terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Não é que eu não goste

Não é que eu não goste de criança, gente. Acho o conceito ótimo; acho que resultam em trouxinhas fofas e aveludadas, têm dedinhos deslumbrantes de minúsculos, pezinhos mastigáveis e o filé dos mignons: bochechas. Mas para mim a coisa fica nesses termos – um ímpeto de fofúria homicida e, depois, a devolução do pequeno ser humano (estraçalhado de ternura) aos responsáveis. Daí não passo, daí ninguém me tira. Todo o encanto do universo por um bebê gorducho não me levaria a produzir um para consumo próprio – até porque, se o bichinho conseguisse sobreviver a meus furores de amor, em pouquíssimo tempo já teria deixado de ser um bebê gorducho, cometendo a desagradável mania de crescer.

A verdade mais plana e mais prática é que criança fere pelo menos duas de minhas necessidades: a de privacidade e a de silêncio. Criança (com toda justiça, aliás, já que não tem culpa de ter sido jogada no mundo cheia de urgências) é naturalmente carente e barulhenta em suas descobertas, dá gritinhos felizes e desesperados, precisa ter por perto a quem perguntar, a quem pedir água, a quem entregar uma flor. Precisa elaborar suas angústias numa nuvem de decibéis, precisa chamar “mamãe!” 48 mil vezes por segundo – e ter como resposta a mesma paciência sorridente –, precisa às vezes acompanhar o genitor na última fronteira da intimidade que é o banheiro. Criança precisa de um tempo que se desvela, que se debruça, que se conforma em não terminar o livro nem ver a série quando há um vácuo de trabalho, que se entrega todo em brincadeiras que não escolheu, que finge se espantar de novo com as menores banalidades, que não faz cara de tédio porque está todo completo de êxtase. Não sou esse sorriso, esse tempo, essa paciência; sou o eu-passarinho que a muito custo se resigna às obrigações inevitáveis, que necessita tanto quanto a criança de ar e céu e luz (mesmo que no quintal da literatura), que tem também um amadurecimento mental em progresso destrambelhado. Sou incapaz de me ver roubando a um inocente o que desejo para mim mesma.

E, pois – não é que eu não goste –, mas prefiro ter todo o cuidado de não chamar nunca esse inocente, de nunca me arriscar a fazer uma vidinha para a qual eu não seria inteira. Me horroriza pensar que, por mea maxima culpa, uma qualquer criatura se suspeitasse indesejada, ainda que num deslize de voz ou de olhar, de sangue, de toque, de pensamento, de minuto. E existe, poderosa, a eloquência das vidas já feitas – dos amigos a quem damos menos que a fundamental atenção, dos alunos que transpiram a carência de um afeto adulto, da família (original) a quem furtamos o que foge ao tempo de convívio regulamentar. Existe um mundo já produzido de amores que escapam aos dedos, amores para os quais desde há muito me falta suficiência e mais decidida coragem. Docemente incompetente e exausta no jogo de relações já sendo jogado, não me vejo, em sã consciência, levando a coisa para os acréscimos.

Bochechas, entretanto, continuam bem-vindas. Para massacrá-las, não preciso mais que um intervalinho de almoço.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Claro enigma

“E a boca é apenas instrumento de segredos”, cantou um dos versos lindos e tristes de Cecília. Sim, é nosso instrumento de segredos. Por isso os tímidos são às vezes falastrões, anedotistas, quase espalhafatosos: cobrem de papel brilhante o cofre, colocam pompom e neon, strass e purpurina, para que o verdadeiro conteúdo a ninguém ocorra descobrir, ali encolhidinho no fundo do escuro. Atenção aos que falam, falam, falam, falam muito, falam ininterruptamente, falam até apaixonadamente de si e dos outros; é bem mania de quem se esconde. Manifestar-se demais é, não raro, um salvo-conduto para pensar e expor-se de menos – mas expor de menos não o vazio superficial (lamentavelmente, poucos têm vergonha de exibi-lo), e sim a fragilidade que dói muito doída e muito dentro, onde o que é fraco não tem vez.

A dor legitimamente enorme não canta, não brinca, não fala. A dor enorme não fala, inclusive, com o dono da dor, que a sabe ali mas não consegue estabelecer negociação. Que faz então o dono da dor? Sem possibilidade de diálogo interno, manda ver no externo, para testar a velharia de que quem-canta-seus-males-espanta (quem canta e quem conta: causo, fofoca, piada, vantagem). Mas não adianta dar muito acessório ao HD travado; o arquivo enterrado não abre, o programa oculto não roda, o vírus silencioso mastiga as entranhas e, eventualmente, põe sem andar o que andava. Enquanto não se mexe no núcleo que sangra, não há avanços, não há intentos – há só barulhos.

