sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Dia de Todos os Pássaros

Então é isso. Amanhã me caso. Mais cedo que eu esperava, apesar dos meses de preparação; nenhuma preparação dá conta de nosso despreparo. Amanhã cruzo definitivo o portal do mundo adulto. Lembra quando dizíamos “no futuro”? “um dia”? É amanhã que ele mora.

Já estou (assim continuarei nos meses seguintes) em arrumações neuróticas dentro e fora, para ser capaz de atravessar a soleira do tomo 2. Porque é um tomo 2. O segundo volume da gente. Faço os necessários da rotina e, num só tempo, ela malvadamente me engole. O mundo tirou férias de si mesmo. Eu estou temporariamente suspensa de mim. Voltamos em alguns anos com a nossa programação normal.

É muito dia pra caber num dia só. Amanhã a pessoa civil tem revoluções e a pessoa jurídica, cabeleireiro. Despedidas para uma, maquiagem para outra (eu que não uso maquiagem ever – mas convém, por tradição talvez, que não pareçamos conosco no casamento, uma vez suspensas temporariamente. Um clone seguro e pestanudo assume). Azia para uma, aceno de miss para outra. Amanhã estarei emprestada a uma eu oficial, enquanto me transformo à paisana. Amanhã estarei vulcão debaixo do sorriso Disney.

Antes que me tomem por já ritalinada das ideias, o porquê do título. É parte da citação lindinha de Guimarães Rosa – do conto “Substância” – que escolhemos para o convite: “Só o um-e-outra, um em-si-juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente: pensamento, pensamor. Alvor. Avançavam, parados, dentro da luz, como se fosse no dia de Todos os Pássaros”. Assim me sinto, coraçãomente em voo. Buscando um quê que não sei e pousou além de tudo que já consegui ser.

Adeus às (minhas) armas. É amanhã. Amanhã.

(P.S.: Por motivos escandalosamente óbvios, pela primeira vez me ausentarei do Lugarzito. Volto quando, em todos os conotativos e denotativos sentidos, aterrissar.)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

De graça

Hoje foi o Thanksgiving, tradicional e celebradíssimo nos EUA. Infelizmente não bomba muito no Brasil como Dia de Ação de Graças. Ao contrário da importação mais ou menos bem-sucedida do Halloween, o Thanks é solene e recorrentemente esnobado. Pena.

Pena porque existem poucos sentires mais gloriosos que a gratidão. A criatura grata já se encontra em estágio suficiente de evolução para receber favores sem a folga de quem não os valoriza e sem o mau humor de quem os deve. O grato vive, até, no doce espanto de seu imerecimento, porém não rebaixa a dádiva ao patamar de dívida: alegremente homenageia o doador com a humildade de aceitar (e nada mais quer um doador real que a chance de ceder felicidade pura, sem a contaminar de comércio). O ingrato se avexa do imerecimento e, soberbo, tenta comprar por preço qualquer o que – pelo tanto valor que tem – não se vende a não ser de graça. Ou então é o ingrato esquizoide, convencido de ser Napoleão: que me tragam, que me tragam tudo, obrigação mesmo é me servir. Vício de império próprio do delinquente em formação.

Mas o que vem de graça não tem moeda que o devolva em igual medida, por não haver medida. Nem é recompensa dada a alguma (tentativa de) grandeza terrestre. Graça não tem credor, não faz credores. E por isso nos desconcerta. Foge à nossa organização mundinha de causa e consequência, de etiqueta e cartão de crédito. Está lá na nova canção da Marisa: "Eu realmente não sei/ o que eu fiz pra merecer/ você". Estava lá na trilha da Noviça rebelde: "Nothing comes from nothing/ nothing ever could/ so somewhere in my youth or childhood/ I must have done something good". Mania da gente, sempre procurantes do Grande Algo Que Fizemos Certo. Tem disso não. Amor e seus gêmeos não são depositados na conta por serviços prestados. É, sim, um grande serviço que lhes prestamos não os expulsar da hospedaria, por não virem com a fatiota dos que precisam de maquiagem para valorizar o produto.

