segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Dos outros lados da vida


Meio atrasadita como sempre, assisti a Soul, a mais recente obra-primazinha da Pixar hospedada na Disney+. Para quem não viu só digo que: veja. E digo também que evite ler o resto do texto, a não ser que pertença ao estranho grupo de pessoas que adoram cheiro de spoiler pela manhã.

(Continuou mesmo assim? não posso parabenizar pela escolha, mas OK, então vamos.)

Antes de mais nada, Soul não é para crianças, ainda mais profundamente do que seus "irmãos" Viva e Divertida mente não eram; o fato de desta vez termos um protagonista adulto, aliás – ao contrário das duas outras animações, centradas respectivamente no menino Miguel e na menina Riley –, já diz muitíssimo sobre o longa. Miguel e Riley apenas começavam a viver, no sentido cronológico do termo, e seus sonhos, conflitos e fragilidades muito facilmente encontrariam eco na audiência mais novinha; o Joe Gardner de Soul, porém, é um professor de meia-idade adultissimamente dividido entre contentar-se com o emprego estável e investir na paixão pela música, entre cumprir as expectativas da mãe e sentir que sua passagem pela Terra tem significado, entre abraçar o sim que consegue e desmentir sua coleção de nãos – sem perceber que, na aflição obsessiva de seu (im)possible dream, foi subestimando uma montanha de sins pequeninos e rotineiros. Como parceira acidental e perfeito contraponto, Joe "ganha" a alma não nascida 22, provavelmente a maior veterana e a pior enfant terrible da Escola da Vida (local de pré-existência repleto de alminhas fofas e cabeçudas); 22 simplesmente SE RECUSA a viver tanto quanto o músico se recusa a morrer, o que torna bastante irônica a circunstância de ser ela a verdadeira instrutora de vida de seu suposto monitor.

Apesar de alguns furitos no roteiro e algumas situações aparentemente inconclusas (por que a mãe de Joe não sabe sobre o acidente? por que Joe "expulsa" o conteúdo do gato – e, nesse caso, como o gato volta a ser gato? o que aconteceu com o personagem Paul após aquele ligeiro trauma? Joe ligou para Lisa, afinal?), que fazem de Soul uma obra menos resolvida e redondinha que as outras duas citadas, ainda temos um produto Pixar com todas as suas pixarices encantadoras. Está ali a incrível habilidade de traduzir em concreto o que é absolutamente abstrato – com fartura de soluções e conceitos fantásticos como o Salão de Todas as Coisas, os Zés sem identidade ou forma definidas, o grupo dos Místicos sem Fronteiras, os viventes apartados da competência de viver; está ali o maravilhoso blend de fofura, drama, humor (com destaque, neste último quesito, para as hilárias interações entre 22 e seus diversos monitores); está ali a sensibilidade pixariana de, em sábia decisão artística – e comercial, claro –, desatrelar o processo pré e pós-morte de qualquer religião específica, optando por um caminho lindamente ecumênico. Mas é mesmo da relação de Joe com 22 que saem os dois fios mais comoventes do longa. Em primeiro lugar, o elogio extraordinário à figura do professor, retratado como alguém que consegue inspirar mesmo quando parece passar despercebido e desapercebido; é quase impossível segurar as lágrimas ao ouvir Joe se oferecendo para acompanhar 22 em sua maior viagem, sendo alertado de que "não vão deixá-lo ir" e respondendo – numa representação de todo educador que só pode conduzir cada aluno até certo ponto, a partir do qual o formando precisa seguir sozinho – que tudo bem, "não vão, mas vou até onde eu conseguir".

