segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

De pedras e flores


Podem me chamar de mórbida, mas há alguns dias passei um tempinho simpático caminhando no site Find a Grave (Encontre uma Sepultura), autodenominado "a maior coleção de túmulos do mundo". Gosto de histórias, vocês sabem, e era inevitável que me tornasse afeita a pensar nas tantas quantas permanecem mudas e insabidas sob silêncios de cemitério – aliás, como desamar cemitérios se tão banhados, simultaneamente, de histórias e silêncios? Esclareço aos apreensivos que não fico passeando nem montando piquenique em nenhum, meu oitocentismo não chega a tanto; chegou só até o rolê virtual pelo site pitoresquíssimo, especialmente pela seção Epitáfios Interessantes, que é autoexplicativa.

Levei horas esquecida do mundo (ao menos do nosso) entre as frases gaiatas, comoventes, fofas, turronas escolhidas pelos ocupantes dos túmulos ou por seus parentes para a hora do, digamos, check-out (obs.: todos os escritos destacados estavam em inglês; procurarei manter o – cof, cof – espírito na tradução e reproduzir os originais dos casos mais difíceis): "Eu preferiria estar em Acapulco!"; "Eu lhe disse que estava doente"; "Aqui estou e esta lápide torna isso oficial"; "Causa da morte: Reaganomia" ("Cause of death: Reaganomics"); "Ninguém nunca me escutou"; "Caminheiro, fica um pouco/ e reza por mim aqui./ Logo haverá um outro/ a ficar e rezar por ti" ("Wanderer, stay a while/ and pray for me./ Soon there shall be another/ to stay and pray for thee"); "A ideia é morrer jovem o mais tarde possível"; "Por que você está olhando para cá? Eu estou lá em cima!"; "Eu avisei a vocês que isto iria acontecer./ Muita informação ele leu/ Muita informação o aborreceu/ Muita informação – e agora morreu" ("I warned you this would happen./ Too much info he has read/ Too much info in his head/ Too much info – now he's dead"); "Não estacione a não ser que seja o Bob". Oscar de melhor epitáfio e melhor montagem para Jack Lemmon, cuja lápide diz simplesmente: "JACK LEMMON in" – e nossa visão seguinte é a da grama verdinha que cobre seu repouso, the end de todos nós.

Mas duas despedidas feitas de pedra, em especial, me enterneceram quase às lágrimas. Uma, a de um soldado de 19 anos, Joseph C. Reynolds, morto em 1864 na Guerra de Secessão americana: "Mãe, um de nós tinha de ir. Por que não eu?". Para qualquer um que não seja psicopata, não há ler uma tal declaração de amor, humildade, irmandade sem sentir um bagulhinho triste no estômago. A outra das frases mais pungentes é dedicada a uma Ronda Kay Winton Marconi, e configura o que de mais maravilhoso se pode dizer duma pessoa, acredito: "Ela poderia plantar uma pedra e fazê-la florescer". Não te conheci, Ronda, mas as menos de dez palavras com que sua gente escolheu resumi-la me fizeram amá-la por tabela; a partir do momento em que deparei com essa joia de epitáfio, inclusive, fazer a Ronda perdeu de todo o tom de vigilância solitária e recebeu ares novinhos e frescos, muitíssimo mais apropriados para um mundo que NÃO precisa de mais pressão e mais armas, precisa sim de criaturas com dedo verde metafórico que extraiam e colham o melhor de tudo. Bem-aventurados os que veem potencial florescente na pedra; deles são as mãos que botam a terra o mais aparentada possível do céu.

Eu? não podendo pretender que um dia mereça algo semelhante ao epitáfio nobélico de Ronda Marconi, já me daria bem por contente com a versão simples e honestíssima gravada na tumba de uma chamada Viola Spurlock: "Ela tentou". Ou qualquer coisa vizinha – quanto mais amodestada, melhor – à marotice do genial Billy Wilder: "Sou um escritor, mas afinal ninguém é perfeito".

