sábado, 18 de julho de 2020

Enriqueçam

Foto profissional gratuita de arte, criativo, desenho

Sigo no Facebook o maravilhoso perfil Cientista Que Virou Mãe, que, em post recente, disse com propriedade e lindeza a respeito das ansiedades e apatias vinculadas ao longo período de quarentena: "ENRIQUEÇAM SEUS AMBIENTES. Quando estamos em sofrimento, esquecemos que habitamos um corpo que é muito potente. Ele se molda aos desafios que vivemos. Mas é preciso dar uma forcinha. Mude a rotina. Mude as práticas. Faça coisas que você consideraria sem propósito. E, tão importante quanto, estimule as crianças a fazerem o mesmo, envolva-as nas atividades. Isso também é ciência, ciência a favor da humanidade, ciência para persistirmos, ciência para resistirmos, ciência para melhorar vidas".

Achei já profundamente rica de si mesma a recomendação de enriquecer ambientes – não custando sublinhar, é óbvio, que nada tem a ver com o investimento de dinheiro gordo na decoração; ornar a casa de peças compradas não é algo acessível à maior parte do país e talvez do planeta, porém, como está claro no texto da autora, o incremento sugerido foge ao material e envolve o depositar de criatividade, vida, afeto, experiências. É questão de abrir janelas nunca abertas (denotativas e conotativas), de aprender junto a dançar valsa na sala, de promover faxina musicada, de montar cabaninha com cadeira e lençol, de propor o desafio de reinventar objetos (prato pode virar tela a ser pintada e pendurada, panelas podem virar capacetes menino-maluquinhos, shampoos e embalagens outras podem virar prédios da minicidade), de retomar a velha atividade de plantar e crescer feijõezinhos, de agitar um desfile de bonecas e modelitos de papel. É questão de contar história para chamar ou para espantar o sono – não precisa ser lida: todos somos feitos de água e histórias –, é questão de bolar um teatrinho de sombras, de encher o quintal de bolhas de sabão, de inaugurar a sessão-pipoca todo sábado, de seguir em família um tutorial insólito no YouTube, de escolher um lugar do mundo para bater perna no Google Maps, de organizar exposição de desenho indoors, de incentivar o filho a sozinho caçar respostas para dúvidas palpitantes, de estimular o filho a também estar-se e refletir-se e mergulhar-se sozinho: não é porque papai, mamãe e manos não estão sempre disponíveis que as opções acabam, nem porque não há movimento externo que as engrenagens de dentro se interrompem. Um ambiente rico de possibilidade e ideia põe saúde até no tédio, mesmo porque não existirá tédio – no máximo pausas aparentes, físicas, enquanto atualizações do software rodam em segundo plano.

Nossas cabeças são ininterruptas, ágeis inclusive no sono; melhor, então, que seja a criação e não a piração a alimentar essas turbinas. Que leiam, que vejam filmes, que pintem paredes, que resgatem álbuns (fotográficos e musicais), que façam poesia, que façam bijuteria, que inventem instrumentos, que aprendam acordes, que estudem mapas, que ensaiem receitas, que acampem na varanda, que rearranjem os móveis, que recauchutem os móveis, que customizem roupas, que flertem com outros idiomas, que brinquem de abrir e ler a esmo o dicionário, que brinquem de projetar alternativas de aniversário. Se os humanos estamos todos fadados a ser mar perpétuo, de sinapses num indo e vindo infinito, que seja redemoinho minimamente viável e são, ou mais moinho que redemoinho: mais aproveitamento cantante do vento do que o caos da voragem.

É crucial nos embebedarmos de caminhos para aplacarmos significativamente a ressaca de nós.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Coração, sorriso, coração

Two Yellow Emoji on Yellow Case · Free Stock Photo

Eu não sabia que havia, mas não há o que não haja: 17 de julho é o Dia Mundial do Emoji. A data foi escolhida por ter sido aquela em que a Apple anunciou, nos idos de 2002, seu aplicativo de calendário – e é a mesma registrada no próprio emoji de calendário usado pela empresa. Nunca fui cliente da Maçã, mas acho pertinente e fofa a homenagem a essas figurinhas sorridentes (ou bravas, ou apaixonadas, ou choronas), das quais me assumo fã carteirinhada.

