quarta-feira, 12 de abril de 2017

Exatamente isto

No bárbaro Boyhood, uma das cenas mais perturbadoras em sua simpleza mostra a mãe do protagonista se lamentando pelo fato de o menino estar indo para a faculdade (e a gente sabe que ir para a faculdade nos Estados Unidos means: sair da casinha onde se cresceu e, tudo dando certo pelos parâmetros americanos, nunca mais voltar). A personagem desolada diz que aquele é o pior dia de sua vida – vida que ela resume rapidissimamente em uma série de marcos: casar, ter filhos, se divorciar, ensinar o filho a andar de bicicleta, se divorciar de novo, fazer mestrado, conseguir um bom emprego, mandar a filha para a faculdade, em seguida o caçula... “Sabe o que vem depois? Hein?” – questiona ela exasperada – “A p**** do meu funeral!”. O garoto fica surpreso com o desabafo e pergunta se a mãe não está se adiantando em meros 40 aninhos ou coisa assim. Ela suspira, todos nela suspiramos: “Eu apenas pensei que haveria mais”.

Pois é. Pensamos. Décadas antes de pensarmos e de vermos Boyhood, Clarice disse: “Quando se realiza o viver, pergunta-se: mas era só isto? E a resposta é: não é só isto, é exatamente isto”. Se a gente entra no viver que nem em filme da Marvel (já ansiosos pelas 2, 3, 4 cenas pós-créditos), se a gente espera o almoço inteiro pela apoteose da sobremesa, se a gente engole a comida ogromente já na ganância de repeti-la, danou-se. Danou-se porque não se vive no finalmente; vive-se no por enquanto. A vida não são os marcos – que, como o nome já diz, existem para nos organizar mental e emocionalmente, para nos dar referência do quanto já percorremos, para enfarolar a biografia. A vida é justamente o espaço entre eles; aquela sopa existencial em que se está mergulhado da primeira à última hora; toda a maratona entre o choro que abre e o suspiro que fecha. A vida é a argamassa, é o grande enquanto-isso.

A vida está lá superacontecendo no ponto de ônibus, e não é preciso que ali se conheça o amor de todos os tempos, que se pegue o exato carro que vai ser assaltado, que se receba a ligação dizendo que seu filho nasceu. A vida está em cada jeito de cumprimentar o motorista, está no flash de reconhecer que eu não precisava ter falado daquele jeito, está na decisão que se toma de excluir do celular todas as músicas mais ou menos (se é para aguardar o que quer que seja, que se aguarde com direito à alegria legítima), está no chocolate que se resolve não comprar para dar sequência à dieta, está no modo visceral como nos surpreendemos com o menino de rua e nas reações de desconfiança que a gente não queria ter, mas tem. Naqueles dez, quinze minutos a vida se desenrola num átomo de preconceito que se gera ou se quebra, num dilema nutricional que não deixa de ser filosófico, numa iniciativa musical que na verdade é uma pequena libertação do supérfluo, num questionamento da personalidade, ufa! e, quando alguém pergunta o que aconteceu no nosso dia, a gente resmunga que nada. Viver, esse hábito que escorre entre os distraídos.

A vida está a pleno vapor num encontro normal de lanchonete, mesmo sem pedido de casamento: arrisca-se um sanduíche novo, o paladar fica mais propenso a descobertas, a coisa se alastra e, daqui a vinte anos, você está mochilando na Nova Zelândia sem nem remotamente lembrar aquela data. A vida está em marcha ainda que se fique por 37 anos escondido num porão; você pode não ter estudado Agronomia nem feito um filme nesse tempo, mas pensar não era algo evitável, seu cérebro continuou se desenvolvendo solitário e neurótico – e o corpo, claro, é o exato reflexo da falta de movimento e luz; querendo ou não, por todas essas décadas continuou o processo de se construir ou destruir uma pessoa. A vida transcorre feroz em cada incomparável bad da adolescência, em cada notinha de cada teste que se gruda em nossa autoestima, em cada moeda heroicamente depositada no porquinho, em cada livro esquecível que, porém, foi-nos tijolando a personalidade, em cada almoço de família que nos deu um curso completo sobre o Homo sapiens, em cada texto de Facebook que foi alinhavando ideias apenas suspeitadas, em cada dia normal de trabalho no qual talvez tenhamos lançado uma frase casual que vai afetar decisões pessoais e profissionais, em cada hit que se cola no ouvido interno e muda ações e humores. A vida não é bissexta, é contínua, é permanente, compulsória; olhamo-la como quem olha as árvores de um bosque, quando melhormente a entenderíamos com olhos de bactéria (perdoem-me a heresia biológica), que enxergam não os baobás gigantões, mas a infinidade absurda de micro-organismos. A vida é exatamente isto: essa louca rede de filamentos mínimos, essa teia de detalhes que subestimamos, essa coisa ininterrupta que ri na cara das metas, essa viagem perene entre quem fomos há dez minutos e agora somos, essa avenida caleidoscópica que se justifica em si mesma. Essa água corrente.

Quando a vida chega ao mar, acabou-se a água doce: o que éramos se incorpora a um todo maior. Enquanto temos margens, vamos ser plenamente rio.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Alergias

Oficialmente tenho alergia a poeira, ácaro, barata (sério: barata) e uma leve intolerância à lactose. Acabei de espirrar agorinha mesmo, com essa espécie de autodefesa que quem acorda pratica, ao sair da rave de microsseres no travesseiro. Mas eu queria em verdademente espirrar do mundo ou da vizinhança, com a mesma eficiência, umas alergias outras que não arredam com spray nasal, comprimido ou colírio, que não se assustam com cânfora nem soro nem bromelina, e andam pelos quarteirões acabando com meu nariz emocional.

Tenho alergia, por exemplo, a papo coxinha fático. Claro, a papo coxinha em geral; porém aquele estabelecido, já sólido no meio da conversa, a gente está na vibe de contra-argumentar com vigor, a gente está (que jeito) no espírito de receber e retorquir, enquanto o fático nos aborda desprevenidos na fila do hortifrúti, nos encontra cansados no que deveria ser o recesso do táxi, e apenas aborrece as células sem perspectiva de persuasão nem continuidade. Não queremos barraquear no caixa do mercado nos exaltando contra os clichês do mau senso comum, não temos tempo nem gás para perder a sessão de cinema esmurrando ponta de faca, não estamos organizados mentalmente para escancarar nosso arquivo de fatos, então um mero silêncio impaciente ou um suspiro de desgosto respondem à exposição de germes – e vida que segue. Vida que segue inoculada. Abalada. Indisposta.

Tenho alergia a gente buzinando, martelando, cobrando, repetindo, me colocando em estado de zoeira cerebral; fico estomacalmente afetada por nuvens de ruído e ansiedade, necessito pensar e respirar limpo, senão é dor, dor, dor. Tenho alergia aos jornais ora cheios de olhares dramáticos, ora bobo-alegremente circenses, mas sempre odiosos e manipulentos da Globo. Tenho alergia à síndrome de capitão do mato: gente que não enxerga a própria dor e a própria história, que compra-defende-justifica-aplica em outrem o mesmo cabresto e chicote que lhe são aplicados. Tenho alergia a ingerências, perguntações e mexeriquices alheias, já que sou naturalmente reservada e preguiçosa de explicações verbais, Amélie Poulain por fora e cavalo impossuível por dentro. Tenho alergia definitiva a arrogâncias e preconceitos: é o CÚMULO da absurdidade nos acharmos – nós, porcarias que somos pó e ao pó voltaremos, atchim – melhores pela cor de um órgão, pela pronúncia de uma sílaba ou pela quantidade de papel na gaveta. Tenho alergia a modas e necessidades compulsórias. Tenho alergia ao que é grosseiro, desrespeitoso, violento; ao que é incoerente ou muito óbvio, ao que é afetado ou banal.

Tenho alergia ao dia sem efeito, à vida sem propósito e ao término sem final.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

39 verdades e 1 mentira

Tenho cinco cores preferidas, nenhuma das quais foi usada nas paredes aqui de casa que fogem do bege. Sempre achei mais fofildas as bonecas pretinhas. Eu jamais teria ficado com o Raoul: viveria subterrânea e lovemente com o Fantasma da Ópera. Eu provavelmente adotaria uma criança se quisesse ter filhos, mas, infelizmente, a ideia da maternidade me aterroriza. Meu personagem amado de Criminal minds é o genial, avoado e franzino Spencer Reid. Sofro de uma incompetência vergonhosa em me localizar. Se fosse escolher dois superpoderes impossíveis: eu me teletransportaria e seria capaz de persuadir pessoas com um toquezinho. Amo as Audreys – Hepburn e Tatou. Adoro os rosas – flor, cor, Noel, Samuel, Murilo, Guimarães. Lá pros 13 anos, deixei o aparelho móvel cair numa poça da rua. Passei de isentona desinformada a esquerda consciente e convicta.

Já cinderelei duplamente numa festa junina dos primeiros anos de escola: consegui perder os dois sapatos na quadrilha. Gosto montes de dançar, mas não espere que eu saia à noite, baby. Misturo termos de outras dimensões e outras línguas porque um só idioma é cheio de insuficiências. Dificilmente uso caneta que não de quatro cores. Não acredito em horóscopo, então a informação de que alguém é taurino com ascendente em Leão e lua em Capricórnio soa, para mim, como o teorema de Pitágoras explicado em sânscrito. Já comprei livro de esperanto em um sebo de rua com o único fim de achar nomes legais para personagens. (Entretantomente, tenho uma preguiça monstro de escrever ficção.) Eu dizia que iria fazer mestrado, mas agora penso what the hell e sinto friacas de horror ao lembrar o dialeto acadêmico. Um dia considerei bonitas as mesóclises cafonééééérrimas. De esporte, só tolero ginástica olímpica e patinação no gelo (para assistir sentadinha, é claro).