A excessiva necessidade do vizinho de espalhar suas compras aos ventos: medo, provavelmente. Medo de não ser mais nada que aquilo; medo do que lhe resta ser se a inveja alheia não o acompanhar; medo de admitir que preferia estar 17h na sweet home a voltar às 22h para o home theater. Sua amiga que exalta malucamente o atual namorado: medo, podes crer. Medo de ser tão idiota de paixão pelo infeliz anterior, medo de não merecer nunca a perfeição deste ser humano, medo de assumir para consigo que na verdade acha um saaaaco catar vaso no porão para aconchegar tanta flor, acha uóóó notar que a família dele sabe até o ciclo menstrual dela, acha o fiiiiiim aturar telefonema fofinho quando só se quer fazer maratona de Netflix no sofá. O aluno que tem 8.974.992 seguidores em cada rede e posta hashtag de 6,2 em 6,2 segundos – duas sílabas: me-do. Medo do que o silêncio da matutação pessoal lhe provoca, medo de se ver sozinhamente entregue aos próprios demônios, medo de repetir a rejeição que ainda não digeriu, medo de as memórias o abordarem por baixo da porta, medo de não ter assunto consigo mesmo. Quase sempre é um tipo de medo que nos rala, que não se encara, que se sufoca sob decibéis e decibéis de construção individual – sob camadas e camadas das automentiras sinceras que nos interessam. Medo de quem queremos ser. Medo de quem morreríamos ao ser de novo.

Falar, amigos, é nossa fantasia. Só não há carnaval que mate toda a cinza que vestimos da boca para dentro. 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

O que fazer quando se pisa numa concha

Morri de bem-querença ao ler a história publicada há três dias no site The Dodo. Uma clínica veterinária de Tel-Aviv, Israel, recebeu o pacientezinho mais insólito: o infortunado caracol que teve sua concha quebrada quando uma mulher acidentalmente o pisou. O mais maravilhoso é que a ré, em vez de largar à morte a pobre lesminha sem-teto (quantos se comoveriam com uma vida tão gosmenta?), foi bater com ela na tal clínica, em busca de conserto. E os doutores providenciaram fofamente o conserto com afeto e cola, pedacinho a pedacinho, mãos firmes e espertas para não deixar o grude escorrer concha adentro. Sucesso total na cirurgia. O paciente aprovou o resultado da plástica e não parece temer as semanas ou meses de recuperação: instalou-se pimpão em seu spa forrado de alfaces e legumes fresquinhos – com sorriso de antena a antena.

Quero crer que só psicopatas de grau 22 também não sorririam diante da notícia. E no entanto quantas conchas, tantas!, não estraçalhamos inconsideradamente pelo caminho, sem voltarmos com alívio e reparo? Quantas proteções – frágeis mas essenciais – não detonamos em nossa brutalidade sem tempo, sem papo, sem atenção? Quantas defesas não quebramos no mau sentido, baixando escudos sem devolvermos, em troca, alguma ternura de lã? Quantas autoestimas lentas, lentas não rachamos num chute, numa pisada, no peteleco de um comentário que a vítima não digere nem com boldo, mas que para a gente já virou brisa duas esquinas depois?

Não há clínica para reconstrução imediata de conchas emotivas, mas há delicadezas, há perdões, há retornos. Existe o abraço chorado do filho que nunca quis realmente dizer “te odeio”, existe o “me desculpa” público para a alfinetada também pública, o elogio enfático que corrige a crítica desastrada, a alegria espontânea do encontro que substitui um qualquer muxoxo, o remorso legítimo que apaga o sarcasmo momentâneo, a guerra de travesseiros que mata o clima de distância. Não existe médico que desfibrile um pequeno enfarte d’alma, mas há tato, empatia, buquê, chocolate, cafezinho, cartão de papel, cartão virtual, mão na mão, olho no olho, companhia pro estudo, apoio na hora de contar aos pais, presente escrito pelo autor preferido, dedicatória no presente escrito pelo autor preferido, baby-sittice voluntária, quebra-galhice na troca de turno, diálogo com silêncio, luar e vinho. Existe tudo que é cola para a pequena paz, mais ou menos forte, onde mora o outro; e existe tudo que é cola para a segurança interrompida entre o outro e nós. Pode cicatrizar de todo, pode não sumir nunca a sombra da arranhadura interna – mas a cola garante nossa funcionalidade, nossa estrutura possível, nosso mínimo de esqueleto, a não perda do ponto de fuga localizado em nossa solidão portátil.

