segunda-feira, 28 de junho de 2021

Todas as cores


Lavanda, orquídea, violeta, alamanda. Espírito que Anda (lembra, seu oitentista?). Ametista. Caminhada feminista. Suco de uva, geleia de amora, blueberry no shake, Daphne Blake, céu de dia indo embora, manacás, açaís. Olhos de Liz. Turmalina lilás. E mais, e mais.

Hortênsia, jacinto, cianita, sodalita, bioluminescência, céu de dia quase extinto; calça jeans; o tom dos timbós-mirins. Índigo de azulejos, ásteres, agapantos, lisiantos, lobélias, ipomeias, pavões, janelas coloniais. E mais:

Água-marinha, erva-de-santa-luzia, céu de meio-dia, saí-andorinha. Smurfs; piscinas; vestidos de Cinderela; florinhas de nigela; mares, larimares, íris felinas; safirinas; safiras. Saíras, zircônias e calcedônias, pedras de olho de gavião, águas do Jalapão – e em continuação:

Esmeraldas e malaquitas, tsavoritas, trevos e limões, pimentões, umbus, ingás, fêmeas tangarás; matas e cabeças-de-prata, frutas novatas e maritacas; Docinho, Sininho, Nojinho, Floquinho, Mestre Yoda, Hulk, Shun, Peter Pan, hortelã, o voo da maracanã. As festas de São Patrício; os fofos do Maurício – Horácio, Jotalhão. E ainda virão:

Girassóis; a estrada de Oz; acácias; pintassilvas; madressilvas; eupomácias; suiriris e bem-te-vis e Bumblebees e abacaxis, physalis e hemerocales, Poohs e Pikachus; minions (os fofos), prímulas, frésias, topázios, citrinos, táxis nova-iorquinos, coríndon, mel, mangas, maracujás – continua tendo mais;

Tangerina (bergamota? mexerica?), tritônia, helicônia, corrupião, açafrão, mamão, Tigrão, uniforme holandês, cabelos de Nando Reis, Weasleys, Merida, Anne with an E; caqui, caju, coral, columeia, Garfield, Nemo, Haroldo, Fanta, abóboras de Halloween. Não é o fim:

Morango, piranga, pitanga, rubi, russélia, romã, maçã, tomate, íbis-escarlate, lichia, melancia. Flor de outubro. Flor de cardeal. Joaninha. Capuchinha. Enfeite de Natal. Tiê. PT. Fraternité. Mário, Mônica, Chapeuzinho, pimenta biquinho. Wanda Maximoff – e seu bofe –, Thing One, Thing Two, colar de tuiuiú, corante carmim, Relâmpago McQueen, Ferraris. Sebastião animando os mares. O sol tombando em seus nadires.

Para todos os amores, todas as cores: um dia de pleno arco-íris.

domingo, 27 de junho de 2021

Envergonhamento utilitário


Sou notoriamente avessa a trotes, pegadinhas e coisas do gênero, mas tenho de admitir que ESTA em questão é da ordem do magistral. Diz que David Keene, ex-presidente da maldita Associação Nacional do Rifle (NRA) nos Estados Unidos, e John Lott, autor do livro More guns, less crime, foram chamados para discursar numa formatura de ensino médio, e incentivados a ensaiar seus discursos in loco, diante de mais ou menos 3 mil cadeiras vazias. Toparam; discursaram; Keene inclusive procurou engajar os "alunos" a estarem entre os que sempre defenderão a infame Segunda Emenda americana, aquela que garante o direito às armas. Acontece que o evento inteiro era fakaço, sequer a escola dos "formandos" existia; foi tudo joguíssimo de cena armado pelos pais de um garoto que havia sido assassinado junto a outras 16 pessoas, em 2018, quando um ex-aluno de uma high school de Parkland (Flórida) invadiu sua velha escola com um fuzil AR-15 em punho. Para seguirem em frente após o caso destroçante, Patricia e Manuel Oliver criaram uma ONG que, naturalmente, faz de tudo pela redução do acesso às armas – estando no balaio desse tudo a genial pegadinha do bem. Nem preciso dizer que as falas do autor e do lobista foram devidamente registradas em vídeo, para engrossarem de imagens altamente simbólicas o material de conscientização da ONG; até porque mesmo o número de assentos vazios que "ouviram" ambos os discursos mostrou-se minuciosamente significativo: 3.044 cadeiras para representar 3.044 jovens residentes dos EUA que se formariam no ensino médio este ano, se não tivessem sido mortos em várias dessas invasões tiroteias.

