quarta-feira, 22 de março de 2017

Bandido bom

Realmente não sei o que dá (se é que dá alguma coisa) na cabeça de quem defende que bandido bom é bandido morto. Considerando o detalhe de que o bandido por coincidência é gente, equivale, consequentemente, a dizer que gente boa é gente morta. E não me venha um rebotalho da SS “argumentar” que quem mata, estupra, rouba não é gente – até porque, se não fosse, não estaria submetido aos sistemas judiciário e penal, e por conseguinte não poderia ser julgado por crimes, que são prerrogativa, adivinha? de gente. Ainda que não se encaixassem na categoria humana, criminosos teriam sua organização protetora, como criaturas móveis e ativas que são. Mas não vai rolar fuga do óbvio, amados: bandidos são muitomente da nossa espécie, e a sociedade vai ter de se conformar em fazer o dever de casa lidando com patologias, distúrbios, destrambelhamentos de vida, psicopatias e disfunções biográficas demasiadamente humanos.

“Ah, você não diria isso se tivesse uma pessoa amada atacada por criminosos.” Em primeiro lugar: a classificação de seres como Homo sapiens independe de casos e percepções individuais; ou são, ou não são. Ninguém será humano até o meio-dia porque nunca me fez nada e, meio-dia e sete, já terá sido rebaixado ao reino monera por ter me causado danos. Em segundo lugar, por mais que seja perfeitamente natural e cabível revoltar-se ao ver alguém próximo ser atingido, quem se revolta e (por um momento) saliva por vingança é nossa parte selvagem, irracional, puro id e puro instinto; quem grita em nós é a besta, que, se completamente solta, não duvido fosse capaz de brutalidades até piores em retribuição. Mas não somos a besta – porque não queremos, devemos nem escolhemos sê-la; somos basicamente nossa porção racional e civilizada, que geme, chora, clama, porém não devolve o mal ao mal por saber que não é inteligente aumentá-lo. Em terceiro: quem “acusa” o outro de ser leniente por não ter tido uma pessoa amada atacada por criminosos, bem – nem sempre teve, por sua vez, uma pessoa amada atacada por criminosos. E é no mínimo feião, além de bárbaro e hipócrita, dar vazão à sua bloodlust travestida de justiça (que seria ao menos compreensível, embora não aceitável, se houvesse dor pessoal no meio) agourando uma dor pessoal aos demais. Desejar a chancela de um suposto bem a partir de um mal alheio me parece, sei lá. Até coisa de bandido.

Então comparo os justiceiros aos próprios criminosos? Sim, e com os primeiros em desvantagem. Afinal um fora da lei, como a expressão mesma indica, saiu da lei e quebrou-a, desreconhece sua obrigação de segui-la. Se fizermos movimento igual – nós que temos estudo, esclarecimento, vida equilibrada, boa família, boas influências –, não somos iguais: somos piores. Se com mais iluminação mental também matamos, descemos a um nível inferior aos desafetos. Não há nisso a menor tolerância com o crime: há a simples constatação de que o crime não vai embora se todos nós o cometermos, mas de que, ao contrário, ele só começa a se desvanecer se houver adultos na sala suficientemente lúcidos para o tratarem. Da última vez que vi, não se curava uma epidemia deixando todos doentes; é fundamental que haja os saudáveis, que haja os sóbrios, os resilientes, os pesquisadores, os médicos, os cuidadores. Os cuidadosos. Os amorosos. Os que permanecem de pé.

E não me venham com “ah, então leva esses marginaizinhos pra casa”. Dizer isso é chilique de criança incapaz de raciocinar que, se alguém sensatamente afirma que um remédio perigoso de fundo de quintal não é a cura para o câncer, isso não significa que esse alguém seja automaticamente responsável por assumir o paciente e descobrir a cura do câncer. Sim, as crianças física e moralmente abandonadas que por aí pivetam, os adolescentes abortados pelo sistema que perseguem finalidades retorcidas, carecem de uma casa no pleno verbete, casa que não seja mera fundação ou recolhimento, casa não de depósito – casa de família e abraço e dever da escola e devidos puxões de orelha, acompanhados do bolo que está no forno. Se não tenho espaço, tempo, formação ou disponibilidade emocional para ser essa casa, não quer dizer que eu seja, ao contrário, a rejeição, a pedrada e o chicote. Há extensões múltiplas de vocação e jeitos múltiplos de cuidar: pregar empatia, educar alunos, sustentar causas, condenar revanchismo, argumentar contra a sanha do vigilantismo. O fazer melhor é o fazer concreto, mas – Platão que me desculpe – ideias são bem concretas: são elas a gasolina que empurra a massa, que a orienta à civilidade ou à selvageria. São elas a receita; alguns de nós (em certo caso) somos melhores ingredientes; outros de nós (em diferente caso) são boas mãos.

