quarta-feira, 12 de abril de 2017

Exatamente isto

No bárbaro Boyhood, uma das cenas mais perturbadoras em sua simpleza mostra a mãe do protagonista se lamentando pelo fato de o menino estar indo para a faculdade (e a gente sabe que ir para a faculdade nos Estados Unidos means: sair da casinha onde se cresceu e, tudo dando certo pelos parâmetros americanos, nunca mais voltar). A personagem desolada diz que aquele é o pior dia de sua vida – vida que ela resume rapidissimamente em uma série de marcos: casar, ter filhos, se divorciar, ensinar o filho a andar de bicicleta, se divorciar de novo, fazer mestrado, conseguir um bom emprego, mandar a filha para a faculdade, em seguida o caçula... “Sabe o que vem depois? Hein?” – questiona ela exasperada – “A p**** do meu funeral!”. O garoto fica surpreso com o desabafo e pergunta se a mãe não está se adiantando em meros 40 aninhos ou coisa assim. Ela suspira, todos nela suspiramos: “Eu apenas pensei que haveria mais”.

Pois é. Pensamos. Décadas antes de pensarmos e de vermos Boyhood, Clarice disse: “Quando se realiza o viver, pergunta-se: mas era só isto? E a resposta é: não é só isto, é exatamente isto”. Se a gente entra no viver que nem em filme da Marvel (já ansiosos pelas 2, 3, 4 cenas pós-créditos), se a gente espera o almoço inteiro pela apoteose da sobremesa, se a gente engole a comida ogromente já na ganância de repeti-la, danou-se. Danou-se porque não se vive no finalmente; vive-se no por enquanto. A vida não são os marcos – que, como o nome já diz, existem para nos organizar mental e emocionalmente, para nos dar referência do quanto já percorremos, para enfarolar a biografia. A vida é justamente o espaço entre eles; aquela sopa existencial em que se está mergulhado da primeira à última hora; toda a maratona entre o choro que abre e o suspiro que fecha. A vida é a argamassa, é o grande enquanto-isso.

A vida está lá superacontecendo no ponto de ônibus, e não é preciso que ali se conheça o amor de todos os tempos, que se pegue o exato carro que vai ser assaltado, que se receba a ligação dizendo que seu filho nasceu. A vida está em cada jeito de cumprimentar o motorista, está no flash de reconhecer que eu não precisava ter falado daquele jeito, está na decisão que se toma de excluir do celular todas as músicas mais ou menos (se é para aguardar o que quer que seja, que se aguarde com direito à alegria legítima), está no chocolate que se resolve não comprar para dar sequência à dieta, está no modo visceral como nos surpreendemos com o menino de rua e nas reações de desconfiança que a gente não queria ter, mas tem. Naqueles dez, quinze minutos a vida se desenrola num átomo de preconceito que se gera ou se quebra, num dilema nutricional que não deixa de ser filosófico, numa iniciativa musical que na verdade é uma pequena libertação do supérfluo, num questionamento da personalidade, ufa! e, quando alguém pergunta o que aconteceu no nosso dia, a gente resmunga que nada. Viver, esse hábito que escorre entre os distraídos.

