domingo, 7 de agosto de 2011

Navegar é preciso

Não estaríamos aqui – eu e você postando, você e eu comentando – se não fosse um nosso camarada: Sir Timothy John Berners-Lee. Há exatíssimos 20 anos, o sujeito colocou no ar o website número 1, inaugurando o quê, o quê, o quê? esta ime(eeeeeeee)nsa rede em que vos falo. Esta World Wide Web a quem damos os primeiros bons-dias e engolimos com rosquinhas no café. Esta internet que levamos para passear, que levamos ao médico, que levamos no bolso. Com quem acordamos contentes e dormimos abraçados. Estas veias e artérias em que circulam dados, pedidos, beijados, confessados, fotografados, suspirados; em que correm afetos e saberes, sangue do mundo.

Cresci sem internet, perfeitamente feliz. Mais perfeitamente feliz prossegui, depois que eu e ela nos entrelaçamos. Louvo as delícias do tempo em que não a tive e as vantagens estrondosas de a ter. Igual gratidão. Folheei com gosto a Mirador Internacional e folheio encantada a Wikipédia. Encomendei CDs de amigos viajantes e encomendo tudão de lojas virtuais. Minha adolescência se esbaldou entre correspondentes de papel e chats do UOL. Mas o e-mail – ah, o e-mail! – me faz beijar os pés de Sir Tim numa alegria sem precedentes. Nunca, nunquíssima, nunquinha consegui ouvir toque de telefone sem estremecer de desgosto. Tim me salvou do trim; e-mails reuniram a paixão das cartas à urgência dos (humpfff!) telefones, e meu universo comunicativo entrou na era de Aquarius. Depois vieram os blogs: nirvana.

Sim, sim, os azedos me lembrarão que não estamos apenas num palco das Grandes Navegações. Web tem monstro marinho que só: pedófilo montando clubinho, hacker invadindo conta, mail engabelando usuário, reputação destruída no YouTube, bullying feito no Orkut, intimidade violentada no MSN. Tem? Tem. Como tem pedófilo, ladrão, estelionatário, fofoqueiro, bully, chantagista, ressentido aqui fora. Como tem ONG, site de educação, grupo de filosofia, venda de ingresso, reencontro de parente, formação de casal, reunião de turma lá dentro. Como a TV faz campanha e mostra desgraça, como a laranja vai contra a gripe e a favor da gastrite, como o futebol cria músculos e destrói joelhos, como a arte marcial dá equilíbrio e mata, como o chocolate dá barato e engorda, como o (humpfffffff!) telefone salva e vicia. Internet é gente, mundo é gente. Ficam com o uso que a gente dá, jogam no lado em que a gente põe, têm a cara que a gente tem.

Minha internet é a minha cara. Um bairro de mim, cheinho de Google, Wiki, add friend, responder, encaminhar, curtir, aceitar depoimento, compartilhar notícia, escrever comentário, publicar postagem. Moro dentro dela tão bem quanto fora, cá ou lá eu igualmente “me sou”. Porém só tenho a agradecer ao Sr. Berners-Lee pela “second life” em que tudo vale a pena se a vida não é pequena.

Nós, à rede, o perigo e o abismo demos. Mas nela é que (também) espelhamos o céu.

sábado, 6 de agosto de 2011

Da injustiça dos justos

Professores grevistas foram à minha escola estadual conscientizar os alunos sobre a justeza da paralisação. Educadissimamente, pediram para entrar nas salas e explicaram, com paixão e motivos, os problemas de docentes e demais funcionários da rede. Deram show de sociologia e os alunos aderiram, comovidos. Muito bem. Lá pelas tantas, percebeu-se que uma representante da coordenadoria estava presente. Não entrara incógnita: tinha-se identificado para alguns dos grevistas. Também não fez qualquer pressão sobre o grupo, não desmentiu o discurso nem foi deselegante. Pouco interessava. Assim que todos os professores ficaram cientes de sua presença, formou-se o partido do “expulsa”. Já inflamados pelo conteúdo das reivindicações, tentaram tirá-la da sala aos berros de “Você é Sérgio Cabral!”, “Vocês já têm a Rede Globo para dar seu recado!”. Clima barulhento e feio. O que era ferro se quebrou. Toda a razão do discurso inicial derreteu no ralo tão logo se começou a dar tapas de gritos em quem não erguera a voz.

