domingo, 25 de novembro de 2012

Estatísticas

Não tenho nada contra as cujas; minha irmã, inclusive, é estatística de formação. Não tenho nada contra o saudabilíssimo procedimento de, quantificando, ter uma certa ideia do andamento dos fatos. O que me agride está do outro lado do processo: a fabricação desavergonhada de fatos para se enfiarem confortaveizinhos nas desejadas estatísticas. A massinhagem-de-modelar pornográfica que se executa sobre as realidades mais rotas para surgirem lindonas na foto. A nojenta inversão da caverna – em que a vida, a vida, a vida, com suas chagas palpáveis, seus arranhões sangrentos, não existe para os autos. Só existe no reflexo difuso da pedra, na maquiagem indetalhada dos números. Só existe reinventada.

Que o digamos nós, os que levam vida de professorete. Vez por outra nos chegam criaturas – senão de mente – de alma analfabeta. Ou os pequenos cérebros foram criminosamente empurrados séries a fio, sem uma reprovação que lhes farolasse a ignorância, ou, se puderam aprender um qualquer beabá, mastigaram embutido o elogio da mediocridade. Primeira lição mamadeirada pelo aluninho de município: pouco já basta. Já basta para a aprovação com média anual 3,2-que-é-quase-4-que-é-quase-5. Já basta para o gabaritar dos testes de prefeitura oficiais, cunhados para os de idade mental três anos inferior. Já basta para o ganho da bolsa-cartão-família-help-auxílio-carioca, garantidaça a despeito do rendimento escolar mais vexatório. Já basta para a formatura colegial cheia de flor e banda, farta de eleitores radiantemente presentes e futuros. É ensinada desde sempre ao povo miúdo – e seus geradores – a utilidade da paralisia, a vantagem da aceitação cretina, do pensamento desesforçado, em troca da diplomação em massa que parece abrir novas portas e felizes. Tu me dás números de urna, eu te honro com porcentagens de aprovação a serem lidas pelo Márcio Gomes num sorriso de uma à outra têmpora. Eu finjo que te preparo para um dia me questionares, tu fazes de conta que um dia conseguirás ser meu servidor passando no próximo concurso. Bem está o que bem acaba. Beijo de amor. Aplausos. Pano rápido.

Que também o diga Marido, revisor de quantos textos acadêmicos rabiscados por PhDs de Harvard que confundem “mas” e “mais”, por professores-doutores-organizadores do Departamento de Etceterices Latino-Americanas que inauguram e não encerram frase, por mestres yodas das mais altas comandas que separam de vírgula o sujeito e um seu predicado. E vá tentar remendar-lhes o período incompreensível; “deixe como está” – é, entre bufos, o resmungo geral. Desde que a taxa de publicações anuais caia bonitinha no Lattes, desde que os artigos tais e tantos saiam com as titulações em gordo negrito, desde que as sumidades completem a meta do semestre com algum quasímodo embrulhado em capa colorida, quem é que se amofina com o leitor boiandão na leitura, expulso da página onde foi bater de pires na mão? Estatísticas, as bezerras de ouro. Que %s de tijolo e cimento arrendem a antiga terra da beleza inquilina. Ao menos a da justa clareza.

Que as expectativas polianas de vida cortinem de fumaça a medicina que lhe injeta café com leite na veia. Que os pibões balofos fantasiem de glitter as mesas esqueléticas da caatinga. Que os bons números do atacado disfarcem quem morre à míngua no varejo. Que as menores natalidades médias escondam quem tem quinze filhos por profissão. Que o grosso regenere o particular, o global maquie o detalhe, a eficiência morta do algarismo redima a mediocrização galopante da minúcia. Que nos asfaltemos. Que nos generiquemos. Que nos desindividualizemos dentro do Cérebro que se apropria da ciência para nos nivelar subsolamente – com sorriso de Olimpo impresso na cara.