Da próxima vez que suspeitar ter atropelado uma concha, volte. Socorra. Abrigue. Talvez o coração de sua vítima não tenha para onde ir. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O desejo pré-histórico

Segundo tio Freud, “a felicidade é a realização de um desejo pré-histórico da infância. É por isso que a riqueza contribui em tão pequena medida para ela. O dinheiro não é objeto de um desejo infantil”. Bem, tio Freud não disse isso exatamente ontem, mas li com a mesma admiração inédita de uma descoberta de cura, uma ultranovidade tecnológica. Como é que, embora sabendo essa verdade, nunca a tinha visto vestida desses termos? Como é que, com toda a superfície terrestre cantilenando que “dinheiro não traz felicidade”, não se repete também que é porque criança – nosso id eterno – está mais interessada em desenho, abraço e brigadeiro?

Esta é nossa pré-história emocional: querer a maciez de quem nos cuide, nos organize, nos providencie a certeza do fim da dor e da febre; querer morar onde se brinque e se corra, onde se estenda a mão e se acesse o verde e o vivo; querer a luz sem fantasmas, mas querer igualmente o bocadinho de fantasma e mistério que banhe as férias de amor aventureiro. Querer o tempo livre de inseguranças, limpo de obrigações que não sejam o trato de quem se adora – como o estonteante coelhinho de estimação. Querer o belo enfim, o especial, o só-nosso, e uma banana para o preço não existente: nosso clubinho made in sala com lençol e mesa, nosso trenó de tábua, nossa boneca de papel, nossa casa de embalagem de sabonete em que fica divando a boneca de papel. Tudo purissimamente simples, mais essência que objeto, menos matéria que sensação, mais símbolo que posse. A existência anterior ao monólito das etiquetas, à percepção das castas em forma de logotipo. A vida interior a.C. – antes do consumo.

Então crescemos; mesmo nosso resto de infância acaba poluído de marcas e grifes, de um grande implante de necessidades. Cada vez mais logo, mais cedo, parece que deixa de bastar o ar, o parque, o passeio sem rumo, o biscoito lanchado na varanda. Engolimos metas no café da manhã: é preciso manusear seu próprio drone, é fundamental dominar o novo game, é obrigatório bater selfie na loja bombada do shopping, é caso de vida ou morte mastigar 432 McLanches Felizes para completar a coleção. E a felicidade morre no nome dos McLanches. Não fomos planejados para tê-la; quem é feliz compra menos. Fomos educados ano a ano para seguir estafados e histéricos, exaustos e explorados, decepcionados e em desalento; afinal, nosso dever de casa não é (nos) realizar, é adquirir. Nenhum relatório alertava que vez ou outra, por acaso, seríamos gente.

E já que o somos com certa inevitabilidade, a essência volta, chora, fica. Chafurdamos nos paraísos artificiais o quanto nossa resistência aguenta, porém aquele ser que deixa as pantufas ao lado da cama, à meia-noite, entra em si com pés e alma descalços, e se encolhe na pré-história pessoal sobre o útero da madrugada. Ali somos nós, os de berço, os de fábrica: os que continuam querendo a maciez de quem nos cuide – o amigo eterno, o colo do amor certeiro, a gratidão do filho – ; os que continuam querendo agarrar a saúde definitiva; os que continuam querendo sítios, naturezas, viagens, bosques e quintais, querendo a paz onde não se estenda a mão e se acesse o cinza e o fastio; os que continuam querendo sol da manhã na sala e descobertas literárias na poeira do sótão; os que continuam querendo ócios e liberdades, mas também vidinhas adoradas para sufocar de amor. Ali sem pantufas, descalços em nós, ainda somos o mais primitivo que nos pulsa nas artérias – desde o primeiro útero. Já não somos a criança, mas somos nossa fiel linha melódica em outro (nem sempre melhor) arranjo.

