segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Observar baleias


Me senti representadíssima por um post lido no Face, mas colhido no Twitter – do perfil @yuribt: 

"Sempre que tô lendo textos acadêmicos, lembro do meu professor que falou que ler é como observar baleias.

Vai lendo, passando as páginas, sem se preocupar em entender tudo.

De repente aparece uma baleia. Vc entende, anota, aproveita.

E fica mais algumas horas olhando o mar."

Sim: toda uma vida de incompreensões universitárias desvendadinha sob meus olhos, desatada – não podia deixar de ser – pela metáfora (pela comparação, para ser precisa; mas metáfora soa mais bonito e mais amplo, não soa?). No texto anterior eu comentei rápida mas exatinhamente isto, que nunca me dei bem com a linguagem acadêmica, estruturices teóricas e semelhantes; nunca me bateu certo o palavrório com que normalmente se embrulham os conceitos. Ficava olhando as obrigações de leitura da faculdade feito um burro olhando para um palácio, para usar a expressão de minha mãe: por que gabirobas era necessário que elucubrações filosóficas, sociológicas, artísticas fossem estendidas num caos de orações sem sujeito (sujeito havia, mas só Deus sabe em que ponta da frase estava), num mar de concordâncias insondáveis, numa sintaxe ida e vinda que parecia um rali de Mad Max na Estrada da Fúria? Por coincidência ou não – certamente não –, os teóricos mais tranquilildos de ler eram justamente os que também praticavam literatura, e cuja escrita, portanto, estava contaminada de conotação, estética e leveza. Os demais aparentemente tinham gozo de dominatrix vibrando o idioma que nem chicote; e eu lá, sem a menor vocação para qualquer modalidade de masoquismo, empacada em trechos de suposto português que soavam direitinho como língua meroítica arcaica, da qual aliás nunca ouvi nenhuma sílaba.

O que fazia o Mar Vermelho se abrir eram as explicações dos professores; uma vez traduzidas as ideias para o brasileiro falado, luzinha e calor ardiam no peito e eu conseguia encapsular o conteúdo em bolinhas de metáfora, absorvendo-o agora plenamente. Mas e quando não há tempo ou contexto para explicações dos professores? Aplique-se o que (doravante e por todos os séculos) chamarei de lei da baleia, que além de perfeita no teor é adequadíssima na forma, com essa leitura duas vezes ressaltada. Pela lei da baleia, mesmo sem um facilitador disponível o desvendamento pode acontecer, talvez insuficientemente para o gosto do freguês, mas bastantemente para uma compreensão global e um crescimento significativo. Desde que se esteja lendo a língua nativa ou outra em que já se tenha certa proficiência, não é POSSÍVEL que em algum momento o raio de uma baleia não suba à superfície do texto para ter respiradouro, ou que a pitomba de um termo, de uma expressão autoiluminável, não dê um salto no meio daquela estagnação azul. Vai ocorrer necessariamente, e então o navegador que teve sangue-frio para acompanhar as ondas – sem se desgrenhar de desespero nem ceder ao transe do marasmo – vai flagrar sua Moby Dick conceitual e se dar por satisfeitíssimo com o troféu do dia. 

É suficiente? Se o clarão principal relampeou aos olhos do leitor e foi por eles guardado: suficiente. Para o momento, suficiente. Que o leitor é isso; assim como o pescador (ou qualquer outro ofício), não fica pronto de prima, não tem em toda pesca a mesma sorte; desenvolve a técnica a cada lançar de remo, de rede. Com tempo e manejo, fica safo para a percepção do que antes – quando só tinha olhos de identificar baleia – passava por ondulaçãozinha ilegível, e na madureza do olhar vira pista, vira indício, vira finalmente palavra. O pescador experiente torna-se experiente depois de muito ressignificar o que era dito pelo mar, mas não era ouvido, apenas guardado no que a amiga e historiadora Camila Rodrigues lindamente chamou de "repertório silencioso": nosso depósito de referências que permanecem maturando até estarem prontas para consumo. Não há encontro ou embate com o texto que na verdade não produza efeito, ainda que a posteriori; ainda que nossa lembrança acredite só ter registrado o que era mais óbvio e gigante. Mesmo que pensássemos não estar vendo, sentíamos o embalo marinho do texto, seu cheiro, seu sal, seu ritmo, a impressão física e emocional de seu contato – e isso também é repertório e memória, também é conhecimento se formando, também é inteligência nova que se impregna quase à revelia.