(Já basta.)

sábado, 24 de novembro de 2012

Gente que nunca

Chegam por aí as natalices, e por causa delas me recordo de uma reportagem que uma vez trabalhei em sala de aula, sobre moradores do lixão. Não, não é notícia da era Carminha; faz tempo. Era texto já velhusco quando o descobri e utilizei, anos atrás. Lembro que o sonho de um dos catadores (idosos) entrevistados na matéria sempre fora o de provar panetone. O pobre revirava caixas bauduccas que vinham em caminhões de lixo, na esperança de alguém ter deixado um restim, mas qual; tudo raspadíssimo da silva. Lembro também que a reportagem me moeu o coração com ralador de queijo, e mói ainda (embora não falte a esperança de algum leitor da época haver presenteado o catador com uma tonelada de embalagens preenchidas). Doeu-me a simplicidade do pedido, tão à mão e tão irrealizável, tão encontrável em qualquer esquina – ainda mais agora que há panetoninhos-bebês para verbas menores – e tão inacessível. Provar panetone é um “nunca” da nudez extrema. Da mais abusada miséria.  

O nunca de Tião (posso quase jurar que o nome dele era Tião) me dá quilos de vergonha quando penso em meus nuncas classe-médios, afastados de qualquer fome, irrealizados sem culpa de caminhões que não trouxeram o pedaço certo: nunca fui à Europa, nunca passeei de helicóptero e balão, nunca aprendi a costurar, nunca estudei francês, nunca fiz cruzeiro, nunca me inscrevi na dança de salão, nunca tive cartão de crédito, nunca estive com Marido numa festa à fantasia. Importa? nuns casos, algum tanto; em outros, pouquíssimo. Mesmo se importasse muitão, não havia de ser calamitoso como certos nuncas alheios que me trituram o coração no liquidificador. Tem gente, minha nossa – gente talvez do quarteirão, do prédio talvez – que nunca devorou um livro desde o cheiro até o personagem, nunca ultrapassou o analfabetismo emocional de não se entregar à história, de não curtir um pequenino luto quando o enredo se fecha, definitivo e saudoso. Tem gente que cruza com a gente na rua e nunca suspeitou do que fosse um Natal harmonizado em família. Gente que, meu Deus, nunca recebeu indício do que fosse família. Gente que nunca teve a quem apelidar de “mãe” ou a quem, nas horas maiores, enfeitar com o título. Gente que nunca fez um trajeto que terminasse em “obrigado”. Gente que nunca provocou um “obrigado”. Gente que nunca concebeu entranhadamente o sentido de um “te amo”. Gente que nunca desprendeu gargalhada sem que houvesse a ferida de outro envolvida. Gente que nunca respirou à larga em viagem. Gente que nunca cantarolou por dentro enquanto esperava o ônibus. Gente que nunca (se) confessou estar exausta. Gente que nunca conheceu quem lhe ouvisse os defeitos mais retumbantes sem perigo de chantagem. Gente que nunca conheceu quem lhe percebesse a mudança, a enxaqueca, o sumiço. Gente que nunca mereceu confidência. Que nunca tocou noutro rosto. Que nunca roçou noutro cabelo. Que nunca suspirou alívios ao voltar pra casa. Que nunca se flagrou em casa. O pior, fortemente o pior: gente que nunca desejou. Nada. Nunca. Alma noves fora zero.  

Me assusta demais da conta, me espanta cem vezes mais que o querer panetone e não ter panetone, essa incapacidade de querer. Esse jeito de ser e não ser pessoa, esse vácuo fundamental. Gente tão despida de gentice – espoliada de si, quem sabe, pelo máximo da dor – a ponto de nunca ou nunca mais esperar o príncipe, as férias, o níver, o melhor emprego, a próxima edição da revista, o último capítulo da novela, o filho que anda distante, dez quilos a menos, dez amigos a mais, o véu, a grinalda, o beija-flor, o carteiro, a paz mundial. Gente que não tem curiosidade de caviar ou carne de rã, não anota a estreia de um filme, não planeja terminar a reforma ou o ensino médio, não cobiça um salário ou sapato, não folheia um romance ou roteiro, não imagina um castelo, não projeta um desfile, não cria um enredo, não se arruma para a visita, não faz curso, não faz concurso, não cogita trabalho voluntário. Gente que assinou renúncia mui antes da hora; que, se pudesse, puxava a cordinha e mandava parar o mundo para bocejantemente descer.                

Tenho pânico de tropeçar para dentro desses espíritos que viraram cotoco. Que jamais brotaram além do cotoco. Tenho medo ancestral de pegar contágio dos que desistiram do jogo e vêm tocando a bola só para cumprir o tempo regulamentar.

