segunda-feira, 18 de março de 2013

Em vez de peraltagem

“Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. [...] Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão.”

Por isso é que Manoel de Barros me consola e sossega quando me falam de infâncias felizes muito brincadas em grupo, muito corridas na rua, muito namoriscadas em fazendas e plays de prédio (somente poetas e demais seres extramundanos nos consolam acerca das coisas que só existem por dentro). Sou dona de uma infância muito fabricadora de solidões, e não raro bate a culpa de considerá-la feliz apesar de excluir outras crianças – ou muito até por causa disso. Filha temporã, quase década mais nova que a primeira, não tive companheiros pequenos. Não tive companheiros humanos pequenos. Cresci enfronhada no mundo adulto sem, com isso, desenvolver precocidade de atos – porque criança em geral é precoce por competição com outras crianças –, mas talvez alguma tendência prévia de cismação e necessidade permanente de ouvir o parceiro de dentro, o quase único das brincadeiras. Levava horas na construção solitária de “episódios” com bonecos, folhas de jardim, fiapos de linha, gotas d’água (sim, gotas d’água, que para mim podiam casar-se e dar filhos como outras criaturas quaisquer). Um elemento que viesse de fora, infantil, atrapalhava-me; invadia-me o mundo tão conhecido e erigido, tão confortável de descobertas que me aguardavam a um meu comando. Não é que eu não brincasse no coletivo; brincava na escola, embora sem correrias – a asmáticos recorrentes não são aconselhadas correrias. Mas escapava o prazer inteiro da coisa ao ter de negociar com a brincadeira do outro. Não me impunha muito, por ter vergonha de gostar de me impor. A consequência é que brincava um personagem em meu lugar, e todos hão de concordar que não há gozo completo na verdade parcial. Para isso servem as tias-avós: brincadoras dóceis e excelentes, inferiores apenas à maciíssima companhia de si mesmo.

Quem vê com olho externo pode achar-me criança partida, triste de silêncios. Nada mais falso. Sem ser de grandes travessuras – era, para isso, muito culpada –, passava o dia em grandes insuspeitas travessias. Demorei um bocadito a pegar cancha de mundo, por não ter contatos muito externos desde sempre; uma vez, porém, ampliada na sociedade pela escola, cresci mais rápido pela observação a que era afeita. Continuei boba para muitos: cresci por dentro, num silêncio fertilizado de leitura. E não lamento, não lamento o não ter tido dúzias de primos e vizinhos em intercâmbio de infâncias e casas, não lamento o ter sido quase absolutista em meus reinos e balanços e quintais, não lamento ter demorado horas e férias ouvindo Lobato em vez de voltar pra casa às 8 da noite esbodegada de soltar pipa e pular amarelinha. Não lamento a infância suave dos pequenos tormentos – medo da queixa de Vó, angústia da fila interminável de formigas –, não lamento o moleque que não fui nem a ave metafísica que tendia a ser. Não lamento as façanhas mais sonhadas que consumadas, nem os modismos não seguidos, nem o cachorrinho que não tive, nem os coleguinhas que não me chegaram a dormir em casa. Fui milionária de desenhos e impressionismos, de jogos de ludo com as tias e palavras-cruzadas com a avó, de Bozos e quartos da irmã, de pracinhas e cavalos de domingo, de cinemas e livros, de amigos-ocultos aguardados, de casas de chá constantes, de Mônica e Lulu e Turma do Alegria, de jasmineiros e oitis e azaleias. Tudo que lembro é de uma concretude quase flutuante. Coesa. Presente. Existente de se pegar. 

Infância feliz é isso: aquela que passarinho.

domingo, 17 de março de 2013

Dar horizonte

Foi entrevistado da Revista O Globo deste 17 de março o jornalista e escritor Eduardo Lyra, autor do livro Jovens falcões – que fala de 14 bem-sucedidos saídos do nada – e do projeto Gerando Falcões, ciclo de palestras e atividades upzadoras para produzir mais bem-sucedidos saídos do nada. Curti especialmente o comentário sobre o ato de percorrer escolas públicas e motivar a gente moça da periferia: “Mas não quero dar presente, quero dar horizonte. Presente bota o jovem na zona de conforto”. Verdade. Presente (quem viu Dogville ou é professor do município sabe) tem uma asquerosa tendência a se cristalizar como obrigação. Pega o outro despreparado para o merecimento; chove nele o agrado não necessariamente querido, não devidamente cultivado, de desejo não suficientemente construído. Resultado é que mata a primeira fome como um susto e ativa a fome de coisas menos primeiras, menos básicas, que não mais com facilidade choverão. Se o faminto não foi amaciado para ganhar presente, não sabe estar grato; apenas mais faminto. E não se deixa clara a estrada de atingir novos presentes sem ser pela espera ou pelo resmungo. Em suma: cria-se um monstro.

