sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Dia de Todos os Pássaros

Então é isso. Amanhã me caso. Mais cedo que eu esperava, apesar dos meses de preparação; nenhuma preparação dá conta de nosso despreparo. Amanhã cruzo definitivo o portal do mundo adulto. Lembra quando dizíamos “no futuro”? “um dia”? É amanhã que ele mora.

Já estou (assim continuarei nos meses seguintes) em arrumações neuróticas dentro e fora, para ser capaz de atravessar a soleira do tomo 2. Porque é um tomo 2. O segundo volume da gente. Faço os necessários da rotina e, num só tempo, ela malvadamente me engole. O mundo tirou férias de si mesmo. Eu estou temporariamente suspensa de mim. Voltamos em alguns anos com a nossa programação normal.

É muito dia pra caber num dia só. Amanhã a pessoa civil tem revoluções e a pessoa jurídica, cabeleireiro. Despedidas para uma, maquiagem para outra (eu que não uso maquiagem ever – mas convém, por tradição talvez, que não pareçamos conosco no casamento, uma vez suspensas temporariamente. Um clone seguro e pestanudo assume). Azia para uma, aceno de miss para outra. Amanhã estarei emprestada a uma eu oficial, enquanto me transformo à paisana. Amanhã estarei vulcão debaixo do sorriso Disney.

Antes que me tomem por já ritalinada das ideias, o porquê do título. É parte da citação lindinha de Guimarães Rosa – do conto “Substância” – que escolhemos para o convite: “Só o um-e-outra, um em-si-juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente: pensamento, pensamor. Alvor. Avançavam, parados, dentro da luz, como se fosse no dia de Todos os Pássaros”. Assim me sinto, coraçãomente em voo. Buscando um quê que não sei e pousou além de tudo que já consegui ser.

Adeus às (minhas) armas. É amanhã. Amanhã.

(P.S.: Por motivos escandalosamente óbvios, pela primeira vez me ausentarei do Lugarzito. Volto quando, em todos os conotativos e denotativos sentidos, aterrissar.)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

De graça

Hoje foi o Thanksgiving, tradicional e celebradíssimo nos EUA. Infelizmente não bomba muito no Brasil como Dia de Ação de Graças. Ao contrário da importação mais ou menos bem-sucedida do Halloween, o Thanks é solene e recorrentemente esnobado. Pena.

Pena porque existem poucos sentires mais gloriosos que a gratidão. A criatura grata já se encontra em estágio suficiente de evolução para receber favores sem a folga de quem não os valoriza e sem o mau humor de quem os deve. O grato vive, até, no doce espanto de seu imerecimento, porém não rebaixa a dádiva ao patamar de dívida: alegremente homenageia o doador com a humildade de aceitar (e nada mais quer um doador real que a chance de ceder felicidade pura, sem a contaminar de comércio). O ingrato se avexa do imerecimento e, soberbo, tenta comprar por preço qualquer o que – pelo tanto valor que tem – não se vende a não ser de graça. Ou então é o ingrato esquizoide, convencido de ser Napoleão: que me tragam, que me tragam tudo, obrigação mesmo é me servir. Vício de império próprio do delinquente em formação.

Mas o que vem de graça não tem moeda que o devolva em igual medida, por não haver medida. Nem é recompensa dada a alguma (tentativa de) grandeza terrestre. Graça não tem credor, não faz credores. E por isso nos desconcerta. Foge à nossa organização mundinha de causa e consequência, de etiqueta e cartão de crédito. Está lá na nova canção da Marisa: "Eu realmente não sei/ o que eu fiz pra merecer/ você". Estava lá na trilha da Noviça rebelde: "Nothing comes from nothing/ nothing ever could/ so somewhere in my youth or childhood/ I must have done something good". Mania da gente, sempre procurantes do Grande Algo Que Fizemos Certo. Tem disso não. Amor e seus gêmeos não são depositados na conta por serviços prestados. É, sim, um grande serviço que lhes prestamos não os expulsar da hospedaria, por não virem com a fatiota dos que precisam de maquiagem para valorizar o produto.

Graça chega de cara limpa. Aceitem-na como é – ou não. Caso não, retira-se serena e tenta mais tarde. Ou não tenta. Interessante, pois, é não lastimar a visita perdida. Recebê-la no emprego mantido, no presente inimaginado, no cartão parabenizante, na dor ida embora, no filho voltado. Na água que gelou, no café que não esfriou, na pizza que chegou, na mancha que saiu, no marido que não esqueceu. No bufê, no buquê, no fácil, no sacrifício, no sol, na sombra, no metrô, no camelô, no bar, na barba, no rosto. No resto. Na palavra que encaixa e no carrapicho que solta. Na calça que cabe e no espaço que sobra. No sábado que entra e na quarta que sai. No tudão que parece tudinho quando não estamos (verdadeiramente) olhando.

Olhemos. Cantemos. Hoje, amanhã, em – como diz o comercial de banco – dois mil e sempre. Não permitamos que a graça, de ignorada, deixe de teimar em nossa direção.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Escala de cinza

Li um texto de Arthur Dapieve, espantoso de bom (não que me espante o fato de o autor escrever bem): “O traficante tranquilo”, publicado sexta passada no Segundo Caderno. Dapieve cita a entrevista feita por Ruth de Aquino com o traficante Nem (saiu na Época), na qual o moço, capaz das maiores perversidades no crime, se mostra também educado, polido, simpático, pai amoroso, encaminhador de viciados para tratamento e, pasmem, elogiador das UPPs e do secretário José Mariano Beltrame. Que em algum(ns) momento(s) mentiu, é óbvio. Mas mentiu a sério. Mentiras sinceras. Não agiu com descarado cinismo, mostrou apenas facetas outras, igualmente reais no instante em questão. A entrevista por isso causa incômodo, inclusive em Arthur Dapieve, que destrincha com habilidade o sentimento: “Temos enorme dificuldade de transitar num mundo onde há coisas pretas e brancas, sim, mas no qual a maioria se apresenta na infinidade dos cinzas. Assim, é menos perturbador pensar no Nem unidimensionalmente mau do que no Nem humanamente complexo, capaz [...] de amar a filha doente e de ordenar a execução de dezenas de pessoas [...]. O aparente paradoxo não torna mais fácil a nossa vida. A existência de um Mal e de um Bem metafísicos, absolutos, nos eximiria de refletir sobre nossos atos”.

Creio em Bem e Mal, sim, porém sei que emprateleiram ações e não agentes. Gestos, e não pessoas. Queremos por força enfiar o pacote completo numa despensa única: Fulaninho está no altar desde já, Sicraninho é um filhote de cruz-credo, sei nem o que está fazendo na terra que não desce de uma vez para os quintos. O problema é que Fulaninho – o aluno exemplar – passou a noite na balada, não relou num livro e, para manter a fama de bom, colou na prova de Química. E Sicraninho – o apocalipse da sala –, quando não está infernizando professores e colegas, se enfia na biblioteca para ler Monteiro Lobato e vai com a mãe servir sopão nos finais de semana à noite. É pra endoidecer? é. Porque este mundo não é coisa para amadores. Não é para gente que quer resolver logo o assunto da arrumação de pessoas, põe esse pra cá, aquele pra lá e fim de papo. Se há caixinhas, há caixinhas para cada pedaço de gente. Cada lado. Cada trecho. Adianta nada olhar da superfície: tem que ir às profundezas, dissecar, e ainda assim surge informação após a autópsia.

Ronaldo Bôscoli, mencionado na reportagem de capa do mesmo Segundo Caderno, era cafa com as mulheres, não gostava de briga física, língua ferina, amigo leal, crianção e descompromissado, compositor devotíssimo à bossa nova, capaz de demolir alguém com palavras e de socorrer desapegadamente qualquer um que precisasse. Um enigma. O Hitler vivido por Bruno Ganz em A queda (também citado por Dapieve), sem deixar de ser Hitler, amava os animais, dividia refeições e ternuras com os subordinados. O traficante Escadinha, igualmente comentado no texto, chamou à prisão os produtores da Rede Globo somente para alertá-los: tivessem cuidado com a crueldade dos então novos chefes do tráfico (Tim Lopes comprovou a crueldade na carne, infelizmente). Médicos ou monstros? lá e cá, embora não gostemos de admitir o que não facilita nosso trabalho de inventário. Conforme declarou brilhantemente o autor: “Para elas [as mentes maniqueístas], reconhecer alguma humanidade – e talvez até alguma qualidade – no inimigo equivaleria a ver afrouxada a sua disposição para combatê-lo”.

Brasileiros, especialmente, amam ou odeiam. Têm a impaciência emocional, infantil, de acolher ou linchar na mesma catarse. É fria. Enquanto vivos, somos todos mezzo, mezzo; escalas de cinza mais ou menos indecisas, prestes a mudar aos 48 do segundo tempo. Só depois da saideira é que dá para fazer os noves-fora, fechar a conta e passar a régua.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Por favor, pare agora

Em alguns lugares, hoje é o Stop the Violence Day – dia, em tradução óbvia, de dar cabo da violência. Hiperapoio. Inclusive nunca consegui entender um planeta movido a tapas, socos, napalms e baionetas. O que vai para o jornal? O que compõe os livros de História? Quais os assuntos importantes deste nosso mundinho de ovo virado? Guerras, revoluções sangrentas, guilhotinas, atentados, balas perdidas, atropelamentos de motorista doidão, tabefes no filho, tabefes na esposa, forcas, esquartejamentos, sacolejamentos de bebê, o celular atirado na camareira. Espécies várias, todas, de agressão verbo-físico-emocional bombam no YouTube, na nojeira dos tabloides, em qualquer texto distraído de escola. Assim aprendemos o mundo: é uma terrinha danada de hostil. Bobeou, o outro pimba.

Não nego que este terreno entre Vênus e Marte é disputado diariamente na base da ignorância; mas, por isso mesmo, não vejo sentido prático em salivarmos diante da “imprensa” marrom, farejando sangue. Quem pode culpar os repórteres de porta de cadeia se investimos 50 centavos em jornais que não valem uma pataca mofada? Investimos por amar a diversão sádica de dizer – olha que maravilha essa barbaridade que não me aconteceu. Fosse nosso o acontecido, amargaríamos a solidão de virar atração circense por ao menos uma semana. Embora pessoas haja (universitárias de vestido curto e rosa não me deixam mentir) que tenham fetiche nesse chicoteamento público.