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Ouro nativo

Consta que 21 de fevereiro foi escolhido como Dia Internacional da Língua Materna devido ao horror vivido nesta data, no ano de 1952, em Daca, capital de Bangladesh. Bangladesh nem sempre foi assim chamado; era, antes, o Paquistão Oriental, que se revoltou quando o governo do Paquistão declarou o urdu como (única) língua oficial do país – sendo que a maior parcela da população morava na porção oriental e tinha como língua materna o bangla/ bengali/ bengalês. Ora, nada mais justo que o bengali fosse PELO MENOS reconhecido como um dos idiomas nacionais. Foi o que acharam os alunos da Universidade de Daca, que montaram protestos e comícios robustos, em franco desafio à proibição de reuniões grandonas decretada pelo governo (vocês sabem como essa coisa de pensamento, especialmente relacionada a universidades, costuma amofinar chefias de Estado incompetentes e arbitrárias). No fatídico fevereiro de 52, a polícia abriu fogo contra esses comícios, com os resultados que podemos imaginar – e foi em honra aos mártires paquistaneses do amor ao idioma de berço que a UNESCO topou acatar o projeto de fazer do hoje, 21, a festa das primeiras palavras que nos embalam e nos cantam.

Por adequadíssima coincidência, calhou de ser hoje também aniversário de W. H. Auden, autor anglo-americano que foi dos maiores do século XX e estaria completando gloriosos 114 anos. Coincidência adequadíssima porque é de Auden uma frase muito própria às homenagens da data: "Um poeta é, antes de mais nada, uma pessoa loucamente apaixonada pela língua" – na realidade, fique como adendo que onde se lê língua pode-se também ler (mais oceanicamente) linguagem, uma vez que o termo original language se presta à dupla tradução. E não é fato que poetas, grosso modo e lato sensu, são perfeitamente isso? gentes apaixonadas, tomadas dum amor de perdição pelas linguagens que exploram? Pois eu iria ainda mais ao fundo do específico, aproveitaria a carona do calendário e, no caso dos poetas verbais stricto sensu, declararia que cada um deles é sobretudo uma pessoa loucamente apaixonada pela língua materna.

Não é que um poeta não possa se expressar e fazer poesia em outro idioma que não o de seu nascimento; pode, claro, e muitos o fizeram. Mas uma coisa costuma ser aprender cedo e até dominar, com fabulosa proficiência, uma língua que não é a materna (ou uma das maternas), e outra coisa é ter uma língua tão absolutamente entranhada em si, desde as primeiras memórias, que o movimento mais natural de exclamações, orações, xingamentos, declarações – tudo que vem mais do coração ou do fígado – vai ocorrer sempre nessa terra verbal tão conhecida, antes de sequer ter a chance de atingir as camadas de conhecimento a ela superpostas. Por mais fingidores que poetas sejam, é indiscutível o componente emocional chovido sobre a obra; (creio que) acima de tudo: é fundamental o conforto sentido pelo autor no ambiente vocabular em que cresceu – e é do ponto de vista técnico que o digo. Se uma língua foi suficientemente vivida para dar ao escritor todas as lições iniciais do dito e do grafado, inevitavelmente deu-lhe também o maior glossário de que dispõe, o mais introjetado conjunto de regras, o maior conjunto de regras a serem quebradas com maior intimidade e segurança. Entendemos de nosso idioma original mais do que gramáticas e sinônimos, entendemos intuitivos como usá-los ou não usá-los, o que se pode subverter e o que não, o que tende para o descolado ou o cafona, qual o mecanismo essencial de construir ou esfacelar verbetes. Décadas a fio que estudemos uma segunda, terceira, quarta língua não materna, após termos sido embalados no colo só de uma, não serão bastantes para reproduzir esse à-vontade confiante e sentimental, tanto quanto nenhum tratamento nos altera o DNA e nenhuma mudança de vida apaga mera e simplesmente a história pregressa.

