quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Razões emprestadas

Foi, se não me engano, no capítulo de ontem da novela A vida da gente. O médico que cuida de Ana, a protagonista em coma, alertou a mãe possessiva da mocinha: sua dedicação interminável à filha era muito boa, muito bonita, mas já estava em tempo de dar também alguma atenção à sua vida particular. “Minha o quê?”, repetiu Eva, tão aturdida como se a tivessem mandado escalar a seleção do Zaire. O doutor esclareceu do que se tratava. Aquela coisa, sabe, que se tem fora do hospital? “Ah, não, doutor” – ela sorriu, mais ou menos compreendendo o que ele tentava dizer – “eu não tenho vida particular. Minha vida é a Ana, sempre foi. Nós somos in-se-pa-rá-veis.” E ali permaneceu a motherzilla interpretada por Ana Beatriz Nogueira, observando a filha com carinho aterrorizante.

Eva é fictícia; seu comportamento insano não é um poço de realismo. O discurso, sim, é realista. No que há de péssimo. Não somos poucas as criaturas que vivemos de razões emprestadas: seres sanguessugas que terceirizam a própria existência vampirizando o cangote de outra criatura – ou de um trabalho, ou de um propósito. Menos pior quando é de um propósito, em especial se muitíssimo elevado. Acabar com a fome no planeta, por exemplo. Ruim demais se for de um trabalho: mutilam-se outras necessidades, sedes e mundos, e aquele ser se torna monofacial, monotemático, monótono. Mas terrível, perverso mesmo, quando cravamos os caninos num outrem que deve gerar energia suficiente para viver por dois. Que desde sempre carrega o fardo parasita ao qual, por acréscimo, tem o fardo pior de não poder decepcionar. Uma relação a três – o viciante, o viciado e sua tonelada mórbida de expectativas. Bom para ninguém, aberrante para todos.

Passar adiante a procuração de nossa felicidade é um tipo de ódio. Deve-se, no fundo, desprezar profundamente o bem-estar daquele em quem sapecamos arreios, cabrestos, correntes. Precisa-se nutrir tanta reverência, tanta admiração pelo objeto hiperamado como senhores de engenho nutriam pelos escravos que eram suas mãos e pés. Depender não é amar: é escolher a vítima conveniente, o alvo de abate. Amor que mereça o rótulo necessita já a princípio ser livre, no sentido de pisar macio para não virar hóspede que incomode. Amor caminha plumamente, delicado na atenção, de sobreaviso na leveza; voa mansinho, flutua, não se arrisca a pousar e pesar. Pousa como quem sopra e permanece com a suavidade de quem não estivesse.

E só assim – desengaiolado, desengaiolante – consegue ser-se. Amor pode e deve ter documento. Desde que limite as algemas às ocasionais de pelúcia rosa, para eventualidades de lazer.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

The end

Eu estava lendo (oh, surpresa) uma crônica da Martha – que, por sua vez, lera uma crônica da Clarice – sobre nossas últimas palavras. As últimas ever. O fechamento verbal da vida. Martha comentou a tremenda responsabilidade, o tremendo peso, de não se poder garantir que toda uma existência não acabará num "putz", ou expressão igualmente cretina. Algo que não faça jus a nossa abundância vocabular, a nosso eldorado interior. De fato, não é questão para se perder no travesseiro entre um dia e outro. É para amofinar. E, na total impossibilidade de se ter controle sobre o momento da declaração final (ainda mais numa cidade estúpida, súbita, como este Rio de Janeiro), resolvi já ir adiantando meu testamento, que segue pelo menos em rascunho. Just in case.

Declaro para os devidos fins que esta foi uma boa vida. Não pode ser uma vida ruim aquela que tem Fábio, casa, família, salário. Que teve amendoeira no quintal. Que teve quintal. Que teve irmã mais velha, show do Roupa Nova, visão capaz de identificar o rosa e o laranja, paladar sensível ao toque da manga, olfato bastante competente para cheiro de café e fornada nova de pão francês. Que teve amigos, Cabo Frio, Magic Kingdom, rua arborizada, agradecimento de aluno (uuuuum que seja). Que escutou piadas, elogios e necessárias broncas. Que teve mãe e pai – só isso já assegura bônus para mais de século.