Existem os eternos ranzinzas que teimam em comparar a profusão de emojis na comunicação moderna à primitivice das pinturas rupestres, aos hieróglifos dos privados de alfabeto, como se o emprego dos smilezitos e afins reduzisse o poder da palavra escrita. Bitch, nada reduz o poder da palavra escrita. Emojis são assessores e acessórios, comentam e enriquecem os meandros do texto tanto quanto um colar ou uma bolsa comentam e enriquecem o traje, sem por isso substituí-lo. Sou profissional de Letras; é de crer, portanto (e é fato), que eu ame, cultue, aspire, lamba, venere o texto grafado; porém não vejo qualquer inconveniência ou incompatibilidade em adotar alegremente esse acréscimo à língua, que normalmente agradece pela soma do brinquedinho a seus recursos. 

Claro, há mãozinhas preguiçosas, que consideram um gélido sinal de joinha como resposta bastante para (digamos) um recado amoroso. Mas nesse caso a geladeira está no preguiçoso e não na preguiça; se o mesmo cidadão – ou engenheiro civil formado – apertasse duas, cinco, quarenta vezes os emojis com olhinhos de coração e beijitos piscantes, economizaria igual quantidade de raciocínio verbal sem com isso denunciar um descaso de iceberg; e ao mesmo tempo, se respondesse digitando um "tá" ou um "OK", pareceria tão desalmado/ indiferente/ irônico/ incrédulo como se se limitasse a estender o polegar. A eventual pobreza não está na expressão, está no expressador – e é reconfortante, para os inseguros como eu de não estarem involuntariamente ofendendo a percepção alheia, poder contar com o auxílio luxuoso da imagem para fazer as vezes de entonação, temperando e ressignificando a substância. Uma coisa é o "tudo bem" teclado a seco, abrindo-se a dúvidas; outra é o "tudo bem" escoltado por carinhas de olhos revirados, resumindo um universo de "tá, né, abusado, vou resolver mais essa, que escolha tenho eu?"; outra coisa ainda é o "tudo bem" acompanhado de piscadinha, beijinho, olhitos apertados e risonhos, como síntese afetuosa de "sem problema, querido, compreendo perfeitamente, fique tranquilo, por mim está resolvido". Gulosa que sou, adepta da fartura do cardápio, uso emojis aos potes, às toneladas, sem medo de ser infantilmente feliz – e ainda somo GIFs, figurinhas e o que mais vier aos dedos para traduzir tão fielmente quanto possível o destrambelhado, contraditório, ansioso texto de dentro. 

Sou da gramática sim, mas da diagramática na mesma vibe; apoio que norma e forma se abracem, que grafia e gravura se pareiem na dança. A comunicação humana é um megaboteco de Star Wars em que bebem, papeiam e confraternizam os tipos dos mais variados planetas, sem nenhuma galáxia inventada no meio.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Tinha uma pedra no meio do caminho

Estátua de escravagista é substituída por uma de manifestante ...

Na madrugada dessa quarta-feira, em Bristol (Reino Unido), a equipe do artista Marc Quinn instalou operação-secretamente a estátua Um Rompante de Poder, feita à imagem e semelhança da ativista Jen Reid. A nova escultura – temporária, infelizmente, já que os instaladores não tinham permissão oficial para colocá-la – retrata uma manifestante negra erguendo o punho com decisão, e foi posta no mesmíssimo lugar onde ficava a estátua que homenageava Edward Colston, um infeliz que enricou comercializando pessoas escravizadas no século XVII. Mês passado, um grupo que protestava contra o racismo derrubou Colston do pedestal e o "afogou" devidamente (espécie de justiça tardiiiiia, mas ao menos simbólica para os milhares arrancados por ele de suas terras africanas e mortos na travessia do mar – ou depois). 

