sábado, 25 de julho de 2020

As perguntas ingênuas

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"Como viver – me perguntou alguém numa carta,/ a quem eu pretendia fazer/ a mesma pergunta.// De novo e como sempre,/ como se vê acima,/ não há perguntas mais urgentes/ do que as perguntas ingênuas." São os versos finais de "Ocaso do século", da poeta polonesa Wislawa Szymborska (infelizmente não sei dizer quem fez a tradução). E como discordar? Não apenas concordo, mas a partir de agora me agarro nessas estrofes para toda ocasião em que me sentir tola tola tola de fazer perguntas tolamente ingênuas, as grandes, as gerais, as que muito me interessam. Gosto dos assuntos assim diretos e desvendados, puros, nus, e se doravante me acusarem da velha ausência de complexidade – "as coisas não são tão simples, nada é tão fácil, é tudo muito mais complicado que isso" – vou meter o avesso da carteirada: não é minha meríssima pessoa que está dizendo, é uma Nobel de Literatura formada, melhor do que eu. 

Se na vida e contra a morte só há urgência do que é realmente básico (ar, água, alimento, sangue, cura, calor, amor), assim também é nos temas e nas questões. As coisas são tão simples sim; os embolamentos adjacentes são labirintos mentais que criamos para esconder nossos Minotauros. As excessivas complexidades que enfiamos na trama sofisticam a peça e distraem a vista, mas "a base é uma só", como no samba do Tom: a base é termos passado milêêêênios pisando uns nos outros em vez de sabiamente trabalharmos em equipe. Por quê? (pergunta sumamente ingênua que já demandou infinitas toneladas de psicologia, sociologia, psiquiatria, economia e todas as demais ciências disponíveis, e a que talvez, em resumo, uma suprema ingenuidade respondesse:) porque recebemos, com o raciocínio, a consciência do eu, e pelo tempo de autoconvívio acabamos achando muito especial esse eu – tão especial que os outros eus nos parecem indignos de ser equiparados a ele. Desse desvirtuamento original do pensamento começa toda a mixórdia. 

É uma síntese porca, admito, porém bate como uma luva em cada um dos questionamentos que nos fazemos com pureza d'alma, quando estamos em modo de inocência: por que não existe uma renda mínima universal, se todo humano nasce humano e já mereceria ter o indispensável garantido pelo simples fato de ter nascido humano? Por que uma Declaração de Direitos não se tornou uma lei óbvia para todo o planeta? Por que a contemplação a um sagrado direito de sobrevivência alheia soa como ameaça ao nosso supérfluo? Como nossos olhos podem achar plausível que alguém ganhe 19 bilhões num único dia, apenas porque vários alguéns confiam e investem números em seu valor abstrato, enquanto há outros tantos milhões na rua morrendo de fome concreta? Como pode parecer razoável POR UM SEGUNDO que uma pessoa tenha 37 imóveis e outra durma sob o viaduto? Por que é relevante, na divisão social, que nossa pele esteja mais ou menos preparada para o sol? e, nesse caso, por que justamente os menos preparados são há tanto tempo considerados "superiores"? De onde surgiu a ideia cretina de avaliar a capacidade profissional (ou qualquer outra coletiva) de uma pessoa a partir de quem ela beija? Por que os maiores defensores da "meritocracia" costumam ser precisamente os últimos que abdicariam de uma herança? Por que alguém considera normal que um suposto seguidor de religião baseada no amor pregue ódio, preconceito, destruição e morte?

