quinta-feira, 13 de junho de 2013

Onde pôr

Numa das cenas de narrativa estonteante que abrem A duquesa de Langeais, Balzac nos faz ouvir a febre musical da mulher-título. A cuja se esconde num convento e, tendo só o órgão da capela para servir de correio com o ex-amante, de repente entorna fogo e paixão no teclado e assusta de prazer a assembleia: “O francês adivinhou que, naquele deserto, naquele rochedo cercado pelo mar, a religiosa se apoderara da música para nela pôr o excesso de amor que a devorava”. É dos beijos mais sidos da literatura, entre os que nunca foram.

Cismei no tema. Onde andamos enfiando esse excesso de amor que a quase todos nos devora (porque a insônia descomunal dos dias e das noites, o incômodo horrível que se disfarça entre força e tédio, a perturbação sem nome que nos sacode do sossego equilátero não é senão um vazamento-surpresa de amor)? Normalmente fechamos a torneirinha amorosa com pudor, para não quebrar de ternura nossas criaturas preferidas. Não podemos, não devemos estalar costelas alheias na pura torrente da vontade. O resultado é que nos sobra uma horrorosa paixão acumulada, um ímpeto de fome e de carnaval que não deixamos esgotar-se nem no sexo nem no abraço, nem no estar com amigos nem no morder a bochecha do filho. Para onde canalizar o mar da libido assassina, a fim de evitar sermos banidos do mundo por troglodice?

Haverá os que digam para a música, para as artes, como a tal balzaquiana. Não discordo, desde que se empunhe direito a faca de corte duplo. A arte só nos desacumula, só nos liberta, só nos desarde de amor quando por nós produzida; quando nos exige o esforço do pensamento ou da catarse a ponto de exaurir-nos de existência. Arte vinda de fora é o contrário – é a atiçadora nervosíssima do amor que já nos afogueira. Quanta lenha no filme que nos semeia diálogos, na história que nos chupa para dentro de relações imprevistas, na música e no poema que nos botam em prontidão de ideia, no quadro que nos reacende a adoração da beleza possível! Se maior nosso contato com a ação do outro, tanto maior a faísca da nossa aflição de resposta. Que aquele amor vulcânico a chatear-nos e transbordar-nos nada mais é do que a sede de criação. A sede extrema de desengravidar do mundo que nos fecundou; a sede de replicar-lhe diariamente uma nova fornada de nós mesmos.

Liberamo-nos da gravidez dessa demasia de amor quando fazemos. Fundamentalmente, fazemos. Quando escrevemos com jorro, quando atravessamos o cego, quando pedalamos a orla, quando dançamos inteiro o salão, quando mastigamos com ênfase, quando ensinamos com som e fúria, quando vivemos pessoalmente a entrevista, quando colhemos sagradamente as flores, quando mutiramos a construção da casa, quando choramos nos dedos o corte da cebola, quando medicamos o outro até adormecê-lo no colo, quando lavamos o carro, quando sovamos o pão. Entramos em parto ao nos repartirmos em mil e uma fogueiras de eus que se combustem de entrega. Entramos em parto ao fazer delivery de cada nossa parte estimulada de afetos. Encegueirada de afetos. 

Entramos em parto quando nos vestimos de trabalho; quando alastramos o incêndio que nos habita antes de sufocarmos na autorredoma de oxigênio excessivo.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

De dentro

Em plena Itália, Clarice (sim, a Lispector) desabafou certa vez um seu destalento: “Na verdade não sei escrever cartas sobre viagens, na verdade nem mesmo sei viajar”.

Sei viajar, mas entendo Clarice. Também, como ela, não sou apegada a narrar de fora, canetando ou digitando aquelas miudezinhas do roteiro – quandos e ondes, estradas e hotéis, episódios e teatros, incidentes e museus – que quase todo leitor de viagens deseja beber, amantíssimo de detalhes. Não tenho a paciência científica de encadear dicas e registros, contar os tintins por tintins de cada hora de cada dia, especialmente tintins equivalentes a metros, anos ou cifrões. Não sou a olhadora objetiva, a correspondente de guerra que se há de demorar na reportagem; não sou a embaixadora de medidas, a enumeradora de lojas, a construidora de causos com muitos poréns e entãos e daís e por conseguintes, firmemente dedicada à vida como ela (parece que) é. O puro da peripécia não me encanta – e fatalmente morreria à fome se só fosse remunerada por altos jornalismos e agatha-christices exatas.

