sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Canção do exílio


Hoje é o Dia dos Símbolos Nacionais: bandeira, hino, brasão e selo. E eu sinceramente gostaria de ter motivos para manifestar alegria empolgada na celebração de nossos símbolos. Embora considere no mínimo irritantes e cafonas os ufanismos patrióticos (facííííílimos de resvalar para o monstro do nacionalismo fascista), e embora tenda muito mais para a utopia de uma irmandade universal, sei que é saudável haver algum festejo de características localizadas, de particularidades, de idiossincrasias; vá lá. Acontece que o Brasil é um ser diferenciado no planeta, e se comemora muito melhormente no âmbito regional – com os carnavais, os heróis, as danças, as revoluções, os termos, as comidas de cada partezinha – do que no geral; no geral, no oficial, a autenticidade se esvai e fica o Brasil-pra-inglês-ver, com sua bandeira de cores trazidas pela nobreza importada (cores que significativamente excluem a do próprio nome do país, aliás), sua bandeira de lema sem calor, sua bandeira estampada com o céu de uma república ainda elitista e que veio com 67 anos de atraso (tá, o que não deixa de ser uma tradição nacional). O Brasil sabe ser gigante nas partes, não no todo; nos rodapés, não no texto. É belo, é forte, impávido colosso, mas não do jeito que o hino canta, projetando em nós uma cara largamente erudita, europeizada, com raios fúlgidos de uma liberdade que nunca veio – e sim na engenhosidade diária, na resistência em chão de barro, na sobrevivência, na resiliência. Palácios e gabinetes que carimbam símbolos do Brasil são os mesmos que o esmagam.

Não bastasse a pouca conexão real do Brasil carimbado com o vivido, ainda vêm os Comensais da Morte que apoiam o presente "governo" e sequestram definitivamente os símbolos nacionais para um whole new level de rejeitabilidade. Nas CNTP, afinal, apesar de toda a construção historicamente questionável da bandeira, das cores etc., a gente acaba garrando afeto, se emocionando ao ver o verde-louro da flâmula tremular no solo de outros países, ou ao ouvir o belíssimo ouviram-do-Ipiranga – que, acredito, só tem a Marselhesa como rival de melodia – abrir uma formatura ou fechar uma competição olímpica. Amamos criticamente nossos elementos representativos, mas amamos; nem que seja por hábito, educação escolar ou pelo sentimento quase compulsório de um parentesco. Isso nas CNTP, quando se vive num país problemático sim, porém viável, plausível, tangível, dentro de alguma escala de normalidade. Só que nosso paradeiro atual fica fora de QUALQUER escala de normalidade. A insanidade e a autodestruição assumiram o (des)controle; os zumbis ensandecidos que gritam não querer vacina, e sim cloroquina, desfilam por aí enrolados no auriverde pendão da terra e de vez em quando cantam as margens plácidas, enquanto distribuem sopapos e vociferam delírios nada plácidos. A própria camiseta canarinho, que não é símbolo nacional mas é como se fosse, foi moralmente arrancada de qualquer torcedor de bom senso: virou figurino coxinha primeiro, rebaixou-se a uniforme bolsomínion depois, o que torna inviável – talvez para sempre – que alguma criatura não identificada com o pensamento fascista volte a vesti-la. 