Evidentemente, os machões armamentistas ficaram fulos com a passada de perna; Lott chegou a declarar que a edição do vídeo distorceu sua fala (segundo Manuel Oliver, não houve edição do vídeo), e que – minha parte favorita – "ele foi incitado pelos organizadores a usar um tom mais incisivo, pois a mensagem seria direcionada a alunos conservadores". Não é fascinante? olha, me disseram para exagerar, aí eu exagerei, porém a culpa é da edição que exagerou. Afinal o paraninfake acredita ou não na papagaiada bélica que anda pregando? Por que pressente a necessidade de defender-se contra alguma repercussão negativa, se atribui a suas crenças um valor positivo? (Não resisto a lembrar um tal juiz que, pelas nossas bandas, negou que as mensagens fossem dele, mas também, se eram, não tinham nada de mais: same energy.) Partindo do princípio que as palavras gravadas tenham permanecido leais ao sentido original, parece um contrassenso fazer o ofendidinho só porque a plateia, que ali não estava, continuaria mais tarde não estando: havendo ou não uma cerimônia depois, o texto dito no "ensaio" já não se bastaria como uma afirmação livre, sincera, espontânea de convicções que TEORICAMENTE não deveriam envergonhá-lo?

É verdade que detesto ver pessoas se constrangendo ou (principalmente) sendo constrangidas, porém a resposta empática involuntária a que chamamos vergonha alheia não pode ficar acima da aprovação consciente ao método, quando o método é maravilhosamente aplicado como foi: para intimidar os poderosos, e não as vítimas dos poderosos. Para expor os que mercadeiam com a dor de outrem, o que se beneficiam do medo e do caos, e não os que carecem de proteção em meio à própria ignorância. Sim, de permitir que os especuladores, os exploradores, os parasitas, os vendedores de tudo que fere e mata embaracem a si mesmos, sou imensamente a favor – não tenho como não ser; sou a favor, no entanto, com a condição de que a criatura a ser exposta acabe por autoacusar-se da maneira mais natural possível, como aliás aconteceu na peça pregada pela ONG dos Oliver. Que a pessoa seja tapeada sem maiores consequências, ao estilo do plano da formatura (no qual os engabelados falaram o que já falariam em público de qualquer forma, pela própria vontade), va bene; mas que se arme uma espécie de cadafalso moral, uma armadilha totalmente fora das CNTP em que o cidadão seja manipulado por algum implantado desespero, e reaja portanto a uma ameaça artificial que "contamina" a amostra – aí não. Claro que não me refiro a confissões de casos policiais, obtidas à custa daquelas velhas táticas psicológicas que vemos em filmes e séries: good cop/ bad cop, "Fulanílton está ali naquela sala te entregando agora mesmo" etc. Isso é coisa completamente outra, que admite todas as mistificações (que NÃO envolvam tortura) em nome do bem coletivo. Aqui em nosso case, trata-se de produzir o cenário a fim de que a estrela vá lá e atue, e alguém vá lá e registre, simples; sem dizer que, sei lá, sua família foi sequestrada e só será liberada se você gravar esse vídeo – o que seria odioso de fazer até com o maior dos maiores psicopatas, e o que corromperia inteiramente o resultado, por sinal, já que tudo de que o nosso lado não necessita é de gente do dark side chorando pitangas e alegando que se tornou mártir.

E o pior: parecendo ter – ou tendo – razão.

sábado, 26 de junho de 2021

Margaret

Fiquei, de cara, apaixonada por Margaret, a extraordinária obra do britânico oitocentista Edward Burne-Jones que podem conferir acima, toda força e suavidade azul. Poucas vezes vi, em tela, expressão tão estarrecedora, justamente pelo derramamento de delicadeza que adoça ao extremo uma bem imensa amargura; espiem que tons etéreos, que leveza de céu nublado parece constituir a quase imaterialidade dessa mulher que sofre – que sofre até o ponto de praticamente nem sofrer. Como sabemos que sofre? Ora, ninguém há de se enganar com essa mansidão cromática, convenhamos; os braços defensivos e cruzados, o olhar focado no limbo deixam poucas frestas para dúvidas: Meg (pego intimidade fácil; permitem que eu a chame de Meg, não? gratíssima) está evidentemente, esvaziadamente, estraçalhadamente exausta.