Há, sim, uma dose de resiliência dolorosa em se sentir à deriva no verbaval, jogado lá e cá dentro dum barquinho principiante, sem motor, sem potência, até sem o impulso voraz que pulsa no náufrago. Vale a pena? opa; mesmo na peleja não pequena: "Deus ao mar o perigo e o abismo deu,/ Mas nele é que espelhou o céu". Quisera ter-me esmerado muito mais na arte de sentar à beira-texto ou de ser navegada – que hoje sei melhor, bem melhor, que quem se dedica a ter ouvido capaz de ouvir e entender baleias não fica nunquinha a ver navios.

domingo, 18 de outubro de 2020

Com palavras não sei dizer

Admito: eu odeio parabenizar. Não que eu odeie reconhecer todo o mérito de uma criatura, ou o talento, ou a capacidade de completar anos de casamento, de profissão, de vida; não. Reconhecer o mérito de alguém é coisa linda. Detesto mesmo é ter de elaborar discurso para, em dia de. Detesto ter de emitir dezenas, centenas de textos similares por ano, pouquíssimas variações possíveis, caminhos limitados (certo, não é inviável driblar os clichês, mas no tormento de driblá-los um segundo tormento se inaugura, que é o de investir mais imaginação e esforço e pesquisa no ato parabenizatório – tortura, enfim). Dado que TODOS os dias o Face joga na cara dois ou três aniversários distintos, fora os de filhos-namoros-formaturas-lançamentos-mestrados divulgados pelas pessoas mesmas, é muita canseira de afeto para seres arredios a expansões, principalmente verbais. Minhas expansões são mais ao estilo abraçante, esmagante até, ou são aquelas que curtem buscar com alegria o presente perfeito; mimar eu acho divertidíssimo (adultos, evidentemente; com crianças eu seria carinhosa sem dúvida, mas não as mimaria nunca). Sou verbal por ofício, digamos, e no entanto gosto à beça de relações em que não precise sê-lo.

É uma falha humana e política; todos têm o sagrado direito de receber 8.987.489 parabéns em seu dia especial, e de magoar-se quando não os recebem; mas mesmo ciente dessa verdade irrefutável eu deixo escorregarem algumas datas, no vai-não-vai de "depois eu encontro a imagem perfeita", "depois eu penso num texto bacana". Acaba que não encontro, não penso e fico plenamente culpada de não ter pensado ou encontrado, quando não é (juro) ausência de ternura – tantos amigos eu amo com paixão! –, e sim essa resistência desnaturada e incontrolável às manifestações de folhinha. Nenhum problema com festejos e rituais, inclusive adoro, mas uma coisa é carinho, gesto, memória, dança, e outra coisa é a emissão de palavras previamente formuladas, em geral vazias e enfadonhas à força da repetição eterna. Repito, porém: a culpa não é das palavras, a culpa é minha, que não me ajeito com boa parte das convenções de relacionamentos civilizados. Ou não me ajeito com obrigações linguísticas – daí também minha aversão aos termos acadêmicos, às formalidades, aos protocolos (até para chamar alguém de "senhor", "senhora" sou bem ruim, misturo com o "você" que sempre usei com a família inteira, tropeço ridiculamente; é de imaginar que eu caísse solenemente na gargalhada se, num Congresso da vida, precisasse lançar "Vossa Excelência" aos quatro cantos, como praxe). Em suma: bicho do mato.