Porque me apaixona o voo absoluto, livre do antes e do depois, é que amo sobretudo contar sem compromisso de conto, historiar sem compromisso de história, sem a tecelagem dolorosa de enredos e o sofrer de suas inverossimilhanças. Não há inverossimilhança quando nos narramos de dentro. Por fora a coisa tem de ser impecavelmente lógica, com atos e consequências, e obediência bonitinha a nossos perfis. Por fora a Morena tem de ter razões poderosíssimas para não revelar à delegada sua condição de traficada humana; por fora a Nina há que nos explicar direitinho por que raios não salvou as fotos no próprio e-mail; por fora não se perdoam (nem se devem perdoar) nenhuns deslizes na trama, nenhuns furos irracionais que desmintam o fato razoável. Por dentro o esquema é outro. Na maciez libertária da crônica, por exemplo, o narrador se escarrapacha e não é intimado a dar satisfações caso resolva escrever balançando na rede – a respeito do balançar na rede. Não se desculpa se fala e desdiz, se afirma e desmente, ou com tanto açúcar se desdiz e se desmente que não causa maiores danos à paz mundial. Inexiste o medo de que uma ridiculice desmorone o prédio, por não haver prédio. Crônica e poema líricos são a literatura sem tijolos; literatura com argamassa de vontade e luz.

Não significa que, por preguiça de construir fatos, eu não os ame. Amo-os porque não suporto a cabecice dum filme ou livro sem enredo; tolero por trinta segundos (olhe lá) qualquer amofinação experimental. Mas também não faço boa digestão da história só fato, da faca só lâmina, da trama inteira de acontecências sem alma nem fôlego. Pior: sem uma quantidade generosa de amores. De (dis)sabores. Não me venham, pois, com não sei quantas léguas sub ou sobremarinas, com expedições ao éter ou ao magma, com maquinarias velozes e furiosas, com guerra poeirenta contra etês ou guerra marítima contra baleias assassinas. Não me venham com a testosterona assexuada dos episódios que explodem em dados, marcas, coordenadas, nomes científicos. Se há intrincamentos políticos, que haja também o desespero do jedi que quer salvar a única amada. Se há cruzares de capa e espada, que haja também alguém chorando na torre sob a revelação do segredo de família. Se há zumbis engolindo como tiranossauros tudo que se move, que haja também dramas humaníssimos de inteligência – mais do que armas, mais do que correrias. Que haja mais amizade que areia, mais beijo que engrenagem, mais trauma íntimo que fratura exposta, mais cotidiano que trincheira, mais conversa que discurso. Ficando assim – na umidade do viajante, não na secura da viagem – facilitada a mastigação da trama: com o bolo de fatos amolecido à base de suor, lágrima, linfa, seiva, saliva. 

Tanto melhor nos invade o texto quanto mais nos lubrifica de humanidade intransferível.

terça-feira, 11 de junho de 2013

A gente se desacostuma

Marina Colasanti, ainda ela, disse famosamente que a gente se acostuma. A gente se acostuma a não ter vista de janela, a não ter paisagem nem notícia verde, a chegar em casa tão soterrado que mal pisca de sono e já está amarrando a gravata no dia seguinte, a cambalear de maldormice em cima do ombro mais vizinho, em cima da parede de metrô menos povoada. A gente se acostuma a pernoitar no mesmo apê de marido e filhos, e só ligeirinhamente – num entressábado, num entredomingo – calhar de lhes ver a nova espinha ou tatuagem. A gente se acostuma; mas se acostuma em tom de sobrevivência, entre um ou outro escape de desespero enquanto o prato roda no micro-ondas, entre um ou dois dias de fúria que logo afogamos num tarja-preta e na programação normal. A gente, lenta e triste e dopadamente, sim, se acostuma. Só que, se não morre, no mínimo desvive. Não se acostuma porque comprou outra natureza: se acostuma porque perdeu na enchente a antiga.