Tenho medo de almas deste mundo que não criam memória. Que, de tão exclusivamente sólidas, no segundo em que morrem desmancham no ar.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A primeira flor

“Quando tudo for pedra, atire a primeira flor”, li contentemente no Face agora há pouco. Quem dera. Em oito palavras e um estender de braço, resolvia-se o mundo. Claro, sempre nascerão os bélicos, os viciados em complicar com exagero para terem o pretexto de resolver na paulada e despressurizar as frustrações. Mas nossas vovós já juravam que quando um não quer, dois não brigam – e se o ditado é velho a resolução é novíssima, estalando de fresca. Nada espanta mais ineditamente os raivosos que a tranquilidade sensata. Pacifismo é o eterno moderno.

Quando o grupo estacionar a conversa em torno de como aquela atriz anda piranhando por aí, quando interromper o fluxo de ideias para chafurdar em boataria autocomplacente, seja o primeiro a balancear o tema lembrando que essa, essa mesma, visitou aquele hospital de câncer infantil no fim de semana, quantos da roda foram lá plantar iguais alegrias? Quando a vizinhança assentar de ter antipatia unânime pelo novato do 307, tão absorto em solidões que se esquece de cumprimentar no elevador, seja o primeiro a crer em segundas chances levando-lhe à porta uma fatia da festa. Quando a batida no trânsito calhar de ser num bélico que só precisa de um “isso” para lhe esbodegar a vida, seja o primeiro a sacar o número do seguro, do advogado, do guincho e, possível sendo, do táxi e do almoço. Quando o chefe vomitar injustiças de momento, seja o primeiro a bater em retirada com o melhor dos sorrisos e deixar que só a fonte da fúria cause ressaca em si mesma. Quando a turma puxar perseguição, deboche, descaso, vacilo, fofoca, propina, quando as intenções forem de bully, quando o clima for de exclusão, quando as nuvens sussurrarem pretensões de chumbo e se fecharem em cinzento de batalha, quando o mero encostar na pedra for tudo que se aguarda para principiar a avalanche – seja o primeiro a chegar de vontade limpa, a se revelar com boa-fé voluntária, a declinar da zoação temerária, a recuar da provocação infértil, a não se apossar do xingamento feito na febre, a não prosseguir na tolice engatada no susto. Seja o primeiro a desconfundir o suposto servilismo e a valentia de não se calcar em opiniões neanderthais. Seja o primeiro a diferenciar o falso puxa-saquismo e a gentileza de não se aprisionar em impressões de encomenda. O primeiro a não comprar guerra de ciumentos e machinhos-alfa. O primeiro a desprezar teorias – sobretudo práticas – de conspiração. A escolher lealdade contra todas as cusparadas. A optar por lucidez sobre todos os preconceitos. A estar. A permanecer. A oferecer.

Deixa-disso é ninharia. Quando a coisa apertar, seja o primeiro da turma do tô-contigo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Doadores

Um conhecido resolveu gritar, no status do Face, que é doador de órgãos. Imagino que o ato tenha a ver com alguma situação de doença entre os próximos, mas eis o bonito da coisa: dizer o necessário, proclamar o necessário enquanto há tempo desprecisa de um porquê. Sou doador, ponto, a quem e quando interessar possa; é uma informação de amor inguardável para consumo interno, um essencial feito para ser gentilmente berrado à luz do dia, até com o objetivo de não sobrepesar de dúvida uma família já tonta de dor (aliás – e podem me atirar o Corcovado na cabeça –, eu ignoraria solenemente a vontade de um morto que tivesse o egoísmo último de não pretender salvar outras vidas. Me espanca aí, se seu estômago aguentaria assinar um N-Ã-O na cara da senhorinha que está vendo, mês a mês, o coração do filho único necrosar. Tá indignadinho? morre pra longe de mim. Questão de prioridades. Tenho a esquisita tendência de favorecer quem teima em continuar respirando). Em tempo: sou doadora, não haja questionamento possível a um blog todito por testemunha. Terei a honra mais inteira de dissolver-me em diferentes anfitriões, em partir permanecendo, tão amante da vida a ponto de virar-lhe semente. Na esperança, é claro, de não amofinar muito o hospedeiro com a memória emprestada de 1.568 tirinhas da Mafalda, aulas de orações adverbiais e hits do Roupa Nova. Doar é também contaminar um pouco.