Nunca tive uma Barbie. Nunca viajei sozinha. Nunca li Macunaíma. Meu cabelo é virgem. Não sei fazer as unhas. Não gosto nadinha de macho alfa. Não sou fã de lasanha. Meu organismo tem antipatia por lactose. Entrei pela primeira vez no Maracanã aos 24 anos. Outro dia sonhei que um cara dentro do metrô me entregava 200 euros (estou aceitando). Odeio palmito. ODEIO cigarro. Aprendi a gostar de (algumas) sopas. Olho tanto homens quanto mulheres quando são bonitos, pela paixão purinha das coisas bonitas. Sou mais de acarinhar do que de ser acarinhada. Sou louca em tecidos orientais. Levo garrafinha d’água na bolsa o tempo todo. Sento sempre na ponta porque, com a timidez dos livres, curto poder voar sem incomodar ninguém.

(Uma mentirice só, que também incomoda nada: essa datazinha 10 aí da publicação. O texto nasceu depoooois, preguiçoso, macunaímo, inocente e pós-datado. Mas que voe agora, que é quando ficou sendo – voe este filho todinho eu, gêmeo meu com ascendente em insuficiências.)

domingo, 9 de abril de 2017

Dar um brevê

Concordar que os outros voem: há nada mais difícil? Deixá-los voar, em nosso coraçãozinho doente mas compreensível, significa nos fazermos desnecessários, e todos sabem que não queremos realmente cumprir a missão: queremos tê-la. Se filhos, amigos, parceiros ganham tutano de voar sozinhos, automaticamente viramos nós os desacompanhados, os que esperam no ninho, os que já fizeram o serviço e precisam de novo mote para a agenda, os que devem buscar nova história, os que receberão as novidades ao mesmo tempo que os ilustres conhecidos e não mais com o selo VIP da primeira mão. Não é tranquilo admitir, não é bonitinho nem fica bem no currículo – mas há preguiça em muito de nossa generosidade, já que é frequente nos ancorarmos e escorarmos na dependência alheia por total cansaço de descobrir o que mais nos chama.

Quando professores, temos sim alguma dor de ver os ex-alunos caríssimos falarem de seus professores mais atuais, ainda que no nível seguinte, ainda que na faculdade – porque um trechinho possessivo de nós os deseja nossos eternos protegidos, nossos apegadinhos, mergulhados em dúvidas que ajudamos a sanar, recém-inaugurados no caminho que lhes começamos a abrir. Quando confidentes, sentimos carinhoso ciúme de pilhar nossos aconselhados finalmente bem, finalmente livres dos tormentos velhos, pois com os tormentos velhos parece que vai embora a carência de nós, rompe-se o preciso laço que nos unia. Quando pais, ó céus! eu que não sou mãe apenas suspeito da orfandade vivida em se encerrando nossa onipotência. Ainda ontem cortávamos o bife para o Asdrubalzinho, ainda na semana passada éramos só nós que sabíamos compor a trança da Godofredinha, ainda este mês nosso sanduíche era o único que prestava na hora da merenda, nossa leitura pré-sono era a única que fazia direito as vozes das princesas; em que momento e com que licença essas criaturas, que não sabiam colar um band-aid, resolveram viajar com os Médicos sem Fronteiras? em qual esquina deixamos de ser fundamentais para passar a roupa daqueles seres que agora morarão sozinhos – em Amsterdam? em que instante ficamos descartáveis? limitados? mortais? humanos? comuns?

Sim, nosso amor racional quer que os amados se ampliem, se curem, se joguem no mesmo imenso azul que ambicionamos, ótimos e estáveis. Mas nossa imitação 1,99 de amor – versão pirata, de bateria mole, parasita e grudenta – não quer celebrar sucessos, quer simplesmente guardar o outro em sua fraqueza que nos engrandece por comparação, ou que nos reclama por necessidade. Não significa que sejamos monstros horríveis; quer dizer meramente que talvez não sejam (apenas) nossos amadinhos os carecidos de ajuda. Se chegamos a ser visgo e não trampolim, se nosso impulso é esconder e não encorajar, se somos chantagem em vez de clareza, problemas na área. Possivelmente somos nós tão prisioneiros quanto aprisionadores, e nós os mais precisados de consulta, mesmo que não estejamos empalhando passarinhos no Bates Motel.

O amor, por natureza, é leve. Não afoga, não tolhe, não prende, não pesa com a presença. Se principia a dar dor nas costas é porque existem tumores e temores para remoção. 

sábado, 8 de abril de 2017

O Sol

Victor Hugo disse que “a verdade é como o Sol. Ela permite-nos ver tudo, mas não deixa que a olhemos”. Poucas vezes vi definição tão linda e economicamente precisa, porque, em tempos de fragmentações exageradas e quase doentias relativizações, engatou-se a mania terrível de desacreditar o verdadeiro, apenas por não se conseguir captá-lo no meio da geral loucura. Pois não vamos captá-lo mesmo, ao menos assim, integral e totalmente nosso; não vamos captá-lo porque a verdade não é a gambiarra universal, o canivete suíço que para tudo serve e em tudo se encaixa. A verdade não é a resposta única, que por enquanto não nos cabe, ou não cabe em nós – mas é o farol de quantas respostas certas existirem, dela vindas e nela espelhadas. Feito a viagem em que não acharemos nunca todas as bonitezas reunidas num só lugar: a verdade não é cada destino. A verdade é o passaporte.

Quando nos espojamos na sala a montar um quebra-cabeça de mil e oitocentas peças com todos os filhos e sobrinhos, a verdade não é cada pecinha: é a lâmpada. Quando há bafão na reunião de condomínio e um alega –X, e o outro responde +Y, a verdade não está sozinha em nenhuma das parcelas: está na conciliação. Quando se põe em dúvida a condição vitimada da vítima e se insinua que o crime não foi somente do criminoso, a verdade berra de cima, de sua cadeira de lifeguard: não, não, não! fator algum se sobrepõe ao direito à vida física e emocional, e esse holofote supremo apaga todos os “mas” e “poréns”. A verdade não mora em cada sótão de coração humano; mora na faxina que os escarafuncha, na claridade que deixa nuas as dores e as sordidezes, na dedetização que evoca baratas e ratos de suas tocas, na lupa que flagra os cupins, na intuição amorosa que descobre as cartas há tanto amarradas com fita de seda. A verdade não é o que vê nem é o visto: é o que faz ver, o que varre, escancara, franqueia, ilumina. Procurá-la não é bem o caso; obedecer-lhe é que é preciso.

Verdade e amor não se entregam como resultado porque desde o início já eram a motivação.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

No meu tempo

Sempre que alguém quer enfatizar que as décadas passadas, sim, é que eram porretas, costuma tascar o típico: “No meu tempo...” – mania que me incomoda um monte. Um bonde. “No meu tempo” em geral puxa memórias em tom de sépia, madeleines de infância, primeiríssimos amores, anos dourados com bailes de formatura, vida sem tevê a cabo (ou sem tevê, ponto), matinê, patins, Pogobol, a gente nos primórdios da gente mesma, fresquinha de felicidade inocente. É um tudão lindo e falso; primeiro, porque não recriamos com nenhuma eficiência o que supomos lembrar – é um processo muito, muuuuito seletivo que embaralha as cartas conforme o capricho do jogo, daí a facilidade de produzirmos “provas” imateriais para qualquer tese. Segundo, porque botar o “nosso tempo” num pretérito perfeitíssimo faz parecer que lá estamos inteira e igualmente, fechados e embalados num passado a que já não devíamos pertencer e, portanto, expulsos do restante da vida, mais conhecido como agora. Se antes era nosso tempo e não atualmente, somos então mortos oficiais, protagonistas de apocalipse zumbi, cadáveres adiados que procriam (nas palavras de P’soa)? estamos – por gentil hospedagem dos que ainda não dizem “no meu tempo” – habitando os acréscimos, caminhando para os pênaltis? vivemos já como quem não vive? existimos como quem meramente continua?

Particularmente, pretendo até uns 457 anos permanecer no meu tempo. Não significa que adotarei todas as modas e redes, que amarei todas as feições e mudanças, que me incluirei em todas as novas fomes, que compartilharei de todos os recentes usos. Fosse eu assim vária e moldável, o tempo não necessariamente seria meu: eu é que seria dele. Não; o tempo será bastante meu enquanto soprar vida, e meu para criticá-lo, meu para volta e meia xingá-lo, meu para fruí-lo, meu para o que der na tê-lho. Enquanto escorrer areia da ampulheta, vou eu mesma tingir o tempo de minhas estampas, vesti-lo de minhas saias, dar-lhe meus costumes, inscrevê-lo em meus motivos. Enquanto os ponteiros deslizarem pimpões, vou modificar meu tempo, influenciá-lo, retocá-lo, cocriá-lo, codesenhá-lo, ajudar a dar-lhe cara e voz, agir sobre o retrato que dele ficará na parede, estar presente e agente em suas metamorfoses, barquear em suas marés, sentir em primeira mão suas páscoas e seus desalentos, seus golpes e suas evoluções.

Meu tempo não era exatamente o de criança, quando vivia em perdidas tolices e ainda muitos receios, muitos preconceitos. Meu tempo não era completamente o da adolescência, quando apenas começava a abrir voos, sondar impressões, ganhar corpo e forma nos objetivos. Meu tempo é cada vez mais o de hoje, porque nosso tempo está dentro e não fora; vem de nossas maturidades e decisões, muitíssimo mais do que de nossas alegrias ingenuazinhas, vividas talvez com mais entrega, mas justamente agarradas como uma tábua no mar, um refresco em meio à insegurança. Quanto mais firmes, mais instruídos, mais informados, mais adultos na inteireza do termo – mais moramos em nosso tempo, porque não o aceitamos com o plano encantamento dos fracos e passivos, e sim o elaboramos com o pleno arbítrio dos escolhedores.

