domingo, 9 de agosto de 2020

Até onde

 Pintura Desenhar Cor - Foto gratuita no Pixabay

Não sou pintora, mas compreendo ou imagino compreender o que queria dizer Delacroix ao afirmar que "há duas coisas que a experiência deve ensinar: a primeira é que é preciso corrigir muita coisa; a segunda é que não se deve corrigir demais". Compreendo e, ao mesmo tempo, fico afogada até as sobrancelhas no excessivo conteúdo dessa frase, que abraça em tão poucas palavras todo tipo de trabalho artístico, de trabalho intelectual, de trabalho humano. Aperfeiçoar é um destino, mas não pode ser doença; é uma condição para os sucessos e facilmente pode derivar nas loucuras. Existe um equilíbrio fino entre a vida e a morte, entre a persistência e o fanatismo, e achar com precisão o ponto de virada é a pedrinha filosofal de nossa espécie toda. Nossa espécie genial, maluca e descompensada toda.

Um filho: nunca está pronto, já que se trata de um elemento dessa espécie – e nós humanos, poços sem fundo, só acabamos de nos construir na morte, mesmo assim por falta de opção. Até onde, então, vai a delicadíssima embaixada de orientar, tolher e corrigir a criatura; a partir de onde se dá o sufocamento e a ingerência por parte de pais dominadores, de Big Brothers que tudo vigiam? Não quisera eu, confesso, estar na pele dos tutores de pequenos sapiens, por ficar já imaginariamente agoniada com o dilema. Em minha condição de não-mãe, sou das menos indicadas para apontar a fronteira, a divisa, porém consigo fazer uma projeção teórica: provavelmente eu me doaria em corpo e alma a incutir no piá o senso do bem comum; priorizaria vorazmente a noção do coletivo, do outro, da vez do outro, da felicidade do outro (com doçura, lógico, que quando a lição é feroz acaba dando no contrário). Fosse isso entendido como uma segunda natureza, creio que me daria por aliviada e tudo que viesse seria lucro. A bondade autêntica, num filho, haveria de ser um sorriso de Mona Lisa em meu quadro: basta-se.

Uma tela, um prato, uma canção, uma escultura – até qual borda de abismo ir, onde parar? Quando se resolve? Quando se encerra? Que critérios decidem se os sentidos estão satisfeitos ou exaustos? Se eu soubesse não estaria aqui decerto, mandaria acenos de uma cobertura em Paris, RYKAH e pleníssima. Mas desconfiar é sempre permitido, e eu desconfio que, como num ato de amor, após o máximo foco e a máxima entrega àquela obra o corpo simplesmente faz o resto – e sabe. O artista apenas sabe, com suas adrenalinas e intuições, que fez o possível; o artista sabe se esteve ali cem por cento; o artista sabe quando não lhe cabe prosseguir, sabe se nele não há nada além, nenhum último recurso de gesto, cor, tempero, acorde. Ainda que não seja sua obra-prima, ainda que a perfeição não seja artigo barato e acessível, foi perfeito dentro das condições dadas. Para além de uma linha, o artista não mais sente, não nota, não percebe; transferiu-se todo, downloadeou-se inteiro; como os outros vão julgar o feito já é coisa que foge à sua jurisdição. Nesse instante, nada resta do artista que não precise ficar para a próxima. 

Um texto: levar até onde? Até o primeiro latejar da cabeça e o derradeiro da ideia. Ter prazo – interna ou externamente imposto – ajuda muito, muitíssimo a inviabilizar o perfeccionismo, o vaivém de frases e termos, a dança de cortes e sinônimos. A demorada toalete do texto vai até a décima segunda badalada: caso encerrado. Entre todos os criadores de tudo, o escritor é talvez o que mais chances tem de aboborar-se na insanidade e trancar-se na torre pelos séculos dos séculos, se não o expulsarem solenemente do feitiço. Consta inclusive em lenda, concebida por mim agora, que relógios só foram inventados para servir de álibi aos (e impedir o assassinato dos) editores que precisavam ir até os romancistas para arrancar-lhes a última folhinha de papel. 