Dar horizonte é coisa diversa, oposta até. Não sacia as fomes urgentes, zumbis; pelo contrário, abre o apetite. Dar horizonte é botar um binóculo na cara e convencer que mesmo as urgências fáceis – sono, medo, luto, namoro, ânsia de passar o dia à-toando na rua – podem aguardar seu tempo ou sumir do mapa, em prol da Vontade maior que se põe a acenar no fim do caminho. Dar horizonte é trazer a autoestima do “depois” (só gente importante tem “depois”); colocar uma etiqueta de valor nos afazeres de um dia antes tão vago, tão avulso, tão gratuito. Apreçar para desapressar; pôr preço futuro em cada minuto presente para que tudo não vire um carpe diem negativo, uma correria de prazeres inúteis, uma pressa doida de conquistas inócuas. Quem tem horizonte sabe que não basta ter chão atual, embora amável, perfumado e necessário; é preciso enriquecê-lo com novos projetos de chão, é preciso ará-lo e debulhá-lo para que a beleza não só perdure em si como se desdobre, alimente. Quem tem horizonte planta Megassenas em vasinhos. Quem tem horizonte vê uma Disney onde outros veem charco, suspeita o diamante na ganga, intui a carta impossível na manga. Não recebe o mundo em compasso binário, não mora no óbvio, não dá corda à conversa previsível, aprende com a fonte imprevisível, inventa a colheita, antecipa a colheita onde outros passam sem atinar com a riqueza potencial. Quem tem horizonte não deixa de constatar o hoje; analisa-o melhor, inclusive, para dele ordenhar a mais eficiente catapulta.

(O dador de horizontes: quem fornece ou ajusta o grau dos óculos. Quem alfabetiza na sociedade. Quem inscreve na corrida. Quem adivinha sol amarelo e castelo que estão a cinco ou seis retas de nascer numa – suposta – folha qualquer.)

sábado, 16 de março de 2013

Your song

Aprendo com Marina Colasanti, em sua (como todas) preciosa crônica “Para dizer quem sou, me cantarão”, que “em alguma remota região da África [... ou do Oriente], quando uma criança nasce, os adultos e os sábios da aldeia se reúnem e começam a entoar melopeias e canções numa espécie de transe [...], até achar aquela que será a música pessoal e exclusiva do recém-nascido. Burocraticamente, diríamos que para o novo cidadão aquela música passa a ser uma espécie de carteira musical de identidade. Mas é muito mais, é uma impressão digital auditiva, é um reconhecimento interior, é a identidade em si. A partir dali, a comunidade canta aquela música à criança em todas as ocasiões importantes da sua vida – os aniversários, os ritos de iniciação, as grandes perdas”.

É belo costume e quase mágico, mas me traria problemas. Coloquemos assim: se eu me vertesse em um dos X-Men, fatalmente me tornaria a Vampira, por identificação. A guria absorve tudo que toca; me too – salvas as proporções. Em consequência, simplesmente não sou gente de ficar atada a uma canção eterna, porque, se escuto umazinha ligada a certa época, me transporto para a época inevitavelmente, com todos os seus cheiros e gostos e o inconveniente pior: sentires. E aí o resultado sairia de través, uma vez que a melodia-assinatura, longe de me emprestar eixo, me baratinaria. Não sou gente de música; sou gente de músicas. Gente que não pode ter as mesmas referências de adolescência e infância a tamanho alcance, sob pena de (num contato mais continuado) ficar lá presa, masmorrada na Caverna do Dragão temporal. Haja terapeuta para reencaixar sentimentos em suas devidas eras, depois de cada rito de passagem.

