segunda-feira, 21 de junho de 2021

Pescaria


Achei lindinho que a poeta, cantora e paisagista Natalia Barros tenha dito, num dos poemas de seu livro Nuvens ornamentais (aliás, que título adorável): "escrever é uma pescaria/ se voltar com o peixe,/ escrever é isso/ se não voltar com nada,/ escrever é isso". Tão simples, tão real; escrever é exatamente isso, ou seja, exatamente nada exato, nada garantido, nenhuma ciência de seguir fórmulas e ajuntar quantias – salvo, talvez, na produção de redações de Enem, que são sim mui constantemente medidas, pesadas, roteirizadas como um cálculo estequiométrico (ah, quantas saudades NÃO tenho desses terrores químicos!). Em textos assim pendentes para o técnico, não há que esperar o peixito abocanhar a isca: têm-se os dados, organizam-se os dados, aplicam-se os dados, sem necessariamente a expectativa da beleza e apenas com a da coerência; é o escrever-tarefa, o escrever-função – desvinculado de prazeres e lazeres, resolvido na base da rede utilitária e não na do caniço paciente, demoroso. O escrever literário já é distinto e adota o caniço, visto que teoricamente não é obrigatório nem demanda imediatismo e volume; se retorna com o samburá abastecido e muitas linhas escritas/fisgadas, muito bem, e se retorna com o cesto e o arquivo vazios após um longo silêncio à beira d'água, faz parte. Tende apenas a ser muito mais doloroso o silêncio da página vazia, considerando que a pesca não configura um esforço de criação e, por isso, pesam consideravelmente menos suas ausências.

Mesmo o silêncio da página vazia é gritante no processo, entretanto, porque a ausência que representa é ilusória; nem sempre os peixinhos do escritor se dignam fazer-se visíveis. Escrever literariamente é um derramamento de tempo, ninguém pode evitá-lo, e ninguém pode evitar que se continue escrevendo longe do lápis, da caneta, do teclado – que se digite mentalmente no banho, que se anote sem mãos uma ideia pinçada num filme, que se voe para milhas away durante uma conversa a fim de amadurecer um embriãozinho ocasionalmente inserido. Na realidade a pesca escritora mal chega a ser ir e voltar: é uma situação de permanência. De residência. De demência, quase – uma vez que o infeliz sujeito a essa sisifidade não raro passa o dia subindo pedras, ainda que pedras imaginárias, para à noite vê-las ruir. E que não se suponha menos desoladora essa perda de presas imateriais; ser obrigado a renunciar ao que ainda não se escreveu, mas que por algum motivo recaiu de luminoso em desanimador, escapa bem pouco de ser uma espécie de miniluto mental, um vácuo duma parte nossa que poderia ter sido.

O escritor brinca de e trabalha em querer e fugir ao querer – o tempo todo. Verdadeiramente o tempo todo. Tem vontades de temas, luta intimamente contra temas que não deseja fisgar mas que o abocanham (sim, não faltam Jonas temáticos sendo arrastados por essas Moby Dicks), sonha ver-se roteirizado mas se arrepia de pensar em roteirizar-se – e se arrepia mais de pensar em infiéis que o roteirizem –, cansa de escrever e quer só lerlerlerler, sendo porém que no leeeeer acaba pescando mil e tantos outros motes e enredos que o atormentarão e puxarão a linha até materializar-se. Vive enfim tanto na busca quanto no ser buscado, aproximando-se afinal (se é de pesca que se trata) muito mais de um Tubarão way of life do que daqueles filmes-de-fazer-as-pazes-com-papai-na-casa-do-lago em que se senta placidamente na margem ou no barquinho e se sustentam conversas profundas entre o farfalhar de árvores ensolaradas.