Eu diria que a gente melhor se desacostuma. Tão fácil e espontaneamente tira a cangalha, por um instante mesmo, que pronto: vira habituê do paraíso, como se não houvesse conhecido senão ventura. A gente se desacostuma, com alegria rápida e fluida, do que leva anos para engolir sem água. Férias, por exemplo; meu estado de nascença. É pisar no primeiro minuto de recesso e não sei o que seja tédio aflito, não sei o que seja vida de não viver horas livres, espreguiçadas de verão, limpas da angústia repetitiva. Na falta de férias, fim de semana cumpre largamente a função de me fazer nunca ter sofrido, nunca ter tido rotina que não aquela, de caseirice e lazer inalterável. Voltar ao trabalho é que é então o susto; é o chute estranho no meio duma tão dogmática eternidade – de modo que cada reprincípio de semana desaba como um antiBig Bang. Não é o retorno ao cotidiano como dizem, por simples maioria de dias: é a saída da paz mais orgânica para o mais artificial dos violentamentos, quando a profissão fere nossa cisma de querer respeito. Nada tão esdrúxulo e tão antinatural quanto o professor pisoteado tapetemente, o motorista buzinado até a náusea, o policial atacado à traição, o jornalista sprayzado de pimenta, o gari e o carteiro tornados invisíveis pela pressa das gentes. Nada mais desrotineiro, nada mais incotidiano, nada mais alienígena do que o tapa não merecido, o xingamento que não está no contracheque ou no contrato. Nada mais anormal que a facadinha comum.

Não à toa é tão fácil! que a gente se desacostuma de não ser absurdamente amado, assim que adentra a porta dos pais. A gente se desacostuma – salve, salve o mp3 – de todas as músicas que não adora. A gente se desacostuma de barulho e fumaceira tão logo se perde nas aleias do Jardim Botânico. A gente se desacostuma de burrice e preconceito na primeira palestra de Flip ou Bienal. A gente se desacostuma de educação porca no trânsito ao primeiro carro que nos dá passagem em Gramado, só de se pisar na faixa. A gente se desacostuma do computador lentium só de roçar no mais guepardo dos processadores. A gente se desacostuma de todas as matérias odientas no minuto em que lê o nome na lista do vestibular. A gente se desacostuma de novela ruim no instante em que o personagem da nova trama nos faz (voluntariamente) libertar uma gargalhada. A gente se desacostuma de trauma, de soco, de grito, de cansaço, de sandice, de remédio, de rangido, de barata, de poeira; desacostuma como um pluft, como um raio macio, na velocidade da luz – e para quem diz que não: divã já e já, pra tratar a síndrome de Estocolmo. Divã já, para dizer xô à única coisa que impede o descostume: o pânico de ter de abrir mão duma agonia por outra maior.

Construir felicidade é veludo. Infelicidade é que dá trabalho.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Impotentes

Fico para cuspir o coração quando o Fábio me conta de uma sua aluna de sexto ano, tão analfabeta que se limita – nos bons dias – a copiar algumice do quadro, sem ideia nem esperança de resolver a questão proposta. Ainda por cima cheira mal, a pobre, em seu analfabetismo indigente; mora à margem, descuidada de governo e família, sem quem lhe alimente os olhos vagos, quem lhe desembarace pensamentos e tranças, quem lhe providencie o bocado de limpa dignidade que acompanha os cidadãos inclusos. E como é que chega ao sexto ano analfabeta? pergunta a indignação distraída de uns e outros. Digo como: sendo trambolhada de uma série para a seguinte, entre estatísticas que posam lindas na capa das revistas de pedagogia e varrem os dados remelentos para a cozinha. Sendo ignorada pelos fatos e arrastada na onda de aprovações, para engrossar porcentagens – até congelar em seus limites, repetir cinco ou seis vezes a série impossível e ser enfiada num qualquer “projeto educativo” fazedor de milagres. Eis como. Virando joguete da burocracia nojosa, que passa anos sem condenar nem salvar de vez uma aluna; e, para cúmulo, caindo num lar cruelmente passivo, de onde nossos ais de compaixão não podem resgatá-la tampouco. Fica cuspido fora meu coração, solidário, penalizado, e nem por isso mais apto para erguer um dedo de solução.
 