Por sinal, já bateram doze; fim de valsa. Um brinde à minha e à vossa libertação.

sábado, 8 de agosto de 2020

Muita coisa feliz ao mesmo tempo

 Página 14 | Fotos edificio rosa libres de regalías | Pxfuel

Deve também acontecer com vocês o fenômeno de não desejar ter outra vida na prática, mas esparramar-se por outras realidades em teoria. Ao estilo de Alberto Caeiro quando dizia querer às vezes ser cordeirinho, "Ou ser o rebanho todo/ Para andar espalhado por toda a encosta/ A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo". Sabem? Reconhecem o sentimento? Eu me reconheço fundo no coração entornado de Caeiro, que deve ter descrito melhor do que ninguém na Terra a ânsia da experiência múltipla. Em nenhum momento quero não ser exatamente o que sou e fazer precisamente o que faço, porém é quase impossível não projetar em modo simultâneo impressões distintas (por isso mesmo a sede insaciável de arte, que é "uma confissão de que a vida não basta", nas palavras do próprio "pai" de Caeiro – provavelmente o maior exemplo humano, aliás, do que é andar espalhado por toda a encosta). Que outras coisas felizes seria eu não aqui, mas ainda agora, acrescentadas às que tenho e sou?

Eu seria a criança que está vivendo a infância mágica das casas na árvore, regato no quintal, bichos e mais bichos no jardim de flores e mais flores, o dia inteirinho liberto de preocupações de mercado e farmácia, o dia inteirinho empenhado em incursões na floresta plena e exploração de grutas misteriosas. Eu seria a dona de um castelo interminavelmente repleto de cômodos, não por luxo (que não cobiço), mas por estatística: quanto maior o número de quartos, salas, saletas, bibliotecas, maior a chance das passagens secretas que tanto amo, da escada abandonada que gerações não viram, da história emparedada que a todos escapou. Eu seria a vivente da Toscana, tomando o desjejum – e as outras tantas refeições – em meu terracinho com buganvílias, casa feita de pedra, aberta, arejada, banhada de verde em toda a volta, vinho tinto casualmente apoiado ao lado do livro favorito. 

Eu seria a moradora de Lisboa ou do Porto, com todos os necessários derramamentos de tempo para me enfiar num sebo velho, velhíssimo, e demorar-me no garimpo de obras de que nem os próprios autores se lembrariam. Eu seria a artista plástica contratada para murais ultracoloridos construídos com botões no mundo inteiro. Eu seria a vizinha de alguma Disney que, acordando com apetite de montanhas-russas, atravessaria a rua e passaria as doze ou quinze seguintes horas em brincadeira de não haver amanhã. Eu seria a proprietária de uma minicasa fofíssima, equipadíssima e motorizada que sairia em viagem aconchegante por regiões seguras (sim, estou excluindo o Brasil). Eu seria a humana particular de pugs e porquinhos-da-índia terrivelmente amassáveis. Eu seria a fabricante bem-sucedida de bijuterias únicas. Eu seria a residente mais amorosa de Paris, possuidora de um recantozinho como o da Celine de Antes do pôr do sol e frequentadora diária das feirinhas, padarias, livrarias, cafés. Eu seria tudo que é livre, explorador e ensolarado em mim como os rebanhos imaginários de Caeiro, o poeta sem "ambições nem desejos", mas satisfeita e igualmente "nascido a cada momento/ para a eterna novidade do mundo". 

Veja-se: eu me espalho, porém não me desfolho. Não há tristeza em não estar onde não estou, porque as adições, comparadas às subtrações, são infinitamente maiores. O que me rege é um estado de motivação tranquila que nada tem da febre dos apostadores: sob nenhuma hipótese ponho em jogo os territórios d'alma de que tenho a escritura; no máximo brinco em pescaria de quermesse, pilhando ao acaso brindes de vida alternativa que não me fazem falta, mas que só pelo inusitado da presença me fazem festa.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Perfume

Foto profissional gratuita de água, close, cor

"Eu me perfumo para intensificar o que sou", Clarice disse. "Por isso não posso usar perfumes que me contrariem. Perfumar-se é uma sabedoria instintiva. E, como toda arte, exige algum conhecimento de si própria." 