Inda que eu não seja forçada a recuperar raízes mês sim, mês não, com os sábios da aldeia fazendo lalalalá de coisas velhas no ouvido, a corda é bamba. O equilíbrio é tenso. Ando sempre desencapada, despreparada; ver-me invadida pela trilha sonora da novela anterior já solta um ou dois fios mui a custo esticados, já me faz misturar as estações afetivas. De repente sou duas, sou três. Sou a de agora e subitamente a da lua de mel, da oitava série, do primário. Toca “Sereia” e sou a de quinze anos, no hall de entrada do cinema, discutindo Cavaleiros do Zodíaco com a irmã. Vem “Innocence” (aquela chicletosa da Deborah Blando) e fico fazendo trabalho de grupo na casa de algum colega de sexta série, devidamente reinformada sobre os quem-gosta-de-quem que agitam a turma. Chega uma qualquer balada do Elvis da trilha de Lilo & Stitch e piso nas delícias agoniadíssimas de início de namoro. Assobiam os acordes de “Somewhere in time” e upa! retornam os iguais doze anos da sexta série, rodando na vitrolinha as paixonites malogradas. Escorre a voz de Marisa em “Depois” e sem querer tropeço nos alguns meses antes, quando tínhamos e acompanhávamos novela das nove. Aparece Moraes Moreira com seus pirlimpimpins e caio nos domingos do endereço mais antigo, jornal aberto no chão, pais em casa, brinquedo da Estrela, quintal convidando e tudo era uma vez.       

Saudades nenhumas. Nem aversões. Mas acabo precisando evitar umas canções que se entranharam em cada época (nem por isso favoritas) se quero manter a mínima paz de espírito de não ser tragada para o portal. Preciso ficar com as moderníssimas e as neutras – as que passaram pelas décadas sem marcá-las a ferro. Cansa. Cansa driblar aqui e ali os ataques de um mundo sem silêncios. Necessários reforços: minha atual equilibradora de pensamento (ou “música de higiene”, como já apelidei em outro post) é a “Sei” de Nando Reis, tão bonitinhamente ligada ao clima de Lado a lado, que me recuso a deixar terminar. Pra fazer durar, me meti na bolha espectadora: se não assisto a nenhuma, se outra novela nenhuma entra, Lado a lado não sai. Prontito. E depois dizem que a gente não sabe como voltar ou parar o tempo.

Eu sei.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Ululantes

Aliás, não é só a competição que nos torna óbvios. Andamos de uma obviedade acachapante. Estarrecedora. Não me parecia – ou era impressão minha? – que chegássemos a ser tão óbvios há, por exemplo, uma década. Que seja, talvez, uma influência tenebrosa do politicamente correto; quem sabe? Vivem todos pisando em ovos, aterrorizados de ler ou emitir palavra que se desvie do caixote e toque a sirene vermelha antes de ganhar a interpretação devida. Hein – “interpretação”?? Quem é que tem tempo para isso, ora pílulas?... Negócio é receber diariamente o bandejão já deglutido de expressões da temporada, socadas na mesma lata de sardinha. Pisou fora do vocabulário carimbado pela Anvisa, lascou-se. É um preconceituoso, vendido, reacionário, perigo real e imediato, inimigo público. O equivalente idiomático a desfilar na areia de pochete.

E aí as obviedades comem. Com a eleição do papa Francisco, foi de chuá; em nada, nada, nada mais pensavam os canais vários senão perguntarem 837 vezes ao dia, com ar de descoberta da 8ª. dimensão: “Em quem se inspirou o papa para escolher seu novo nome?”. Em São Tomás de Aquino ou Santo Ambrósio, provavelmente – eu me retorcia. Também me irrita demasiado o entrevistador de jogadores durante a partida. O sujeito está lá, bufando, mancando de cinco pernas, o time tomando de oito a zero, vem o repórter e lhe enfia um microfone sorridente: “O que você está achando do jogo?”. Ó pena! que os esportistas são docemente precavidos contra a imprensa, engolem a resposta que vem boiando nos olhos e ofegam um “o time cometeu erros, mas a gente é unido e vai voltar no segundo tempo para buscar a vitória”, que se aplica a toda e qualquer pergunta feita na borda do campo, inclusive que horas são. Agora: produtor de ululâncias, no duro (que citei ontem mas merece repeteco, por ser hors-concours na coisa), é o eterno BBB. Só escapa de ser pior pelo quarto B que apresenta o programa e lhe confere algum frescor de dignidade. Porque convenhamos. Eu que me pilhasse lá dentro: era surto líquido e certo, com probabilidades de homicídio assim que ouvisse o primeiro “adoro ela, sou perdidamente apaixonada por ela, daria dois braços e um nariz por ela, mas voto nela por questões de afinidade”. Certo que eu permaneceria mais uns vinte anos no confinamento, porém a edição tenderia a ser tirada do ar. Lucro indiscutível.     