Como nos fere a incapacidade de trazer luz aos refugiados da guerra invisível!, aos desabrigados do teto impalpável, aos vitimados pela desgraça que não grita no Jornal nacional. Como dói a dor que não alcançamos com o estender do braço, a dor que ri do nosso orgulho de ajudar; como dói a dor alheia que temos a infelicidade de entender, sem que nossa vaidosa importância possa arranjar-lhe remédio. Como dói a dor que anda por aí assim, indiferente à nossa boa vontade, indiferente à culpa que martelamos no travesseiro. Dói com doer duplo: o da piedade em si e o do debater-nos em nossas limitações. O da empatia em carne viva e o da humilhação de não sermos tão indispensáveis. O doer de amarmos e o doer de que todas as gerações, pelos séculos dos séculos, não nos amem em retorno. Como heróis da atitude. Como anjos da iniciativa. Como deuses da providência.
 
Dói-me com terror, por exemplo, a decepção alheia; daria uma boa metade do fígado para nunquinha enxergar o desapontamento nascendo, profundo, em olhos nenhuns. Dói-me como assassinato a cena do pai, do filho, do marido que não chegou a tempo da despedida última, e permanece num sofrer aturdido e suspenso, sem fecho, sem direção. Dói-me bofetadamente o transplante que perdeu validade por causa do atraso de aviões. Dói-me com certo exagero assistir às memórias do pós-ponto final das relações. Dói-me com dor impressionante a mãe que, no meio de longo esforço e sozinhez, não encontra o nome do filho na lista dos aprovados ou dos sobreviventes. Dói-me de punhal a matéria que mostra velhinhos de asilo conformados à solidão que não acende a TV na novela, não passa lenço úmido nem troca o lençol. Dói-me de navalha aquele olhar, qualquer olhar de gente que foi embora de si mesma e deixou o corpo, abandonou o corpo num desarvoramento melancólico, sem mapa nem data. O olhar da alma que debandou sem cumprir aviso prévio, da ânima que voou sem voar. Da vida indiferente a viver.
 
Dói-me toda acumulada culpa do não-martírio; todo despoder de desejar que a dor abismante do mundo nos carregue em compensação.


domingo, 9 de junho de 2013

O passado de presente

Toca-me o falado por Marina Colasanti numa sua crônica, “Cada vida é um romance”: “Uma pintora me conta que o passado começou a refluir na sua alma. E ela decidiu dá-lo de presente aos filhos. Está escrevendo, em vez de pintar. Não apenas o passado dela, mas o da família, fatos que presenciou, histórias que a mãe lhe contou, que os avós e os tios lhe contavam quando ainda menina. E porque sabem que está escrevendo, os parentes lhe contam mais. E quanto mais escreve, mais o passado cresce, mais se torna o documento de uma época, mais ela tem a sensação de que pode vir a interessar a alguém além dos filhos”.
 
Dar o passado de presente: eis uma beleza que nunca me ocorreu, eu que de presentes tanto gosto. Já croniquei o quanto me encantam o ato da escolha carinhosa e o do embalamento colorido, se bem que sejam processos coroadinhos de angústia: é do tamanho, é da cor certa? será do agrado? será repassado? será repetido? Só nunca me dei conta, suficientemente, da necessidade tão linda de embrulhar o que talvez mais importa, além de nosso amor e tempo mesmo; da necessidade de empacotar, a certa altura, o que fomos e vivemos, o mais fielmente possível à narrativa original. A cada momento nos relatamos pela boca, pelo Face, por orgulho – por ancestral orgulho de nos ver enxergados –, e nem sempre sem a photoshopada básica no fim de semana real, na ideia crua de terra batida. Nos contamos muito ao sabor do vento, muito no lá-e-cá das novas opiniões se erodindo e se brigando, muito no meio do som e da fúria. Nos contamos de fora, no ímpeto, com enfeite; pouco paramos para nos narrar de dentro. Pouco paramos para nos entregar como álbum de fotos verbal a quem interessar possa.
 