Como? de onde? por quê? – pergunta nossa cristalina lógica que olha tudo pasmada, perplexa, sem crer que se possa distorcer a razão com a vaidade e a verdade com a opinião. Well: distorce-se. E os eus incapazes de arcar com o fato de que estão no mesmo patamar dos demais, de que não pesam um miligrama a mais ou a menos na balança do planeta (que destroem), de que não têm absolutamente nenhuma prioridade conferida pela natureza, de que vivem dos mesmos elementos e morrerão da mesma morte – esses eus irrealizados, toscos, inseguros, infelizes multiplicam balelas para mascarar sua desimportância, fabricam gritos e incoerências para maquiar sua fuga do racional. Gostaria de lhes ter alguma pena, mas guardo para suas vítimas. Ando sem possibilidade de lidar com quem latifundeia o mundo de absurdos e escapa galopando das perguntas fáceis.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Erosões

Amor Buracos Coração - Foto gratuita no Pixabay

Em sua coluna de ontem no blog hospedado no site do UOL, o psicólogo Dan Josua ilustrava sua ideia central com o caso (real ou hipotético, importa pouco) de uma mulher que, tendo carregado sempre a impressão sofrida da inadequação, era confrontada pelo terapeuta/palestrante com a possibilidade de ter sua dor "retirada". Mas: "Só tem um detalhe. Um dia seu filho vai chegar em casa com uma dor parecida. É um ser humano e em algum momento a vida ainda vai bater nele. E ele vai se perguntar por que foi rejeitado, por que é burro ou por que não é digno de amor. Se eu tirar a sua dor agora, você não vai entender nada do que ele estará falando. Vai sorrir e pedir para ele não pensar nisso. Sentindo-se ainda mais solitário, ele irá para o quarto. Vai fechar a porta para sofrer sozinho. Exatamente como você, seu filho esconderá a dor e a carregará pela vida inteira. Vai se casar e ter filhos e sorrir para a foto – como você. Mas, por dentro, sempre haverá uma luta e uma vergonha de quem se imagina a única pessoa a se sentir desse jeito".

Como podem supor, a mulher da história passou a recusar a renúncia, ainda que imaginária, a seu fardo emocional, e diante dos argumentos do terapeuta é provável que fizéssemos o mesmo. Não se confunda isso, evidentemente, com deixar de tratar uma depressão, um transtorno borderline ou qualquer outro mal similar, que DEVEM ser cuidados com o mesmo empenho de uma diabete ou uma hipertensão, por exemplo. Falamos aqui apenas das dores de alma que não são clínicas nem incapacitantes – e mesmo para essas cabe sempre um acompanhamento psicológico, uma análise profissional; cabe constantemente um retrabalho, uma desopressão, um alívio; o que não cabe é a expectativa de um total desaparecimento. Até porque as dores devidamente controladas, seladas, domesticadas, que sob essa atenta vigilância perdem o potencial de destruir-nos, passam a ser também as dores que nos constroem.

A dor, com o perdão da comparação excessivamente prosaica, nos amolece como o martelinho de carne; uma força descabida aplicada ao martelinho pode despedaçar a substância, porém o peso normal e inevitável das pancadinhas cotidianas nos amacia. Não é que devamos buscar a dor (eu, pelo menos, vim isenta de dotes masoquistas) – mas, uma vez que chega teimosa e involuntária, o melhor que fazemos é refletir sobre o golpe e permitir que nos torne o ego mais tenro. Os nãos da infância, as ausências indesejadas, as perdas que não pedem licença, as lágrimas corridas na escola, os jovens amores não correspondidos, as solidões vividas em silêncio, as incompreensões familiares, as insatisfações corporais, as irrealizações de pequenos ou grandes sonhos: é tudo material do torno que nos molda, é tudo contingência que as almas mais orientadas vestem como experiência – vestem como o traje que não é o esperado vestido da Cinderela, mas que é ajustável a ponto de o portarmos com elegância. Sofrimentos nos escancaram os olhos filosóficos, nos contêm a natureza deslumbradamente egoísta, nos aparam as tendências de autoglorificação, nos aproximam de ser humanos e não criaturas irreais, flutuantes, irritantemente isoladas em torres de marfim.