Graça chega de cara limpa. Aceitem-na como é – ou não. Caso não, retira-se serena e tenta mais tarde. Ou não tenta. Interessante, pois, é não lastimar a visita perdida. Recebê-la no emprego mantido, no presente inimaginado, no cartão parabenizante, na dor ida embora, no filho voltado. Na água que gelou, no café que não esfriou, na pizza que chegou, na mancha que saiu, no marido que não esqueceu. No bufê, no buquê, no fácil, no sacrifício, no sol, na sombra, no metrô, no camelô, no bar, na barba, no rosto. No resto. Na palavra que encaixa e no carrapicho que solta. Na calça que cabe e no espaço que sobra. No sábado que entra e na quarta que sai. No tudão que parece tudinho quando não estamos (verdadeiramente) olhando.

Olhemos. Cantemos. Hoje, amanhã, em – como diz o comercial de banco – dois mil e sempre. Não permitamos que a graça, de ignorada, deixe de teimar em nossa direção.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Escala de cinza

Li um texto de Arthur Dapieve, espantoso de bom (não que me espante o fato de o autor escrever bem): “O traficante tranquilo”, publicado sexta passada no Segundo Caderno. Dapieve cita a entrevista feita por Ruth de Aquino com o traficante Nem (saiu na Época), na qual o moço, capaz das maiores perversidades no crime, se mostra também educado, polido, simpático, pai amoroso, encaminhador de viciados para tratamento e, pasmem, elogiador das UPPs e do secretário José Mariano Beltrame. Que em algum(ns) momento(s) mentiu, é óbvio. Mas mentiu a sério. Mentiras sinceras. Não agiu com descarado cinismo, mostrou apenas facetas outras, igualmente reais no instante em questão. A entrevista por isso causa incômodo, inclusive em Arthur Dapieve, que destrincha com habilidade o sentimento: “Temos enorme dificuldade de transitar num mundo onde há coisas pretas e brancas, sim, mas no qual a maioria se apresenta na infinidade dos cinzas. Assim, é menos perturbador pensar no Nem unidimensionalmente mau do que no Nem humanamente complexo, capaz [...] de amar a filha doente e de ordenar a execução de dezenas de pessoas [...]. O aparente paradoxo não torna mais fácil a nossa vida. A existência de um Mal e de um Bem metafísicos, absolutos, nos eximiria de refletir sobre nossos atos”.

Creio em Bem e Mal, sim, porém sei que emprateleiram ações e não agentes. Gestos, e não pessoas. Queremos por força enfiar o pacote completo numa despensa única: Fulaninho está no altar desde já, Sicraninho é um filhote de cruz-credo, sei nem o que está fazendo na terra que não desce de uma vez para os quintos. O problema é que Fulaninho – o aluno exemplar – passou a noite na balada, não relou num livro e, para manter a fama de bom, colou na prova de Química. E Sicraninho – o apocalipse da sala –, quando não está infernizando professores e colegas, se enfia na biblioteca para ler Monteiro Lobato e vai com a mãe servir sopão nos finais de semana à noite. É pra endoidecer? é. Porque este mundo não é coisa para amadores. Não é para gente que quer resolver logo o assunto da arrumação de pessoas, põe esse pra cá, aquele pra lá e fim de papo. Se há caixinhas, há caixinhas para cada pedaço de gente. Cada lado. Cada trecho. Adianta nada olhar da superfície: tem que ir às profundezas, dissecar, e ainda assim surge informação após a autópsia.