Assim somos: tão justos, tão apaixonadamente justos que moramos na esquina da injustiça. Tão cegamente balofos da verdade que um qualquer olhar torto nos estoura. Tão embriagados de consciência que vendemos por ela o resto d’alma. Tão enamorados de certezas, tão repletos de direitos, tão sábios, tão lúcidos, tão críticos, tão iluminados que somos um perigo. Por amor destemperado às convicções, por urgência fanática de defendê-las, por fissura nas causas incontestáveis, por vontade alucinada, por bondade excessivíssima, somos maus fronteiriços. A muita coragem nos acovarda, a perfeita audição nos ensurdece, o tanto de hematomas nos ergue o braço. As excelentes intenções formam guerrilhas e Darth Vaders. As necessidades de combate tecem bombas atômicas (hoje a de Hiroshima aniversaria). Prisioneiros de mouros, feridos por infiéis, escaldados, sofridos, aprendemos a andar de lança em punho. Tudo ou nada. Live or let die. Encouraçamo-nos, maniqueistizamo-nos. De injustiçados a injusticeiros é um pulo.

Nada como o campo de batalha para nos fazer iguais aos inimigos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Deficientes

Leio na reportagem que animais auxiliam no tratamento e educação de deficientes mentais. Soa estranho. Não o fato de se usarem animais em tratamentos – são remédios vivos, como a própria reportagem os qualifica –, mas o termo que se segue à informação. Deficientes mentais. Por definição, pessoas fisicamente impedidas de apresentar o mesmo grau de interação, julgamento, aprendizagem do dito “cérebro normal”. Loucos, autistas, gente com paralisia cerebral ou desoxigenada no parto. Uma exceção entre nós, em suma. Uma raridade.

Mentira.

Os que apelidamos “deficientes” são simplesmente incapacitados pelo acaso. Incapacitados para funções determinadas, aliás. Um paralítico cerebral que nunca tocará flauta transversa; so what? eu também não. Um portador (palavra horrível!) da síndrome de Down que não chegará a astrofísico – duvido que alguém lá em casa chegasse. Um autista sem meu traquejo social (que já não é grande coisa): pois conheço mais de um com o triplo da memória que jamais terei. A sermos honestos, somos todos deficientes. Uns que jamais cantarão afinado, umas impossibilitadas de se equilibrar no salto, uns estúpidos em coordenação de cores, uns estafermos em matemática. Todos. A tal ponto todos que é mais fácil considerar: ninguém. Carregamos apenas diferentes eficiências.

Deficiente mental, no duro no duro, dessa maneira se escolhe – só há culpa onde há escolha. Os que têm perfeita noção do direito e decidem-se tortos. Os que receberam moral e resolvem-se bandidos. Os que ganharam educação e preferem-se vagabundos. Os que conhecem a lei e matam. Os que conhecem a prisão e voltam. Os que não conhecem fome e roubam. Os que testaram a gravidade e se atiram. Os que se apresentaram à morte e a paqueram. Os que se têm na mão e jogam-se fora.

Deficiente não o é por nascer ou tornar-se vidro. Deficiente é o que era ferro e se quebrou.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Complexo de Liquid Paper

Além dos pôneis malditos que ficam saltitando na cabeça da gente o dia inteiro (e cantarolando, os miseráveis), uma das melhores sacações atuais em publicidade é a campanha “Vai que...”, da Bradesco Seguros. Mais exatamente o filme em que o ladrão leva o carro, mas tem de aturar um Byafra no banco de trás, mandando ver nos agudos de “Sonho de Ícaro”: “Voar, voar/ subir, subir...” – larararará – “Anjos de gáááááááás...”. Ensandecido de tédio, o bandido larga o automóvel no meio da rua. Entra voz vendendo a necessidade urgente do seguro: “Vai que o seu carro não vem com um Byafra cantando...”. Ri horrores.

Revendo o comercial no YouTube, fiquei surpresa com os comentários ranzinzas. Imaginava que a peça fizera sucesso estrondoso, alto índice de gargalhadas, mas tome ranhetice: “tremenda falta de sensibilidade”, “que mau gosto”, “um desrespeito com a preferência musical da classe C” e semelhantes blablás. Eu seria a primeira a concordar com os detratores, se a agência tivesse recebido um não do artista e decidisse empregar um sósia, digamos. Ou se tascasse a música tocando sozinha, como um alarme – capaz de enlouquecer ladrões por si mesma. Ou se expusesse o cantor a uma situação forçadamente humilhante. Nenhuma das anteriores. Byafra – maior de idade, declarante de imposto, carteira de vacinação em dia – não foi logrado, chantageado ou explorado. Participou por livre vontade num filme leve, usou de arbítrio para assinar contrato, ganhou gordinhamente pelo trabalho e se divertiu. Visivelmente, riu horrores. Hábito higiênico, saudável, que tantas vezes nos falta: riu de si próprio.