Ou seja: estamos mais órfãos do que nunca de ícones oficiais e extraoficiais da terra natal, já que o verde, o amarelo e suas várias manifestações ditas patrióticas, aprisionados pela seita maluca num relacionamento abusivo, começaram a nos causar repulsa. Eu e amigos diversos simplesmente nos recusamos a usar, postar, portar qualquer objeto, qualquer imagem, qualquer item que vagamente possa levar alguém a nos confundir com a zumbilândia – e isso lamentavelmente significa que somos exilados de bandeira dentro do próprio território nacional. Apátridas morais. Fugitivos que continuam morando na casa. Habitamos um paradoxo continental no qual os autodenominados patriotas envergam com ostentação os signos tradicionais de Brasil, mas tudo fazem para que ele perca o máximo possível de riqueza e soberania, e os que choram sangue por todas as perdas e mortes brasileiras são os que evitam os mesmos signos. Algo como um Supercine macabro no qual o proprietário legal do imóvel anda para cima e para baixo com uma camisa "I love my family", porém dá machadadas a torto e a direito em todos os cantos da propriedade, quebra os móveis, taca fogo com quem estiver dentro, esgota a água do reservatório, bate nos filhos, tortura-os, humilha-os, larga-os com fome; ao mesmo tempo, o cônjuge desse mentecapto morre de vergonha de envergar uma camisa igual, justamente por ligá-la à criatura doida, mas se põe a fazer, em desespero, tudo que está em suas mãos para impedir o aniquilamento da casa e dos inocentes – e é só por eles que não larga essa loucura e vai viver aos pés das montanhas Velliangiri praticando yoga. Soa bem Stephen King? Mas nem se ele, Kafka, Lovecraft e Poe sentassem para um brainstorm num bar ia sair uma encrenca do tamanho da que andamos frequentando. Os dois últimos anos de Brasil fazem o inverno no hotel Overlook parecer um toboágua no cruzeiro da Disney. 

E, do jeito que anda a coisa, logo vai ter nem palmeira ou ave que aqui gorjeie pra fingir que ainda é lar.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Ideias de caixinha


Tooooodo mundo já está carequérrimo de saber, mas não custa reiterar cientificamente, pra ver se estimula sinapses novinhas num povo aí. Cientistas da Universidade de Queensland, na Austrália, analisaram os dados de 11.564 cidadãos do país, comparando duas enquetes: uma para testar habilidades cognitivas e a outra para checar posicionamentos quanto à igualdade de direitos. Neste segundo caso, os entrevistados reagiam com números entre 1 (discordo fortemente) e 7 (concordo fortemente) à afirmação: "Casais homossexuais deveriam ter os mesmos direitos de casais heterossexuais". Pois adivinhem: as criaturas que pontuaram menos em inteligência (especialmente na parte verbal) pontuaram mais no quesito preconceito – surpresa chocante para absolutamente ninguém.

Sei que parece fácil falar do ponto de vista de quem teve educação formal, social, familiar, religiosa que nunca estimulou e sim coibiu intolerâncias; sei que muitos, devido às circunstâncias de nascimento e criação, à aridez de oportunidades, à ausência de estímulos do ambiente, ao parco acesso à escola, leitura e artes em geral, à rigidez dos costumes de origem, até à alimentação deficiente, acabam resvalando para a rejeição pura e simples de tudo que foge a seu vaso espremedor de raízes, à sua cerquinha de arame farpado. Não melhora o efeito, mas a causa é tristemente compreensível. Há situações em que uma inteligência mais aguçada, mais sedenta e de maior sensibilidade consegue peitar o cativeiro intelectual em que a abandonaram, porém está longe de ser regra – e parece injustíssimo exigir do grosso o mesmo desempenho das exceções. A tendência é que inteligências normais, medianas, se sufocadas pelo regime desértico da ignorância, terminem se curvando para a terra, longamente convencidas da inexistência de outra luz. 

Esses casos, os da ignorância mais básica (aquela que vem do vácuo, da ausência, da falta de chance e/ou de zelo), são inteligíveis no que diz respeito à intolerância, que nasce sobretudo da carência de conhecimento. Mas e quando EXISTE conhecimento – quando houve boas escolas, curso de inglês, judô, clube, cinema, comidinha balanceada, circulação em vários ambientes, visita a outros países, fartura de encorajamentos – e MESMO ASSIM o indivíduo me sai um preconceituoso incapaz de evoluir? Aí, me desculpe: é burrice legítima, e a ciência assina o laudo. Trata-se de ter neurônios continuamente expostos a estudos, amigos, meios de comunicação, redes sociais, and still empedernidos, impermeáveis. Infelizmente não há outro nome. Burrice.

