sábado, 15 de agosto de 2020

Não quero saber

 Esboço de bolhas de discurso mão desenha Foto stock gratuita ...

Não quero saber se o filho do Gugu posou com a namorada, se a Lexa exibiu as celulites, se o Alok fez chá de revelação (gente, chá de revelação é too much pros meus nervos; não critico, só não aguento), se a ex-ronaldinha (o que pitombas é uma "ex-ronaldinha"??) ganhou 500 mil por pornô, se a Miley Cyrus elogiou o ensaio nu da Anitta. Quero saber se e como essas pessoas superaram seus maiores medos de infância; quero saber o que sentiram quando viram seu primeiro filme ou fizeram a primeira viagem, qual é a reação mais imediata de seu estômago ao presenciar uma injustiça, onde escondiam seus diários ou bilhetes do crush ou o que mais tivessem de excessivamente precioso. Quero saber por que se ligaram a seus santos de devoção, se os têm; por que suas cenas favoritas no cinema são suas cenas favoritas no cinema; por que a descoberta de que Papai Noel não existia lhes foi ou não foi dolorosa. 

Não quero saber se o Ronnie Von construiu uma casa de 3 mil metros quadrados, se a mãe do Neymar fez harmonização facial, se a Gracyanne rebateu críticas sobre seu corpo, se Meghan e Adele frequentam aulas de pilates juntas, se a tatuagem da Dua Lipa parece o Ratinho. Quero saber como esse povo lida com a inevitabilidade da morte, como imagina que seja o além-dela, como chama alguém para uma conversa imensamente difícil, como se posiciona com relação à economia imensamente desigual, como acredita que os criminosos devem ser reeducados, como se comporta ao receber notícias falsas. Quero saber de seu choque feliz ao ler o melhor livro da vida, de seu grau de enfofuramento ao encontrar um filhotinho, de seu encontro inaugural com o mar, das razões profundas de suas cores favoritas, dos maiores encantamentos de sua experiência humana.

Pouco me importa que Geisy tenha falado de Bruna, que a Maiara tenha ostentado o corpão à beira da piscina, que a Melody tenha criado um namoro fake, que a Kalimann tenha mantido o sobrenome do ex, que a Piovani não tenha comido lagostins na Suécia, que a Gavassi tenha ficado loura para personagem misteriosa. Importa-me exclusivamente que estejam ou não estejam realizadas com todos os seus feitos lá no cantinho d'alma, que gritem ou não gritem contra a destruição de fauna e flora, que contribuam ou não contribuam para o debate dos velhos privilégios, que combatam ou não combatam a profusão de preconceitos, que defendam ou não defendam as classes mais desamparadas. Não ligo para suas pendengas, suas fofocas, suas tinturas, seus pesos, seios, cabelos, alturas, maquiagens, biquínis, calcinhas – e sobretudo desprezo o "jornalismo" dedicado a flagrar e coisificar mulheres, tornando-as tão mais holofotáveis quanto mais produtos. De suas medidas, interessam-me apenas as que tomam para fazer o planeta possível, a vida viável. De suas formas, só me afetam aquelas que encontram para fomentar sorrisos. Tudo mais que as destaque não é de minha alçada; de tudo mais que se divulgue vejo somente as manchetes que nos atropelam, que se atiram em nosso colo, pedindo amor e cliques. Não clico, mas também não posso desler – e agradeceria penhorada se me deixassem não saber tudo quanto há a ser perfeitamente insabido. 

Seduz-me descobrir como se constrói um humano por dentro. O que mais se desesperam para mostrar é o que existe de menos novo sob o sol.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Saneamento básico