A vida está a pleno vapor num encontro normal de lanchonete, mesmo sem pedido de casamento: arrisca-se um sanduíche novo, o paladar fica mais propenso a descobertas, a coisa se alastra e, daqui a vinte anos, você está mochilando na Nova Zelândia sem nem remotamente lembrar aquela data. A vida está em marcha ainda que se fique por 37 anos escondido num porão; você pode não ter estudado Agronomia nem feito um filme nesse tempo, mas pensar não era algo evitável, seu cérebro continuou se desenvolvendo solitário e neurótico – e o corpo, claro, é o exato reflexo da falta de movimento e luz; querendo ou não, por todas essas décadas continuou o processo de se construir ou destruir uma pessoa. A vida transcorre feroz em cada incomparável bad da adolescência, em cada notinha de cada teste que se gruda em nossa autoestima, em cada moeda heroicamente depositada no porquinho, em cada livro esquecível que, porém, foi-nos tijolando a personalidade, em cada almoço de família que nos deu um curso completo sobre o Homo sapiens, em cada texto de Facebook que foi alinhavando ideias apenas suspeitadas, em cada dia normal de trabalho no qual talvez tenhamos lançado uma frase casual que vai afetar decisões pessoais e profissionais, em cada hit que se cola no ouvido interno e muda ações e humores. A vida não é bissexta, é contínua, é permanente, compulsória; olhamo-la como quem olha as árvores de um bosque, quando melhormente a entenderíamos com olhos de bactéria (perdoem-me a heresia biológica), que enxergam não os baobás gigantões, mas a infinidade absurda de micro-organismos. A vida é exatamente isto: essa louca rede de filamentos mínimos, essa teia de detalhes que subestimamos, essa coisa ininterrupta que ri na cara das metas, essa viagem perene entre quem fomos há dez minutos e agora somos, essa avenida caleidoscópica que se justifica em si mesma. Essa água corrente.

Quando a vida chega ao mar, acabou-se a água doce: o que éramos se incorpora a um todo maior. Enquanto temos margens, vamos ser plenamente rio.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Alergias

Oficialmente tenho alergia a poeira, ácaro, barata (sério: barata) e uma leve intolerância à lactose. Acabei de espirrar agorinha mesmo, com essa espécie de autodefesa que quem acorda pratica, ao sair da rave de microsseres no travesseiro. Mas eu queria em verdademente espirrar do mundo ou da vizinhança, com a mesma eficiência, umas alergias outras que não arredam com spray nasal, comprimido ou colírio, que não se assustam com cânfora nem soro nem bromelina, e andam pelos quarteirões acabando com meu nariz emocional.

Tenho alergia, por exemplo, a papo coxinha fático. Claro, a papo coxinha em geral; porém aquele estabelecido, já sólido no meio da conversa, a gente está na vibe de contra-argumentar com vigor, a gente está (que jeito) no espírito de receber e retorquir, enquanto o fático nos aborda desprevenidos na fila do hortifrúti, nos encontra cansados no que deveria ser o recesso do táxi, e apenas aborrece as células sem perspectiva de persuasão nem continuidade. Não queremos barraquear no caixa do mercado nos exaltando contra os clichês do mau senso comum, não temos tempo nem gás para perder a sessão de cinema esmurrando ponta de faca, não estamos organizados mentalmente para escancarar nosso arquivo de fatos, então um mero silêncio impaciente ou um suspiro de desgosto respondem à exposição de germes – e vida que segue. Vida que segue inoculada. Abalada. Indisposta.

Tenho alergia a gente buzinando, martelando, cobrando, repetindo, me colocando em estado de zoeira cerebral; fico estomacalmente afetada por nuvens de ruído e ansiedade, necessito pensar e respirar limpo, senão é dor, dor, dor. Tenho alergia aos jornais ora cheios de olhares dramáticos, ora bobo-alegremente circenses, mas sempre odiosos e manipulentos da Globo. Tenho alergia à síndrome de capitão do mato: gente que não enxerga a própria dor e a própria história, que compra-defende-justifica-aplica em outrem o mesmo cabresto e chicote que lhe são aplicados. Tenho alergia a ingerências, perguntações e mexeriquices alheias, já que sou naturalmente reservada e preguiçosa de explicações verbais, Amélie Poulain por fora e cavalo impossuível por dentro. Tenho alergia definitiva a arrogâncias e preconceitos: é o CÚMULO da absurdidade nos acharmos – nós, porcarias que somos pó e ao pó voltaremos, atchim – melhores pela cor de um órgão, pela pronúncia de uma sílaba ou pela quantidade de papel na gaveta. Tenho alergia a modas e necessidades compulsórias. Tenho alergia ao que é grosseiro, desrespeitoso, violento; ao que é incoerente ou muito óbvio, ao que é afetado ou banal.