Chama a atenção, na pesquisa de Queensland, que o déficit na expressão verbal seja o mais diretamente relacionado à manifestação de intolerância. Faz todo o sentido. Respeitar, acolher, compreender não têm um parentesco óbvio com habilidades matemáticas, por exemplo (o que não quer dizer, é evidente, que pessoas boas com números não possam ser altamente empáticas; estou apenas observando que esses talentos não dependem tanto um do outro). Por outro lado, respeitar, acolher e compreender têm TUDO a ver com o discurso, com a proficiência em acompanhar uma linha de pensamento e identificar uma falácia, uma incoerência, uma conclusão absurda; e acredito tenham a ver, tão fortemente quanto, com a capacidade de SE verbalizar. Inúmeros preconceituosos (talvez todos) começam a confusão e a rejeição por si mesmos: não se entendem, não se aceitam, não conseguem transformar em palavras analisáveis os seus recalques, os seus medos, as suas invejas, os seus impulsos, os seus incômodos, as suas solidões, as suas próprias discordâncias das pressões de família, dos estereótipos de turma. Não estando aptos para desenvolver um discurso individual, compram o que fica mais à altura dos olhos na prateleira; simplesmente estendem a mão e metem na cesta o clichê mais superficial, o bordão mais estridente, o texto mais transgênico e menos nutritivo que vem na embalagem mais berrante. Junk shoppers de mercado e de vida: pensar não é prático, me deixe apenas repetir.

Como o próprio termo sugere, preconceituosos apontam o dedo e pedem combos de conceito previamente organizados e embalados – e, se bobear, pedem pelo número da promoção, sem saber sequer o nome da porcaria engolida. Saber para quê? Basta seguir direitinho as ordens do palhaço.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Meus olhos estão secos

Estão literalmente secos, por vários motivos que consigo reunir mentalmente: o clima do Rio andou muitos e muitos dias de um secume causticante; em consequência, ventilador em cima quase todo o tempo, esbagaçando ainda mais a umidade dos olhos; na mesma linha, ar-condicionado para dormir e a continuidade do ressecamento; como se não bastasse, horas e horas de computador na cara, sem aquela proteçãozinha contra luz azul que alguns óculos já incluem; e horas raras de sono, um sono demorado e ineficaz de engatar. Os olhos não param de estar insuportavelmente secos, portanto – secos e doloridos, pesados, impacientes, exaustos para enxergamentos de perto, embora míopes. Tento providenciar que lacrimejem; banho-os em soro fisiológico (por falta do coliriozinho que imita a hidratação natural do olho); continuam porém espetantes e (sono)lentos, impróprios para leituras e outras ações de maior densidade. 

Como não é raro que denotação e conotação se abracem, se confirmem, devo dizer que: meus olhos estão secos. Emocional, figurada, politicamente falando, acham-se exaustos até para enxergamentos de longe; não conseguem mais suportar o sangramento de fogo que devora o Pantanal, a Amazônia, a Califórnia, que despedaça casas e biomas, rios e vidas, matas e pessoas e jacarés e onças. Não conseguem mais senão contemplar, embasbacados, aturdidos, o inferno de fumaça, cinzas e sarcasmos que se tornou o meio ambiente com seu "ministério" de horrores. Não conseguem mais reagir à destruição-trator, sem pausa, sem critério, que tudo engole numa catarse de ódio. Não conseguem mais se esvair em comoção e lamento; comovem-se, lamentam, porém não se esvaem – estão momentaneamente calcinados como a terra assassinada para virar pasto; estão temporariamente paralisados como a rota que nasceu para ser rio e não é mais rio. Não vibram, não brilham, mal se abrem sob o clima desértico que se empenha em desertificar qualquer nascente que o toque.

Meus olhos estão petrificados pelas emanações da Medusa com cabeças de Hidra que nos desgoverna; mantêm-se congelados e desacelerados em sua impotência a fim de não se arrebentarem em carradas de fúria. Estão quietos como o bicho que, para proteger-se, hiberna. Estão imóveis porque o estado de choque é demasiado; porque a erupção de toda a ira contra os hipócritas possivelmente aniquilaria mil quilômetros nos arredores; porque, mesmo não sendo (feliz ou infelizmente) olhos de Ciclope, ambicionariam destruir numa piscada os que destroem, e fatalmente passariam a pertencer à lógica da destruição. Meus olhos estão inertes de abismados, como se efetivamente debruçados no abismo – naquele silêncio, naquela imobilidade que antecipa a cólera, a sanha de fera acuada e atiçada. Movem-se lentamente para não provocar a pólvora. Mexem-se molemente para não detonar a bomba.