É raro confessarmos com nudez o quanto, de nosso pequenino ponto de vista, foi dolorosíssimo o voltar à escola após o corte de cabelo; o quanto de ciúme havia naquele riso pelo tropeço do primo; o quanto de ressentimento, naquela proibição de correr no recreio. É raro dizermos mais que – “tudo bem” – quando Mãe nos pergunta sobre o dia, é raro vencermos a preguiça emocional de expor a confusa ansiedade do trabalho de grupo, de admitir a tentativa de ingresso no grupo da garota bonita (ou do guapo mancebo), só para ter a discreta alegria de roçar-lhe os pelitos do braço não mais que de vez em quando. É tão preciosamente raro deixarmos cair o mistério enfim, ao menos no fim; ao menos então revelarmos que legamos diários e cartas, recortes e agendas, papelões e envelopes cheinhos das velhas respostas, cheinhos de nossa velha pessoa. Assumirmos então que, na falta de anterior competência ou coragem, nos colocamos em testamento. Nos estampamos ali como realmente éramos, com os pensamentos insuspeitos, com as simpatias inconfessas, com as esquisitas manias dos intervalos de convivência, com os falares e cantares sozinhos, com as dores que não comentávamos para não nos apontarem hipocondria, com as cismas adolescentes de nos dissecar em listas, com os gaps de indefinição de existência, com os imensos remorsos de atos minúsculos, com os desesperos minuciosos do trabalho, com as impaciências sociais, com os instantes absolutamente apolíticos, com os preconceitos que tentávamos extirpar a canhão, com os sofreres miúdos que escondemos dos pais para não ouvirmos deles sobre a fome na Somália, com os sorrisos que distribuímos amarelamente para só pedirmos solidão. Tão desejável e impossível: o documento definitivo que nos permita (dar a) conhecer afinal, jogar luz na biografia autêntica que tanto morre sem escrita e leitura. O raio-X. O portal. O Graal. A paparazzice última. O gabarito comentado. O roteiro do enigma, cena a cena.
 
O passaporte para a insustentável leveza do ter sido.


sábado, 8 de junho de 2013

Cerimônia

O cara que perdeu há um tempo o filho de treze anos diz, na entrevista, que ainda tem alguma cerimônia nas horas de se mostrar feliz. Megacompreensível: é a culpa entranhada das grandes dores. A tonelada que somos obrigados a carregar socialmente, feito sinetinha de leproso, no caso de nos ter assinalado a tragédia. Pega meio malzão – ainda que o luto fechado, agendado e escuríssimo haja permanecido nos idos do século XIX – sorrir assim limpamente, em praça pública, quando todos continuam forçados a nos olhar com piedade. Quebra a estrutura. Quem viu/vê a morte de frente ou de banda, quem foi derrotado na batalha pelo filho ou está na iminência de ser abatido pelo câncer, não tem condições de ser flagrado de repente pirando ao som de “Mamma mia!”. Quem desceu ou descerá ao que combinamos chamar carinhosamente de fundo do poço não pode me vir com uma dessa, de circular por aí happy-hourizando com os amigos e dando pinta de feliz. Onde é que nós estamos. Por mais que nosso pós-modernismo iconoclaste as instituições – ou exatinhamente porque nosso pós-modernismo iconoclaste as instituições –, entramos em desespero de causa quando se ameaça a última fronteira de crença e solidez, a sagrada tristeza que vem com a indesejada das gentes. Temos horror à gafe, pisamos em ovos de avestruz perto de pessoa que muito sofreu com a Cuja, e tudo que pedimos em troca é que a dita pessoa se comporte condignamente em relação a nosso ar compungido, de preferência com sorriso amarelo e lágrima indisfarçada durante a conversa. Só faltava mesmo essa de ela nos dizer, animadíssima, que está superplanejando uma incursão pela Broadway no próximo ano. A primeira investida é Mamma mia!.