Nosso tempo não é maciamente o que nos fez e de onde viemos; é, sobretudo, o que dele fazemos e para onde caminhamos. Ninguém, com mais genialidade que Millôr, o resumiu e definiu para os que creem no mito do humano ultrapassado: “Olhaí, garotada: quando eu digo ‘no meu tempo’, estou falando é do futuro”.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Tolice é viver a vida assim

... Sem aventura, diz Lulu em “O último romântico”. Concordo totalmentão, embora meu conceito de aventura não envolva abandonar a velha escola nem fazer nada, absolutamente nada irresponsável (irresponsabilidade não é aventura, é burrice extrema – não raro suicida). Quando penso em pisar fora da “vida assim”, vou com todos os equipamentos de segurança, respeitando os riscos e não jogando pôquer com eles. Aventurar-se não é se colocar em perigo; é, muito ao contrariomente, tirar-se do perigo da neurose, da senilidade, da gangrena emocional, do congelamento em vida, porque tromboses malucas devoram ligeiro quem mora no sofá e no controle remoto, mas uma oxigenação mínima mantém a combustão dos aventureiros alive and well.

Tolice é (podendo viajar grande e longe) só viajar de carro ou ônibus porque mantêm as rodas no chão, ou não viajar at all, já que se pode esquecer algo na mala, pode-se não gostar do hotel, pode-se passar mal. Aventura é fazer a listinha esperta de remédios & cia., seguro-saúde, bagagem de mão com o necessário para uma vida digna caso a mala vá passear em outro hemisfério; é se entregar às estatísticas que juram pela estabilidade dos aviões, amar a maravilhosa corridinha da decolagem, se comover quando o trem de pouso toca uma nova terra, gostar voluntariamente da comida de bordo (a cavalo dado...), aproveitar para assistir a uns dois filmes que estavam atrasados. Tolice é confiar mais nos maus que nos bons imprevistos. Aventura é prever o que é possível e achar mui menos crucial um desgostinho passageiro que uma Paris (Londres, Lisboa) definitiva.

Tolice é não curtir montanha-russa porque sim, nunca se tendo abandonado aos amores de uma. Aventura é topar a volta – se parque e mecanismo forem confiáveis –, pelo menos para saber se você não gosta mesmo ou se é um medo cultivado e terceirizado. Tolice é se recusar a pôr na boca (com fins de deglutição, está claro) qualquer coisa que fuja ao bifão com fritas ou ao sanduba com Coca. Aventura é desencanar e provar, provar, provar, sabendo que o pior a acontecer, desde que não haja alergias ou demais problemas de saúde conhecidos, é se aturar determinado sabor por três minutos. Tolice é empacar na cisma de que um amor jamais daria certo porque cor de cabelo ou preferência musical não concordam com o que você tramou desde o início dos tempos. Aventura é amar e acabou-se, se o essencial encaixa perfeitinho: ambos se respeitam, estimulam, ensinam, aperfeiçoam. Ambos experimentam. Ambos cedem.

Tolice é travar no modo “ganhar sempre”, cruel e impossível. Aventura é lidar de boas com um ou outro perder de vez em quando, e aproveitar para dar uma crescidinha, uma evoluidazinha, fazer uma descobertazinha no processo. Gente embebezada chora de tudo sem proveito; tem de ser gente grande para poder chorar como quem está se dando um jeito. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Essas canções que me renegam

Há um poema lindo, lindo (qual não é?) de Alberto [Fernando Pessoa] Caeiro, no qual o eu lírico declara que determinadas canções “separam-se de tudo o que eu penso,/ Mentem a tudo o que eu sinto,/ São do contrário do que sou...”. Por quê? Porque “escrevi-as estando doente [...]./ Estando doente devo pensar o contrário/ Do que penso quando estou são. [...]/ Devo sentir o contrário do que sinto/ Quando sou eu na saúde [...]./ Quando estou doente, não estou doente para outra cousa.// Por isso essas canções que me renegam/ Não são capazes de me renegar/ E são a paisagem da minha alma de noite,/ A mesma ao contrário...”. A paisagem da minha alma de noite! nem sei dizer quanto essa boniteza de expressão me calou fundo. Só P’soa para nos esquadrinhar o que somos, quando não somos nós: nós mesmos sob outra luz, nós mesmos doentes, nós mesmos ao contrário.

Temos mania de nos defender aflitamente – não era eu, não penso realmente dessa forma, não estava em mim. Sem querer bancar o inquisidor-mor ou a diretora de colégio interno de época: duvido. Onde estamos quando “não estamos em nós”, a não ser que lobotomizados ou reprogramados mentalmente sob influência de droga braba, de fato braaaaaba? Doentinhos, com sono, com raiva, com febre, sob efeito de xarope ou antialérgico, de cerveja ou de vinho – somos nós sim, em outra estação do ano, em outro clima, com a alma vestida de outra cor, com outras vontades, até outros gostos. Porque não são outros eus; são eus secundários, terciários, alternativos. O fato de não serem o eu controlado, conveniente, selecionado e principal pode eventualmente nos eximir de algumas culpas (culpas estão ligadas a escolhas, e os eus que escapam das CNTP nem sempre estão em situação de escolha), pode nos alcançar perdões, mas não muda outro fato: temos Mr. Hydes em nós. Ou tivemos alguns e os reeducamos – um viva para a bênção da maturidade. De qualquer modo temos outros papéis de parede por dentro, salas trancadas, armários com fundo falso, arquivos insuspeitos, opiniões ainda não domadas, preconceitos imorríveis como o Brinquedo Assassino, traumas ridículos que não conhecemos e zombam de nós quando não estamos olhando. Contemos gente em nós que nos renega, que é nossa alma de noite, nossa alma sith, nossa alma patética, mas que enfim está dentro de nossa jurisdição e nos demanda o máximo reconhecimento de terreno, a fim de não sermos traídos num instante de doença e acordarmos encostando a faca em nossa própria garganta.

Somos esclarecidos e arejados, mas somos também filhos de uma cultura maldita que nos sussurrou tolices desde o útero, piadinhas desde a infância, poréns e todavias em cada jura de igualdade, e por isso qualquer segundo de fúria distraída pode acordar a besta que nos inocularam, e a besta pode vomitar racismos, machismos, homofobias que sinceramente condenamos, que genuinamente repelimos, mas que têm ninhos de barata em cantos de nós que ainda não dedetizamos. Somos pacifistas assumidos, firmemente contrários à pena de morte, porém um impulso de defesa a nossos amores pode trazer à tona a fera sanguinária que, convictos, desprezamos. Somos exigentes e estetas, e no entanto uma paixão encegueirante pode nos pôr sujeitos a meia dúzia de átomos de breguice que nunca adivinharíamos possuir. Odiamos pagode com todo o fígado, mas um rasgo de dor ou euforia ou bebida ou desespero nos fragiliza para o ritmo que se apossa dos quadris. Somos fofos, mas com arma na mão podemos ser monstros; somos esfuziantes, mas o retrogosto do espírito é às vezes melancólico; somos leais, mas há talvez, em nossos calabouços, um covarde egoísta que só quer salvar a pele. Não é o mesmo que ser hipócrita, porque o hipócrita sabe o que finge e administra as máscaras, que volta e meia se trombam. Não é hipocrisia termos a personalidade alfa, de eleição e construção, e ainda assim sermos surpreendidos pelo resto de nossa matilha; é humanidade apenas, que limpamente luta e se choca consigo mesma – e, ainda que deixe uma crença fazendo a guarda, não fica invulnerável ao caos particular e alheio.

Quem somos então? A média dessa batalha de múltiplos exércitos; as batatas do vencedor; o lobo que sobrevive. Noves fora, somos quem realmente queremos ser na saúde e na doença, num autocasamento diário que só dá certo com muito menos período de sombra que de luz.

Somos aquilo que nasce quando nossos cofres destrancados estão em lua de mel. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

Somos nós

Acho tristemente engraçado quando um aluno falta à aula e cinco dias depois, durante o amofinante processo em que saio distribuindo vistos nos deveres, a criatura me olha com o maior ar de perseguição e sofrimento que Deus lhe concedeu e solta: professora, não fiz, NINGUÉM me disse que tinha trabalho, NINGUÉM quis me dar o exercício. Fuzilo de volta, oscilando entre o riso e o ímpeto de defenestração: vem cá, monstrinho(a), por acaso são OS OUTROS que devem correr atrás de você para implorar-lhe a honra de fornecer a tarefa? é interesse DELES, e não seu, providenciar que você se informe direitinhamente? e entre 458.974 colegas de turma, não houve UMA alma minimamente generosa que lhe emprestasse o caderno para cópia – ou será que mal e mal abordaste UM ser humanito mais indiferente que torcedor do Nepal em final de Copa do Mundo? Duas ou três gaguejadas, vinte e sete sorrisos amarelos e o Seu Coisildo (ou Dona Coisilda) faz cara de quem não vai admitir nem morto(a), mas sabe perfeitamente que deu mole. Só faltava essa agora: em tempos de terceirizite aguda, até responsabilidade de sanar a ausência se terceiriza. Não tarda nada e pessoalzinho por aí vai mandar dublê pra formatura.

Lembrei essas criaturas ensaboadas e terceirizantes por ter esbarrado com um trecho de Goethe – creio que das Afinidades eletivas – não diretamente relacionado, mas de espírito parente: “Não conhecemos as pessoas quando elas se dirigem a nós; somos nós que temos de nos dirigir a elas para saber como são”. Claro, nos dirigir ao coleguinha para buscar o dever que nos cabe não é nos dirigir ao coleguinha porque nos cabe o dever de buscá-lo; há um desnível de objetivos e maturidades. Mas há representatividade no desnível. Desde crianças, trabalhamos com o fofo comodismo do venha-a-nós-o-vosso-reino: chegue espontâneo o leite, a fralda, a cadeira, o médico, o bolo, a roupa, a boneca. Porque precisamos, porque queremos, o mundo se desenha. E no entanto o mundo também nos cresce, nos estica, e de tanto dar se pede – e logo se exige – compreendido; cobra juros dos primeiros anos de mamada passiva. Nossa tranquilidade egoísta vira um susto: como assim tenho que dividir? como assim tenho que oferecer um help, ceder lugar, doar tempo, ouvir problema sem despejar os meus? A realidade (constantemente) nos desorganiza e nos chuta da preguiça absolutista que embalou o berço. Hora de acordar, pequeno, a humanidade não tem o dia todo.