 Nuvem ou fumaça close-up | Foto De Stock Grátis | LibreShot

Eu também não sabia, mas fiquei sabendo que o 14 de agosto é o Dia do Combate à Poluição. Redundante eu falar aqui sobre escapamento de carros, chaminés de fábricas, derramamento de nojeiras tóxicas em mares e outras águas, barulheira de buzinas no caos do rush, excesso de anúncios luminosos – ou nem luminosos – no já confuso visual das cidades, lixo e mais lixo (e mais lixo) no chão e nos bueiros, aquilo tudo que todo mundo sabe, e a respeito do que todo mundo fez cartaz e seminário na escola. Mudam-se os tempos, não mudam tanto as vontades dos grandes poluidores, que certamente não somos nós, pessoinhas físicas. Claro que não podemos posar de inocentes na história, mas nossa principal função hoje (e nos outros dias) é encher profundamente o saco das imensas pessoas jurídicas e das instituições governamentais, para interromperem/fiscalizarem/punirem o que somente os pequeninos não conseguimos conter. Isso é ponto pacífico – espero. A gente é legal e não joga nem papel de bala na calçada (né? tô de olho!), porém não é desse miniesforço individual que vem a limpeza mais significativa do mundo, e sim do macroesforço coletivo de denunciar descartes irregulares, apertar parlamentares para a criação de leis, filmar sujeiradas de indústrias, botar a boca no trombone, na tuba e em todos os instrumentos de sopro disponíveis. Só MUITA e mui constante gritaria, daquela que enlameia e boicota uma empresa, ajuda de pouquinho em pouquinho a acabar com a palhaçada. É um dos únicos exageros saudáveis de decibéis, por sinal. 

Isso é a luta contra a poluição de fora. Contra a de dentro, é preciso apelar para instituições outras, que sejam capazes de nos auxiliar a dar cabo de nossos lixões. Como nos purificar dos litros e litros de adrenalina, de cortisol, que derramamos em nossas veias feito graxa de navio naufragado? Como nos desfazer de nossos velhos acúmulos, de birras que entopem qualquer nascentezinha de perdão, de berros de liberdade profissional entalados na garganta, de rejeitos da rejeição longamente chorada, de traumas de décadas que contaminam todo o terreno de convívio, de raivas que se metamorfoseiam em autovenenos, de mágoas em putrefação que assassinam em nós as mais diversas formas de vida? Como nos livrar em segurança das relações que respiramos tóxicas, e que over and over nos poluem sonoramente de "você não pode", "você não vai", "você não faz", "você não é"? Como descartar sustentavelmente o apego asfixiante às redes, aos likes, aos filtros, aos fones, às fotos, aos áudios? Como nos higienizar da mancha gordurenta de ódios, delírios, preconceitos que se tem grudado na gente feito um Venom simbionte, parasitando e exaurindo as forças que deveríamos aplicar em construções?

É necessário o mais gigante combo de instrumentos, todos os registrados e comprovados e mais alguns individuais. Em casos de degradação muito avançada de nossos sistemas, não vejo processos de limpeza que não passem pelos profissionais mais gabaritados para lidar com essas químicas do nojo: psicólogos, psiquiatras, analistas, terapeutas que possam destrinchar-nos, fazer-nos ver pontos de luz que nos orientem nas áreas mais turvas, habilitar-nos para primeiro navegar com mais firmeza nesses breus, depois dissipá-los com as estratégias devidas. São os mais experientes Ghostbusters das fumaças mentais que nos neblinam. Além deles, há uma série de desinfetantes das mais variadas potências, para os mais variados fregueses: a arte, que nos desautomatiza de nossos ares e pensares viciados; a religião, que, se saudavelmente vivida e compreendida, é a lavadora de corações encardidos por excelência; a atividade física, que promove o asseio de células em geral e por isso enxágua os neurônios; as bem-querenças, que em tese devem acordar em nós o que há de translúcido e não vazar nunca nada de daninho em nossas (en)costas. Recursos de despoluição não faltam, mas informação e incentivo faltam muitas vezes – e nisso seguimos desatentos, insistindo em chafurdar em nossas vibes quando ainda estamos impróprios para banho e consumo. 