O segundo fio interpretativo mais impressionante de Soul constitui sua própria essência, sua própria "moral": o nicho que precisa ser preenchido em nosso peito, a fim de que contemos com um passaporte seguro para o mundo, não necessariamente está relacionado a fazeres e afazeres, propósitos, missões – ou principalmente: profissões. Não é sine qua non que nosso encantamento pelo privilégio de viver se manifeste com qualquer sentido utilitário, se prenda a qualquer encaixe nosso como peças de uma grande engrenagem produtiva, como batedores de metas, como superadores de obstáculos. Por sinal que muitas vezes (ilustra-o bem a indiferença do protagonista músico à música do rapaz no metrô, em contraste com o total alumbramento da alminha virgem diante da apresentação) é a própria obsessão de bater metas e superar obstáculos que nos esvazia de um entusiasmo original, visto que somos empurrados a perseguir os quês e não os comos. É o desespero ou a obrigação de chegar lá que nos faz esquecer por que estamos indo para lá anyway.

Enquanto a vida só-ela-purinha, com seus sóis e carretéis e pizzas e pirulitos, já é mais do que suficiente para manter e renovar o spark das almas todas e ainda algumas. A vida – sendo ela mesma – basta.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Pálido Ponto Azul


Esse do título é o nome de uma famosa foto da Terra, tirada em 14 de fevereiro de 1990 pela sonda Voyager 1. A querida Voy tinha, na ocasião, a missão de fazer várias imagens do Sistema Solar (que formaram um mosaico chamado Retrato de Família, não é fofo?); já havia cumprido sua parte e estava batendo em retirada quando, a pedido de Carl Sagan, virou a câmera e fez um último clique de nosso planetinha – mais inha do que nunca – perdidíssimo no meio de um raio, afogadíssimo nas profundezas do mar espacial sem fim. Uma poeira. Um pixel. Um projeto de pulga. Conseguem vê-lo? é aquela coisiiiiiiinha ínfima, ridiculamente minúscula, pousada no meio da última faixa de luz. Pois é, eu também demorei para achar, mas é bem nesse negocito que moramos todos nós – nosso Pale Blue Dot, por enquanto a casinha única de que dispomos no universo, embora tantos vivam como se contassem com pelo menos 1.047 refis.

Sobre a eloquência da foto, discorreu Sagan em palestra dada na Universidade Cornell: "A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios. As nossas posturas, a nossa suposta autoimportância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios".

Duas verdades acachapantes, essas apontadas pelo astrônomo: como são vexatórias as tretas em que nos envolvemos pela posse de mais metro menos metro de um CISCO feito a Terra, e como é crucial introjetarmos que somente nós nos salvaremos de nós, nenhum árbitro de planeta vizinho vai mandar um deixa-disso ou apitar o jogo. Convém, aliás, fazer o exercício (apropriado para tempos carnavalescos) de vestir a fantasia imaginária dalgum etê das redondezas que observasse nossa Lilliput e considerasse a possibilidade de interferir no formigueiro; imaginemos, apenas IMAGINEMOS nossas próprias reviradas de olho ao constatar que aquela gente pitoca se recusa a parar de destruir sua ilhazinha infinitesimal, que meia dúzia de três ou quatro pitocos julga ter o triplo do direito de todo o resto, que algumas pessoinhas ridículas puxam o cabelo e dão na cara umas das outras por causa de um crush de fim de semana, uma cadeira no cinema, um garfo, uma careta, uma opinião, uma tangerina. Dá pra culpar o Thanos ou os aliens enraivecidos de Guerra dos mundos por desejarem nos pulverizar? Somos insuportáveis, lastimáveis e irritantes exatamente porque não vemos o quanto somos incríveis, potentes e talentosos, e de quão pouco tempo dispomos para sê-lo, e quão estúpida é a decisão de gastarmos esse pouco tempo sendo insuportáveis, lastimáveis, irritantes e devoradores do coleguinha.