Sim, sou bicho do mato apesar de urbana, avessí(ssíssí)ssima a verbalizações compulsórias apesar de amante da língua, ou muito provavelmente por isso mesmo. É quase um milagre que eu diga "te amo" assim na fuça do destinatário – e, na eventualidade de o Vaticano registrar o milagre, com certeza a declaração há de ter sido por escrito. O normal é que esses meus textos de amores falem de uma terceira pessoa, que a exaltem em efígie, que sejam uma espécie de malhação do Judas ao contrário, como a que (desconfio) estou fazendo agora: dizendo de meus amigos que os amo; que lhes desejo as mais vitaminadas felicidades daqui até Saturno, contornando os anéis, fazendo um desviozinho até Plutão e voltando; que eles são fabulosamente sensíveis, empáticos, bem-humorados, inteligentes, e com sua presença virtual deixam os dias quentinhos – ou fresquinhos, conforme as demandas deste clima do Hell de Janeiro; que eu adoraria ser mais competente em sociais e recadices (talvez haja ainda condição, estamos trabalhando para melhor atendê-los). Digo que sou assim diagonal e extraviada de nascença, torta, de afetividade gauche e escapona nos pequenos compromissos, mas espero que pronta para os maiores, tanto quanto eu possa desdobrar-me. Digo que, sem ser às vezes a presença aparente, procuro continuar pairante, espiando aqui do cantinho qualquer tarefa que me sobre ou me caiba. 

Aos vários queridos, solicito paciência com minhas vacilações e afastamentos de passarinho sem bando. Continuo, embora inapercebida, por perto – voando em torno dos que fazem níver de primeiro de janeiro a 31 de dezembro, na tentativa sincera de soprar easter eggs dum carinho (volta e meia) difícil de desengasgar.

sábado, 17 de outubro de 2020

Questão de tempo


Adoro (e não conheço quem não adore) aquele cálculo bem machadiano de tempo feito por Brás Cubas em suas Memórias póstumas: "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos". É um dos desparalelismos mais geniais de nossa literatura e, em realidade, ilustra benzão como funcionamos por dentro – não necessariamente em termos de Marcela, mas de Brás; horas, semanas, minutos nos são perfeitamente cabíveis no relógio e no calendário, porém insuficientíssimos para o registro interno, que se apega a marcações mui particulares. Somos relatividades ambulantes só passíveis de algum entendimento sob a baliza de Greenwich.

Eu, por exemplo, cresci noveleira (já hoje não muito praticante; reservo a audiência para as obras de Lícia Manzo – e também acabei acolhendo, na segunda metade, a reprise de Totalmente demais), o que me faz infalivelmente escorada na lembrança dos folhetins para assinalar cada ano: lembro-me criança, cantarolando no ônibus as músicas de Tieta; me vejo comendo esfirra de carne aos 13, diante das Mulheres de areia; ouvindo, pós-estudo de oitava série, o tema de abertura dA viagem; lanchando com os olhos postos em História de amor, antes de uma missa noturna (Sábado de Aleluia ou Natal? não sei bem); assistindo a capítulos fundamentais de Por amor na sala de TV dum hotel fazenda queridíssimo, no qual descansei a loucura do vestibular; já na faculdade, imitando personagens de Laços de família e, mais tarde, adotando o adereço usado por Jade em O clone – tudo vem pronto e fácil, rápido e mais ou menos preciso, mas emocionalmente exato. Tão exato que ser atropelada por trechos das velhas novelices (no Viva, no Vale a Pena, nos anúncios do Globoplay) configura para mim um nível de tormento altíssimo, quase como encarar a moedinha-portal de Em algum lugar do passado. Não bagunce minha linhazinha emocional do tempo, mundo, eu imploro: deixe em paz as antigas impressões, que especificamente por serem felizes se querem lá, imutáveis, sossegadas, hibernando em sua redomemória incorrupta. 

Depois do casamento – vejam só que curioso – perdi quase toda a capacidade de linkar com exatidão os anos e as novelas, mesmo as que ainda acompanhei. Trago teorias: talvez na infância e adolescência o tempo corra de maneira mais retumbante, sempre desenhando aos gritos as fronteiras, inclusive com a mudança crucial e numérica das séries escolares; talvez na infância e adolescência um ano represente uma porcentagem muito imensa de transformação, o que não ocorre na mais estabilizada idade adulta. Ou talvez a oscilação brutal tenha morado mesmo entre a solteirice e a vida casada: em solteira, mantive referentes de tempo muito individuais, e agora é como se mergulhasse na temporalidade comunista do nós, na maior serenidade narrativa da história conjunta. Já inapta para me orientar por novelas, mais facilmente adoto as viagens que fizemos como bússola; sabendo onde estive, ligeiramente sei quem eu era. Quem eu época. 