Declaro que, pela ausência de chance (e cara de pau) e tempo, posso não ter mergulhado com bastância nas atividades mais amadas, posso não ter sido a mais eficaz e exemplar entre os projetos queridos, mas em compensação tentei, sem amargura, dar o rumo mais nobre aos trabalhos que se mostraram possíveis. Tentei, se não ser a melhor, ser melhor do que a eu-mesma de ontem e anteontem. E tanto me afeta, tanto me absorve a palavra que talvez eu não tenha conseguido suportar o choque de usá-la para demonstrar o que mais me afeta e absorve. Talvez eu não tenha amado o suficiente em voz alta. Talvez não: é certo. E me desculpo pelo mau jeito. Reconheço não ser, por acanhamento – diante dos verbos e dos quereres, que tanto medo respeitoso me dão –, a mais expansiva, a mais fluente das sentidoras. Sinto tudo baixinho, a não ser quando trovejo. Prefiro o papel à voz, o teclado ao fone, a ação à declaração. Gosto de favores, abraços, olhadas e presentes no lugar dos eu-te-amos que não me escapam porque me fazem enrubescer.

Por fim, declaro que me esfalfei para ir jogando foras as mágoas e, pelos meus cálculos, devo chegar ao cabo sem nenhuma. Reciclá-las todas antes de cada próximo capítulo. Não sou ainda a recicladora turbo que gostaria de ser, e por outro lado não sou mais a antiecológica criatura que acumulava ressentimentos de magistério sem fazer uma coleta seletiva. Mudo-me, trabalho-me; tento, ao menos. E creio. A vida inteira não deixei de crer. Sou incapaz tanto do otimismo idiótico quanto do pessimismo convicto. Mas, na escolha, entro no time do primeiro, porque creio – e procuro convencê-lo a moderar a pieguice e falar de outro modo as mesmas esperanças.

That's all, folks. Se qualquer coisa que eu tenha dito, ainda que esquecida ou inadvertidamente, deu cria feliz no pensamento de alguém, vali a pena. Saio aqui da história para continuar na vida. Espero que por tempo mais do que suficiente para aperfeiçoar meu último texto através das décadas. Umas quinze. Não tenho pressa de postar a versão definitiva sem certa qualidade na revisão.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Menino maluquinho

Eu tinha de começar por alguém; comecei pelo Juvenal. Pelo Joelho Juvenal – primeiro livro que lembro de ter em mãos. Vieram no embalo Pelegrino e Petrônio, Os dez amigos, Rolim, Um sorriso chamado Luiz. Obras quadradinhas (só em formato), coloridas, que personalizavam partes do corpo com ternura, sem tolice. Minha iniciação. Meu mundo pré-Lobato. Não fosse o planeta lilás onde habita Ziraldo – ele e seus meninos morenos, marrons, maluquinhos, quadradinhos, os da lua, os do Rio Doce, os mais bonitos do mundo, as meninas Ninas –, quem sabe se hoje eu estaria aqui professora, desde sempre uma apaixonada de histórias?

Na 1ª. série conheci Maluquinho, protótipo da criança feliz: fogo no rabo, macaquinhos no sótão, olho maior do que a barriga. Paletó do pai e panela na cabeça. Não amá-lo como? Não eram só Maluquinho, Julieta, Junim, Carol, Bocão: eram os traços ziraldescos, grossos, contentes, solares, inconfundíveis. Passaram na escola uma entrevista em vídeo com Ziraldo e nos recomendaram atenção. Atentei a tudo e anotei tudo com tanto desvelo que meu pequeno relatório fez sucesso entre as tias. Não lembro o teor, só me recordo do autor ziraldeando, fazendo graça, para explicar como criara Maluquinho. Precisava explicar? Maluquinho já nasceu criado, nasceu existente, vivia um pouco em qualquer pequeno de sete anos. Seu pai, carinhosamente, apenas nos constatou.

Hoje, no 24, Ziraldo vira um pequeno de 79 (!!!!!) anos. Ele e suas cores, seus mundos, suas luas, seus cometas, seus encantados planetas. Seus cartazes sorridentes da Feira da Providência, suas anedotinhas fofas do Bichinho da Maçã. Suas mães que são súper, seus Jeremias que são bons. Aliás, Bons. Suas vovós que são delícia, suas tias que são tantas – e são nota dez. Suas lições de alfabeto, geografia, poesia, anatomia doida, astronomia lírica. Seu autógrafo que até hoje me sorri num dos livrinhos: “Viva a Fernanda!”.