Fôssemos um grupo de lilliputianos sensatos, imprimiríamos a Pale Blue Dot e a grudaríamos na porta da geladeira, a fim de recebermos todo santo dia o salutar estímulo baixador de bola. Embarcou numa de acreditar que nenhum psicólogo da espécie humana seria capaz de entender suas questões, tão formidavelmente transcendentais elas são? Mergulhou na trip de que sua tese é a do gênio dos gênios, e de que nada será como antes na galáxia depois que você a revelar? Passou a noite inteira empapando o travesseiro de chorar pelo namoro que era O Namoro infinito e único, cujo término talvez desalinhe a órbita dos planetas? Oh, please, veja quem somos, onde estamos: nesta bolinha de gude indecentemente microscópica no meio do próprio sistema, que dirá no meio de bilhões e bilhões de sistemas outros. Não é que por isso devamos desistir de tudo, pelo contrário; devemos investir em tudo que faz cada rotação da bolinha valer a pena, descartando todos os comedores de vida – disputas cretinas, vaidades idiotas, preconceitos (desnecessário qualificá-los, já que são todos imbecis), desamores, mil nhenhenhices que atravancam areia-movediçamente nosso tempo e espaço tão limitados. Se somos assim nanicos, frágeis, sujeitos a peteleco, o bom senso recomenda que nos conservemos tão unidos em prol da preservação coletiva quanto atentos às verdadeiras demandas individuais (muito diferentes de pulsões implantadas e egoístas); carecemos do máximo bem-estar entre os membros da equipe para que a pequena e débil nave mãe continue operável pela maior eternidade possível.

A grandeza que nós – pulguinhas – tanto perseguimos, só a recolhemos de nossa insignificância.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Como um patinho


Estava caçando imagens, esbarrei com algumas fotos lindas de cisnes com seus cisnitos e de repente me ocorreu: nossa, mas como a história dO patinho feio é escrota. A história em si e todas as produções de TV, teatro e cinema que bebem desse lago. Certo, não há muito exagero na caracterização literária das avezinhas – pelo menos os baby cisnes que vi eram realmente feiositos, de penugem cinzenta e incerta, um ar de rascunho –, mas independe de maior ou menor precisão biológica a minha antipatia; o que de fato me deu e dá assomo de irritação é considerar que, no conto, só existe final feliz porque o patinho fake se revela um cisnão imponente, e que provavelmente continuaria a haver a mesma desolação no personagem, o mesmo bullying, se ele fosse verdadeiramente um pato, nada mais que um pato fora dos "padrões". Que feio.

Em geral se conta essa historinha às crianças para persuadi-las a ter paciência, resiliência e confiança no futuro – caso se identifiquem com o protagonista rejeitado –, ou para mostrar-lhes que "estão vendo? não façam isso com ninguém, um dia quem vocês desprezam pode dar um baile em vocês" – caso os leitores/ ouvintes tendam para o grupo dos rejeitadores. Nenhuma das duas perspectivas está exatamente errada: sem dúvida, um serzinho que hoje se acha desengonçado e sem graça pode florir de maneiras insabidas, e idiotas que perseguem os "diferentes" não raro se chocam, anos depois, de ver que sua antiga vítima se tornou übermodel, estrela do rock ou ganhador do Nobel. Acontece. A possibilidade de vir a ser um fato, no entanto, não equivale à CERTEZA de isso ocorrer; muitomuitomuito principalmente: a possibilidade de vir a ser um fato NÃO DEVERIA ser importante. Usar a velha narrativa para engendrar pequenos condes e condessas de Monte Cristo que sonham espezinhar seus espezinhadores, ou então para levar espezinhadores a se comportarem por mera autodefesa, me parece quase tão horrível quanto não interferir no processo.

"Patinhos feios" podem sim virar cisnes – mas podem não virar. E está tudo perfeitamente bem, não têm a menor obrigação de virar; o que funciona perfeitamente mal é uma cabecinha que se impõe a condição de uma futura maravilhosidade para obter respeito e pior, desforra. Ninguém precisa (nem deveria ser incentivado a crer que precisa) fazer 38 plásticas, perder 97 quilos, ganhar 5 milhões, comprar título de nobreza ou retornar tietamente para Santana do Agreste a fim de ajustar contas com seu passado. Ninguém precisa passar de loser a winner, segundo o sistema de avaliação competitivo-capitalista, antes que seus algozes se arrependam sinceramente dos maus julgamentos. Até porque, diga-se, isso TAMBÉM é reforçar a visão cruel e embaçada dos algozes: é nivelar-se e valorizar-se pelo ponto de vista DELES; é apreender tácita ou explicitamente que apenas beleza, riqueza, inteligência identificadas como aceitáveis capacitam para a consideração social, a amizade e o amor. Adianta? Não adianta. Aquilo que era sofrimento infantil somente é promovido a meta, ideia fixa, e motorizado na força do ódio; curar-se, não se cura.

