domingo, 15 de agosto de 2021

Nave-mãe


15 de agosto é dia das que andam preparando outra pessoa – o Dia da Gestante. Nunca atravessei (a não ser passivamente, é claro) nem desejo atravessar esse processo de fabricação, mas isso não impede que empatize carinhosamente com as sisters que se encontram, como diz a fofura popular, com pãozinho no forno. Também se dizia nos outroras estado interessante, não sei exatamente o porquê; mas errado não tá, é fato: produzir um ser humano é algo interessantíssimo, talvez insuperável por qualquer outra atividade, invenção, indústria, artesanato, manufatura de que se tenha notícia. Embora à mamãe ou ao papai-to-be não caiba nenhum controle na montagem, no design, na escolha das peças – o que só mostra o nível de sabedoria em que opera a natureza; do contrário, imaginem como sairia um herdeiro de Picasso, senhores –, a imponência do fenômeno é tão excessiva que se agiganta sobre tudo que há nele de involuntário. Basta, para nosso aturdimento, conceber mentalmente o que está sendo ali concebido: alguém que virá a ser o amor da vida de alguém, quem sabe uma mentora ou mentor definitivo no caminho de outrem, por que não um descobridor de curas, uma poeta, um hábil e heroico negociador de reféns, a mãe/o pai da mãe/do pai da mãe/do pai do futuro presidente ou presidenta, o apostador no talento de uma criatura que se tornará icônica na história universal, o fornecedor de uma ajuda que será crucial para que o estimulador da professora da avó de uma extraordinária cientista ou escritora ou atriz não desista da vida. Cem por cento dos que nos são, dos que nos foram e serão indispensáveis principiaram assim, em nove (ou pouco menos) meses dessa produção que configura a grande antessala do mundo.

Gestantes são, literalmente, naves-mãe que aportam terraqueozinhos neste chão complexo – sendo tudo menos máquinas, porém; é o oposto que na verdade ocorre: parece que nunca fica uma pessoa tão repleta de pessoíce, tão atravessada de humanidade, como quando se vê porta e portadora dum exemplar de nós. Não que seja uma fase romântica no sentido mais xaroposo do termo, nem que a mulher em gerúndio de maternidade vire algum tipo de santa ou heroína; vira, sim, um ser confrontado ao-mesmo-tempo-agora com um combo de eventos humanizadores – dor, medo, amor, alegria, loucuras hormonais, impaciência, curiosidade, incômodo, desconforto, picos de irritação e desejo, picos de apetite ou inapetência enjoada, sonhares desordenados, sono descompensado, ondas de devoção e de receio, de entusiasmo e de dúvida, de valentia moral e de vulnerabilidade emocional e imunológica. A gestante, entidade com a maior concentração possível de corações humanos em menor espaço, é um compêndio de gente, um catálogo, um cúmulo; não é impunemente, decerto, que aglomera em si tanta homo-sapice, e, como se não fosse suficiente a superposição física de existências, ainda fica ela sujeita ao que há talvez de mais inconveniente, de mais teimoso no quesito abelhudice alheia. Uma vez que a gestante gesta outro(s) membro(s) da espécie, toda a espécie ao redor se considera apta a bedelhar sobre absolutamente tudo, da cor do enxoval ao estilo de parto – afora a apropriação coletiva do território barriguístico, no qual até mãos desconhecidas assentam, dia sim dia sim, com zero cerimônia.

Ah, como eu gostaria de assegurar pedaços fabulosos do universo para essa gente que prepara gente. Quisera que TODAS as mamães de primeira ou de outras viagens pudessem contar com a dedicação ilimitada de seus parceiros, com o apoio irrestrito da família nuclear, com os recursos necessários para uma nutrição fortíssima de seu próprio corpo e do corpinho anexo, com a grana e o tempo e a serenidade de estruturar todo o pequeno mundo vestível e mobiliável do bebê, com a certeza de um pré-natal atento e completo, com a extinção de todos os fiscais de amamentação que se abalam ao testemunhar um ato tão lindo, com a tranquilidade de manter seus empregos e gozar plenissimamente seus direitos trabalhistas, com a convicção de haver excelentes creches e escolas no horizonte mui próximo. Quisera que cada mamacita do planeta estivesse eternamente livre de julgamentos aspones, segura e amparada para tomar as melhores decisões, amorosamente acompanhada para obter ravióli de geleia de carambola às três da manhã, inteiramente assistida para ser dispensada de forçar pernas e coluna em afazeres que pesam. É isto enfim: quisera que nada pesasse às gestantes, além dos quilinhos que vêm com a pessoa extra; quisera que toda e qualquer fabricação humana se desenrolasse embalada em leveza, dos primórdios da divisão celular até os passos de aqui fora.