Ah, mas não pode. Politicorretistas ortodoxos não dormem e não permitem. Fios desencapados, granadas sem pino, politicorretistas vigiam. Orelhas erguidas, focinhos ao alto, politicorretistas farejam. Politicorretistas são a sala asséptica invadida por Tom Cruise em Missão: impossível. Ai que um fiozinho-assim de bom humor sequer pense em roçar a fronteira com a sacanice! Salivam: dispara o alarme. Politicorretistas (só para insistir na metáfora tom-cruisiana) têm alma de Minority report, gana de punir o crime antes que ocorra. No turno deles, não. Ninguém se autogoze, ninguém defenda seus trocados senão excessivamente a sério (MUITO sério), ninguém ouse considerar a possibilidade de talvez sugerir, remotamente, qualquer crítica indireta de terceiríssimo grau a algo parecido com a cultura popular. Não neste horário, à luz do dia, em canal e cena aberta. Até agora ignoro como Byafra não foi preso (embora acredite em homens da SWAT pendurados nas janelas, só aguardando o sinal).

É fato: desprezamos bullying, homofobia, grosseria, preconceito, humilhação, humor porco, “brincadeiras” à revelia – impostas e unilaterais. Mas somos espertos o bastante para catar o joio, virar a cara pro bad guy e não ter medo de água fria. Não precisar arrastar autocríticas de chumbo. Que assim nenhuma ideia que se preze consegue voar, voar.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Vida e obra

Outra de minhas colegas de trabalho voltou (invejinha!) de um tour pela Europa: França, Bélgica e aonde mais os carros alugados podiam levar. Foi ao Louvre?, eu quis saber. Inevitável: ela tinha ido ao Louvre. Mas só vira a Mona Lisa de longe, muito longe, completou. “Um pedacinho de quadro assim” – mostrou a altura de três ou quatro palmos – “atráááás do vidro, e uma multidão na frente, se acotovelando. Desisti. Acenei do meu lugar, tchau, Mona Lisa!, e fui ver outras obras menos badaladas, igualmente importantes.”

Nada mais ilustrativo de uma entrevista que me impressionou há semanas e fatalmente recordei. Ilustrativo por comparação. No blog Duo Postal, o artista plástico e designer gráfico Denílson Baniwa, nascido e educado na aldeia de Baturité, comentava a respeito de suas primeiras referências: “Na vida indígena a arte é cotidiana. Música, danças, esculturas, pinturas representativas, confecção de utensílios e trabalhos manuais são coisas do dia a dia. Quando tive a oportunidade de conhecer o sentido de arte, a aura de uma tela ou escultura, percebi que muito daquilo que se fala nas escolas eu já tinha aprendido na vivência indígena”.

O coração esfarelou-se. Vergonha. Vergonha por nós, crescidos em outra e tão menos civilizada aldeia. Vergonha por nós que ensinamos: arte purinha é coisa de maternal, de infância ainda inábil para geografias e cálculos, que por isso gasta o tempão excedente entre pinturas a dedo, gizes de cera, lápis de cor, colas, tesouras, lantejoulas, purpurinas, massinhas. Estaria muito bem essa formação artística, se não sumisse de nós assim que os professores consideram nosso dedo suficientemente gordinho e decretam: hora de ir ao que interessa. Saem mosaicos, entram matemáticas, entram sintaxes, saem dobraduras. Arte vira desocupação, carga extra, supérfluo, eletiva, sobremesa. Um bibelô na vida. Um penduricalho do cotidiano. Uma tia que se visita (olhe lá) na véspera do Natal. Não se encaixa em nós, não nos encaixamos nela. Espanamos obras para os becos; outras, escolhemos para os altares. Varremos para feirinhas de artesanato ou promovemos ao Louvre. Desde que não fiquem no caminho. Desprezamos, ajoelhamos; não tropeçamos. Não abraçamos.

Quando corais forem feijão-com-arroz de colégio e não projeto “Amigos da Escola”, quando pré-vestibulandos (ou enenzandos) seguirem pro curso com livro de Química num ombro e violão no outro, quando a gente sair da praia e esticar o papo no MAM, quando filhos e colegas tratarem Da Vinci de “Léo” e Beethoven de “Lud”, eu desenterro minha cabeça, destranco a matrícula e volto à humanidade. Desculpe a vergonha que eu passei.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Céu da boca

Qualquer bocado de comida um tantinho mais quente, pronto: ele se pela, magoado. Meu caso agora. Por um almoço engolido sem tempo de assoprar, estou com o céu da boca queimado, suscetível que sou às temperaturas extremas. Chatice. Mas foi só ferir o dito-cujo que comecei a pensar na graça da expressão: céu da boca. Por que não teto, telhado, alto, pico, polo Norte? Por que não metáfora alimentícia – em nenhuma região do corpo seria mais apropriada – como batata da perna, maçã do rosto? Por intuirmos talvez, poeticamente, céu e inferno que daí podem advir?