Simbionte que desde cedo se nos amalgama, traje que veste os sonhos, extensão da natureza que assumimos, a língua de infância é o quê de bruta mina e de ganga (im)pura que há de estar colada em cada pequeno esplendor nosso – assim como um bocaducho dela vai sempre descer conosco à sepultura.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Missão Marte


Então a sonda Perseverance (adorei o nome e fico dizendo em voz alta: parrrsavírance!) pousou lindamente em Marte com engenho e arte, já diriam Camões e Drummond. Vai lá ficar o roverzinho correndo bons 20 quilômetros por uns dois anos, à cata de sinais de vida em companhia do parceirito Ingenuity, um robô helicóptero que fará jovens voos exploratórios de 3 a 10 metros de altura. Parrrrrsavírance deve perfurar o solo marciano, recolher, acondicionar e lacrar amostras de rochas, que provavelmente chegarão até nós quando uma planejada missão de 2026 for buscá-las – se será missão tripulada não sei dizer, não acredito já disponhamos de tecnologia para isso; mas que seria coisa bacana de ver com pipoca, seria. Eu, que em julho de 1969 ainda era uma das alminhas fofíssimas que brincavam na Escola da Vida de Soul, gostaria de ter agora a chance de acompanhar ao vivo esse segundo grande salto para a humanidade.

Enquanto os robozitos se aclimatam e desfazem as malas no quintal vizinho, ocorreu-me preparar uma pequena lista de encomendas para que, nas vaguinhas do expediente, garimpem pelos corredores do Planeta Vermelho, se não for abuso. Nada luxuoso não, só bricabraques que por acaso se extraviaram de nossas plagas azuis, como Bics que um dia foram e nunca voltaram; quem sabe não andam por lá, ou quem sabe não continuam fabricados em outra órbita depois que aqui saíram de moda ou de linha? Na dúvida (e na esperança), segue o rol devidamente blutufado para nossos heróis:

* Uns caramelos Nestlé de saudosa memória, que pelo menos segundo as leis da Terra grudavam no dente de maneira impossível;

* Um queijito cremoso Alouette sabor ervas finas; dava a rodo nos mercados e não mais que de repente escafedeu-se, transposto, talvez, para mercados mais aléns;

* Um ou dois celulares de botãozinho, já que o planeta anda em processo galopante de smartphoning e eu continuo com rematado horror às telas touch;

* ALGUÉM de qualquer formato, ou composto de qualquer substância disponível no universo, que me mate a dúvida cruel de muitos anos: qual PITOMBA de comercial antigo tocava aquela música "One more kiss, dear", da trilha de Blade runner? (Por gentileza, terráqueos, não me digam que nenhum; conheci a canção em alguma propaganda, eu sei, eu sei!);

* Algum sisteminha desobsoletador dessas máquinas que de 4 em 4 minutos ficam mais gagás. Em Marte não tem capitalismo (ainda) não, tem?

* Mais livros da George Sand: a produção terrestre é INSUFICIENTE, pronto, falei;

* (Nunca fui fã e continuo não sendo, mas em consideração aos que foram sempre:) um episódio satisfatoriamente filmado que salve os garotos da Caverna do Dragão, afinal;

* Um McArábia da Copa de 2002, pleeeeeeeease!

Nem é tanto assim, queridões; façam seu melhor, sei que conseguem, gorjeto bem. De repente já deixo até agendado para daqui a meia década um uber space que resgate alegremente os pacotinhos, sem que vocês precisem dar pinta no Rio (perigoso demais, eu compreendo). Qualquer item do pedido que encontrarem em prateleiras siderais – e que fizerem chegar a esta que vos blutufa – já vai configurar serviço 397.876.445.982 estrelas.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Uma vontade de estar aqui um pouco mais

Lindo quando a gente se vê num poema, como este da paulistana Mariana Ianelli: "Ela não quer fechar os olhos, é uma vontade/ De estar aqui um pouco mais, só mais um gole,/ É essa sede de ver que não se deixa adormecer,/ Vontade de que a noite transborde, e seja agora/ Mais um jasmim, mais um azul, mais uma volta/ O corpo já boia no ar entre dois braços, é uma criança/ Que dorme, mas é de olhos abertos que ela dorme...".