Se aprovo a derrubada e a substituição? Completamente. Apaixonadamente. Por mim despencariam absolutamente todas as representações públicas de colonizadores, exploradores, escravagistas em cada parte do mundo, e só não defendo que sejam destruídas por deferência aos escultores que as moldaram; houve artistas, afinal, que dedicaram tempo e talento à confecção dessas obras, artistas que viviam das encomendas que lhes chegavam, e não merecem ter seu esforço moído em pedacinhos. Se me coubesse decidir, removeria das ruas esses ícones da crueldade humana e os socaria todos em museus, como muitos analistas têm sugerido. Que fiquem lá entre paredes, na condição de peças artísticas e registros de (uma triste) época – mas não fiquem nas calçadas, não fiquem nas praças, sendo louvados e celebrados em alta voz e esbofeteando os descendentes de suas vítimas, qual se mais uma vez as esbofeteassem em plena luz do dia. 

Porque só se mete na praça a estátua de alguém para festejá-lo, reverenciá-lo, agradecer-lhe, no máximo pedir-lhe desculpas, enfim; não há plaquinha de "contextualização histórica" que grite o suficiente para abafar a glória visual de quem está ali congelado em posição heroica, impávida, invejável, desejável. Manter a visibilidade escancarada do agressor, sobretudo num quase altar, é ainda glorificá-lo ao primeiro lance d'olhos, independentemente de todo o empenho sisudo de algum texto que o acompanhe. Só se exibe em espaço coletivo o símbolo coletivo de quem desejamos ser, e nosso pacto de admiração e projeção social NÃO pode se fechar em torno dos homens-brancos-ricos-(presumivelmente)-héteros-dominadores-violentos que nos trouxeram até as mesmas mazelas que combatemos. Para um novo pacto, novos símbolos. Para segurar as bandeiras de nossas novas delegações, novas estátuas – que cantem e exaltem: as primeiras cientistas a sequenciar o genoma do coronavírus; os professores e diretores de escola, que não raro tiram do próprio bolso para fazer o trabalho caminhar; as incansáveis pietás negras, constantemente dilaceradas pelo assassinato de seus filhos; as mulheres que corajosamente denunciam seus agressores; os ativistas antirracismo e anti-homofobia; os resilientes e fundamentais recicladores de lixo; os garis; os entregadores; os orientadores de refugiados; as empregadas domésticas; os funcionários de lanchonetes, restaurantes, lojas e salões que acordam às quatro horas para estar no serviço após um trânsito de três; os pequenos editores, os pequenos livreiros, os donos de sebo, que não perdem a fé em abrir caminhos entre as pancadas do mercado; os alunos que se tornam os pioneiros da família em seguir carreira universitária, e convocam as seguintes gerações. Que se homenageiem os cidadãos reais e palpáveis, os verdadeiros desbravadores, os insistentes, os persistentes, os que chegaram (ou nem chegaram) sem escravizar braços nenhuns, sem pisotear, sem oprimir, e bem ao contrário: erguendo e apoiando todos os que encontraram no percurso.

Quanto mais cedo pararmos de dar moral para antigos embustes de metal e pedra, mais cedo nos concentraremos em tratar dos corações de carne que realmente merecem – mas que por isso mesmo não habitam – o pedestal.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Sem volta

ramo crescimento plantar madeira folha flor viver Primavera verde crescer solo amarelo cebola Brotar ovo plantinha fechar-se esperança Páscoa ressurreição Brotos Macro fotografia Viver de novo Descendente renovar Desenvolvimento de germe Caule vegetal

Foi extremamente dilacerante e linda a participação do padre Júlio Lancellotti no Papo de segunda de anteontem (por sinal, uma junção de potências: tanto o programa se mostra, semana após semana, como uma das mais relevantes produções atuais, como o próprio convidado prova diariamente ser um dos maiores e mais importantes brasileiros vivos). Entre os vários momentos tocantes do primeiro bloco, que visivelmente deixaram cada um dos participantes de coração embargado, destaco o poderoso relato do padre a respeito das consequências de seu trabalho junto às pessoas em situação de rua. Segundo ele, por se colocar incondicionalmente em defesa dos desprotegidos, muitas vezes foi xingado e criticado, teve de peitar a guarda truculenta, chegou a tomar soco no estômago e a receber ameaças de morte – mas nunca pensou em retroceder no projeto, até porque não reconheceria mais a si mesmo se o fizesse. O que mais me bateu na fala foi a forma como o padre Júlio resumiu candidamente a questão (sem aspas, já que o parafraseio): uma vez nesse tipo de caminho, não há como voltar atrás. 