Por felicidade, outro dos melhores recursos de despoluição é nem focar em nos despoluir, e sim em criar a atmosfera mais fresca e respirável para quem nos acompanha. Altíssimas chances de sucesso. Um dos efeitos colaterais mais lindões do amor, em todas as suas formas, é que não é possível cristalinarmos o ar em torno do próximo sem também respirarmos dele e sem também sermos obrigados a emiti-lo purinho. De todos os filtros existentes, o amor continua sendo o que deixa nossa imagem mais nítida – o que conduz a remoção de manchas da maneira mais sustentável. O que mais eficientemente nos recicla.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Superpoderosos

 Criança Menina Pai - Foto gratuita no Pixabay

Um dos temas do mais recente Papo de segunda foi a influência dos pais na construção da autoestima dos filhos. Conversa riquíssima, como sempre. Em meio às discussões sobre o efeito dos elogios frequentes aos pequenos, tocou-me bastante o relato de Chico Bosco a respeito de sua filha Iolanda, de oito anos. Segundo Bosco, desde que nasceu a menina foi constantemente coberta de palavras positivas, adjetivos felizes, você é linda, você é incrível, você é maravilhosa, coisa e tal – o que costumamos naturalmente dizer quando amamos uma criança e desejamos que ela cresça sabendo que pode ser tudo que quiser. O problema é que essa dieta de fortalecimento do eu, embora administrada com as intenções mais louváveis, começou a gerar sequelas imprevistíssimas: provavelmente se sentindo pressionada pela imagem 10/10 que sentia ter entre os familiares, Iolanda passou a demonstrar medo de tentar coisas novas, de arriscar-se portanto a errar; pareceu como que assombrada pelo fantasma da perfeição obrigatória. Agora a família vem procurando fazer o caminho inverso – não no sentido de diminuí-la, obviamente, mas no de deixá-la confortável o suficiente para saber que PODE errar, que ninguém vai parar de apoiá-la, que ela não vai decepcionar os pais nem tem a menor necessidade de ser perfeita em todos os momentos. Enfim: haja minúcia e olho clínico para equilibrar essa balança delicadíssima de fazer alguém sentir-se amado, porém não idolatrado; admirado, porém não pressionado. E para cada psiquê há uma fórmula, ou seja, tentativa e erro na veia. 

Não tenho filhos e fico desesperada só de pensar em conviver com esse dilema: como tornar uma pessoinha segura sem ser narcisista, autoconfiante sem ser arrogante, dedicada sem ser neurótica, prudente sem ser medrosa, curiosa sem ser inconsequente, solícita sem ser carente, generosa sem ser ingênua? O garantido é que eu acabaria morando numa slackline, simultaneamente criando olheiras na madrugada, a bolar estratégias, e dizendo a mim mesma que deu certo com meus pais sem graaaandes estratégias, e eu deveria confiar no processo. Quero crer que todas as minhas forças tenderiam a se concentrar no que já comentei aqui há alguns textos: desenvolver a empatia na criaturinha que houvesse parido. Entendo pouquíssimo, realmente pouquíssimo de pedagogia em seus aspectos teóricos, mas acredito (não sei se com razão ou pelo comodismo de escolher um foco supremo – ou ambos) que direcionar todos os esforços para a lógica da empatia poderia escorrer para bons efeitos colaterais. Sei, é preciso inicialmente constituir um eu para que esse eu possa se espelhar em outro; sem dúvida. Porém, na falta de outras ideias, eu tentaria engordá-los juntos – o eu pessoal e o espelhado. Faria o possível e o impossível para plantar no filhotinho de Deus a convicção de que todos ganhamos uma montanha de predicados com um único objetivo, que é o de fazer feliz a maior quantidade de sujeitos. 