Antes de chegarmos aos finalmentes do desmanche físico, porém, há que nos distribuirmos em fragmentos de nós, em tantas transfusões de nós quantas forem fundamentais para a manutenção de existências vizinhas. Na impossibilidade de plantar uma aurícula ou ventrículo de pensamento saudável no meio de um tórax muito, muito corroído de desistência, plantamos às vezes uma única palavra-lâmpada, um único germe de ideia, único grão de estrada nova. Na dificuldade de arrancar a córnea e metê-la dentro duma cegueira autodestrutiva, damos às vezes uns bofetões de luz – broncas tinhosas, perseguições implacáveis, teimosias de anjo da guarda profissa. Na proibição de cedermos um dos pulmões ao amigo sufocado de mundo, realizamos uma traqueotomia de abraço que abra fresta para a tristeza respirar. Não podemos emprestar pele, mas podemos tecer a cicatriz e cultivar tato; não podemos entregar tímpanos, mas podemos costurar entendimentos; não podemos oferecer braços, mas podemos nos enfiar no mutirão. Não podemos nos fatiar ainda, por mais que possuídos de ternura excessiva; e no entanto devemos – sem listas nem burôs nem bisturis nem nove-horas – devemos absolutamente tomar vidas a peito, na víscera que as enfraquece, na vitamina que lhes falte. Nascemos não simplesmente colegas, não contemporâneos apenas: somos ampolas, somos mútuos suprimentos. Estoques recíprocos. Daí o encanto das diferenças – que não interditam, antes aquecem a troca. Todo amor encaixa. Todo amor é compatível.

Ser imprestável para doação em vida é o melhor indício de morte cerebral.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Solucionáticas

Outra do Face; citação atribuída à minha xará Fernanda Longatto: “Por um mundo com menos ‘estou com saudades’ e com mais ‘desce que eu estou te esperando’”. Curti e compartilhei, naturalmente. Tal qual a autora, eu creio na prática. Creio na prova. Creio no mundo que cansa de ficar dando pinta com palavra bonita de rede social e parte pro vamuvê. O mundo que finalmente se percebe exausto de teorias, obeso mórbido de promessas, farto e refarto de lero-lero que engravida, engravida e não dá à luz. Não que eu seja modelo de resolucionismo – I wish; empurro para adiante o mais docemente possível cada perrenguice não urgente. Mas não falo de perrenguices. Falo de coisas teoricamente amadas, de desejos supostos. De quereres que insistimos em querer devagarinho demais, low-profily demais, quem sabe com o medo eterno de desmistificar os privilégios não eternizados. Quem sabe com o medo eterno de corromper em fatos o até então sonhado como privilégio. Com o terror de buscar o clímax para não desencantar a relação. Com o mau e velho pânico de sair da caverna.

Sair da caverna é preciso, contanto que para maior luz. É preciso desengavetar necessidades de viagem, necessidades antigas, compridamente acalentadas, ainda não materializadas em trens e aviões porque nos vem sendo mais reconfortante suspirar “um dia” do que nos meter em consulados, passaportes, bagagens e poupanças. É preciso efetuar o encontro com a passada turma, ainda não organizado porque talvez nos fique mais macio trocar textos, fofices e amabilidades facebookas do que encarar rugas atuais – amarrotamentos físicos ou simbólicos. É preciso escrever para aquele amor mais primeiro e infinito, ainda não procurado porque temos o receio absurdo de ser imaginados como já não somos, em vez de assumir que estamos muito melhores e mais próximos do que idealmente seremos. É preciso enviar o currículo que ficou pardo de espera no armário, o currículo ainda não endereçado porque, no fundo, por mais que nosso trabalho faça o inferno de cada dia, é já o inferno mapeado – e tomar uma atitude salvadora nos põe menos apaixonadinhos pelo destino super-herói. É preciso economizar hoje o primeiro real da festa. É preciso experimentar hoje a primeira ideia do vestido. É preciso encomendar hoje o primeiro mimo da troca de presentes. É preciso tomar hoje a primeira colherada do tratamento. É preciso pagar hoje a primeira parcela da segunda chance. É preciso pegar hoje os filhos na escola e lanchar aquela conversa. É preciso se declarar. É preciso escolher a cor. É preciso mandar o cartão de desculpas. É preciso comprar o ingresso da peça. É preciso surpreender a criatura específica com o ingresso da peça. Com o beijo de e-foram-felizes. Com a cesta de café da manhã. Com o quadro finalmente na parede. Com o filme alugado de uma vez. Com a hospedagem-surpresa da amiga de São Luís. Com a mala feita. O hotel reservado. A passagem garantida. Bora? 

