quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Os esquecidos

Manuel Bandeira desmancha corações em seu poema “Minha grande ternura”, verdadeiro totem da doçura de sua obra, dada ao amor pelas pequenices. O final, especialmente, é de não deixar pedra sobre pedra cá por dentro: “Minha grande ternura/ Pelas gotas de orvalho que/ São o único enfeite/ De um túmulo”. Como isso é lindo, como isso é triste: saber que existem ou existiram aqueles cujos amados o tempo varreu, exilou, libertou de sentirem a ausência, e então sobraram só as menores delicadezas da vida a homenageá-los – gotinhas diamânticas, folhinhas chovidas pelo vento, borboletas que pousam quase de pantufas sobre seu sono de granito. É belo e doloroso, e muito mais isto que aquilo, conhecer essa lei do mundo inóspito; conhecer que há/houve almas respirando nas esquinas, dando história às sepulturas, guardando verdades bombásticas, e no entanto vem a pressa curiosa de viver e delas se desapega, ficando só o orgânico da natureza para embalá-las em seu ciclo hospedador.

Na impossibilidade de lembrar todos os que não sei nem nunca soube, e mesmo os que vi sem deles reter memória, mando então, aqui, minha sincera e coletiva ternura aos esquecidos. Mando na brisa, na asa da borboleta de pantufas, todo o amor abraçante aos velhinhos que aguardam silenciosamente a visita que não chegará. Mando toda a solidariedade quentinha às crianças que esperam inutilmente na saída da escola. Mando toda a brandura compassiva aos presidiários que jamais reencontraram os olhos da família. Todo o meu afeto aos que, encarcerados num qualquer vício, soltaram-se até da noção de que existiu família. Toda a minha fraternura aos artistas vistos um momento e, depois, lançados ao limbo dos poemas, vozes, imagens descartáveis. Toda a minha esforçada compreensão aos jovens desperdiçados que vingam, no crime, a indiferença que os cobriu no berço. Toda a minha empatia carinhosa aos pequenos que chamaram os coleguinhas para a festa e não foram prestigiados. Toda a minha afeição irmã aos pedintes que já não acham ânimo senão para estender o olhar aos impassíveis que passam.

Toda a minha chocada piedade aos vizinhos que morrem tão, tão solitários que só os bombeiros os descobrem, e só após semanas de decomposição abandonada. Toda a minha amizade camarada aos que atravessam sozinhos os recreios no colégio, aos que não são incluídos nos trabalhos de grupo, aos que surgem na foto da turma mas ninguém recorda, aos que são escolhidos por últimos nos times da Educação Física. Todo o meu carinho comovido aos que mofam nos hospitais sem o abrigo ou a consciência de um rosto familiar. Toda a minha estima sorridente aos que são empurrados do centro da conversa, aos que são alijados da piada e do mistério cúmplice, aos que são isolados no canto do almoço, aos que dormem sem perspectivas na ceia de Natal. Toda a possível fofura aos que, por uma insanidade de motivos, ninguém namora, ninguém vê, ninguém afaga, elege, prefere, mima, serve, escuta, preza, reconhece, fotografa, distingue. Toda a minha simpatia prioritária a esses órfãos de mundo, a essas vítimas da preguiça coletiva, da obviedade aguda de quem só busca gente alfa.

Irmãs e irmãos esquecidos, irmãs e irmãos deixados no cesto das vidas recicláveis: a vocês minha grande, minha imensa ternura de pequenina. Eu em verdade não os sei, vocês não me sabem, mas espero que nos esbarremos por aí numa amorosa festa de não nos sabermos juntos – num programa de sociedade do qual não se possa viver nem morrer à beira. Numa sonhada, suspirada e melhor terceira margem. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Magnum opus

Abro aspas para o escritor americano Henry David Thoreau: “As nações são possuídas pela louca ambição de perpetuarem a sua memória com a soma das esculturas que deixam. Que tal se esforços semelhantes fossem despendidos no sentido de aperfeiçoar e polir a sua conduta? Uma obra de bom senso seria mais memorável que um monumento da altura da Lua. Prefiro contemplar as pedras no seu local de origem”.