Seja onde for que o escritor navegue atrás de seus tesouros brutos e líquidos, vamos sempre precisar de um barco maior.

domingo, 20 de junho de 2021

Mãos ao alto


Faria hoje 116 anos a corajosa escritora norte-americana Lillian Hellman, que na juventude chegou a trabalhar como crítica literária no jornal New York Herald Tribune e como leitora de roteiro (ou seja: selecionadora dos roteiros a serem lidos pelos produtores) na MGM. Seu primeiro texto para teatro estreou na Broadway – com grande sucesso, embora a peça sobre duas professoras duma escola feminina falsamente acusadas de viver um namoro tenha sido proibida, por exemplo, em Boston, Chicago e Londres – quando a autora contava frescos 29 anos. Por aí já se via a força da guria, que, junto com outros cabeçudos como Dashiell Hammett (seu conje por três décadas), Ernest Hemingway e Arthur Miller, lutou firme contra o nazismo; Hellman inclusive escreveu duas peças antinazistas, em 1941 e em 1944. Nos anos 50, Dashiell e Lillian entraram para a lista de caça às bruxas de Joseph McCarthy, aquele escroque sobre o qual me faltam palavras; ambos depuseram na CPI de "atividades antiamericanas", e o escritor foi preso por seis meses após se negar a delatar colegas. Como é que os escritores reagem a episódios importantes e traumáticos? – escrevendo, naturalmente: em 1976, décadas mais tarde portanto, Lillian lançou o livro Scoundrel time, "Tempo canalha" em tradução literal e A caça às bruxas na adaptação oficial para o português; é dessa obra o trecho que destaco como extrema e infelizmente resumitivo do que temos encarado (vai aqui uma versão aproximada): "Vidas estavam sendo arruinadas e muito poucas mãos se levantavam para ajudar. Desde quando você tem de concordar com as pessoas para defendê-las da injustiça?".

Pois é, Lillian: desde quando? Estranhissimamente, parece que desde sempre, ao menos na concepção dos que não sofrem ou raramente sofrem injustiças – em geral por andarem na calçada do status quo, abraçando a passividade na base da convicção ou da covardia. Até entendo de coração aqueles que o fazem porque são fáceis vidraças, porque estariam na linha de frente (como vítimas, claro) da paulada, execração e tortura a qualquer oscilação do "equilíbrio" social, a qualquer entornadinha de caldo; é legítima defesa que não se pode deixar de compreender empaticamente. Mas aqueles que gozam de alguns privilégios de cor, classe e afins? aqueles que costumam permanecer ao abrigo de perseguições, que tendem a não ser enxergados como alvos preferenciais, que teriam maiores oportunidades de influir contra decisões problemáticas e de brigar por soluções mais globalmente decentes? Como não babar de indignação voltadamente para essas criaturas que assentam, moram e se balançam em berço esplêndido, fingindo tralalalá que o mundo são cotidianos de Instagram e séries de Netflix, e vai girando hi-lili-hi-lili-hi-lo, e não existem nele gritos a serem atendidos nem barbaridades a serem combatidas ANTEONTEM?

Não, os isentões que estão longe de se encontrar em situação de lesa-pescoço (na hipótese de levantarem a voz contra desmandos) não têm desculpa. Sei que as coisas andam polarizadíssimas, que muitos raciocínios foram inutilizados no processo e que por isso, lastimavelmente, qualquer nuance passou a ser inenxergável pelos fanatizados, o que basicamente torna "comunista" todo ser humano favorável às vacinas, à ciência, à máscara, ao isolamento, ao auxílio emergencial e à série de assemelhados que deveriam ser simples consenso humano. Pouco importa. Sério MESMO que pessoas em tese escolarizadas, com todos os recursos e informações disponíveis, podem sentir-se no direito de não se pronunciar contra um genocídio, de não criticar uma política assassina de gentes e ecossistemas, de não espumar de ódio público diante de morticínios promovidos por agentes do Estado, diante de ataques à saúde, à educação e a tudo de mais sagradamente humano – porque não querem ser acusadas de esquerdistas? É isso? Então esse ridículo pudor, esse receio poltrão da opinião de outrens desconhecidos até, tem licença de sobrepor-se à defesa da vida, da justiça, da lógica?? Sorry; que os privilegiados isentões tentem justificar-se até rebentarem de ficar roucos: não há justificativa. NÃO HÁ passação de pano cabível para gente que finge demência ante a realidade acachapante e passa os dias de cara enfiada em vídeos de bichinhos fofos, como se não estivéssemos vivenciando a maior tragédia coletiva da história brasileira; como se ALGUÉM dotado do mínimo de instrução e sanidade não conseguisse ver a desgraça, a miséria, o desemprego, o desmatamento, a destruição que acenam com holofotes de LED na janela de nossa casa, debaixo de nossos olhos.