Paremos. Paremos com a autoerotização da violência, que não temos boa realidade apenas porque a do outro é pior. Paremos com a chibata de nos julgar tão pouca coisa a ponto de só merecermos (faíscas de) atenção por termos sido youtubados em situação constrangedora. Paremos de lamber com gosto a ferida do mundo. Paremos de cutucar a carne viva porque cometeu a desonra de ainda estar viva, paremos de só morta achá-la fascinante. Paremos de nos nivelar pela altura do doentio, de nos render ao bizarro, de nos vender ao desvio, de nos rebaixar à exceção. Não nascemos para a exceção porque violência não é regra. É pau, é pedra, é o fim do caminho. É o Hades. É o podre, a sobra, o resto, a migalha. É o que nem devia ter começado a ser. É o rejeito não-reciclável. É lixo. É nada. E tem o toque antimidas de transformar em bando de nadas os agentes que lhe prestam serviço.

Violência não é, em termos de produto, porcaria absolutamente nenhuma. Justamente por isso é que contratou uma agência de publicidade melhor.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Hello, hello

Hoje foi o World Hello Day, dia de simplesmente mandar um “oi” a conhecidos e desconhecidos – assim, nessa candura. Não conhecia a celebração que envolve vários países e achei, no mínimo, o máximo. Um olazito que se diga por aí parece coisa de 1,99; mas, a considerarmos demoradamente, nada tem de chinfrim. Dar um oi é reconhecer a existência de. Dar-se ao trabalho de não ignorar a presença de. Assumir que se está cruzando com. Olhar para. Ao menos olhar para. Olhar a ponto de admitir que aquele ser vale a demora de um mexer de lábios, vale a doação de um segundo, um milésimo de segundo. Vale um som. Um ou dois fonemas simpáticos no dia. Vale a honra, o selo de uma prova de vida. Entre milhares de vidas diariamente esbarradas, ter a deferência de um oi equivale, em proporção, a recepção com bandinha.

E receber oi de presente equivale a estar presente. Onde for. Vai dizer que você se sente na mesma dimensão de uma festa, lotadaça, na qual não ganha um mísero cumprimento? Vai dizer que não sofre a solidão da família – mesmo a sua – em que o deixam despercebido no cantinho? enquanto cada qual mergulha nas individualidades da rotina? Oi pode não ser diálogo, abraço, mas é a possibilidade de. Rascunho. Primeira viabilização de um qualquer toque humano. Às vezes vem sem voz: vem no sorrisito cúmplice de canto de boca, no olhar grávido de brejeirice (ah, as brejeirices!) e, melhor, no beijinho de cheguei-da-rua. Mas só é melhor se o beijinho não chega da rua meia hora antes do coração.

Amanhã e depois e depois e no infinito vezes dois, prossiga na vibe do oi. Oi pro taxista, oi pro ascensorista, oi pro porteiro, oi pra mãe, oi pro boy, oi pro gari, oi pro aluno no corredor, oi pra secretária no hall. Custa menos que o cafezinho nosso de cada intervalo, e dá aquela acordada básica naquela mania de enxergar o outro – que a gente não tem.

domingo, 20 de novembro de 2011

A felicidade dele

Chama-me a atenção um comercial que passa no (adivinha!) Discovery H&H, anunciando documentário para o próximo domingo. Nome insólito: O menino que nasceu menina. História de uma moça que tem aos poucos se transformado em rapaz. Mas o que particularmente me chama a atenção (não bastasse o inusitado do tema) é uma fala da mãe do jovem: “A felicidade dele é parte de minha dor. Minha filha está desaparecendo fisicamente”. Nos olhos da mãe, uma agonia de dilema amoroso – querer bem ao menino que acabou de ganhar ou guardar luto pela menina que perdera. Nos olhos da mãe, uma encruzilhada de nascimento e de aborto.

Não discuto aqui a questão ético-moral de uma mulher tornar-se homem, seus vice-versas e suas implicações. Discuto uma única implicação: o aborto de sonhos a que determinado quesito da felicidade alheia às vezes nos obriga. O que precisa morrer emocionalmente em nós para que haja, em outrem, espaço para um nascer desejado. É punk. Tão punk que, nos corações com bueiro entupido – aqueles que lotam lotam lotam até regurgitar, na primeira oportunidade de chuva, o bando de frustração engolida –, o mais certo é não dar certo. Fez-se a renúncia, fez-se a concessão, fez-se a tentativa de adaptação interna. Mas não se fez a fundação convicta, não houve perdão devidamente acreditado pelo perdoante (porque é trabalho enormíssimo de perdão pôr o outro em liberdade não-condicional de nossas expectativas).

Não acredito lá muito, por exemplo, em renúncia de fora para dentro. Digamos: o marido/ a esposa foi transferido(a) para outra cidade ou país, e o que ganha menos abrirá mão de sua carreira construída e idolatrada para acompanhar o (financeiramente) mais bem-sucedido. Me desculpe, é fria. É fria na medida em que o acompanhante não colocar a mão interior sobre a Bíblia e garantir-se, com pureza d’alma, que nunca, nunquíssima, nunca de núncaras jogará na cara do outro o tanto de desapego que precisou ter para permitir seu desenvolvimento profissional. Nunca com palavras, nunca com gestos, nunca com muxoxos, nunca com sarcasmos, nunca com indiretas, nunca com ironias, nunca com semanas de gelo, nunca com noites no sofá, nunca com perdas gratuitas de paciência, nunca com gritos, nunca com silêncios. Só acredito nesse tipo de arranjo sob voto perpétuo, registrado em cartório espiritual, de que o renunciante enterrará o ressentimento a nove palmos (dois a mais por garantia) e concorda em morrer inoculado pelo próprio veneno que teime em escapar. Que assassine os desejos antigos e busque, no dia seguinte da mudança, novíssima forma de ser feliz.

Acontece? Acontece. Acontecem combinações iluminadas, gente de fato evoluída que tem, pela realização alheia, amor mais limpo e mais fresco do que pela própria. Gente que é uma Manu da vida, sem prateleira de mágoas. Convenhamos: raridade. Por ser raridade – e para tornar hipernormal a coisa – é que se deve começar a enrijecer os músculos de amor, é que se deve começar a tratar gordurinhas de mal-entendidos localizados, nas pequenices; antes da renúncia que venha com dieta rigorosa e rotina de atleta. Que nos reeduquemos paulatinamente ao ato de ceder antes de o coração berrar de fome. Antes de o respeito falecer de hipoglicemia.

Não é que não mereçamos deixar de lado algumas esperanças e projetos. Quem não merece já principiar com a conta no vermelho é a felicidade dele. Tristes de nós se, irrealizados, servirmos só para âncora que impeça a navegação.

sábado, 19 de novembro de 2011

Bom ladrão

Gosto de acompanhar (sábado reprisa) outro daqueles programas inusitados do Discovery Home & Health, Eu não sabia que estava grávida. O título é autoexplicativo: mulheres vão vivendo muito bem a vida, tal e coisa, lalalalalá, começam a ter uma coliquinha – ou uma dor de mamute empalado – e descobrem que darão à luz um filho. Ou dois. Agora. É negócio que, se visto em novela, faria a gente xingar o autor. Improvável demais para ser ficcional. Já teve moça com esclerose múltipla parindo gêmeas no banheiro, mulher com laqueadura e pré-menopausa crendo que estava eliminando um tumor, senhoritas que engravidaram tomando pílula, senhoras que fizeram dez testes de gravidez e receberam dez negativos – até a hora do parto. Loucura. Não engordam (ou engordam miudíssimo), não enjoam, não desejam. Não esperam esperar. E, quando menos esperam, eis o rebento escorregando pelas pernas, matando de susto a família repentina.

Somos todos famílias repentinas de partos inesperados. Todos mães súbitas. Todos anfitriões perplexos. Esta vida, esta tresloucada vida não cansa de nos pôr nos braços frutos enroladinhos em trouxas, frutos que carregávamos insuspeitos. Não sabíamos estar grávidos da fome de morar fora, até que aquela viagem nos atirou no reino encantado tão longamente desconhecido. Não sabíamos estar grávidos da paixonite pelo melhor amigo, até que quisemos morder o nariz da mocreia com quem ele marcou de ir ao show. Não sabíamos estar grávidos da vocação de ser chefs, até que acompanhamos a prima no cursinho básico de culinária e nos vimos como natos cortadores de cebola. Não sabíamos estar grávidos de uma carga tremenda de felicidades possíveis, de uma caçambada de vidas alternativas, de uma multidão inacreditável de destinos. Não sabemos, até que o coração urra em dores ou delícias do parto.

Bem-vindos sejam bons ladrões que nos tomem a vontade de assalto e nos mergulhem em versões – desde que não imorais, ilegais ou engordantes – distintas de nós mesmos. Que nos façam dar à luz, trazer à tona, chamar ao mundo porções nossas que receberão boladas de riso em herança. Pena que, inconvenientemente, tantas vezes nos chegam contrações de renascimento sem o preciso tempo de nos preparar enxoval.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Umas saudades

Não tenho saudades balofas e grandes, aquelas que nascem de mortes e sumiços e paralisam a vida como veneno de baiacu. Tenho um grupão de saudades pequenas. Médias, vá lá.

Saudades, se não da escola – porque me lembro cristalinamente de meu sofrimento com físicas e matemáticas, bem demais para romantizar de dourado essa época –, ao menos dos primeiros ventinhos de verão que sopravam na última semana de provas gritando: férias. Saudades das tardes lanchadas com broinha de fubá, café com leite e Super Vicky. Saudades das manhãs brincadas no jardim. Das manhãs cantadas no balanço de duas cadeiras. Das manhãs deslizadas de patinete. Saudades dos sábados idos com Mãe ao cinema e às casas de chá – variadas. Dos domingos passeados nos cavalitos da praça. Saudades de pão doce com creminho amarelo. Saudades de pipoca com manteiga descomprometida.