Até a morte permanecemos descobrindo: sim, é com a gente mesmo, fora do berço a responsabilidade é nossa. Somos nós que, querendo amar, estendemos a empatia ao universo alheio e o vamos resgatar do fundo de seu absolutismo personalizado, senão ninguém anda, nada muda, ficamos mudos e carentes dormindo cada qual em sua torre ou concha, à espera do beijo acordador. Somos nós que obrigamos o outro a falar do que o asfixia, como quem dá um safanão no diafragma do engasgado, em vez de placidamente aguardar que o indivíduo já roxo dessufoque em seu próprio ritmo. Somos nós que vamos acenar a bandeirinha branca do pós-discussão, em lugar de dormirmos numa Razão dura, seca e desabitada – onde o outro lado também dorme, porque as duas mulas preferem se amargurar com a coluna estropiada a compartilhar uma ternura macia. Somos nós que viajamos ao outro, até porque aquele que viaja é justamente o mais livre, o mais safo, o mais sonhador, o mais buscador, o mais inconformado. De nadíssima serve a curiosidade que não escarafuncha, a indignação que não se mexe, o amor que suspira de casa, a amizade que não interrompe o naufrágio, a razão que fica sozinha no barco e não joga a boia. Sem irmos nós a eles, o que somos? tão bebês quanto, ou (se temos pernas mais fortes) mais bebês do que eles. Se temos voz e não dizemos, se temos braço e não aninhamos, se vemos o desastre e não impedimos, que raio de utilidade damos ao tremendo vácuo, ao silêncio ensurdecedor que nos sobra e se segue à tsunami?

É sempre a nós, se fortes, que cabe o primeiro passo. Alguém neste mundo pré-escolar tem de ser o adulto da relação. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Síndrome da chuva

Não conheço ninguém que já não tenha celebrado íntima ou pra-foramente o fato de estar chovendo, quando se pode/deve ficar em casa e dormir (ou ler, ou ver um filme com chocolate quente, ou qualquer conforto afim). É ao mesmo tempo inegável, natural e – sim, acredito – preocupante. Por quê? Porque esse gozo precioso em se sentir tão mais sortudo e acolhido quanto mais o barulhinho de chuva bate na janela ilustra o que somos: gente que só se considera feliz por comparação. Gente que precisa do egoísmo quentinho de estar aqui dentro, protegidamente, e não lá fora – como as criaturas que já ou ainda trabalham, que ainda não chegaram em casa, que estão resfriadas debaixo do aguaceiro, que estão presas no engarrafamento, que são enfim mais azaradas que nós, pelo menos neste instante. OK, OK, eu exagero e estou espancando com culpas um velho aconchego poético, mas para que servem os amigos senão para atormentá-los com novos questionamentos? Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, mas estou aqui passando na sua noite delicinha me perguntando se é crônico isso de tocarmos a vida melhor ao sabermos outros em pior situação. De nada.

Não sei se forço a barra numa relação esdrúxula, porém não pude deixar de lembrar que o contrário costuma se dar numa janela metafórica: legiões de seres aparentemente saudáveis e afortunados entram numa vibe deprê ao ficarem, em horas de Face e Whats, sob o chuvaréu de fotos de vida perfeita da amigalhada toda. A decoração de casamento que não pude fazer, o bebê que nasceu gorducho e suculento mostrando as alegrias que não terei, a defesa de doutorado que nunca celebrarei, o lanche opíparo que não fiz com 235 BFFs na confeitaria oito estrelas, a celebridade que não conheci, as fotos mara que não tirei dos Alpes Suíços que jamais visitei. Não é que tenhamos raiva (eu espero) do contentamento alheio, das conquistas que não nos incluem; no entanto não nos livramos do instinto (imagino) de nos cobrar iguais alcances, iguais disposições, iguais diplomas, como se houvéssemos ficado para trás na maratona de metas. Estamos de boas em nós mesmos – sofá, emprego, travesseiro, salário na conta, chocolate quente, barulhinho de chuva –, mas é só ombrearmos com o coleguinha que vemos não ter crescido o suficiente, que a altura dele ainda é maior. Maior para quê? Ignoro. Desconheço o que raios disputamos afinal; o fato é que somos limitados e incompetentes, nesse infernal pódio humano que nos põe também infelizes por comparação.

Não faço ideia se Rousseau pensou também nisso quando disse que a sociedade corrompe o homem. Juro, entretanto, que consigo entender o movimento emocional de quem, enfastiado da pocket olimpíada que vivemos, decidiu virar ermitão na caverna mais acessível – ou abandonar as redes sociais, o que dá quasezinho no mesmo. Tenho 87% de certeza de que não se trata realmente de desprezar os outros; trata-se, antes, de levá-los em conta excessiva, ou de desprezar quem nós nos tornamos em prol do encaixe (motivado ou imaginário) nos outros. Não há sanidade que persista nesse clipe de Carruagens de fogo que protagonizamos internamente. É, talvez, uma das poucas realizações que me fariam maratonizar um bocadinho a rotina, um graal à altura da câimbra: descobrir a cura de nossa comparite, resgatar-nos de nossa compulsão de colar na prova diária, criar a pílula que nos limpe do excesso de relativização existencial, que nos traga uma paz de absolutice – com ou sem chuva, com ou sem Alpes Suíços lá fora. Paz porque sim, pelo que temos e somos, não porque fizemos mais ou fomos antes. A paz jeitosa e firme que não olha pela janela.

Nosso estado (de graça) somos nós.

domingo, 2 de abril de 2017

Oba, foi engano

Devo ser, na face da Terra, a criatura que maior felicidade sente quando uma ligação para o nosso número prova não ter sido uma ligação para o nosso número. É da floricultura? da financeira Tal & Tal? do laboratório de análises clínicas? da casa do senhor Magno José? – Não é daqui não, sorrio eu luminosamente, deitando carinho na voz. Suspeito que nem sempre acreditam não-ser-daqui-não, em especial quando é claramente algum banco buscando um cliente arredio (vai saber em que encrencas o Magno José andou se metendo), mas creiam, moças e rapazes que ligam errado: perdoo sua falta de fé em nome da alegria que seu engano me fornece. No hard feelings. Meu tormento grande, mesmo, é quando toca o telefone e é daqui sim.

Em todas as galáxias existentes, descobertas e supostas, sou o ser que estremece de maior horror e libera mais cortisol ao ouvir o toque nefasto. Desde pirralhinha, e com tendências a piora. Fora raríssimas exceções de telefonemas esperados e queridos, para mim quem está ligando é sempre a Samara, e sempre achei esse barulho uma invasão, um sequestro: pare agora o que estiver fazendo no sacrossanto recesso do lar e seja meu, apenas meu. Pare o programa, a leitura, o dever de casa atrasado, o esquentamento do almoço, o almoço em si mesmo (oh, hereges! oh, infiéis!), qualquer coisa mais própria e interessante e urgente e pessoal; agora seu tempo é meu tempo, me pertença, fale comigo. Sei que sou péssima pessoa, mas odeio invasões e sequestros inclusive metafóricos, muitíssimo sobretudo quando estou em horário e lugar supostamente mais livres e meus (o que mostra cabalmente, como já comentei, o quanto sou incapacitada para a maternidade e a medicina). Graças a Deus não tenho ninguém doente em dependência de mim, para quase ninguém eu poderia ser de fato emergencial, e o mais provável é que qualquer pendência possa ser resolvidíssima com a tranquilidade do e-mail – no máximo do Face – ou simplesmente cara a cara, em hora de serviço. E nem me fale naquela desgraça do zap, que, eu sei, também é escrito – porém sofre do imediatismo infernal do telefonema (sem lhe faltar o barulhinho made in hell), e anda deixando todo mundo psicótico. No dia em que eu me submeter a reclamações de que eu visualizei mas não respondi, já podem aparecer lá em casa com meia dúzia de enfermeiros altos, fortes e espadaúdos, porque o passo seguinte é eu começar a picotar dinheiro.

Do susto de eu visualizar mas não responder, no entanto, vós não morrereis: meu celular – que só existe para EU mandar recados urgentíssimos – está eternamente deitado em berço esplêndido, desligado e guardado; nunca ouviu falar em internet, o menino. O que eu necessitasse fazer pela internet ou seria bobagem ou trabalho, e nos dois casos poderia esperar. O que não pode esperar é o livro na bolsa, que parou naquele ponto bonzão; os pasteizitos no forno, que já estão começando a cheirar queimadinho; o banho tranquilo e privativo; o episódio inédito de Criminal minds (ligue pra mim agora, se não tem amor à vida); o cochilo que talvez dê um jeito na dor de cabeça. A existência, enfim – que, por mais entrelaçada nas outras, nem por isso deixou de ser nossa, com nosso ritmo, nossas cores, nossas prioridades, nossas portas emocionais abertas ou fechadas independentemente de fricotes ou metas de produtividade alheias, nossas regras de convivência, nossos horários de consulta ou de encaramujamento íntimo. O telefone, que começou humilde substituindo os garotos de recados, em pouquíssimos séculos se tomou de arrogância e agora se quer nosso rei, senhor e patrão; mas eu, que dou de ombros para a audácia do bofe, não me importo de ser a dominatrix que o mantém calado o dia inteiro para mostrar quem é que manda.