Por que me vejo? Porque conheço devidamente bem "essa sede de ver que não se deixa adormecer", e tanto e de tal forma que fico não sendo exemplo para ninguém, já que não raro sacrifico horas fundamentais de sono pelo impulso de brincar mais, um pouco mais. Brincar, sim; ocasionalmente pode ser até questão de trabalho (em vida de professor não é improvável que seja), porém o nervoso maior e mais constante é similar ao infantil, guardadas as proporções – não um frenesi de fazer batalharem super-heróis de plástico ou de desfilar bonecas, mas em todo caso uma inquietação por coisas legais, que parecem não caber de nenhuma forma razoável em meras 24 horas. Em especial por não serem 24, ó roubo!; há o tempo das obrigações, há o tempo do descanso inconsciente. Qual acaba garfado? O último, claro; o que precisamos fazer é o que precisamos fazer, sem grandes negociações: roupas não se lavam sozinhas, almoços não brotam espontâneos na mesa, atividades escolares não se elaboram nem se corrigem autônomas; mas com o sono sempre se arranja alguma conversa, algum cambalacho, tirando-se umas aparas daqui e dali para esticar os projetos da vigília. O sono, porque mais nosso, mais elástico.

Vem desde eu criança essa luta contra a gravidade das pálpebras, feito a menininha do poema; dizem que nos primeiros anos, se acontecesse de eu cochilar à tarde, reinaugurava-me de péssimo humor e de trato enjoadíssimo – não só porque o reinício no meio do dia me deixava aturdido o relógio interno, mas porque era CLARO desperdício de lápis de cor, TV, brinquedo, quintal. Como assim dormir, em detrimento de tantas possibilidades acordadas? Mudei pouco nessas paranauíces: verdade que os cochilos não me mal-humoram como antes, nem são as mesmas (óbvio) as esferas do brincar, porém a resistência ao sono se manteve; aliás evoluiu, conforme lhe foram adultamente evoluindo os recursos para avançar pela madrugada sem outros adultos mandando ir para a cama. Livros como brinquedos, computador como lápis de cor AND imenso quintal maior que um mundo, TV ainda como TV (se bem que um milhão de canais mais gorda) – de que maneira persuadir o cérebro a cessar de explorações e correrias quando a noite silencia tudo e o planeta é dele, só dele? Então acorrem as duas, as três, as quatro badaladas antes que os neurônios se animem a cessar a valsa, embora se arrependam recorrentemente quando horas depois levantam imprestáveis, tornados abóbora.

A quem desinteressar eu possa, não recomendo o sistema, que tem o primor de ser péssimo para a memória, a concentração, o vigor, a agenda, a saúde, o apetite; se ainda pratico é porque a sede de ver vira rápido, rápido um alcoolismo moral de curiosidade, sôfrego de mais uma dose de internet, um gole do programa, uma página, uma hora. Estamos trabalhando, no entanto, para pegar esse vício no indesperdício e melhor desatendê-lo, já que encarna o desperdício ele próprio; a exaustão, as olheiras não são certamente a melhor estrada para quem se toma da vontade de estar aqui um pouco mais – muito mais. Para mais um jasmim, mais um azul, mais uma volta (e outras, e outras, e outras neste carrossel da Terra), estou ciente: nada tão sensato quanto estacionar a carruagem num hotelzinho e aguardar o sol para seguir viagem de olhos bem abertos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Tudo que aceitamos sobre nós

Se viva, a escritora e ativista Audre Lorde completaria hoje 87 anos. Entendo celebrá-los compartilhando uma sua frase linda, linda e empoderadora como o quê: "Nada que eu aceite sobre mim pode ser usado contra mim para me diminuir". Acordemos com um barulho desses.