É necessária a força de toda uma aldeia para tornar um bandido bom. Para matá-lo, basta a fraqueza de um só preguiçoso que ache mais cômodo nivelar-nos por baixo.

terça-feira, 21 de março de 2017

Preguiça de realidade

Hoje é um daqueles dias: preguiça de realidade. Não quero dizer que esteja ainda mais desiludida ou enraivecida com os mais recentes estupros ao Brasil (estou tão desiludida e enraivecida como sempre), nem que deseje me afastar dos noticiários mais do que de costume (desejo me afastar dos noticiários com a persistência rotineira). É, em todos os sentidos, mais prosaico: a realidade mais pratiquinha, mais imediata que me chama não está sendo convincente; estou embotada, apalermada diante do cesto gordo de roupa suja, das redações que solicitam correção, do bolo de notas fiscais que já anda fazendo rave na zoeira da bolsa, das provas a serem malevolamente feitas, dos projetos de aula a serem averiguados, das toalhas a serem engavetadas. Hoje quero engavetar tudo, mas na metáfora. Quero ignorar – mais que isso; nada posso além de ignorar, já que o olhar está exausto, zumbizado, perde o foco sozinho, escorrega para o nada, parado e inútil. Por quê? Porque há um romance a ser lido, grande, suculento, e não muitas vezes acontece de a paixão por quem habita a história ser tão profunda a ponto de nossa bateria mental ali se dissipar.

Agarrei o Norte e Sul de Elizabeth Gaskell – escritora inglesa dos mil e oitocentos, BFF de Charlotte Brontë – e fui tão ou mais agarrada por ele, especialmente pelo amor febril mas até então desesperançado de John Thornton. É fato: se nos apaixonamos pelo herói, não é que isso simplesmente nos leve a ignorar tudo o mais e sucumbir à história; é sinal, sim, de que a história é bem contada, ou do contrário não haveria sofrimento artificial que nos seduzisse. Temo pelo terço final da narração, uma vez que a autora se desculpa de antemão pelo desfecho meio precipitado (produzido originalmente para urgências de folhetim), porém tenho passado deliciosos dois terços junto ao pensamento cristalino de quem descreve tons emocionais com precisão, deita em palavras puras os cantinhos que nos povoam. Nas frases de Mrs. Gaskell raramente me distraio, dificilmente careço relê-las, porque são limpas logo à primeira vista e me convidam à frente em vez de servir de âncora. A desvantagem é que todo o interesse prático da vida se esvai, a mente consciente entra em motim contra os afazeres que assombram; pouco somos nós e estamos em nós num affair literário assim, doce, explosivo, desagradavelmente capaz de esfumaçar todos os prazos reais.

Sei da bagunça funcional que isso acarreta, mas hoje é Dia dos Namorados simulado, como acontece todos os dias em que um entusiasmo artístico nos dementa. Hoje – no restinho de hoje – recuso chamadas, não brinco no Face, faço careta pras decisões que peçam mais de 11 neurônios, não escolho nem a cor da próxima esponja da cozinha. Hoje quero me espreguiçar nessa languidez de férias, nesse intervalo sonolento mas ardente, porque arde de afetos em outras eras.

Hoje não haja verdades. Só as que se esqueceram de acontecer.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Descriando um clima

Quem é professor se digladia ferozmente dia sim, dia again com os malditos celulares de alunos – batalha desigual e inglória, já que somos os portadores de orações coordenadas, de tabelas periódicas, e eles dão de presente facebookices e o reino da zaplândia. Brigamos, enforcamos, defenestramos, mas em off não esquecemos que são crianças, são adolescentes, e afinal não estão em sala exatamente por gosto. O que REALMENTE não consigo entender é marmanjo velho de guerra PAGAR para se divertir no cinema – pagar para se DIVERTIR no cinema – e continuar futucando o aparelhinho dos infernos durante toda a sessão, checando postagens de vida ou morte, digitando como um possesso, resolvendo tretas de família, jogando a luzinha do capiroto na nossa cara. Por que pitombas um cidadão morre em trinta reais para colher o filme ali fresquinho, gigante, som surround, e “assiste” com a mesma negligência de uma Temperatura Máxima à mesa com a filharada? Por que comparece voluntariamente ao lazer que não o convocou e sabota os motivos da própria presença? Por que corre a uns braços e não se entrega? Por que busca a experiência de imersão e não imerge?