Saudades do calçadão da Barra. Do mar de Cabo Frio. Do cheiro de mato, ah!, do cheiro de mato dos hotéis-fazenda. Do cheiro de café e cavalo dos hotéis-fazenda. Das leituras no quarto dos hotéis-fazenda. Dos bingos, festas, horários e eventos malucos dos hotéis-fazenda. Saudades de ver o Baggio perder o pênalti em 94. Saudades de acordar deslumbrada com os presentes que contornavam o sapatinho no dia 25. Saudades de atacar chocolates após a missa de Sábado de Aleluia. Saudades do supermercado Paes Mendonça.

Muitão felizmente, não há saudades maiores ou menores do que fui. Creio – quero crer – que com muito mais completude e eficiência, com muito menos sofreres e tolices eu prossiga sendo. Não tenho saudades de mim porque nunca desviei de mim. Fui-me fiel. Inclusive na necessária mutabilidade. Terei, sim, a partir da semana que vem minha primeira e maior saudade balofa – a casa que é uma víscera de mim, meus pés, minhas mãos, e que tem dentro meus outros tantos corações de família, sempre tão coexistentes, sempre tão próximos. Enfim saberei uma ausência que sangre. Que rasgue. Uma ausência sentida por gente grande, sem esparadrapo nem paliativo. Um volume 2 do romance.

Venham as saudades, coisa de pessoa viva. Que apenas pousem mansinhas, que evitem ser súbitas, cheguem com a consideração delicada de não esmagar os ombros. Sendo eu (ainda) pequena demais para virar gente demasiado grande.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Como se faz

Pois justamente a Manu da novela das seis, de quem comentei com delícia no post anterior, esta semana se viu envolvida com a festa de aniversário da sobrinha. Em off, ouvíamos a narração que a personagem ia inserindo no blog dedicado à irmã em coma. Tocou-me um trecho que era parecido com: “Como é que se faz uma festa sem você, minha irmã? Como é possível ter um momento tão alegre, enrolar docinho, criar decoração, sem seu olhar aqui com a gente? Simples: não se faz. Porque você está aqui com a gente, dentro de tudo que realizamos”. (A autora me perdoe a livre recriação do texto, e a pior memória. Mas a ideia é essazinha mesma, sem tirar nem pôr.)

Como é que se faz aniversário, Natal, casamento, Dia das Mães, primeira manhã de escola, sem a presença de um compartilhante, sem o olhar dos amados? Não se faz. Um quer-que-seja na gente se recusa a prosseguir sem a companhia que lhe é de direito. Não temos coração que saiba ser um só. Ou nos metemos no caixão com os defuntos queridos, trocando nossas manifestações de vida pela obrigação de morte, ou (saudavelmente) optamos pelo contrário: arrastamos os defuntos vida afora, guardando-os em relicário juntinho enquanto damos seguimento às alegrias, fadigas e afazeres próprios dos respirantes. Ou nos fazemos mortos, ou fazemos nossos mortos reexistirem pelo empréstimo de nossas experiências. Ou falecemos por extensão, ou por extensão representamos os falecidos. Não posso prever minhas reações com certeza, mas me declaro simpatizante total do segundo time.

Seja como seja, nós – zumbis ou girassóis, múmias ou lamparinas – estamos impedidos de ter existência independente desde o eu te amo inaugural, pensado ou dito. Uma vez assumido o compromisso, a constatação, a mera sugestão de amor, uma vez assumido o amor em si, dá-se um revertério biológico que costura amante e amado pelo peito. Cada qual não sai de casa sem uma segunda via do outro, invisível embora. Amar é tirar automaticamente uma nossa segunda via. Há uma cópia autenticada de Manu que mora com Ana na cama do hospital, porém existe uma Ana que ri em Manu entre os beijitos da filha. Há xérox nossa dentro do filho desaparecido, do marido ausente, do pai com esclerose, da mãe enterrada. Enterramo-nos com nossos saudosos, esquecemo-nos com nossos desmemoriados, diminuímo-nos com nossos indiferentes, evaporamo-nos com nossos sumidos? Privilegiamos a falta alheia em detrimento do espaço que já, muito ocupadinhamente, ocupamos? em nós, na festa, na rua, no Natal, no dia, no mundo?

Não se faz.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Manu mulher

Sou dos que jamais cogitariam trair Cordel encantado com qualquer outra novela. Pacto de sangue – cumprido à risca. Mas a vida segue, a fila das seis anda, e mesmo na inteira fidelidade à Novela das Novelas a pessoa quer se distrair. Comecei a ver A vida da gente. Primeiro capítulo correto. Texto OK. Fora a motherzilla da protagonista, personagens simpáticos ou, por baixo, toleráveis. Não acompanhei toda a saga familiar – perdi, inclusive, o episódio crucial do acidente –, mas decidi que uma convivência aqui e ali com a nova turma não fazia mal. Aceitando que eu (suspiro) jamais voltaria a vespertinar no reino de Seráfia. Que jeito.

De uns capítulos para cá, porém, tenho feito a maior questão de seguir a trama atual. O enredo se distanciou um pouco de Ana, a caçula em coma, e focou na dulcíssima irmã mais velha, Manuela (Marjorie Estiano). Manu é das mais luminosas personagens já paridas pela TV. Das mais limpas. Crescida sem pai, rejeitada de berço pela mãe (que, pior, criou-a), eterna e negativamente comparada ao sucesso da irmã, amadureceu assim mesmo sem resquício de inveja, ressentimento, azedume. Manu dirigia o carro que deixou a mana desacordada, Manu teve de optar entre salvar a bebê Júlia ou uma Ana inconsciente do fundo do lago. Fez o que qualquer um de nós, sã-consciente, teria feito – e não perdeu muito tempo sombreando-se de culpa previsível.

No momento, Manu mergulha em lago mais fundo e delicadíssimo, que é unir-se ao “viúvo” da irmã por amor inocente. Inesperado. Culpa houve; muita, chorada, mas não esgoelada o bastante para virar um bater de cabeça que amolasse o espectador. Culpa houve, mas a fila das seis anda, a vida segue, a vida da gente (título apropriadérrimo) caminha estradas obtusas e não razoáveis. O jeito único é razoabilizá-las com a possível doçura. Manu é a possível e encarnada doçura (algo mais admirável se lembrarmos de Marjorie como a irritada Natasha, a inacessível Marina, a ressentida Maria Paula). Manu é doçura que, conforme observou seu agora noivo Rodrigo, nunca se queixa de nada – sem com isso ilustrar a polianice educativa. Manuela é simplesmente sim, sol, abertura, cristal, janela, capim-limão, clara e fácil como a verdade. Simplesmente possível.

Tolice de autores pensar que novela boa se faz com elementos de aura ruim. Tereza-cristinices, por exemplo, andam me dando no estômago com suas ruindades nojentas, de excessivos decibéis. Manu é um tremendo antiácido. Manu faz bem. Que Pereirão o quê: Manu é que cortou dobrados e triplicados sem endurecer nem perder a ternura. Manu é mulher pra mais de metro.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A coisa

Dia da república. Da coisa pública – definição que todo mundo aprende na escola. Peninha, céus, que não aprende por extensão o que é a tal da coisa. Pelo menos não a pública. A coisa costuma ser privadíssima; ou então (contrariando por lógica o que se pressupõe como “pública”) é de uma publicidade que curiosamente não nos inclui.

A coisa é privadíssima, nossa e muito nossa, quando seguimos leis particulares: posso dirigir após a balada, porque bebida não me pega; posso comprar maconha de quem bem entender, porque sou donão de meus vícios; posso adquirir o DVD pirateba a 5 reais, porque quem manda cobrar 45 pelo que gera renda aos artistas?; posso sonegar dois ou três impostos, ofertar seis ou sete propinas, aceitar oito ou nove subornos, furar dez ou onze filas com a mesma intocabilidade que exime meus atos, só os meus, de prejudicar quem quer que seja. Temos visão milagrosa e malandra de nossos limites: em próprio benefício, nos damos licença (sempre poética) de torcer e manipular a coisa até que se desconfigure, ou até ter, para nós, exclusiva configuração. A nossa coisa é prioritária. A nossa coisa é maior que a coisa de todos os outros.

Ao mesmo tempo, que todos os outros cuidem da coisa. Eles: governo, servente, faxineira, lixeiro, vizinho, síndico, galera do bar, pessoal da esquina. Sou dono único da coisa, mas não um dos donos. Possuidor privado na exploração, nunca parte da gentalha pública na manutenção. Muros que picho, sinais que avanço, banheiros que emporcalho, latinhas que envio pela janela do ônibus, verbas que envio para o chefe da boca, danem-se: me incluam fora dessa. Jaaaames, dê um jeitinho na sujeira. Fico aqui no carro esperando.

A coisa não é terceirizável. A coisa não é relativa. A coisa é como o filho de adoção, trazido para o risinho de bebê e para a fralda suja, para o prêmio na escola e para a infecção de ouvido, para o abraço na manhã de domingo e para o berreiro na madrugada de terça. A coisa é certidão de casamento assinada para a lua de mel e para a TPM. A coisa não negocia, a coisa não aceita inadimplentes; um dia volta para cobrar parcelas. A coisa não recua, não esquece, não parcialmente desaparece, não completamente agrada. A coisa exige respeito. A coisa é ciumenta de cuidados. A coisa é irreversível.

A coisa, democrática, quer passar igual em todas as bocas e mãos. A coisa não desiste de ser, sem exceções, pertencente. Ainda que impertinente. A coisa é também dos outros, quando está carregadinha dos frutos que individualmente cobiçamos. Quando está de fralda suja, também é coisa nossa.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Encantada

Muito ator faz laboratório visitando casa, tribo, trabalho de personagem. Mas o laboratório maiorzão de todos continua sendo o figurino. Todo mundo é meio Super-Homem: colocados os óculos, nossa natureza amansa e vira Clark Kent. Vice-versa. Para que super-herói tem uniforme? Com ou sem capa, máscara e malha colante, são idênticos os poderes. Só que muda a voz interna. Muda a sintonia. Muda o canal. Clark não tem clima de voar de óculos, chapéu, terno e gravata; Kal-El beija as nuvens com bota, roupitcha de cores primárias, Szão no peito e cueca por cima do collant. Um vice-versa é absurdo. Pergunte-se ao soldado se é com farda ou traje civil que sente adrenalina pulando na veia. Pergunte-se às vítimas do Esquadrão da moda se é com as roupas velhas ou novas que sentem a postura se esticando como garça. Garanto: a despeito daquelas lições de Sessão da tarde, aparência não mora só no nosso fora. Começa lá, mas faz infiltração. Como é que o nosso dentro pode ficar impermeável ao olhar de nós mesmos, e ao toque, e ao peso, e à forma, e ao tecido?

