O pessoal que, a exemplo de nossa parceira de faculdade, é fã inveterado de abrir caminhos. A turma que acredita em apaixonar-se por ideias felizes ainda que incômodas, ainda que inesperadas, ainda que novas, ainda que jota-pito-fernandes; ideias inéditas na agenda, que forçam um bocadinho a barra por não terem antecipadamente entrado na história. O povo que tem rotina de aço e alma de pluma, que consegue enfiar proezas de tempo na já abarrotada piscina de tarefas, que tem coração de mãe batendo na folhinha, que é capaz de fazer caber sempre mais um – amigo, conselho, filme, livro, por que não? filho. A galera que é flexível como músculo de rato para passar pelas frestas improváveis; alada como pégasos de lenda, para seguir por trilhas ainda não aplainadas. Não digo os que só dizem sim porque tímidos, indecisos, imaturos, pusilânimes, culpados profissionais, não; falo dos que escolhem. Dos que decidem. Dos que preferem querer, dos que vieram ao mundo com a natureza de desejar, a vocação de facilitar, o talento às vezes essencial de desbravar. Dos que se encantam sinceramente pelas oportunidades e não ferem nem se ferem para abraçá-las (quase) todas: têm também limites, porém nasceram com a faculdade de evitar assumir o não como regra.

Falo das criaturas exaustas de expediente que arrumam jeito de brincar duas horas por noite com a prole, sem permitir que transpareça aborrecimento por debaixo da máscara – porque não há máscara. Falo dos namorados ainda estranhos à família que topam com alegria autêntica um níver de sobrinho no play, e catam diversão no meio do quibe frio e Coca-Cola fervente. Falo dos que voltam o quarteirão inteiro porque esqueceram o presente da secretária; dos que se aventuram a acampar uma vez na vida nem que seja para jurar que nunca mais (e quase arrebentam de rir no processo); dos que pipocam de curiosidade ao ser convidados para restaurante argelino ou tailandês; dos que, devidamente examinados e equipados, experimentam bungee jumping ou arborismo; dos que interrompem a agenda para ciceronear o hóspede por bondinhos e Corcovados; dos que pausam planejamentos para acompanhar um – talvez não reencontrável – chamado de vida. Falo dos que prosseguem razoáveis, responsáveis, mas com a dose ultrajovem de loucura que eu (sabe-se lá) nem tenho quanto devia, e é exatamente a sinapse que faz um pulso de existência bater.

Falo e preciso dos que não conferem a hora: acreditam em acontecer.

sábado, 17 de novembro de 2012

Voltar limpos

Assistimos a Argo – o relato dramaticômico de como seis funcionários da embaixada americana foram resgatados do Irã no final dos anos 70, época em que Khomeini papava fígados ianques no café da manhã. O toque de humor fica na conta da estratégia de ação escolhida (segundo um personagem, a “melhor má ideia” que se conseguiu ter entre as opções aventadas pelo governo dos EUA): arrancar as criaturas da terra do aiatolá fingindo serem uma equipe de produção canadense que, supostamente, visitou o país por apenas dois dias, a fim de investigar locações exóticas para um filme de ficção científica. Tornar a coisa crível exigiu a assessoria do pessoal de Hollywood; havia roteiro, cartazes, atores e até storyboards de verdade para o longa de mentirinha. Um dos apoiadores foi o diretor debochado vivido por Alan Arkin, mais uma vez fazendo papel de Alan Arkin como ele só. A uma pergunta do personagem de Ben Affleck (Tony Mendez, o responsável maior pela exfiltração dos refugiados) sobre como ele, diretor, acabara se afastando de sua mulher e filhas, disparou: “Sabe, trabalhar em cinema é como trabalhar em minas de carvão; nem sempre você consegue voltar limpo para a sua família”.   

Por mais que Argo seja gordo de boas tiradas, ficou-me essa. Voltar limpo. Eu, professora casada com professor, brinco que não fazemos DR: fazemos conselho de classe. Chegamos impregnados daquele visgo didático, daquele pesadume engraxado de sala de aula (tapem os ouvidos, românticos: sala de aula, não importa o que lhes contem as matérias fofas do Fantástico, é 96% das vezes um simba-safári de 40 feras e um só domador); o resultado é passarmos boa parte do tempo útil debatendo os absurdos escolares, queimando um tantão de vela com mau defunto. “Ah, mas falar ajuda a elaborar os sentimentos”, papagaiam alguns convictos. Papo-aranha do senso comum: não ajuda a todos. No meu caso, falar sobre o grotesco, o dantesco, só traz cinco ou seis vezes de volta o inferno de Dante, com todas as devidas e reiteradas taquicardias, os repetidos venenos. Bom mesmo é zerar-se; a única chance de sobreviver aos horrores da função que nos cabe (e se alguém disser “troca de função”, como se fora a Grande Ideia e a coisa mais simples, toma um murro) é, sempre que possível, desvivê-la. Dar um mergulho de fim de tarde nos livros. Higienizar-se moralmente em duas horas de cinema. Passar metade do finde brincando de Star wars com seus filhos. Passar metade do finde brincando de Angry Birds - Star wars sem seus filhos. Suar fúrias na academia. Tesourar aborrecimentos na jardinagem. Pisotear canalhices na dança de salão. Viajar! lava-a-jato eficientíssimo de fundos desconsolos. Desintoxicar antes de transpor seu sagrado tapete de Welcome – que a vida não merece ser sacrificada pelos sacrifícios feitos para mantê-la.

Maridos e esposas de médico devem reconhecer o sofrimento alheio, mas não merecem um parceiro amargurado de horror nas poucas horas de parceria que lhes sobram. Filhos de policiais devem estar cientes da violência urbana, mas não merecem pai ou mãe (ou ambos) encrostados de desconfiança e dureza nos parcos instantes de bobeira em família. Pais e mães de missionários na África (ou na esquina) devem ter o entendimento dos mais amplos flagelos, mas não merecem filhos endurecidos de indignação e desespero nas tardes bocadinhas de almoço dominical. Amigos de psicanalistas não merecem lanchar e jantar angústia humana. Sobrinhos de executivos não merecem tios que brinquem com cinco olhos pregados no celular. Irmãos de carcereiros não merecem adormecer pesadelando com atrocidades ocorridas por trás das barras. Não é justo, não é generoso, não lícito com nosso melhor mundo trazermos só nossos mundos piores para residirem nele.