Barulhinhos de mastigação, bala e pipoca podem nos desviar de uma ou outra fala, mas em geral o corpo, em estado cinematográfico, consegue ignorá-los e seguir o lance, porque fazem parte da mística do ambiente e o preenchem como fantasmas da sala. Luzinhas de celular, não. Batem no olho (ainda mais com a atual configuração das cadeiras em cascata) e o disputam, deslocam, irritam. Pior dos piores: trazem a sugestão do mundo de fora para o infinito ficcional de dentro, o que mais ou menos equivale a um alarme de carro ensandecido ou a batidas debochadas na porta quando se está consumando o amor. Ir ao cinema é ir ao motel com a arte; pendurar-se no smartphone é se debruçar na janela e ficar namorando a vista em vez de se dar à companhia escolhida. O fato de alguém se empenhar em fugir da própria fuga me traz mil febres.

Mas não jaz no celular o único ricardão desses atuais amores. Há a mania recente de expulsar a plateia com o acender intempestivo da sala, mesmo quando há cenas pós-créditos (que 87% do auditório não veem, já que entendem a primeira lâmpada acesa como sinal de estouro da boiada). Um amadorismo dos horrores vindo da própria equipe que deveria saber: não se arranca assim alguém de um filme, não se sobe alguém à tona sem digestão, despedida, período de velório. Não demora nada e o sacratíssimo templo do cinema vai danar de dividir a tela entre créditos de um filme e trailers de outros, como já fazem os canais de assinatura com pressa odienta e sensibilidade de jiló. Mal posso descrever o ÓDIO de ver subirem as letrinhas para inglês mutante ver (só um X-pectador para lhes acompanhar a rapidez e o nanotamanho), enquanto a trilha daquilo a que se acabou de assistir, com a música que deveria alinhavar a história na gente, desaparece sob a narração das próximas atrações. Alguns canais chegam ao estapafúrdio: estragam ao mesmo tempo a despedida de uma produção e o início da seguinte, porque, com o furor de quem vai tirar a avó da forca, deixam os programas simultâneos por minutos inteiros. As razões da corrida maluca, não sei. Sei que morro de desgosto e boicoto solenemente os profanadores.

Um passarinho quase me diz que os promotores dessa política nunca amaram, nunca se agarraram na promessa de um restinho de tempo, de um segurar de dedos que se rompe demoroso, de um voltar de cabeça 826 vezes repetido, de um aceninho mil vezes reiterado no lento acostumar com a distância. Relação de duas horas com uma terra, um cenário, uma gente, um enredo aos quais (supostamente) pertencemos exclusivos é um fazer de amor, gera apego, gera grude e demanda tato e doçura para ser desfeita, pelo menos até o próximo encontro. Particularmente, minha maior tendência ao ver o filme anterior assim invadido é desligar a tevê de imediato, para preservar a memória; não curto sequer assistir a dois no mesmo dia, quanto mais ver um entrando no quarto enquanto o outro está saindo, tipo Hilda Furacão. Existe ternura não comercial na arte, paixão, afeto irrelogiável. Existe monogamia nessas digestões d’alma. Não há maratona. Não há medalha, medalha, medalha.

Quem insulta a inteireza da cine-experiência não vale o cheiro de pipoca que respira.

domingo, 19 de março de 2017

Em suspenso

Uma amiga e ex-aluna já facebookeou que gosta dos tempos em suspenso – aqueles períodos de transição como o do metrô, por exemplo –, em que a gente respira e espera. Devo confessar que eu também. Muitos se aborrecem com os minutos “roubados” ao trabalho, se chateiam com a estação que não chega nunca, sacodem a perna compulsiva na fila do banco, enlouquecem no engarrafamento. Euzilda, a não ser que tenha horário apertado me aguardando (cinema ou início de aula, basicamente), permaneço de boas; adoro ser obrigada a “não fazer nada” – coisa que na verdade não existe, como eu ontem comentava, e só significa não fazer nada do trabalho, não fazer nada obrigatório e/ou mentalmente exaustivo. Não catuco celular, nem nisso vejo graça, mas me deem um livro e me esqueçam dentro dele. Fico ali placidamente depositada na nuvem, sem pressa nem questão de pousar em hardware.