Dependendo de nossas unidades intransferíveis, amamos por quinze meses e onze contos, ficamos arrasados por dois dias e um filme, nos desesperamos ao longo de três lojas, choramos no decorrer de uma dívida e meia, sorrimos por cinco episódios consecutivos, gargalhamos pelo espaço de vinte e oito memes, somos confiantes por dez selfies, eternos por dez ondas, infelizes por todo um governo. Lembramos quem fomos durante aquele comercial, aquela música, aquela peça, aquela praia, aquele seminário de escola, aquele trabalho de grupo naquela casa, aqueles instantes naquele museu, aquelas mãos dadas naquele passeio. Enquanto dava um minuto de Greenwich ou Brasília, quarenta séculos nos contemplavam. Em pleno meio-dia dos trópicos, uma aurora boreal nos nascia. 

Não há Doc Brown, plutônio ou capacitor de fluxo que nos transportem, nos programem, nos acertem com cronologia tão eficaz quanto o reloginho secreto que a alma carrega no bolso. A cada disparar de nosso cronômetro personalizado, um nosso pedacinho de vida é infinito enquanto dura.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Nem só de pão


O 16 de outubro é, simultaneamente, Dia Mundial da Alimentação e Dia do Pão, o que captura um professor de português no pleonasmo e na metonímia; pão, afinal, não apenas se insere no alimento como SIMBOLIZA o alimento com a coroa-mor: é "o pão nosso de cada dia" que pedimos orantemente, não a carne, não o grão, não o ovo, não a fruta, não o leite, apesar mesmo de nossa biologia mamífera. Coisa linda e imensamente significativa, já que pão exclui a morte ou a exploração de qualquer animal (reitero: não sou vegetariana, mas não é por falta de consciência e sim de vergonha na cara), algo por si só inclusivo, e além do mais é comida que não brota pronta – ou seja, conjuga a colheita da natureza ao trabalho do homem. "Nhâin, mas é farinha e tem gente que não pode farinha", vai grunhir um aporrinhante; OK, migo, só que nem toda farinha é grávida de glúten, como sabemos, e assim sendo a sua intervenção imaginária é mera impertinência. Há pães para todos os gostos e saúdes, democrática, icônica e maravilhosamente. Pão contempla carnívoros e veganos, típicos e (potencialmente) celíacos; reina pela manhã, acompanha à tarde e à noite, brilha em todas as recriações e culturas, não foge sequer à famosa alimentação dos prisioneiros, séculos a fio. Pão é massa de humanidade todinha (e aliás não deve ser coincidência referirmo-nos à coletividade como "a massa"). 

Mas nem só de pão.

Jesus mesmo o disse, dando um VRÁ no demônio em pleno deserto: nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. "Nhâââin, só que nem todo mundo é religioso, né?" Tô sabendo, mano; vamos combinar, porém, que o fato de a pessoa não ser religiosa de maneira específica não exclui sua sede natural de contato com o sublime, com o sagrado, com toda experiência que nos eleva anos-luz em relação ao animalesco, ao bestial, ao chão – toda experiência que nos torna humaníssimos, no melhor sentido. Sapiens nenhum foi programado para se ater à sobrevivência mais biológica possível, a vida inteira, twenty-four-seven, sem chance alguma de cultivo do espírito, sabedoria, sublimação; não temos escolha senão a inquietude, a incompletude, o irrepouso, a busca, a beleza, o conhecimento, a poesia, a filosofia, a teologia, a amplidão, a abertura crônica das asas internas, que não se manifestam fora mas atormentam de comichões o dentro, carecidas e insatisfeitas. Somos isto, esta faísca, esta fagulha; precisamos assar o que fermente muito além do almoço, precisamos levar muito mais que farinhas e águas ao forno, antes que a própria potência desse fogo e dessa fome nos consuma. 