Evidentemente Audre não está "liberando", com seu dito, a ação de bullyingadores e agressores tais, sob algum falso pretexto de que, se a vítima é desconstruidona das ideias, não se sentirá atingida. Seria uma interpretação absurda, que atribuiria a efetividade do xingamento à falta de autoestima dessa vítima e não à crueldade do xingador mesmo (algo como a lógica de encarar a pessoa estuprada como responsável por seu próprio estupro). Uma leitura tão mais nonsense quanto mais nonsense é a premissa da qual ela parte – a de que um agressor só se baseia em características "reais" do agredido (dados como a origem, a cor da pele, a orientação sexual etc.) para atacá-lo, negativando o que não é negativo, mas não INVENTA do zero alguma injúria verdadeiramente escabrosa. É assim que funciona? Todos sabemos que não é assim que funciona, não vigora nada parecido com uma "ética do insulto"; gente baixa o suficiente para ultrajar alguém por puro ódio não se constrange de criar fake news as mais disparatadas e sórdidas, a respeito das quais inexiste resiliência possível. Uma coisa, por exemplo, é ser bruxa e não se atormentar quando um infeliz tenta fazer disso uma ofensa; outríssima coisa é ser bruxa e ver que o infeliz anda espalhando que seus "feitiços" prejudicam famílias, animais, crianças. Uma coisa é lidar com criaturas ociosas e recalcadas; outríssima coisa é lidar com criminosos.

Feita a ressalva, vamos nos ater à grandeza da frase da escritora – um elogio ao fortalecimento do ego contra idiotices circundantes. Se a provocação envolve o emprego pejorativo de um nosso componente real, cabe muitíssimo aí, como antídoto, a autoaceitação mencionada por Lorde: me abraço como negro, como gay, como trans, como portador de tal ou tal sotaque dessa ou daquela região; abraço meu peso, minha altura, minhas curvas, minhas rugas, meus sinais, minhas presenças e ausências, minhas potências e fragilidades; abraço minha religião, minha história, meu trajeto, meu trabalho, meus ascendentes e descendentes, minhas incapacidades e vocações; e, em me abraçando afetuosamente com tudo que tenho e sou, me dialogo para dentro, me dou a chance de desabafar com honestidade, para mim, sobre o que me incomoda porque me incomoda e sobre o que me "incomoda" apenas porque parece incomodar os outros, ou dar-lhes pretexto de descarregar para meu lado seus próprios bloqueios. Não sendo viável mastigar e digerir tantas questões em solidão, me digo que tudo bem e me conduzo carinhosamente à terapia que melhor encaixe em minhas necessidades, até que eu e mim estejamos em suficiente paz e só levantemos ombros indiferentes a quem quer que se dedique a estorvar nossa relação.

NÃO se trata, diga-se, de passar paninho para nossos defeitos e não nos deixar afetar por nenhuma crítica (que seja exatamente isso, CRÍTICA, não ataque). De jeito nenhum; o ego legitimamente vitaminado é menos, e não mais narcisista, como um organismo que fica robusto de massa magra em vez de gordura. Narcisismo é colete à prova de balas vestido pelo eu, porém de tão péssima qualidade que qualquer cara feia, qualquer pisão no pé o perfura; enquanto a autoestima bem nutrida, bem moldada, é vestimenta confiável que pode até sentir o impacto de influências negativas, mas não se deixa avariar e muito menos destruir. Faz-se emergencial, todos os dias, alimentar esse amor de si – que, como todos os amores dignos do nome, não é cego nos percalços nem exageradamente complacente ou indulgente, sem com isso ser vulnerável às pressões externas tampouco. Amor é coisa de resolver entre um amado e outro, tendo no máximo um terapeuta no meio.

Nós & nós – infinitos enquanto maduros.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Mamihlapinatapai


Não é bonita essa palavra que acabei de aprender, pertencente à língua yagan (idioma indígena da Terra do Fogo que tem atualmente, como falante, uma única pessoa)? É termo preferencialmente voltado para a esfera romântica, mas combina à maravilha com a situação política de boa parte da história do Brasil como a conhecemos. Explico: mamihlapinatapai significa "um olhar trocado entre duas pessoas no qual cada uma espera que a outra tome a iniciativa de algo que as duas desejam, mas nenhuma quer começar". Familiar ou não? Realmente não sei como nenhum (creio que nenhum) outro sistema linguístico do planeta gestou palavra de semelhante significado, principalmente nosso português brasileiro, situado tão na vizinhança geográfica e indecísica.