Pronto. É apenas isso. Chega um ponto em que – não direi que não existe escolha – a escolha se faz o mais parecidamente possível com um voo de ave ou uma corrida de puma: programada não é, mas tanto a vontade se alia à natureza, tanto o decidido parece compulsório, que se torna inviável separar a ação da respiração, a capa da pele, o propósito do instinto. Desde que a consciência nauseante dos esquemas do mundo se nos desnuda, nos invade, nos dá na cara, qualquer soco literal no estômago se revela preferível em comparação com o horror de reforçar esses esquemas. É o tomar da pílula vermelha, o acordar após a saída da Matrix, quando a realidade virtualmente arrumadinha é varrida de sobre a estrutura caótica que existe na prática. Não é questão de pessimismo, ao contrário: o pessimismo se opõe à luta, é desistente e entreguista, porque why bother? Para se ser minimamente operacional, no entanto, deve-se conhecer a ficha corrida do inimigo e olhá-lo na fuça, sem "manto diáfano da fantasia" sobre a "nudez forte da verdade", como diria Eça; deve-se encarar nosso esqueleto social capitalista sem ilusões de mudança rápida, sem expectativa de relâmpagos de iluminação espiritual nas altas esferas, mas com esperança suficiente, por isso mesmo, para todo dia arregaçar as mangas um bocadinho, infernizando o sistema infernal até que ele vá cedendo pelas beiradas.

Depois que se começa a acordar cada dia mais arregalado, mais ciente do esmigalhamento de uns pelo luxo de outros, pode haver resistência ao mergulho, pode haver medo, contra a própria consciência pode haver revolta, mas não há volta; defender os moldes da Matrix vira autotraição e fingimento. A razão grita, escoiceia, se impõe, e caso não se imponha não tem paz: a razão não é bem-sucedida em negar-se, costuma acabar suspirando e abraçando a missão cuja ausência a inutiliza. Obviamente não imagino que cada um de nós atinja o desprendimento e a grandeza de uma Irmã Dulce, de um padre Júlio, porém acho razoável esperar que nenhum de nós retorne a seu formato de alienação original. Acho esperável que não recuemos um milímetro, que nunca mais deixemos passar uma piadinha machista ou racista sem confrontar seu emissor, que de jeito nenhum compactuemos com o ataque às universidades públicas, que sob hipótese alguma nos calemos ante o achatamento dos direitos trabalhistas, que não permitamos agressões homofóbicas nem sobre nosso cadáver, que não abandonemos as manifestações (pós-pandemicamente), que não fraquejemos na defesa da arte, que não desistamos de incutir lucidez em adultos e crianças, que não nos omitamos politicamente, que não nos calemos, que não nos cansemos, que sejamos chatos, repetitivos, tinhosos, insuportáveis em tudo que vale a pena – como, aliás, tendem a ser os personagens que os alienados também admiram no cinema, mas pelos quais se sentem ameaçados na vida real. Estejamos em qualquer ponto entre as pequenas lutas às vezes tácitas, porém irredutíveis (na família, no trabalho, na rede social), e as grandes entregas como a do padre Júlio; o essencial é que permaneçamos – ou avancemos. Retroceder não é uma opção.

Naqueles em que os olhos se desvelam, a mente enxerga e ainda assim cabeça e mãos permanecem paradas e baixas, o inferno não são exatamente os outros.

terça-feira, 14 de julho de 2020

Não perturbe

Royalty free bed photos | Pikist

Casualmente fiquei sabendo que, há quatro anos, um estudante francês criou um despertador chamado Sensorwake, que acorda pessoas não com estridências barulhentas, e sim com aromas: de croissant (francês o rapaz, né?), café, chocolate, hortelã, grama, folhas, flores e não sei se outros alguns. Rumino lá minhas dúvidas quanto à eficiência do reloginho – terá o olfato tanta moral sobre os poderes do sono? –, pero que me encantó, me encantó. Há muito que uma das poucas utilidades de meu celular é a de me levantar para compromissos, e naturalmente uso música em vez daquele pem-pem-pem absolutamente insuportável dos despertadores; mas mesmo canções escolhidas a dedo berram no meio do sonho quando menos se espera levar um tranco sonoro, o que acaba sendo suavemente traumático (e nos faz garrar ressentimento das músicas preferidas, pela agressão). Normalmente funciona para fins de acordamento, porém é uma eficácia sem carinho: amanhecer é tarefa complicada, não pega a gente de boa vontade e exige mais cuidado na transição entre mundos. Empregar cheiros variados me parece uma alternativa simpática, plena de delicadeza – principalmente quando já são cheiros cafeinados, matutinos, que talvez de cara façam o dia soar apetitoso. 