A tendência é a colonização pegar. 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Nada do que foi será

Não vejo The walking dead e detesto tudo quanto se refira à turma dos mortos ambulantes – com honrosa exceção a Thriller. Mas Marido adooooora zumbis, o que me faz acompanhar por tabela a série (só na saudável teoria, a uma distância segura de pernas amputadas e braços mastigados). Sei, por exemplo, que há sempre um e outro personagem incapaz de “assassinar” seus beloved ones quando estes são tomados pelo vírus zumbi e se morto-vivam – inclusive o talvez-vilão da história, que armazena a filha zumbizadinha numa camisa de força. Para os outros peregrinos do mundo arrasado, limpos de lembrança amorosa, esses múmios são ameaças ranhentas e sedentas como quaisquer das demais. Para aqueles que amaram os monstrinhos em vida, são ainda e (e)ternamente os mesmos que lhes nasceram com dois quilos de bochecha vermelha, ajudaram a preparar o chá de panela ou ensinaram a cantar toda a obra da Galinha Pintadinha. Amor não é cego: enxerga em calendário específico.   

Mesmo entendendo grandemente o afeto que nos move a preservar nossos zumbis de estimação, me pergunto. Adianta? OK; paira constante a esperança de cura, de alguém descobrir um sorito que desumbize boa parte das vítimas. Mas suponhamos que a morto-vivice seja definitiva e já se saiba, de antemão, estar guardando na despensa uma criatura sem memória ou alma, que passará a eternidade “pensando” em jantar-lhe as orelhas. Sei não. Fico desconfortável com a perspectiva de um filho ou irmão meu interpretar-me como um McLanche Feliz. E no entanto é isso que fazemos: nos algemamos a histórias enterradas, nos afeiçoamos a realidades moribundas, nos rendemos a passados agonizantes – louca, insistentemente trocando, pelo horror conhecido, um novo caminho incógnito. Daí o tanto de bagagem que nos pesa o lombo. Daí o tanto de repetidas mortes que arrastamos em vida.

Antes de alguém tomar a liberdade de entender que defendo alguma ideia eutanásica: não. Por acreditar que o corpo humano é máquina que prega peças, que tem seus caprichos e conta suas lorotas, sou contra a eutanásia física. O que aqui me interessa é a eutanásia emocional de todos os componentes já necrosados de nossa linha do tempo. Um tiro no meio da testa do namoro que te tortura, deprime, desestabiliza e vaga pelas trevas mascando sua autoestima. Uma machadada no crânio do emprego que te assedia moralmente, chuta, humilha e vem de noite te puxar as pernas. Uma amputação radical dos ressentimentos putrefatos que te mordem e envenenam há anos, e geraram rompimentos definitivos cujas razões primeiras você até esqueceu. Uma decapitação de emergência na bagunça embolorada. Uma flechada no olho do culpismo que te faz de cavalinho. Uma faca na carótida do vício que te puxa pros becos. Uma sangria final no lado seu que não desata as correntes.

Que os nossos fantasmas voltem pras sombras a que pertencem ou nas quais se transformaram. Pela estrada afora, vamos (muito) bem sozinhos – spray de pimenta na cesta pra desencorajar a companhia de um qualquer lobo mau.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Sem luta

Atualmente, o “vem que a novela tá começando” deslizou, lá em casa, do horário das 21h para o das 18h, e aportou definitivamente no 1910 da afiadíssima Lado a lado – pérola que, além do elenco escolhido a pinça e da direção artística de babar, arrasou total ao focalizar uma época das mais trepidantes e menos exploradas na história carioca. Até aí, maravilhas. Problema é que, na ânsia de retratar os perrengues das primeiras mulheres divorciadas no Brasil, criou-se uma fissura improvável num dos amores mais equilibrados do enredo. Laura (Marjorie Estiano) deixou há pouco o marido Edgar (Thiago Fragoso) porque este trouxe para o país a filha ilegítima que gerara em Portugal quando eles ainda eram noivos. Não, sejamos justos: não foi por causa da meninazinha inocente e asmática que a protagonista enfulou-se da vida. Foi por causa da mãe da meninazinha inocente e asmática, vinda na rabeira – uma Alessandra Negrini toda trabalhada nas caras, bocas, cinismos e abusos. Se Edgar ainda demonstrasse gostar da tipa, se a esposa tivesse elementos para supor inevitável uma nova traição, não digo nada; o desrespeito e quebra de confiança abonariam a separação de corpos. Mas nem perto disso. O máximo que houve foram duas ou quatro intromissões de Catarina, a ex-amante, na rotina do casal, e sempre com exploração da doença da filha: coisa que amofina sem comprometer a lealdade romântica. Laura, porém, viciada na ideia de que jamais seria passiva como as mulheres da época, exasperou-se à primeira armaçãozinha fuleira da sirigaita e pediu o divórcio. Não conversou, não ponderou, não considerou que fazia exatamente o desejado pela outra, não pensou que Edgar (desta vez) não tinha culpa, não se lembrou dos “na alegria e na tristeza” tão prometidos no altar, não honrou sobretudo o amor intenso e perfeitíssimo que constantemente jurara sentir pelo marido. Pediu o divórcio. Abriu mão integralmente, abriu mão de mão beijada. Descartou tão mais rápido quanto mais lhe era caro. Desistiu sem dó. Desistiu sem luta.

OK, também não sou chegada a uma relação apimentada pela dúvida, tormentosa de intranquilidades, intervenções, invasões. Há quem curta uma emoçãozita e seja estimulado pela batalha, aprimorado pela incerteza. Eu e Laura, não. Desprezamos o embate com lacraias, temos nojo de joguinhos disse-me-dissescos, gostamos de amor limpo e translúcido como cheiro de mato e olho de bebê. O conflito nos seca, nos desincentiva, nos cansa; competição é coisa que me brochava mesmo nas aulas de educação física. Mas a paixão do sossego não implica covardia. A preferência por manter os amores com digna doçura não significa cometer harakiri sentimental antes de entrar em qualquer disputa. Uma coisa, e boa, é pacifismo; outra é abandonar o bote ao remoto som do tiro alheio e deixar o parceiro sozinho no time que deveria ser de dois, só porque não molho meus dedinhos nessa água fria. Mensagem embutida: você, baby, não vale um arrepiado da minha escova ao ver torpedo de mocreia no seu celular. Beijo, não me liga.