Concordo em gênero, número e aroma; não poderia concordar mais. Até por volta dos 25 anos, é verdade, usei um pouquinho de todas as lógicas de perfume: o que tinha, o que me davam, o que conhecia de a irmã usar, o que servia por simplesmente ser perfume, ainda que no fundo me desagradasse. Usei uns porque significavam outras coisas – cheguei, por exemplo, a ter na adolescência uma fragrância chamada Topázio, não escolhida por olfatice, mas apenas por carregar o nome e a tipologia da novela venezuelana que eu amava –, tolerei cheiros que depois me dei conta de odiar (feito os amadeirados), encarei essências que geravam espirros, passei pelos momentos de alternar entre três ou quatro preferidas. Com algumas havia maior identificação, houve maior persistência, porém a paixão definitiva não tinha havido – aquela alma gêmea olfativa da alegria e da tristeza, do total encaixe, da fusão absoluta.

Até que soaram os sinos, justamente na época da novela Alma gêmea (ora, se não é a mão invisível da cafonice romântica tecendo os fios). O Boticário lançara novo irmãozinho da linha Floratta, já muito minha frequentada e íntima: o Floratta in Rose – atualmente sem o in. Nada tinha o perfume a ver com a novela, mas era engraçado o tecido do título, do fato de as rosas serem importantes no enredo, do fato muito mais relevante de eu amar rosas, adorar rosas, querer engolir de paixão todas as rosas. Intuí que o Floratta in Rose era meu número. Ao senti-lo, tive certeza. E já lá vão quinze anos de um casamento monolítico, fulminante, inderrubável; nunca mais troquei de parceiro, nunca mais comprei outro. (Outro tipo, é claro: basta checar minha ficha corrida no cartão da loja para ver que são litros e mais litros do bichinho por ano.)

O curioso é que tanto o Floratta se fundiu a mim, intensificando-me sem contrariar-me, que quase desde os primeiros tempos já não o sinto. Verdade: não o sinto. Para não dizer que não o percebo at all, sinto-o exclusivamente no instante em que o ponho para sair, e depois não mais, embora todos o notem em mim a qualquer hora do dia. E como cúmulo da impressão de me haver confundido totalmente com essa segunda pele aromática, declaro-me também incapaz de identificar meu próprio perfume em qualquer outra pessoa; posso apontar vários com facilidade, ao andar pela rua – o meu, não. Para meus sentidos ele parece inexistir em separado de mim. Tão amalgamados estamos que constantemente ocorre o que me encanta e impressiona: vários e vários me dizem "antes de te ver eu sabia que você estava aqui", "professora, senti o seu perfume". Feliz-da-vidamente, constato ter atingido a fidelidade essencial em todos os sentidos – e nos sentidos de todos. Em nada me preocupa, aliás, responder às frequentes perguntas sobre o nome da fragrância. Alguns indagam com certa timidez, compreendendo que há pessoas ciumentas do seu perfume, como um segredo; mas não sou dessas, por motivos simplíssimos: primeiro (e aí se trai minha praticidade inata), quanto mais gente consumir meu Florattinha, menos chances existem de o Boticário de repente ter a péssima ideia de tirá-lo de circulação; segundo (e aí se vê que a poesia, escoltada pela ciência, não me abandona tampouco), não é por milhares usarem nosso perfume que nosso cheiro deixa de ser exclusivo. A coisa vai muito além da química posta no frasco e vendida pela loja. Em cada pele, com cada temperatura, com cada hormônio, sob cada percepção a mistura se combina diferente, cai diferente como uma roupa. Como uma profissão. Como um amor.

Tim-tim pois, Floratta querido, à transparência feliz das nossas bodas de cristal, do nosso match de aço, poderoso, decisivo. Antes se multiplicassem no mundo outras tantas maneiras tão líquidas e fáceis de se ver la vie en rose.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Louca do like

grama, ramo, Flor, orvalho, plantar, fotografia, Prado, folha, flor, pétala, amor, coração, produzir, amizade, juntos, flora, cordão, fechar-se, bem vinda, Suspenso, sorte, Conectividade, cumprimento, Cartão, emoção, sentimentos, Macro fotografia, Símbolo de amor, Planta de florescência, Prendedores de roupa, Planta de terra

Sim, eu mesma. 