Viva o Ziraldo! Por sua causa, o mundo desta professora muito maluquinha desde cedo brilhou bem mais flicts.

domingo, 23 de outubro de 2011

Aquele olhar

“Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco, porque não existe plástica que resgate seu brilho. (...) Olhe-se no espelho. Você tem um olhar de quem estaria disposta a cometer loucuras? Tem que ter.”

O trecho é, obviamente, da autoria de Martha, na crônica “Os olhos da cara”. Terminei de ler e corri a dar uma checadinha no espelho. Será que meu olhar transborda todas as possibilidades às quais está aberto? Cintila o suficiente para denunciar que, apesar de quietinho, guarda um turbilhão de embates, uma procura ininterrupta, uma vida de projetos? Brilha o que tem de brilhar para mostrar que ali está ocupado, ali tem gente? Espiei e vou responder com certa condescendência: creio que ele passa no teste. Pode não ser olhar azul, verde ou mel, daqueles que quase nascem aprovados pela própria natureza, mas seu castanho-beirando-preto bem comunzinho dá pro gasto. A timidez me faz às vezes fechar as cortinas; quem examinar para além da timidez, no entanto, vai ver que ali dentro tem lareira acesa.

Precisamos ter olhar de fim de semana mesmo no embaçamento do dia útil. Ainda que no meio de relatórios e correções de prova, ter olhar de férias. Olhar de festa, fresco e buscante, dançante e convidativo, no decorrer da reunião. Olhar de loucura no decorrer da rotina. De loucura no bom sentido. Da loucura sã de continuar achando tudo muito interessante deste lado do mundo, sem que isso nos impeça de, no minuto seguinte, pegar avião para o outro, só com bagagem de mão. Da loucura sábia de enxergar beleza literária num jornal e de ser igualmente capazes de nos enfiar na Biblioteca Nacional, só para ver mais de perto aquele manuscrito da reportagem. Da loucura calculista de não perder o controle, mas de lhe dar um bocadinho mais de corda na coleira, para que fareje universos novos que estejam dando sopa.

Não falo de universos amorosos para quem está comprometido! falo do amor por universos que se abrem para os casados com a vida. Em algum âmbito, é urgente termos olhar de apaixonados eternos. Olhar de don-juans que flertam com o dia, seduzem o trabalho, paqueram o ambiente com fome generosa. Olhar não pode ser solteiro. Muito menos viúvo – de quem acredita já ter feito todo o Kama sutra com a vida e decidiu se aposentar do ato de se surpreender. Olhar saudavelmente louco se enamora todo dia, casa com festa e o escambau. Pega toda chance de contrair núpcias com uma viagem inesperada, uma rua desconhecida, um roteiro improvisado, um emprego impensado, um curso de mergulho que não estava nos planos, uma aula de piano que não estava no caminho, uma fluência em francês que não tinha entrado na história.

Viver é isso: não ser Napoleão nem César nem Gengis Khan, e ter um olhar doido o bastante para entrar na própria história.

sábado, 22 de outubro de 2011

A praça é nossa

Como tem comemoração de tudo no universo, hoje é o Dia da Praça. Descobrir isso me deu ataque de ternura. Minha vida está ligadíssima a duas praças muito diferentes – uma transpirando a cavalinhos, balanço e verde; a outra representando comércio, cinema e lanche com a mãe. Na segunda (coração incontestável do bairro), eu passava os sábados à tarde; na primeira, os domingos de manhã. Crescer com as duas versões de paraíso é privilégio que não dou, não troco e não vendo.

Lembro-me nitidamente de mim aos seis ou sete anos, sa-li-van-do de gula pelo fim de semana, sonhando de olhos arregalados com a oportunidade de montar e alimentar os cavalinhos de domingo. Sim, porque não me contentava em passear nos poneizitos da praça, devidamente guiados pelo cuidador. Eu levava quase todo o passeio puxando e arrancando raminhos das árvores mais baixas, só pelo orgulho de ver os bichos mastigando meu oferecimento com vontade. E, claro, pelo amor que lhes tinha. Sou doida em equinos desde que descobri ser gente. Mas não esqueçamos o balanço – outros 50% de alegria dominical. Eu balançava, balançava, balançava com gozo e instinto de pássaro. Ficaria ali manhã, tarde e noite, aproveitando as asas improvisadas, dando-me impulso com independência, tomando cuidado apenas para não atropelar nenhum desavisado. Ainda é o cuidado que mais me absorve em meus voos particulares.