Não pretendo de modo algum desmerecer todas as lutas que foram e continuam sendo aguerridas na trajetória daquele Brasil raiz, concebido e levantado por nós e nossos ascendentes – o Brasil que é e que batalha para ser, para assumir-se, para libertar-se. Também não pretendo sugerir irresponsavelmente que, neste momento de coronavirulência desenfreada, as pessoas da resistência nos exponhamos em manifestações e aglomerações de pressão ao "governo". Reconhecer, porém, que há entre nós um país que já pelejou consideravelmente, e um país que só devido à pandemia deu um tempo de estar nas ruas pelejando ainda mais, não implica negar que tenhamos "encostado" em nós um outro país perplexo, perdido, pasmacento que fica exatamente como descreve o termo yagan: entreolhando-se em meio ao caos para sondar a quem cabe a iniciativa. Vou nem contar, nesse processo, os abutres que deveriam proteger-nos da calamidade e são precisamente nossos maiores inimigos – sim, eles delegam e culpam uns aos outros, mas em nenhum momento com a remota intenção de acertar, de pegar alguma parcela de responsabilidade, apenas de esquivar-se e safar-se; afinal, abutres. Estou contando somente brasileiros propriamente ditos (não vampiros, sanguessugas, canalhas acoplados à nossa terra na esperança de ressecá-la inteira e vendê-la para o ferro-velho), brasileiros reais, normais, de propósitos limpos, atacados pelos parasitas e no entanto paralisados diante da ideia de reagir a eles.

É compreensível; temos um largo, infelicíssimo histórico de chibata, tortura, coronelismo, milícia, represália, "circulando, circulando, nada pra ver aqui". Massacrou-se uma quantidade absurda de gente que atrapalhava a construção do mito (horrivelmente falso, como todos os mitos) da brasilidade passiva e dócil, aquela que dá uma boiada pra evitar a treta. Massacrou-se, da mesma forma, a história dessa gente que ousou peitar o sistema, e de modo geral se assumiu o ponto de vista dos esmagadores para desencorajar futuros malês, Zumbis, Dandaras. Como estranhar que tantos de nós estranhemos a posição de luta, preferindo nos salvaguardar na individualidade em vez de nos envolver em coletividades (partidos, movimentos, quilombos, cooperativas, sindicatos, ocupações) que os parasitas difamam e perseguem? Não é nem um pouco de assombrar que, após séculos de persuasão para fechar a boca, seguir com a vida, fingir que não viu, deixar pra lá, boa parte do povo estoure de indignação mas se limite à troca de olhares – encarnada nos esbravejares de barzinho, nos comentários inócuos de rede social, nas vagas reclamações em família. Embora não seja culpa desse povo privado de informações sólidas e do tempo de consumi-las, não se pode isentá-lo da responsabilidade que, queiramos ou não, todos herdamos; o Brasil nos calhou em sorteio e já se faz tarde a hora de chuparmos decentemente esta manga.

Precisamos, sobretudo (seja isso providenciado pelo próximo governo de esquerda, amém), de educação política desde os primórdios: como o país funciona, como se estrutura, o que as leis realmente nos asseguram, a quais organizações e instâncias podemos recorrer quando ninguém nos assegura o que as leis supostamente nos asseguram, que outros degraus podemos subir quando essas organizações também falham, para quais e-mails podemos escrever incessantemente, que eventos podemos combinar internauticamente para botar pressão relativa a projetos que exigimos ou rejeitamos. Precisamos que brasileiros descubram por que convém fortalecer e apoiar sindicatos, por que a mídia deve ser regulada – e por que isso nada tem a ver com censura, é ao contrário oposto a ela –, de que maneira se montam eficientes revoluções também no silêncio que não é alienado, na desobediência que tem claras direções, no boicote que se torna eloquente no mercado e nas urnas. Precisamos de conhecimento, de objetividade, de logística, de opções. De alternativas.

Um pelo outro, cabe a nós olhar; mas não precisamos continuar olhando um para o outro pra ver quem começa.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Caminho de neve

Às vezes gosto de empreitar enredos ficcionais a respeito de pinturas das quais desconhecemos o contexto, como uma espécie de exercício reverso em que se ilustra com palavras a imagem. E por que não homenagear por tabela um aniversariante do dia – o fazedor de 180 aninhos e pintor impressionista Armand Guillaumin? Amigo de Cézanne, Pissarro e Van Gogh, porém jamais tão reconhecido quanto eles (no caso do querido Vincent, estou naturalmente falando do renome póstumo), Guillaumin teve a extraordinária sorte de, aos 50 anitos, ganhar 100 mil francos na loteria, o que lhe permitiu a felicidade de largar o emprego formal para mergulhar exclusivamente na arte. Não posso dizer que não bateu invejinha.