Tive essa exatinha noção ao fazer, hoje, a primeira prova do famigerado vestido de noiva. Tem nada ainda; está que é só rascunho e alfinete. Somente projeto. Limitei-me a vestir uma ideia branca. Loooonga. E nem gosto (tanto) de branco – muito menos de vestido longo, já que sou, como diz o Fábio, uma noiva curta. Piso no pano quando ando, piso nas anáguas, horrorizo-me ao constatar a quantidade oceânica de fazenda que me rodeará qual a uma ilha. Está longe de ser um saião de Cinderela e já me engole, peninsulazinha que sou. Metros quadrados de estorvo em forma de cetim.

E, ainda assim, nunca fui tão noiva. Surreal a sensação de princesice, o quê de Disney, algo de neblina, o ruc-ruc-ruc do tecido, o dançar feminino e malemolente da saia. Não sei que feitiço há em traje de casamento que nos deixa uma impressão muito razoavelmente simpática de nós mesmos. Que nos empresta um olhar tolerante em relação aos detalhes abominados, que nos cede uma coragem feliz. Eis que me vi ali, não beijando as nuvens de capa vermelha, mas dentro de uma – vestida de uma – no transporte de uma ideia branca, desconfortável e branca, branca e linda. A farda maior da guerra aos hábitos. O uniforme-símbolo dos novos poderes. A fantasia dos novos tempos. A armação das novas posturas.

Noivas, vistam-se de noivas, se forem noivas. É vestir uma versão melhorada da gente, não à toa que branca, como a liberdade fresca dos rascunhos e a tela dos maiores princípios.

domingo, 13 de novembro de 2011

Perfeitistas

Leio em outra ótima coluna de Alberto Goldin (na penúltima Revista dO Globo) o caso de uma moça de 32 anos que já ficou com vários, mas nunca namorou. “Tive paixões platônicas, e parece que, quanto mais impossível a situação, mais eu me interesso”, expõe a consulente que se assina como Isabel. O consultado é, como de costume, lapidar. Faz sua historinha-analogia de sempre: a de dois gêmeos diferentes na personalidade, um prático e um sonhador. O primeiro pediu e ganhou uma prancha de surfe no aniversário. O segundo não ganhou nada – não por ser menos amado, mas porque simplesmente não pediu; “perdeu a oportunidade por não ter decidido uma opção dentre seus múltiplos desejos”, analisa Goldin. E o autor completa ecoantemente o primeiro parágrafo: “Concluímos que se faz necessária uma medida lógica no desejo, porque querer demais pode ser o melhor procedimento para não receber nada. O perfeito é inimigo do bom”.

Como discordar da verdade colocada pelo psicanalista em tão cheias palavras? Somos efetiva e afetivamente perfeitistas, muitos de nós. Perfeccionismo já é (quando excessivo) ruim; perfeitismo é pior. O perfeccionista atravanca a vida ruminando, polindo e repolindo o já feito e recebido, algumas ou muitas doses mais que o necessário. O perfeitista sequer tem o feito e recebido para polir; não faz e não recebe até que seus ideais excepcionalmente maravilhosos se materializem justinho como desejados. Desejados, vírgula. Tidos como. Porque o desejo não-impostor é força motora de busca, e não freio. O “desejo” dos perfeitistas é traje passeio do medo, o terno-e-gravata vestido pela covardia para conseguir dar as caras em ambiente social.

Não é que não possamos ou devamos ser perfeitos. Não devemos é querer ser perfeitos, e do contrário manter a cabeça enfiada na terra, orgulhosamente. Vaidade besta. Preguiça burra. Como se a perfeição (supostamente) desejada fosse um aplicativo downloadeável, em vez de um troféu sofrido, suado, labutado da hora do nascimento ao segundo da morte. Como se houvesse a vida dos sonhos comercializada em versão solúvel. Plenitude instantânea. Felicidade em pó. É pensamento equivalente, no vestuário, a ter duas alternativas: ficar nu ou usar roupa de grife. Perfeitistas optam por se esconder pelados em suas cavernas. Sensatos fazem o melhor look com o basiquete que têm no armário e vão batalhar a compra das futuras etiquetas. Licencinha aí, platônicos, opa, olha o pé, com licença, volto para uma visita depois de curtirem sua sessão diária do teatro de sombras no fundo da gruta.

Perfeitismo? Não, obrigadim, já sou comprometida: a perfeição me aguarda impaciente no fim da estrada de tijolinhos. Tenho mais o que viver.

sábado, 12 de novembro de 2011

Godzillas

Há dias falei de usabilidade – nossa capacidade de emprego, condução, manobra pelos que nos cercam –, e mencionei como antiexemplo a personagem Tereza Cristina, antagonista da novela Fina estampa. Mas Tereza Cristina é um caso clínico. Não é simplesmente não-usável: é um monstro. Sem ser a tradicional psicopata fria nem a caricatura da vilã pérfida, que faz o mal pelo mal. Trata-se da categoria de quase-gente. Ou de gente com péssima instalação elétrica e uma caçambada de fio exposto (adianta chamar o Pereirão?). Teoricamente, a diva é esposa apaixonada, mãe presente, boa administradora da casa, senhora de sociedade, eficaz organizadora de festas. Uma lady. Uma Guinevere. À proximidade de meio milímetro, Tereza se mostra um daqueles bichos-papões de cantiga, primos de saci, que te pegam daqui, te pegam de lá. Espécime de godzilla em estado avançado de mutação.

Tereza é má, mas não é godzilla por ser má. É godzilla por ser impossível. Intratável. Insuportável. Imprevisível. Ontem mesmo, no capítulo da novela, cadê coragem de contar para a jacaroa que a filha está grávida do fulaninho que ela detesta? “Na melhor das hipóteses, vai colocar fogo no quarteirão”, comentou displicente o marido. “Vai colocar fogo na Barra da Tijuca inteira!”, afirmou a moça – e está tudo muito bem, tudo muito bom. Assim é Tereza e acabou-se. A filha saiu de casa, porém aguardou ser esbofeteada e sacolejada para tomar o passo óbvio. O príncipe-consorte continua lá, ar de amofinado incômodo, candidato aguerrido à canonização. Todos se curvando, com maior ou menor tremor de coelhinho caçado, às idiossincrasias maluconas da fofa.

Conheço alguns godzillas. O principal sintoma é justamente esse entorno: apavoramento geral. Sua pré-chegada provoca o rebuliço que antecede Miranda Priestly em O diabo veste Prada. Godzillas ferem uma, duas, cinco vezes, o que for bastante para o trauma. Nas aproximações seguintes, autoestimas se encolhem ou sozinhas se chicoteiam – cachorrinhos de Pavlov antecipando desculpas pela própria desastrada existência. A mise-en-scène godzillesca pode envolver grito, histeria, palavrão, chulice, bofete, surra de cinto, mas pode só e venenosamente se ater a desprezo, críticas públicas, mudo sarcasmo, olhar de ironia, voz maciinha espezinhando egos com agulhas que atacam à traição. Seja qual seja o perfil da Cuca em estudo, mantém-se sua mais eficiente vara de marmelo: audição nula. Por não ouvir é que godzillas são assustadores. Por não darem sinal, da altura onde estão, de que acusaram recebimento das buzinadas e demais indícios de raça humana num raio de quilômetros. Atropelam a família e vão ao cinema.

Godzillas: inválidos sem possível cirurgia ou muleta. Não há transplante de cóclea que resolva surdez entre a nossa e a outra, imaginária, dimensão.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

The one

Não vejo nada cabalístico, apenas fofamente interessante, no fato de a data de hoje vir cheia de uns. 11/11/11 – que linda constância! Soube de algumas noivas que optaram pelo casamento na data só por garantia: que cidadão vai ter desculpa para esquecer aniversários? Rolo de macarrão na cabeça. Espacinhos assim no calendário existem para a imprensa exibir bebês rechonchudos (“nasceu às 11h11!”), mamães dos bebês rechonchudos terem história e certidão para mostrar, maridões suspirosos não terem álibi para se distrair. Fora curiosidades tais, nenhuma revelação mística ou mensagem transcendental. Até porque, usando calendários de sééééculos atrás, estaríamos em casa completamente diferente da folhinha. Qualquer medida de tempo é mero acordo entre cavalheiros.

Mas podemos criar nossos próprios motivos e motivações, simbologias particulares para fazer girar um universo volta e meia entediante. Por que não homenagear o sexteto de uns empregando este dia – nem digo o dia inteiro; vá que seja uma horinha, duas, quinze minutos, dois – em alguma primeira vez? Alguma estreia, alguma ineditice que cubra de novidade morna o que sobra de rotina? Alguma calda de chocolate novíssima sobre a marmita do sempre? Nestas 24 horas cheias de repetições, agendemos um lançamento. De preferência naquilo em que não esperávamos nos inaugurar.

Entremos num curso de francês. De mandarim. De dança do ventre. De dança do salão. Adentremos um museu eternamente espiado e nunca conhecido. Aluguemos nosso primeiro Godard. Nosso primeiro Fellini. Nosso primeiro pedalinho. Nosso primeiro apê. Nosso primeiro esqui. Provemos a maior interrogação do cardápio. Estreemos um tipo de pimenta no almoço. Experimentemos jogar pingue-pongue. Ou xadrez. Ou sinuca. Arrisquemos o telefonema sempre temido. Proponhamos a atividade sempre adiada. Engatemos a leitura sempre empurrada. Fiquemos um dia distribuindo sorrisos a esmo, em ruas jamais andadas, em praças jamais atentadas, em reuniões de condomínio jamais atendidas. Ouçamos vozes jamais entendidas. Tentemos sapatos jamais cogitados. Vestidos nunca tão abertamente floridos. Amigos nunca tão entranhadamente abraçados. Palavras nunca tão loucas e inexistentes, tão neológicas e proparoxítonas. Tentemos. Inventemos. Diferentemos.