Por doermos, entendemos o que doem. A dor que nos lanceia ao menos nos abençoa com o efeito colateral da empatia. Como abriríamos braços confiáveis aos outros, se fôssemos aqueles que, para desalento dos Álvaros de Campos que nos cercam, "nunca levaram porrada"? A experiência da dor nos enternece o coração e o colo, nos gradua para o acolhimento, nos diploma para a sinceridade, nos desliga a autossuficiência que afasta como escudo, nos sagra como iguais a serem abraçados e não estátuas a serem adoradas. Paixões certamente brotam da superfície estúpida, mas amores de todas as instâncias só nascem quando enraízam no que temos de muito íntimo, quando envolvem nossos momentos de vida subterrâneos, porções d'alma que pouco receberam (ou se mostraram à) luz. 

Somente as erosões que sofremos tornam únicos nossos relevos e convidam ao estudo, ao passeio, ao encanto. Viramos desbraváveis quando aceitamos lealmente colocar nossas feridas no mapa.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Venenos

Banco de imagens : campo, Chão, árido, flor, estéril, terra, seco ...

Definitivamente não sou fã de divulgar por aqui as notícias ruins que nos assaltam; prefiro os vaga-lumes metidos entre as rotinices que, para tantos, já têm sido tão nevoentas neste 2020 indescritível. Prefiro a multiplicação dos poemas, das pequenas fofuras que colorem o planeta, das artes, doçuras, curiosidades. Mas alguns noticiários nos socam tão na cara, nos levam de tal maneira o peito a nocaute, que não resta quase espaço para fugir do assunto, e a gente fica lamentavelmente forçado a repisá-lo no formato verbal depois de já tê-lo sentido doído e chorado. 

A monstruosidade da vez é: em Itapevi (SP), dois adultos em situação de rua (e um cão possivelmente relacionado a eles) morreram após ingerirem alimentos contaminados que um homem não identificado lhes ofereceu. Duas meninas de 11 e 17 anos – cujo pai passava pelo local onde a comida estava sendo distribuída, aceitou-a e levou-a para casa – estão internadas por também terem sido vítimas de provável envenenamento. E mesmo eu, que por sobrevivência emocional não duvido da capacidade evolutiva de nossa espécie, me vejo em pouquíssimas condições de defender, no momento, uma humanidade que gera algo tão inominável em tantos âmbitos. 

Se alguém cisma de exterminar animais de rua "incômodos" – cachorros, gatos, pombos ou o que mais a horrorosidade humana conseguir odiar – dando-lhes ração envenenada, é um ato que já automaticamente nos rasga por dentro. Se pessoas em situação de rua consomem algum alimento que não lhes foi dado estragado, mas que eventualmente foi encontrado assim, e por causa disso passam mal, é um fato que no mínimo já nos revira as vísceras. Combinar essas duas aberrações do mundo numa terceira megablasteraberração, no entanto, é de arrancar o coração com a mão, feito aquele sacrifício bizarro do segundo Indiana Jones – e o combinado dessas duas aberrações, contra tudo que nos define como humanos, é precisamente o que temos: pessoas pobres, desamparadas, vulneráveis, DELIBERADAMENTE envenenadas por alguém que as considera PRAGAS a serem combatidas. Pessoas que o sistema não se contenta em abandonar à margem, não está satisfeito em largar ao sabor do acaso; não! é preciso mais! é preciso manipular justamente seu ponto de maior vulnerabilidade – a fome –, atacar um segundo ponto de maior vulnerabilidade – a esperança – e executar essa sentença do inferno, essa sentença de exclusão realmente irreversível e absoluta, da maneira mais covarde, mais inqualificável, mais impossível de imaginar sem desespero e vômito.

Não estou apenas chocada, não estou apenas revoltada, estou dilacerada, destruída. Uma coisa é saber racionalmente que há seres isentos de empatia, é imaginá-los frios ante a dor alheia, e outra é VER (porque pensar uma notícia dessas é automaticamente vê-la) um so-called homem despejar toda a intenção de provocar dor no mesmo prato feito para chamar vida. Quanto horror por si mesmo é necessário para que alguém desconte em seus iguais todo o autodesprezo que sequer consegue encarar? Quanto fracasso na alma carrega alguém que, inapto para toda realização e toda luta, decide eliminar suas co-vítimas em vez de se reconhecer como fruto e engrenagem podre do mesmo sistema que as vitima? Quantos venenos exterior e interiormente fabricados tomam as entranhas de alguém antes que este resolva derramar em outrem sua repugnância de si? Quanta deserança de amor, quanta pobreza de vivência familiar, quanta ignorância de afeto próprio e compartilhado, quanta nulidade de educação, quanta inexistência de talento, quanto vazio de autoestima cabem em alguém que concebe essa ideia de ser humano – essa ideia de ser descartável, daninho, irrelevante, malquerido, inútil?...