Meus olhos estão secos – não cegos. Um qualquer descuido meu e eu seria o mesmo fogo que vou eternamente desprezar.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Estranhos no ninho


A atriz Monique Curi, que relacionarei por todos os séculos à novela Felicidade, chegou a ficar de 2000 a 2012 afastada da telinha; deu uma parada após Laços de família, tornou-se mãe, só retornou em Salve Jorge. No entanto, já na festa de lançamento da trama percebeu que a volta ia ser pedreira: tinha perdido o costume do meio glamourosão e se sentiu altamente deslocada ao ver "aquelas estrelas, com as suas bolsas caríssimas, posando para os fotógrafos" (palavras ditas à coluna de Patricia Kogut) – deslocada e desaconchegada a ponto de explodir em choro depois do evento, no recesso do lar. Monique ainda encarou alguns poucos trabalhos de atuação, mas claramente a famigerada festa marcou sua despedida emocional e moral das projaquices; a atriz, hoje, se dedica a seu canal no YouTube (Jeito de Ser). Felizona da vida.

Obviamente, a questão das bolsas é simples metonímia para condensar o que outras palavras da artista englobam melhor: "esse é um meio com muito ego e muita aparência". Ater-nos às bolsas poderia fazer parecer que ela ou nós estamos atribuindo ostentação e futilidade somente às mulheres, o que não procede de modo algum; apenas é natural que ela tenha se espelhado nas indumentárias, cobranças, peças de figurino tipicamente ligadas a seu gênero. Em verdade, porém, o desconforto se aplica ao pacote inteirinho: não à parte artística, já que o ofício dos atores em si é de uma beleza sagrada, mas às circunstâncias exteriores à obra – exibição quase compulsória para fofoqueiros de plantão, detalhamento de grifes praticamente obrigatório em jornais e revistas, mil crises de autoimportância protagonizadas por autores, diretores e demais senhores com dificuldade para receber críticas a seus clichês e absurdos, mil caudas psicológicas de pavão abertas e esbarrantes. Te entendo, Monique; eu duraria um total de dezoito minutos nessa seara. Com sorte. Num dia bom.

Nem posso conceber como deve ser pertencer-se muito pouco, eu que não me imagino lidando sequer com as demandas de uma criaturinha que eu parisse – QUANTO MAIS com as de poderosões surtando em ataques de pelanca, com as de celebs trocando farpas no Twitter, com as de fãs e haters se sentindo no incompreensível direito de meter o nariz bedelhudo, com as de repórteres perguntando qual é o estilista. Infelizmente não sei qual é o estilista, amado, o vestido é de lojinha da rua da Alfândega, a bolsa é da feirinha da praça Saens Peña, lugares com preço feito para quem mora no mesmo Brasil que eu. Gosto de ver rapidamente as fotos das lindas nas estreias? Gosto, porque a beleza sempre me atrai. Ligo para a etiqueta do que vestem? Tanto quanto para a escalação da seleção tailandesa de 1972. Faria parte desse universo? Nem em um milhão de anos ou por um milhão de camelos (à moda dO clone). Sou preguiçosa e arredia nata para tudo que tenha alta manutenção em termos de look, vida social, administração de egos, distribuição de sorrisos. Sorrio com extrema constância, mas cada vez com menos condescendência. Além de achar invasivas até as câmeras das videochamadas e das férias em família: vejam QUANTA chance de uma carreira televisiva dar megacerto. 

Não quero me pintar desapegada, evoluída, dançando riponga em Visconde de Mauá; tenho inúmeras vaidades, todos temos, só não estão empregadas onde tenderiam a estar, caso eu pleiteasse esse emprego específico numa vida hipotética. Basicamente é isto que precisamos sacar o mais cedo possível no curso profissional: quais perrengues seriam i-na-cei-tá-veis no horizonte e com quais lidaríamos mais de boa – não que problemas devam ser aceitos, porém sempre há os que têm menos capacidade de nos destruir até serem destruídos. Quanto mais aptos e equilibrados para os no-entantos, mais cotados estamos também na escala dos encantos; não muito diferentemente, aliás, da lógica sentimental ou da turística. Cada qual tem destinos possíveis, destinos ideais e destinos em que a probabilidade de despencar de um barranco fica assustadoramente acima de zero. 