No mais, amor para vocês, meninas e meninos que erram o número. É chato de qualquer maneira atendê-los, porém há mais leveza em saber que poderei estar transferindo para o querido Magno José as desculpas para recusar a ligação. 

sábado, 1 de abril de 2017

É-se o tudo

Uma das falas estonteantes da estonteante Clarice, em Água viva, bem nos explica: “Estou livre? Tem qualquer coisa que ainda me prende. Ou prendo-me a ela? Também é assim: não estou toda solta por estar em união com tudo. Aliás uma pessoa é tudo. Não é pesado de se carregar porque simplesmente não se carrega: é-se o tudo”.

E por isso, ai de nós, há a ferida que não adianta costurar porque reabre e ressangra; há essa falta de paz contínua que nos invade no churrasco, nos sacode na academia, nos soca na sala de aula – mesmo com todo o brigadeiro, todo o conforto, todas as contas pagas, toda a Netflix, toda a serotonina, está lá a hemorragia emocional, ou um só arranhão, ou uma até culpa de felicidade que deixa a gente com cara de fratura exposta. Por isso: porque somos o tudo. Quando saio para a padaria, um meu fragmento se apaixona do cheiro da fornada, outra parte se abala com a inflação, uma terceira e uma quarta se chocam com a magreza do mendigo à porta, a quinta não quer dar dinheiro por prudência, a sexta pensa cadê a família, sétima e oitava choram encolhidas, outras tantas salivam com os doces, outras algumas sentem remorso de não levarem guloseima para os amigos, outras enfim estão mais amantes do tom vanilla do céu do que do cheiro da fornada. E corre ao mesmo tempo esse tudo, porque somos tudo – o relatório que falta e a prova a ser feita, o fim de semana próximo e o passado, o comentário da colega e o presente do sobrinho, o #ForaTemer e o nojo dos preconceitos, o medo de assalto e a cólica do segundo dia; somos esse caos com perninhas que na verdade não dorme, por não haver fronteira onde o sol se ponha. Não há jeito, em vida, de a gente se aquietar e terminar de ser, já que tudo nos constrói.

Quem nasce desses andaimes? Alguém que nunca viu neve e se projeta numa cena de cartão de Natal, alguém que não sabe francês e suspira ante flagras parisienses sem legendas, alguém que não consegue pegar no sono porque viu um passarinho morto, alguém que descobre parecenças tão grandes com um autor do século XVII que lembram ramos da mesma árvore, alguém que se abala com a partida de um vizinho que nem conhece direito, alguém que não sabe por que um coral judaico o atinge de lágrimas até a última fibra, alguém que pressente conexões inexplicáveis, adivinha sensos partilhados, capta aflições e contentamentos coletivos. Ficamos assim: presos numa rede em que o mínimo esvoaçar de mariposa nos influencia – e quanto mais o tempo nos desbasta e sensibiliza, mais expostos e coletivos nos tornamos; mais nossas anteninhas de vinil recolhem vidas no entorno, e as adentram e as sofrem.

Por que noss’alma constantemente deseja e se espanta? Porque tem saudades dos outros retalhos que ficaram subentendidos em suas costuras.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Alteridades

O querido Mia Couto já escreveu que “o culto de uma sabedoria livresca pode contrariar o propósito da cultura e do livro que é o da descoberta da alteridade”. Suspeito instintivamente que entendi e concordo: quanto mais se idolatra parnasianamente o papel pelo papel – o livro pelo livro, o estudo pelo estudo, o acúmulo pelo acúmulo, o diploma pelo diploma –, mais se cria um desvio poderoso em relação à utilidade do estudo, do acúmulo e do diploma, que não é embalofar alguém de informações e títulos, e sim enchê-lo de vislumbres (e deslumbres) do outro. Tecnicamente, não se estuda para depois dar o anel a beijar e ser tratado de doutor; estuda-se para se ter acesso a desdobramentos de nós, a simetrias e explicações de nós que jamais teríamos na vida acordar-tomar-café-trabalhar-voltar; e se estuda, mais ainda, para criar contato profundo com o que não somos e nunca seríamos, mas que precisamos reconhecer como existente e perceber como pulsante, antes de respeitar como legítimo ou abraçar como irmão.

E quando digo estudar, não digo se entulhar de análises e teorias com data de avaliação pesando sobre os ombros, mas ler com prazer sem ler apenas por prazer; ler absorvendo, ler mastigando, ruminando, compreendendo, não buscando matança de tempo sumária. Porque leitura é exercício de empatia, é a forma de transmissão de gentes através dos séculos, e não merece nem prostração de joelhos, nem indiferença de sala de espera: demanda amor. Só uma leitura bastantemente amorosa pode nos ensinar que é possível haver Emma Bovary – nós que nunca seremos adúlteros, temerários e suicidas, mas que em Emma o somos, chafurdando assim no lado agudamente humano que (felizmente) nos falta. Só a leitura generosa e entregue nos põe no peito o castíssimo amor de perdição de Simão Botelho, a esquisita ambição vermelha e negra de Julien Sorel, o orgulho de Mr. Darcy e o preconceito de Elizabeth Bennet, a exasperação romântica de Werther, a amargura vingativa de Hamlet, a ingenuidade malucombativa de Alonso Quijano, a angústia desamparada de Gregor Samsa, o eterno rebootar de Jean Valjean. Também rebootamos quando ali nos botamos completos, mergulhados; somos Outros, estamos em Outros, consequentemente não julgamos Outros. Dentro, realmente dentro da leitura, aceitamos Outros tanto quanto nos aceitamos, já que ali e só ali escancaramos a sala mágica do pensamento alheio, essa coisa que parece maldita quando vista da janela e tão, tão familiar quando atravessamos a porta de corpo inteiro.

Livro é a selfie do conteúdo, é a mensagem na garrafa navegando gerações adentro. Reverência à cultura livresca, por si mesma, só tem aquele que joga fora o individual da mensagem e armazena como troféu o vazio da garrafa. 

quinta-feira, 30 de março de 2017

Melindrosos

Uma porção de manias humanas me irrita – a mim como a todos –, mas quer saber uma das que amofinam em grau máximo? A mania de ter melindre. Fingir melindre. Cultivar melindre: whatever. Aquele jeito, sabe? de estar eternamente ofendido, permanentemente agredido, constantemente incompreendido, inevitavelmente injustiçado. Mas corro a esclarecer, antes que me entendam em sentido oposto: não engrosso DE MODO ALGUM o coro de idiotas que consideram autovitimização o que é, na realidade, perfeita e justa autodefesa – a de pessoas que, por exemplo, sofrem e gritam na cara do racismo; a de gente assediada que obviamente se revolta e obviamente decide que qualquer assédio é inaceitável. Com esse povo eu superestou; estou com as vítimas reais e inquestionáveis, as vítimas do machismo, as vítimas do coronelismo, as vítimas de uma história nojenta e maldita, as vítimas de uma escravidão nunca terminada. Quem não me terá ao lado jamé, e me exaspera de modo inenarrável, são exatamente os inquilinos da Casa Grande que volta e meia pedem os sais, em faniquito. Não sou mar evaporento para levar sais, e olha: se tem um caráter que desprezo, é o da diva contrariada.

Alguém que compartilha alguma barbaridade no Face e bate o pezinho se vem outro alguém, sério e argumentativo, que prova o post como barbaridade. Alguém que só aceita comentários a favor e babações rastejantes de ovo, ou, do contrário, tem desfalecimentos de indignação e mágoas de donzela romântica. Alguém que não se suporta pego na mentira e tenta reverter o jogo, acusando seu acusador de qualquer baixeza. Alguém que não sabe lidar com a coerência e a contundência alheias e tenta disfarçar suas limitações sob a capa da brincadeirinha. Alguém que quer ir embora com a bola porque o amiguinho feio-chato-bobo-cara-de-mamão não tem humor para receber de boas as ofensas a que deveria estar acostumado. Alguém que tão mais propaga mensagens cafona e falsamente religiosas quanto mais precisa esconder a raiva sangrenta, militarista. Alguém que sabe apontar mais bruxa que o tribunal do Santo Ofício e queimar as reputações que achar no caminho, pra salvar um fragmento da sua.

Alguém que se considera a Fanta do Saara – o suficiente para tomar como crime de traição nacional um zap não retornado, um comentário aleatório, um aniversário esquecido. Alguém que tem o dom ou o fardo de ser invejado, observado, perseguido, cobiçado, suspirado, molestado, cercado, constrangido por absolutamente TODOS. Alguém que faz beicinho interno cada vez que ousam seguir o dia e a vida sem sua presença. Alguém que estremece de choro patológico cada vez que OUSAM escancarar-lhe a má-fé do discurso. Alguém que usa o patético como arma, o dramático como defesa, o hipócrita como escudo. Alguém que geme novelas mexicanas e baba chantagens emocionais ao receber o baque do não. Alguém que conhece TODOS os ingratos ora viventes na superfície terrestre. Alguém que se encastela na ficção de sua grandeza para encobrir o ressentimento de sua pequenice.

Melindres: mesmo organizando direitinho, não sobra tempo para tê-los. (Por sinal que basta o tê-los para se ser perfeitamente incapaz de sabê-los.)

quarta-feira, 29 de março de 2017

O estado normal

“Aquilo que provamos quando estamos apaixonados talvez seja o nosso estado normal. O amor mostra ao homem como é que ele deveria ser sempre.” Não fui eu que disse, foi Anton Tchekhov, e sei que nele acreditarão todos. Eu, particularmente, acredito. Muitão se fala sobre qual seria o jeito melhor de conhecer uma criatura em sua verdade, em sua situação-padrão: alegam uns que o poder é que seria o cajado capaz de dividir o Mar Vermelho; outros juram que o sofrimento, sim, consegue separar exatinhamente os homens dos meninos. Mas eu prefiro estar no clubinho do tio Anton e crer que o amor, porque nosso auge, é nossa mais precisa definição. Nossa pedra filosofal.