Trata-se de uma esposa; ah, sim, é uma esposa. Uma esposa pequeno-burguesa, simples nos trajes, cabelos preeeesos para que não se desatem sobre a lida; o vestido é de trabalho, muito sóbrio, muito afeito ao que sua esposice aparentemente vem sendo: talvez azul de início, e agora dum acinzentado que cada vez a cobre de mais outono. Meg tem hoje 30, 31 anos; casou-se aos 26 – "tarde" para padrões século-dezenovos, mas muito em harmonia com sua juventude sobretudo calada e caseira, crescida entre os serões dos poucos e bons amigos intelectuais de seu pai jornalista. Ela ouviu sedenta e bastantemente, estudou em muitos livros noturnos e nunca se ocupou de fato com ânsias de casamento; nem da mãe nem do pai (amorosos e esclarecidos tanto quanto se podia ser há dois séculos) lhe veio qualquer pressão, quaisquer observações etárias daquele tipo que infernizou gerações e gerações de antepassadas. Mas enfim calhou de aparecer nos serões, munido de sorrisos sóbrios, moderados, um colega do pai sete anos mais velho que ela, bom de palavra como se espera da profissão, inglês mesclado de irlandês e italiano; falou-lhe da mãe, da irmã, do sobrinho, das dificuldades para completar os estudos e sustentar seus dependentes, das leituras também mui noturnas e roubadas ao sono – e a moça, admirando simpaticamente aquele comunicativo mas modesto, sério mas sociável rapaz de família, sentiu alguma coisa similar a apaixonar-se, passou mesmo a faiscar duas vezes mais seus olhos piscinissimamente azuis, a cantarolar durante o dia, até. O tal (um que chamaremos de Brogan) não se fez desentendido e a pediu em casamento dentro de duas semanas; cinco meses depois dos primeiros serões, estavam matrimoniados.

O casal acomodou-se, porém, na mesminha casa onde Brogan vivia com sua família de três sustentados, e Margaret foi bem cedo compreendida como uma extensão do marido no que dizia respeito aos cuidados com seus in-laws: precisava acompanhar em quase alarmantemente tudo a sogra idosa, tratar do pequeno Devin enquanto a cunhada viúva realizava (com notório mau humor) seus vários serviços de costura, aturar as mal-agradecices sempre secas da mãe do menino, pouquíssimo apropriada para se transformar na irmã que Meg esperou ter. Curto período deu e sobrou para o breve lampejar romântico da recém-esposa ir mirrando e ressequindo na rotina que se provou vazia de horas para ler, para amar, para sonhar um filho seu, para até não imaginá-lo – caso viesse a ser concebido – como um possível intruso que só chegaria ali como um novo estômago. Brogan, que não era propriamente violento, não era gentil o suficiente tampouco; todas as suas leituras de travesseiro não o haviam tornado maciamente apto para compreendê-la, ele que (agora ela sabia com uma dor que doía agudo) confundira os modos discretos e inexpansivos da futura mulher com uma objetividade, uma praticidade, uma amelidade que ele buscava e ela não tinha. Sob a desculpa de muito trabalho, deixou quase imediatamente de estimular na esposa qualquer pretensão dum cotidiano mais florido, mais terno – daí o estiolamento atual dos olhos de Meg, que já há quatro ou cinco anos são olhos assim constantemente submersos no que seria, no que deveria ser. Arde mais por não ser um desespero que grita, e sim um que lentamente enlouquece, como as febres que minam sem manifestar-se; o que ainda vive, vive exclusivo para dentro, enquanto todas as paredes não se fecham e todo o azul não desbota.

(Quantas Margarets não são drenadas até da última faísca de ajustar a rota.)

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Todo o tempo é de poesia


"Todo o tempo é de poesia": assim um poema de António Gedeão, lindo, lindo, principia. "Desde a névoa da manhã/ à névoa do outro dia.// Desde a quentura do ventre/ à frigidez da agonia// Todo o tempo é de poesia// Entre bombas que deflagram./ Corolas que se desdobram./ Corpos que em sangue soçobram./ Vidas que a amar se consagram.// Sob a cúpula sombria/ das mãos que pedem vingança./ Sob o arco da aliança/ da celeste alegoria.// Todo o tempo é de poesia.// Desde a arrumação ao caos/ à confusão da harmonia".

Todo o tempo é de poesia.

Na saúde, na doença, plenitude e pandemia; no equinócio de primavera, na escola ou na Guerra Fria; em museu, biblioteca, carrossel, academia – são dela os momentos todos; vêm dela razão e alegria.

Todo o tempo é de poesia.

Do instante que nos desperta, em que o dia é agenda aberta e não diz como se desfia, ao horário de já ver lua e voltar da rua de alma alerta, deserta, liberta ou nua, com ou sem companhia: tempo de poesia. Nos primeiros Advils, nos últimos Greg news, nos amanheceres de sol ou ventania, na TPM ou no Leme ou no meme, na Galinha Pintadinha, no Pedro e o lobo, no Jornal da Globo, na reprise do Chacrinha, no RJ-TV ou no Hoje, ninguém foge – nem você: tempo de poesia, chefia.