Que a empreitada youtúbica iniciada há dois anos por Monique Curi continue a se mostrar uma escolha feliz em todos os sentidos; precisamos urgente e avassaladoramente de um mundo povoado por gente feliz em suas escolhas. Gente feliz mesmo, não apenas sorridente para fotógrafos e celulares. Gente cuja maior realização seja viver o que se vive – e não mostrar o que se está vivendo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Querer grande

 Amor, Fantasia, Voar, Dia Dos Namorados, Reino Unido

"Há o desejo, que não tem limite, e há o que se alcança, que o tem. A felicidade consiste em fazer coincidir os dois." 

O pensamento é do escritor português Vergílio Ferreira, mas de todos por extensão, já que parece improvável encontrar quem discorde (OK, OK, encontra-se quem discorde de que a Terra é redonda ou quase isso; ainda assim, me deixem sonhar com uma sensatez global. Grata). O que é um mínimo contentamento na vida, senão um encaixe razoável entre a altura pretendida e a potência das asas, entre reinos tidos por encantados em criança e carimbos no passaporte do adulto? Não se trata – nem um pouco – de querer pequeno; trata-se de querer abrangente, sem especificação de marca, de etiqueta, de ano de fabricação ou prazo de compra. Não se trata de mutilar possibilidades nossas, trata-se de não encorajar impossibilidades doidas – entendendo-se como impossibilidades reais o fazer questão dos poderes do Thor, ou de uma casa com piscina no núcleo da Terra, ou de um visto de residência entre os na'vi em Pandora. Mesmo alguns delírios fofos são permitidos na ambiência da felicidade, desde que flexíveis, adaptáveis, reproduzíveis em massinha colorida, não necessariamente esculpíveis em carrara.

Assim: pode-se desejar um castelo medieval, mas a felicidade inteligente saberá dialogar com o gigante da improbabilidade e topará se realizar com visitas a um ou outro, com uma pegada de Távola Redonda na decoração do apê, quem sabe um dia com a construção de uma casinha de pedra que inclua segredinhos de passagem entre os cômodos. Pode-se ser fã apaixonado de um(a) artista, mas o coração apto para feliz nunca há de esperar subir ao altar com o ídolo; vai, sim, considerar-se king of the world se estiver no show, se entrar no camarim, se descolar selfie e abraço, às vezes só se assistir 8.765.996 vezes ao clipe no YouTube. Pode-se guardar uma fome maluca de viver em outras eras, perambular em velhos séculos, mas a alma comprometida com seu gozo não vai ensandecer caso a máquina do tempo não fique disponível no Mercado Livre: esperta que é, há de se meter em teatro, TV, cinema como atriz ou figurinista ou cenógrafa, há de se enfiar pesquisantemente em bibliotecas e museus, há de até achar na internet modelitos e amigos vitorianos. Pode-se arder em chamas de ser um novo Messi, mas a mente sã, se ainda mais sã do que o corpo são, não dependerá de tanto: abraçará com amor o esporte e estremecerá de contente só em arrumar jeito de viver desse amor (como profissional) ou com suficiente espaço para ele (como praticante). Pode-se querer forte, querer muito, querer balofo e sem fronteiras, contanto que se esteja sabiamente livre do contanto que, moldável nas negociações dos pré-requisitos, aberto a reinterpretações que não neguem a essência.