Eu, fosse o baby, não ligava. Quem diz tchau e bênção no primeiro rufar de tambores – considerando, claro, que esteja inocente o objeto do entrevero – levanta no mínimo a suspeita de que não vale o esforço. Como há de se sentir a criatura desertada pelo fato de seu companheiro de fé, irmão camarada não estar a fim de sofrer incômodo? Laura que me desculpe, mas persistência é fundamental. Amor, sem em momento algum ser barraco, é uma grande teimosia. Teimosia chique. No salto. A fulanilda mandou torpedo pro celular? Você (com a anuência do gato, óbvio) devolve com outro, finíssimo, agradecendo a oferta mas explicando que os dois são adeptos de relacionamento tradiça, sem qualquer previsão de ménage à trois – e aproveitando para dar referências de alguns amigos seus que estão no mercado (com a anuência dos gatos, óbvio). A periguete viu que ele está acompanhado e não para de enviar decotes pra sua mesa? Vire-se com um sorriso gentil e a taça erguida em tom de brinde, ou sugira ao lindo que ele cochiche “Como é grande o meu amor por você” no ouvido da banda e a tire (tire você, naturalmente) para uma dança com beijo de cinema. Catarina apareceu na casa da família oficial com a neném no colo, alegando que a febre subiu e não há condução possível para hospital a essas horas? Laura estende gentilezas de orelha a orelha, toma a criança no colo e prontamente se oferece para levá-la, ela própria, aos cuidados de seu pai médico. Exige sangue-frio? Litros. Exige máscara? Colada com Super Bonder. Vale a pena? Tudo vale a pena se a relação não é pequena.

Quem quer passar além com seu amor, tem que passar além da dor. Chi-quér-ri-ma.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Caso a dor se vá

“Dores, cada um tem as suas. Mas o que nos faz cultivá-las por décadas? Creio que nos apegamos com desespero a elas por não ter o que colocar no lugar, caso a dor se vá.” São palavras de minha Martha favorita, no texto “Cresça e divirta-se”. E não é exatinhamente assim? Alma vazia não para em pé, e esta que recebemos de fábrica, para ter feijão suficiente de nos ir empurrando através dos dias, precisa necessariamente escolher gasolina que chame de sua. A maioria põe amores como peso de papel: preenche o tanque de apaixonamento irrestrito pelo filho, pelos pais, pelo noivo, por perfumadas ideologias, por sinceras religiões, por animais de estimação, pelos careceres da humanidade. Outros tantos sapecam trabalhos e hobbies no contrapeso, e exalam medicina, respiram música, suam magistério, têm hálito de jardinagem, arrepiam tesões de viagem, ardem febres de escrita. Tudo equilibradamente muito justo, muito bom; mas e quem – por biografia ou índole – não se ajeita com qualquer das delícias combustíveis do mundo? Esses são os feridófagos; é povo que não caça fora, vai-se engolindo por dentro e alimentando de mais ausência suas ausências, como os buracos negros. Em seu estado de vácuo absoluto, agarram-se ao nada como único possível tudo e devoram-se, devoram-se, canibalizando ressentimentos tanto quanto os náufragos que se hidratam da própria urina.     

Todo mundo conhece uns tais azedos – quando não luta para evitar ser um. São as velhas senhoras (às vezes de 16 ou 31 anos) que remoem por quarenta décadas a trairagem da prima ao papar-lhe o namorado, sem perceber que o namorado já estava moído de levar patada ciumenta e iria embora por cansaço, mais dia menos dia. São os vizinhos múmios (às vezes de 23 ou 42 anos) que furam a bola dos garotos ou boicotam a reunião de condomínio porque a alegria e a indiferença gerais lhe afrontam o silêncio amargurado dos problemas. São os espíritos ermitões que se demitiram da sociedade tão logo tiveram uma perda, uma grande perda para ser devidamente incompreendida, uma grande injustiça para ser convenientemente esquecida, uma grande ofensa para ser naturalmente ignorada. São os que já carregavam coração incapaz de sustentar-se independente, e que portanto, qual se cumprissem destino, aguardaram o advento da Dor como ração de sobrevida. Como mal necessário.

Não digo que os sofredores convictos quisessem ou precisassem perder um filho, desenvolver doença, levar traição, que não sou doida. Digo que almas propensas ao tristume tão mais afundam nos próprios abismos, tão mais dão vazão a seu vício de ser chumbo, quanto mais o mundo as piora com pretextos. Digo que a Dor combina perigosamente com aqueles que só sabem justificar-se pela dor, da maneira perigosa com que combinam bebida e alcoólatras. Digo que umas tais criaturas, fossem felizes por vocação, receberiam a tragédia mas não subsistiriam dela: acionariam os recursos milenares do humor, do perdão, da teimosia, da experiência convertida em ajuda, da paciência convertida em doçura, do fato tornado coragem. Se persistem retroalimentando seu desespero, é que mui anteriormente o tinham  parido – nunca se tinham dado à luz.

Só quem se desposa tem companhia caso a dor se vá. O outro dá de comer ao tumor que, arrebentando, o enviuvará de si mesmo.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Do lado de lá

Tá bom, não resisto. Mais umazinha do Scliar. Desta vez, a notícia escolhida pelo autor para inspirar a crônica narra a saia-justa sui generíssima da British Airways, que precisou divulgar uma nota de desculpas por ter instalado um cadáver na primeira classe. Não, não um caixão. Um cadáver a frio e no duro, sem pensamentos trocadilhais. Deu-se assim: uma passageira idosa levou a sério a metáfora da viagem e faleceu durante um voo Londres-Nova Déli. Só que a senhorinha ia de classe econômica – lotada, como não? –, e a equipe de bordo, numa delicada tentativa de minimizar a exposição e o transtorno, achou por bem passá-la daquela para uma (seção) melhor. O problema (além do detalhe da morte, é claro) foi que um frequentador da primeira classe dormiu com um lugar vago ao lado e acordou vizinho de um cadáver; aborreceu-se um tanto – e o fato de os parentes da senhora passarem a noite lamentando e velando o corpo, por algum motivo, não ajudou. Ignoro se rolou compensação outra, mas ao menos uma indenização verbal coube à empresa por ter tido a desfaçatez de lembrar que a indesejada das gentes mora ao lado.

Certo, não é a coisa mais bacana despertar de um sono acolchoado e perceber que o indivíduo mais próximo perdeu a faculdade de despertar. Admito que temos ligeiro preconceito em relação a seres irrespirantes; mas por que mesmo? Gente morta é silenciosa, megadiscreta, de permanência pacífica. Não conversa ou ri em altos brados quando quietude é tudo de que precisa o espaço sonoro alheio; não invade com o cotovelo, não catuca com as pernas, não afeta indiferença quando o filhote joga Fanta Laranja no seu colo, não insiste na conversa que violenta sua leitura, não tenta te convencer de que não há vida fora da Cientologia durante as dez horas de voo. A morte (naturalmente morrida), se não é bela, é no mínimo afável e polida depois de concluído o processo. Não merece a grosseria do horror gratuito que lhe temos, como se fosse aberração em vez do mais certo dos fenômenos. Receá-la enquanto não é fato, vá lá; receá-la mesmo após instalada é ter descompasso cronológico: assistir a filme de suspense e, na semana seguinte, gritar.