Reflitamos. O amor já começa a nos distinguir pela base, uma vez que alguns tantos nunca nem estarão habilitados a senti-lo: nunca amarão parentes, amigos, parceiros, mascotes, ideais, profissões. Podem no máximo obcecar-se, fanatizar-se, viver um péssimo arremedo de amor – que, como todas as falsificações, traz somente dor de cabeça aos envolvidos, e daí para pior. Outros, apesar de viver em indigência mental, moral, material, conservam sempre a centelhinha e uma ou duas polegadas de terra fofa, para onde qualquer brecha pode ventar uma semente. Outros, ainda, têm suficiente amparo intelecto-emocional para compreender o amor como ideia e conceito, e no entanto o materializam limitado, morno, carregado de cismas e implicâncias e imadurezas, feito um espécime que gorou. Finalmente há os que entendem do assunto – os que veem a meta e se entregam, se multiplicam na busca, se fragmentam nos mais diferentes métodos de ternura por tudo que existe a ser amado. Os que estão plenamente cientes de que o amor é nossa missão e superpoder, o amor é nosso propósito e uniforme de trabalho, e tudo o mais é identidade secreta que não vai para a lápide porque não nos representa.

Nem é fundamental que se esteja in love romântico para que a profecia se cumpra (se assim não fosse, religiosos celibatários estariam excluídos da mágica humana, quando a coisa se dá muitíssimo ao contrário: normalmente é a humanidade inteira que eles levam ao altar). Pode ser amor de qualquer categoria, com o único requisito de ser legítimo; amor-muamba, amor pirata, que na verdade é uma porcaria de paixão ranhenta com a pilha estourada dentro, não vale. Como é que se sabe que é legítimo? A pessoa vira sua versão ISO 9000, vai-se polindo diamanticamente, tem ânsia de fazer certo e não de estar certa, tem fome de cuidar e não de querer. Aproxima-se do uso para o qual foi fabricada, e pelo ponto máximo de aproximação é que se delineia, assim como o atleta é marcado pelo seu recorde e não pelo que ficou abaixo do vértice; assim como o monte é lembrado pela altura e não pela base. Não somos nosso ensaio comunzinho: somos nossa melhor performance.

O amor é a vida cumprida. O que sobra é a mediocridade da espera.

terça-feira, 28 de março de 2017

Dúvidas existenciais

A Bela e a Fera é a coisa mais linda do universo, e sua obrigatoriedade deveria estar registrada em lei, com lacre imperial. O único senão é que saí com a questão existencialista de sempre, e que nunca na história deste planeta alguém foi capaz de curar: se tudão se passa na França, se todos os personagens são franceses, por que só o charmosíssimo candelabro Lumière tem sotaque francês?

É a bobagem das bobagens, mas detonou aquele montão de questionamentos mais ou menos transcendentais que vão tafulhando nosso poço de vida sem que nos apercebamos do excesso. Tipo: por que os aluninhos adorados acham impróprio acumular pontos no primeiro bimestre, com a matéria pequena e fácil, quando podem ser obrigados a estudar até as tripas no último, com o conteúdo do ano inteiro (e a urgência de acertar 37 questões em 20) pesando no lombo? Por que o nome da Casa & Vídeo sugere que o vídeo não faz parte da casa? Por que o azul é tão intrinsecamente relacionado ao masculino, se a tradição pinta o manto de Nossa Senhora de azul? (Seguindo na linha religiosa:) Por que os que mais cuidado têm em dizer-se cristãos – tão menor cuidado apresentam em ser imitadores de Cristo?

Por que os livros, ainda que gerados com papel diferente em tempo diferente, e conservados por décadas em local diferente, envelhecem quase todos com o mesmo cheiro? Por que, depois de proceder a uma limpa de arrumação em armários e bolsas, sofremos recaídas mil vezes mais desarrumadas? Por que (foi Lobato quem me implantou essa perplexidade, ainda na infância) as pessoas brancas se sentem superiores às negras por uma coisa que NÃO têm – ou têm consideravelmente menos? Que raio de superioridade é essa de uma pele mais áspera, menos pêssega e mais desprotegida do sol?

Se todo mundo estava de boas com o microondas junto, por que pitombas teve de virar micro-ondas separado? Dentro da escuridão mais completa, as cores continuam sendo coloridas ou só passam a “existir” quando há um mínimo fiapo de luz? Quem decidiu que os palavrões são tão ofensivos, se se referem simplesmente ao que é humano e, por vezes, um único foneminha os distingue de outros termos perfeitamente inocentes? Por que bullyingam a Mônica chamando-a de baixinha e gorducha, se ela é do exato tamanho e largura dos meninos chatões? Como é que as palavras “cachorro” e “vaca”, ligadas a animaizitos tão queridamente lindos, vieram a se tornar xingamento? Por que as bicicletas não se popularizaram como tricicletas – três rodinhas para conforto e sustento dos desequilibrados? Por que redublaram A pequena sereia da nossa infância e mudaram (hereges!) letras amadas e conhecidas?

Por que se matam, esfolam, desperdiçam, massacram valores absolutos do mundo em nome de números desenhados em pedaços de papel?

segunda-feira, 27 de março de 2017

O que está deixando de ser

Passou por mim um videozinho em inglês que conta, com ilustrações simpáticas, pontos importantes da biografia de uma determinada mulher. Pontos barra-pesada, especialmente. Segundo o vídeo, a pessoa em questão foi rejeitada pela faculdade aos 17 anos; aos 25, perdeu a mãe para uma doença; aos 26, sofreu um aborto; aos 27, entrou num casamento violento e abusivo, do qual nasceu uma filha. Um ano mais tarde, divorciou-se e foi diagnosticada com depressão hardcore – não admira, já que, aos 29 anos, só conseguia criar sua bebê sozinhamente com o auxílio do governo. Aos 30, enfim, culminou o quadro considerando a possibilidade do suicídio. Mas não sei que forças tirou, e de onde, para colocar toda a genialidade e energia no que sabia fazer de melhor: escrever, e escrever porreta. Aos 31, deu à luz o primeiro livro (o vídeo não diz, mas a gente sabe que a pérola foi antes rejeitada por montes de editoras); aos 35, já tinha lançado quatro, e foi eleita Autora do Ano. Com 42zão, vendeu 11 milhões de cópias de uma nova obra – atenção, respire – APENAS NO DIA DO LANÇAMENTO.

A essa altura a gente, hiperventilada e carecida de um desfibrilador, já adivinhou o que o videozinho revela em seguida: “Essa mulher é J. K. Rowling”. E em letras menores: “Lembra que ela pensou em suicídio aos 30 anos?”. Sim, lembramos; e de tal forma estamos paralisados de horror, ante a chance de uma realidade alternativa em que Harry Potter nunca tivesse existido, que não lemos mais nada das mensagens autoajudantes do vídeo. Harry Potter – HARRY! POTTER! – jamais teria jogado quadribol, voado num hipogrifo, recebido carta-coruja se J. K. houvesse sucumbido às dores e entregado os pontos. E eu jamais usaria como chaveiro o brasão de Hogwarts. Jamais visitaria Hogsmeade. Jamais poria na prateleira uma caneca de cerveja amanteigada.

Não sei se todas as informações do vídeo procedem, mas o alvo certamente foi atingido: já estamos acachapados pela vibe A felicidade não se compra e aflitos com a percepção do quanto a ausência de uma vida pode representar. Claro, a probabilidade de haver por aí muitas outras Jotacás em embrião é infelizmente pequena; não se deve realisticamente supor que todos, tendo força e chance e amor e cuidados, seriam tão fabulosos a ponto de se desdobrar em milhões de leitores, gerar trilhares de empregos, desenvolver vacinas que salvassem outros tantos quinzilhões de vidas, criar tecnologias que se tornassem dramaticamente indispensáveis. Alguns, porém, o fariam: alguns dariam abraços quentinhos em parte considerável da humanidade – instruindo, curando, estimulando –, se as CNTP lhes permitissem levar a cúmulo seu potencial. A maioria nunca seria gênio, nunca seria tão unânime e tentacular. Mas tenho a audácia de afirmar que mesmo cada um desses, se aproveitado com engenho e arte, levaria fácil um rótulo igualzinho: dramaticamente indispensável.

A natureza é por si econômica, não se desperdiça, não faz excessos. Nessa crença fico: quem chega a ter oportunidade de existir, ainda que por enquanto num montinho de células, já é fundamental por algum motivo. Já preenche o mundo de um jeito que só elx pode. O desperdício acontece quando a bagaceira social nos extravia, a burocracia nos achata, o braço do crime puxa mais forte que o da educação, o amor não chega e a droga compensa. Aí damos errado, mas darmos errado não é o natural, darmos errado é o desvio. Aquela criança na rua (mas não da rua) tem em si um germe de metáforas, um olho crônico para a poesia, abafado pelo entorpecimento do crack; poucos suspeitam, mas em doze anos ela conheceria o amor de sua vida, teria três filhos e o caçula viria a ser um dos melhores dramaturgos de sua geração. Aquele rapaz que mofa no presídio por ter participado de um assalto pretendia, na verdade, uma zoeira entre amigos, porque é a primeira vez que um grupo o aceita desde que o pai abortou sua existência e a mãe começou a beber; está agora aprendendo novos truques com novos amigos, em vez de ter entrado para o curso técnico que sonhava – ele que era craquérrimo em Matemática na escola e (ninguém sabe) viraria um engenheiro com participação essencial na ampliação do metrô. Aquela senhorinha que morreu ontem no corredor do hospital era mestra no origami, fazia oficinas com crianças de um outro hospital, porém não resistiu ao não recebimento (por cinco meses) de sua aposentadoria – ela que ainda ensinaria a dobradura dos tsurus a uma garotinha com leucemia, que descobriria uma paixão e comoveria a mídia com sua persistência em criar centenas e centenas de tsurus coloridos, o que levaria milhares de pessoas enternecidas a entrarem no cadastro de doação de medula.