Também não é mais do que obviedade aguda essa modorra intelectual que anda arrastando hordas para as salas com filme dublado. Os odiosos filmes dublados. Nada contra nossa dublagem brasileira, excelente no quadro mundial; tudo contra o ato de dublar em si. Se se tem mais de sete anos, alfabetização decente e visão razoável (corrigida ao menos), dublar pra quê, criatura? Nos desenhos, vá lá; não há mesmo atores e só se troca seis por meia dúzia. Mas havendo atores! Havendo atores que assim não se ouvem em seus sotaques, suas criações, suas entonações, seus 90% de esforço atuante! Desfeita. O cúmulo. O mergulho no óbvio, nos sons óbvios, nos fonemas óbvios, nas expressões conhecidas, no feijão-arroz-farofa-bife da língua natal, já sobejamente lida e escutada do abrir ao fechar de olhos. A mediocridade sonora, a preguiça leitora, o comodismo cultural de quem quer só extrair uma sessãozita da tarde para arredondar a sesta, sem reais vínculos e reverências ao conjunto da obra. Sem o pulo no contexto. Sem a experiência completa. Só uma história suco-digestiva bebida de canudinho.

Assim os temas de redação das escolas municipais, que enfeitam de palavra bonita a ululância do “faça um resumo do livro lido”. Assim os repórteres de RJ-TV que vão “ouvir” o povo da rua e alegremente encaminham a pergunta para um “sim” ou “sim”, enfeitando qualquer drible às regras com o bruto de um sorriso amarelo. Assim a quantidade sufocante de mensaginhas no Face com paisagem ensolarada e confie-em-si-mesmo. Assim os que divulgam seus “planos para o futuro”. Os que declaram ser este “um elo de ligação entre duas realidades”. As rimas miserentas de pagode. O vocabulário anoréxico dos funks. Os flashbacks de novela recordando a cena vista há 34 segundos. Os diálogos de novela reforçando a tatibitatização dos últimos nove anos.

Sugestão de matéria de capa para a próxima Nova, bombástica: 1.001 posições inéditas no kama sutra do pensamento. Pra ver se a gente consegue voltar a crescer – inesperados, elásticos, ardentes, criativos – antes de (se) multiplicar.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Ainda somos os mesmos

“A competição torna as mulheres óbvias”, reza uma interessante fala da Pantera Cor-de-Rosa original. Eu ampliaria: a competição nos torna, a todos, animais óbvios. Não existe sincera originalidade na ânsia da derrubada. Por mais hábeis que se queiram os estratagemas, por mais enredantes, por mais intrincados, são sempre e unicamente os mesmos, antigos como chover de cima para baixo. Querer ser ou parecer melhores é o esperado, é o previsível. É a mola que nos faz uma turba de clichês respirantes.

Em nome da má e velha competição, senhoritas mutilam-se organicamente – cortando-se, preenchendo-se, esfaimando-se desde que o mundo é mundo, e só evoluindo na ciência da tortura. Em nome dos primeiríssimos lugares, atletas profissas se vergam, quebram, torcem, forçam, dopam, sabotam-se de dor e estresse, respondem a sabidas provocações com sabidas outras; vão nas mesmas perseguições de rivais e intentos, nos mesmos discursos pseudo-olímpicos, na mesma culpabilite aguda dos treinadores, na mesma milenar revolta contra os árbitros. Em nome do mais gordo espaço na mídia, mulheres ricas cabeceiam-se em declarações de eterna cretinice, estrelas e subestrelas tiram eternas fotos em eternos castelos famigerados, repetem frases eternamente de efeito, sorriem poses eternas. BBBs, que tédio supremo: em nome dos milhões sempre maiores e sempre iguais, cometem sempre iguais tolices, tropeçam em panelas iguais, teatros iguais, velhos adágios, velhas mesquinharias. Estão todos ininterruptamente sendo, ó cansaço: mais espertos, mais fortes, mais resistentes, mais potentes, mais up to date, mais belos, mais magros, mais milionários. Um mundo de super-heróis dando rasteiras, de coiotes lançando alfinetadas. Um inferno com fraldas de jardim da infância.