É verdade que Thoreau, ao publicar sua autobiografia poética e filosófica Walden, em 1854 – livro onde mora o trechinho aí de cima –, narra seu mergulho cabal em algo que, para os árcades, era só fingimento literário: uma vida retirada e florestal, simples, sem luxos, com móveis e imóveis feitos com as próprias mãos; uma espécie de Capitão Fantástico way of life. É verdade também que poucos de nós iríamos tão longe; eu mesma sou exemplo de quem adora cinemas e farmácias sempre à mão (embora inveje loucamente os dois anos em que o autor viveu plantando seus amigos, seus discos – se houvesse discos – e livros, e nada mais). Mas apesar do radicalismo de Thoreau e da improbabilidade de seguir sua entrega e seus passos, não desreconheço o quanto me toca sua observação sobre as construções, sobre as esculturas. Uma coisa é simpatizar com as comodidades básicas; outra, diferentíssima, é dar glórias ao cimento, é identificar evolução e cultura com as toneladas mortas de granito e mármore que constroem uma cidade grande.

Cidade não pode aparecer grande na estrutura e ínfima em ser-humanidade. Escolas, hospitais, habitações frescas e boas são paredes obrigatórias, ninguém discute, mas no mais é preciso evitar tijolos antes de se edificarem ideias. É preciso que a alma dos teatros palpite no que é intenso e filosofável, e não apenas na ostentação do patrocínio ou na curiosidade da moda. É necessário que as estátuas dos parques estejam abençoadas pelo afeto público, não somente pelo vazio respeitador ou pelo olhar que não picha, mas também não enxerga. É fun-da-men-tal que as assembleias, tribunas, prefeituras não sejam acarpetadas de salas impenetráveis, de corrimões veneráveis e hostis, mas sejam sim tomadas pelo povo, feitas de povo, transbordantes de povo por veias e artérias. Museus devem ser baús de memória rendada, carinhosa ou difícil, mas afetiva sempre, como histórias de avós – e não templos de intocabilidade e símbolos de chatice ritual. Universidades e mecas de eventos devem ser debatódromos. Igrejas devem sobretudo ser roçados de amor, e não novos santuários de dinheiro. Secretarias têm a obrigação moral de nos ser secretárias. Bibliotecas – nossos parques de diversão. Shoppings – nosso ar-condicionado gratuito, acolhedor a todos que compram ou não compram.

Não adianta, ó caros, ter massa urbana bonita e dourada se o recheio não for de gente. Acaba só ficando para nós um bruto mar de concreto cercado de ilhas por todos os lados. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Enucleadores

Pode se horrorizar, irmão: gosto de programas de psicopata, tanto verídicos quanto ficcionais. Evidentemente (espero que evidentemente) não tenho a menor tendência para a psicopatia; sou pouco sentimentaleira por motivos de introspecção, desajeitamento e superego, mas não CONCEBO como alguém possa desamar gratuitamente – e o que há de mais pavoroso: ter gratuito prazer em causar dor. Céus, fico um dia inteiro me açoitando mentalmente se falo mais grosso com um aluno. O simples fato de não conceber atrocidades, porém, é a exata garantia para curtir essas séries, como um salvo-conduto (“oooolha como eu e meus amigos somos legais, nunca seríamos capazes de cometer umas tais aberrações”). Mas há outros porquês. Um deles: prefiro esperar o melhor sem deixar de conhecer o pior de nossa espécie, para entender, para identificar os prenúncios. Um segundo motivo, e mais assustador que os monstros mesmos: vendo programas de psicopatas longínquos – que matam lááááá nos Estados Unidos ou mataram há muuuuuitas décadas –, a gente deixa o terror igualmente distanciado, canalizado, redomizado. É tanta e tão extrema a malvadeza desse povo que vira troço irreal, e mesmo o que não é ficcional parece sê-lo. Aí vem a razão essencial: assistimos a tudo sob a promessa de segurança das paredes ar-condicionadas que nos abraçam.