"Âââin, mas se fosse um governo de esquerda eu queria ver você criticar também, até parece." Oi?? Amorildes, a esquerda se critica até demais, mete escrúpulos inclusive onde não devia – "discute" consigo mesma, por exemplo, se a doutora Nise não foi vítima de machismo, ó céus (hum, deixa eu pensar: não) –, quem dera se tivesse UM graminha a mais de corporativismo. Se eu criticaria abertamente possíveis desmandos de um governo de esquerda? óbvio que sim, pipocas; e continuaria sendo de esquerda pleníssima, sem o menor receio de que me confundissem com alguma direitosa por aí, o que eu saberia de antemão absurdo. O que é certo é certo, o que é da Constituição é da Constituição, e eu realmente não sei como pitombas pode haver dúvida a respeito do que devemos proteger; sempre esteve tudo límpido, translúcido, para quem quisesse se entregar ao bom senso. Dando-se o caso de aquilo que é pró-humano começar a oscilar conforme as conveniências, já temos um problema de fábrica.

MUITO nos separa – fato; porém a natureza, o planeta e o nome científico da espécie nos juntam o suficiente para que todos estejamos nas mãos de todos, e todos tenhamos os demais nas mãos.

sábado, 19 de junho de 2021

Pelas 500 mil perdas (e com a licença de Castro Alves)


Existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e covardia!...
E deixa-a transformar-se na funesta
Mortalha de um país em pandemia!
Já foi um nosso símbolo; só resta
Ser, hoje, de homicídio alegoria.
Tragédia. O povo chora, chora tanto,
E o mundo nos contempla com espanto.

Auriverde pendão de minha terra
Que abraça um breu brutal e sem bonança;
Que às mãos desses facínoras se aferra
– Às mãos que patrocinam a matança:
Tu, que não ouves mais quem clama e berra
Contra o carrasco que entre mortos dança,
Antes virasses resto, cinza, tralha
Que servires de escudo a essa gentalha!...

Mortalidade atroz que um povo esmaga!
Desaba sobre nós o plano imundo
De quem se mostra a verdadeira praga,
Matando-nos segundo por segundo.
Mas é horror de mais!... e nada apaga
Perder os que adoramos mais que o mundo!
Haia! leva o bufão para o julgares!
Brasil! vamos honrar nossos milhares!

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Poeira de estrela


Há exatinhos 85 anos falecia o romancista, contista, dramaturgo e ativista político russo Máximo Gorki, fábrica ambulante de citações, entre as quais destaco uma que me diverte imenso: "Deixar os outros espantados é uma coisa que alegra, se somos diferentes deles". Há mesmo sempre quem tenha falado ou venha a falar dos menores desdobrares de sentimento que carregamos em nossos cantinhos psicológicos, e devo agradecer ao agudíssimo russinho o haver iluminado essa esquina, essa espécie de vaidade engraçada – o desejo de boquiabrir, até se possível escandalizar, pessoas de quem diferimos prazerosamente. Ou o leitor queridão vai dizer que está imune a essa farrinha da autoestima? No lo creo. Somos parece que todos assim, adolescentes expandidos; gente normalmente apavorada de chocar seus pares e, em simultâneo, animadíssima de sapatear os próprios valores na cara da sociedade oposta. Gostando ou não, algo em nós acaba se legitimando, se afirmando pelo contraste – particularidade que já terá dado o empurrãozito definitivo, para bem e para mal, de muita subjetividade que caminhava no muro.