Tenho alergia ao dia sem efeito, à vida sem propósito e ao término sem final.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

39 verdades e 1 mentira

Tenho cinco cores preferidas, nenhuma das quais foi usada nas paredes aqui de casa que fogem do bege. Sempre achei mais fofildas as bonecas pretinhas. Eu jamais teria ficado com o Raoul: viveria subterrânea e lovemente com o Fantasma da Ópera. Eu provavelmente adotaria uma criança se quisesse ter filhos, mas, infelizmente, a ideia da maternidade me aterroriza. Meu personagem amado de Criminal minds é o genial, avoado e franzino Spencer Reid. Sofro de uma incompetência vergonhosa em me localizar. Se fosse escolher dois superpoderes impossíveis: eu me teletransportaria e seria capaz de persuadir pessoas com um toquezinho. Amo as Audreys – Hepburn e Tatou. Adoro os rosas – flor, cor, Noel, Samuel, Murilo, Guimarães. Lá pros 13 anos, deixei o aparelho móvel cair numa poça da rua. Passei de isentona desinformada a esquerda consciente e convicta.

Já cinderelei duplamente numa festa junina dos primeiros anos de escola: consegui perder os dois sapatos na quadrilha. Gosto montes de dançar, mas não espere que eu saia à noite, baby. Misturo termos de outras dimensões e outras línguas porque um só idioma é cheio de insuficiências. Dificilmente uso caneta que não de quatro cores. Não acredito em horóscopo, então a informação de que alguém é taurino com ascendente em Leão e lua em Capricórnio soa, para mim, como o teorema de Pitágoras explicado em sânscrito. Já comprei livro de esperanto em um sebo de rua com o único fim de achar nomes legais para personagens. (Entretantomente, tenho uma preguiça monstro de escrever ficção.) Eu dizia que iria fazer mestrado, mas agora penso what the hell e sinto friacas de horror ao lembrar o dialeto acadêmico. Um dia considerei bonitas as mesóclises cafonééééérrimas. De esporte, só tolero ginástica olímpica e patinação no gelo (para assistir sentadinha, é claro).

Nunca tive uma Barbie. Nunca viajei sozinha. Nunca li Macunaíma. Meu cabelo é virgem. Não sei fazer as unhas. Não gosto nadinha de macho alfa. Não sou fã de lasanha. Meu organismo tem antipatia por lactose. Entrei pela primeira vez no Maracanã aos 24 anos. Outro dia sonhei que um cara dentro do metrô me entregava 200 euros (estou aceitando). Odeio palmito. ODEIO cigarro. Aprendi a gostar de (algumas) sopas. Olho tanto homens quanto mulheres quando são bonitos, pela paixão purinha das coisas bonitas. Sou mais de acarinhar do que de ser acarinhada. Sou louca em tecidos orientais. Levo garrafinha d’água na bolsa o tempo todo. Sento sempre na ponta porque, com a timidez dos livres, curto poder voar sem incomodar ninguém.

(Uma mentirice só, que também incomoda nada: essa datazinha 10 aí da publicação. O texto nasceu depoooois, preguiçoso, macunaímo, inocente e pós-datado. Mas que voe agora, que é quando ficou sendo – voe este filho todinho eu, gêmeo meu com ascendente em insuficiências.)

domingo, 9 de abril de 2017

Dar um brevê

Concordar que os outros voem: há nada mais difícil? Deixá-los voar, em nosso coraçãozinho doente mas compreensível, significa nos fazermos desnecessários, e todos sabem que não queremos realmente cumprir a missão: queremos tê-la. Se filhos, amigos, parceiros ganham tutano de voar sozinhos, automaticamente viramos nós os desacompanhados, os que esperam no ninho, os que já fizeram o serviço e precisam de novo mote para a agenda, os que devem buscar nova história, os que receberão as novidades ao mesmo tempo que os ilustres conhecidos e não mais com o selo VIP da primeira mão. Não é tranquilo admitir, não é bonitinho nem fica bem no currículo – mas há preguiça em muito de nossa generosidade, já que é frequente nos ancorarmos e escorarmos na dependência alheia por total cansaço de descobrir o que mais nos chama.