Não se assustem, portanto, de eu não me assustar com episódios (televisivos) de gente mergulhando gente em ácido, fazendo peruca com cabelo de gurias assassinadas ou enucleando os outros por esporte (sim, tem psicopatia que cisma até de arrancar os olhos alheios). São estapafurdices isoladas, improváveis, coisas de Jigsaws específicos. Mas quer me deixar 100% doente d’alma? No Brasil atual, tá moleza: me exponha à perversão sinistra, kafkiana, enraizada e coletiva que se tornou esta distopia de fazer Orwell babar de inveja. Me mostre a náusea de um sistema criminalizando ex-presidentes – legítimos – por um certo manejo e aplaudindo “presidentes” golpistas pelo mesmo manejo. Me esfregue na cara um projeto sugerindo ensinos em que História e Geografia não sejam perenemente obrigatórias (e uma propaganda exibindo vítimas que vão para o abate sorrindo de orelha a orelha). Me obrigue a ver manifestações em que aposentados apanham por não receber, em que professores e médicos levam bala e gás por não quererem ser duplamente descontados. Me soque no queixo com uma chantagem emocional pública, falsa, repugnante, nojenta, um pretexto imundo para privatizar apenas a água –  a.k.a. o maior bem e maior recurso do terceiro milênio. Me faça vomitar com campanhas em que trabalhadores de ar-condicionado (e de expediente terça-quarta-quinta, e de auxílio-paletó, e de gorda aposentadoria após menos de uma década) convencem fofamente o lavrador que trabalha desde os onze a achar top se aposentar depois dos 65. Me ponha diante desse nível repelente, torpe, asqueroso de deformidade humana, próxima e pairante, e aí sim – aí sim encarnarei a mocinha de Thriller, com gargalhada em off mas sem fim de pesadelo.

Vou te contar: o que os meus e os seus olhos já não podem ver é exatamente o que devem. O que precisam. Não tem FBI que resolva coisas que só nossa união pode deter. Fundamental, infelizmente, é que seja generalizado o horror: é impossível fazer a revolução sozinho.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Defendendo o mundo

A menininha no restaurante (não devia ter mais de oito anos) usava blusa estampada com três heroínas dos quadrinhos e a legenda: “Girls defend the world”. Fiquei orgulhosa da pequena e dos pais que lhe puseram figurino tão superpoderoso. Nada contra as princesas Disney; amo todo o universo Disney, e as protagonistas vêm tendo a beleza e autenticidade de se tornarem o que sempre deveriam ter sido: garotas porretas que não precisam de marmanjos para salvá-las, para lhes fornecer metas de vida ou garantir o happy end. De qualquer modo, as lindinhas das animações para-toda-a-família acabam se tornando ícones de estilo vaporoso e delicado, enquanto as gurias de capa – mais urbanas, menos de época, mais com cara de gente que come pão na chapa, estuda e bate ponto – envergam a praticidade que melhor lhes permita voar, saltar e chutar caçando bad guys. Mais parecidinho, em verdade, com o jeans esperto, a legging e o uniforme que tantas heroínas factuais usam para matar quarenta e sete leões antes do almoço.

Sim, as meninas defendemos o mundo – e eu nem preciso dizer de quem. Em geral não somos nós que entabulamos guerras (Jesus, que coisa mais cretina a guerra!), em geral não somos nós que passamos o dedinho na verba pública, no geral não fomos nós que ligamos calhordamente a motosserra em cima do planeta. Não venham nos acusar de ter promovido a maioria das cruzadas, de ter criado a tortura das crucificações, de ter escrito o Martelo das feiticeiras, de ter sedimentado as bases do nazismo. Certo, não somos inocentes, fomos muitas vezes alimentantes da fera (síndrome de Estocolmo detected, sisters), mas somos em grande parte sobreviventes e paladinas desta Terra sistematicamente violentada.

Se já criamos armas, não sei; infelizmente, é de crer que sim; sei, porém, que sem Maria Beasley não havia botes salva-vidas, sem Anna Connelly não havia escadas de incêndio, sem Maria Telkes e Eleanor Raymond não havia painéis de energia solar, sem Letitia Geer não havia seringa médica, sem Stephanie Kwolek não havia coletes à prova de bala, sem Ada Lovelace não havia algoritmos de computador, sem Hedy Lamarr não havia sistema Wi-Fi. Porque alguém tem de pensar nas alternativas: no que fazer quando um testosterônico monstro do mar afunda, quando a fumaça rouba as fugas dentro da maior construção que seja, quando a energia do chão extorquido se esgota, quando o peito fica exposto à droga de bala já inventada, quando os fios começam a confinar os passos. Mulheres somos sinuosas e acostumadas a desviar da dureza, a driblar o limite; o mundo masculinizado é pedra, nós somos água. Temos a força do vento, da abelha, do escudo. Somos o poder menos óbvio, a contundência do sutil que dá bug no circuito do colossal. Meninos: fazemos amor enquanto vocês brincam de guerra.