Precisamos de arte – uma das nutrições mais suculentas de nossa alma voraz; precisamos tocar, amenizar, discutir, eventualmente principiar a curar nossas questões intransferíveis por meio dessa transferência; precisamos que a todos os olhos chegue literatura, pintura, escultura, teatro, cinema, nas mais várias formas, abrigando a maior diversidade de aspectos, de modo que nos enxerguemos uns aos uns e uns aos outros, que estudemos empatia, que provemos o valor reorganizante da linguagem, que acessemos vias aráveis da alegria e da angústia. Precisamos de ciência – de respostas diretamente dadas pelo mundo, desanuviadoras de enganos, combatentes de superstições malucas, possibilitadoras das curas que têm o amor e a arte como auxiliares e enfermeiros, destruidoras de preconceitos, agentes de alguma chance de permanecermos com um planeta viável. Precisamos extrema e urgentemente de afeto – a alimentação mais imediata depois que o corpo está saciado do sustento, ou, de preferência, concomitante ao próprio sustento; precisamos que mãos nos levem, braços nos apertem, corações nos escutem, olhos e sorrisos nos empurrem, amparem, acreditem. Não é nem que a gente não queira só comida, como diz Arnaldo; PRE-CI-SA-MOS não ter só comida, pela natureza de nossos algoritmos inevitáveis. Como diz outro Arnaldo: a regra é clara. Vá que sobrevivamos só de pão, mas viver – não vivemos; nada somos senão primatas ainda respirantes, a não ser que toda palavra que sai da boca de Deus nos bafeje de nossa exclusividade. Em versão ecumênica: a não ser que tudo quanto é feito para ser bom, belo, certo, grande, justo, fantástico nos transforme exatinho no que deveríamos ser, no que potencialmente somos. 

A alimentação física nos salva da ausência em nosso posto; mas é a nossa parte merendante do extraordinário quem responde à chamada.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Das partidas


"'fulana venceu o câncer!', 'beltrano venceu o covid!' e tome de tratá-los como 'vencedores'. ok.
e quem morreu então perdeu, é um perdedor? é isso?
boh."

São palavras da querida Nina Paduani no Facebook (mantidas aqui em sua formatação original), e dão que pensar por meses. De antemão, posso dizer que concordo. Entendo perfeitamente o gestual linguístico de equiparar "venceu" a "curou-se de", atribuindo à resistência do organismo o caráter de poder, de conquista: vejam, ele/ela foi mais forte que a doença. No entanto, não posso deixar de assinar embaixo da declaração da autora; por mais que o falante ou escrevente não tenha qualquer intenção de depreciar os que faleceram em virtude de algum mal, acaba por fazê-lo, uma vez que a dedução é compulsória – quem não venceu uma doença automaticamente foi vencido por ela, ideia completamente péssima tanto para a memória do falecido quanto, em especial, para aqueles que o amam. Amados e amores não precisam dessa imagem de desincribilização da pessoa que "cedeu" ao que era de todo incontrolável; não precisam dessa nuvenzinha de "derrota" pairando sutil na despedida, como se houvesse um sopro sequerzinho de culpa ou fraqueza embutido em não ter aguentado. Culpa e fraqueza nem remotamente se aplicam à situação. Aquele ou aquela cujo corpo e cuja mente precisaram lidar com uma doença se inscreve de imediato no grupo dos que tiveram a doença – ponto. Não é competição, não é gincana, não é futebol; é uma contingência da qual pode ou não resultar morte, feito nuvem da qual pode ou não resultar chuva. Há nuvens vencedoras ou perdedoras? há nuvens: formam-se e cumprem-se. 

"Ah, mas ninguém está dizendo que os que morrem de enfermidade são fracos e derrotados." Sim, está dizendo; pode não declará-lo oficialmente, e entretanto o afirma por meio de seu contrário. Se fosse apenas isso, aliás, era ainda lucro: hoje um PRESIDENTE olhado e copiado pelo mundo inteiro (porque líder da still nação mais poderosa) se arvora em Superman e arrota que sarar de covid é fácil, afinal ele é um espécime físico perfeito e extremamente jovem. Pois é. Que esperar de uma criatura capaz de fazer pouco dos que morreram em guerra (ele fez, para choque e mágoa dos parentes de soldados), capaz de considerá-los losers pela inconveniência de não terem sobrevivido? A verbalização nojenta de Trump de certa forma reflete – psicopata edition – o sentimento nacional reservado aos "perdedores", os que não triunfam, os que não chegam em primeiro, os que combatem e são abatidos sem abater. Obviamente não quer dizer que todos os estadunidenses estejam prontos a "condenar" os doentes que perecem, porém quer dizer que esse subtexto do desprezo pela dita derrota perpassa sua cultura de um jeito forte o suficiente para chegar aos lábios do representante do país, e ser uma anteninha parabólica do pensamento ocidental. Infelizmente é fato: embora nem todos atribuamos o tamanho da carga negativa que um americano atribui ao universo do perdedor (talvez o maior xingamento que exista por lá), glamourizamos sim a ideia de vitória, invariavelmente atada ao que é externo – o vencedor que dá a volta por cima, que reaparece pleníssimo batendo cabelo, que recupera a saúde, que fica RYKOH, que se vinga, que dá uma surra no inimigo, que ganha no jogo de lavada, que tem a última palavra. Sequer roçamos a possibilidade de alguém que fez tudo isso se sentir o mais irrealizado dos seres no capítulo final, e de alguém que passou longe de cada item estar inteiramente reconciliado consigo e com os demais, dando a mínima pras picuinhas terrenas e transbordando de feliz em seus últimos dias.