Bora. Melhor que agora não há, pra dar entrada nos papéis de ser feliz mais cedo.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Eu sou você amanhã

Numa deliciosa tirinha do Calvin publicada no Face, o protagonista mais safado das agaquês recebe e lê uma carta de seu “eu passado”: “Caro futuro Calvin, eu escrevi esta carta alguns dias antes de você recebê-la. Você fez coisas que eu não fiz. Viu coisas que eu não vi. Sabe coisas que eu não sei. Seu sortudo de uma figa! Seu camarada, Calvin”. O moleque arremata enxugando uma lágrima e suspirando a pena que sente de si mesmo dois dias atrás. Entendo à perfeição. Não raro me flagro em clima de piedade e alívio com relação a tantos meus eus que ralaram, coitados, para que estivesse aqui-agora esta euzinha duarte, supostamente livre de tamanhas ignorâncias e, felizmente, ignorante quanto a meu estágio de evolução futura. Sempre é produtivo não ter noção completa da magnitude do rombo a ser reparado, ou pularíamos todos do barco, encarnados em desespero.

A infância: que linda. Quantas vezes a criatura não se pega, em meio à tsunâmi adulta, censurando de tarja preta os pedaços de agudo sofrimento moral da meninice e desejando, cantando, recitando – ai, que saudades que eu tenho?... Eu não. Fui muito feliz, tal e coisa, com a felicidade de miúdas ilusões que então me cabia; mas jamais-em-tempo-algum trocaria, pelas dores superlativas da época, aquelas hoje dimensionadas conforme o devido. Não que a infância me tenha doído mais que a de qualquer outro. O caso é que, quando somos e formamos mundo pequeno, as agruras menorezinhas nos engolem em proporção. Cortar o cabelo relativamente curto ou tirar nota um bocadinho mais baixa nos mergulham no inferno de antecipar a zombaria da turma. Gostar de um menino da sala e ver que ele passou o recreio brincando com outra nos joga na depressão mais inteira. Esperar a mãe voltar do trabalho para ver-lhe a reação à queixa da avó nos atira ao precipício de terror e culpa. Todo tormento é over, toda encanação é máxi. Não temos (se somos crianças minimamente limpas de cinismo) escudo bastante contra os horrores que vêm de fora, equilíbrio bastante para regrar as aflições agudíssimas de dentro. Na adolescência, o mundo cresce para ao menos termos espaço de sobrevida à revoada dos hormônios. Chegam sentires mais fisicamente pulsantes, pressões mais definitivas, conhecimentos academicamente mais cruéis: tudo bonito, intenso, poético – graças a Deus que passou. Nada como lembrar-se das intensidades e maravilhas belíssimas quando a cicatriz já há fechado em segurança.

Nada como não ter de chorar sangue estudando as Físicas e Químicas odientas. Nada como saber que não precisamos de cabelo na cintura para ser tão igualmente femininas. Nada como perceber que óculos de lente menor nos deixam enxergar tão igualmente bem. Nada como fazer as pazes com fígados, berinjelas, praias, parques aquáticos. Nada como perder o receio da vida de casada. Nada como já ter organizado o casamento. Já ter montado o apartamento. Já ter anos de experiência para dosar o ferro-e-fogo inicial de sala de aula. Já ter passado por aeroporto americano. Nada como não ter mais de fazer prova de Matemática. Nada como não ter mais de fazer prova oral de Inglês. Nada como não ter mais de fazer prova. Nada como não mais topar com latins e filologias no currículo. Nada como não enfrentar as febres e sufocações da dúvida amorosa. Nada como assinar o ponto em vez de levar carimbada a caderneta. Nada como não ser obrigada a usar lápis. Nada como não chorar porque o brinquedo rachou ou a casa está cravejada de formigas. Nada como assistir a um canal enquanto se grava outro. Nada como relaxar na gravação porque é só procurar o episódio no site. Nada como comer rango sólido e misturado. Nada como mexer com desenvoltura na máquina de lavar. Nada como ter visto impensáveis filmes, peças, expôsis; ter passado sem grilo por duas endoscopias; ter recebido o ato de investidura das duas matrículas. Nada como ter entendido mais ou menos a situação política do Irã nos anos 80. Nada como ter permitido que se quebrasse, ou encolhesse, um caminhão de manias e delírios e preconceitos. Nada como ficar à vontade com o mundo para pegar leve nos rótulos. Nada como aceitar alegremente que ele está dividido em, por baixo, 2.050 tons de cinza. Nada como crescer.