Não estou bem certa de como isso se dá com os demais – tenho motivos para crer que são pessoas muito mais sensatas e sabem distribuir suas reações com muito maior parcimônia –, mas eu, no Facebook diário e nas pouquíssimas visitas ao Twitter, sou possuída pelo espírito de uma daquelas meninas das flores que saem, nos casamentos, espalhando pétalas de sua cestinha. Uma menina das flores em versão galopante e alucinada. Raramente consigo passar incólume por uma postagem que me caia sob os olhos, ou raramente elas conseguem passar incólumes por mim; vou fatalmente cutucar as coitadas com alguma das carinhas oferecidas pela equipe do Zuck, seja porque quase todas as imagens e textos de fato me trazem determinado afeto, seja porque ando na timeline ao estilo Crocodilo Dundee de andar na cidade grande, ou seja, sentindo a estranha obrigação de tirar o chapéu e dar bom-dia a todo mundo. 

Ainda por cima me vejo culpadíssima se apenas marco um joinha para o post em análise: puxa, fui tão fria e neutra em caso de tanta celebração/desolação/indignação/estupefação, preciso deixar beeeem grifadamente declarado meu envolvimento no processo. Não me perguntem por quê, ou vou ser forçada a mandar a psicologia um-sete-um que me está ao alcance e arriscar que é metade alergia à incompreensão, metade vontade de personalizar tudo. Simultaneamente desejo para o outro e para mim a clareza de sentimentos, desejo estar ali cristalinamente para ambos; tanto meu amigo ou amiga sabe medir com miúda margem de erro o que aquilo me provocou quanto eu mesma sou capaz, em retrospectiva (porque o Face nada nos deixará esquecer), de me testemunhar naquele momento específico. Claro, é sandice que não tem nenhuma importância real, porém insisto nessa espécie curiosa de dissecação afetiva – provavelmente sem grande psicologia alguma para além do fato de eu sempre ter detestado o bege, o básico, a aparente neutralidade. Gosto de coraçõezitos, carinhas coloridas e coisas diferentes, pronto. Indulge me

Em termos de coraçõezitos, aliás, o estado é crítico, já que vou chovendo os danados que nem correio elegante de quermesse: lá vai a doida tacando coração inclusive em post de ilustríssimos desconhecidos. Para mim é sumamente simples e natural; se amei a paisagem, a foto, a roupa, a cor dos olhos, a maquiagem, o doguinho, o desenho, a legenda, o poema, o bebê, a obra, amei e acabou-se, quero lá saber de quem é? Felizmente nunca aconteceu comigo que um coração tenha sido mal interpretado (que tempos! em que um CORAÇÃO poderia sê-lo!), realmente nunca, e confesso ter ficado espantada ao esbarrar com memes que sugerem esse "likar efusivo" como um índice de interesse romântico. Cês juram que tem isso? Bem, ali pelo universo adolescente, talvez – ou então é mais uma amostra cabal de como ando frequentando a bolha certa, já que na minha ninguém se impressiona com meus ataques de fofura psicótica e encantamento tresloucado. Estão todos habituadíssimos a que eu envie GIFs, 8.754 emojis, figurinhas abraçantes e beijantes em profusão e demais manifestações de um amor canibal, e por enquanto nenhuma camisa de força ou princípio de treta me bateu na porta. Devem achar mais seguro não contrariar.

Espero de, hum, coração que tio Zuck também não me contrarie e faça a gentileza de providenciar mais opções para nossos transbordamentos: reações com olhinhos revirados, com apertamento de bochechas, com expressão de "eeeita, que vai dar ruim!" e, o mais urgentemente possível, com ansiazinha de vômito – que tem feito gigantesca falta em nossas timelines brasílicas. Quisera eu sair aos pulos virtuais apenas derramando rosas, mas a realidade definitivamente não ajuda; que pelo menos possamos contar com a carinha amarela regurgitando verde para representar, à altura, todo o legado da nossa miséria.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Brevíssima história do tempo

Borboleta Do Ciclo De Vida - Foto gratuita no Pixabay

Adoro o cheiro de possibilidades pela manhã. O sono aparentemente reboota o mundo; é o mesmo mundo de ontem, complicado e pandêmico, mas quando a gente acorda e reestreia nem parece, o ar entra fresquinho da janela e o pensamento é quase outra vez bebê, tateando e se adaptando. Ainda não estamos exaustos de notícias, ainda não almoçamos uma série de debates, abrimos jornais e redes com um pouco de 25 de dezembro no peito – como se qualquer presente sob a árvore fosse plausível. 