Não só a morte continua assim, entabuzada. Momentos de convulsão social como este que nos fala geram patrulha da felicidade mais (digamos) espontânea. Efemérides são bicho ciumento. Ai de quem atravessar esses dias com outro contentamento n’alma que não o de ver o país finalmente revolucionado. Ai de quem for flechado pelo amor burguês, de quem se vir inebriado pela leitura – ou feitura – do desejado romance, de quem se achar arrebatado dos pés pelo novo filme preferido, pelo emprego recém-tomado, pelo filho recém-retomado. Ai de quem roçar a timeline do Face com aquilo que lhe abarrota os olhos: a viagem tão longamente paga, o livro tão dificilmente lançado, as alcançadas bodas de prata, a bem-sucedida casa própria. Acusarão o desavisado feliz de alienação, no mínimo; de desrespeito, talvez; de falta de timing, certamente. Como se houvera timing histórico capaz de censurar as pequeno-enormes revoluções nossas, as discretas e de estufa sob Olhar Coletivo, mas comuns à ternura dos revolucionários mesmos. Como se o manifesto de um sucesso íntimo sujasse a necessidade de gritas maiores, quando, em verdade, é tudo la même chose.

São parecidos os quereres e conseguires, apenas momentos diversos de igual pulsão; e é um crime tolher alegrias honestas – não acintosas nem debochadas – como se enfraquecedoras da politização geral, tanto quanto seria crime tolher a politização honesta para não nublar o céu da alegria geral. Como é chato e démodé o mundo de marcadas antíteses, de contrastes fixos e comportados, ensaiados e inflexíveis. Como é entediante o assunto que se proclama único, seja qual seja – que nem vida nem país se fazem de homens de uma nota só, enquanto desdiálogos perigosos, sim, se fazem de homens de uma nota só. Alegria numa hora dessas? sim, numa hora dessas: a sempre melhor e mais própria. A alegria não basbaque é, tão ou mais que a tristeza, sagrada. A alegria não é o contra, não é o anti, não é o pavio, não é o inimigo, não é a Globo. A alegria é a ânsia. A alegria é a meta. A alegria é a face pronta da busca iniciada, o retrato final da prontidão. A alegria é o motor e o motivo. O amor e o cimento. A alegria é o carimbo do trajeto. A alegria é a prova. 

A alegria é à prova.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Gente feliz

Li no Face, algumas vezes, uma bem-humorada observância: “desejo que todos sejam felizes – gente feliz não enche o saco”. Fatão. Gente feliz mesmo (não daquela felicidade fajutamente de plástico, sempre ligada ao insucesso de outrem e, portanto, desvinculada da serenice de consciência que acompanha a Felicidade com efezão) se diverte e garante dentro da própria vida, sem por distração ou raiva amofinar a dos outros. Gente feli-li-liz – não apenas contente – fica até sem graça de causar qualquer perturbação, como se levasse vergonha de tanta felicidade estar desligada do mínimo de merecimento. Gente contentinha mora num estado de alegria vago e transitório, por isso mesmo invejoso de outras alegrias que supõe maiores ou mais firmes; gente feliz não ousa nem concebe invejas, bem ao contrário: tem nojo de manchar-se de ingratidão e, antes, convidaria todos os infelizes a lanchar no seu nirvana. Gente feliz automaticamente se sacraliza.

Gente feliz passou da temporada de provas; está com o coração assentado no sossego de sua própria casinha branca, dívidas morais quitadas, sem inadimplência emocional. Não há mal-resolvices de juventude ou infância entulhando e desperfumando o espaço. Não há velhas ansiedades corrompendo as relações de adrenalina inútil. Felicidade é a faxina grande de cada semestre, aquela de quando se cria bravura para encarar os cantinhos que viram tabus de bagunça e mofo. Felicidade tira a poeira das esquinas, evita o trauma alérgico das raivas não espanadas; é limpa, ensolarada, frontal, sem esqueletos, sem caixa-preta. Gente feliz já matou suas bruxas más e se tornou o castelo do final do desenho, novamente claro e florido, isento dos espinheiros que tornavam proibitiva a aproximação. Gente feliz não tem – ou não tem mais – os pensamentos de desperdão que eram sua sala intocável, medonha. Em consequência, não guarda mais necessidade de permanente defesa pela fofoca, cismância, impertinência desviadoras de foco. Gente que carrega felicidade legítima está indiferente ao ataque. Blindada. Excessivamente acostumada à continuidade de seu paraíso para se dar ao trabalho de procurar destruição no olho do outro. 

Gente já com derramado vício de venturança não perde mania de a colecionar.