Moderno, fresco e novo, de fato e de direito, é o clima inédito de não-competição. Quebra a banca. Ninguém nos espera magnânimos, ninguém à primeira vista nos supõe desapegados; bondade gratuita, tranquilidade indiferente é susto. Sabe os reais lançadores de tendência? Os que recusam a promoção no trabalho porque a vida está megaboa assim, as que revelam com alegria o nome daquele perfume, os que congratulam o primo pela vitória do time dele sobre o seu próprio, as que riem divertidíssimas do vestido clonado na festa. Os que largam tudo para servir no Haiti, mesmo que o pai os vá considerar fracassados perante o irmão engenheiro; as que torcem secretamente que seu ex, tão bacana, enfim se entenda com a melhor amiga. Os que divulgam a receita secreta, o telefone do psiquiatra, as façanhas do colega de equipe, a estratégia (vitoriosa) do companheiro de time, o número da certidão e do manequim, a bobagem levemente pensada, a gafe quase cometida. Os docemente loucos – dessa loucura que é não desejar esmagar um só humano como uva de vinícola. Os livres. Os livres de coração em relação à desconfiança compulsória, que não é mais do que ego obeso da impressão de o mundo in-tei-ro! querer ser exatamente vocezinho. 

Bem-aventurados os desencanados: eles possuirão a terra. E não estão nem aí.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Meia lua inteira

Também alimento sem querer esse preconceito. No final de minha amada Lado a lado, que me deixou em orfandade momentânea de novelas (por alguma deste ano ainda hei de tirar o luto?), o safado Albertinho indicou estar a caminho da luz: terminou o noivado com uma Barbie de cera, largou a nulidade profissional para empregar-se como garçom, reviu seu racismo crônico pedindo perdão a quem humilhara, deu uma força na relação da amada com quem ela realmente amava e, muito principalmente, acolheu com paixão total o filho ilegítimo. “O problema foi que ele acabou sozinho”, lastimei por costume. Disparate. Nunca Alberto Filho circulou mais acompanhado de si mesmo. Cismamos de achar sozinha a criatura que não tem parceiro amoroso, ainda que mate Darwin de orgulho na escala evolutiva – como se todo éden possível se fechasse numa só categoria de amor. Como se não houvesse um capaz de ser senão dois. Pois Albertinho concluiu-se bem redondamente em si, lutando, aliás, para compor a unidade decente que nunca fora. Terminou no mais coerente que lhe cabia, pela primeira vez viúvo das nefastices da mãe, matrimoniado com um sopro de vontade própria e grávido das manifestações mais básicas de gente. Lua de mel de um coração que começa.

Veja-se que tudo isso eu sei, e, pois, me reservo o direito de sacar da gaveta um certo platonismo jurássico, destinado inofensivamente aos seres de ficção – aqueles que gosto de deixar conchegados na vida quando sou obrigada a me despedir na esquina do último capítulo. Gosto de deixá-los entregues a outros cuidados, sabê-los amparados na tristeza e na alegria, quando se fecha o portal e não mais nossa ternura de plateia lhes zela o caminho. É mania perdoável. Imperdoável é estender nossa onipotência a quem respira fora da tela e da página, a quem existe de se pegar. Não é normal nem aceitável pressionar a sobrinha pelo príncipe que não chega, levantar ficha policial de todos os conhecidos para armar blind date para a prima, olhar enviesado para a cidadã que curte o restaurante chiquérrimo sem dar mostra de querer dividir mesa e conta. Não é feliz nem tolerável marcar um qualquer sujeito como solteirão a ser caçado, insinuar que o solteirão a ser caçado (se não se deixa caçar) é gay enrustido, esbravejar que o cafofo arrumadíssimo do neto precisa de um toque feminino. Não é patrimônio público, não é decisão coletiva, não é licitação pendente, não é arena aberta, não é júri popular o possível vácuo sentimental aparecido ou não aparecido no vizinho. Já muito e bem multiplicados que somos, caiu por terra há coisa de século o álibi xereta da perpetuação da espécie.