Nesse tempo em suspenso no transporte, na sessão de físio, na sala de espera, temos a desculpa perfeita para não estar fazendo por estarmos a caminho de fazer: estamos chegando, acabando, indo. Como é bom nos recolher ao gerúndio e torná-lo nosso muro de Troia, a fortaleza onde não penetra a produtividade insana. Sem internet no celular (celular aliás desligado), sem computador para digitações ou pesquisas de prova, sem o material didático para consulta, sem chance de pagar ou comprar ou adiantar coisas, sem geografia que permita lavar roupa, que resta? A mim, um santuário de libertação profissional e cronológica; aos outros, o deixar-me ali, inacessível na paz. E que um transeunte ou colega de vagão não tente iniciar conversa, porque o tempo em suspenso são férias também de social: afundo os olhos afrontosamente no livro, ou fecho os olhos desencorajadoramente e afundo em mim. Até ser intimada pela aterrissagem, não volto à tona.

Deve parecer que não gosto de nada obrigatório, e não gosto mesmo, tanto quanto o restante da espécie – só não tenho problema em dizê-lo, nem preocupação com a crítica dos cumprimento-de-metaholics, nem tendências para síndrome de Estocolmo. Posso assumir com limpa franqueza que não gosto de obrigações porque cumpro todas, todinhas. So, ganho passe livre para o que sinto não ser da conta de ninguém. Adoro, sim, que falte luz (com a condição de não estar um calor senegalês) e que isso me sequestre de uma tarefa não verdadeiramente urgente; adoro que o filme atrase um pouquinho e eu possa aproveitar o abraço da luz apagada sem qualquer esforço mental; a-do-ro que minha senha custe um bocadito a ser chamada e eu consiga devorar mais um ou dois capítulos; adoro que o trânsito alongue um tantinho a carona e eu ganhe mais uns minutos de trilha sonora com vida passando pela janela. Ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sossego porque já corri demais. Quem quiser me alcançar que pare um pouco – não tenho mais fôlego nem índole para a São Silvestre perpétua.

Agora muitinho com licença, que meu programinha já dá mostras de começo na tevê e eu devo me sujeitar à condução coercitiva até a sala. Dentro de instantes, assim que eu for constrangida a ficar livre, voltaremos à nossa perturbação normal.

sábado, 18 de março de 2017

Vagando

Todo mundo pergunta o que a gente faz nas horas vagas, e o impulso é forte de responder: mas como posso fazer alguma coisa, se são vagas? Implicância; sei bem que “hora vaga” é o que se supõe existir fora do tempo oficial de trabalho, o que é exclusivamente instalado no campo do prazer e/ou – porque não remunerado – provavelmente inútil. Se é esse o critério, lamento informar, mas não tenho horas vagas. Não estou em hora vaga enquanto vejo Criminal minds, porque as células cinzentas se sentam todas para aprender meandros da alma e estruturas de roteiro. Não estou em hora vaga quando me deito com um romance do século XIX, por motivos idênticos, ainda que com manifestações opostas. Não estou em hora vaga quando vou ao cinema (é aula do mesmo jeito), passeio no shopping (acha que não fico minhocando enquanto observo placas, gestos, frases, costumes?) ou na praia (idem, ibidem). Não estou em hora vaga quando me recosto no sofá, já que possivelmente rumino projetos e dúvidas; não estou em hora vaga quando corro os dedinhos no Face, que tem sido fonte balofa de informação; não estou em hora vaga quando durmo sequer, visto que o subconsciente continua loading, rodando programas em segundo plano para melhor servi-lo. Desconheço o conceito de “não fazer nada” ou de achar qualquer inutilidade em trechos do dia. Não ganho por hora-sonho, é verdade, mas a hora-sonho está para a efetividade da hora-aula assim como a construção da nuvem está para o toró.