E quando der zero hora do dia 12, sexteto desfeito, diferentemos de novo. De novo de novo de novo. Que primeiras vezes são feitas para injetar cafeína e canela no leite desnatado dos dias. São feitas para termos e tornarmos a ter qualquer faixa a ser cortada para, teimosamente, nos celebrar.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Please, Mr. Postman

A China, essa danadinha. Preocupada com o aumento grandão de divórcios no país (em 2010, quase dois milhões de casais se separaram – 14,5% mais do que em 2009), criou uma estratégia interessantíssima. Mais especificamente, o correio de Pequim criou. Recém-casadinhos vêm sendo convidados a enviar cartas de amor lacradas, que serão entregues aos respectivos cônjuges no aniversário de sete anos de casamento. Sim, no de sete anos – o temido, o famigerado. Aquele em que acontece a famosa crise. A ideia é clara: fazer os pensantes em divórcio se lembrarem de como se sentiam (em especial, de como o outro se sentia) quando disseram o “sim”. Fazê-los receber uma foto fiel, digitalizada, com um catatau de pixels, de como andavam sentimentos e expectativas nas primeiras cenas da união. Um instantâneo no tempo. Um flash. Um túnel.

Pirei na iniciativa deliciosa. Quem quer que tenha sido o gênio, é Nobel da Paz na cabeça. Qual favor nos podem fazer de mais substancial do que marcar reencontro com um eu, com um ele de lua de mel? Que maior presente do que colocar, ao pé da árvore, parte de nossa inocência anterior? uma ponte para nossa Terabítia, um portal para nossa Pasárgada, um passaporte para a Disney de uma relação cheirando a leite? Cartas de amor são um congelamento de nossa integridade. Nada mais do que elas nos apreende, detém e conserva em formol. Por quê? Porque nelas – salve, Pessoa! – somos ridículos. Saudavelmente ridículos. Livre e sinceramente ridículos. E pouca coisa existe de mais enternecedora do que ver o outro nessa nudez, nesse desarme que assume o risco de uma chantagem futura. O ridículo documentado. Total confiança. A entrega total, em si mesma.

Torço, com afeto, que os casaizitos da China aceitem o convite e coloquem em palavras suas felicidades inaugurais. Que, bem no instante em que o outro ameaça voltar para a casa da mãe, o carteiro toque a campainha com um “quero dividir a vida com você” debaixo do braço. Que, no exato momento de o outro gritar suas broncas batendo portas, venha o Sedex com um “eu te amo” sussurrado no ouvido. Que cheguem súbitas as promessas, no meio das cobranças; que desembarquem os beijos repentinos, contendo os tapas (metafóricos, espero). Que a vida cinza se veja espantada com a ventania de cor antiga, com a alegria íntima, familiar. Que haja o susto impagável das riquezas inesperadas. Ou esquecidas.

Vocês, não sei. Vou já rascunhar minha cartinha a ser entregue – em mãos – em algum novembro de 2018. Entre nono e décimo brindes, ou sétima e oitava músicas da festa ploc. Cheers!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Das boas intenções

Todo mundo conhece as boas intenções que abarrotam o inferno. Mas sempre fico abestada com alguns novos exemplos. Soube que, nos Estados Unidos, tem pai e mãe comprando pela internet pirulitos – e otras cositas – contaminados com o vírus da catapora. Para quê? Adoecer os filhos. Você leu certo: adoecer os filhos. De propósito. E não falo aqui daquelas aberrações da natureza que cometem crimes estapafúrdios, escondem o corpo das crianças no porão e depois aparecem num episódio do Lei & ordem. Falo de gente teoricamente sã, pai e mãe extremosos, extremosíssimos. Tão dedicados que resolveram contaminar os rebentos para vaciná-los naturalmente, torná-los imunes às bolhas cocentas da varicela o mais rápido possível. Tem mais: organizam “festas da catapora”. Isso mesmo que você pensou, com ar incrédulo. Misturam coleguinhas com e sem a doença para inocular geral. Sai todo mundo devidamente cataporizado, com o aval das respectivas famílias. Extremosíssimas.

Considero-me pessoa razoavelmente prática, sem quase paciência para burocracias, enfeitações de pavão e lero-leros. E sou zero-porcentomente maternal. Mesmo assim, engasguei cinco ou dez vezes ao ler a notícia. Arregalei-me. Então existe, gente? existe? quem na caradura, com pureza d’alma e convicção de estar tendo mó gesto de amor, entregue a seu filho um doce lambido, um lenço espirrado, um sei-lá-quê babado por criança desconhecida e doente – um sei-lá-quê comprado na rede, de sei-lá-quem? O governo, claro, pirou com esse descalabro e ameaçou punição aos doidos. Lembrando que – como se já não fosse insano o bastante enfiar uma catapora goela abaixo – podem vir outros vírus, bactérias outras, nessas pecinhas e docinhos comprados por amor. Pode vir coisa pronta para devorar pequenas vidas entregues (coitadas) aos “cuidados” de quem foi escalado para preservá-las.

Vai longe nossa brincadeirinha de deuses. Nosso gozo sádico, louco, de esfregar males nos outros em nome de um alegado bem. Nosso impulso de esbofetear com verdades sem anestesia (de preferência, em público). Nosso gosto de dedurar em prol da suposta moral, torturar em prol da suposta ordem. Nossa petulância de bater para educar, de ferir para curar, de disfarçar nossa crueldade vingativa sob a legitimação dos “bons objetivos”.

O que nos irrita são as naturais demoras, os tempos necessários, orgânicos, para que fatos e consequências se concretizem. O que nos mata é não decidir. Sermos inúteis para resolver com nossos cetros. Em nossas pressas de seres da Inquisição, não perdoamos a lentidão das cataporas. A arrogância da história que teima em desobedecer a nossos decretos reais. O absurdo de micro-organismos não se curvarem a nossas decisões de pais – extremosíssimos. Aí enfraquece.

Aí essa gente nos obriga a fazer injustiça com as próprias mãos.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Oh, happy day

Ironiquissimamente, o dia de hoje é chamado, em alguns países, Dia Feliz. Toda a ironia vem do fato de eu já ter estado em sala de aula momentos atrás e vivido alguns dos mais amargosos minutos de fracasso profissional. Porque chegar a novembro com uns tais desinteresses, deboches, grosserias e mesmo ofensas pesando no ouvido é, para dizer o mínimo, fracasso profissional. Só ilustro com o seguinte: a gente entra pessoa e sai lixo. Não há remota possibilidade de pegar uma 1603 de hoje pela frente e deixá-la senão mastigado, enfarofado, esfarelado e varrido de si.

Esmigalhada, estou no Dia Feliz. Muito bem. Fazer dele o quê? Recebo-o goela abaixo, com a esperança sorriso-amarelada dos condenados ao otimismo. No fundo sei que todos os amanhãs até dezembro, até fevereiro, até julho, até o seguinte dezembro serão igualmente desiludidos e abafados. Salvo loteria. Sei que os porvires nada terão de happy, a não ser na clareira que se abrirá com a lua de mel (pode-se casar todo ano?). Sei; mas não estou confortável com a ideia de me arrastar vermemente de salário em salário, tendo como únicos happy days feriados e findes. Vivo no estranho limbo dos que nem têm fantasias (salvo de loteria), nem estão aptos a se resignar com a infelicidade. Subsistem de turrões. Sem nadar. Agarrados ao mastro.

Sendo assim, o Dia Feliz é simultânea ironia e convite. Quase nenhuma alegria profissional me aguarda, e a despeito dessas tristezas vem a fome graúda de celebrar outros campos. São tantos os nossos campos. Tantas praias que não festejamos por preguiça de ser gratos ao hábito, ou por medo de que a excessiva satisfação, uma vez decantada, nos fuja ou cobre imposto. Trouxice. Pouca coisa há mais libertadora que nos achegar a nossos faróis. Porque, a sermos justos, seremos obrigados a reconhecer que vivemos numa terra onde eles estão em maioria.

Meu Fábio é um dos faróis, cada vez mais inteiro e colorido. Na família – nas famílias –, que sorte: um staff dedicadíssimo às grandes e pequenas necessidades. Staff imperfeito e impreciso como nós mesmos, apenas para nos confortar quanto a nossas imperfeições. Financeiramente, nenhuma riqueza, mas tudo em paz. Religiosamente, toda a riqueza e a esperada paz. Moradiamente, dois paraísos: o presente e o futuro. Socialmente, a amizade macia dos que perdoam nossas ausências.

Não, itens infelizes como uma ou outra 1603 não corroem um Dia Feliz. Este McDia de revertermos toda a nossa renda para a exaltação dos melhores lados e saneamento dos insalubres. Esta data querida em que as luzes da rotina fazem aniversário. Recuso-me a pisar, repisar e ruminar amarguras. Cante-se o oposto. Viva o oposto. Viva o que não vemos por costume e é o que nos salva da autodestruição.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Desculpe o transtorno

Ouvi da apresentadora de uma formatura: “Todos nós, formandos, deveríamos andar com uma plaquinha no pescoço que dissesse ‘Desculpe o transtorno, estou em construção’.” É certo que um cursando de qualquer área pode, eventualmente, dar defeito durante sua formação; tem ocupações, provas, trabalhos, ausências, pequenos desesperos, ainda grandes imaturidades. A porta-voz da turma reconhecia as chatices que o processo poderia ter imposto a cada um dos que se preparavam – e a suas respectivas famílias. Mas, assim que ouvi a frase, me veio o (óbvio) clarão de que a plaquinha não deveria, de modo algum, ficar limitada aos formandos. Ou entendamos isso às avessas: não eram só aqueles formandos os potenciais donos da plaquinha. Sou, aliás, a primeira a entender o pescoço. Pode pendurar. Nele ali, nele, nele e nela também. Também em você, leitor, nem tente se avestruzar. Todos nós estamos em curso.