Lembro-me de outra opção despertadora igualmente delicada, no filme Se eu fosse você: a mãe, Helena, acordava a filha soprando sobre ela, o que provavelmente comoveu mais minha memória do que todo o resto do longa (que não é ruim, aliás). Um perfume alegre, um bafejozinho de brisa – não são formas muito mais amorosas de convidar alguém ao desadormecimento, de não azedar com gritos a manhã, o dia? Pois então; saber da invenção do francês e invocar as lembranças do filme me puseram imaginando outras doçuras acordantes, para deixar a reputação do sol intacta. Beijos, por exemplo. Beijos nos cabelos, testa, orelhas, olhos, lábios (se, evidentemente, há intimidade que os permita como ternura e não como invasão). Mãos nos cabelos, também: com a mansidão devida, são eficientes no despertar como o são no dormir. E que tal o roçar de cachorros ou gatinhos que rondam na expectativa do café da manhã? Ou a sensação vaga e aromática de chuva no pátio, quintal, janela? Ou uma gotinha de sorvete refrescando a boca? Ou um toque arejado de Vick no peito? Ou um raio morninho do dia desdirecionado dos olhos e canalizado para os braços? Ou um poema lido baixo, baixo, não tão perto do ouvido?

Na mesma linha branda como um psiu: uns passarinhos cantando na vizinhança (contanto que não as maritacas que voam por aqui na fofocagem, insanas). Uma voz não passarinha cantando murmuradamente no quarto. Uma mão pousada maciamente sobre os pés. Uma caixinha de música. Um abraço. Um afago na pele com rosa desespinhada. Um cutuque ligeiríssimo no topo do nariz. Um ou dois filhos se atirando na cama às gargalhadas. Um ou dois pingos d'água nas costas. Uma expectativa – cuidadosamente plantada no episódio anterior – de presente-surpresa. Um ruidozito de bandeja chegando à cama (chegando farta, é evidente). Um vush-vush de cortinas. Um mexer lento de cobertas ou travesseiros. Uma chuva de confetes. Ou a mais orgânica das opções: o naturalíssimo nada – nada além das puras necessidades do corpo de despertar quando já se dormiu inteiro, sem horários que o forcem e o constranjam. Ué, sonhar acordado também pode.

A natureza infelizmente nos obriga a dormir; não me atrai, mas compreendo e aceito. Miltocentas vezes pior é que toda a antinatureza ao redor nos obrigue a acordar. Que ao menos nos seja leve: se se entra no dia como numa vida em miniatura, é preferível, sempre, que o mais macio dos partos nos nasça.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Precisa-se de gente

Abraço coletivo 27092012 | Marcelo Freixo | Flickr

Uma das falas mais definitivas e comoventes a respeito da relação com Deus me chegou por meio de um dos verbetes do Dicionário de humor infantil, joiazinha em que Pedro Bloch reúne ditos de seus minipacientes e amigos sobre os assuntos mais vários. Apesar do título, nem todas as linhas da obra são humorísticas; algumas resvalam para o pungente, a complexidade mais terna e filosófica, como o trecho que docemente me chocou: "Eu não rezo para pedir nada a Deus. Só rezo pra perguntar se ele precisa de mim pra alguma coisa". 