A ideia certamente não é minha; estou apenas pondo em outras palavras uma das materializações mais lindas que já vi desse sistema de educação. Há poucos dias, passou por mim um vídeo extremamente comovente em que Marcos Mion fala sobre a vivência com seu filho Romeu, que é autista. Além de Romeu, o apresentador tem um casal de filhos menores, que certa vez questionaram o pai: por que o mais velho pode deitar para dormir usando o tablet (ou smartphone, não lembro) e nós não? Marcos explicou-lhes pacientemente que os videozinhos ajudavam o cérebro do menino a focar e relaxar para conseguir pegar no sono, e aproveitou para dar às crianças uma primeira e mais significativa aula sobre o autismo. Sabem quando o Romeu fica um tempão dentro da água gelada sem sentir frio, e ninguém mais consegue? sabem quando ele permanece horas observando as árvores, sentindo o vento? – perguntou. Os pequenos disseram que sim. Pois é, continuou o pai; é que ele nasceu com superpoderes, ele é capaz de suportar o frio, de entender a linguagem das árvores etc.; só que isso tudo veio com algumas dificuldades também. Então o menorzinho se indignou, ligeiramente magoado: puxa, pai, mas por que você passou superpoderes só para ele? Com doçura e habilidade, Mion esclareceu que eles todos também os possuíam, mas que os superpoderes deles eram diferentes, já que tinham recebido a missão de proteger Romeu, de cuidar dele, de facilitar o mundo para ele. Nem preciso dizer que chorei horrores com o relato e com a sensibilidade de Marcos Mion para abordar a questão de maneira tão acessível quanto fiel. Porque é isto, é exatamente isto, independentemente de nossos irmãos (lato sensu) exigirem ou não cuidados especiais: nossos superpoderes são incríveis na exata medida em que suplementam as fraquezas dos outros. Nada além disso nos justifica.

E talvez nada nos construa melhor do que acordar todos os dias para salvar um mundo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Por motivo do ermo

 outono, criança, infância, menina, sai, natureza, Toque | Pikist

"Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. [...] Quando era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. [...] Cresci brincando no chão, entre formigas. [...] Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas."

Tudo acima é Manoel de Barros, mas cá no peito podia ser eu, que por motivo do ermo também não fui menina peralta. Também fazia solidão, também cresci brincando entre formigas. Nunca fui exterior, sou assim oblíqua e enviesada ("dissimulada" tem excessivo peso) mais que Capitu jamais terá sido – porque ela levava o tempo entre jogos e segredos com seu parceiro de meninice, e eu rarissimamente comungava com gente, embora talvez quisesse. Não era antipática nem deixava de ter amigos; tinha-os, era dócil ao relacionamento, muito aberta inclusive para acolher novos colegas; apenas não cheguei nem creio que pudesse chegar (mesmo hoje) à intimidade mais incondicional, ao alegre abandono de escancarar o coração e partilhar festa do pijama. Meu ermo dentro do olho deve sempre ter-se anunciado loud and clear: pareço estar presente, porém não. Não de todo. Me deixem não fazer peraltagem, me deixem estar momentos afastada brincando entre folhas e pedras e formigas, em meu posto de cismadora, ensimesmadora e observadora oblíqua. 

Sim, é possivelmente um efeito do ermo: ser eterna observadora. Não nasci para as competições, os queimados, os vôleis, as amizades chicletosas, as brincadeiras de pogobol e elástico, as Barbies, os namoros de escola (muito adiantados para minha infância), as baladas, os barezinhos, as praias de domingo, tudo que é criancice ou adolescice muito exposta, muito coletiva. Apesar de carioca de berço, de criação e da gema, sou do interior – do interior de mim. Me habitei sempre demasiadamente, o resto era para cumprir tabela. Não tive culpa de me materializar numa cidade assim ostentosa, assim solar de todas as maneiras possíveis, que quase cobra da gente uma rotina bronzeada; lamento, mas não posso arcar com a cultura de eterno verão que me é misteriosa, que não escolhi e não me diz respeito. Verão é um bicho derramado, com alma de time, de grupo, de plateia, e meus verões amados pedem mais recolhimento e mais sombra. Só quero que me permitam ser a carioca não praticante que analisa sossegadamente da margem; que talvez esteja mais interessada no pássaro e sua árvore do que no assunto debatido à mesa; que prefere qualquer sebo solitário a qualquer peraltagem na Lapa ou no Arpoador; que comunga da vida geral com ternura e empatia, porém sem proatividade. Meu ermo dentro do olho, minha estrada voltada pra dentro, tem chão que não acaba mais, tem espaço aéreo pra mais de metro; devo conviver com a tarefa de pelo menos tentar manter férteis essas lonjuras que habito. 