Todos nós estamos em curso, causando transtornos feito bestas enfurecidas. Enquanto não concluímos o trajeto, enquanto somos humanos amadores, enquanto somos protótipos de gente, atropelamos meio mundo nas pesquisas de nós. Raio de carreira difícil. Passamos noites em claro nos procurando (ou procurando the one, ou ambos) em comemorações intermináveis, e matamos de agonia os que estão em casa, já encontrados. Temos rudezas infelizes porque não atingimos – ou the one não atingiu – bom conceito nas primeiras provas. Temos CDFices obsessivas de relacionamento, DRs obstinadas, porque um qualquer fulano nos deixou de recuperação. Sofremos de teimosia num tema de busca, escrevemos repetindo nossos cacoetes, falamos papagaiando nossos professores. Ou pior: esquecendo nossos professores. Precisamos de 31.247 dias de estágio antes de virar pessoa. Antes de vencer a grosseria que garra na gente pior que cerol, antes de jogar fora os últimos resquícios de ciúme abusado, de inveja encardida. De dependência emocional crônica. De tagarelice maledicente. De covardia amarela. Antes de a gente escancarar as asas e sacudir a velha poeira – e isso ainda com o desengonço de um pterodáctilo saindo no ninho.

Crescermos, maturarmos, evoluirmos dói. Especialmente nos outros.

domingo, 6 de novembro de 2011

Só nós

Releio uma entrevista dada pelo pianista americano Keith Jarrett em março, quando se preparava para voltar ao Brasil. Jarrett é sui generis; quem disse que segue temas ou partituras ao piano? Nada. Toca de improvisíssimo, “numa espécie de transe [...], num fluxo aparentemente inesgotável de ideias e melodias”, conforme definiu Arthur Dapieve em matéria para O Globo. Questionado pelo entrevistador a respeito de suas inspirações, Jarrett lascou: “[...] tocar é como pular de um rochedo sem saber o que há lá embaixo. [...] Tocar é correr riscos, tem de ser perigoso. E há um elemento extra: a sensação de que se eu não tocar, ninguém mais vai tocar aquilo”.

Por aí foi; mas me concentrei nessa parte, deliciada, porque relembra ou confirma minha resposta de sempre aos que dizem “ninguém é insubstituível”. Todo mundo é insubstituível, devolvo. Keith Jarrett, sem falsas modéstias ou comerciais pudores, percebeu e usa a própria insubstituibilidade como gasolina, convicto de ocupar um lugarzito no mundo que outro ser algum ocupa no mesmo estilo, graça, medida, volume. Está certo até o nariz. Se Keith não tocar aquilo, podem vir todos os Moreiras Limas e Nelsons Freires (e mesmo Chopins) que não tocam. Ao menos não dessa intransferível maneira, desse jeito único. Podem nos copiar, emular, imitar, até superar; não podem, porém, nos substituir. Substituímos um rolo de papel higiênico por outro, uma colher que caiu no chão por outra, uma TV que pifou por outra de igual modelo. A gente não. É molde unitário. O que fazemos, benfeitamente ou mal, ninguém tasca, a gente fez primeiro.

Só nós podemos ler o poema com a nossa voz e ênfase, e contar a piada com esse determinado tom, e ter uma tirada genial nesse determinado teor e tempo. Só nós podemos ser aquele exato filho mais novo que produziu aquela exata ruga, só nós podemos ser aquela exata namorada que beija com aquele exato gosto. Só nós temos a nossa música de fala, o nosso ritmo de passo, o nosso timbre de canto, a nossa temperatura de abraço, o nosso cacoete de nariz, a nossa mania de ordem, a nossa ordem, a nossa bagunça, a nossa ternura, o nosso cheiro, o nosso côncavo de travesseiro. Só nós estamos aptos para digitar com a nossa pressa, para tropeçar em nossos cascalhos, para decorar com as nossas cores, para escrever sobre as nossas metáforas, para convidar com os nossos olhos. Somos talvez esquecíveis para alguns, para muitos – porque a lacuna do outro é maior ou menor que nosso número. E a esquecibilidade nos ilude: se somos tão insubstituíveis, por que nos trocam? por que nos deixam? Trocam-nos; mas não seis por meia dúzia. Trocam-nos justamente porque nossa unicidade não é a procurada no momento. Deixam-nos por outra, diferente circunstância. Ainda que seja o shampoo usado ou o piercing no nariz.

Somos trocáveis, não substituíveis. O fim das relações é a justa prova de sermos tão exclusivos. Se fôssemos geleca de modelar, a qualquer um bastaríamos e qualquer um nos bastaria; em qualquer emprego estaríamos bem e qualquer um nos contrataria. Era só brincarmos de barbapapas e nos adaptarmos elasticamente a todo nicho. Não. Não somos pé para todo sapatinho: eis a maravilha. Porque o sapatinho finalmente encontrado e calçado nos compensa com a pelúcia da convidadice VIP.

(E Cinderela, quem diria: no fundo, um libelo da força de nossos talentos.)

sábado, 5 de novembro de 2011

O oferecer como fuga

Em recente crônica na revista Casa e Comida, Bell Kranz expôs a diferença entre nossa cultura “tradicional” – a de oferecer e recusar guloseimas somente por educação – e a cultura de comunidades indígenas no Alto Rio Negro, noroeste da Amazônia. Relata Bell que, em passeio com amigos “brancos” pela região, era comum o grupo levar lanches para agradar aos donos das casas visitadas. “Foi então que, ao perguntar a um índio se ele queria um sanduíche” – conta a jornalista – “ouvi o seguinte: ‘Quando a gente quer dar, a gente não pergunta’.” Paf. De fato, assim foram recebidos os amigos da autora pelos índios Tukano. No questions, nada de “está servido?”; apenas o ato de servir, direto, desburocratizado, simples. O servir em si mesmo, com gosto e apetite, sem ocasião da recusa polida que é fonte certa de frustração (para o recusador).

Oferecer é fuga. Fuga de nossa responsabilidade de doar, de nossa tarefa de dar prazer. Fuga terceirizada na negativa do outro: servi, ele é que não quis. Não quis, é claro. O outro não quer oficialmente privar-nos de um naco, não quer ser diminuidor de nossas porções, e (em especial) não quer ser caçador de gentilezas. Há sabor nenhum em gentilezas caçadas, garimpadas, a contragosto atingidas. São frescas e suculentas as doçuras espontâneas, que nos vêm sem o mover de um dedo. Sem nossa participação na escolha. Que graça, que verdade há no mimo estendido pelas boas maneiras?

Oferecer é falso. Hipocrisia de quem não quer ou espera ser aceito. A ânsia de ceder o quitute, de entregar o presente, não aguarda: é cega o bastante, forte o bastante para atropelar-se, para efetivar-se até antes da hora, preciso sendo. Não pede nem necessita da participação do freguês. Realiza-se em si, na sofreguidão do ofertar. Pouco lhe importa como, quanto, o quê. A essa febre autêntica de partilha, uma aceitação seria redundante; uma recusa, ofensiva. Nada detém o privilégio de alguém realmente encantado com a importância de dividir.

Generosidade tem pressa. Inclusive – generosa que é – de tomar para si a autoria das fomes que ajuda a saciar.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Miniaturas

Satisfeitamente, leio na coluna de Hermano Vianna a criação do brasileiríssimo Ginga, “programa de computador [...] que, assim espero, vai gerenciar as funções interativas da TV digital no Brasil e em várias outras partes do mundo”. Orgulho! Peninha que nem todos compartilhem a impressão. Na mesma coluna, Hermano relata o ocorrido quando Luiz Fernando Gomes Soares (um “dos principais pais do Ginga”) foi defender o programa em Brasília: “ouviu de um parlamentar que o Brasil deveria se preocupar é com exportação de frangos e laranjas”.

Pasmei. Anos e anos e anos, décadas e décadas e décadas tentando arrancar de nossa terrinha a pecha das roupas floridas, das onças na rua, do samba descontrolado, dos abacaxis na cabeça, da colônia resignada a exportar café, açúcar, borracha, do solo que só existe para ser doador universal de gêneros alimentícios e mineralícios, do submundo ignorante a ser mastigado e cuspido por espertões de EuropEUA – vêm criaturas aqui nascidas e criadas, pleno século XXI, selar convictas o rótulo de República das Bananas (ou Solar das Laranjas) que sempre nos deram? Então é isso? acabou? É isso mesmo que somos, que fomos, que seremos ad aeternum – a pátria bonitinha e ordinária, a donzela que não precisa estudar porque nasceu linda, a moçoila que deve se dar por feliz de ter marido para quem passar, lavar e esfregar o chão da cozinha?

Não sei vocês; eu, particularmente, sempre tive gana de reducionismos. Sempre tive mais que horror: beira de vômito dessas plaquinhas que colam na gente ao longo da vida, por facilidade de identificação, sei, mas basicamente por preguiça de ultrapassar a linha amarela do óbvio. Já tão pequena, odeio ser miniaturizada. Reduzida a uma foto que nos tiraram num instante perdidíssimo da existência, deixado sei lá onde, nem lembramos mais que um dia fomos ou fizemos. Mas os outros lembram. Ah, lembram. Tanto lembram que só lembram disso, e eis você anexado nessa bendita imagem pausada a vida inteira, como aquela luz de estrela que só chega à Terra com delay. Séculos passam, a estrela morreu e a luz está lá. Nós: morremos para tantas coisas no decorrer das idades, e ainda assim parecemos continuar emitindo o flash anacrônico, a radiação específica que tínhamos aos cinco anitos.

Aos cinco anitos, quase fui esmagada atrás da porta pela mãe de uma colega, porque tive pudor excessivo de acusar minha presença. Continuo sofrendo para criar casos, mas, definitivamente, não me deixo esmagar. Digo os sins possíveis e TODOS os nãos necessários. Minha mãe, porém, creio que ainda me acha capaz de ter um ou dois ossos quebrados por pura vergonha. Quando finalmente a angústia escapa, e grito e choro como qualquer mortal de sangue nas veias, aí ela encontrou a etiqueta perfeita: estou dando show. Sendo teatral. A consequência natural qual é? Engolimos toda e qualquer verdade de nós mesmos perto dos que nos miniaturizam, e levamos a autenticidade para passear diante dos que não têm a vista cansada do hábito, a desculpa da intimidade. Vamos ser mais reais com aqueles para quem somos estreia. Espetáculo sem prévias críticas. Como um Brasil que vai ser mais brasileiro fugindo ao olhar brasileiro e ganhando reconhecimento no exterior: selo de qualidade para convencer a própria terra.