O que cura de uma vez por todas é (auto)aceitação plena desde sempre, ensino do amor incondicional ainda no útero, desestímulo ao julgamento e à competição, assassinato dos preconceitos antes que sequer respirem, encorajamento da colaboração em todos os casos, ensino de que, num mundo realmente próprio para consumo, eu sou porque nós somos – e cada um tem seu lugar assegurado (o que quer que deseje assumir pelo bem comum) e suas características abraçadas. "Ah, mas o mundo não é assim": não é porque não o fazemos ser, contentando-nos com dizer que o mundo não é assim. Se ele ainda não é, pois que tire o traseiro da cadeira, arregace as mangas e fique sendo; o espaço que caminha para a extinção, para o esgoto da História, é o da discriminação fantasiada de cultura, o do comodismo de permanecer intolerante, o da preguiça de rever as próprias burrices em nome de uma "autenticidade" que é simples covardia, ruindade, recalque, mau-caratismo.

Feio, feio, feio.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Impossível e cia.


O que, para vocês, é da ordem do brabo, do possivelmente inviável, do eventualmente impossível? Para mim: usar o telefone. Usar um smartphone. Compreender físicas, químicas, matemáticas. Passar roupa (com decência). Escrever ficção longa. Me deixar hipnotizar – duvideodó que um dia eu relaxasse o suficiente. Dormir numa “hora certa”. Portar qualquer coisa na orelha que não sejam óculos: nada de brincos, fones quase nunca, elásticos de máscara só com extensor. Assistir a competições esportivas (a ginástica olímpica é honrosa exceção). Sair sem perfume. Sair sem bolsa. Sair sem tudo na bolsa.

Discutir sem me sentir culpada, mesmo que tenha razão. Olhar para a cara, ouvir a voz ou pronunciar o nome do coiso. Me maquiar. Me embebedar. Boiar. Brigar. Andar de bicicleta. Andar de roupa comprida e não barafustá-la nas pernas miseravelmente. Tomar café e não me afundar em azia. Distinguir carros. Dirigir carros (nem tento, credo). Jogar xadrez. Ver a entrega do Oscar com tradução simultânea – o melhor meio de não entender bulhufíssimas em língua alguma. Ter animais em casa (adoro, mas não consigo lidar com filhos de nenhuma espécie). Comer dobradinha. Comer camarão. Ser da Sonserina.

Frequentar, em parques, os brinquedos que rodam de um modo maníaco. Ler textos que não são de literatura. Ler e-books: não têm cheiro, case closed. Acampar. Escalar. Fazer mapa astral. Puxar ou alimentar conversas de metrô. Voltar ao cabelo comprido da adolescência. Curtir programas ou filmes de comédia. Suportar meio nanossegundo de heavy metal. Aparecer na TV – voluntariamente, I mean. Arriscar a vida sem ser para salvar alguém. Consumir abacaxi (afta e esofagite monstronas em 3, 2, 1). Consumir qualquer outro cítrico. Participar de fã-clube. Montar conta no Instagram. Tocar em arma de fogo – mas neeeem se a rainha da Inglaterra sobrevoasse a London Eye num hipopótamo alado recitando Os lusíadas. Ela ou o hipopótamo, tanto faz.