Não posso deixar de confessar: apesar de ser pouquissimomente dada a enfrentamentos e bastante inimiga de embates, tenho lá meu contentamento muito íntimo quando o povo com quem me identifico ZERO, e a quem não admiro, me aponta, pensa, menciona, "acusa" comunista, petista ou similares. É na realidade uma honra, e me encanta não só pelos títulos lindões que acaba me rendendo como pela sensação (sensafato) de que estou dando na cara de todas as concepções tortas e egocêntricas de humanidade que os acusadores adoram/adotam. Claro, QUEM sou eu para abalar em algum mísero milímetro todo um sistema estrunchado de pensamento (não, não é arrogância, é obviedade: dizer que, ou agir considerando que uma parte dos seres tem mais direitos que outra e deve receber privilégios dispensa qualquer consideração; não há debate possível). QUEM sou eu para desmontar convicções cretinas que só Freud e Chomsky explicam. Não sou ninguém além duma poeirita desse universalhão – e entretanto, naquele glorioso momento de ser tachada comunista petralha esquerdalha mortadela, sinto-me a designada representante da Força e sou todos os jedi, todos os passados e futuros defensores de uma ordem global igualitária. Não sou absolutamente eu (OK, sou eu um bocadinho) abalando Bangu e chocando opiniões, e sim um fragmento da Causa falando pela Causa e ajudando a que não haja nenhum instante em que ela não esteja por aí, absoluta, vaga-lumeando.

A coisa se torna mais divertida pelo fato de eu não ser exatamente o que se espera de uma, digamos, guerrilheira: jeito de boa aluna, de quem vai morar discreta e docemente no status quo com um sorriso de obediência, sem se atrever a questionar The man. Pois não me lembro de um milissegundo em que não o tenha questionado, de um microperíodo em que não tenha sido rebelde insuspeita e inquieta por trás do sossego que nunca foi sossego – foi sempre introspecção, apenas –, e lamento retoricamente que os péssimos profilers costumem julgar com tanta preguiça; em compensação, o profilerismo capenga dos que não esperam achar uma "comunista" sob a blusa do Mickey e a saia rodada propicia muitos nunca-pensei-que no mínimo interessantes. Só gostaria, admito, de ser vista como a ovelha vermelha da família mais às escâncaras; acho francamente uma vergonha não ter nenhum parente que seja me mandando para Cuba.

(Interessados, aliás, tenham a gentileza de me enviar a passagem; se não rolar de conhecer a terra de Fidel, troco por um voo para Brasília nos últimos dias de 2022 – para já amanhecer 2023 assistindo, coladinhamente, à chegada do Lula lá.)

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Amar um leão é não poder amá-lo


Estava aqui lendo e sorrindo de boniteza o poema de Eucanaã Ferraz, "Sob a luz feroz do teu rosto", do qual destaco um trecho para que compartilhem o sorriso: "[...] amar// um leão é só distância: tê-lo ao lado,/ não poder beijá-lo, o deserto/ que habita em torno dele;// era mais certo amar um barco,/ era mais fácil amar um cavalo;/ amar um leão é não poder amá-lo;// e nada que façamos adoça/ o que nele nos ameaça se/ amar um leão nos acontece:// à visão de nosso coração/ ofertado, tudo nele se eriça,/ seu desprezo cresce". Abençoada seja a poesia e perenes sejam os poetas, que nos presenteiam com a dissecação mais extraordinária das entranhas do mundo e derramam beleza sobre as maiores excruciâncias, como certamente deve ser esta aqui: amar um leão. Amar alguém impossível, não porque as famílias sejam inimigas ou os países guerreantes, não porque o ser amado esteja prometido a outrem ou ameaçado de morte matada e decapitada, não porque elaele tenha vocação para o celibato ou resida numa dimensão paralela; amar alguém que, simples, não deseja ser amado. Ou antes (porque não acredito que exista esse negócio daí de não querer ser amado, o que seria o correspondente emocional a uma criatura biologicamente rejeitar oxigênio): amar alguém incapaz de se deixar amar.