Quando professores, temos sim alguma dor de ver os ex-alunos caríssimos falarem de seus professores mais atuais, ainda que no nível seguinte, ainda que na faculdade – porque um trechinho possessivo de nós os deseja nossos eternos protegidos, nossos apegadinhos, mergulhados em dúvidas que ajudamos a sanar, recém-inaugurados no caminho que lhes começamos a abrir. Quando confidentes, sentimos carinhoso ciúme de pilhar nossos aconselhados finalmente bem, finalmente livres dos tormentos velhos, pois com os tormentos velhos parece que vai embora a carência de nós, rompe-se o preciso laço que nos unia. Quando pais, ó céus! eu que não sou mãe apenas suspeito da orfandade vivida em se encerrando nossa onipotência. Ainda ontem cortávamos o bife para o Asdrubalzinho, ainda na semana passada éramos só nós que sabíamos compor a trança da Godofredinha, ainda este mês nosso sanduíche era o único que prestava na hora da merenda, nossa leitura pré-sono era a única que fazia direito as vozes das princesas; em que momento e com que licença essas criaturas, que não sabiam colar um band-aid, resolveram viajar com os Médicos sem Fronteiras? em qual esquina deixamos de ser fundamentais para passar a roupa daqueles seres que agora morarão sozinhos – em Amsterdam? em que instante ficamos descartáveis? limitados? mortais? humanos? comuns?

Sim, nosso amor racional quer que os amados se ampliem, se curem, se joguem no mesmo imenso azul que ambicionamos, ótimos e estáveis. Mas nossa imitação 1,99 de amor – versão pirata, de bateria mole, parasita e grudenta – não quer celebrar sucessos, quer simplesmente guardar o outro em sua fraqueza que nos engrandece por comparação, ou que nos reclama por necessidade. Não significa que sejamos monstros horríveis; quer dizer meramente que talvez não sejam (apenas) nossos amadinhos os carecidos de ajuda. Se chegamos a ser visgo e não trampolim, se nosso impulso é esconder e não encorajar, se somos chantagem em vez de clareza, problemas na área. Possivelmente somos nós tão prisioneiros quanto aprisionadores, e nós os mais precisados de consulta, mesmo que não estejamos empalhando passarinhos no Bates Motel.

O amor, por natureza, é leve. Não afoga, não tolhe, não prende, não pesa com a presença. Se principia a dar dor nas costas é porque existem tumores e temores para remoção. 

sábado, 8 de abril de 2017

O Sol

Victor Hugo disse que “a verdade é como o Sol. Ela permite-nos ver tudo, mas não deixa que a olhemos”. Poucas vezes vi definição tão linda e economicamente precisa, porque, em tempos de fragmentações exageradas e quase doentias relativizações, engatou-se a mania terrível de desacreditar o verdadeiro, apenas por não se conseguir captá-lo no meio da geral loucura. Pois não vamos captá-lo mesmo, ao menos assim, integral e totalmente nosso; não vamos captá-lo porque a verdade não é a gambiarra universal, o canivete suíço que para tudo serve e em tudo se encaixa. A verdade não é a resposta única, que por enquanto não nos cabe, ou não cabe em nós – mas é o farol de quantas respostas certas existirem, dela vindas e nela espelhadas. Feito a viagem em que não acharemos nunca todas as bonitezas reunidas num só lugar: a verdade não é cada destino. A verdade é o passaporte.