Para continuar já me falta alento; e, apesar desses fossos dementadores que vez em quando se abrem na rotina, seguimos; sigamos. Que o ódio nos aflija, nos agrida, nos traspasse, mas nunca nos domine: em todas as instâncias ele nada pode, se a última palavra somos nós.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Afinadores de silêncios

Pôr Do Sol Pai Filho - Foto gratuita no Pixabay

É tão lindo quando, em "Eu, Mwanito, o afinador de silêncios", Mia Couto fala sobre essa suave vocação de aprimorar o sossego: "A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios."

Benditos sejam os afinadores de silêncios! Prestam o serviço essencial de desconstranger a ausência de fala. Nas imediações desses profissionais, se espalha a calma da desobrigação do contato. Porque tudo hoje é a compulsão do contato, e mesmo ao não ser realizado ele pesa sobre o ambiente, achata-o; estão aí os elevadores nos quais entramos com desconhecidos – ou pior: semiconhecidos – que não me deixam mentir. Em outros países não deve ser assim (o tempo em que estive neles foi insuficiente para maiores pesquisas), mas no Brasil o estar calado é quase grosseria, é perto de desacato social; e portanto, à força de precisarmos ter na língua o dito simpático, maiores são nossos alívios se o recinto não contém presenças antipáticas. Quais presenças antipáticas? Todas, quando só o que queremos é não sair de nossas faxinas ou brincadeiras internas para fazer sala sonora. 

Como é gentil essa gente que não só não nos aborda com barulhos, mas providencia mais: arranja para que o silêncio do lugar não desafine, emana qualquer coisa de sereno e confortável que nos embrulha na confiança de que está tudo bem assim mesmo, assim quieto, assim calado; está como deveria estar, dizem essas abençoadas auras de algodão. Sim, são auras de algodão, é a única explicação poeticamente plausível. São auras de algodão, são energias de travesseiro, naturalmente limpadoras do ambiente pela sua total ausência de demandas, ou pela percepção finíssima e quase sobrenatural de que não é o momento de fazê-las. São almas que nos dão não aquele sono de tédio, e sim o relaxamento que se tem na plena confiança de que não há tensões voando feito baratas nos arredores. Almas que operam em frequência macia, que geram às vezes um arrepiozinho na pele e nos ouvidos com sua delicadeza de pena, que têm o dom de compartilhar sua própria paz num abraço imaginário, virtual, sem sequer estarem disso conscientes. Como eu as amo! almas afinadoras de silêncios, almas conhecidas ou incidentais que são roteadoras de tranquilidade, almas que sem querer filtram o ruído do mundo, que matam as apreensões do ar com sua doçura intrínseca, com seu self de elfo que pisa levíssimo, de fada que nem pousa.

É isto talvez o que fabrica um bom afinador de silêncios: não pousa, não sai nunca do voo discreto e solitário – ou então vai direto para o ninho, sem esbarrar em ninguém, sem colocar nem um grama a mais sobre o chão. Coisa de gentes que, além das muito amadas (porque são muito amadas), são das poucas que conseguem ser melhores que sua ausência.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Ridi, pagliaccio

Coringa é o filme que dá calafrios sem precisar de sustos ou ...