Encaremos. Tem gente cuja felicidade é, supremamente, conhecer e conhecer; queria que o mundo acabasse em biblioteca para morrer tornado traça, amassado entre meia dúzia de páginas perfumadas de amarelo. Tem gente com vocação espiritual não enjaulável em amor caseiro, e só plenificada no amor ágape que em tudo se espalha e a tudo desposa. Tem gente que quer cruzar o globo terrestre cabo-a-rabomente e se vê só amante de terras, dialetos, relevos, costumes. Tem gente que não nasceu com a simples paciência para negociações perenes de casal, e quer mais seguir sua vida pacata sem risco de aborrecer ou aborrecer-se. Tem gente que não tem as mesmas suas necessidades emocionais, igualzinho como se passa nas carências orgânicas: este ou aquele carrega anemia, um terceiro bota ferro pelo ladrão; um ou outro se resolve vegetariano, o do lado desmaia se todo dia não engolir um búfalo. Tem gente de tipos vários e gêneros infindos; inclusive, perceba-se, aquela gente que precisa sim acasalar com gente, mas ainda não é bastante gente para isso. Está em construção para maior conforto do usuário e não deve ser interrompida com adiantamentos de processo.

Amor não é lava a jato. Amor é consequência da limpeza benfeita. Enquanto um se confirma pouco, dois permanece (incuravelmente) de mais.

terça-feira, 12 de março de 2013

É preciso um bocado de tristeza

É melhor, sim, ser alegre que ser triste, e necessário fugir papa-leguasmente da melancolia que vai se engalfinhando n’alma. Assim eu ontem dizia. Mas tem outra verdade: uma dosezinha que seja de tristeza tem de entrar na massa de tudo, senão não se faz um samba não. Um quê de tristice, pequeno, discreto, hospedado na última esquina dos olhos, vai-nos amaciando feito martelo de carne, torna-nos porosos à presença da beleza no alheio e nos arredores. Que a alegria demasiado estridente reverbera em si mesma e engole o pano de fundo, além de assustar o delicado (o delicado é um cervo assustadiço). A tristeza comedida, não; pisa mansa, vestida de tanto silêncio que não espanta o cenário nem se basta sozinha. Olha respeitosamente para fora, como quem busca quebrar um jejum sem engasgar-se.   

Na ausência de tristeza não cresce poesia. Não cresce a mais inflamada poesia. Poema, se exalta, exalta sempre em detrimento de algo que pesa no coração por contraste; se elogia com ternura, necessariamente o faz de espírito ajoelhado, receoso de que todas aquelas perfeições saiam voando. Em vácuo de tristeza, amor não cresce. Amor é amigo do riso constante e inimigo da gargalhada perpétua; carece dessas seriedades e meias-luzes sem as quais o amado não se vê aconchegado em penas. Amor precisa da saudadinha lisonjeira, da despedida que aumenta a urgência, da contemplação tão mais venerante quanto maior a ciência de que o tempo tem ruins caprichos. Por que se (a)colhe a flor? pela refinada tristeza de sugá-la enquanto, brevissimamente, vive. Por que se fotografa a paisagem? pela aniquilante doçura de um dia revê-la encapsulada e saber que a volta não será como da primeira vez. Por que se abraça a literatura? pela sofisticação sem par de ter outras diferentes tristezas no colo, ser atacado por sofrimentos que não o atingiam, alcançado por inquietações que lhe escapavam, aprimorado por outras possibilidades que lhe vão chorar no ombro. Conhecer, amar, viajar, crescer – eis o fundamental invisível sem tristeza, porque sem tristeza subestima-se a envergadura do depois; sem tristeza leve e sorridente, não se faz o solo permeável a impressões definitivas; sem tristeza humilde e atenta, não se aprende a fragilidade dos saberes provisórios. Não se recolhem nem mimam dias. Não se valorizam, enquanto existem, alianças, rituais, cachoeiras, culturas milenares, o caminho ao altar, o último capítulo da novela, o Mickey, o réveillon, a Mona Lisa.

Sem tristeza (alguma), o ser não se ara. O ser não para.