Todo o tempo é de poesia.

Formaturas, videochamadas, esquinas pouco dobradas, jardins de nossas ternuras, doçuras, rebeldia: poesia. Ovos de caracóis, pesquisa de outros sóis, máscaras pintadas à mão, distribuídas na praça, distribuídas de graça, cosidas de coração por uma Dona Maria: poesia. Ânsias de vacina, saudades dilacerantes, doses que deviam ser antes, dores que deviam ser nunca, palavras que a lágrima trunca, lágrimas que nada extermina: imensidão que não cabia nem na poesia – mas que ela, a seu modo, alivia.

Todo o tempo é de poesia.

Na gastrite, na azia, na gritaria, no limite, no abraço, no laço, no terraço, na cortesia, no passo da romaria, na apatia ao mormaço – há dela, renitente, ardente ou sombria. Há dela nos olhos dos gatos, nos velhos sapatos, nos pratos do meio-dia, na filosofia e nos fatos, nos atos e em quem noticia; há dela nas cartas ridículas, no craquelar das películas, no corroer salobro de maresia, na cotovia tão Romeu e Julieta, no filme do Casseta & Planeta, nas cores de confeitaria, nos roxos de Halloween, nos contos de Grimm, no arlequim com meia fantasia, desfeito da festa, tornado à melancolia; há dela: é via que não desvia.

Se fosse flor, era todas; se baile, infinitas bodas; se cor, tudo coloria – flicts, caleidoscópio, cronópio, ourivesaria; se forma, clepsidra, ou hidra, ou medusa, ou musa, ou harpia, pena, açucena, bilhete fresco de loteria. Em ver Psicose, em ver Mamma mia!, se encher de euforia ou glicose, do que é seco ou romântico, transatlântico ou beco, impulso e atonia: lá vai ela, lá tem ela, gol de bola vadia.

Qualquer um pode. Qualquer um fazia.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Para cantar no São João


O Plantão vem surgindo,
ai que lindo ele soa:
ministro caindo,
notícia tão boa!

São João, São João,
apaga a fogueira
e impede a extinção!

🎵🎵🎵

Eu pedi numa oração
ao querido São João
que acabasse o pandemônio;
que houvesse proteção
que houvesse proteção
da camada de ozônio.
Eu pedi numa oração
ao querido São João
que acabasse o pandemônio –
pandemônio, pandemônio
na camada de ozônio.

Implorei a São João
que enviasse um esquadrão
pro resgate amazônio;
já chegaram São Conrado,
São Francisco, Frei Galvão,
São Tarcísio e Santo Amado.
Implorei a São João
que enviasse um esquadrão
pro resgate amazônio:
Santa Clara, São Sinfrônio,
Irmã Dulce e Santo Antônio.

São João veio trazendo
de São Pedro a São Rosendo
pra equipe de improviso,
pra salvar o paraíso
desse tanto de grileiro,
traficante e garimpeiro.
São João veio trazendo
de São Pedro a São Rosendo
pra equipe de improviso
contra o povo sem neurônio
que só pensa em patrimônio!

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Minha tribo


Tenho revisto A vida da gente por motivos de Lícia Manzo, e me soou particularmente quentinho quando ontem a doutora Celina (personagem de Leona Cavalli) exclamou feliz para o amigo Lúcio (Thiago Lacerda), a respeito do reencontro deste com uma ex-colega de escola, também médica, que assim como ele andava sempre engajada em projetos sociais: "Ah! mas é tão bom quando a gente encontra alguém da nossa tribo, não é?" Sim, é tão bom, assenti de imediato aqui no revestrés da tela; é tão bom e é o que tem nos salvado. Diante dum ensandecer cada vez mais explícito de um dark side cloroquiner, terra-planer e antivaciner, diante dumas salivações hidrófobas que ameaçam golpes e mortes em plena luz da democracia, diante de uma onda estapafúrdia de desequilibrados que se sentem espantosamente à vontade para dar na cara de quem lhes solicita o uso da máscara, ou para desfilar de suástica no shopping, faleceríamos por dentro se não respirássemos o ar de nossa tribo – ainda que por meio de redes sociais e semelhantes recursos, que afinal somos os primeiros a honrar todos os cuidados, todos os saudáveis distanciamentos. Há nesse contato (mesmo virtual) o reconforto indizível de retornar ao humano, ao idealmente humano ao menos, talvez não tão barulhento quanto os histéricos que precisam berrar sua reafirmação pessoal, mas certamente três bilhões de vezes mais poderoso quando nos mergulha em sua existência oceânica.