Mamãezitas gerúndias: recebam minha esperança de que todas tenham, a cada correr de cada dia, uma boa hora.

sábado, 14 de agosto de 2021

Um limite ao erro


Disse o genial Bertolt Brecht (morto há exatos 65 anos) em A vida de Galileu: "A ambição da ciência não é abrir a porta do saber infinito, mas pôr um limite ao erro infinito". Inacreditável como, décadas depois de perdermos o dramaturgo, essa frase sapateia atual e urgente sobre nosso bando de cabecinhas duras, uns estrupícios que andam por aí empenhados em combater o mau combate contra as mesmas fontes que lhes dão vida – feito uma manada de Richthofens que combinaram consigo de acabar com a (aventura humana na) Terra.

Basta que haja ocorrências como a morte tristíssima de Tarcísio Meira, por exemplo, para que venham esses espíritos suínos especializados em jogar contra e cravem: ââââin, tá vendo?, não adianta tomar vacina, ele tomou as duas doses e mesmo assim... MESMO ASSIM A MINHA MÃO NA TUA CARA, MUNDIÇA; vade retro, aparta-te de mim, negacionista dos infernos. Pois então estão fingindo não perceber que, conforme disse muito precisamente uma amiga no Face, tanto Glória Menezes quanto Sílvio Santos sobreviveram graças a essa exata vacina? Estão se fazendo de (mais) idiotas ao ignorar que a mortalidade vai diminuindo substancialmente nos lugares em que a vacinação mais vai se aligeirando? Estão teatrando ainda maior demência que a normal, ao passar por cima do fato de que o jovem, forte, saudável Paulo Gustavo poderia ter continuado conosco, e de que o jovem, forte, saudável Luciano Szafir não precisaria ter-se contaminado de covid duas vezes – sendo a segunda avassaladora e garantidora de um mês de internação, o que ilustra a história do "a melhor vacina é ter a doença" como pura balela –, caso tivesse havido imunizante para ambos na hora certa? Não, nenhuma vacina é barreira 100%mente inexpugnável contra as infecções; parece-me que nunca foi; parece-me, no entanto, que antes deste acesso de loucura generalizada nós sempre entendemos isso, sempre concordamos que 70% de imunidade são consideravelmente superiores a nenhuns, e nunca julgamos razoável pensar em renunciar aos setenta na mão por não termos os cem voando.

A ciência não é infalível, nos recorda a frase de Brecht, nem teria como sê-lo ainda, uma vez que feita por seres falíveis. A ciência é e continuará sendo, entretanto, a melhor – a única – alternativa. Não existe chance, ever, de a melhor alternativa ser o não saber. Embora por enquanto não seja capaz de nos fornecer respostas ilimitadas, a busca científica nos preserva do abismo ilimitado, do completo desamparo, do estado de nenhuma preparação e nenhuma defesa; ou alguém estaria disposto a não contar mais com airbags e cintos de segurança, apenas por não ter o juramento do fabricante registrado em cartório de que haverá zero morte em acidentes? ou alguém largaria sua casa escancarada e sem alarme em área perigosa, ou caminharia desacompanhado e cheio de objetos valiosos de madrugada numa rua brabíssima, somente porque uma pessoa conhecida foi prudente e mesmo assim sofreu assalto? ou alguém escalaria o Everest sem os equipamentos de proteção só porque inúmeros morreram no Everest COM os equipamentos de proteção? Em sã consciência, com o mínimo de sã consciência, qualquer criatura é ou deveria ser capaz de compreender o básico: o agir temerário prova exclusivamente a estupidez do burlador, não a ineficácia das regras, que nos acolchoam tanto quanto possível contra as destruições circundantes.