Já não invejo a trajetória da pequena personagem de Hollow in the snow, tela gerada pelo artista em 1869 e acima reproduzida. Para mim, é a jovem Vivienne Morin que vai pelo caminho, pontuando de vermelho a paisagem azul (esse vermelho específico é o do lenço em sua cabeça – seu melhor lenço –, embora os cabelos não destoem tanto do calor do tecido e sejam de um belo castanho arruivado. Ela não confessaria nunca que se orgulha docemente desses cabelos, desse veludo exuberante que considera sua única beleza. Mentira, não é de nenhuma forma a única; apesar do rosto já excessivamente cansado para meros 27 anos, ou até em parte pelo cansaço que os adoça e melancoliza, que olhos, que olhos! tem a moça, grandes e xarás de cor da amada trança. Que pena não os podermos ver agora). Para onde vai Vivienne, solitária como a árvore que já mal aguenta avistar todos os dias? Vai do trabalho, em casa da família Badeaux, para a casita onde moram seu pai Donatien e seu irmão Jérémy. Nossa heroína exausta dorme na residência dos patrões; no entanto, como o velho Donatien está em rápido declínio de doença, e é por todos os ângulos pesado demais para os magros 16 anos de Jérémy, ela atravessa diariamente 5 quilômetros de ida e 5 de volta para dar força e direcionamento ao caçula.

Vivienne se sente exatamente como essa árvore: débil e insuficiente no meio de um estradão ora quente de rachar os ossos, ora congelante e monótono de anil, como recentemente tem estado (Vivienne gosta dos tons de outono, que ela mesma representa; odeia frio e odeia azul. Ninguém sabe que ela odeia azul, tanto que sua patroa lhe deu o vestido usado com que ela ora enfrenta o trajeto de neve. Por isso o lenço vermelho: uma rebeldia muda). As duas, a mulher e a árvore, são débeis e insuficientes, mas são as únicas disponíveis em suas categorias, e resistem às neves e aos quilômetros – no que toca à moça, também aos desgostos fundos, fundos: Jérémy é um bon garçon sem dúvida, e ainda assim incapaz de lidar com o père Morin, porque impaciente, inseguro, infantil; e Donatien é daquelas presenças amarguradas e tóxicas que drenam o ambiente, drenam as vidas, as almas. Andar os 5 mil e tantos metros não é apenas meio de transporte, é meio de adequação mental; Vivienne não se incomoda de rumar, mas não quer chegar, chega somente porque tem o percurso para ajeitar as gavetas íntimas – e somente retorna ao serviço porque tem o mesmo percurso para regrudar os cacos.

Vivienne ama? Ela sinceramente não sabe; reconhece que Gilles, um seu colega de emprego na casa dos Badeaux, lhe dirige atenções interessadíssimas – porém como avaliar se são amores? Nossa protagonista de tela perdeu a mãe aos 11 anos, não se lembra de ter presenciado nenhuma ternura entre os pais, labuta desde os 15 numa família em que só percebe uma educada indiferença; lê pouco, nunca leu um romance, nunca lhe contaram histórias arrebatadas; que escola de afeto frequentou? Pelo bocadinho que captou da vida, desconfia que sim, aquilo com Gilles pode ser amor, pelo menos parece. Seu pânico de estimação: afundar mais e mais em seu caminho de inverno, caso se una a Gilles e o incorpore ao conjunto de homens que a usa, manobra, consome, esgota, respira.

Lamento comovidamente não ter condições de saber se Guillaumin aprovaria minha versão para seu Hollow in the snow (embora creia com honestidade que a heroína ficcionalizada combina macio com o título). Só me deixem aqui com um pensamentozinho de consolo: que, se o querido impressionista pintasse o casamento de Gilles e Vivienne, não a faria enfeitar-se com (mais) nada que fosse azul.