Em geral evoluímos, sim, e sou constante em defendê-lo; que evoluamos, no entanto, sem soterrar nem destruir os fósseis que nos explicam. Nós o descobrimos e controlamos na pré-história – mas viramos brasa morta se não alimentamos nosso estonteante fogo de estimação. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Sem quilômetros por ora

Corre que a promoção termina hoje! Corre que são os últimos dias! Corre que todo mundo já está na fila! Corre que quase tudo de ingresso já foi vendido! Corre, infeliz da cidade, morador exasperado desse formigueiro de pedra, elemento involuntário da maratona em que o nascimento nos inscreve; corre, o concorrente vai acordar mais cedo, o rival vai pensar antes, o competidor vai bater mais metas e tomar mais café e acertar mais questões e recolher mais diplomas e viajar mais lugares e ter mais filhos (gorduchos, vermelhos, bochechudos) – antes, sempre antes. Corre, vai ficar nesse segundo lugar absurdo? vai sentar enquanto os outros estão patinando? vai ler coisa mofada enquanto a galera já domina aparelhagem de astronauta? Corre, hamster sem reflexão, coelho da Alice, bichinho de Pavlov: condenado, constante, urgente, imediato. Corre que não te alcanço; não quero, não tento, nem peço zap (inclusive por eu não ter zap) quando você supostamente chegar.

Eu fico. Não sou mãe, não sou médica, ninguém tem emergência de mim. Fico na leitura do livro amarelamente editado em 1936, folhas que dão alergia e exalam naftalina – serenidade bem analógica. Fico com a parada pra ver a série querida em plena noite útil, com a desobrigação do fim de semana. Fico com a desnecessidade liberta de checar Face por mais de cinco minutos diários, se tantos, se todos; fico principalmente com a inexistência de internet no celular – precisão de acessar o quê? se tem o livro lento, amarelo, de fala oitocentista sorrindo na bolsa? Fico com o vagar de descobrir flor que ninguém olha, de tentar aproximação com borboleta, de rir sozinha da bobeira dos anúncios, de meter o nariz na varanda para sugar a manhã nascendo orvalhosa, de dar uns pontinhos tortos mas firmes na saia que descosturou, de lavar à mão as roupas de mais afeto, de tirar foto de grafite urbano para usar como tela de celular, de pausar no hortifrúti para farejar temperos, de cumprimentar o fruteiro que já é migo de infância, de caçar possibilidades novas de lanchinho, de descobrir revistas nunca dantes suspeitadas, de morrer de profundos amores com vídeo de coalas, gatildos, porquinhos e outras avalanches de fofura explícita. Fico com a mastigação demorada, sem eletrônicos à mesa; fico com o expediente cheio de preciosos vácuos; fico com o passeio de bonde, a abolição do relógio em livraria, o cinema sem contatos fora da sala, a trufa amiga no meio da tarde, o olhar vadio na paisagem, o desroteiro, a curiosidade, a flânerie.

Não sou e não me quero Ferrari, adversária, refém. Nem sou Roma de se fazer num dia, nem mundo de ser (metaforicamente) feito em sete. Viver demora, é longo, é largo, é pleno de detalhes, balofo de incompreensões a destrinchar, de conflitos a digerir, de belezas a absorver. “Mas você topa ficar para trás?” Querer, não quero – mas sem neuras se for o lugar do silêncio, do maior espaço, da companhia de doces retardatários que se distraíram seguindo uma libélula ou tricotando um casaquinho.

Levo fatalmente comigo minha adversária real. Se eu me passar a perna para ver se suplanto o inimigo fictício – já estarei vencida.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Quem éramos

A amiga posta no Face uma foto risonha, deliciosa de seu suculento bebê de quatro meses. Diz que não se lembra de sua vida sem aquela ternura, questiona como pode ter vivido sem aquele amor. Tudo que não é verbal no mundo vem plasmado em poucos termos seus: “parece que ele esteve comigo desde sempre”.

E não esteve? meu coração assopra.

Não, não acredito em reencarnação. Falo dessa misteriosa e já tão esquecida pessoa que éramos antes de sabermos o amor de agora. Soa impossível lidar com a memória de uma vida em que não tínhamos nosso vínculo mais natural e definitivo – e, até porque não pretendo filhos, nem me limito aqui ao amor do sangue, ao amor de uma geração que cuida de outra; cito a grandeza em si do encontro especial, de qualquer ligação tão sem fim que parece não ter tido início. Pode ser (meu caso) o amor do cúmplice de vida, pode ser o da irmandade indissolúvel que se reconhece no amigo repentino, pode ser sim o filho que vem ou não vem das entranhas, pode ser a afinidade quase sobrenatural de quem é gêmeo no trabalho, pode ser o descobrimento de um escritor-guru-guia-filósofo que lhe causou uma tempestade, pode ser a tempestade mesma – ou seja: o esbarrão decisivo de nós para conosco. Tanto isso foi um Equador em nossa cronologia que já suspeitamos nunca ter havido outro hemisfério. Pois houve: houve aquele tempo em que a gente, sem saber, arrumava a casa para a adivinhada visita.