Ciência, com suas vacinas e apetrechos tais, é o goleiro indispensável no jogo; tê-lo não significa necessariamente ganhar sempre – não tê-lo significa, necessariamente, perder todo dia de goleada.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Superpoderinhos


Invisibilidade, velocidade supersônica, fator de cura blasterdesenvolvido, força de levantar automóvel com o dedinho, atravessamento de paredes, manipulação do fogo e do gelo, voo, telepatia, telecinese: muitíssimo infelizmente, são superpoderões a que não temos acesso, e a que talvez só o correr dos tempos (booooota tempo aí) alçará nossos corpos humanos; estamos visível e fatalmente evoluindo, então por que não atingiríamos em algum momento um certo patamar de HQ? Enquanto esse milênio não nos bate à porta, admiramos recordes sendo batidos pelos seres mais ultrafantásticos de hoje – que já deixam no chinelo os seres mais ultrafantásticos de décadas passadas –, sonhamos ficções altamente científicas e nos contentamos, vida-realmente, com o que possuímos agora mesmo em termos de superpoderinhos.

Sim, superpoderinhos: aqueles talentos miúdos em comparação com grandezas sobre-humanas, mas ainda assim extraordinários, necessários, preciosos, frutíferos, bastante empregáveis em favor da espécie no atacado, bastante utilitários no varejo – ou, vá lá, ao menos curiosos: decorar tudo quanto é níver de amigos e familiares (minha mãe é dessas), saber de cor e digitado um número imenso de telefones (meu pai é desses), compreender todos os trâmites das estatísticas (minha irmã é dessas), lembrar como foi o gol tal de tal jogo de tal ano na partida de tal resultado com tal técnico (o Fábio é desses), fazer de cabeça as aritméticas mais absurdas, customizar roupas e demais objetos de um jeito fabuloso, nunca sentir calor, nunca sentir frio, repetir diálogos inteiros de séries e filmes antigos, reproduzir uma canção ao piano após tê-la ouvido uma só vez, calcular porcentagens em segundos, distinguir milhares de cheiros diferentes, jamais se perder, atingir notas gravíssimas ou agudíssimas, conseguir estudar e conversar e assistir à TV ao mesmo tempo, acordar espontaneamente muuuuito cedo, não se cansar em praticamente nenhuma circunstância, falar de improviso, recordar por-me-no-res de histórias lidas, ser um mago ou maga do tempero. Isso – o que é lindo – temos todos: essas variadas facilidades seletivas, sempre insólitas para os que observam e naturais para os que portam; esses pequenos mistérios de nossas células cinzentas, que nos fazem combos e loterias ambulantes, inacreditavelmente únicos dentro dum bando tão numeroso.

Eu, por exemplo: sabia de modo inequívoco, enquanto morava com Pais, quem era qualquer um que houvesse chegado, só pelo mais ligeiro e inaudível tilintar do chaveiro, pelo abrir da porta e pelo pousar da chave na mesa. Apenas sabia. Também sei imediatamente quando algo na comida está passado ou passando, já que um arrepio me estremece ao primeiro contato olfativo. Consigo ser explosivamente rápida numa corrida de poucos segundos (embora faleça de asma depois, o que torna 100% inviável toda atividade regular nesse sentido). Tenho uma memória bastante persistente para rostos. Decoro os nomes dos alunos logo nas aulas iniciais. Lembro muita coisa de novelas sortidas: tramas, trilha, detalhes dos personagens. Me adapto. Vivo sem smartphone. Leio em francês sem me haverem ensinado o idioma – mas je ne le parle pas, nem o compreendo falado; quem sabe algum dia? Guardo essa esperançazinha firme e sólida, o que não deixa de ser um jovem superpoder em nosso Brasil-zil-zil que vem serial-killando esperanças de todas as envergaduras.

(Por sinal, governantes e milionários queridos: QUÃO sortudos sois vós de eu não ter os poderes de Carrie – a Estranha, não a Bradshaw – queimando nas veias; viveríeis uma sexta-feira 13 comme il faut, de que nem Wolverine cicatrizaria. Mas tem nada não, tem nada não, as consequências vêm, o dia chega. One, two: time is coming for you.)