Não sou perfeitamente matinal, I mean, gosto do recém-nascer do dia só se não for obrigada ao excessivo cedume, de preferência se não for obrigada a nenhuma expectativa além da borbulhante "vamos ver o que tem pra hoje". Sou prática, mas definitivamente nada metódica, e pasmo de ver alguém (sem nenhum comprometimento cerebral que puxe para a repetição de horários e até a exija, por motivos terapêuticos) apegado à mínima rotina, agarrado à total previsibilidade. Evidentemente tenho rotinas, porém não me oponho a que o dia me sequestre para Paris. De manhãzinha, em especial, existe ainda essa quase fantasia do tudo: podemos entrar no site do UOL e descobrir que tem vacina ou meteoro, que o coiso renunciou, que a invasão alienígena já apontou na esquina, que uma pessoa amada ganhou o Nobel. De manhãzinha a massa ainda não recebeu tempero nem formato, por mais que racionalmente saibamos que a data já chega para nós usada, que o Japão e a Austrália já andavam a pleno vapor. Não importa; toda folha do calendário aterrissa inédita. Se estávamos literalmente inconscientes, nossas 24 horas permanecem na infância, e tudo podem ser quando crescerem.

Note-se que só tenho essa visão poética das horas inaugurais após a primeira amamentação de cafeína; até então, assim como na introdução da vida, é tudo muito choroso. Mesmo ao longo de décadas, o mundo continua parecendo hostil e confuso no abrir inicial dos olhos. Depois a mesa do café nos pega no colo, nos fornece alguma quentura – e somente aí, mais consolados do pós-parto, principiamos essa meninice diária de tudo pretender e esperar. À medida que o cuco vai acrescentando cucadas a seus anúncios, vamos envelhecendo em músculo e espírito: presenciamos explosões em Beirute, morrem pessoas que aperfeiçoaram o planeta, lugares queridos fecham as portas, as coronews se atualizam, ministros pelejam ao máximo contra nossos interesses, praias se enchem, ruas não se esvaziam, boiadas são passadas sobre a Amazônia, olhos e costas e cabeça cedem ao peso de tanto computador e tanto celular e tanto desgaste e tanta reportagem. O coração, à tarde, está enrugado; o expediente segue e ele segue aos trancos, moído. A tarde é para os fortes porque já não tem inocência, mas a aposentadoria ainda tarda. Enfim a noite nos recebe idosos do combate bem combatido, abarrotados de horas que cansam arrastadas ou corridas – e acalenta redescobrir inocência na exaustão justificada. Há muito de pós-parto no pós-luta. Com a diferença de que, no pós-luta, nós mesmos nos parimos e ajudamos outros tantos a vir à luz.

Madrugada finalmente, madrugada e mais madrugada, um mar amniótico que nos realimenta as esperanças e os possíveis. O sono aparentemente reboota o mundo.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Ave, Felipe

Felipe Neto aceita convite de Maia para discutir PL das fake news ...

Sou insuspeita para falar de Felipe Neto: nunca fui fã, nunca frequentei, nunca defendi, já até dei uma escondidinha no livro dele em uma loja, noutros tempos. Hoje, se o encontrasse, eu o abraçaria vigorosamente, e não tenho o menor problema em declarar aqui minha admiração por sua inteligência notável. Fiquei inteiramente encantada com a cascata de argumentos e com a perfeição de seu inglês naquele vídeo para o New York Times, e igualmente encantada com sua recente participação no Roda viva, em que ele transbordou características que me fascinam ao extremo: imenso conteúdo, invejável objetividade (nem consigo expressar o quanto acho sexy alguém responder EXATAMENTE ao que foi perguntado, sem rodeios, sem eufemismos, sem cerca-lourenços), bom humor, paixão de quem está íntegro no que fala e a valorosíssima, raríssima facilidade de admitir que já errou em muitas coisas, que sobre este ou aquele ponto ele não é especialista, que não tem todas as informações e vai pesquisar aquilo de que não tem certeza. Não sei para vocês, mas para mim a honestidade intelectual disputa acirradamente o topo do pódio das qualidades mais sedutoras. 