Desconheço a idade da autora ou autor da pérola, porém duvido seriamente de que muitos adultos já tenham ido tão além com tão poucos fonemas. Não é certíssimo? Se acaso estamos na condição de quem respira bom ar, tem residência segura, prato completo na mesa, corpo são, gente amada igualmente sã – o que há de fato a pedir por nós, para nós? Que assim nos mantenhamos, é certo, mas que nos mantenhamos assim pela exata possibilidade de revertermos para melhores focos toda a preocupação que não precisamos ter conosco. Todo o sossego que nos abençoa, se não vira tempo disponível para nos tornar úteis, o que nos torna? Peças polidas, brilhantes, tratadas, azeitadas para uso mas encostadas num canto; plantações cuidadas e robustas que mostram esterilidade de fruto, ou que dão fruto apodrecente sem consumo; cadernos novinhos e cheirosos para a escrita, de papel entretanto desperdiçado e mudo. Gente prêt-à-porter embolorada no armário, gente treinada que fica no banco dando ferrugem.

Não há desabono nem "culpa" se não temos ou tivemos uma jornada sacrificada, se não é ou foi necessário que nossas mãos sangrassem na feitura do caminho; há desabono, no entanto, em estarmos cientes de que o que nos chegou como bênção (ou como parte de um espólio social muitíssimo mal dividido) é idêntico ao que não chegou para muitos – e, ainda assim, continuarmos estatelados em berço esplêndido, sem colocarmos à disposição nossos braços mais livres de peso. A verdade que diária e universalmente se esfrega na nossa cara, berrando sem disfarces nos jornais e nas ruas, é: SEMPRE se precisa da gente para alguma coisa. Negá-lo é ser irresponsável. Precisa-se de gente para espalhar informações reais e rasgar as falsas, precisa-se de gente para reivindicar direitos negligenciados, precisa-se de gente para conhecer e ensinar história, para doar sangue, para fazer mutirão, para mandar e-mail enchendo o saco de parlamentares, para militar nas avenidas, para militar nas redes sociais, para educar politicamente os filhos, para viralizar notícias boas, para questionar decretos absurdos, para exigir transparência, para conscientizar e apoiar explorados, para zelar pela integridade das crianças. Precisa-se de gente para a cesta básica, o boleto impossível, o animal maltratado, o atendimento psicológico, o empréstimo urgente, a escuta amiga, o perdão crucial, o abraço curativo, o abaixo-assinado, a festa surpresa. Precisa-se de gente para a alma, a aula, a medula, a campanha, a companhia; precisa-se de gente na cozinha, no trânsito, no consultório, no laboratório, na oficina, na biblioteca, na universidade, no salão, no abrigo. Precisa-se de gente em tudo, precisa-se da gente em algum lugar no mínimo – fazendo por outros o que quer que tenhamos a chance de não fazer por nós. 

Deus pode não carecer de nós em seu benefício, mas nos emprega em benefício dos que ama. Há que lembrarmos que podemos ser o fragmento de Deus que alguns já viram mais de perto.

domingo, 12 de julho de 2020

Todas as competições são ridículas

Imagem gratuita: amor, pedras, jogo, junto, vitória, giz, lousa ...

Confesso a fraqueza de não gostar de esporte – nem de ver, nem de praticar. E não é só por inabilidade física, embora realmente a tenha (o que não seria mesmo prova, já que tenho a mesma inabilidade para, sei lá, o balé clássico sem deixar de adorá-lo); a bem da verdade, detesto jogos e competições em geral. Joguei pouquíssimo videogame na vida, e o pouco jogado não o foi com muita paciência; jogos de tabuleiro, alguns, mas na infância e início da adolescência no máximo; de baralhos (até virtuais) nem chego perto. Competições só fazem deixar-me mais nervosa, tensa e autoexigente, sem compensar esse envenenamento de adrenalina com qualquer dose significativa de prazer. Mesmo como espectadora não acho nenhum encanto, bem ao contrário: inexiste a paz da neutralidade, torcer me parece inevitável, seja futebol ou reality – e torcer leva ao medo, que leva à raiva, que leva ao lado sombrio da Força. Investir interesse, afirmação, gratificação pessoal no ato de derrotar alguém (ainda que terceirizadamente, por meio de nosso time ou do participante de nossa escolha) sempre me soou absurdo, um absurdo de que infelizmente nem sempre escapei, mas que evito tanto quanto possível. Disputas, creio, servem simplesmente para ativar o que há de esgoto no ser humano, desde as ninhariazinhas brigadas até o horror extremo das guerras. 