Imagine-se, imagine-se! alimentar toda a concebível ternura por um ser em torno do qual o deserto habita; um coração tão obstinadamente árido que não junta duas palavras menos secas, esfacela-se a qualquer toque, qualquer contato; uma natureza tão duramente constituída que nem uma sombra de sentimento úmido a permeia, e ao mesmo tempo tão arenosa que deixa escoar em desperdício tudo de doçura que a atinge, deixa morrerem as raízes que nela não logram fixar-se. Dói uma agonia hipotética no meio do peito ao considerar esse que deve ser um dos maiores enredos de terrores – ver-se sob a profundidade pré-salina dum olhar assim de desprezo, olhar de quem não veio à terra "para essas frescuras" e no máximo se utiliza física e socialmente do outro para as contingências (ainda assim, com o ar desdenhoso e carnívoro dos que preferiam não estar submetidos a essas misérias dos fracos).

Foi mesmo generosíssimo o eu lírico de Eucanaã Ferraz, ao atribuir leonidade a uns tais indivíduos inamáveis, incomovíveis. Eu os chamaria hienas, abutres, metáforas definitivamente isentas de qualquer esperança romântica – e no entanto compreendo no fundo d'alma a escolha do leão, precisamente pelo halo com que nosso imaginário o glamouriza; não faz assim o coração que, amando, espera pelo melhor e reveste de cores bem mais ricas o que é pó, pedra e fim do caminho, num movimento de aflita sobrevivência emocional? O amador, o amante projeta sobre a ave de rapina oca que tem ao lado, sobre a personalidade comedora de carniça à qual se sente preso, toda a ilusão de amar um leão majestoso, arredio, indócil, porque é fato: dói menos. Machuca bem menos (a autoestima inclusive, ou principalmente) imaginar que estamos atados a uma espécie de gênio incompreendido, de herói atormentado, de personagem bravio e temperamental, quando a realidade crua aponta um serzinho mal-educado, egoísta, frio, bruto, indiferente, perverso, sádico, ruim; um serzinho cronicamente inacessível ao amor, manco daquela partícula que aconchega e humaniza, controlador e tirânico de qualquer respeito próprio que o conje possa remotamente alimentar. "Ah, um dia ele muda" – não muda (ou muda sem dúvida para pior); "um dia ele vai reconhecer tudo que faço por ele" – não vai (e ainda vai declarar que o outro, a outra não era ninguém antes de conhecê-lo, e não seria ninguém depois de deixá-lo). Só um reboot, impossível para quem não é o bichinho de estimação do velho Dumbledore, formataria essa criatura do pântano; - 987% de chance de acontecer, portanto, o que só lega como alternativa um gordo game over.

Sem síndromes absurdas de onipotência, mores: no aquém das páginas de carochinha, considerar-se uma Bela destinada a "resgatar" a Fera é o meio mais rápido de a vida, encastelando-se, definhar.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Povo do bem


"O bem. Mostre-me um homem que pensa que sabe o que é 'o bem', e eu provavelmente poderei mostrar-lhe um horror de pessoa. Mostre-me uma pessoa que realmente saiba o que é 'o bem', e eu lhe mostrarei que ela quase nunca usa [ess]a palavra." Fiquei passada de como a citação do hipotético aniversariante Idries Shah, mestre da tradição Sufi que hoje completaria 97 anos, veste estes nossos dias feito roupa de alfaiate. Tem sido – e provavelmente sempre foi – forte e precisamente assim: não há traje portado com tanta constância pelos fãs de violências e atrocidades quanto os gritos histéricos, ostensivos, em favor de uma determinada cepa humana (humanos direitos, digamos, apenas como ilustração aleatória). Não há look tão exibido por amigos virulentos da tortura quanto a bio ultrapiedosa, ultrarreligiosa, ultramístico-perfumada nas redes sociais. Não há modelito tão orgulhosamente desfilado pelos carcarás que esvurmam gritos de guerra e posam com fuzis quanto bandeiras tremulantes pela Pátria, pela Família. Por Deus.