Já crescidinha, ia mais à segunda praça que à primeira. Não eram voltas de domingo (os domingos sempre tinham sol naquela época), era a delícia de sábado. Cinema ou teatro infantojuvenil; em seguida, chás da tarde – a rigor, cafés com leite da tarde – ao lado de Mãe. Devo muito a Mãe o fato de me sentir em casa nas salas de cinema, que coalhavam minha praça de estimação nesse tempo. Eram várias as de rua. Hoje migraram para os shoppings, encastelaram-se. As casas de chá também. Cines antigos viraram farmácia, Igreja Universal, Leader Magazine. O Café Palheta, de meu amado waffle com manteiga e mel, foi reduzido a um estandezinho da drogaria Venâncio. Memórias românticas foram tristemente enxutas e comercializadas, vulgarizadas pelo progresso, pela falência, pela necessidade. Mas a praça continua ali: popular, caótica, acelerada, as mesas de velhinhos da biriba, os aparelhos de academia ao ar livre, o chafariz que respinga amoroso na gente (tem peixe!), os ônibus que disputam palmo a palmo, a feira de artesanato tão querida, a correria, a pressa, o metrô, o tudão que bate no coração do meu bairro. Bairro que é bairro tem no coração uma praça. Infância que é infância, também.

Não precisam ser duas como meus dois céus, não precisa ser grande, acavalada, encinemada, movimentada. Basta que seja praça honesta, que tenha a decência de oferecer ao menos um balanço. Que apresente ao menos uma criança correndo. Um pipoqueiro. Um vendedor de qualquer coisa que não se deva comer antes do almoço. Uma qualquer vegetação que você sempre recordará como amazônica, ainda que não passe de dois canteiros mixos. Um prédio tombado no entorno. Vários prédios sem varanda no entorno, velhos como a memória. De preferência, alguma feirinha em que se comprem saias indianas. E aquele não-sei-quê que torne a praça grande, imensa, infinita – por mais que no futuro a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim tenham perdido sua reputação de reino encantado pela métrica adulta. Mas a praça da infância fica. Fica. Do mesmo jeito, de igual tamanho. Tombada por nosso patrimônio histórico.

A praça é do povo como o céu é do condor, diria Antônio. Sei não. Acho que a praça pode ser céu de fazer condores momentâneos em balanços voadores. Só não é exclusividade do povo. Ela é, sobretudo, lugar de nossa individualidade sair da cela para tomar seu banho de sol.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O incomemorável

Ele era um ditador sanguinário, maluco, homicida, coisa e tal. Fato. E eu definitivamente estou looooonge de ter peninha do homem. Por questões práticas, não há também como negar que o mundo fica mais respirável cada vez que o índice de portadores de maldade diminui. Mas isso não me consola ou convence sobre o modo como Muamar Kadafi foi morto. Porque o problema está justamente aí: foi morto. A não ser em legítima defesa urgentíssima, quando o sequestrador está insano com a arma na cabeça do refém – pronto para tudo, surdo a tudo – , não consigo compactuar com a ideia do assassinato. Não lastimo (nem celebro) a morte do sujeito: lastimo o falecimento de mais um ponto em nosso nível de civilidade, lastimo mais um enfeiamento de nossa conduta, lastimo outra mancha de sangue de que não precisávamos, outra uga-buguice que a humanidade poderia dormir sem. Lastimo que Kadafi (e Saddam, e Osama) tenha(m) cumprido sua principal função: igualar-nos a ele(s). Qual o nome de quem fica feliz com um fuzilamento que lhe convém?

Perfeita uma carta de leitor (Sérgio Luís Escovedo) publicada hoje nO Globo. Tão perfeita que me retiro a um cantinho e lhe passo a palavra: “A morte de um tirano traz uma onda de júbilo para o povo, mas não deve ser comemorada. A morte nunca pode ser comemorada: isto é barbárie, é retroceder ao estágio mais primário da civilização. Basta lembrar que [, na Odisseia,] Ulisses condena sua aia, quando ela festeja a matança dos pretendentes [de Penélope]. Se Homero, em 700 a.C., já dava essa lição, de que serviram quase três milênios de História?”. Excelente pergunta. Inclusive vou ficar aqui no cantinho chorando mais um pouco e já volto.