O download de meu amor cerebral pelo rapaz foi concluído com sucesso durante a entrevista concedida à GloboNews, nesse último domingo. Felipe deu um show absoluto ao discorrer sobre os métodos de propagação das fake news – sabiam que muitas daquelas arrobas cheias de números e letras, no Twitter, nem são robôs afinal de contas, e sim gente que topa a primeira sugestão de nome de usuário só para entrar na rede social e divulgar o que o grupo de WhatsApp mandou? pois é, eu também não sabia, os entrevistadores também não sabiam –; declarou com todos os efes e erres que se recusa a falar com a CNN Brasil, devido ao espaço que a emissora cede condescendentemente aos negacionistas da pandemia; citou Osmar Terra entre esses negacionistas, criticando às claras sua insistência absurda em dizer que a crise pandêmica sempre vai acabar na semana que vem; cobrou do jornalismo que jamais deixasse os entrevistados soltarem despautérios científicos sem interrompê-los e corrigi-los, dando como exemplo um caso da CNN internacional, no qual a apresentadora desmentiu o interlocutor a respeito da eficácia da cloroquina contra o corona (e, como o cidadão teimasse no assunto, encerrou a conversa). Em todos os momentos, enfim, o youtuber foi claro, didático, direto, assertivo, mostrou embasamento com números e pesquisas, exibiu as provas e a enorme segurança de quem não afirma nadinha de orelhada. Um colírio. Uma almofada. Um oxigênio. 

É facílimo ver por que os bolsonaristas andam tão desesperados para caluniar e destruir Felipe Neto, cujos méritos tenho agora a felicidade de conhecer: o moço é um fenômeno da comunicação, articulado, brilhante, carismático, e tem mais seguidores do que Aquele Que Não Deve Ser Nomeado teve de votos – seguidores estes, conforme alguém já observou, que em boa parte se encontram na adolescência e estarão aptos para ir às urnas e decidir as próximas eleições presidenciais. Entre as sujeiradas que os infames têm praticado, a mais cruel é a de acusar o influencer de ligações com a pedofilia (típico: TODA campanha de difamação por fake news apela para essa estratégia canalha); chegam mesmo a caçar vídeos feitos por Felipe há dez anos – vídeos NÃO direcionados a crianças, com maior presença de palavrões etc. – e editá-los, picotá-los, torcê-los, meter uma trilha sinistra, tudo para retratar o moço como um bicho-papão e estimular os pais a afastar dele sua jovem audiência. Felipe fala também sobre isso com sua tranquilidade incisiva, esclarecendo que as produções mais antigas eram dirigidas a um público mais velho, mas que, com o sucesso de seu irmão Luccas entre os menores, ele foi igualmente "herdando" esses espectadores e modificando o conteúdo e a linguagem. É evidente (autoanálise do próprio) que ele escutou, estudou e mudou muito ao longo desse período. Parece estar dando muito certo: já ouvi relato de criança dizendo aos familiares ter aprendido, num vídeo de Felipe Neto, que "não basta ser racista, é preciso ser antirracista". Fosse eu mãe, mandaria um bolo quentinho para o rapaz e uma cartinha fofa agradecendo pelos séculos dos séculos.

Se você é a mesma pessoa de dez anos atrás, tem alguma coisa errada – disparou o youtuber na entrevista. Não tenho como discordar. Outro dia pilhei um texto meu de há menos tempo que isso, em que afirmava não ser de direita nem de esquerda, e essa ignorância me soa hoje como o maior dos disparates; como assim?? Sou de esquerda total, esquerda até o último fio de cabelo e até o último dia de vida. Já esbarrei com outras estapafurdices que agora não escreveria nem sob tortura. Acontece. Se não nos aprimorássemos, se não evoluíssemos, não haveria muito o que fazermos por aqui; ou já teríamos nascido todos conhecedores e impolutos, ou estaríamos fadados a não alimentar esperanças de melhora. Felipe Neto se reconhece melhor, e não vejo o menor obstáculo para concordar plenamente que se trata de um preciosíssimo aliado na luta antifascista, no esclarecimento de novas gerações, na batalha contra o mas-mas-mas cheio de dedos da imprensa atual, na destruição das fake news. Não que ele precise do meu aval – quem sou eu na fila do pão?? –, porém fico feliz de abraçar com minha voz pequenina a sua voz inteligente, representativa e firme.

Estamos juntos, Felipe. É muito bom contar com sua companhia nesta direção.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Impopularices

Foto profissional gratuita de amarrotado, amassado, bloco de anotações

Em alguns episódios do programa, os meninos do Papo de segunda encaram o quadro "Perdendo likes", no qual apresentam opiniões impopulares que eles possam ter e que virão fatalmente a provocar certo desgosto em parte da audiência. Embora eu já não tenha audiência para desgostar em parte, ou talvez por isso mesmo, me dou aqui ao desfrute de repetir a brincadeira; é às vezes divertido liberar o do-contrinha que habita em nós para um banho de sol. 