"Puxa, mas a raça humana se aprimora com a competição." O cacete. Biologicamente, vá lá, mas é algo orgânico e involuntário. No que depende da estrita razão, fomos programados para colaborativos e não para competitivos; competimos de burros que somos, e em nome de pódios inventados nos destruímos compulsivamente: são corpos e corações sacrificados desde os primeirinhos anos atrás de uma "perfeição" buscada com dores, fomes, invejas, abusos, solidões; são músculos, nervos e cérebros estropiados na juventude, para alimentar a morbidez do sistema; são acidentes fatais em prol de uma placa, uma taça de metal, um recorde impresso num livro; são mil surtos, mil descontroles de identidades que se condicionam a existir na e para a "vitória" – torcidas que se massacram, pelejas de trânsito que acabam em tiro, discussões de bar que terminam na seção de homicídios, querelas de líderes mundiais que arrastam milhões para o abismo doido de seus orgulhos machucadinhos. "Nããão, mas coisas como o esporte ensinam disciplina, salvam muitas vidas." Sim, é claro que há partes boas, porém não se pode negar que o esporte profissional é também uma indústria, uma indústria cega e exigente de exploração física – com muito dinheiro rolando para poucos (entre os quais não estão necessariamente os donos dos corpos mais sacrificados) e várias, várias, várias vítimas sugadas no processo, oferecidas no altar dos poderosos. Para o objetivo de disciplina e salvação de vidas, o crucial é a educação em si, a justiça social, as mínimas condições de igualdade que permitam a todos reais oportunidades em todos os campos, e não apenas boias eventuais. "Aaaah, mas é fundamental que as crianças aprendam a competir, mesmo que percam; dá caráter." Balela. O que dá caráter é boa criação, felicidade, amor. Ninguém, para isso, precisaria das disputas. É largamente hipócrita usar o velho "o importante é competir", quando TODO o mundo ao redor mostra que não: nem todos os competidores são lembrados, celebrados, afagados, medalhados; existe inevitavelmente a hierarquia histórica, e ninguém pode culpar uma criança por basear seus sentimentos e autocobranças mais no que vê do que no que lhe repetem. O discurso da competição é tão xarope quanto a prática é impiedosa.

Não defendo que se criem pessoas que não saibam perder. Defendo a criação de pessoas num mundo em que não exista perder. Ou antes: um mundo no qual só exista o perder verdadeiro, o incontrolável – já não bastam doenças, mortes, acidentes e fenômenos naturais, amores não correspondidos, dilemas de vocação?... –, sem qualquer necessidade de incrementarmos o repertório de angústias e sofrimentos compulsórios inventando aborrecimentos. "Pô, mas então você quer a utopia!" Quero. Quero a utopia, e nunca assinei nada que me obrigasse a não querer. Quero, sim, um planeta novinho (pode ser neste aqui mesmo) em que a competição esteja absolutamente fora de moda e as pessoas no máximo se inspirem, se emulem, espiando os demais para aperfeiçoar-se e não para superá-los. Quero que tudo diferente da plena colaboração seja considerado cafona, ultrapassado, inútil e ridículo; que se pare de perder tempo com desavenças e se prefiram os desafios; que a descoberta diária de meios para todo mundo vencer e se dar bem vire o trofeuzão da humanidade. "Deixa de ser cretina, isso é impossível." Dane-se que é impossível: um cacetalhão de empreendimentos já foi. Por agora, pensar num grande organismo pulsante por interesses comuns, em lugar de um sistema que se alimenta de desigualdades, soa unicórnico; sei disso, mas desconfio também que I'm not the only one. Ventos mudam, e sempre acreditarei menos no passinho que damos para trás do que no passinho e meio para frente, a cada ano, a cada década. "Mesmo com tudo isso que está aí?" Mesmo. Tudo isso que está aí ainda seria ambientado na Idade Média, se não fôssemos capazes.

Por enquanto, vou trabalhando com meus pares tijolinhamente, sem cronômetro e com uma linha de chegada projetada para bilhões. Minha geração não vai chegar ao fim do revezamento, nem a outra nem a outra nem a outra, mas ninguém perde: todos somente passam o bastão no mesmo percurso, até que as gerações concluintes batam por nós a meta. Afinal, quem aqui está disputando?