Na realidade não tememos o cadáver de outrem, por mais que ver The walking dead faça parte da rotina. Tememos o que o silêncio da criatura inerte não tem a nos dizer. Tememos o inabrir de olhos a nos lembrar que um dia o sono não vai ser curado pela manhã, que daqui a pouco fica o não dito pelo não dito. E pronto. Acabou. Just like that. Não tememos, pois, apesar de ser natural; tememos porque é natural, real, próximo, fácil e fluido, a ponto de o sujeito poder estar indo conhecer a Inglaterra ou a Índia e isso não o impedir de vupt, morrer. Temêramos menos se houvesse prazos, regras, controláveis burocracias: guardaríamos (como já tentamos) a impressão nem tão sobressaltada de que há tempo, tempo, tempo, tempo para nos deixar seguros. Mas essa igualdade! Essa promiscuidade! Esse absurdo invasivo de saber que o vizinho do 304 foi assaltado, que o boteco em frente foi baleado, que o colega de departamento foi relampagamente sequestrado! Não, essa coisa de morte não respeita a decência. Teima em fingir que não é uma daquelas síndromes escabrosas que só pegam no primo em terceiro grau do amigo da tia-avó da cunhada. Dos outros.

E no entanto, a despeito desse nojinho, cumprimentamos diariamente uma multidão de cadáveres ambulantes. O vizinho do 713 que entra no elevador às 8h da matina já com cara de soldado da SS, o dono da cobertura que crê piamente em sua superioridade sobre o porteiro, o rapaz da baia ao lado que se ufana de nunca ter lido um livro na vida, o ascensorista com olhar era-do-gelo que só acredita em ir empurrando com a barriga, a cliente que só economiza para dois objetivos: plásticas sucessivas e um túmulo grandioso, o filho adolescente da sócia que passa os dias batendo ao vivo e bullyiando pela internet, a mãe dos gêmeos para quem é a mesma coisa se os moleques jogam Fanta Laranja no seu colo, quebram a bandeja na cabeça um do outro ou se atiram na turbina do avião. Pessoas que desistiram, pessoas que nem tentaram, pessoas que foram convencidas a respeito de um “nada” coletivo, pessoas que nunca amaram, pessoas que nunca quiseram ser amadas, pessoas tão possuídas de raiva que são raivas com cara de pessoas. Horror, o verdadeiro horror: cada um de nós vê, sim, gente morta.

O tempo todo.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Na geladeira

Outra do livro de Moacyr Scliar. Na notícia-mote do texto em questão, contou-se que Amélia Pires, senhorinha de oitenta anos, interrompeu o sonho de conseguir vaga no curso de Administração da Universidade de São Paulo (para o qual já prestava vestibular havia uns bons anos) a fim de comprar... uma geladeira. O sobrinho lhe emprestara a grana de inscrição no vestiba, mas não teve jeito de fazer depósito na poupança imaterial; a carência de conservação brotou urgente, pragmática, e o dinheiro foi devidamente investido na primeira parcela de um refrigerador novinho. Pena. Pena que a realidade nem busque a gentileza de disfarçar o recado simbólico: no frigir dos oitenta anos, manter acaba invariavelmente levando a melhor sobre o jogar-se. Tolera-se o coração subnutrido por mais três ou quatro tempos, contanto que nossa despensa externa esteja de tanque cheião.

Veja-se que não está em mim criticar a vovó; ao contrário. Solidarizo-me inteira à necessidade de adiar um (já adiadíssimo) desejo em prol de uma imediatice que grita, e acho, inclusive, que a atitude foi tristemente responsável. A questão é que sou fã de uma calculada irresponsabilidade. Acredito no “jeitinho” do bem, capaz de escorregar por entre os vãos do problema investigando a beleza das alternativas, das terceiras vias, criativas sem prejuízo moral. Acredito nas fadas do meio-termo, nas boas bruxas da invenção, nos sacrifícios que só se reservam extremos para os casos extremos. É evidente que desconheço a situação financeira de Amélia Pires; suponho-a quase extrema, já que dependeu de ajuda do sobrinho para cobrir a despesa extra, pequena embora. Não tão extrema, porém, a ponto de inscrevê-la no time da fome: a senhorinha tem casa, sonho invencível de estudar na USP – o que implicita um certo acesso a livros e apostilas – e comida suficiente para ser ameaçada de morte pela geladeira imprestável. Provavelmente Amélia vive de aposentadoria ou pensão salário-mínima, bastante apenas para o trivial das contas, compras e remédios, sem possível extravagância. Muito bem. Assumindo seja assim, o que eu fazia? Tudo, creia-se; tudo antes que a faca no pescoço me dissesse “escolhe” entre a contingência e o projeto. Não me rendia sem amofinar o sobrinho por mais um dinheirito de empréstimo, sem chatear o banco por um help humildezinho, sem empenhar uma aliança ou anel de grau, sem aprender a fazer bijus com material reciclado para negociar na vizinhança, sem pedir uma força na venda do material reciclável da vizinhança, sem pedir uma ajudinha de custo ao pessoal da igreja, sem vender a linha fixa, sem vender o celular (nem vem: todo mundo tem celular), sem pesquisar brechó que se interessasse pelos guardados vintage. Ah, mas é uma senhora de oitenta anos. Sim: uma senhora de oitenta anos que queria (ou quer) passar meia década na melhor universidade do Brasil, cursando as pedreiras de Administração. Jura que ela já não saberia se as outras oito décadas fossem obstáculo à teimosia renhida de um caçador de sonhos?  

Não sei onde anda hoje a dona da geladeira, mas vai um recado. Desiste não, Amélia. Invente, tente; bola pra frente. O tempo, que nunca é muito – e tendemos a acreditar que seja menos muito para os vivos há muito tempo –, exige de nós comida bem conservada e imperecida para a conservação do corpo perecível, porém exige, sobretudo, memórias cheirosamente frescas e suculentas para o trecho que não perece. Vá fundo no que é guardado onde assistência técnica alguma põe defeito ou dá jeito. Nada de achar bonito não ter o que comer, mas nada também de largar-se esfaimada ante a conformidade irritante dos fatos.