Porque toda a nossa loucura, enfim, se resume a isto: vincular ao erro, ao insucesso, à fraqueza o que é também nossa certeza única, em vez de termos com essa certeza uma relação sem caos, sem desespero – de serenidade e sabedoria. Não é (óbvio) questão de celebrar a morte, e sim de não a encarar como algo paralisante em vida, de não a ver como punição mas como arremate, epílogo, fim de temporada. Espera-se que venha natural, sem ser fruto de injustiça, intervenção humana, negligência e maldade; mas que ela vem já está estabelecido, e portanto o mais cabível era fazer o exato oposto do que fazemos, o mais correto era falarmos sem pavor ou pesadume daquilo de que não falamos, o mais lógico era tratarmos com justa racionalidade o que é uma constatação e não um susto. Ainda conseguimos? Quem sabe em alguns milênios; por enquanto, administramos só muito porcamente nosso horror exacerbado. Mas já ajudava um monte se fôssemos parando de, com a linguagem, relegar à categoria de "derrota" a reação do organismo a um agente patológico – e me incluo totalmente nessa proposta de vigilância, comprometendo-me a não comemorar a "vitória", e sim a cura, a chance de o corpo sentir maior disposição enquanto continua escrevendo sua história aqui pela Terra. Pessoas que não obtiveram a cura não perderam, somente encerraram seu tempo de escrita, que viria em algum momento a encerrar-se como termina uma fruta, uma flor, uma chuva. 

A derrota legítima pertence aos que traem, por escolha, a destinação humana de elaborar um planeta mais viável para todíssimos. Quem cede com frequência preocupante ao lero-lero de seus próprios demoninhos egoístas: este, sim, é constantemente levado a nocaute.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Unboxing


Não sei quem foi e quando, nem mesmo se foi caso de gente conhecida ou lida, mas me recordo de alguém, certa vez, descrevendo uma entrevista de emprego na qual atiraram à queima-roupa uma questão inusitada: me dê cinco usos diferentes para uma caneta (nenhum relacionado à escrita, claro). Me parece que a pessoa da história mencionou o objeto como um potencial prendedor de cabelo – e mais não lembro; lembro, porém, que eu mesma fiquei matutando no assunto, e dali a pouco já escalava a caneta para os papéis de minimastro de bandeira (ou mastro de minibandeira?), tutor de planta, zarabatana, hashi, suporte para anéis, pendurador de chaves. É óbvio que uma coisa é remoer o desafio sem prazo de escuta, cabeça livre e fria, e outra é pensar ligeira e inventivamente diante de olhos avaliadores que podem vir a garantir seu salário; de qualquer forma, achei a proposta interessantíssima, por estimular no candidato a sagrada criatividade que é um dos motorezinhos empurradores do mundo (vamos combinar de não catucar muito a fundo, aqui, o fato de as empresas desejarem multifuncionários adaptáveis a tudo e "vestidores da camisa" crônicos, ou seja: gente que se vira pra fazer de algum jeito a sua função e a de dois ou três outros. Vamos, pelo instantezinho de um post, focar só no universo lindo e lúdico da criatividade como evolução, porque estou precisando dar um tempo na realidade crua, peloamor; coração fortemente exausto). Acredito, aliás, ser das características com maior grau exigido de estimulabilidade – juntamente com a generosidade e a empatia – desde que a criatura brota na Terra. Tenho visto, com tristeza, alunos de criatividade nitidamente tolhida e medrosa, alunos que não ousam um passo para além do lugar-comum em narrativas e títulos, como se a imaginação tivesse brincado insuficientemente para criar flexibilidades, alternativas, repertórios. 