Ronaldo Bôscoli, mencionado na reportagem de capa do mesmo Segundo Caderno, era cafa com as mulheres, não gostava de briga física, língua ferina, amigo leal, crianção e descompromissado, compositor devotíssimo à bossa nova, capaz de demolir alguém com palavras e de socorrer desapegadamente qualquer um que precisasse. Um enigma. O Hitler vivido por Bruno Ganz em A queda (também citado por Dapieve), sem deixar de ser Hitler, amava os animais, dividia refeições e ternuras com os subordinados. O traficante Escadinha, igualmente comentado no texto, chamou à prisão os produtores da Rede Globo somente para alertá-los: tivessem cuidado com a crueldade dos então novos chefes do tráfico (Tim Lopes comprovou a crueldade na carne, infelizmente). Médicos ou monstros? lá e cá, embora não gostemos de admitir o que não facilita nosso trabalho de inventário. Conforme declarou brilhantemente o autor: “Para elas [as mentes maniqueístas], reconhecer alguma humanidade – e talvez até alguma qualidade – no inimigo equivaleria a ver afrouxada a sua disposição para combatê-lo”.

Brasileiros, especialmente, amam ou odeiam. Têm a impaciência emocional, infantil, de acolher ou linchar na mesma catarse. É fria. Enquanto vivos, somos todos mezzo, mezzo; escalas de cinza mais ou menos indecisas, prestes a mudar aos 48 do segundo tempo. Só depois da saideira é que dá para fazer os noves-fora, fechar a conta e passar a régua.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Por favor, pare agora

Em alguns lugares, hoje é o Stop the Violence Day – dia, em tradução óbvia, de dar cabo da violência. Hiperapoio. Inclusive nunca consegui entender um planeta movido a tapas, socos, napalms e baionetas. O que vai para o jornal? O que compõe os livros de História? Quais os assuntos importantes deste nosso mundinho de ovo virado? Guerras, revoluções sangrentas, guilhotinas, atentados, balas perdidas, atropelamentos de motorista doidão, tabefes no filho, tabefes na esposa, forcas, esquartejamentos, sacolejamentos de bebê, o celular atirado na camareira. Espécies várias, todas, de agressão verbo-físico-emocional bombam no YouTube, na nojeira dos tabloides, em qualquer texto distraído de escola. Assim aprendemos o mundo: é uma terrinha danada de hostil. Bobeou, o outro pimba.

Não nego que este terreno entre Vênus e Marte é disputado diariamente na base da ignorância; mas, por isso mesmo, não vejo sentido prático em salivarmos diante da “imprensa” marrom, farejando sangue. Quem pode culpar os repórteres de porta de cadeia se investimos 50 centavos em jornais que não valem uma pataca mofada? Investimos por amar a diversão sádica de dizer – olha que maravilha essa barbaridade que não me aconteceu. Fosse nosso o acontecido, amargaríamos a solidão de virar atração circense por ao menos uma semana. Embora pessoas haja (universitárias de vestido curto e rosa não me deixam mentir) que tenham fetiche nesse chicoteamento público.

Paremos. Paremos com a autoerotização da violência, que não temos boa realidade apenas porque a do outro é pior. Paremos com a chibata de nos julgar tão pouca coisa a ponto de só merecermos (faíscas de) atenção por termos sido youtubados em situação constrangedora. Paremos de lamber com gosto a ferida do mundo. Paremos de cutucar a carne viva porque cometeu a desonra de ainda estar viva, paremos de só morta achá-la fascinante. Paremos de nos nivelar pela altura do doentio, de nos render ao bizarro, de nos vender ao desvio, de nos rebaixar à exceção. Não nascemos para a exceção porque violência não é regra. É pau, é pedra, é o fim do caminho. É o Hades. É o podre, a sobra, o resto, a migalha. É o que nem devia ter começado a ser. É o rejeito não-reciclável. É lixo. É nada. E tem o toque antimidas de transformar em bando de nadas os agentes que lhe prestam serviço.