Só produzindo outros fatos, Amélia, para a gente ser mulher de verdade.

domingo, 11 de novembro de 2012

You've got (no) mail

Romeu e Julieta, por exemplo. Quer ilustração maior da bodega que pode dar uma mensagem desrecebida? Todo mundo sabe, há gerações, que o perrengue na vida do casalzinho não foi briga de família – foi ausência de banda larga. Foi tropeço de comunicação. Um bilhete extraviado e pumba, eis um Romeu perdidinho de Montéquio Silva, tão surpreso com a dor espantosa que não houve tempo de criar medo. Matou-se, o gajo; faltou-lhe paciência de saber que sua solidão era falsa. Porque nada acompanha, nada consola, nada resolve, nada esclarece mais do que o verbo, o bem empregado verbo. No vazio do verbo, na viuvez da palavra desaparecida, morrem universos inteiros – esperanças atrofiadas à míngua de informação.

Entrei nessas considerações por estar folheando um livro de Moacyr Scliar, Histórias que os jornais não contam, no qual o autor parte sempre de determinada notícia pitoresca para uma recriação bonitinhamente ficcional da coisa. Uma dessas notícias, de um dezembro de 2007, é bem a seguinte: “Um cartão de Natal com um desenho colorido de Papai Noel e uma menina, postado em 1914, chegou a seu destino na cidade americana de Oberlin, no estado do Kansas, depois de ficar extraviado durante 93 anos. O cartão, datado de 23 de dezembro de 1914, tinha sido enviado a Ethel Martin, de Oberlin. Ethel Martin nunca chegou a ler a mensagem de Natal. Ela morreu antes de receber o cartão”. Verdade que nada nos autoriza a supor que a destinatária tenha vivido com um grama a menos de contentamento por causa de uma tão centenária demora. Pode muito bem, não pode? ter sido o tio-avô que enviou recado de cortesia indiferente, a colega de classe que repetiu o postal com a classe inteira, a ex-professora de piano que resolveu saudar antiquíssimos alunos. Mas vamos que o buraco no coração fosse mais embaixo. Vamos que o remetente envolvesse uma única amiga de colégio interno, que faleceu de desistência aguda ao ser ignorada por sua última esperança social. Vamos que a mensagem viesse das mãos de um futuro empresário, o qual assistira à voz da menina no coro da igreja e caíra seduzido pelas possibilidades de turnê. Vamos que – como prefere a deliciosa leitura de Scliar – o cartão trouxesse o “eu te amo” do primo que a moça exclusivamente amara, do primo cujas notícias não soubera mais, antes nem depois do casamento (infeliz) arranjado com um “bom partido”. Vamos que o alô sumido, o Papai Noel desencaminhado, fosse quanto bastasse para desviar iluminantemente o existir duma criatura.

Melhor ou pior – normalmente pior: nunca saberemos. Nunca saberemos se aquela página de declaração, aquela, tão caprichosa de letrinhas de jornal, perfumada de flor e entrega, teria surtido efeito se houvéssemos vencido o pânico de deixá-la numa mochila específica. Nunca saberemos se aquele currículo, aquele, focado na mais aguardada empresa, teria nos conseguido uma entrevista se o houvéssemos entregado ao contratante que cursou a mesma faculdade nossa. Nunca saberemos se o e-mail não enviado nos abraçaria de novo ao velho companheiro de fuzarcas na escola. Nunca saberemos se o testamento não escrito estenderia ao sobrinho a exata mão antes do fim do poço. Se o rabisco não pregado na geladeira traria o perdão fundamental, interrompido pelo acidente. Se o torpedo não digitado voltaria com outro fim de semana. Se a garrafa não atirada devolveria outra vida.

Somos todos também, por erro ou acerto, a carta de convocação que não chegou.

sábado, 10 de novembro de 2012

A educação pelo belo

Faz 253 anos que um 10 de novembro deu à luz Friedrich Schiller – poeta e filósofo alemão que conheci como autor dos versos transformados por Beethoven na minha tão favorita “Ode à alegria” (música de festa e força que, em lugar da “Marcha nupcial” tradicionalzona, deslizou-me de branco até o altar). Qualquer ser humano capaz de parir uns tais versos sobre a alegria deve ter, no mínimo, engravidado de um universo. Pois Schiller foi fecundado de pelo menos dois. Bom romântico que era, manteve também um caso perpétuo com a formosura das coisas – e, em suas Cartas sobre a educação estética do homem, ao filosofar decepções quanto à violência da Revolução Francesa, deu o pitaco definitivo para corrigir o desastre: só é possível elevar o caráter moral de um povo tocando antes suas almas com a beleza.

Não preciso dizer que concordo com o poeta, que mais do que concordo com o poeta, que pretendo ir com o poeta ao Ministério Público a ver se implantamos a ideia como obrigatória. Se implantamos a beleza como obrigatória. Convenha comigo o leitor: há possibilidade, a mais tenuamente remota, de alguém ser amaciado a ponto de receber os primeiros fundamentos de gente – senão pela beleza? Beleza é ar para as fibras, é aragem para o solo, é procedimento mais inicial para qualquer pretensão de cultivo. Quem persuade o bebê a aceitar a devida nutrição, além do aveludado e perfumado do seio? Quem convence a criança inquieta a receber a noite, a abraçar o sono, além do acalanto modulado pela suavidade da mãe, ou da literatura de encantos despertados pela voz do pai? Quem nos mete mais graça no corpo do que a visão das bailarinas, das palmeiras e dos cisnes? Quem nos faz mais receptivos ao ideal do que o encaixe perfeito dum bom discurso? Quem nos torna mais empáticos que a poesia? Quem nos bota mais modestos que o oceano? Mais serenos que cheiro de chuva? Mais ternos que parto de bezerrinho? Mais tolerantes que ópera?

Não falo da beleza condicionada a preços e consumida a prestações, beleza de plástico, beleza de quatro gigas ou quatro rodas, criada em laboratório para seduzir a horda dos não corretamente sensibilizados. Falo da beleza que é anterior à vontade, que é a habitante mais nativa de todas as terras, que só escorrega da natureza para residir nas inteligências, nos amores, nos atos, nas histórias, nas artes, nas culturas. Falo da beleza inencontrável em shopping, divorciada de quaisquer cobiças nossas, pura e solene em si mesma, moradora do acaso mas visível de propósito. Essa, só essa beleza imperecível amacia a gente para ser gente como o martelinho prepara a carne para acolher tempero. O convívio com a beleza nos amamenta de tamanha fartura que sobra pouco dos instintos primários, a parte besta-fera a ser eternamente engaiolada de humanidade. Humanidade é, enfim, nada mais que isto: o máximo de beleza acolchoando a azulejaria de lixa com que nascemos.