Não tenho, óbvio, a pretensão de estar permanentemente certa – céus, que sei eu?? –, porém em termos de lado certo da História posso dizer que me agarântio, que não vejo muito espaço para dúvidas ou para sequer nenhumas, em contemplando nas trincheiras opostas uns seres que orbitam outro ser como aquele que não preciso mencionar. Basta-me a certeza de que minha tribo acolhe diferenças (diferenças lealmente consideradas: não o "direito" de ser nazista ou de achar que "pessoas morrem mesmo, vou fazer o quê?"), de que minha tribo acredita forte na palavra científica, sabe muito bem que é orientação e não opção sexual, adora festivais de cinema porque os considera uma ode à beleza da diversidade, vigia a própria linguagem por estar ciente de que ela chegou a nós impregnada de termos machistas, racistas etc. que devem ser limados, destruídos, extintos. Minha tribo é apaixonada por arte, permanece aberta a novas estéticas mesmo tendo suas favoritas, pode seguir sua própria religião e exatamente por isso não oprime nenhuma outra, de jeito nenhum fica quieta diante de injustiças e descalabros, não vê problema algum em ser chamada de "comunista" dia-sim-dia-sim, inclusive adora (apenas revira os olhos, enfastiada de impaciência, ao obter abundantes provas de que o interlocutor em questão não faz a MAIS VAGA IDEIA do que seja comunismo). Minha tribo cheira livros, cheira a livro e tem veneração por bibliotecas.

Minha tribo se informa minimamente antes de dar opinião sobre o assunto. Minha tribo ama ternamente o padre Júlio Lancellotti. Minha tribo não hesita em apoiar Lula e Boulos de maneira escancarada. Minha tribo é contríssima as privatizações, não discute: FOI GOLPE, quer que a bolsa de valores se daaaaaane, sonha com um mundo quentinhamente alimentado três vezes ao dia, acha que não deveria existir bilionário (é uma aberração, convenhamos), apoia as cotas como uma medida viável de promoção da igualdade, fica revoltada com a perseguição aos professores, aplaude de pé a doutora Natalia Pasternak falando sobre a pandemia, encontra-se em desespero por ver o Salles passando a boiada, não consegue sequer ouvir a voz do coisonildo-em-chefe sem ter seríssimos engulhos que nem Dramin dá jeito. Minha tribo anseia, dia e noite, por assistir pipocamente ao julgamento dessa criatura láááá na Holanda, e por ver seus horrores desaparecerem daqui sem deixar traço.

Se você se irmanou com a descrição: a carteirinha de admissão na tribo é um abraço.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Existe (mas não digo qual é)


Um romance policial no qual o assassino é o narrador.

Outro romance policial em que só a polícia sobrevive (sim, tooodo o resto vai para as cucuias).

Um animal que, apesar de não ter estômago, come mais do que os seres humanos: cerca de um quinto de seu próprio peso, diariamente.

Uma flor que abre à noite, permanece branquinha até as 9h da manhã seguinte e depois roseia. Roseia lindo.

Um inseto vesgo.

Um órgão do corpo humano que não sente dor.

Uma bebida alcoólica que (por garrafa) contém a essência de 62 formigas.

Um mamífero que produz seus poops em forma de cubo – acredita-se que, não sendo rolantes, as sujices quadradas dos bichinhos ajudam a marcar território.

Uma rede social cujo logotipo se chama Larry.

Dois filmes com 31 anos de separação nos quais o MESMO ator toca banjo.

Uma cidade na qual é proibido vender uma casa mal-assombrada sem avisar desse palpitante detalhe os compradores.

Uma cidade na qual latas de lixo ficam inclinadas, a fim de que ciclistas possam usá-las mais facinhamente.

Um animal marinho dotado de três corações e nove cérebros. QUANTOS problemas resolvidos no mundo, se a criatura em questão fosse terrestre, bípede, portadora de polegar opositor e usuária do WhatsApp!

Um bichengo que, em compensação, pode sobreviver alguns dias sem cabeça, o que se aproxima bem mais do que temos para hoje em termos de humanidade.

Um time de futebol em que chegou a jogar um goleiro de 73 anos.

Uma autora fabulosa que curtia escrever deitada na banheira.

Aves que, devidamente instruídas, conseguem distinguir entre um Monet e um Picasso.

E uma ave cujo olho é maior do que o cérebro.

Uma ilha do litoral paulista onde há cinco cobras por metro quadrado.

Um grande autor de nossa literatura que multou o próprio pai.

Quem é, quem são, não conto; pero que los hay – los hay.