Ainda em nossa cinequarentena, acabamos de rever o Coringa, a que em tempos tão recentes e tão remotos assistimos na sala de cinema. Não sou lá muito adepta de ficar revendo filmes, especialmente uns tão de ontem, porque, a não ser que haja algo muito enigmático a não ser entendido de primeira, em geral eu "esgoto" a obra logo após conhecê-la: ou não me interesso o suficiente para ler mais nada além de uma crítica – e, em consequência, não me interesso o suficiente para revisitar a produção anytime soon –, ou leio tanta coisa, busco tanta curiosidade, vejo tanto GIF, dou tanto repeat interno nas cenas, que certas falas chegam a estar quase decoradas e reassistir se torna redundante. Sim, eu fiz essa "ordenha" depois de ver o Coringa pela primeira vez, imergi em análises e comentários, praticamente memorizei trechos, mas mesmo assim fiz questão de prestigiar o lindo logo em sua estreia (não paga) na TV, na grade da HBO.

Não que o roteiro seja impecável; loooonge disso. Restam dúvidas razoáveis sobre o que realmente aconteceu ali – dúvidas que eu não tinha pretensão de ver sanadas neste segundo encontro. Compareci ao encontro, porém, por puríssima fascinação pelo personagem (por ESTA versão do personagem) e pela detalhada, excruciante construção feita por Joaquin Phoenix, um dos merecedores de Oscar mais indiscutíveis. Jamais fui fã do Palhaço do Crime, não pisei no cinema movida por nenhumíssima atração pessoal pelo vilão, cujas encarnações anteriores desprezo – apesar de aplaudir de pé, claro, as atuações de Jack Nicholson e Heath Ledger, em especial a deste último –, mas fui incapaz de resistir à dor que transborda de Arthur Fleck desde a primeira cena. Enquanto os Coringas antecessores são freaks psicopatas sem uma sólida história de origem e sem motivações palpáveis, o atual tem (não direi motivações, mas) motivos bastantes para gerar uma dezena de hóspedes do Sanatório Arkham. É isso que dói no peito, na garganta, no fígado, e ao mesmo tempo é isso que me seduz tão irremissivelmente para o filme, por mais que o roteiro seja falho e o aproveitamento da "mensagem", controverso: é ter sede de amparar o protagonista nos braços, dar-lhe o mínimo de compreensão, de apoio, de escuta, de ternura; é ter por ele não pena, que costuma ser permissiva e paralisante, mas uma dolorosa empatia; é saber que pouquinha coisa – um tantito só de olhar, carinho, abraço ao longo dos anos, mais uma dose básica de lealdade – talvez tivesse evitado toda a desgraça, talvez tivesse interrompido crucialmente o processo. 

Exatamente o processo estampado na tela é o que dá fogo e alma à obra, que NÃO se trata de uma costura bem-sucedida de enredo, e sim de um estudo de personagem. O filme é inteiramente Phoenix e sua precisão cirúrgica ao representar um trajeto de dissociação da personalidade: a linguagem corporal curvada e exausta de Arthur, que se contrapõe à atitude cada vez mais aberta e desafiadora de seu alter ego; a oscilação constante na lateralidade (Arthur é destro, o Coringa é canhoto); a gangorra minuciosa entre a doçura no olhar do "mocinho" e o crescente deboche e niilismo no do vilão – sem que este, embora muito mais seguro e badass, deixe de parecer ainda mais triste que o primeiro. Muito se teorizou a respeito de a produção fazer uma suposta glorificação do incel, mas não é fato: por mais que esses seres ressentidos da vida real possam vir a espelhar-se na espécie de violência adolescente do Coringa (também se espelham nos Cavaleiros Templários e outras criaturas de armadura, e nem por isso, né?...), o protagonista de modo algum culpabiliza mulheres em geral; quase todas as suas vítimas são homens – ninguém relacionado a pendências sexuais –, e sua raiva não é nada inexplicável nem delirante, ainda que ele mesmo o seja. O roteiro dá pano para mangas e smokings inteiros, porém o foco é simples: tem-se aqui, fundamentalmente, uma história de abandono e tortura em vários níveis, e a história de seus efeitos sobre corações que não foram ensinados a contar com quaisquer recursos.