Violência não é, em termos de produto, porcaria absolutamente nenhuma. Justamente por isso é que contratou uma agência de publicidade melhor.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Hello, hello

Hoje foi o World Hello Day, dia de simplesmente mandar um “oi” a conhecidos e desconhecidos – assim, nessa candura. Não conhecia a celebração que envolve vários países e achei, no mínimo, o máximo. Um olazito que se diga por aí parece coisa de 1,99; mas, a considerarmos demoradamente, nada tem de chinfrim. Dar um oi é reconhecer a existência de. Dar-se ao trabalho de não ignorar a presença de. Assumir que se está cruzando com. Olhar para. Ao menos olhar para. Olhar a ponto de admitir que aquele ser vale a demora de um mexer de lábios, vale a doação de um segundo, um milésimo de segundo. Vale um som. Um ou dois fonemas simpáticos no dia. Vale a honra, o selo de uma prova de vida. Entre milhares de vidas diariamente esbarradas, ter a deferência de um oi equivale, em proporção, a recepção com bandinha.

E receber oi de presente equivale a estar presente. Onde for. Vai dizer que você se sente na mesma dimensão de uma festa, lotadaça, na qual não ganha um mísero cumprimento? Vai dizer que não sofre a solidão da família – mesmo a sua – em que o deixam despercebido no cantinho? enquanto cada qual mergulha nas individualidades da rotina? Oi pode não ser diálogo, abraço, mas é a possibilidade de. Rascunho. Primeira viabilização de um qualquer toque humano. Às vezes vem sem voz: vem no sorrisito cúmplice de canto de boca, no olhar grávido de brejeirice (ah, as brejeirices!) e, melhor, no beijinho de cheguei-da-rua. Mas só é melhor se o beijinho não chega da rua meia hora antes do coração.

Amanhã e depois e depois e no infinito vezes dois, prossiga na vibe do oi. Oi pro taxista, oi pro ascensorista, oi pro porteiro, oi pra mãe, oi pro boy, oi pro gari, oi pro aluno no corredor, oi pra secretária no hall. Custa menos que o cafezinho nosso de cada intervalo, e dá aquela acordada básica naquela mania de enxergar o outro – que a gente não tem.

domingo, 20 de novembro de 2011

A felicidade dele

Chama-me a atenção um comercial que passa no (adivinha!) Discovery H&H, anunciando documentário para o próximo domingo. Nome insólito: O menino que nasceu menina. História de uma moça que tem aos poucos se transformado em rapaz. Mas o que particularmente me chama a atenção (não bastasse o inusitado do tema) é uma fala da mãe do jovem: “A felicidade dele é parte de minha dor. Minha filha está desaparecendo fisicamente”. Nos olhos da mãe, uma agonia de dilema amoroso – querer bem ao menino que acabou de ganhar ou guardar luto pela menina que perdera. Nos olhos da mãe, uma encruzilhada de nascimento e de aborto.

Não discuto aqui a questão ético-moral de uma mulher tornar-se homem, seus vice-versas e suas implicações. Discuto uma única implicação: o aborto de sonhos a que determinado quesito da felicidade alheia às vezes nos obriga. O que precisa morrer emocionalmente em nós para que haja, em outrem, espaço para um nascer desejado. É punk. Tão punk que, nos corações com bueiro entupido – aqueles que lotam lotam lotam até regurgitar, na primeira oportunidade de chuva, o bando de frustração engolida –, o mais certo é não dar certo. Fez-se a renúncia, fez-se a concessão, fez-se a tentativa de adaptação interna. Mas não se fez a fundação convicta, não houve perdão devidamente acreditado pelo perdoante (porque é trabalho enormíssimo de perdão pôr o outro em liberdade não-condicional de nossas expectativas).