Lá onde se espalham minhas raízes crianceiras, é preciso arar vivamente para acordar a terra de seu repouso, mas é também com alegria que rebenta cada semente enviada em missão.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Sorrir sem querer

 esperando na janela 5 | Urca, Rio de Janeiro Ainda me lembro… | Flickr

Mais uma daquelas fofurices da página Frases de Crianças, no Face. A pequena autora da vez, Manuela, mandou do alto de seus potentes dois anos:

– Mamãe, eu gosto muito do papai.

– Gosta, filha? Por quê?

– Porque quando ele chega eu sorrio sem querer.

É isto: sorrir sem querer. Com a quinta parte de uma década de vida, Manuzinha já sabe ou já intui que há os afetos dos sorrisos dosados, controlados, conscientemente distribuídos de acordo com a performance social – e há os afetos em que o componente teatral é de todo desnecessário ou simplesmente vai para o brejo, uma vez que personagem e ator se unificam. Não que estejamos interpretando uma comédia ou vestindo hipocrisia ao encontrar conhecidos dos quais gostamos, e para os quais, portanto, nos obrigamos a sorrir, ainda que sem uma alegria delirante: nós os apreciamos de fato, nós os amamos até; apenas eles não nos causam reação tão imediata, tão medular que se antecipe à própria consciência dos "deveres" de civilidade. O script vem antes, no caso – mesmo que por um milionésimo de segundo. Quando o afeto anda no nível do fascínio, o script chega depois. 

O script chega depois se a ternura é não necessariamente mais legítima, mas mais apaixonada com certeza; alumbramentos assim se manifestam naquele plim-plim de intervalo da Sessão da Tarde que faísca, entre o sorriso e os olhos, antes que possamos contê-lo, antes que quaisquer conveniências ou timidezes o mascarem. Não é o sorrir no automático, é o sorrir in natura, muito anterior ao automático; o sorrir sem mecânica, espontâneo, primal, reduzido ao id. Talvez a plim-plice que Bentinho julgou captar nos olhos de Capitu, vai saber? (o que não prova absolutamente NADA, fofinhos). Lembro ao menos duas cenas, além de milhares de outras, plenas desse deslumbre colhido em botão. Uma é do eterno Em algum lugar do passado, em que a atriz Elise (Jane Seymour) só consegue ser fotografada em seu esplendor quando deixa de estar ali simplesmente posando e se ilumina, incandescente de amor e beleza, ao perceber a presença de Richard (Christopher Reeve) a observá-la. Outra é do recentíssimo e já clássico Retrato de uma jovem em chamas, no qual, em certo momento, a jovem do título – Héloïse, interpretada por Adèle Haenel – não sustenta a seriedade ao posar para a pintora Marianne (Noémie Merlant), mais conhecida como o amor de sua vida: retratada e retratante procuram inutilmente manter o puro profissionalismo, os lábios sorriem frouxos, os olhos gargalham encantados, não há prazo de entrega que detenha a felicidade em torrente.

Óbvio que não trato do riso nervoso – que, mais do que qualquer outro, é sintoma de alguma opressão social –, mas de seu contrário: do sorrir que escapa no máximo do relaxamento, na queda de todas as defesas. O sorrir de criança ao primeiro relance da árvore de Natal carregadinha de pacotes, ou à primeira entrada na Disney, ou ao primeiro aperto no novo cachorrinho. O sorrir de de repente nos darmos conta da lua cheia, descobrirmos que foi renovada a série favorita, ouvirmos nossa língua em solo estrangeiro (OK, depende do que ela estiver dizendo), entrarmos em água de mar quentinha, abrirmos um presente estranhamente perfeito. O sorrir da camada original, a que não mente, a que dita a pressão e os batimentos, a que responde ao polígrafo independentemente do que nossa voz declare. O sorrir que publicamos antes de sequer pensarmos em parar as máquinas.