Dizer o necessário e não menos. Nem mais.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Os entretantos


Dia do bem-humorado dramaturgo francês Bernard le Bovier de Fontenelle: módicos 364 aninhos – dos quais, espantosamente, o autor viveu cem quase redondos (falecendo apenas um mês antes de completá-los). CEM ANOS, em plenos séculos XVII-XVIII, quando uma pessoa com a metade disso já era considerada idosa! Efeito do consumo de morangos, segundo Fontenelle, eterno apaixonado do garfo e do copo. Aos 92, o dramaturgo teve seu joie de vivre comparado por um observador ao de um jovem de 22; e já no finzito de sua última década teria dito a uma bela mulher que conhecera: "Ah, senhora, se eu tivesse oitenta de novo!"

Ser agora apresentada a essa figura pitoresquíssima combina à perfeição com uma frase sua – "É verdade que não podemos encontrar a pedra filosofal, mas é bom que ela seja procurada; procurando-a, descobrem-se muitos bons segredos que se não procuravam". Na condição de perseguidora de assuntos, eu não conseguiria concordar mais ou assinar embaixo com entusiasmo maior; sou exatinhamente dessa vibe. Confesso, aliás, que tendo mesmo a preferir os segredos não procurados, os que se oferecem alegres pelo meio do caminho, as surpresas interessantes: lojinhas insólitas não calculadas no roteiro da viagem, notícias que quebram a banca das expectativas, peças de brechó que de repente assustam de tão perfeitas, filmes que pegamos passando numa tarde de segunda e se tornam favoritos, autores descobertos em sebos que alargam o repertório. A vantagem óbvia é que, não havendo planos para um esbarrão com o tesouro, não há também ocasião de desapontamento; tudo que chega é lucro total, limpão de impostos, alegria líquida. Uma trip sem a tensão de arrumar bagagem.

Ao focar unicamente na pedra filosofal – a paixão absoluta, a festa das festas, o restaurante dos restaurantes –, entramos na aventura com roupa de gala, com as vontades trajadas de longo ou de smoking para o Grande Momento, e é então inevitável: a manga, a gravata, o sapato apertam, a barra do vestido arrasta e amarfanha e atrapalha, a procura fica duas vezes mais exaustiva porque o espírito errou no dress code e só visa ao finalmente em vez de se divertir com os entretantos. Nada brilha, a não ser a imaginária meta – lógica bovarista que não costuma acabar em cenário florido, de tão febrilmente que o buscador se apega à imagem do cenário florido; febre é um dos maiores sintomas de desarranjo, todos sabem. Quem viu A noviça rebelde (beijo, querido Christopher Plummer; que você esteja no maior campo de edelweiss do universo) também sabe perfeitamente a importância de ter roupas de brincar, aquelas com as quais se corre, se dança, se canta, se respira, se sobe em árvore, se pega fruta no pé. Não existe o Grande Momento, não existe o gozo da meta alcançada, não existe a excelência da felicidade SEM o encantamento por todo o processo, por todo o percurso, por todos os detalhes, por todas as chances de beleza, por todas as experiências espalhadas: a felicidade É a construção, É o processo. A vida, guria que não cessa de acontecências e travessuras, não fica parada batendo continências, fica entoando seus dó-ré-mis em cantos inesperados, tocando violino no metrô, aparecendo com sugestões para uma live MARA, apresentando amigos eternos no Facebook, flechando amores definitivos no ponto de ônibus – não sossega, a criança. O que espera de nós? que a acompanhemos sempre, que lhe sigamos o ritmo e lhe demos a mão na ciranda, em vez de sentarmos suspirosos num banquinho enquanto ela brinca e nós perdemos o timing de vê-la crescer.

Pedras filosofais são bons pretextos, desde que mantenhamos lúcida a noção de que, no caminho, nem tudo que não reluz deixa de ser ouro.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Favor chorar


Outra daquelas adorabilidades do perfil Frases de Crianças, que aqui reproduzo:

"A Luiza [4 anos] fazia balé na escola. A mãe dela é muito séria e reservada. No dia da apresentação de final de ano, a Luiza pediu:

– Mamãe, quando eu estiver no palco dançando, você pode chorar, por favor?"