Os meios básicos de turbinagem mental todo mundo sabe: leitura, leitura, leitura, joguinhos de estratégia, brinquedos de montar, leitura, bons filmes, bons programas de TV, teatro, música, leitura, contação de histórias, poemas em voz alta, massinha, pintura, leitura, revistas de colorir, passeios sem objetivos prévios, origami, recorte & colagem, leitura & leitura. Etcétera. Eu sei, nem todos têm acesso muito fácil a vários desses elementos, disponíveis para uma quantidade de pessoas longíssima do ideal. Alguns (como o livro) são insubstituíveis. Ainda assim, se os pais/cuidadores tiveram a oportunidade de ver sua própria inventividade encorajada, seu trabalho de encorajadores conta com recursos múltiplos: convocar os pequenos a imaginar nomes diferentes para as coisas e animais; pedir que respondam a perguntas cantando ou rimando; sugerir que "descubram" figuras humanas nos nós da madeira, nos traços do azulejo, na pedra da bancada – e criem para elas uma identidade e uma vida. Questionar as crianças, à moda lá do entrevistador, sobre outras funções para um pregador, um rolo de papel higiênico vazio, uma caixa de leite, uma garrafa plástica. Propor missões imaginárias para acordar o MacGyver que mora em cada humaninho (você está preso num castelo; para fugir, só tem três folhas de árvore, um prendedor de cabelo, um boné e uma escova de dentes; como você faz?). Pousar objetos sortidos sobre o papel e mandar que as criaturinhas desenhem em volta (olhem só, neste link, que inspirações maneiríssimas de um artista francês). Improvisar cabaninha na sala com mesa e lençol. Projetar sombras de mãos na parede. Organizar uma "caça ao tesouro" pela casa. Tudo isso, e mais outros tudos, a custo baixo ou zero – sem gastos significativos além de tempo e esforço dos pais. O problema é que o tempo e a possibilidade de investir esforço não raro acabam sendo outros luxos, quando carência e recessão nos esbofeteiam.

Pronto, não tem jeito, lá vou eu para a realidade crua, aquela em que o sistema vigente ODEIA estímulos de mais à criatividade de classes mais pobres que a média: circulando, circulando, vamos acabar com essa palhaçada de qualidade de vida e brincadeiras com os filhos, que precisamos deles conformados, obedientes, sem recursos nem perspectivas. Nada mais ameaçador, para a lógica da exclusão, do que jovens das camadas mais humildes recebendo esclarecimento, impulso, apetite por abrir as próprias portas e não as alheias; começando por plantar ideias e tomar gosto por seu alastramento; e se chegando, se chegando para dentro do cercadinho VIP cuidadosamente reservado para a galera do berço esplêndido. Além de cruel, entretanto, essa concentração das chances de crescimento no interior das oligarquias é de uma estupidez, de uma idiotice ímpar (como tendem a ser todas as coisas marcadas pela crueldade). Houvesse uma real celebração da capacidade e da inteligência, ganhariam todos; mais rápido as vacinas seriam criadas, mais virtuosi despontariam no violino, mais atores, diretores, fotógrafos e estilistas geniais flutuariam pelo tapete vermelho, mais chefs nos conquistariam pela boca, mais engenheiros e paisagistas desenvolveriam projetos mais sustentáveis, mais professores brilhantes alimentariam mais talentos – e o mundo feito para todos deixaria de ser um imenso desperdício de tantos. Pela sordidez do egoísmo imediatista que bem conhecemos, soa desinteressante esse gráfico com vagas para todos os ápices, todos os auges; MAIS um motivo para investir violentamente no capital criativo dos jovens cérebros: divertir-se irritando o sistema. Ninguém ignora que quanto mais uma teoria perversa guincha e estrebucha, mais o final da novela se torna prazeroso.