Antes de ficarem ressentidos, superboys, pensem com ternura nas mulheres da Mesopotâmia e da Suméria, que há mais de 7 mil anos criaram e aperfeiçoaram a cerveja. Cheers! 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Não ser obrigada

Sempre curti programas ao estilo Esquadrão da moda, desses que pegam um ser humano desmazelado e sem noção – que anda no mercado de pijama, só usa modelito de dominatrix, coleciona peças de número dezessete vezes maior ou menor, vai com camiseta do Bob Esponja aos casamentos de família –, repaginam, repenteiam, remaquiam e voilà! transformam em capa da Vogue ou boniteza parecida. Gosto dessas bobagens por justamente gostar de bonitezas: cores, modas, estampas, potenciais finalmente explorados. Os ex-desastres fashion germinam, melhoram a autoestima, arrumam crush, ganham promoção no emprego, param de matar os filhos de vexame na porta do colégio, uma coisa maravilhosa. Então, se estão todos bem, que mal tem, right?

Isso penso eu mui candidamente, enquanto me divirto com as figuraças de um Mude meu look, e ainda assim não consigo ignorar um pontinho de interrogação arranhando o forro da consciência. Ver gente se gatificando é show de bola, mas o raio problematizador teima em saber: por que mesmo que gente tem de ser gatificada?... Está provadíssimo que a criatura fica alegre, e é melhor ser alegre que ser triste, e é mais fácil descolar um job quando se põe camisa social e não orelhinhas de Minnie, e é mais provável atrair um partner exibindo acessórios hype e não dentes de vampiro. OK, é mais fácil e mais provável. E é precisamente isso que me atormenta. Ao resistirem de início à intervenção fashionista, as vítimas quicam, gemem: não quero ser modificada pelo sistema, não quero ser profissionalmente avaliada pela aparência, não quero ter alguém que não goste de mim pelo meu caráter e acabou-se. Pouco a pouco os apresentadores persuadem, instigam, aconselham, fazem exercícios de interação que esfregam na cara o quanto as pessoas são julgadas sim à primeira vista, pisam e repisam que para aquele fracasso não tem jeito, o mundo é assim, o melhor para você – para seu salário, sua causa, seus filhos, casamento, projeto, coração – é se encaixar. Aí vai a moça (99,8% das vezes é uma moça) e, fazer o quê, se encaixa. Se encaixa e diz que se encontrou, que aquela foi a melhor experiência de sua vida.

Tá bom que sou chata e nunca neguei, mas me dói. Dói que quase sempre sejam mulheres as examinadas, dissecadas, categorizadas e reformadas, ou seja: que quase sempre sejam mulheres as inadequadas, as rebeldes ao formato de beleza que chamaria os homens, as indiferentes ao modelo corporativo que não assustaria os investidores, as fujonas do molde que confortaria os clientes. Claro, a mulher não tem maior diversão na vida do que pensar em cobrir a raiz aparecendo administrar secador fazer babyliss escolher esmalte suave batom vermelhão não! o colar tem de ser discreto esse faz barulho o brinco não pode balançar passei o corretivo direito? sumiu a espinha? vou colocar broche para diminuir o decote a saia tem de ser no joelho jaqueta acinturada vai me valorizar preciso de band-aid pra encarar o salto alto, antes de fechar negócio – enquanto o homem fecha negócio basicamente tomando um banho, cortando a unha e enfiando um terno.