"Só serei feliz com uma Ferrari na garagem": ISSO é querer pequeno, porque limitante, amarrado, restrito. Querer grande e desfronteirado é sobre ser-se leal sendo-se também generoso, dando-se opções largas, montão de caminhos arejados, nenhum deles ciumento daquele que for efetivamente seguido. Fundamental é amar-se o bastante para se perdoar a estrada não trilhada; investigar-se com a calma valentia dos que se reconhecem amplos, dos que não se subordinam a um só detalhe para justificar toda a construção. Corações que desejam sem se autoperceber, e consequentemente sem transigir, não raro dançam a um metro de mergulhar na infelicidade completa, talvez mesmo em algumas formas de loucura – essa que simplesmente nasce, muita vez, da infelicidade elevada ao cúmulo.

domingo, 13 de setembro de 2020

Que nem maré

 lua cheia, lua, menina, assistindo, oceano, natureza, vendo, olhando,  cheio, céu, agua | Pikist

Achei incrível descobrir que, de acordo com uma pesquisa divulgada há seis anos, a lua cheia interfere em nosso sono mesmo quando não é vista por nós ou não a sabemos cheia. Os participantes do estudo em questão, realizado por uma universidade suíça, foram acompanhados durante as várias fases lunares; em média, levaram cinco minutos a mais para começar a dormir – e dormiram vinte minutos a menos – em época de lua balofa. O porquê dessa atração fatal e quase mística, não sei; nem faço ideia se os cientistas fazem ideia do motivo; só sei que, pelo jeito, existe maré alta de gente, maré alta de consciência, de pálpebra, de olho: somos tão suscetíveis e ficamos tão desassossegados quanto as ondas com o chamado da Dama Branca, que aparentemente não se conforma em não receber todas as atenções.

Sou do grupo facilmente enfeitiçável. Se não disponho da explicação científica para a insônia que acomete os terráqueos quando o nosso satélite favorito está pleníssimo, não posso, entretanto, dizer que não a entendo. Eis que a grande princesa dos céus visíveis se veste de noiva, se veste de festa e vem se postar toda amostrada no caminho, feito uma rainha Ester em seus trajes de dar agrado: olhe-me que-linda, ouça o que peço. É um amor hipnótico o que ela pede; resistir como? se aquele luzão braaaanco, braaaaaanco se espalha – talvez nem tanto nas cidades onde ainda é horário ativo e ofuscado de postes e faróis, mas – pelas partes da casa já desligadas do expediente, já cheias de gente enfim recolhida ao susto de anoitecer? Assim que nos flagra mais aliviados de afazeres, indo de pijama ou camisola buscar água na cozinha, a Dama Branca sorri possessiva, embora com doce paciência: agora sim você é minha, você é meu, e não vai voltar para a cama ao pressentir meu auge de claridade. Vai espiar pela janela. Vai espiar longa, aturdida, apaixonadamente pela janela.

Nós espiamos pela janela, apaixonados e aturdidos, maré-altos, chocados que aquela grande noiva noturna não brilhe por conta própria, ou que consiga transformar num apelo tão indiscutivelmente feminino o que a luz do sol (I mean, do Sol) tem de feroz e agressiva. O Sol é uma pua; a Lua é um lençol. Não existe inluação que nos confunda, nauseie, queime, desidrate: a satélita gentil suaviza tudo, reescreve o clarão do raio recebido, reinterpreta-o em forma de maciez e transe, faz sua mágica singular de virar sabre em seda. O Sol não nos deixa dormir porque escandaloso, a Lua não nos deixa dormir porque sedutora; ao contrário dele, permite-se olhar e se quer olhada, persuade-nos a olhantes apenas sorrindo, sendo, vindo. A Lua é um ciclo, um vício, um enredo, um enrosco.

O Sol nos acorda com ou sem nosso arbítrio, sacudindo-nos despertadores e hormônios na cara. A Lua nos desperta as verdades que dormem, espelhando o espanto que temos conosco.