É justamente – ou é também – para este nosso lado visigodo, canibal, justiceiro mascarado, que existe a ficção. Nela podemos nos dar ao luxo de esquartejar, escalpelar, decapitar, empalar quem quer que seja, desde que a coisa permaneça entre nossos bonequinhos de plástico, celuloide, papel. Podemos atirar em Odete Roitman, empurrar o Coiote no precipício, arrancar a cabeça dos Volturi, petrificar a Medusa, brincar de Jigsaw. Matar o vilão e sair do cinema. Mãos e alma limpinhas. Temos TV, literatura, teatro, Playstation exatamente para dar vazão aos monstros do sótão, tão amorais e genocidas quanto os que nossos tiranos da vida real criaram em cativeiro.

E aí nos vem mamãe falando: você não deve, no embalo do riso, da vontade e da distração, imitar em tudo seus amiguinhos. Porque alguns simplesmente esquecem a hora de parar de brincar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Amigos de infância

Banheiro de shopping. Experimente fazer um comentário sobre os azulejos, a moldura do espelho, o raio do papel-toalha que sempre falta. 1 real de aposta: a senhorinha (ou mocinha) ao lado responderá com duas ou três frases, enxugará as mãos sorridente (na calça jeans, por causa do raio do papel-toalha que sempre falta) e lançará um “tchau!” ao sair. Se não emendar um “bom dia pra você”, um “tudo de bom” ou semelhantes. É batata. Em qualquer horário, em qualquer lugar: brasileiro que fica 15 segundos e 6 palavras perto de outro já é íntimo, está atado, comprometeu-se; tem, inclusive, a recém-aparecida obrigação de se despedir com afeto e alegria. Para o bem e para o mal, carregamos o vício da amizade instantânea.

Pessoas tímidas como euzita sofrem um pouco com essa etiqueta do acaso. Tenho vergonha de dizer e de não dizer tchau para os amigos de ocasião, especialmente se não iniciei a sessão interativa. Se iniciei, está claro: manda a boa educação que pelo menos um “obrigada, boa tarde” encerre a conversa. Mas se eu jazia na santa paz, um cidadão me abordou e vou saltar do ônibus antes dele, eis-me constrangida. Acabo grunhindo um qualquer “até logo” antes de me pirulitar.

Há dias, sim, de maior boa vontade social, de participação mais condescendente nesta nossa eterna festa de cordialidade. Geralmente, porém, se circulo sozinha, pasme: quero estar sozinha. Não que eu seja – já disse que não sou – antipática e azeda; fico apenas vexada com os sorrisos amarelos que acabo forçada a distribuir. Sem ressentimentos. Lamento mais pelos outros, que precisam lidar com a minha sem-jeitice, do que por mim. Sai no prejuízo é quem se aproxima na esperança de uma prosa de comadres.

O que de fato me aborrece é a verborreia. O derramamento verbal não solicitado. A promiscuidade de confidências. Por que, meu São Crispim, eu pareço interessada em saber que o filho da vizinha de assento está com uma verruga dentro do ouvido? Por que a moça da loja me acha digna de acompanhar seus problemas matrimoniais? O que me dá cara de ouvidora de biografias, receptora de currículos, psicóloga de desconhecidos, conhecedora de hemorroidas? Outro dia foi no táxi: eu tentava docemente ler uma crônica da Martha enquanto o motorista, zero de tato e cerimônia, me punha a par de suas taxas de colesterol, suas considerações a respeito da caminhada, sua pretensão de retomar os exercícios. Nem respirava. Um serial talker. Polidíssima, dei respostas curtas para desencorajar a metralhadora giratória, mantive o livro bem à vista. Funcionou? Tanto quanto funciona pedir clemência a um serial killer. Só parou o bombardeio quando saí das linhas inimigas. Mereço.

Justiça seja feita: na maior parte das vezes, manter-me educadamente silenciosa é o bastante para que evitem me impor um diálogo (ou monólogo). Mas há desonrosas exceções, como o taxista gamado em sua própria voz e ideias. A esses, uma recomendação. Resguardo não é desfeita, sossego não é tristeza, timidez não é azedume. Antes de captar um interlocutor à sua revelia, convém ter certeza de que não somos o chato segurando vela. O quietinho pode estar simplesmente fazendo amor com o silêncio, em plena luz do dia.