Homem não se submete a transformações porque amigos o acusam de parecer piranho, homem não tem o grisalho tratado como desleixo, homem não ouve dos parças que fica abatido quando sai sem maquiagem, homem não tem de estar nem aí se está mostrando peito ou coxa, não chamam homem de espandongado se acabou de virar pai e só veste calça jeans e T-shirtão. Não posso portanto, mesmo que me exponha à Palma de Ouro da apoquentação (who the hell cares?), ignorar o desânimo que bate na aorta toda vez que nos vejo como penduricalho do mundo. Não me lembro de ter firmado contrato que me obrigasse à sedução e ao agrado compulsório. Não me lembro de ter assinado compromisso de bibelô ou almofada. Não combinei com ninguém que iria adotar saltos e tintas destinados ao meu corpo, à minha revelia. Não tenho culpa, amados todos, se quiseram decidir nossa estética como quem nos trama um casamento de conveniência, nem lamento quem estrebuchar no chão com crise de abstinência se não vir a rua enfeitada de pingentes femininos. Se não gostarem, gentes, não olhem. Se dependerem de batom e salto para aceitar um acordo de milhões, clientes, se tratem.

Cresçam, fofinhos que ainda precisam de móbiles coloridos no berço. Lá pelos dez anos de idade, já deixa de ter desculpa escolher um livro só pela ilustração. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Cabelo fantasma

Uma prima chama assim aquele fiozito solto e fino, muito fino, tão fino a ponto de o sabermos presente em algum lugar sobre o olho, mas não o conseguirmos agarrar: cabelinho fantasma. O danado catuca, irrita e ninguém o vê, ninguém o captura, vamos mil e sete vezes ao espelho e o coiso não se mostra, a amofinação não se materializa, a gente em dois minutos começa a se espancar com grave risco de ser encaminhado ao Pinel. Pois se azucrina desse jeito uma indefinição palpável, feita de moléculas arredias mas sólidas, quanto não enerva aquele catucador fantasma que duplamente não se deixa encontrar – que é fujão e metafórico? Quanto não nos assombra aquele sentir solto e fino, muito fino, tão fino a ponto de nos pinicar n’alma sem deixar paradeiro, sem dar o endereço do que falta, sem marcar com migalhinha o itinerário da dor?

Vou meter uma estatística no achômetro: pelo menos 87% do que aterroriza a humanidade são sentimentos fantasma – o tipo que não tem nome literário nem científico, que escorrega de uma entrelinha para outra, que a gente reconhece exatinhamente nos contos da Clarice mas é que nem estrela: quando se olha muito fixo, se deixa de enxergar. É uma vaga e culpada infelicidade, um desconforto que normalmente se acomoda dentro das chateações conhecidas.

Você, por exemplo, é aquele mulherão estonteante que tem gatinhas adolescentes como filhas, e tudo são amizades e risos e paraísos. Vai ver, porém, a embrulhada que o cérebro empurrou para a masmorra: apesar do orgulho luminoso das meninas, você tem invejinha do corpo delas, você queria de novo suas primeiras vezes, você morre de vaidade de achar fácil algo que elas ainda veem com horror, você se deliciou por um segundo com o olhar guloso que um dos jovens genros lhe atirou, você espera que elas sejam perfeitas mas continua preferindo ser a deusa suprema, você adora os privilégios da adultice mas não se conforma em abrir mão das idades que já lhe pertenceram. E continua sendo uma mãe apaixonada, e uma megera ciumenta, e uma fada ressentida, e uma leoa exclusivista, e uma empresária de miss, e uma madrasta jogadora. Não adianta trancar o calabouço mental, vai ter mais, vai ter sempre mais, vai ter gente ali em você que você não suspeitou nunca, e o único jeito é faxinar com a mais sincera frequência. Limpar, esvaziar, etiquetar com insistência humilde é paliativo; no entanto, evita que andemos sempre em nós às cotoveladas com aranhas invisíveis, às apalpadas no meio de nossas baratas voadoras.