Alguém que lhe apresentaria seu melhor amigo não chegará a apresentar, porque uma depressão não percebida nem acompanhada o roubará aos 23 anos. Alguém que lhe emprestaria o filme decisivo para sua escolha de fazer Cinema não chegará a emprestar, porque a perda de um filho em um tiroteio o afastará progressivamente de qualquer convívio. Alguém que se tornaria seu professor favorito na faculdade não chegará a se tornar, porque o bullying severo na escola o fará largar os estudos na adolescência. Uma ruma de excelentes pesquisadores, pintores, pedreiros, médicos, músicos, líderes comunitários, funcionários da Pixar, Doutores da Alegria, parceiros de chopada, colegas de fandom, comadres, amores – não está sendo, não está vingando, porque não está havendo suficientemente quem enxergue, ajude, ampare, adivinhe, reforce, empodere, oriente, defenda, compreenda esses corpos e essas psiquês que nem sabem gritar socorro, que são frágeis diante do vácuo imenso, que dançam ou são jogados no abismo por causa da incompetência coletiva em lidar com a necessidade humana. O governo não os nota. Os familiares não dão conta. Está todo mundo ocupado com sua abacaxice interna e distraído dos investimentos melhores, os mais insuspeitos.

Onde há gente que não vemos, há pequenas magias e milagres que estão deixando de acontecer.

domingo, 26 de março de 2017

Pão na chapa & família

Todo mundo, eu inclusive, já escreveu sobre as pequenas e maravilhosas satisfações da rotina. Mas há pouco lanchei pão na chapa – essa invenção que, tenho certeza, era consumida no Olimpo entre uma e outra garfada de ambrosia –, e o fato de ser bom, bonito e barato impulsionou o ânimo de listar minifelicidades pela quaquilionésima vez. Vamos aos nominees.

Ouvir uma voz que te leva insensivelmente ao relaxamento (sem necessidade alguma de ser voz de alguém amado, sequer conhecido). Ter um livro-curinga que não te exija fidelidade e possa ser aberto a qualquer hora, em qualquer página, e se faça delicioso de qualquer modo. Deitar para ver série depois do trabalho e do banho tomadinho. Descobrir que o sapato comprado pela internet encaixa como um terno de alfaiate. Respirar sossego finalmente, depois que o vizinho de baixo deixa de fazer escândalo no videogame. Pilhar um tema que flua fácil e líquido. Montar um look pelo qual não se dava nada e que resultou chuchuzinho. Esbarrar num meme que te faça rir dias, de puro riso naïf. Ter um choque elétrico de fofura com o indiozinho bebê que apareceu na reportagem. Achar uma nova pasta para sanduíche que venha embalada miúda, com fartura de tempero. Viver ambientes de trabalho cheinhos de colegas show.

Saber que a série favorita continua sendo renovada. Ganhar uma não contada restituição do imposto (ah, esse prazer que nunca tive). Ficar em semiestado de hipnose por uma estampa fan-tás-ti-ca descoberta na rua. Constatar que umas catucadas na descarga já a fizeram voltar a funcionar com força. Soltar na hora certa uma sacada formidável. Reconhecer terreno num quarto de hotel. Perceber que o quarto do hotel tem varanda. Aproveitar sem correria uns biscoitinhos amanteigados. Vestir a casa com cheiro de cinema ao fazer pipoca de micro-ondas. Passar em frente à padaria justinho no cair da fornada. Flagrar uns pedaços de luar na cozinha. Beber mate, mate, mate, mate, mate. Arranjar um casamento feliz entre a cabeça e o ponto ideal do travesseiro. Embalar presente como se fosse capa de Natal da Cláudia. Gargalhar do grito histérico que o vizinho videogamer disparou, em pleno de-repente.

Mergulhar em sebo como se não houvesse ácaro nem amanhã. Apaixonar-se pelo(a) protagonista. Comprar o amor do casal principal. Acordar na exata horinha em que o computador acabou de atualizar. Chegar à estação na exata horinha em que o metrô se escancarou aos passageiros. Esperar só vinte segundinhos entre você se aconchegar e o metrô apitar a partida. Ir a lugar sem fila – e com banheiros largos e limpos. Aspirar o lençol recém-banhadinho. Ver que a roupa realmente não manchou. Enroscar macarrão sem respingar. Falar sem ninguém interromper. Queimar com o coração ao abraçar. Estar em relacionamento sério com bolsa que dura muuuuuito. Massacrar bochechas. Receber colares. Dar a mala por encerrada. Concluir uma arrumação-tabu. Trocar os saquinhos das lixeiras. Ser obrigada a comer batata frita. Vencer o fiapinho vilão que se alojou no dente. Assistir ao episódio com a legenda batendo direitinho. Entender as falas em inglês quando a legenda não bate. Sair depressa de um sonho esquisito. Sem pesar nem esforço, adormecer.

A lista se encomprida, se encomprida e já invade o tempo do programa que me convoca. Há também dessas doçuras: sem pesar nem esforço, partir.  

sábado, 25 de março de 2017

Versáteis

Eu estava lendo uma matéria divertida sobre absolutas inutilidades de infância, que teoricamente amávamos: as famigeradas minigarrafinhas de Coca-Cola (desconheço se alguém bebeu o conteúdo e viveu para contar), os pompons de elástico que só serviam para crianças possuídas fazerem guerrinha em sala, as molas coloridas cujo único propósito era dançar zuuuum para lá, zuuuum para cá – e descer as escadas engraçadamente –, as flores com look roqueiro ou jazzístico que rebolavam acompanhando o som local. Olhando para trás, fico absolutamente besta com a quantidade de brinquedos isentos de objetivo, que muitas vezes só tínhamos porque os outros tinham (desculpa para fazermos boa parte das besteiras da vida, aliás). Não se podia criar quase nada com esses produtos-bobagem, não havia muito gatilho para histórias, apenas repetições ou contemplações que nos entediavam a jato. A mim, bem pouco fã de mecanizações, o tédio vinha supersônico.

Honestissimamente: me encantava milzilhões de vezes mais ficar a manhã inteira no quintal, criando novelas e famílias com as folhas caídas dos oitis, do que me fazer acompanhar por brinquedos Estrela sem quê nem para quê. Eu me autonarrava enredos com fiapos de linha, com gotas d’água, com bonequinhas de papel por mim desenhadas e recortadas de caderninhos e, claro, com bonecos e afins que configuravam brinquedos “normais”. Mas os normais, para não serem enjeitados, tinham de mostrar serviço: não adiantava ficarem encastelados nas próprias funções, duros e inacessíveis, como bebês de porcelana e bonecos patinadores, engatinhadores, cantadores, bolhinha-de-sabonadores, que brincavam sozinhos. Os toys tinham de ser maleáveis para merecer atenção; e não digo “maleáveis” de macios, mas de versáteis – tematicamente flexíveis o suficiente para que o brincador, e não a brincatura, mandasse na parada. De que me adiantava um ser que só pudesse fazer papel de meu filho chorão, se eu não queria fingir de mãe e só esperava que as próprias bonecas casassem e tivessem filhos? Quanto me acrescentava um brinquedinho que já fosse determinado personagem, se eu só planejava insuflar em seus corpinhos meus próprios personagens? Claro que eu não saberia dimensionar naquela época, mas é certo que eu pretendia ter, com recursos de criança, uma das poucas formas de liberdade sem interferências.

Ainda sou a mesma brincadora de folhas. Já não saio saltitando pelo quintal (é pena), porém sigo me recusando ao que pré-escolheram. Detesto frases e expressões que vêm montadas de fábrica; abomino a previsibilidade dos conjuntos de roupas e bijus – qual a graça de não eleger seu time particular de itens, sua harmonia intransferível? –; nem looks de trabalho e saída escolho antes, para fugir à tirania até de mim mesma. Gosto de brincar de escolher, de passarinhar, de combinar o inicialmente incombinável, de me espantar com meu pedido no restaurante, de escapar das teclas e trilhas repetidas, de ter o pensamento docemente caótico e a agenda suavemente desorganizada. Curto nuances, listas randômicas, possibilidades, alternativas. Curto me assombrar até fazendo, às vezes, exatamente o que tinha imaginado.

Só não me ponham para dançar zuuuum para lá, zuuuum para cá, binária e esperavelmente. Não sou dessas que, para rebolar, aguardam autorização do som local. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

A culpa é dos felizes

Outra de escritor português – desta vez, Miguel Esteves Cardoso: “Ninguém tem pena das pessoas felizes. Os portugueses adoram ter angústias, inseguranças, dúvidas existenciais dilacerantes, porque é isso que funciona na nossa sociedade. [...] E, no entanto, as pessoas felizes também sofrem muito. Sofrem, sobretudo, de ‘culpa’. Se elas estão felizes, rodeadas de pessoas tristes, é lógico que pensem que há ali qualquer coisa que não bate certo. As infelizes acusam sempre os felizes de terem a culpa. É como a polícia que vai à procura de quem roubou as joias e chega à taberna e prende o meliante com ar mais bem disposto”.

Apesar de a disposição dos brasileiros ser mais solar que a de nossos ascendentes melancólicos, a hilária observação de Cardoso casa conosco às maravilhas: levamos no sangue o irritante remorso da felicidade – pelo menos da felicidade entre pessoas urbanas, informadas e instruídas. Achamos liiiiiinda aquela reportagem que mostra um senhorzinho ou uma senhorinha do interior dos interiores, plenamente realizadx com sua terra florida, a netarada reunida no Natal e a rotina bucólica; suspiramos pelo locus amoenus, pensamos em largar tudo pela vida à beira-mar depois da aposentadoria, mas na primeira consulta médica vamos fazer torneio de dores na sala de espera. Na primeira reunião de colegas, ficaremos constrangidxs por não ter grandes sofrimentos a desabafar. Estamos bem resolvidxs no trabalho, o amor segue alegre e cúmplice, a parte espiritual caminha serena e firme, a situação financeira não é das piores, a saúde está dando pro gasto, não há filhos ou pais doentes, não há dívidas, não há hipotecas. Ou seja: não somos interessantes, e evidentemente temos algo de errado.