Ao contrário do desejado pela pequena Luiza, a gente ri, mas só até a página 5; sua diretíssima solicitação infantil pode soar engraçada pelo absurdo latente – pedir que alguém chore, a não ser que se seja um diretor de atuação, não é exatamente igual a pedir-lhe que bata palmas, por exemplo –, porém não deixa de ser tocante como um alerta de que amor não é suficiente: é preciso o testemunho desse amor. Miudinha que é, Luiza certamente não tem recursos bastantes para identificar as sutilezas do comportamento adulto; seu termômetro de medições limitadas provavelmente tem captado, como marcador seguro de afeto, o derramamento visível dos papais e mamães de seus coleguinhas nas apresentações, e vai convencer uma criatura de 4 anos de que não é obrigatório ser assim? Ignoro de que forma a mãe de Luiza respondeu – posso apenas suspeitar que, caso haja tentado mostrar à filha que ausência de lágrimas não significa menor orgulho, tenha ouvido como argumento que todas as mães choram no balé, o que seria um raciocínio compreensível. Sabendo uma criança que a suposta frieza de um familiar, além de pouco aconchegante, chamaria atenção entre seus pares e deporia contra seu próprio valor no "mercado afetivo", naturalmente acabaria adotando como principal objetivo o ser todo mundo.

Sei bem, ninguém é todo mundo e há meios e modos diferentes de demonstrar amor (em suas inúmeras vertentes). A questão é que, pela lógica, há também meios e modos diferentes de receber amor, e muitíssimo já tem girado o planeta em torno de como conciliar as tendências destes e daqueles. Na maior parte das vezes não se trata absolutamente de "ter razão" ou não, mas reza o bom senso que existem, sim, prioridades – e o sagrado direito de uma criança se sentir suficientemente amada é uma delas. Mamãe e papai são obrigados a chorar no balé? impossível "obrigá-los" a uma reação que só vem espontânea (salvo se forem psicopatas ou formados pelo método Stanislavski); ficam eles obrigadíssimos, no entanto, a comparecer ao balé com o mais explícito dos enternecimentos, a cumular a bailarina ou bailarino de beijos e abraços e mais beijos e mais abraços, a deixar patente nos olhos toda a sua admiração, se não for pedir muito até a puxar um lencinho. Um filho não precisa de pais perfeitos, ricos, infalíveis; mas que necessita do maior número de confirmações diárias de não ser um estorvo, que necessita da maior quantidade de provas de ter suas carências respeitadas, que necessita da mais farta segurança de contar com o suporte familiar – é coisa que não se discute.

Não apenas crianças: TODOS merecem relaxar sobre a convicção de que são vistos, acompanhados, apreciados. Obviamente não falo de grude nem de transbordamentos escandalosos, cafonas, aos quais sou a primeira a ter urticária; falo de demonstrações que podem ser elegantemente moderadas, mas têm de ser inequívocas. Se é difícil declarar o tamanho da benquerença tête-à-tête, não custa deixar bilhete na geladeira, no computador, na mochila. Se o gênio de um não é o de organizar festa surpresa para o outro, não custa montar ou patrocinar um jantarzito íntimo, em pas de deux. Se um é tímido demais para carinhos ou declarações em público, não custa segurar a mão, ajeitar os cabelos do parceiro, providenciar os pequeninos toques que mantêm a mornidão do eu-estou-aqui. Se se é sério e reservado como a mãe de Luiza, não custa mesmo assim fazer um movimento, dar um passo, adivinhar um gosto, cuidar para uma decoração especial no quarto, um passeio especial no níver, um ingresso para o show dos shows. Há manifestações mil, de todas as cores e formatos, algumas mais fáceis para os introvertidos porque desprendidas de exposições muito pessoais como um choro na escola; o crucial é manifestar, com a melhor constância e a maior obviedade. Ser até discreto, mas ser óbvio – sem alimentar o tormento da dúvida por nenhum ângulo.