Quase um ano se passou desde que, pela primeira vez, vi Arthur Fleck tentando sorrir diante do espelho, e fico feliz que a cena continue doendo – tanto quanto o replicar da cena com todos os coringas que se sentem cartas fora do baralho. Quanto menos nos doem as impossibilidades de sorriso no outro, maior a chance de fazermos parte do elenco que produziu a tragédia.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Iluminados

Nos bastidores do horror de 'O iluminado' - Jornal O Globo

De vez em quando aproveitamos o isolamento para, como diz o Fábio, embarcar na cinequarentena. Nossa mais recente sessão foi com O iluminado, que imperdoavelmente ainda não havíamos visto e que enfim pudemos constatar por que é um dos terrores mais icônicos da telona. A trilha agonienta, os ambientes sufocantes apesar de enormes, os carpetes e papéis de parede coloridões e sinistros, as garotinhas de mãos dadas e olhos estoicos, o "redrum, redrum, redrum" repetido com voz de robô empenado, o velocípede em plano-sequência, a banheira, o banheiro, a neve, o labirinto, o taco, o machado – poucas produções têm maior quantidade de pesadelo por metro kúbricko. Não que nos tenha causado pesadelo (afinal moramos no Brasil, quem é o hotel Overlook na fila do pão?), mas uma dorzinha de cabeça sempre vem quando o final só vai amarrar as pontas a posteriori e deixa a gente com cara de tacho. 

O iluminado se ilumina sim, às vezes com holofote nas obviedades, porém em grande parte com faroizinhos espalhados – metáforas, metonímias salpicadas no recinto. Desde o "só trabalho e nenhuma diversão fazem Jack um bobão", passando pela bolinha jogada na parede e recuperada (jogada na parede e recuperada, jogada na parede e recuperada) até o perturbador zoom de encerramento, o que se sublinha e ressublinha é a força com que alguns seres se deixam condenar à repetição, tendo sido, não raramente, os primeiros a duvidar de sua própria entrega. Independentemente da presença de fantasminhas de vestidos gêmeos, muitos de nós já carregamos por todo lado nossas fantasmagorias gêmeas, multiplicadas, persistentes como um vício d'alma. Temos, com certa constância, uns salões aparentemente vazios nos quais basta um descuido e os fantasmas se divertem: medos que esnobamos mas não desinfetamos, e num estresse imprevisto voltam a infeccionar; traumas que não investigamos a fundo – por ignorantes ou autoconfiantes – e que eclodem no descontrole de algum aspecto da vida; mágoas de nós ou de outrem que mantemos soterradas, mas enraizadas ainda, e ao roçar de um botão explodem cobrando juros, cuspindo vespas, machadando portas. Não basta contarmos com espaços amplos se estivermos enjaulados em nosso potencial de eterno retorno. 

Podemos andar por aí exibindo um espírito contemporâneo e, numa falha de vigilância, tropeçarmos num preconceito não devidamente extirpado que frequenta na surdina nossos corredores. Podemos manter relações pacíficas que são, em verdade, vulcões vestidos de gelo, só esperando um isso para que Pompeia seja literalmente lavada do mapa. Podemos ter um amor indiscutível aos filhos e, por isso, negar a todo custo a existência de ressentimentos – que, não enfrentados com autoclareza, tendem a embalofar até ser impossível impedir que escapem pelos poros. Podemos jurar que sim, está tudo bem no emprego, no estudo, no casamento, na amizade, na vizinhança, na família, e ainda assim estarmos simplesmente overlookando (o nome do hotel assombrado do filme significa "negligenciar", "deixar passar", acreditam?) o que deveria em nós ser exumado e encarado com menos desatenção, conduzido com mais cabeça e menos barriga. Precisamos limpar e conservar operacionais e aquecidas nossas áreas visíveis, sociais, expostas, mas sem achar que todos os quartos se manterão saudáveis se trancados eternamente. Volta e meia a meditação, a leitura, a religião, a arte, a análise, a psicologia e outras chaves possíveis devem abri-los, examiná-los com cuidado, desembolorá-los, dedetizá-los, tratar na nascente a infestação. Ao menos por nós, nossos meandros precisam ser vistos. Observados. Acompanhados. Iluminados. 