Crentes na raça humana, limitamos a comparação à primeira parte. Boca é lugar de fazer o paraíso alheio. Não falo de beijo e outras carícias diretas, que se reservam a uma parcela pequeníssima da humanidade. Falo de ser delivery de coisa boa para 100% das gentes. Ser veículo de felicidade portátil, spray de palavra aromatizada.

Boca é correio de voz, nosso cartão de visita, ícone que nos precede. Não carece gasto nem selo, cotas de céu podem vir de telegrama: um parabéns nos últimos dez segundos da véspera, um bom-dia anexo ao sorriso auspicioso, um obrigado que se pendura nos olhos, colado num se-não-fosse-você de reticências felizes. Um te-perdoo que nem se encomenda, um me-perdoa que toca a campainha antes do prazo, um te-amo que chega exatamente no dia. Um elogio dado sem pedido. Um disponha dado sem pedágio. Uma promessa dada em pedaços (capítulos diários de confirmação). Um te-ligo não mentido, um que-linda não aumentado. Uma bronca não imerecida (que nem só de bem-bom os céus se constroem). Em falta de substantivos, adjetivos e verbos disponíveis, interjeições cumprem. Tem melhor cobertor que “alô!” de mãe saindo do fone, melhor afrodisíaco que “uau!” de namorado?

Querendo, a gente monta castelos e põe sol nos dias. Não pode é botar palavra em ouvido alheio sem tempo de assoprar.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O relógio continua

Não, não é afirmação cazuzesca ao estilo “o tempo não para”. É coisa bem mais prosaica. Refiro-me à observação feita pela diretora da escola ao entrar na sala de determinada turma e constatar que o relógio de parede amarelo permanecia em seu lugar, impávido. A professora da classe – um grupo especial, composto pelos repetentes semianalfabetos, que tocam o terror de indisciplina – insistira em colocar o relógio na sala. Para eles terem melhor noção do fim de cada atividade, disse ela. A diretora alertou: vai sumir. Em um, dois dias esse relógio some. Tudo some. Não dou 24 horas para um aluno enfiá-lo na mochila e babau. Vou ouvir reclamações suas. A professora confiou: vamos ver.

O relógio continua!, encantou-se a diretora, semanas depois. A humanidade estava salva.

Eu, espectadora da cena, fiquei entre a festa de salvamento da humanidade e a verificação de seu status medíocre. A humanidade não estava salva porque um menino de escola pública vencera as Olimpíadas de Matemática, confessara espontaneamente um malfeito, voltara à escola para agradecer aos professores sua aprovação em Medicina, defendera o colega de um ataque de bullying. A humanidade estava salva porque deixara de surrupiar um relógio de parede. Não estava salva por superar-se, ir além de si: estava salva por permanecer justamente no mesmo lugar. Não estava salva por se atirar no certo, estava salva por deixar passar um errado. Não estava salva por corrigir seus crimes, estava salva por não aumentá-los. Por não atinar com mais um. Estava salva por negativo. Estava salva por negação. Não marcara a resposta certa, mas ganhara ponto por entregar a questão em branco. Como a definição de açúcar daquela velha piada: “é um pozinho que deixa o café bem amargoso quando não se lho botam”.

Tão mal estamos, ou nos parecemos, que qualquer olho faz rei. Viramos Holandas: nível do mar já é montanha. Congratulamo-nos por não cumprir mais que a obrigação. Comemoramos que um aluno do oitavo ano comece frase com maiúscula, fechamos o clube para celebrar que um do sexto não escreva “você” com dois esses. Entendeu a mensagem da redação? então, que coisa!, pouco importa não haja vírgula ou parágrafo. Devolver a carteira intacta dá notícia de jornal, ceder lugar ao idoso candidata ao Nobel da Paz. Canonizamos o político que declarou fielmente o imposto, endeusamos o prefeito que policiou nossa rua, ajoelhamo-nos ao governador que policiou nosso bairro. Precisa nada: votamos no Fulanílson que “rouba mas faz”. Vamos secos na migalha, glorificamos pelo pouco, pelo básico, pelo óbvio. Vendemos heroísmo por salário mínimo.

Não digo que sejamos – ou que só nos aceitemos – excepcionais. Digo que nos queiramos excepcionais. Que prefiramos ser (como já disse há algumas postagens) tartarugas que dão seu mais no lugar de lebres que ofertam seu menos. Que não nos nivelemos pelo mar, holandamente falando. Que não nos satisfaçamos de ser roupa de andar por aí. Que não nos pechinchemos, não nos compremos barato. Não nos quitemos pela tarifa mínima do cartão. Juros de mediocridade, os mais altos e breves, são cobrados ali na esquina. E o relógio continua.

Cazuzescamente falando.