Humanidade é amar no outro o que pode polir nossas garras originais de fábrica.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Recém-nascendo

Criancinhas são boas, dizia Quintana, porque “hão de escutar com renovado encanto os versos mais sovados, os temas mais batidos... Parece que não é para outra coisa que surgem as gerações. [...] Graças a isto, nós, os colunistas, nunca nos veremos na contingência de parar de escrever, porque sempre haverá recém-nascidos. Recém-nascidos de todas as idades”.

É fato dos fatos. O mundo que a esta altura já nos anda manjadíssimo de truques – a nós, os adultamente impedidos de arregalar-nos diante da moça que levita no show, da coleção de borboletas que voa da manga do mágico, do pé de feijão que espichou dois centímetros desde ontem à noite, do herói ex machina que irrompeu na tela do cinema – é o exato mundo que ressurge ali na esquina puro e fresco, muito pronto a seduzir novas carnes. Sempre haverá presas de ingenuidade deliciosa: estagiários maravilhados com a primeira reunião de cafezinho, professoras sedentas na expectativa das primeiras turmas, risadas dispostas a entregar-se por velhas anedotas, amores aptos a confiar na perfeição de outros amores, bracinhos de filho estendidos inteiros a quem talvez os tenha, desta vez, aceitado. Sempre, para alívio das nações, existirá a viabilidade de contratos mais recentes. Sempre a vida há de pilhar um público-alvo.

E nós, os adultamente retirados da lista VIP de promoções? os tão calejados, tão experimentados, tão seriamente vividos que parecemos aposentados de mundo? os que, nos gabando do conhecimento estocado, suspiramos tédio? Pois nós – nós que suspiramos tédio e olhamos em volta como se fosse razão de medalha – bem corremos risco de os recém-nascentes nos devolverem ao precipício. Uma vez estacados em nossa desistência, em nosso cansaço, em nossa ruminância, viramos pedra do caminho, búfalo empacado no meio da possibilidade alheia. Viramos iceberg no meio de tanta navegação deslumbrada. Ou a gana das outras vontades nos atropela, ou o empedramento das nossas as contém. Anyway, desastre. Fazermos então como? recém-nascermos; muito, em tudo e sempre. Fluirmos. Seguirmos com a banda. Seguirmos com o bando. Fingirmos diariamente a verdade: que somos feitos da mais formidável inexperiência.

A despeito dos 25 anos de bom casamento e bom sexo, ainda engatinhamos naquele trecho onde mora a fantasia secretíssima do outro. Apesar das seis décadas de apreciação musical desenvolvida, ainda somos bebezolas em concerto para fagote, dança tribal do Congo ou baile funk. Muito embora residentes por 820 séculos na mesma cidade, ainda não acabamos de ser alfabetizados nos dotes de seus quarteirões: hoje uma nova feira de artesanato, amanhã um atalho que se abre indecentemente para o oceano, semana que vem um restaurante estreado como filial de Xangri-Lá. Não abrimos os olhos para todos os livros. Não fomos educados em todas as frases. Não sentamos no colo de todos os filmes. Não mamamos em todos os museus, castelos, teatros. Não atiramos esperanças a todos os nossos papais noéis. Não rezamos todos os nossos pedidos. Nem agradecimentos. Não lacrimejamos (infelizmente) todas as dores. Não nos encantamos bastante. Não soubemos bastante. Não fomos bastante. Parte nossa é inevitável feto. Parte nossa – ninguém melhor que Guimarães Rosa o diria – é eternamente a que por enquanto. 

Sejamos, com gula novata, o teimoso por enquanto. Que nada mais nos salva tanto do era uma vez.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Obscenos

Não li e provavelmente não lerei Cinquenta tons de cinza (nenhum motivo senão falta de tempo e preferência incontornável por enredos do século XIX). Entendo, porém, a celeuma criada em torno da trilogia. Pelo que sei, é obscena. Livremente obscena. E isso, muito exatamente isso, é o que anda faltando a realidades acostumadinhas a serem sexuais, a serem não raro pornográficas, mas de jeito mais histérico e exibido – ou o contrário: abafado e opresso. Gritada ou veladamente pornôs que andem as rotinas, nem por isso são obscenas. Que obscenidade, mesmo (não a falsa; não a que escandaliza solteironas de Jorge Amado; não a grosseria do gesto que o atacante faz para a torcida adversária), caminha na corda bamba do mistério e do despudor, do entregue e do escondido, da minissaia safadjenha sob laço de fita e Mona Lisa smile. Obscenidade, como a vejo, é a alegria do encontrar sem a vulgaridade do perder-se. É o sério namorando o solto, a risada que provoca sem avançar decibéis na descompostura, o umbiguito que se oferece na transparência sem presentear com pacotão de nudez. Obscenidade é coração de porta entreaberta como apê de novela do Maneco – convidante do vizinho sim, em festa permanente, mas limpa de desgoverno promíscuo.

Faz-se pois urgente, por motivo de vida real e imediata, que sejamos obscenos. Livremente obscenos.

Ninguém insistirá em me mal-entender julgando que estimulo imoralidades, e logo verá que falo de algumas vezes deixar garfo e faca dormidos no prato; de algumas vezes cair de lábio e dente na coxa de frango, em degustação sem fronteiras e fome zumbi. Verá que nos mando atacar uma pera ou melancia como à última fonte do Saara, vampirizando-lhe o caldo a ponto de escorrê-lo no rosto – esteja-se ou não sob a análise do paquera. Verá que penso em triunfar de saia florida no salão, sendo aliciada pelo ritmo como se não houvesse público ou amanhã – saibam-se ou não os passos previstos na rumba. Verá que defendo um ou dois esquecimentos de regência, três ou quatro desaforos à concordância, cinco ou seis deboches de cacófato e gerundismo, sete ou quinze fugas desabaladas de paralelismo. Verá que zombo dos exagerados cotidianos que sentem culpa inconfessável quando mudam de cadeira ou de esquina. Verá que nos incentivo a pingar descuidos (seguros, calculados) no meio das ansiedades enjauladíssimas. Verá que faço o elogio das preferências alegremente impolíticas (aqui nem todas minhas): assisto sim novela, leio sim romance de banca de jornal, conheço sim os bebebês, canto sim as músicas da Disney, adoro sim samambaia na sala, namoradeira na janela, pinguim na geladeira, Dunga no jardim. Verá que acho sexy no úrtimo misturar estampas com coragem desavergonhada, mesclar decorações com piração abusada, assumir declarações com candura inusitada, reunir amigos de várias plagas sem preconceito ou certeza.