Você ama seu trabalho porque decidiu sobreviver melhor a ele, mas na verdade odeia ter de trabalhar, não por causa dos colegas e sim do fato de acordar tão cedo, embora você renda melhor de manhã e seja louco pelo perfume fresquinho da pós-aurora, por mais que demore um pouco para pegar no tranco e acorde com os olhos desagradavelmente embaçados; só que o tempero do restaurante ao lado do trabalho lhe dá um excelente motivo para viver, e às vezes você tem um sopro de impressão de que só está trampando ali porque, um dia, pretende largar a bodega toda e convidar o dono do restaurante para sócio. Você sente essa loucura inteira enquanto se encolhe de frio no metrô, e não está bem certo se a náusea vem desse ar-condicionado desgraçado ou da lembrança de que não aguenta mais ter de colocar programa para gravar e não ver nada. Não és doido, coração: és mais um Homo sapiens que não sapiens tanto assim como dormir com esse novelo de angústias, essa coleção de alegrias e aflições simultâneas, impegáveis e indistintas. Fingimos ter foco para não sermos despedidos, mas o que somos é isso aí, é essa coisa: pensamos no velho cheiro de maçã verde da infância, em flashes de uma convivência de faculdade, depois sacudimos a cabeça para espantar uma música odienta e, no fundo, o que realmente estamos é apavorados de ver todo um grande conjunto de felicidades ruir de repente, inclusive o insubstituível tempero do restaurante.

Bad news: só na morte vamos perder esse fiapo impreciso que nos aporrinha cada momento. Mas a boa do dia é que esse fiapo é via de mão dupla – podemos do nada ser felizes à toa, e não conseguir evitar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

E já foi à Lua

Fábio aqui resmungando que o homem já foi à Lua há quase meio século e ainda não conseguiu pôr uma linguetinha decente no pacote de biscoito – uma que realmente abra o biscoito, em vez de soltar na mão dos compradores bocós. E ah! se tudo fosse a execrável lingueta, que causa a máxima tragédia de amofinar gente e espalhar farelo! Fico besta que a humanidade capaz de descobrir penicilina, inventar ar-condicionado (graças!), enfiar 20 mil quaquilhobytes de dados num troço de meio milímetro, escrever Grande sertão: veredas seja o mesmo bando de incompetentes que ainda não debelou o trabalho escravo, que no lugar do estuprador culpa a vítima, que xinga pessoas de pele ou camisa de outra cor. Sinceramente, indivíduos da espécie: todo dia cês me matam de vergonha.

O homem já lidou com a desgravidade da Lua e ainda não aprendeu leveza; arrasta um bonde diário e desnecessário nas costas, entre dúvidas facilmente perguntáveis, raivas facilmente resolvíveis, medos facilmente esclarecíveis. O homem já usou roupa de Lua e ainda não sabe que não se pode furar a proteção do outro, não entende que ele talvez dependa dessa embalagem emocional para respirar. O homem já esteve na Lua e ainda não chegou para fechar crateras ali na esquina, botar hospital para formas biológicas conhecidas, levantar escola para nossos 7 bilhões de vidas inteligentes. O homem já se exilou na Lua e ainda finge não saber como funciona o ser refugiado, rejeitado, bullyingado, marginalizado. O homem já viu a Terra da Lua e ainda não olhou direito aqui mesmo do quintal: não se convenceu suficientemente de que por cá o negócio esquenta, treme, alaga, derrete, morre a cada passo em falso. O homem já teve impulso para se lançar à Lua e ainda não tornou natural o movimento de estender mão, ceder o braço, apertar no peito, emprestar o ombro, hospedar no colo. O homem já saltitou na Lua e ainda não largou essa mania de acordar e dormir travado, trabalhar em gaiola, viver oito nove dez horas laranja-mecanicamente preso no celular, no carro, no ônibus, no computador. O homem fez foguete pra Lua e não se abala para consertar um aparelho de mamografia; estudou para ir à Lua e não encara uma droga de interpretação de texto; seguiu instruções para atingir a Lua e não se coça para pagar salário de professor; analisou material da Lua e não examina um processo antes da morte ou loucura do solicitante; plantou bandeira na Lua e não joga uma sementinha para arborizar bairro escaldante de periferia; tascou nome em regiões da Lua e não estranha que alguns terráqueos não consigam receber carta (luz, água, zelo) em seu próprio endereço. O homem alunissou bonito, mas para aterrissar não está lá essas coisas: flutua mal, cai em todo lugar feito chumbo, anda que nem besta brava, faz do objeto não identificado o judas de sua predileção.

(São Jorge, por favor: me empresta o dragão.)