Santo de casa miniaturiza para nos guardar. Voamos. Nossa evolução intrínseca não cabe muito tempo na prateleira dos colecionáveis.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Modo de usar

Descobri que, engraçadamente, hoje é o Dia da Usabilidade. Palavra grande e pomposa – com definições grandes, pomposas – para significar o simplicíssimo: capacidade de um troço ser útil sem encher o saco. Ser fácil de manobrar e eficiente. Ser aerodinâmico e preciso. Ser acessível e chegar pra resolver. Ser o instrumento do qual se diz: o cara. Não ficar de nhenhenhém ou burocracia desmiolada, que ninguém tem tempo a perder tentando traduzir manual em russo. Usável mesmo, aliás, não carece de manual nem em português.

A quantas anda nossa usabilidade? Viemos ao mundo para confundir ou para explicar? Para ser asfaltadores ou criadores de lombada? Para acrescentar muro ou ponte? Em termos práticos: gente imprevisível, por exemplo, que amanhece quindim e anoitece vinagre (ou vice-versa), que por igual motivo pode hoje te beijar a bochecha e amanhã esbofeteá-la, que tem chiliques vulcânicos – normalmente por causa de um nanomilímetro de poeira – ou serenidades assustadoras – não raro diante das maiores tragédias do globo –, pode ser carismática e fascinante, mas não é usável. Ignoramos como abordar ou estacionar. Não apresenta margem segura de manobra. Metamorfose ambulante feita de TNT, à qual não sabemos o jeito certo de dar uma noticiazinha, oferecer um suquinho, um favorzinho. Topa dar uma de Crô e pegar pela frente uma Tereza Cristina enlouquecida, topa ser assessor de uma banda de rock tresloucada, morar num prédio com reuniões de condomínio bipolares? Eu não. Tô fora do esporte radical de não saber onde pisar. Ainda e sempre prefiro gente com aquela velha opinião formada sobre tudo. Formada, pelo menos, durante um tempo razoável de convívio e manuseio. Não rígida, mas não inteiramente volátil. Nem gelatinosa.

Usável é quem nos acrescenta algum conforto sem intenção ou costume de retirá-lo. Uns pela voz de travesseiro – de conselhos que encaixam gostoso; outros, pelo aluguel fácil e gratuito do ouvido. Uns pela praticidade de contadores; outros, pela percepção de artistas. Uns pelo afeto distribuído sem impostos; outros, pela discrição exercida sem perguntas. Uns pela eficácia em consolar e outros pelo talento de repreender. Uns pela exatidão no gesto e outros pela pontaria na fala. Ou no silêncio. Uns no riso, outros no sóbrio. Uns no expediente, outros na viagem. Uns na reunião, outros na confidência. Todos em sua casa, em seu próprio melhor: hábeis, senhores, articulados, usáveis. Contribuintes para o sucesso sem enrolação.

Usáveis: quando guardamos o que somos debaixo daquilo que mais sabemos ser.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Se fosse agora

Não farei, assim como o padre não fez rodeios na missa de Finados: se fôssemos morrer hoje, agora, estaríamos prontos? Desapegaríamos serenamente? Iríamos com a Dona Morte sem choros, velas, poréns e contudos e entretantos? Não creio. Na maioria de nós daria tremedeira geral (se não desse uma espécie qualquer de, digamos, transbordamentos estomacais) e um festival de desesperados argumentos. Porque sou tão jovem, porque sou tão amado, porque ainda não fui amado, porque sou tão necessário, tão incompleto, tão filho único, tão mãe solteira, tão solteira, tão casado, tão justo, tão pouco, tão muito, tão bom. Absolutíssima falta de hora na agenda. Morrer não está nos planos de quem vive. Die another day. Hoje ainda preciso buscar o Luisinho na escola e levar o terno ao tintureiro.

Acontece que buscar o Luisinho na escola e levar o terno ao tintureiro não são certezas, inevitabilidades, meetings infalíveis ou eventos sem chabu. Morrer é. Pode-se postergar sine die a defesa da tese, adiar o casamento, jamais chegar a enviar a encomenda, nunca se matricular no curso, passar sempre a duas quadras do homem de sua vida. Morrer não. Batata. Ocorre em 100% dos casos clínicos observados. Por algum motivo realmente mórbido, temos a mais doentia reação cabível a mortais: nos decidimos imortais. E pronto. Se a morte vier agora, ela é que está fazendo a louca. Não é comigo. Vou deixar falando sozinha; que vá cantar em outra freguesia. Eu sou lá gente que morre?!...

Somos gente que morre. Somos candidatos perfeitos: respiramos. Estamos habilitadíssimos. Daqui a 3 minutos ou século e meio. Por isso mesmo é interessante pararmos com a frescura ridícula de nos assombrar. Desviar cara e assunto, torcer nariz, bater na boca, dar cuspidinha de lado. Please. Nosso próprio nascimento, este sim, é bonus track. Cabe-nos ter a decência de não nos largar nos sofás do mundo, esperando ou chorando a morte (oops!) da bezerra até que o já esperado nos bata à porta. Morte nunca é visita inesperada. É, no máximo, ignorada. Como um fim de ano que surpreende os maus alunos em plena corda no pescoço, plena beirinha de reprovação. Dá pra culpar a morte porque gazeteamos uma vida, um ano inteiros?

Quando a Famigerada tiver de vir – não que da minha parte haja a menor pressa –, bem-vinda seja. Nos encontre dispostos, de preferência saudáveis, bem aproveitados, bem investidos. Que morramos bem vividos. Em qualquer época, que as saudades estejam trocadas em aceitações, riquezas de ensino. Termos ou não sido amados é irrelevante: no essencial da bagagem de mão, haja o vazio de nosso coração já distribuído em vida, já repartido entre os nossos, mereçam ou não. Aliás, haja vários vazios na bagagem. Que cheguemos à morte nus do mundo, tendo devolvido a ele o que lhe pertencia, dado a César o que era de César: imagem e ombro aos filhos, peito e inteligência aos amores, voz e abraço aos amigos, pés e músculos aos sonhos, mãos e ouvidos a todos. Que tenhamos espalhado presentes, rosas, árvores de Natal, brinquedos, receitas de bolo, livros, perfumes, músicas, festas-surpresa. Que tenhamos nos deixado integralmente de herança, que não nos sobre um grampo de cabelo nos bolsos. O saldo negativo na mala é o saldo positivo do pré-morte. Quanto mais declarações engolidas, mais posses protegidas, mais mágoas escondidas – mais âncoras. Quanto mais ressentimentos picados, mais traumas rasgados, mais tronos renunciados – mais asas.

Para morrer basta estar vivo. Para morrer bem, ainda mais vivo. Só morre mal quem já estava morto e não sabia.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Mostrar o silêncio

“A poesia de Roseana Murray é feita de delicadezas e transparências, como se ela falasse para mostrar o silêncio. E assim a linguagem alcança a condição de pluma ou porcelana.”

Foi a definição escrita por Ferreira Gullar na contracapa de um livrinho da autora. Resultado é que apaixonei não menos na contracapa que no livrinho. Fiquei desejando, com delicada inveja, alguém para definir-me assim: aquela que fala para mostrar o silêncio.

Falar e escrever é bom, sim, é eficientíssimo no sentido de dar sentidos, de chover informações, de apontar fatos, de indicar acontecências observáveis e pensamentos necessários. Fazer campanhas essenciais – não é fundamental usar todinhos os verbetes do Aurélio para espinafrar cigarro e outras drogas, por exemplo? –, encher o planeta de inteligências palpáveis. Mas é melhor ainda chegar à agudeza do não-dizer que sugere. Atingir o ponto em que palavras lançadas não só, de imediato, frutificam: semeiam. O ponto em que o discurso não é discurso, o discurso é convite, a declaração não pertence mais ao declarante, a declaração não é forma, a declaração é asa. O ponto em que se acaba o peso enérgico de exclamações e mudanças de parágrafo, e principia a sedução das reticências.

Sonho de qualquer escritor, atravessar esse arco-íris verbal. Não ser mais dono exclusivo do texto porque o leitor entrou na equipe, preenchendo de si as lacunas convidativas. Quanto melhor o escritor, mais almofadas nas lacunas. Mais serviço VIP, cafezinho, camarote e massagem para que o interlocutor atenda ao chamado: vem. Se coloque. Me complete. Me faça um texto que sobrevive transplantado na memória, que não se esgota na tela ou no papel, que não falece arrancado do livro. Providencie que haja vida após a leitura. Me jogue nas suas constâncias, me chame de seu favorito, me vire em seu. Que mesmo nesse outro dentro, que mesmo no fora de mim eu signifique. Você me pense, logo eu exista.

Texto que mostra o silêncio é macio como chocolate ou bolo aerado, desmancha no pensamento, toma conta do gosto mesmo quando se desfaz. Não se desfaz: vira saudade. Texto bom se converte em saudade tanto quanto o doce preferido. Não acabamos de mastigar na lembrança – e chama outras. Por causa de suas delícias ou bons incômodos, o paladar apura para só ficar aceitando iguais sabores, ou melhores.

Texto bom não é escrito por, para, com ou sobre. É criado entre.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Gostosura ou travessura

Montão de gente encana com a mania recém-incorporada do brasileiro de celebrar o Halloween. Montão de detratores alega que é data importada, tradição ianque, estrangeirismo inaceitável, apêndice vergonhoso de folclore, baba-ovice ridícula. Alega mesmo ser de um macabro incompatível com a realidade tupiniquim. Bobajada. Primeiro que é compatibilíssimo com a realidade tupiniquim descolar festinha extra entre Dia das Crianças e Natal – especialmente se há fantasias envolvidas. Quanto de estrago psicológico pode fazer um chapeuzito de bruxa com estrela azul? Segundo, é no mínimo historicamente nonsense exigir culturas típicas puras de contágio. Contagiar é a ideia. A good one. Misturar, emprestar, liquidificar. Ou o leitor amigo topa adotar o guarani como língua materna? Melhor: bora todo mundo papear em sânscrito. Pureza cultural rola não, gente. Evolução é a prova dos nove. Get over it.