Gente de classe média, cidade grande, corada e nutrida precisa de uns bons dramas com vinho tinto para ser alguém, ou então é jogada na geena dos medíocres e inexperientes. Precisamos suar mares para conseguir o mestrado, chorar sangues na tese de doutorado, batalhar um Vietnã pela promoção, estacionar num dilema horrível sobre a maternidade, encarar jornada tripla sobre salto agulha, ter uma ou outra distensão após as cinco horas de academia, enfrentar um péssimo síndico no condomínio – ou seja: sofrer. Sofrer explicitamente, indiscutivelmente, em voz alta. Sofrer é o cartão de visitas da decência e consideração. Não sofrer o suficiente é afrontar o esforçaholic que em tudo vê (com horror) fraqueza e comodismo; é debochar dos que empenham fortunas no personal, no coaching, no terapeuta. “Você é que é feliz”, sibilam os eternos angustiados ante os satisfeitos, mas no tom que é mais desprezo e acusação do que inveja propriamente – como quem resmunga: “Ó ser limitado e vil que não tens bocas a alimentar, que não lutas na justiça contra o inquilino que não sai, que jamais quebraste a perna ou te perdeste na mata, que em nenhum momento vês tiroteio ou assalto, que todo ano viajas com esse salário de fome sem ambicionares aumentá-lo, que assumes unicamente os encargos que te dão na empresa, arreda-te de mim! Desvia tua casta da minha!”. O feliz evidentemente é belo porque fez plástica, é hippie porque papaizinho sustenta, comprou carro novo porque arranjou falcatrua, tem um casamento lindo mas vai ver quantas brigas o prédio escuta? O feliz é um suspeito, o feliz é o mordomo, o feliz está indubitavelmente escondendo o jogo. O feliz é uma ofensa.

Terceirizar o desconforto com nossa infelicidade urbana, chique, neurastênica e obrigatória: quão brasileiro, quão humano. Somos filhos da Inquisição, do beija-mão, do coronelismo, do americanismo. Nascemos fartos de todo lirismo que seja libertação. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

A liberdade que é tua

O escritor português Vergílio Ferreira tem um texto lindo de negativas que assim começa: “Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros”.

Me calha demasiadamente, nos calha cada vez mais. Não é que a liberdade nos seja algo puramente individual e não deva levar em conta as crenças e orientações do grupo em que nos inserimos; o que fere é alguém ignorar o fato de que nosso compromisso com o grupo foi, também, livremente assumido na integridade de seu pacote, e por isso cabe a nós mesmos (se maiores de idade, cumpridores da lei e plenos de sanidade mental) nos administrar, e não a um feitor que nos mantenha em vigilância. Se casamos, se trabalhamos, se nos convertemos, o arbítrio de nossa lealdade é exclusivamente interno, diz respeito apenas a nós – no máximo a mais um ou dois diretamente envolvidos. Não há Inquisições, familiares, vizinhanças, direções, generais, presidências, rádio-corredor, rádio-Whats capazes de reger, todos juntos, uma consciência que seja. Nem capazes de diagnosticar se uma escolha de profissão, de país, de vestuário nos convém. Não há pressão exterior que nos saiba e nos molde; só a nós compete o sim, o abraço, o I do. Somos uma portinha que abre unicamente por dentro.

A portinha pode eventualmente, claro, ser chutada para escancarar-se – mas a liberdade em si já vai ter se evadido como um sopro por entre a violência, ou ter escorregado para trás de outra e outra e outra portinha, até ir morar num cofrezito de adamantium inviolável. A liberdade autêntica não cede, não morre, não sucumbe a comentários e fofocas, assédios e propinas, ameaças e barganhas. Por isso mesmo o livre verdadeiro é criatura de tamanho perigo: sabe lindamente os produtos de que não precisa, por mais que o encurralem e atormentem; é inarrastável para vícios, então não há nada que o desfoque nem abstinências que sirvam de chantagem; é flexível sem ser volúvel, é deliberadamente fiel, é inteligente de propósito. O livre conhece as melhores defesas contra ingerências em seus negócios (normalmente passam por papos retíssimos) e contra julgamentos temerários (em geral cruzam pela indiferença). O livre é sensato o bastante para não se constranger por ser livre: raciocina de tal forma que está imune à vergonha com que o manipulam. O livre não anda acorrentado à superfície das coisas. O livre enxerga.

A indefinível liberdade é o humano em estado de inteireza: talvez não faça o que quer (porque o querer é bruta flor carnívora que só pega em nossa terra de dentro), porém quer muito exatamente o que faz. Liberdade chega sempre com uma espécie compulsória de sabedoria.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Bandido bom

Realmente não sei o que dá (se é que dá alguma coisa) na cabeça de quem defende que bandido bom é bandido morto. Considerando o detalhe de que o bandido por coincidência é gente, equivale, consequentemente, a dizer que gente boa é gente morta. E não me venha um rebotalho da SS “argumentar” que quem mata, estupra, rouba não é gente – até porque, se não fosse, não estaria submetido aos sistemas judiciário e penal, e por conseguinte não poderia ser julgado por crimes, que são prerrogativa, adivinha? de gente. Ainda que não se encaixassem na categoria humana, criminosos teriam sua organização protetora, como criaturas móveis e ativas que são. Mas não vai rolar fuga do óbvio, amados: bandidos são muitomente da nossa espécie, e a sociedade vai ter de se conformar em fazer o dever de casa lidando com patologias, distúrbios, destrambelhamentos de vida, psicopatias e disfunções biográficas demasiadamente humanos.

“Ah, você não diria isso se tivesse uma pessoa amada atacada por criminosos.” Em primeiro lugar: a classificação de seres como Homo sapiens independe de casos e percepções individuais; ou são, ou não são. Ninguém será humano até o meio-dia porque nunca me fez nada e, meio-dia e sete, já terá sido rebaixado ao reino monera por ter me causado danos. Em segundo lugar, por mais que seja perfeitamente natural e cabível revoltar-se ao ver alguém próximo ser atingido, quem se revolta e (por um momento) saliva por vingança é nossa parte selvagem, irracional, puro id e puro instinto; quem grita em nós é a besta, que, se completamente solta, não duvido fosse capaz de brutalidades até piores em retribuição. Mas não somos a besta – porque não queremos, devemos nem escolhemos sê-la; somos basicamente nossa porção racional e civilizada, que geme, chora, clama, porém não devolve o mal ao mal por saber que não é inteligente aumentá-lo. Em terceiro: quem “acusa” o outro de ser leniente por não ter tido uma pessoa amada atacada por criminosos, bem – nem sempre teve, por sua vez, uma pessoa amada atacada por criminosos. E é no mínimo feião, além de bárbaro e hipócrita, dar vazão à sua bloodlust travestida de justiça (que seria ao menos compreensível, embora não aceitável, se houvesse dor pessoal no meio) agourando uma dor pessoal aos demais. Desejar a chancela de um suposto bem a partir de um mal alheio me parece, sei lá. Até coisa de bandido.

Então comparo os justiceiros aos próprios criminosos? Sim, e com os primeiros em desvantagem. Afinal um fora da lei, como a expressão mesma indica, saiu da lei e quebrou-a, desreconhece sua obrigação de segui-la. Se fizermos movimento igual – nós que temos estudo, esclarecimento, vida equilibrada, boa família, boas influências –, não somos iguais: somos piores. Se com mais iluminação mental também matamos, descemos a um nível inferior aos desafetos. Não há nisso a menor tolerância com o crime: há a simples constatação de que o crime não vai embora se todos nós o cometermos, mas de que, ao contrário, ele só começa a se desvanecer se houver adultos na sala suficientemente lúcidos para o tratarem. Da última vez que vi, não se curava uma epidemia deixando todos doentes; é fundamental que haja os saudáveis, que haja os sóbrios, os resilientes, os pesquisadores, os médicos, os cuidadores. Os cuidadosos. Os amorosos. Os que permanecem de pé.

E não me venham com “ah, então leva esses marginaizinhos pra casa”. Dizer isso é chilique de criança incapaz de raciocinar que, se alguém sensatamente afirma que um remédio perigoso de fundo de quintal não é a cura para o câncer, isso não significa que esse alguém seja automaticamente responsável por assumir o paciente e descobrir a cura do câncer. Sim, as crianças física e moralmente abandonadas que por aí pivetam, os adolescentes abortados pelo sistema que perseguem finalidades retorcidas, carecem de uma casa no pleno verbete, casa que não seja mera fundação ou recolhimento, casa não de depósito – casa de família e abraço e dever da escola e devidos puxões de orelha, acompanhados do bolo que está no forno. Se não tenho espaço, tempo, formação ou disponibilidade emocional para ser essa casa, não quer dizer que eu seja, ao contrário, a rejeição, a pedrada e o chicote. Há extensões múltiplas de vocação e jeitos múltiplos de cuidar: pregar empatia, educar alunos, sustentar causas, condenar revanchismo, argumentar contra a sanha do vigilantismo. O fazer melhor é o fazer concreto, mas – Platão que me desculpe – ideias são bem concretas: são elas a gasolina que empurra a massa, que a orienta à civilidade ou à selvageria. São elas a receita; alguns de nós (em certo caso) somos melhores ingredientes; outros de nós (em diferente caso) são boas mãos.

É necessária a força de toda uma aldeia para tornar um bandido bom. Para matá-lo, basta a fraqueza de um só preguiçoso que ache mais cômodo nivelar-nos por baixo.