E reaparecer.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Os ruminantes

É uma gente com a qual, admito, me falta paciência: os ruminantes. Aquele povo que, em vez de nutrir-se numa assentada, ingerindo as melhores e piores coisas e, em consequência, procedendo à boa ou confusa – anyway, definitiva – digestão, fica de lero-lero estomacal. Come, mastiga, engole, desengole, remastiga, trimastiga, masca, reengole, sem nunca efetivamente chegar às vias de fato que tornam alimento a comida; sem nunca encerrar a refeição com a alegria cabível e expectar a próxima. Todo mundo conhece esses tais: criaturas que não vão adiante. Estacam no tempo e no espaço gozando infinitamente a dor de cada arranhão, engrolando a delícia de cada afronta, comprazendo-se interminavelmente em mágoas aumentadas, inventadas, pisadas, repisadas. Seu mundo não está apto a digerir; engasga-se em minúcias com cada bocado, na avareza, decerto, de economizar emoção com a novidade seguinte.

Uma minha tia-avó, por exemplo. Sempre foi medalhista em ruminância, mas depois da morte de Vó, sua irmã (sim, recentemente perdi Vó), ficou recordista de ouro. Encasquetou com a necessidade de velório – embora nem Mãe, nem eu, nem qualquer elemento da família nuclear seja de modo algum chegado a rituais longuíssimos de sepultamento, que só estendem infertilmente a morte infértil e nos fazem ter a obrigação de chorar mais tempo. Não se conseguiu capela, realizou-se a só meia hora de exposição do corpo (caixão fechado: ela inchara muito), suficiente para as devidas orações e despedidas. Pouca gente. Algumas flores. Tudo simples e digno. Mas Tia parece ter descrido da humanidade depois dessa ligeireza que julgou imbastante, e, em lugar de prosseguir a vida com seus aniversários, reuniões e celebrações, continuou velando velando velando. Prefere mascar a “ofensa” de agosto a reunir-se natalinamente conosco em dezembro. Cearão os três: ela, o marido e o ressentimento eterno – cada vez mais encarnudado por lhe darem de comer vinte e quatro momentos ao dia.            

Claro, existe o luto. Mas o luto, tristeza de saudade e vácuo de perda, não supõe amargura. Não supõe o câncer da amargura. Porque essa amargura – fim em si mesma – nada mais é que a birra do ego desatendido em suas exigências de universo, birra só pretextada pela (no caso) morte do outro. Mágoas retroalimentadas ad aeternum são festas ao contrário: circo armado permanentemente para descomemorar a existência; centro de gravidade profundo, sem fundo, que brota da feridinha micra e vai devorando o entorno, como bactéria antropófaga. Quem propaga essas inconveniências? Os que aguardam o fora da primeira namorada para serem infelizes para sempre – e fazerem as segundas namoradas infelizes para sempre. Os que esperam o nascimento de um filho para traumatizá-lo de culpa pela perda da beleza. Os que transformam os problemas com trabalho de grupo no 7º. ano em metralhadas na turma de faculdade. Os que tornam um placar ruim na última partida em assassinato a pauladas do torcedor adversário. Nazistas eram ruminantes. Psicopatas são ruminantes. Homicidas são ruminantes. Espíritos de porco são ruminantes. Pais (incluindo mães) azedos são ruminantes. Aqueles que ninguém quer escolher pra equipe ou aguenta na roda de conversa: 89% de chance de serem ruminantes. A ruminância é autorraiva que transborda; sua veneno, baba veneno, espirra veneno e acaba contaminando ambientes com partículas dos próprios desacertos internos. Ruminância é o machucado sem mercúrio-cromo. Ruminância é o vaso sem descarga. Ruminância é o lixão sem recolhimento da Comlurb. O único câncer (já a chamei de câncer) que pega a criatura mais próxima para paraíso fiscal de suas metástases.

Já bem disseram: não importa o que fizeram com você, importa o que você faz com isso. Ruminantes não fazem nada com isso. Voltam pra cama e deixam necrosar.