Sorrir o sorriso involuntário é dar declaração sem juízo – mais carimbada e autenticada que declaração em juízo. Almas normalmente se mantêm fora dos autos e transbordam em vários papéis sem firma reconhecida.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Janela discreta

 Foto profissional gratuita de cortina, dedos, dentro

Era manhã de sábado – o que costuma haver de mais ensolarado na semana, ainda que chova. Não chovia. Eu estava recém-sentada diante do computador, ele se espreguiçava e iniciava, meu olhar aguardante se desviou para além da transparência das cortinas. Com a luz lá fora e a finura do tecido, eu via, embora não fosse vista. E vi. Acidentalmente vi uma vizinha do prédio em frente abrir a janela, fazer o sinal da cruz e debruçar-se um pouco, com as mãos postas. Achei curioso que se postasse à janela para fazer suas orações, rezar o terço talvez, quando mais ou menos entendi a cena: ela chorava. Chorava e rezava num ponto possivelmente invisível para quem estava dentro – aquém da transparência das cortinas –, preferindo calhar de ser observada por alguém de fora. Mas obviamente não viera expor sua dor; nem desconfiava de que eu pudesse vê-la, e seu jeito de olhar vagamente de um lado para o outro sem de fato enxergar, enquanto se concentrava no que lamentava ou pedia, sugeria que não devia haver rosto humano nas imediações para acanhá-la. Por um segundo, pensei em revelar minha empatia escrevendo em alguma superfície: "Vai ficar tudo bem"; porém o mais provável é que não desse tempo, ou que fosse mesmo invasivo, impróprio. E se fosse caso de morte na família, ou qualquer outra situação de excessiva delicadeza em que, ao menos nos momentos próximos, não pudesse ficar tudo bem? Apenas a acompanhei em discreto silêncio e solidariedade discreta, até que ela fizesse novo sinal da cruz, deixasse o parapeito e mergulhasse outra vez no convívio de quem quer que fosse, de quem quer que ela (talvez generosamente) se escondia.

Vizinha que não conheço e que chorava na janela: não tenho ideia se sua mágoa era por doença familiar (algo em sua linguagem corporal não me permitiu achar que fosse a sua própria), por falência ou falecimento, por brigas e rupturas entre parentes, por mil e um outros desgostos que nos sentimos incapazes de controlar, que nos varrem, nos atarantam. Acredito não seja nenhum tipo de violência doméstica: sua vivência parece tranquila e em sua expressão não havia medo ou horror, mas imensa tristeza – a tristeza da perda ou da preocupação. De qualquer modo, por mais que se trate de um problema provisoriamente incontornável aos nossos limites humanos, gostaria que você pudesse saber que não está humanamente só; que, se bem que a distância não seja de grande consolo, rezamos juntas num breve encontro de intenções; que mesmo as janelas caladas, insuspeitas, podem estreitá-la numa amizade improvisada e momentânea; que o mundo não é um indiferente crônico, um ignorador serial, apesar de nem sempre os apoiadores quebrarem o anonimato. Gostaria que você pudesse saber que sua dor de mulher (quem sabe se de mãe, de avó, de esposa, de irmã) ecoa no coração de todas as mulheres; que a maioria absoluta de nossas companheiras a compreende com perfeição, já que normalmente somos as carregadoras oficiais de dores, as acolhedoras, as resolvedoras, as roteadoras. Vizinha: assim como quase todas, você não parecia estar rezando por si. Ainda que estivesse, tipicamente se ocultou dos olhares que lhe são mais importantes, afastou-se do campo de batalha para recarregar, preferiu fortalecer-se sozinha a possivelmente gerar alguma apreensão entre os seus. Todas as mulheres entendemos. Todas a abraçamos. As demais janelas, feito as rosas, podem não falar, mas veem, pressentem – e eu queria que conseguissem exalar em devolução qualquer essência que lhe tenha sido roubada. 