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Como é difícil ver o natural

 

Adolfo Correia da Rocha – ou, literariamente, Miguel Torga – faria hoje 114 anos. Miguel em honra de Cervantes e Unamuno, Torga por ser o nome duma planta de montanha que finca fortemente as raízes sob a pedra (se bem que o Torga do escritor se tenha enraizado fortemente SOBRE o Rocha), o poeta era a definição do tipo tão discreto quanto bravio, tão inquieto e militante quanto avesso a publicidade e agitações. Fértil, prolífico, humanista, Torga choveu no mundo uma abundância de beleza, como nos versos de "Da realidade": "Que renda fez a tarde no jardim,/ Que há cedros que parecem de enxoval?/ Como é difícil ver o natural/ Quando a hora não quer!/ Ah! não digas que não ao que os teus olhos/ Colham nos dias de irrealidade./ Tudo então é verdade,/ Toda a rama parece/ Um tecido que tece/ A eternidade".

Não sei os olhos que me leem, mas os meus viraram fruta ensopada no açúcar desses dois primeiros versos, que descrevem tanto e tão plasticamente com tão pouco. Cedros que parecem de enxoval! – que imagem linda, linda para significar a delicadeza rendada das árvores, para ilustrá-las na plenitude de suas folhinhas bordadas. Desde os sempres da infância eu amei a sombra entrecortada dos ramos na parede, a dança entre galhos, sol e vento refletida na sala e mediada pelos vidros; era algo próprio da tarde, da meiuca tranquila e prometedora da tarde, daí minha comoção com as palavras do poeta que trouxeram à tona a impressão daqueles velhos momentos calmos, mornos duma brisa que anuncia frente fria no verão. Não me tinha dado conta inteiramente, antes do poema, do grande laço entre a ternura pelas folhagens como a do cedro, o encantamento pela renda, o alumbramento pelas telas impressionistas que pontilham vegetações e cores, pelas mandalas milmente detalhadas, pelas decorações de estilo marroquino, pelas miçangas, pelos sáris, pelas mantilhas, pelas borboletas, pelos caleidoscópios. Sei, mas é como se a todo minuto descobrisse: vou amar também nos sempres futuros, tanto quanto adorei nos passados, tudo que há de minuciosa abundância, de fartura suave, de transbordamentos meticulosos; vou estar permanentemente fadada aos mimozinhos do estilo francês (sem necessidade de versalhices, por favor), à paixão dos adjetivos, dos advérbios, das fofuras supérfluas ainda que controladas. Não serei jamais graciliana, jamais cabral-de-melo-neta, nunquinha muito substantiva – hei de botar tempero e tempero e tempero na sopa, e mais coisa e mais perfume até chegar ao gosto diagonal, oblíquo. Voilà, oblíqua: hei de estar fatalmente seguindo enviesada, não vendo nunca só o natural, vendo antes enxoval em tudo. Meus olhos não fazem colheita em dias de realidade.

Embora o paladar prefira salgado, meus olhos gostam de doce. Gostam de se alumbrar com o pequeno do pequeno, com o detalhe do detalhe, com o sentido conotativo dos cedros e das demais formas rendadas; são gulosos, esparramentos, sobremeseiros, não param nem por nada na denotação, não se conformam com o cinza e o areia – pedem verde, rosa, turquesa, anil, carmim e mais todos os tons e subtons e entretons de que nem Pantone dá conta. Meus infinitos parece que se tecem mesmo assim, nos poemas de tudo, seja o que for, e vai daí que a prosa do mundo fica eternamente um trabalho excessivo; se não me amarro muito decisivamente numa realidade bem mais pesada que o ar, evolo-me e ninguém me vê (em resposta, o lado prático anda sempre sobrealerta, com uma espécie de insulina moral na mão pronta para conter qualquer desbunde; ou seja: sou também, não raro, realista demais por efeito rebote). Que não me exijam com exagerada rapidez uma ação seca, decisiva, e que me abandonem sossegada nesse pragmatismo aéreo de borboleta; eu chego lá, eu chego lá, mesmo que pelo caminho demoroso em desvios.

A eternidade tem muitos fios.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Irmã coragem


Foram apenas três capítulos, mas já ficou extremamente claro o acerto da escalação de Gabriela Medvedovski (uma das Five em Malhação: viva a diferença e na série spin-offada da novelinha) para o papel de heroína topetuda em Nos tempos do imperador. Sua beleza suave e esperta, espontaneamente adolescente e rijamente madura, com riso no canto do olho fácil de se tornar severidade, doçura, tristeza, revolta – é de temperatura perfeita para a "imperfeição" que a atriz mesma diz buscar na mocinha, e é um alívio dramatúrgico para gerações que agora chegam e merecem: menos rostos e corpos inacessíveis, porcelânicos; menos formas surreais, vaporosas, inatingíveis. A bela Gabriela poderia ser nossa vizinha de porta, a garota no elevador, a guria do trabalho em grupo, sorrindo ali a alguns metros sua morenice muito brasileira, muito nossa. Menos "nossa!".