Quem éramos antes de amar quem amamos? Éramos o embrião de hoje, a fruta dentro da casca, como diria Machado. Éramos o salão de festa que amadurecia e se aprontava, éramos a decoração sendo feita, o quarto sendo formado para o inquilino que não sabíamos ainda quem era, mas que pressagiávamos como seria. Éramos a pessoa que primeiro se conhecia, para finalmente vir a reconhecer. Éramos não o que somos, porém o ensaio, as fundações, os andaimes, as possibilidades, os sonhos, as apostas, o foreshadowing das cenas futuras, o spoiler mais ou menos detalhado do agora, mas sempre um spoiler ambulante. Tínhamos vida? prestava? sim e sim: sem aqueles anos iniciais, seríamos capengas, não estaríamos preparados. Cada solidão inquieta nos fazia atinar com as características que preencheriam corretamente as lacunas. Cada situação vivida ou observada nos punha mais atentos ao que nos convinha. Cada pedaço de incompletude foi essencial para decifrarmos o que se aproxima do completo, e que não receberá o último bocado enquanto vivermos. Éramos um puzzle recém-iniciado; por causa das margens e dos primeiros traços montados, pudemos em certo momento receber nossas peças centrais. Aqui estamos, imagem principal já delineada, e ainda e sempre mais aptos para maior beleza, para o quadro total.

Quem éramos? Alguém que nos apresentou o amor de toda uma vida. Querido eu do passado, você fez certo; te devo muitas. Te instalo quente e confortável na lembrança e prometo casa, comida e pijaminha da gratidão.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Ajuda o Sol

Era o que dizia aquele hai-kai de Millôr: “Tem cautela;/ Ajuda o Sol/ Com uma vela”. Mandou bem, Millôr. Não falta no mundo quem desperdice sua abundância de sorte, quem brinque de dançar no abismo, quem abuse de seu potinho de ouro imaterial (ou material); é gente que talvez não se acostume nunca a merecer, e, para se livrar de merecer, gasta seu quinhão de coisa boa na primeira esquina. Gente que não tolera a felicidade que lhe queima as mãos, gente de alma tão culpada em ter que se apressa em garantir sua impossibilidade de manter. Ê coração estranho! esse que se nega à autogenerosidade de se dar uma vela, porque já há muito se negou à própria fartura do sol.

Olhe, coração esquisito mas não raro: deixe-se de pudor besta; descarte o orgulho que mora até na baixa autoestima, até na desesperança. Pela vaidade reversa de não conseguir lidar com luz, não vire breu. Porque há desses, os que fazem chantagem emocional com o mundo: não é minha praia ser astro-rei, então você vai ver, não vou ser nada, vou engolir tudo, buraco-negromente. É possivelmente mais fácil, menos trabalhoso, mais marcante, mas não é lógico. Se o muito nos pesa em excesso ou se não despenca do céu em nossa cocuruto, continua sendo melhor o mais ou menos – e mesmo o pouco – do que o coisa nenhuma.

Ajude o Sol, coração esdrúxulo. Se a profissão desejada se mostrou inviável, escancare outra janela, abra outra história potencialmente luminosa. Se sofreu um naufrágio amoroso, arregale a atenção para outros faróis. Se carreira e namoro brilham, mas ainda assim existe uma saudade tremenda do que nunca foi, geradores de energia nova não faltam: a viagem inusitada, o hobby lucrativo, o curso impensado, o trabalho voluntário. Se há muito não surge na testa a lampadazinha de um bom plano, se há anos se perdeu a clareza de todos os porquês, se faz séculos desde a última faísca do arrebatamento de viver – sempre se pode achar em outra página uma melhor e maior ilustração, um jovem insight, um pedacinho de lucidez não previsto, não suposto e nem por isso menos fundamental.

Sob a força do meio-dia, debaixo de luar ou de eclipse: ajude-se, coração cismado. Não precisa ser Sol, que é muita carga, mas se permita uma lanterninha no mínimo, para se conduzir ao assento. Tem muita maneira não frankstênica neste mundo para a gente se dar um impulso – se dar um clique – se dar à luz.