O que me vem inevitavelmente à memória são aqueles assassinos do Investigação Discovery e adjacências que, para melhor disfarçarem sua culpa monumental (não a que sentem, já que não a sentem, e sim a que carregam), são os primeiros a acompanhar de pertinho a investigação, oferecer ajuda à polícia, auxiliar nas buscas, preparar lanchito para os voluntários e bombeiros. Numa sede e num gozo de manipularem mais fielmente olhos que não aprofundam a análise para além da superfície, exageram-se; pintam-se com um histrionismo de palhaços da bondade, outdoors da virtude, painéis luminosos da retidão, muito à moda dos sepulcros caiados bíblicos – lindinhos fora, podres dentro –, muito como os proverbiais fariseus que anunciavam com trombeta suas benfeitorias. A gente fica pasmado que essa farsa ridícula siga dando certo, e assombrosamente dá; até porque, na entourage dos tais pilares da comunidade, acolhem-se não somente vítimas ingênuas, mas outros tantos do mesmíssimo naipe – outros tantos que satelitizam os cidadãos de bem com sua própria cidadão-de-bência; parasitas de hipocrisia, ou hipocrisias jagunças. Um povo que, satisfeitão de achar um guarda-chuva de desfaçatez onde se abrigue, serve aos mentirosos-mor com seus rebanhos particulares e aluga sua lealdade por temporada.

Pode crer: o bem verdadeiro é discreto; uma vez que é, e sabe ou sente que é, sente pouquinha necessidade de parecer que é. Também costuma andar sempre em autoquestionamentos, em desconstruções e análises íntimas de seus motores, de suas atitudes; os representantes do "bem" original de fábrica são humildes, cultivadores natos de empatia, organicamente avessos a meterem o dedo na cara de outrem por considerarem que não são ninguém para julgar – A NÃO SER QUE esse outrem seja fascista machista racista homofóbico explorador safado, que aí o senso de proteção dos demais outrens grita mil tons mais alto que qualquer escrúpulo. Aliás, a galera do beeeeem sabe perfeitamente que escrúpulo não é direitinho o termo: o que impera é um equilíbrio mui claro e consciente entre o respeito devido às individualidades e a voadora que se deve meter no plexo solar dos que agridem e matam as individualidades. Povo do bem pode ser tranquilo, de coração inquietamente filósofo, perseguidor da evolução – porém não é trouxa; conserva discernimento suficiente para saber onde amansar e onde mandar o seu hadouken, embora sua natureza justa e analítica o leve constantemente a demorar um tiquinho. O que lasca é que os autointitulados Detentores do Bem não demoram nem um tiquito para arrasar quarteirões, algo salomonicamente compreensível, visto que quem não ama não teme destruir. Enfim está tudo nisto: cidadãos do bem, ao contrário daqueles de bem, tardam às vezes em responder porque receiam destruir qualquer sementinha germinada no processo, qualquer ensaio de conquista, qualquer sinal de vida insinuada ou brotada. Não concebem que se possa trocar o que quer que talvez haja pelo pássaro que há, esteja ele na mão ou voando.

Dos que berram ameaças e eliminariam tudo pela "causa", fuja: o bem, mesmo, pisa de pantufas para nenhuma formiguita desavisada acordar.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Shippados