Quando nos espojamos na sala a montar um quebra-cabeça de mil e oitocentas peças com todos os filhos e sobrinhos, a verdade não é cada pecinha: é a lâmpada. Quando há bafão na reunião de condomínio e um alega –X, e o outro responde +Y, a verdade não está sozinha em nenhuma das parcelas: está na conciliação. Quando se põe em dúvida a condição vitimada da vítima e se insinua que o crime não foi somente do criminoso, a verdade berra de cima, de sua cadeira de lifeguard: não, não, não! fator algum se sobrepõe ao direito à vida física e emocional, e esse holofote supremo apaga todos os “mas” e “poréns”. A verdade não mora em cada sótão de coração humano; mora na faxina que os escarafuncha, na claridade que deixa nuas as dores e as sordidezes, na dedetização que evoca baratas e ratos de suas tocas, na lupa que flagra os cupins, na intuição amorosa que descobre as cartas há tanto amarradas com fita de seda. A verdade não é o que vê nem é o visto: é o que faz ver, o que varre, escancara, franqueia, ilumina. Procurá-la não é bem o caso; obedecer-lhe é que é preciso.

Verdade e amor não se entregam como resultado porque desde o início já eram a motivação.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

No meu tempo

Sempre que alguém quer enfatizar que as décadas passadas, sim, é que eram porretas, costuma tascar o típico: “No meu tempo...” – mania que me incomoda um monte. Um bonde. “No meu tempo” em geral puxa memórias em tom de sépia, madeleines de infância, primeiríssimos amores, anos dourados com bailes de formatura, vida sem tevê a cabo (ou sem tevê, ponto), matinê, patins, Pogobol, a gente nos primórdios da gente mesma, fresquinha de felicidade inocente. É um tudão lindo e falso; primeiro, porque não recriamos com nenhuma eficiência o que supomos lembrar – é um processo muito, muuuuito seletivo que embaralha as cartas conforme o capricho do jogo, daí a facilidade de produzirmos “provas” imateriais para qualquer tese. Segundo, porque botar o “nosso tempo” num pretérito perfeitíssimo faz parecer que lá estamos inteira e igualmente, fechados e embalados num passado a que já não devíamos pertencer e, portanto, expulsos do restante da vida, mais conhecido como agora. Se antes era nosso tempo e não atualmente, somos então mortos oficiais, protagonistas de apocalipse zumbi, cadáveres adiados que procriam (nas palavras de P’soa)? estamos – por gentil hospedagem dos que ainda não dizem “no meu tempo” – habitando os acréscimos, caminhando para os pênaltis? vivemos já como quem não vive? existimos como quem meramente continua?

Particularmente, pretendo até uns 457 anos permanecer no meu tempo. Não significa que adotarei todas as modas e redes, que amarei todas as feições e mudanças, que me incluirei em todas as novas fomes, que compartilharei de todos os recentes usos. Fosse eu assim vária e moldável, o tempo não necessariamente seria meu: eu é que seria dele. Não; o tempo será bastante meu enquanto soprar vida, e meu para criticá-lo, meu para volta e meia xingá-lo, meu para fruí-lo, meu para o que der na tê-lho. Enquanto escorrer areia da ampulheta, vou eu mesma tingir o tempo de minhas estampas, vesti-lo de minhas saias, dar-lhe meus costumes, inscrevê-lo em meus motivos. Enquanto os ponteiros deslizarem pimpões, vou modificar meu tempo, influenciá-lo, retocá-lo, cocriá-lo, codesenhá-lo, ajudar a dar-lhe cara e voz, agir sobre o retrato que dele ficará na parede, estar presente e agente em suas metamorfoses, barquear em suas marés, sentir em primeira mão suas páscoas e seus desalentos, seus golpes e suas evoluções.