Não acredito lá muito, por exemplo, em renúncia de fora para dentro. Digamos: o marido/ a esposa foi transferido(a) para outra cidade ou país, e o que ganha menos abrirá mão de sua carreira construída e idolatrada para acompanhar o (financeiramente) mais bem-sucedido. Me desculpe, é fria. É fria na medida em que o acompanhante não colocar a mão interior sobre a Bíblia e garantir-se, com pureza d’alma, que nunca, nunquíssima, nunca de núncaras jogará na cara do outro o tanto de desapego que precisou ter para permitir seu desenvolvimento profissional. Nunca com palavras, nunca com gestos, nunca com muxoxos, nunca com sarcasmos, nunca com indiretas, nunca com ironias, nunca com semanas de gelo, nunca com noites no sofá, nunca com perdas gratuitas de paciência, nunca com gritos, nunca com silêncios. Só acredito nesse tipo de arranjo sob voto perpétuo, registrado em cartório espiritual, de que o renunciante enterrará o ressentimento a nove palmos (dois a mais por garantia) e concorda em morrer inoculado pelo próprio veneno que teime em escapar. Que assassine os desejos antigos e busque, no dia seguinte da mudança, novíssima forma de ser feliz.

Acontece? Acontece. Acontecem combinações iluminadas, gente de fato evoluída que tem, pela realização alheia, amor mais limpo e mais fresco do que pela própria. Gente que é uma Manu da vida, sem prateleira de mágoas. Convenhamos: raridade. Por ser raridade – e para tornar hipernormal a coisa – é que se deve começar a enrijecer os músculos de amor, é que se deve começar a tratar gordurinhas de mal-entendidos localizados, nas pequenices; antes da renúncia que venha com dieta rigorosa e rotina de atleta. Que nos reeduquemos paulatinamente ao ato de ceder antes de o coração berrar de fome. Antes de o respeito falecer de hipoglicemia.

Não é que não mereçamos deixar de lado algumas esperanças e projetos. Quem não merece já principiar com a conta no vermelho é a felicidade dele. Tristes de nós se, irrealizados, servirmos só para âncora que impeça a navegação.

sábado, 19 de novembro de 2011

Bom ladrão

Gosto de acompanhar (sábado reprisa) outro daqueles programas inusitados do Discovery Home & Health, Eu não sabia que estava grávida. O título é autoexplicativo: mulheres vão vivendo muito bem a vida, tal e coisa, lalalalalá, começam a ter uma coliquinha – ou uma dor de mamute empalado – e descobrem que darão à luz um filho. Ou dois. Agora. É negócio que, se visto em novela, faria a gente xingar o autor. Improvável demais para ser ficcional. Já teve moça com esclerose múltipla parindo gêmeas no banheiro, mulher com laqueadura e pré-menopausa crendo que estava eliminando um tumor, senhoritas que engravidaram tomando pílula, senhoras que fizeram dez testes de gravidez e receberam dez negativos – até a hora do parto. Loucura. Não engordam (ou engordam miudíssimo), não enjoam, não desejam. Não esperam esperar. E, quando menos esperam, eis o rebento escorregando pelas pernas, matando de susto a família repentina.

Somos todos famílias repentinas de partos inesperados. Todos mães súbitas. Todos anfitriões perplexos. Esta vida, esta tresloucada vida não cansa de nos pôr nos braços frutos enroladinhos em trouxas, frutos que carregávamos insuspeitos. Não sabíamos estar grávidos da fome de morar fora, até que aquela viagem nos atirou no reino encantado tão longamente desconhecido. Não sabíamos estar grávidos da paixonite pelo melhor amigo, até que quisemos morder o nariz da mocreia com quem ele marcou de ir ao show. Não sabíamos estar grávidos da vocação de ser chefs, até que acompanhamos a prima no cursinho básico de culinária e nos vimos como natos cortadores de cebola. Não sabíamos estar grávidos de uma carga tremenda de felicidades possíveis, de uma caçambada de vidas alternativas, de uma multidão inacreditável de destinos. Não sabemos, até que o coração urra em dores ou delícias do parto.

Bem-vindos sejam bons ladrões que nos tomem a vontade de assalto e nos mergulhem em versões – desde que não imorais, ilegais ou engordantes – distintas de nós mesmos. Que nos façam dar à luz, trazer à tona, chamar ao mundo porções nossas que receberão boladas de riso em herança. Pena que, inconvenientemente, tantas vezes nos chegam contrações de renascimento sem o preciso tempo de nos preparar enxoval.