Shippar tem sido, há mais de década, uma distração incontrolável de pessoinhas que andam chafurdando na arte de amalgamar, sob um mesmo nome, duas individualidades que são ou DEVERIAM SER um casal, uma equipe, uma dupla de bromance ou de sisteridade, sei lá mais o quê. Normalmente é um casal que se transforma em pacote – como Bruna Marquezine e Neymar, no já expirado ship Brumar, e Brad Pitt e Angelina Jolie no clássico Brangelina, também expiradíssimo –, o que me incomoda um monte por motivos óbvios: amor nenhum, nem de séculos ou milênios, faz as criaturas se tornarem um McLanche Feliz com itens que não podem ser entendidos ou vendidos separadamente; e é mesmo este o objetivo, que o amor faça os eus aperfeiçoados, aprimorados pelo convívio, não dissolvidos num combo de dependência que só opera e só é compreendido em conjunto. Sim, sim, é muito lindo o êxtase amoroso de que falei aqui apaixonadamente há alguns dias – e sustento tudo, tudíssimo –, porém é uma ilusão de unidade platônica para uso exclusivo, interno e recreativo do casal; fora da intimidade, é extremamente fundamental que ambos se percebam sim como parceiros incondicionais, mas não como um ship, um puxadinho recíproco, uma espécie de venda casada. E é igualmente fundamental que olhos externos, alheios, também não se acostumem a ver como um perfil unívoco o que são duas subjetividades contíguas, semelhantes talvez, harmônicas de preferência, e ainda assim isoláveis em suas necessidades específicas.

Mas isso tudo são observações sisudas que cabem para gente de carne e osso; com personagens podemos livremente brincar (para isso mesmo eles servem, ora pílulas) e bancar os maiores alcoviteiros do multiverso, sem dramas alguns. Deixem-me, pois, me divertir aqui correio-eleganteando umas duplas improváveis da ficção, que o mês é dos namorados, das grudadices, das santo-antonices e não há maneira mais segura de exercitar o Eros flecheiro que vive em nós:

💗 B.E.N., o robozinho desmemoriado de Planeta do tesouro, e Úrsula, a vilã de A pequena sereia: casal B.E.N.-Ur, claro. Concordo que existe um certo conflito entre ele ser metálico e ela ser marítima, porém esse exatinho detalhe pode render um relacionamento moderno e fresco, com encontros fortuitos e um quê de perigo esquentando as máquinas. Além do mais, quem melhor que um galã de memória desparafusada para lidar com o passado trevosíssimo da bruxona?

💗 Joe Gardner, protagonista de Soul, e a rainha Elsa de Frozen: casal Gardel – que ali pode faltar fogo; paixão, não. O rapaz certamente amaria acompanhar ao piano os lerigous de sua diva, ela certamente amaria aquecer de jazz as noitadas de sua Arendelle; de quebra ela ganharia uma mãe postiça, e ele uma irmã com cunhado a tiracolo – mais a alminha 22 e Olaf juntildos, produzindo fofura.

💗 Namor, o Príncipe Submarino, e Ororo Munroe, a Tempestade dos X-Men: casal Namoro, muito evidentemente. Vamos combinar que a química dos bonitinhos seria tornádica e maremótica, apenas talvez não perfeitamente adequada para navegantes desavisados.

💗 Salsicha, de Scooby-Doo, e Arya Stark, de Game of thrones: o casal Salarya parece e é absurdo, mas alguém vai negar que o moço seria o menos empata-luta possível na vida da menina, e que adoraria ver todos os seres aterrorizantes sendo devidamente eliminados por sua crusha?

💗 Emília, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, e Pinóquio: casal Empino, unido por motivos ululantes; nenhum deles tem um histórico exatamente angelical e, entre macelas & madeiras, sobra a ambos a experiência de ser brinquedo e virar gente, ou bem quase.

💗 Hebe Marreca, a "Pata Feia" de O galinho Chicken Little, e Tio Patinhas: dentro do casal Marretinhas, duvido que o avarento em questão ousasse não fazer a coisa certa; diveeeeeersos papolitizados encheriam o ninho do empresário sobre a importância de redistribuir patacas.

Duvidareis com certeza, e no entanto jurarei que não, não fiz uso de nenhuma substância ilícita antes de delirar essas loucuras tamanhas – salvo se o Brasil já estiver sendo listado pelas entidades competentes como alucinógeno. Caso contrário, garanto-me em total sobriedade, total posse de minhas (cof, cof) faculdades mentais. E acrescento: aceito de bom grado mais uns ships lokões em contribuição.

Cartinhas de amor para a redação.