Não é só no cancioneiro popular que somos todos chegados a evidências. Mais do que tudo, queremos ouvir alguém dizer – mostrar – que sim.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Puxando fios


Ao menos de acordo com nosso calendário gregoriano (na Rússia de sua época, seguia-se o juliano), completam-se hoje 140 anos de morte do fabuloso Fiódor Dostoiévski, falecido com irrisórios 59 após uma hemorragia pulmonar associada a enfisema. Para tão curta vida – talvez não tão curta dentro dos padrões oitocentistas –, tão longa obra; não preciso dizê-lo, nem seria viável fazer aqui elogio bastante. Vou me ater à insignificância do texto (do meu, claro) e destacar unicamente, por ora, uma frase dostoiévska que eu poderia adotar carinhosamente como lema lugarzito, tanto nela creio: "Não há assunto tão velho que não possa ser dito algo de novo sobre ele". Quando me acho muito e muito repetitiva, e sou, à força de rabiscar aqui alguma coisa todo dia, peço vênia e consolo à fala de Dostô, peço o respiro de imaginar que mesmo nas reiterações e repetições e reúsos e reciclagens haverá algo de fresco, algo de minimamente inédito. Uma expressão, um ângulo, uma ideiazinha que seja – mas nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia; nenhum tema passa, nenhum tema realmente passará.

(Não que eu esteja ousando comparar um mero blog à literatura em si, porém,) se Dostô não estivesse certo, a literatura há séculos não seria possível, já que os humanos temos uma quantidade limitada de assuntos centrais: a vida, a morte, o sagrado, a guerra, o sonho, a exploração, o convívio, a injustiça, a identidade, a liberdade, a arte, o ódio, o amor. Para onde quer que os textos de todo um mundão – incluindo aqueles destinados a teatro, TV e cinema – venham a fugir, disso não fogem muito; narram diferente com personagens diferentes, usam estilos distintos em abordagens distintas, e no entanto esvoaçam eternamente em torno das velhas questões, as essenciais, as célebres. O que nos cabe, e não é pouco, é ir puxando fiozinhos diversos do mesmo tecido, bordando novas figuras com a mesma matéria-prima, arrumando de outras maneiras as mesmas cores (tal qual os compositores rearranjam infinitamente as mesmas notas), a fim de que o planeta continue uma casa interessante em suas histórias e discussões. A julgar pela produção ininterrupta e sempre renovada de genialidades – dOs lusíadas aO nome da rosa, de Romeu e Julieta a Crime e castigo, de Dom Quixote a Grande sertão: veredas, da Odisseia a Ulisses –, continua.

Então o amor, o exaustivamente decantado amor, não pode ser cômico e turbulento em A megera domada, sombrio e exasperado em O morro dos ventos uivantes, ácido e pungente em A culpa é das estrelas, inocente e brejeiro em A moreninha? A guerra não é uma coisa em Tolstói, outra coisa em Anne Frank e uma terceira em H. G. Wells? A formação do eu não é incrivelmente discrepante em Jane Eyre, em O vermelho e o negro e em Memórias póstumas de Brás Cubas? Os descalabros sociais de Os miseráveis não têm contexto bastantemente dessemelhante dos de Fome e dos de Vidas secas? Que sejam iguais os fermentos: em cada mão a massa é uma; este autor vai temperar o clássico enredo de vingança com um toque de fadas e uma anedota de família, aqueloutro vai escavar o ciúme com uma pegada sufocante de tão seca e uma ambientação oriental, um terceiro vai ajustar a narração de um julgamento à oitava camoniana – e daí não sairão nem O conde de Monte Cristo, nem Dom Casmurro, nem Perry Mason, mas pratos literários em tudo avessos a seus xarás de tema. Um alívio, aliás, ter plena certeza de que nunca nos cansaremos de nós, nunca renunciaremos ao "e se fôssemos por aqui?", nunca deixaremos de encontrar aquis. Nunca, jamais perderemos a arte por falta de assunto.

(Não é de objetos que um texto é feito: é de um sujeito.)