Concordo que Pilar, a personagem de Gabi, é um ser de altíssima improbabilidade histórica; filha dum coronel (no interior da Bahia de 1856), e ademais criada em convento, a moça sonha ser a primeira médica do Brasil, possui instrumentos próprios de medicina, sabe tudíssimo que é possível saber na área enquanto não se faz um curso superior – chegando a extrair sozinha uma bala do peito de Jorge, seu interesse romântico, e a ser a única postulante a gabaritar a sabatina de admissão na faculdade. De que maneira a jovem recém-saída da educação conventual teve acesso a instrumentos e livros bastantes para uma formação tão quase miraculosa, desconheço; e os fatos do lado de cá da tela também não dão lá o maiorrapoio a essa biografia fictícia, uma vez que Maria Augusta Generoso Estrella e Rita Lobato Velho Lopes, ambas apresentadas por fontes distintas como a primeira médica brasileira, tinham respectivamente 4 e 10 anos no momento atual da novela. Maria Augusta, por exemplo, só começou os estudos médicos – em Nova York, já que nossas universidades não aceitavam candidatas a doutoras – duas décadas após o ano em que Pilar se encontra, e formou-se apenas em 1879. Mas OK; sendo Pilar uma mocinha tão inspiradora até para os padrões século-vinte-unos, a gente sublima a implicância histórica em nome, inclusive, de tantas mulheres oitocentistas das quais jamais viremos a saber, tão cobertas de talento e sonhos quanto a heroína, e no entanto sufocadas, subestimadas, violentadas, trancafiadas, desperdiçadas, corroídas por um sistema patriarcal e nojento cujos alicerces herdamos, cujas garras ainda seguem destroçantes enquanto não as arrancamos de todo.

Sarcástica, genial, bem-humorada, afrontosa, irrestrita e inegociavelmente contrária à ideia do casamento arranjado pelo pai (aliás o "noivo" Tonico, vilão vivido por Alexandre Nero, é outro espetáculo de personagem – horrendamente repulsivo, sem chance de conquistar simpatias, e ainda assim engraçado para o espectador), isenta do mais leve traço de autodepreciação ou submissão, espirituosa, resoluta, indômita, Pilar talvez não seja provável em sua época, mas é adequada para todas; dificilmente poderíamos contar com uma figura feminina mais frutífera para o girl power na teledramaturgia atual. Que seu exemplo de fundamental rebeldia grite muito mais alto no enredo do que a romantização despropositada de um imperador (certo, um imperador intelectual que adoraria trocar a sala do trono pela sala de aula, mas STILL um imperador); que seus movimentos de emancipação inexorável, libertos da tentação de olhar para trás, nos girem a cabeça para longe dessa mesma tentação – ora, tudo de que não necessitávamos era um elogio da monarquia e uma crítica aos trâmites do Congresso numa hora destas. De nosso 1856, fique em nós a Pilar que não houve, para que haja abundantemente agora em todos os lugares.

E que caiam de vez os outros velhos pilares.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Ciranda do Cloroquina


(Com mil perdões de Chico Buarque e Edu Lobo)

Todo mundo tem
Algo além de decoreba
Se quiser falar sobre a China
E tem cor de sol, tem um lado natureba
Só o Cloroquina que não tem
E não tem bandeira
Que não seja estrangeira
Gingar de capoeira
Ele não tem

Reparando bem
Todo mundo tem no olho
Uma imensidão cristalina
Todo mundo tem algum dom que está de molho
Só o Cloroquina que não tem
Nem meme da Frida
Nem letra do Emicida
Nem dor na despedida
Ele não tem

Não livra ninguém
Toda gente tem novela
Que garrou apego em menina
Tem fé na vacina
Ou teve anseios dela
Só o Cloroquina que não tem
Música do Aldir, gente
Música do Almir, gente
Dúvidas nA origem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo quer Estado
(Ou ao menos quem raciocina)
Todo mundo tem algum quê de apaixonado
Só o Cloroquina que não tem
Zelo por abelha
Camisa só vermelha
Titia que aconselha
Ele não tem