Meu tempo não era exatamente o de criança, quando vivia em perdidas tolices e ainda muitos receios, muitos preconceitos. Meu tempo não era completamente o da adolescência, quando apenas começava a abrir voos, sondar impressões, ganhar corpo e forma nos objetivos. Meu tempo é cada vez mais o de hoje, porque nosso tempo está dentro e não fora; vem de nossas maturidades e decisões, muitíssimo mais do que de nossas alegrias ingenuazinhas, vividas talvez com mais entrega, mas justamente agarradas como uma tábua no mar, um refresco em meio à insegurança. Quanto mais firmes, mais instruídos, mais informados, mais adultos na inteireza do termo – mais moramos em nosso tempo, porque não o aceitamos com o plano encantamento dos fracos e passivos, e sim o elaboramos com o pleno arbítrio dos escolhedores.

Nosso tempo não é maciamente o que nos fez e de onde viemos; é, sobretudo, o que dele fazemos e para onde caminhamos. Ninguém, com mais genialidade que Millôr, o resumiu e definiu para os que creem no mito do humano ultrapassado: “Olhaí, garotada: quando eu digo ‘no meu tempo’, estou falando é do futuro”.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Tolice é viver a vida assim

... Sem aventura, diz Lulu em “O último romântico”. Concordo totalmentão, embora meu conceito de aventura não envolva abandonar a velha escola nem fazer nada, absolutamente nada irresponsável (irresponsabilidade não é aventura, é burrice extrema – não raro suicida). Quando penso em pisar fora da “vida assim”, vou com todos os equipamentos de segurança, respeitando os riscos e não jogando pôquer com eles. Aventurar-se não é se colocar em perigo; é, muito ao contrariomente, tirar-se do perigo da neurose, da senilidade, da gangrena emocional, do congelamento em vida, porque tromboses malucas devoram ligeiro quem mora no sofá e no controle remoto, mas uma oxigenação mínima mantém a combustão dos aventureiros alive and well.

Tolice é (podendo viajar grande e longe) só viajar de carro ou ônibus porque mantêm as rodas no chão, ou não viajar at all, já que se pode esquecer algo na mala, pode-se não gostar do hotel, pode-se passar mal. Aventura é fazer a listinha esperta de remédios & cia., seguro-saúde, bagagem de mão com o necessário para uma vida digna caso a mala vá passear em outro hemisfério; é se entregar às estatísticas que juram pela estabilidade dos aviões, amar a maravilhosa corridinha da decolagem, se comover quando o trem de pouso toca uma nova terra, gostar voluntariamente da comida de bordo (a cavalo dado...), aproveitar para assistir a uns dois filmes que estavam atrasados. Tolice é confiar mais nos maus que nos bons imprevistos. Aventura é prever o que é possível e achar mui menos crucial um desgostinho passageiro que uma Paris (Londres, Lisboa) definitiva.

Tolice é não curtir montanha-russa porque sim, nunca se tendo abandonado aos amores de uma. Aventura é topar a volta – se parque e mecanismo forem confiáveis –, pelo menos para saber se você não gosta mesmo ou se é um medo cultivado e terceirizado. Tolice é se recusar a pôr na boca (com fins de deglutição, está claro) qualquer coisa que fuja ao bifão com fritas ou ao sanduba com Coca. Aventura é desencanar e provar, provar, provar, sabendo que o pior a acontecer, desde que não haja alergias ou demais problemas de saúde conhecidos, é se aturar determinado sabor por três minutos. Tolice é empacar na cisma de que um amor jamais daria certo porque cor de cabelo ou preferência musical não concordam com o que você tramou desde o início dos tempos. Aventura é amar e acabou-se, se o essencial encaixa perfeitinho: ambos se respeitam, estimulam, ensinam, aperfeiçoam. Ambos experimentam. Ambos cedem.

Tolice é travar no modo “ganhar sempre”, cruel e impossível. Aventura é lidar de boas com um ou outro perder de vez em quando, e aproveitar para dar uma crescidinha, uma evoluidazinha, fazer uma descobertazinha no processo. Gente embebezada chora de tudo sem proveito; tem de ser gente grande para poder chorar como quem está se dando um jeito.