Então ninguém tem tempo vago? Olhem, queridos: só creio que um ser humano esteja absolutamente vazio de ações no coma e na morte – e mesmo assim, quanto ao primeiro, não tenho certeza. Sei que, nestas eras de culto à produtividade e heretização do ócio, ser chamado vagabundo é o cúmulo da ferida na honra (há coisa de duzentos anos, daria duelo de morte), mas os supostos vagabundos se tranquilizem com o segredinho que a gente só divide com os parças: nenhum de nós está desocupado. Pode estar bem ou mal ocupado; desocupado não está. Brincando a criança elabora seus terrores, ouvindo música acessamos nossas feras e administramos afinação e ritmo, debruçando na janela pescamos uma bem-aventurança no cheiro da umidade fresquinha, boiando no mar voltamos ao estado de comunhão primitiva. Sim, há o tempo que desensina em vez de construir – tempo de fofoca, de programa de pegadinha, de anedota com preconceito, de hinos de incitação a tantas violências, de briga, de bullying, de páginas de lenda urbana ou apologia de ódio –, por isso mesmo devemos ser gente que se vigia: ou evoluímos ou involuímos, não fomos feitos para permanecer, para algum lado as horas nos levam e nos escoam. Somos cronicamente incapazes de não aprender ou desaprender a cada braçada do ponteiro.

De mim para mim, abençoo solenemente essas falsas horas vagas, em que o emergencial do trabalho não nos impede de ser o que seríamos nas CNTP. O trabalho nos forma e sustenta, mas é talvez o que mais nos mascara – no íntimo e no recíproco. Dele nos vem um ser de contingência, uma natureza implantada e de adoção, que nos rouba pedaços do percurso lento, elaborado, de nos transformarmos em quem já somos.

Trabalhar pelo cartão de ponto e pela linha de produção nos desgasta. Trabalhar-nos ponto a ponto e nas entrelinhas nos desbasta. Nos refina. Nos aperfeiçoa. Nosso lucro pessoal se amontoa num alguém que construímos devagar.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Fora da asa

Eu há pouco falava de liberdades e voos, e lembrei aqui que Manoel de Barros, o magnífico, soltou: “Poesia é voar fora da asa”. Quem está em condição de poesia já veio condenado de fábrica a se transbordar, e sofrer quase sempre, porque no transbordar vem normalmente o explodir. O poeta (que nem toda vez escreve; às vezes é simplesmente quem tem olhos de ler, é um poliglota passivo da beleza) nasce com o espírito trinta números maior que o corpo, e não à toa enlouquece, entristece, anoitece, nesse abafamento sem fim de um coração que não cabe. Os destinados à poesia são necessariamente claustrofóbicos do mundo, têm uma bronquite estranha de quem puxa o ar da vida e ele não entra suficiente; procuras de poeta são excessivas para a oferta pouca do universo – a asa, por mais que cresça, pede um voo maior. E lá vai o poeta, sufocado e rarefeito, com pulmões que ao mesmo tempo solicitam e não comportam.

O mundo não foi feito para o poeta; o poeta carece de mundos. Outros quintais, de início; outros países, em sequência; outras dimensões, em definitivo – e, como outras dimensões não dão sopa no armazém, o aprisionado da poesia tem de se haver com ficções: livros, filmes, construções próprias e alheias. Não bastam as gentes existentes deste lado de cá da realidade, é urgente derrubar todos os muros, liberar todos os infinitos possíveis, desenclausurar conceitos que (o poeta nunca entenderá) tantos teimam em algemar e atirar no fundo do camburão, quando serviriam tão mais lindamente como sal da terra e luz do mundo. A lógica de quem nasceu para desprezar o (só) material e não achar suficiência no etéreo é pura, é translúcida: tudo que é belo deve ser autorizado a expandir-se, não ser temido, não ser desdenhado. Ao poeta, eternamente estrangulado de vácuos, endoidecem os desperdícios de ar.