Livremente obscenos. Sentindo ternura pela gente mesmo pra não perder a dureza.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Histéricos

Outra da Revista, desta vez pinçada no “Entreouvido por aí”. Eis que uma mulher foi flagrada declarando para outra: “Eu não posso ter filho, sou histérica”. Ri, evidentemente, mas me assombrei do tamanho acerto filosófico que o lapso cômico produziu. Verdade que os estéreis não podem gerar menino; quantos histéricos, entretanto, sabem fazer viável a existência gerada, ladrilhando-a de uma paz mínima, de um conforto emocional rudimentar? Histéricos, se têm a fertilidade possível, sofrem da esterilidade prática de quem vive sem doçura que torne o terreno próprio para cultivo.

Porque vejamos. Por pouco enervados que sejam os pais, há filhos de alguma forma isentos dos estresses de abandonar o útero, de recepcionar uma cólica ou um dente, de administrar uma fome ou uma assadura? Principiar a viver, com todas as suas febres, é necessariamente traumático; em conseqüência, crianças precisam ser nascidas para quem as saiba consolar da aventura dolorosa, precisam estar na equipe que mais serena e eficientemente lhes faça pit stop durante a corrida, em vez de se afundarem em caos atarantado. Pais são as almofadas acessíveis, os berços principais, as incubadoras de personalidade futura, os modelos eternos de civilidade, os engenheiros das fundações. Se não erguem o prédio, fornecem ao menos o prioritário dos cimentos; se não desenham o projeto, providenciam papel limpo e fresco; se não têm a autoridade de esculpir, no mínimo fazem cada generoso polimento e cada acolchoado de embalagem. Pais histéricos dançam na incapacidade crônica de conciliar o equilíbrio de suas obrigações com o extravasar alucinado de seus egoísmos.

Já que histeria como estado de espírito, e não situação clínica, é sim egoísmo. O superior egoísmo de espezinhar a dor do outro com o escândalo das próprias dores. Histéricos não ouvem, porque estão embevecidos na autoescuta de reclamações infindas. Histéricos não acalmam, porque se encontram mais ocupados em convencer os filhos a não os tirarem do sério. Histéricos plantam culpas, porque persuadem a prole de que ela, e só ela, pode ser responsável por suas enxaquecas. Histéricos economizam conselhos, porque trocam a suavidade que acolhe pela reação que grita. Histéricos afastam. Histéricos assustam. Histéricos são crianças birrentas superdesenvolvidas que não dão direito de resposta ao mundo. Histéricos não param de retrucar para ouvir as perguntas.

Histéricos não são terra onde se plante gente. Corre-se o risco de a espécie (a) vingar.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Foto de marinheiro

Engraçadas as nossas lentidões. No último domingo, o tema de capa da Revista global eram fotos: a profusão desesperadora de fotos atuais, a democracia narrativa da imagem, o surto de fotografismo que leva o cidadão comum a não mais almoçar um frango com quiabo sem tascar o penoso no Instagram. Rolou, claro, o debatezinho básico entre as delícias do registro pá-pum, acessível a todas as fomes, e a beleza antiga dos retratos-privilégio, tão mais amados quanto mais únicos, árduos, relíquios. De repente me vem a fala da historiadora Karen Worcman: “Toda essa tecnologia é, agora, uma ferramenta de democratização e de banalização da imagem. Cabe recuperar, no meio dessa confusão toda, esse papel do sagrado, da ‘foto de marinheiro’”. Embatuquei cretinamente. “Foto de marinheiro”. Há de ser expressão idiomática que desconheço, não, tio Google? Tio Google garantiu que não; nenhum dos links retornados sugeriu a explicação poética que eu já alinhavara – a de que uma fotografia tirada ou recebida por homem do mar seria eternamente adorada por quem fosse ou quem ficasse; seria monumento à saudade na meiuca das tormentas, consolo por entre as viagens, abraço e beijo possíveis no intervalo das missões. Seria o sol, o sal dos amantes, filhos e pais longínquos. Prossegui nessas doidas hipóteses até me dar conta de minha piração sintática. “Foto de marinheiro” não era o ato de capturar a estampa do marujo, nem de lhe pôr na carteira uma lembrança de namorada, e sim de vestir-se (ou ser pela mãe vestido) com roupinha náutica para a posteridade familiar – coisa daquelas eras em que todo o clã ia ao estúdio fotográfico proceder à cerimônia de um registro de luxo.

Ri da distração gramatical, mas permaneço adepta da primeira explicação. Fotos de marinheiro não são só raridades de infância, ou congelamentos de uma determinada fase, determinada festa, determinada fresta no tempo que não lembramos – ou lembramos sombreadamente, mal e mal. Fotos de marinheiro não precisam ser raras; devem sim, independentes de toda rapidez e acesso (qual marinheiro de hoje não receberia cópia instantânea da família pelo Face do celular?), ser caras e caríssimas. Devem ser clicadas com a solenidade carinhosa de um pai que gera memória salvadora para o meio do oceano. Devem ser, se bem que fáceis, escolhidas com a precisão do filme de doze poses; se bem que frequentes, celebradas com a ênfase do último abraço no porto; se bem que abundantes, cuidadas com exclusividade de relicário. Sem a promiscuidade dos fotoelogios a cada fio nosso de cabelo, sem a vulgaridade da exibição excessiva de nossos prosaísmos. Foto é poesismo. É o aprisionamento, em âmbar, do inseto que viraria fóssil. É a jaula visual que emoldura em beleza o que viraria minuto. Não foi feita para o banheiro do shopping, não foi feita para ostentação de bandido frangote com fuzil, não foi feita para o tolo e esquecível, o constrangedor e arrogante. Foto é a imagem convertida em reconhecimento, consagrada, sagrada. De algum jeito sagrada. Porque tinha o cheiro da viagem a Cabo Frio, porque armazenou a flor dada pelo paquera, porque nasceu do primeiro olhar ao Castelo da Cinderela, porque conservou a primeira palavra do inesperado caçula, porque guardou o capelo que você jogou na formatura e se perdeu no salão, porque pegou a expressão do marido quando você contou de um mais inesperado caçula, porque manteve arrumada a mesa daquele melhor aniversário, porque sacou da cartola o gosto da broa de milho que se comia o dia inteiro.

Fotografar (para o que foi feito) não há de outro tipo: está em hospedar amostras de vida dentro duma foto de marinheiro.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Paraísos de bolso


Outro dia (mais conhecido como ontem, se muito não me engano) foi o Dia do Inventor no Brasil. Não o celebrei por aqui, e vim agora redimir-me à base de todos os devidos buquês e bombons. Acontece que essa rapaziada inventora ergue boa parte de nossas bem-aventuranças terrenas – e nem vos digo as maiores, tão básicas que já as sentimos pedaço do corpo: ler textos impressos, viajar no subsolo ou nas estratosferas, trocar três dedos de prosa por celular ou e-mail. Falo das felicidades anãs, inesperadas e lindas porque houve um ser humano, neste mundão sem porteira, capaz de ter a gentileza de sarar sofrimentos mirins.