sábado, 12 de setembro de 2020

Sadaka tashi

 File:İmrahor3.jpg - Wikimedia Commons

Descobri recentemente sobre um antigo costume turco lindinho: a tradição sadaka tashi, relacionada às "Pedras da Caridade". Ainda na época do Império Otomano, espalharam-se diversos monumentos rochosos pela Turquia (dos cerca de 160 originalmente existentes em Istambul, restam uns 30), nos quais os mais ricos podiam deixar uma grana a ser doada para os mais pobres, com o conforto do anonimato; nem os benfeitores faziam pavonice de sua boa ação, nem os que necessitavam das doações se sentiam intimidados ao aceitá-las. Hoje as "Pedras da Caridade" específicas se encontram praticamente em desuso, porém ainda vivem como ideia – tanto que o sacerdote islâmico Abdulsamet Çakir tem aproveitado o espaço de guardar sapatos dos fiéis em sua mesquita (espaço este que anda em "recesso" de suas funções, devido à suspensão provisória das rezas coletivas) como um estoquezinho de alimentos para os necessitados; e, na mesma vibe, inúmeros doadores anônimos já contribuíram com aproximados 3,4 milhões de dólares em um site local que dá uma força nas contas de água e luz da população carente. Não é no Brasil, mas poderia ser – e, afinal, é no mesmo planeta, é na mesma espécie, o que já põe um quentinho no coração. Só essas notícias com cheiro de fornada para nos sustentar erguidos, bastantemente fortes, em era de pandemias e reformas administrativas. 

Claro, o ideal dos ideais era não haver desigualdade alguma, ao menos no ponto de partida; não existir esse disparate chamado fome, não ser possível que alguém não conseguisse pagar contas essenciais – em suma: o ideal era que fosse absurdo e inaceitável exatamente tudo que é absurdo e inaceitável. Aparentemente, no entanto, essa bodega toda continua sendo não só aceitabilíssima como fundamental para alguns. Enquanto trabalhamos com gana para corrigir esses despautérios macro, vamos nos aconchegando nas felicidades micro, nas manifestações mais restritas e até individuais de bondade explícita. A ideia das "Pedras da Caridade" me seduziu desde logo pela antiguidade e, em especial, pelo extremo da delicadeza, uma vez que o mecanismo de generosidade às cegas foi lindamente pensado para linkar os dois lados sem constrangimento de nenhum (principalmente da parte receptora, que não precisava expor suas dificuldades se não o desejasse, nem sentir-se devedora de um determinado poderoso). Admiro com toda a ternura iniciativas assim, de coração para coração, sem requisição de identidades – e felizmente continua a haver fartura de exemplos pelo mundo, irmãos das ações de Çakir e do site turco inspiradas na sadaka tashi: diversas padarias e mercadinhos de bairro que disponibilizam pães e demais produtos, de graça, em balcões externos; bares e restaurantes nos quais os clientes deixam cafés ou refeições pagos para pessoas necessitadas que vierem recorrer aos estabelecimentos; costureiras que produzem máscaras gratuitas contra a covid e as distribuem aos que não as possuem (vi casos de "árvores de máscaras", onde as proteções ficam penduradas como frutos e podem ser "colhidas" por quem passar); varais solidários em que roupas bem conservadas são depositadas por seus antigos donos e se tornam disponíveis para novos, beneficiando principalmente pessoas em situação de rua. Isso apenas para citar exemplos que me ocorrem de imediato – afora as doações que são, mais do que todas, questão de vida ou morte, como a de sangue e a de medula óssea. Um universo de pequenas e grandes entregas humanas para nos lembrar, de tempos em tempos, o que raios estamos fazendo mesmo aqui no planeta.

"Pedras da Caridade" devemos ser todos, potencialmente: fontes de altruísmo que não perguntam para onde correm, não pedem crachá nem carta de apresentação; mãos que têm olhos e ouvidos para saber do entorno, mas não têm boca para dar a saber de si; nascentes que minam e minam e minam cuidados sem minguar nunca, sem escolher planta, sem selecionar raiz, apenas banhando em vida o que estiver seco. Pedras sim, para servir de marco, apoio, referência; jamais imóveis e mortas, porém. Pedras permeáveis ao meio, moldáveis, atentas, ainda assim discretas em suas indulgências. Pedras sólidas e grandes o bastante para se fazer sombra, parede, sem ser tropeço. Contínuas. Confiáveis. Presentes sem opressão e permanentes sem cobrança.

Nossa função de ser gente é essa, direta e gratuita. Tudo que nos afaste de ser o único tipo possível de pedra – que fique pelo meio do caminho.