Fique bem, vizinha, fique ao menos em paz durante e após esse enfrentamento. Em frente haverá janelas novas a descobrir e descerrar; em frente haverá sábados inéditos, sóis fresquinhos e amigos revelados ou ocultos. De longe e ocultamente eu endosso seu amém, desejando-lhe tantas e tão mais felizes estreias quando se reabrirem as cortinas.

domingo, 9 de agosto de 2020

Até onde

 Pintura Desenhar Cor - Foto gratuita no Pixabay

Não sou pintora, mas compreendo ou imagino compreender o que queria dizer Delacroix ao afirmar que "há duas coisas que a experiência deve ensinar: a primeira é que é preciso corrigir muita coisa; a segunda é que não se deve corrigir demais". Compreendo e, ao mesmo tempo, fico afogada até as sobrancelhas no excessivo conteúdo dessa frase, que abraça em tão poucas palavras todo tipo de trabalho artístico, de trabalho intelectual, de trabalho humano. Aperfeiçoar é um destino, mas não pode ser doença; é uma condição para os sucessos e facilmente pode derivar nas loucuras. Existe um equilíbrio fino entre a vida e a morte, entre a persistência e o fanatismo, e achar com precisão o ponto de virada é a pedrinha filosofal de nossa espécie toda. Nossa espécie genial, maluca e descompensada toda.

Um filho: nunca está pronto, já que se trata de um elemento dessa espécie – e nós humanos, poços sem fundo, só acabamos de nos construir na morte, mesmo assim por falta de opção. Até onde, então, vai a delicadíssima embaixada de orientar, tolher e corrigir a criatura; a partir de onde se dá o sufocamento e a ingerência por parte de pais dominadores, de Big Brothers que tudo vigiam? Não quisera eu, confesso, estar na pele dos tutores de pequenos sapiens, por ficar já imaginariamente agoniada com o dilema. Em minha condição de não-mãe, sou das menos indicadas para apontar a fronteira, a divisa, porém consigo fazer uma projeção teórica: provavelmente eu me doaria em corpo e alma a incutir no piá o senso do bem comum; priorizaria vorazmente a noção do coletivo, do outro, da vez do outro, da felicidade do outro (com doçura, lógico, que quando a lição é feroz acaba dando no contrário). Fosse isso entendido como uma segunda natureza, creio que me daria por aliviada e tudo que viesse seria lucro. A bondade autêntica, num filho, haveria de ser um sorriso de Mona Lisa em meu quadro: basta-se.

Uma tela, um prato, uma canção, uma escultura – até qual borda de abismo ir, onde parar? Quando se resolve? Quando se encerra? Que critérios decidem se os sentidos estão satisfeitos ou exaustos? Se eu soubesse não estaria aqui decerto, mandaria acenos de uma cobertura em Paris, RYKAH e pleníssima. Mas desconfiar é sempre permitido, e eu desconfio que, como num ato de amor, após o máximo foco e a máxima entrega àquela obra o corpo simplesmente faz o resto – e sabe. O artista apenas sabe, com suas adrenalinas e intuições, que fez o possível; o artista sabe se esteve ali cem por cento; o artista sabe quando não lhe cabe prosseguir, sabe se nele não há nada além, nenhum último recurso de gesto, cor, tempero, acorde. Ainda que não seja sua obra-prima, ainda que a perfeição não seja artigo barato e acessível, foi perfeito dentro das condições dadas. Para além de uma linha, o artista não mais sente, não nota, não percebe; transferiu-se todo, downloadeou-se inteiro; como os outros vão julgar o feito já é coisa que foge à sua jurisdição. Nesse instante, nada resta do artista que não precise ficar para a próxima. 

Um texto: levar até onde? Até o primeiro latejar da cabeça e o derradeiro da ideia. Ter prazo – interna ou externamente imposto – ajuda muito, muitíssimo a inviabilizar o perfeccionismo, o vaivém de frases e termos, a dança de cortes e sinônimos. A demorada toalete do texto vai até a décima segunda badalada: caso encerrado. Entre todos os criadores de tudo, o escritor é talvez o que mais chances tem de aboborar-se na insanidade e trancar-se na torre pelos séculos dos séculos, se não o expulsarem solenemente do feitiço. Consta inclusive em lenda, concebida por mim agora, que relógios só foram inventados para servir de álibi aos (e impedir o assassinato dos) editores que precisavam ir até os romancistas para arrancar-lhes a última folhinha de papel. 

Por sinal, já bateram doze; fim de valsa. Um brinde à minha e à vossa libertação.