Minha mais recente maior-pequena-descoberta-de-todos-os-tempos foi o spray tirador de limo. Creiam: supermercadeando por mero hábito, o pensamento não se lembrava de conceber que houvesse um produto para além do arco-íris. Meio por falta de vibe, meio por temor de que uns tais líquidos corrosivos estuprassem a cor dos azulejos, nunca pus as fórmulas mágicas no carrinho. Um dia pus. Deu-me o clique final contra aquelas maldições escuras, aqueles mofos repulsivos que tomavam os rejuntes do banheiro, sarcásticos e invencíveis mesmo se um Anderson Silva os torturasse de sapólio e bucha meses a fio. Pois arrisquei, ataquei de tira-limo e em dez minutos vi o nirvana. Não é que a bolorada toda dissolveu-se num olhar boquiaberto? Assombrei-me em definitivo com a facilidade de ser feliz pela mão do engenho alheio. A gente é, em cada bocadinho, semente voada de outras terras .

E tantas pequenas maravilhas. Caneta de quatro cores! quem devo beijar em honra da caneta de quatro cores, que tornou o ato de lançar notas bimestrais – vermelha, azul, vermelha, vermelha, azul – ginástica facinha de um só polegar? Puxador de fecho eclair! quem o gênio que amorosamente ampliou e decorou os puxadores de fecho eclair, fazendo-os um primor de acessíveis à primeira abordagem? Clipes! céus, os clipes! miúdas máquinas do mundo, design prontíssimo a brincar de base ou de anel, de botão ou pregador, de suporte de folhinha ou elo de pulseira, de juntador de bloco ou (s*** happens) puxador de fecho eclair. E os abridores de torcer tampa difícil! E a almofadinha de acolchoar maçaneta rebelde! E os fiapos vermelhitos de rasgar embalagem ranzinza! E os suportes portáteis de papel-toalha! E as pastas coloridamente elásticas! E o braço erguível de cadeira no cinema! E os pedais de lixeirinha! E a espiral do calendário! E as divisórias de bolsa! Corretivo! Quentinha! Pen drive! Cabide! 

O luxo, o supremão do luxo: deixar os filhotes de outras sabedorias lhe frustrarem a onipotência.

domingo, 4 de novembro de 2012

Matemáticas

“Como eu vejo os problemas de Matemática: se você tem 4 lápis e eu tenho 7 maçãs, quantas panquecas cabem no telhado? Resposta: roxo, pois os extraterrestres não usam chapéus em dias de ameixa dourada.” Surgiu-me essa bobagem no Face, eu ri, ri, enxerguei-me lindamente e compartilhei. São velhos os meus não-entendimentos assumidos com toda espécie de numerações; lembro-me da revelação nítida, da epifania: eu com seis anos inocentes, primeiras continhas sobre a carteira de escola e o sentimento desgostoso, o pensamento ressentido. Ali, aos seis brevíssimos anos, previ tudo. Eu odiaria Matemática. Eu nascera para odiar Matemática. Para morrer de tédio entre seus cálculos esfarelentos, limitados à secura da resposta, quando em volta havia tanto que ler, rabiscar, colorir sem tão exatas fronteiras. Números são ditames de mundo, bem sei, não discuto; um ser humano há que ser capaz de quantificar suas áreas, de compreender seus lucros e déficits, de proporcionar suas substâncias, de parcelar com inteligência suas já feitas burradas no cartão de crédito. E há que começar cedo. Mas a consciência de agora não consola a revolta dos seis anos coitadinhos, indiferentes aos trocos e porcentagens futuras, chafurdados somente no encantamento líquido das letras e cores. Não consola a pressa de alegria, de opções, que se tem na fase das primeiras aventuras. Infância é a lua de mel com o planeta. Infância não é estado de espírito matemático.

Cresci meus seis anos, noivei por todo o sempre com a leitura e expandi o inconformismo ante problemas de lápis e maçãs, que se complicavam, perversos, e definitivamente não eram da minha conta. Mais que amofinantes, os números apareciam rijos, rígidos, tesos como guardas da rainha, sem dar direito a uma só piscadinha no resultado: raiz de três não era raiz de três sobre dois, 4,6 não era 4,7; horror injusto. Sem diálogos nem meios-certos. Com as letras não. Vinham escandalosamente despudoradas, flexíveis de dança, torcíveis, manipuladoras, vestidas de olhos de Capitu – delícia de meninas más. Por menos que se fosse agudo na resposta, sempre havia a enrolada básica, as palavras-chave, bonitas, cheirosas, e o psor ou psora caía seduzido(a) pelo mais aproveitável trechinho. Não se sabia determinado fato, determinado motivo? dava-se jeitito de contar tudo, com disfarces, desde “no princípio era o caos” até o fim da Segunda Guerra: eis resolvido. Alguma ou algumas partes salvavam a nota. Sem fórmulas, só 4,7 gramas de lábia e outros tantos de básico entendimento. Mas os números, os números incorruptíveis – quem os persuadia a descer da pose para o auxílio das habilidades desvalidas?

Uma só parte das exatas tinha menos ruins encantos: questões de geometria. Era a literatura da Matemática, mais solta, mais bailarina. Interessavam-me (dentro do estritamente possível) a visualização espacial da coisa e a exigência de criatividade; não se fazia obrigatório que sua solução passasse pelos dados que o gabarito escolheria, e essa alguma – melhor que nenhuma – liberdade chegava perto de me enternecer. A chance da, diria minha irmã, matemágica: brincadeira com os elementos disponíveis a tal ponto que se vencia a resposta pelo cansaço. Milhões de xizes e tangentes depois, a cuja aparecia, exausta do pique-pega, sem mais formulações onde se escondesse. De certo jeito desengonçado, eu curtia. Curtia ter ocasião de pegar o triângulo lá fora e, sob depoimentos irrefutáveis de alturas e bases e somas de ângulos, obrigá-lo a confessar.

(Not anymore. Espanta-me que eu tenha sequer já passado os olhos sobre o que, um dia, estava tão chocantemente íntimo. Matemáticas, para indisciplinados confessos, são aquilo: o fetiche do cara abrutalhado que se admira na telona, mas que nos botaria repulsa delicadinha num esbarrão de sala de jantar.)