Combater políticas ricas em estímulos culturais para mentes moças da periferia é, em última instância, promover uma indústria da seca, tentando infertilizar terras para que se dobrem a qualquer esmola. Sigamos, ao contrário, abraçando gente que se desdobra e triplica no ato de aproveitar cada cantinho de leitura, cada roda de conversa, cada apresentação de teatro popular para plantar semente braba, semente firme, robusta. 

Essa gente que dá nó em pingo d'água.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Purple rain


Roxo é a cor do momento, de acordo com a seção Nossa, integradinha ao site do UOL. Por quê? porque a Semana de Moda de Paris acabou de acabar e a tonalidade bombou nas passarelas. Até hoje não sei, bem ao estilo dilema-Tostines, se as passarelas captam excelentemente o Zeitgeist ou se o Zeitgeist é consideravelmente fabricado no desfilar das passarelas, ou se ambos e pronto, ora bolas; mas sei que combina: uma buscazinha rápida sobre o significado do roxo e o Google já nos joga na cara, com destaque, que o tom se relaciona com "espiritualidade, magia e mistério", "transmite a sensação de tristeza e introspecção", proporciona "a purificação do corpo e da mente", "é a cor da transformação", dentro da liturgia católica é utilizado "no período da Quaresma ou nas missas pelos mortos" (só esqueceram a fase pré-natalina do Advento, em que as vestes roxinhas também representam a preparação para a vinda de Jesus, parecidamente com a época de preparação para a Páscoa). Em suma: TOTAL 2020 going on 21 – vibe melancólica mas algo esperançosa, meio barroca mas ligeiramente mais serena, de marcação de morte em vias de vida. As passarelas manjam dos paranauê.

É tempo, parece, de fazermos tim-tim de vinho tinto em amorosa honra dos que já foram e em festa aos que ficaram; um brinde aos vínculos atados, reatados e permanecidos. É tempo de assar muffins de blueberry em família, inaugurando tradições perfumadas entre os que as circunstâncias confinaram e desafiaram a novos elos. É tempo de resgatar com a filharada o mundito lilás da Princesinha Sofia, tempo de propor aventuras palacianas, gnomos, monstros do mar, passagens secretas. Faz-se já hora fundamental, necessária, de acompanhar o embate entre azuis e vermelhos da eleição americana (exclusivamente no caso ianque, torcendo para os azuis), uma vez que se trata de um planeta inteiro na labuta para salvar o pescoço de nova degola. Faz-se momento de enfrentar anemias e oxidações físicas e figuradas; de incrementar a força e o sangue com o exército púrpura de repolhos, cebolas, berinjelas, beterrabas, uvas, açaís, ameixas, figos, amoras, framboesas; de descobrir como acolher – com cuidados pessoais, políticos, terráqueos – a radiação ultravioleta; de descarregar serotoninas namorando (a)o crepúsculo. É tempo de adoçar de lavanda o perfume da casa. É tempo de vestir para Halloween as crianças (oh, please: pode sim). É tempo de espalhar tulipas, violetas, verbenas, orquídeas, lisiantos, amores-perfeitos pelos cômodos. Tempo desdobrável de espanar – não necessariamente expulsar – incômodos.

Sim, e há o mais bonito e historicamente definitivo: lilás é a cor por excelência do feminismo, da onda que não recua mais nunca; vai ter cada vez mais mulheres nobelizadas sim, mais indicadas, mais reconhecidas, mais ouvidas, mais oscarizadas – e em nenhuma das próximas décadas a tendência vai sair de moda, até o dia da explosão do Sol. 2020 esfregou no nariz do mundo o quanto as mulheres são safas na administração de crises, no emprego de orçamentos e na proteção aos seus; jamais se esquecerá essa liçãozinha translúcida, jamais soprará de ré a brisa purpurina de transformação que chegou tacando o pé na porta. Se precisar, lançamos mão de outras roxices; metemos o Coringa; metemos até (podendo escolher o que se esvai num estalar de dedos) o Thanos. Mas para trás ninguém vai, ninguém volta, nossa passarela segue mão-unicamente em frente, desfilando sua coleção de tudos: gurias na prefeitura, na ciência, na gerência, na presidência, na polícia, na política, na direção, na aviação; minas muitas, minas várias, minas de ouro, minas sim.

Ele – não.