Um ladrão também
Tem vergonha do espelho
Se o correr da vida o ensina
Todos têm um milho fictício no joelho
Só o Cloroquina que não tem
Marcas de vigília
Um belo chá de tília
Um drama, uma Bastilha
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Narrar e proteger

Extremamente poderoso, precioso, corajoso, fundamental e completo o depoimento da Pocah no Papo de segunda de hoje, a respeito do longo período de violência doméstica vivenciado por ela nas mãos de um companheiro ultramegatóxico que bingaria qualquer cartela do relacionamento abusivo: do "essa roupa está muito curta" até a ameaça aos familiares, do arrastar pelo cabelo até a manipulação religiosa ("não fui eu, foi o demônio em mim, mas nós venceremos e a força de nossa união servirá como testemunho"), do "suas amigas não são adequadas" até a agressão que quase cegou o olho esquerdo da cantora – episódio no qual, aliás, a mãe do covarde desgraçado ainda recomendou ao filho que não levasse a MC ao hospital, pois ela certamente o colocaria na cadeia. Emocionadíssima, como não poderia deixar de ser sob o peso tamânhico do assunto, Pocah fez questão de destacar a influência que a narrativa de ex-vítimas de violência teve sobre seu próprio movimento de libertação, e se posicionou lindamente quanto à importância de contar, por sua vez, tudo que foi vivido e vencido: "Elas [as que, neste momento, se sentem presas numa relação tóxica] veem uma oportunidade para mudar de vida quando alguém diz que conseguiu"; "[desejo] salvar vidas assim como a minha vida foi salva pelos relatos de outras mulheres". Que coisa potente, espetacular: abraçar com tanta inteireza, objetividade, lucidez o papel de exemplo, o papel de palavra curativa, por mais que as memórias voluntária e constantemente revolvidas continuem sangrando.

Não conheço o trabalho artístico da querida Pocah, mas pelo menos em termos de imensidão humana já posso dizer que virei fã. Quanto de dor não haverá em se dispor a falar de um período tão excruciante da própria biografia, quanto de bravura não será essencial para se rever aterrorizada e vulnerável, quanto de estômago não se fará necessário para revisitar cenas horríveis, humilhações sofridas, manipulações nauseantes? Principalmente considerando que o namoro infernal começou, segundo a cantora, quando ela contava tenros 16 anos, comove-me intensamente ouvi-la dissecando com crueza tantas mágoas, reolhando nos olhos do abismo com tanto desassombro, no intuito de evitar que mais meninas sejam engolidas por esse ciclo doente e que mais adultas nele permaneçam (e dele se tornem vítimas fatais). Como é gigante e libertadora a palavra, na condição de instrumento autorreconstrutor e na de elemento construtor de alternativas! Falar, escrever é um lançamento de boia; é uma produção de aconchego – afinal não estamos sós, existe no entorno o calor dos que nos precederam; é um espelho porreta de autoconhecimento; é um combustível de catarse; é uma diagnose; é um aviamento de receita para a cura. Falar & escrever também resgata, para assuntos cruciais, aqueles que não são tocados pela bolha do sei-que-isso-existe, mas se inundam de empatia quando o exemplo, em carne e osso, fura a bolha e joga a experiência na cara, papo retíssimo. O que é dito muito diretamente se holofota. Se materializa.

Pocah sabe – estende inclusive, para a esfera artística, a consciência demonstrada na social, e sublinha que não é futilidade quando canta "ninguém manda nessa raba": é algo especialmente pensado para desviar a mulher de qualquer lugar de submissão. Se uns e outros acharão vulgar a forma, não interessa; a mensagem ecoa, cantarola no inconsciente, normaliza-se, normatiza-se, transforma-se em convicção, por que não em grito de guerra, em palavras de ordem. O verbalizado, repetido, encarado acaba se fazendo agente empoderador, ratificador de autonomias, ato de investidura dos próprios desejos – e se mostra particularmente forte que uma mulher realize essa investidura sobre outra, sobre outras; mostra-se possante e significativo demais que mulheres se abram reciprocamente as portas e reciprocamente se validem, se autorizem. Não, não precisamos de que os homens o façam: já transcorreram excessivos séculos em que eles foram centrais de comando e pontos de referência.

Chega de tudo que leva à morte, meninas. Nosso grito é só independência.