Ser dependente de poesia – não somente em versos, mas na mais larga escala – é conhecer exclusivamente a fome: tudo lhe cai bem e nada a sacia. Tudo é irmão do poeta sôfrego e nem o abraço inteiro da humanidade o preenche. Tudo é visível à sua gula e todo o conhecimento do que se move sobre a terra não o abarrota. A falta humana tem poucas vias de cura, a falta do poeta é triplamente perniciosa: seu buraco negro personalizado o mastiga, o exige, o massacra, e desse tormento de autodeglutição sobra apenas uma fênix de desejo. Morre o poeta, o desejo do poeta não morre – supera-o e lhe sobrevive. Seu amor fluido é a respiração que finalmente extrapola os pulmões, o oxigênio que transcende a gaiola da necessidade de oxigênio, o voo grande demais para a asa e que paira sobre a asa. O poeta é o desejo vivo; o desejo é o poeta morto. Ninguém, ao estalar, se mistura melhor à essência da natureza viva do que aquele que só poderia contê-la ou nela ser contido. 

Poesia é ser mais do que se está, saber mais do que se aprendeu, enxergar melhor do que se vê. Voar fora da asa. Voltar como quem foge de casa.

quinta-feira, 16 de março de 2017

À espera


Estou absolutamente devastada de ternura com a história que acabei de ler – outra daquelas. Uma cozinheira chamada Ginger Prouse passava todos os dias pela esquina das ruas Nasa Road e El Camino Real (Kemah, Texas) e via um jovem sem-teto parado no mesmíssimo lugar, por três anos, independentemente dos maus humores do clima. Até que Ginger, consumida por velha dúvida, resolveu enfim abordar o rapaz e perguntar-lhe por que não deixava nunca o posto, por que não buscava abrigo que o guardasse do tempo. Victor Hubbard (este o nome do moço) disse que sua mãe o abandonara, que tinha um transtorno mental, mas casa não tinha; e que não se movia dali porque aguardava o retorno da mãe no último lugar onde a vira. Só nessa resposta eu já teria caído durinha ou ficado paralisada de comoção. Ginger não ficou.

Minha mais recente heroína criou uma página no Face contando a história de Victor, organizou um grupinho de voluntários que doaram roupas ao sem-teto e lavaram as dele – além de lhe emprestarem banheiros, chuveiros e tempo destinado a lhe preparar quitutes –, carregou ela própria o rapaz para dormir em sua casa, levou-o ao médico especializado em saúde mental, arrecadou dinheiro online para que o amigo se restabelecesse (mais de 15 mil dólares já foram angariados), providenciou trabalho para ele como seu ajudante de cozinha. E o toque mais fofíssimo: por causa das publicações no Face, Victor conseguiu entrar em contato com a família e reencontrar a mãe, embora o foco de sua afeição tenha muito justamente se voltado para a amiga Ginger – a quem considera uma bênção que salvou sua vida. Impossível discordar.

Igualmente impossível não acolher Ginger no peito como pessoa nossa, mesmo ao longe, separadas por léguas de sangue, quilômetros de genes. Abençoados os anjos que olham e veem o(s) que todo dia olhamos e não vemos. O mais bonito é que a sra. Prouse escapou a nosso método preguiçoso de só ajudar o que se move, o que busca, o que pede, o que estende a mão; Ginger se fez chegar para quem apenas esperava, porque os que apenas esperam pode ser que o façam por desconhecerem qualquer começo, qualquer alternativa. Não é que Victor se desejasse na imobilidade de não procurar emprego ou casa, simplesmente não tinha estrada, não tinha fio de meada a que se agarrar, tinha de sua somente a memória do que perdera; sua posse não incluía um futuro que não sabia que acharia, o passado era seu único endereço. Mas há também (tem de haver, senão o mundo pode definitivamente abrir falência) asinhas que velam os perdidos, portas que convidam os que não batem, zelos que encontram os que não procuram. Tem de haver: para sapatear na cara do pragmatismo que o amor não é meritocrático, não é funcional nem capitalista nem recebe currículo, não faz prova de admissão nem exige dinheiro de ingresso, não checa antecedentes nem justifica a indiferença mandando vagabundo trabalhar. Amor é o milagre gratuito que nos confunde e desmoraliza, é comunista, barbudo, miçangueiro, desordeiro, súbito, implacavelmente livre e pouco dado a cartões de ponto, irritantemente desinteressado, ilógico, debochado de nossas lógicas, regras e melindres. Amor é delicado com idiossincrasias mas impaciente com burocracias, e se recusa a sentar esperando quando se sabe esperado.

Quem se precisa amado, tão urgentemente que dói em todas as fomes, é justamente quem tem a prerrogativa da espera. Aqueles que não têm cacife para exigir do outro o fim de uma paralisia gêmea da nossa – somos exatamente nós.