Ou então não teremos, com relação a velhos pesadelos, uma digna festa de independência e um verdadeiro the end.

domingo, 19 de julho de 2020

Treino é treino (?)

Foto profissional gratuita de academia de ginástica, ação, aço

Assistindo a um episódio da série Diário de um confinado, constatei que não é só comigo: o protagonista Murilo, vivido por Bruno Mazzeo, também tem ranço do verbo treinar aplicado ao ato de fazer ginástica – ou "malhar", como observa o personagem, que pertence a uma geração adjacente à minha (e o batismo da novelinha Malhação, cujas primeiras temporadas nos 1990 foram ambientadas em academia, ainda está por aí de testemunho histórico). Não é que eu aprecie particularmente o "malhar", mas me soa muito mais coerente e menos antipático, em sua condição de gíria e sua parecença com a bate-estacação de sentar o malho numa chapa metálica, do que a pressuposição embutida no "treinar" de que se está ensaiando para alguma coisa. Malhar envolve esforço e repetição, um agir mecânico para moldar algo – o corpo, no caso; treinar, por sua vez, ruma a uma apresentação ainda maior no depois, uma apresentação a ser carimbada, avaliada, rotulada por júri ou placar.

Não sou purista de língua, juro, juro juradinho, vocês sabem; sou bem abusada inclusive, misturo e mexo segundo o que dá na traquitana, não dou nenhum exemplo de respeito sublime. Mas me reservo o direito, como qualquer falante/ usuário nativo, de me irritar com modas aparecidas sabe-se lá de qual Hades da inconsistência, manias que simplesmente não fazem sentido. É isto o que sobretudo me azucrina, junto com a repetição desordenada: não fazer sentido. Ora, se eu e vocês somos reles mortais que não treinamos para um jogo profissional, que não treinamos para as Olimpíadas, que não treinamos para figuração na abertura das Olimpíadas, que não treinamos para a São Silvestre, que não treinamos para o próximo GP, que não treinamos para um recital de música; se eu e vocês somos criaturas sem agenda cheia que não treinamos um discurso, nem um papel no teatro, nem uma declaração de amor, nem uma declamação de poema, nem uma escala no piano, nem respostas de entrevista, nem pronúncias de língua estrangeira – para o que CACETES treinamos ao fazer vinte minutos de bicicleta ergométrica, dez flexões ou duas séries de abdominais?? Quando e por que o treino perdeu seu status de preparação para uma avaliação ou embate, de aperfeiçoamento de habilidades para um qualquer evento?

Claro, as palavras se expandem, os sentidos engordam, as gírias nascem e eventualmente fixam residência (amo-as, adoro-as, nada tenho contra elas), o idioma é vivo e inquieto, rico e buliçoso. Não me parece, porém, que o caso do treino seja exatamente espontâneo – ao contrário, até: parece-me uma tentativa cafoníssima de endurecer, higienizar e "profissionalizar" o exercício físico que batemos no liquidificador com a rotina, meio aos trancos, sem a roupa mais "adequada" ou o ambiente "ideal". Não que esse exercício não deva ter orientação profissional, mas não é feito por profissionais, e me soa honestamente pretensioso que se busque projetar no dia a dia comum o peso e o impacto de dia a dias bem específicos. A diferença é crucialmente de objetivo; é aquela que mora entre o cumprir cotidiano de uma tarefa de saúde e o alimentar de ambições competitivas. Pronto, tudo acaba dando na ideia de competição e é provavelmente isso que me exaspera. Isso e aquele nojento falsear da realidade que vive na linguagem empresarial – same energy. Como se estivesse implícito no treino a necessidade de sermos "produtivos", focados numa linha de chegada, num case, num adversário, quando em verdade se deveria meramente tratar de equilíbrio, desestresse e manutenção. 

Vocês treinadores, treinistas, treineiros, treinantes, treinões, trainees que me desculpem, mas fico aqui com a minha humilde atividadezinha física mesmo. Sem nenhuma meta importante a não ser, talvez, adiar tanto quanto for possível a final.