Tipo: odeio camarão. Odeeeeeeio. Esse bicho é um auto-rei Midas do mar: tudo que o camarão toca vira camarão. Não tenho qualquer alergia nem faria desfeita para o dono da casa, se a refeição oferecida necessariamente incluísse o vermelhinho (pelo menos de algum vermelho no mundo eu teria de não gostar); me falta frescura para comer, quase tudo eu traço ainda que não seja fã. Mas que odeio, odeio. Assim como azeitona e palmito. Por que pitombas voadoras tascam numa empada, por exemplo, uma azeitona que tudo também transformará em azeitona? Gente, azeitona é forte demais, impositiva demais; não pode ser compulsória assim não, credo, tem de democratizar, meter plebiscito. Pessoal distribui azeitona e camarão como se inocuamente estivesse semeando chuchu no mundo, aquela coisinha inocente em que ninguém repara. Tem de repensar essa marmota aí, taoquei? 

Outro ranço que coloca minha cabeça a prêmio é solo de guitarra – mas como negar? não suporto. Curto um barato (como diria Emicida) objetivo, com metas claras: vai, canta a música, os instrumentos acompanham o vocalista, muito bem. Reconheço que os instrumentistas merecem brilhar e sei que há guitarristas extraordinários, virtuosísticos, porém a consciência e o reconhecimento racionais não implicam que minha paciência concorde ou fique mais motivada; costumo realmente perdê-la quando os gritos dissonantes e meio robóticos da guitarra alongam demais a canção. Em geral a exibição escapa à melodia original e me irrita muito mais do que posso expressar. Mal aí, meu povo, a reação estomacal supera em muito a velocidade da apreciação teórica; me botem para ouvir um violão, violino, violoncelo por 72 horas, mas não me submetam a uma guitarra por 15 segundos. 

E já que estou aqui chafurdando na chatice, vambora derramar de baciada: acho in-su-por-tá-veis os programas escancaradamente afetivo-felizes, como um Tamanho família da vida, ou um "Arquivo confidencial" faustônico (estou longe de ser uma criatura amarga, vós sabeis, mas é que aí já me ataca a diabete que nem tenho; preciso de sabores menos agressivos, menos camarão, menos azeitona, menos guitarra. Ternuras menos óbvias, com menos horas marcadas, pode ser?). Na mesma linha, detesto comédias, ou prefiro-as mais inglesas (como conceito, não como nacionalidade), fora da escola basbaque americana. Só tive espaço para um anime no coração, Cavaleiros do Zodíaco, e nunca me entreguei a nenhum outro. Eu jamais seria do time Batman ou do time Homem de Ferro: playboys demais para mim. Por sinal, teria seríssimas dificuldades para amar qualquer homem rico – o mais provável é que eu fosse de fato incapaz, a não ser que desconhecesse completamente sua riqueza. Como já falei várias vezes, não tenho smartphone, não desejo um nem quero WhatsApp na minha existência, ever. Considero absolutamente cretinas todas as competições, porém conceber que uma criatura ganhe prêmio por esmurrar outra é para mim o cúmulo da insanidade humana. Ah, não, desculpem: a Bolsa de Valores é, para mim, o cúmulo da insanidade humana – sempre respeito mais aquilo que é mais direto e honesto, como o boxe ou o UFC. Não aguento mais o Chaves. Não curto carnaval, apenas o feriado que vem com ele. Não acredito em signos, não sei o que significam, não faço ideia do que seja ascendente e só estou ciente de que sou geminiana porque me informaram (como se vê, meu amor pelos Cavaleiros teve um total de zero por cento de influência neste sentido). Não gostava de Caverna do dragão nem de Thundercats. De pagode gosto menos ainda. Caio Castro e Cauã Reymond nunca foram meu tipo – é sério, não é que as uvas estejam verdes não, sou assim mesmo. Excetuando raríssimas situações que sequer me vêm à mente, vou preferir sempre o silêncio à música. 

Hum, claro, e não maratono séries. Estou aqui prontíssima para a guilhotina: podem me levar.