Quanto mais não seja – para sono tranquilo dos arraigados –, o Halloween já não desembarcou americano; desceu do avião devidamente antropofagado, pra encher de orgulho nosso Oswald. Chegou em edição revista e resumida, mais farra e menos morbidez, alegrando a vida de comerciantes e cursinhos de línguas. E já que citamos morbidez, como era mesmo aquela lenda tipicamente nacional de mulher de padre que vira cavalo decapitado e sai a galope com o pescoço em chamas? Como era mesmo o lance da criatura de pés virados que pega um, pega geral na floresta (também vai pegar você)? Como eram mesmo os versos de ninar em que um boi-boi-boi-da-cara-preta ataca bebês só por terem medo de careta? Como era mesmo a história do negrinho-da-perna-só que fuma (FU-MA!) cachimbo, mesmo com aura de criança, e sai espalhando pequenas grandes maldades no entorno? Refresquem-me as ideias: não foi a esse serzito exemplar que tentaram dedicar um dia de nosso calendário patriótico? Ahã.

Convenhamos. Não são culpa do Halloween as nossas bruxas. Nem de leve. Sequer precisamos importar a atividade mais relevante do feriado americano – sair para ganhar doces ou fazer travessuras, coisa que não pegou por aqui –, por já ser e sempre ter sido uma atitude brasileiríssima. Metaforicamente falando. Quem, mais do que nós, é movido à base de toma-lá-dá-cá, ou-dá-ou-desce, me arranja isso que eu te consigo (ou não te estrago) aquilo? Que nação, mais do que a nossa, tem tamanho impulso infantil de detonar o que não serve de pronto, de depredar o que não interessa de imediato, de recusar-se a assumir 1mg de dever que não venha precedido por 25kg de direito? Quem, mais do que este nosso tanque de golfinhos gigante, só faz truque se recebe peixe? só copia a matéria se vale ponto na prova? só investiga a maracutaia se o Fantástico denuncia? só cumpre a obrigação se rola propina? só faz a inauguração se recebe voto? só vota a favor se negocia aliado? só reabre o processo se o Fantástico redenuncia? Já somos de fato, por talento, pela própria natureza, a pátria da gostosura ou travessura, a capital internacional da chantagem a céu aberto, em todos os mais criativos níveis. Não exatamente evoluímos em termos econômicos e políticos: somos empurrados pela inevitabilidade da opinião pública, pelas contrações universais. Mas achamos sempre um cantinho de feira para continuar nosso troca-troca, nosso oba-oba. Um cantinho. Que o resto do mundo não tem medo de careta.

Deixemos em paz as criancinhas, contentemente vestidas de Branca de Neve ou Harry Potter, vampiro ou Tinkerbelle. Tenhamos mais o que fazer como adultos. Discutir estratégias que nos transformem em país sem horas do espanto, por exemplo – antes que viremos abóbora.

domingo, 30 de outubro de 2011

Ouvir estrelas

Sabe quem é Sandy Wood? No Brasil, ninguém. Nos Estados Unidos – descobri pelo site do New York Times –, é a voz que, em 2011, completa 20 anos conduzindo maciamente o programinha de rádio StarDate. Dois minutos para mais de dois milhões de ouvintes. Dois minutos simpáticos, diários, que convidam americanos ocupadíssimos a “ir até o quintal e mirar as estrelas”, como diz a reportagem. Seja com o comunicado da descoberta de um quasar, seja com a informação do melhor camarote para admirar a passagem de um cometa, o StarDate seduz pelo princípio que justifica o nome: uma espécie de “namoro”, de encontro marcado – romântico – com as bonitices do céu. Uma intimação a que retomemos (brevemente, mesmo) nossa essência original de contemplação.

Ora, direis; certo perdeste o senso. Quem tem tempo para se dar ao desfrute, ao demorado desfrute de contemplar hoje em dia? de diminuir o gráfico de ações, a escala de feitos, o índice de resoluções para aumentar a porcentagem de dia “perdido”, olhando para o nada? E eu vos direi, no entanto, que a falta de contemplar nos adoece. Não sejam estrelas propriamente ditas; sejam poemas, ondas, rosquinhas de araruta, museus, refeições coloridas, um rosto mais especificamente amado. Seja o que seja, contemplar é preciso. Contemplar é mastigar a vida com os olhos, paquerá-la, sorvê-la, apaixonar-se por ela com voluntária mansidão. Escolhê-la conscientemente. Não a engolir goela abaixo apenas pelo detalhe de estarmos vivos. Contemplar é estar vivo de propósito.

Triste que a impaciência universal atualmente não contemple: fotografe. Somos práticos, somos ávidos, sedentos. Registramos e pronto. Está arquivado. Não conseguimos mais ir a um banheiro de shopping sem documentar o momento para a posteridade, posando no espelho. Nada, nadíssima a ver com o admirar sem pressão que o ato de contemplar exige. Olhar com a pulsão incontrolável de tirar foto, com a ânsia brutal de guardar materialmente, possessivamente, é feito namorar no sofá de casa, com trabuco na cabeça e olho de pai e mãe no cangote. Fotografar sem antes enamorar-se da cena arranca a espontaneidade do belo, deixa-lhe só um sentido de obrigação besta. Contemplar vem primeiro, e é coisa de se fazer com a câmera arriada. Coisa de se fazer desarmado de pressa, de posse, de urgência. Não há permanência na imagem que se copia, toscamente. A permanência mora na contemplação que dá à luz a fotografia. Mora na ternura que nasceu antes, embevecida de prazer, pálida de espanto – e apertou o botão da câmera na esperança de, somente, repetir a si mesma a certeza que já tinha.

Amai a vida para entendê-la, caros. Ou não entendê-la – tanto melhor. Amai-a (que é o amor senão contemplação por dentro?) para recebê-la, merecê-la, só então fotografá-la. Contemplação não é ficar como um paspalho, mudo, esperando ouvir ou flagrar estrelas que lhe recitem de longe, de fora. Não é ser paparazzo do mundo. Contemplação, telescópio virado ao contrário, começa no contemplador; e é, simplesmente, pretexto para abraçarmos nossa própria consciência, nossa própria medida de deslumbre, num climinha de enfim-sós.

sábado, 29 de outubro de 2011

Pegar carona nessa cauda de cometa

O mundo anda cinzinha que dói: ele escancara uma porta colorida como o armário de Nárnia. Chovendão em pleno sábado: ele e você acampam gostosamente debaixo das cobertas. Travessia na barca Rio-Niterói: ele é o passatempo almofadado que ensolara a viagem. Ônibus: também. Metrô: também. Avião: também. Férias na montanha: duvido resistir a pegar uma lareira com ele. Enem no sábado, concurso no domingo: quem mais senão ele para servir de chocolate mental? Insônia: nem com canela um leite quente o supera. Feriado nacional: ele é a luz no fim do programa. Apagão: o programa no fim da luz. Lanterninha salva.

Ele é o sinal de civilização que nos pega no colo, o calhamaço estético que nos educa, a psicologia universal que nos cria. É a cultura que primeiro nos embala. É a arte que de cedo nos cativa. É o mais velho amigo de nossas escolaridades, símbolo das conquistas inaugurais. É a fonte que chove dados, gritos, rimas, ritmos, lamentos, espelhos, memórias, sons. Lutas, pontapés, prazeres, exemplos. Principalmente exemplos. É a janela com vista pro mundo, escotilha da História. E submarino na História. É barco que nos mergulha no alheio e foguete que nos alça ao particular. É bruxo, vampiro, lobisomem que nos dá alternativas ao ser, que nos toma facetas pela mão. É pau, pedra, fim e início de caminho. É empréstimo de sonho, é filial de vida. Reinauguração de vida. Divã.

É hoje, no Brasil, o dia dele. Dia Nacional do Livro. Dia do amante insubstituível de nossas agonias e imaginações, alma gêmea dos coraçõezinhos incompletos (e há completos?). Dia do objeto introcável por qualquer que seja a tecnologia insípida e inodora. Dia do amigo que nos acarinha e acarinhamos folheando, amassando, cheirando, marcando, sublinhando, espremendo nas almofadas, esmagando no travesseiro. Dia do nosso favorito brinquedo de pensar, nosso mais sofisticado jogo de viver. Nossa mais polpuda realidade virtual. Dia de banhos de mar em Pasárgada, machadices com torradas na Colombo, bolinhos de Nastácia no Sítio, turismo no centro da Terra, compritas em Hogsmeade. Dia de nova infância e pré-morte, desse tudo-ao-mesmo-tempo-agora que bebemos no supermercado dos outros. Dia de esconde-esconde em nebulosa, sem voltar pra casa. Dia de fazer casa em nosso lindo, maior, balão azul.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Causas impossíveis

Aproveitemos o dia de São Judas Tadeu para colocar na pauta sonhos e desejos engolidos, nossas pretensões improváveis. Aquilo que damos tanto por bom quanto por perdido, aquelas esperanças que já não encaramos por pudor de nossa inocência, as decisões que alegremente tomaríamos não fosse o fantasma da implausibilidade. Aproveitemos. Não é todo dia que damos trégua à nossa vergonha de querer.

De querer ser útil profissionalmente, por exemplo – dando aulas em escolas do município. De querer ter a ousadia de convencer cada aluno abandonado por si mesmo a resgatar-se do autoesquecimento. De pretender tornar noções como responsabilidade e consequência magicamente compreensíveis. Simplesmente normais. Pelo menos normais. De pensar em fazê-los amar pensamentos, encaixar e desencaixar pensamentos por brinquedo e não por chicote. De esperar lhes dar fome e sede – das boas – como algum legado. De cogitar não deixar-lhes apenas números defuntos no boletim, mas uma herança social que preste.

De sonhar, também, ver um contexto social que preste: papéis e latinhas guardados na bolsa até a próxima lixeira (de coleta seletiva); broncas e indignações postas para fora sem esperar a próxima eleição (do que for); maiorias convencidas de não ser imperatrizes da verdade; minorias convencidas de não ser eternas vítimas; cadeias com cartão de ponto e contracheque para hóspedes; constituições com mais sins, mais nãos e menos talvezes; governos que tornem ONGs obsoletas; hospitais que tornem planos de saúde obsoletos; futuros que tornem nosso presente um coitadinho. Futuros de se falar em aquecimento global e mula sem cabeça no mesmo folclore.

Aproveitemos o dia para nos desapegar desse triste pouco que nos habituamos a ser. Para nos liberar de nossos preconceitos contra a felicidade longínqua. Para tacar na lixeira (de coleta seletiva) nossas manias de não conseguir, nossas decisões de não buscar, nossa serena aceitação da incapacidade. Livremo-nos da aridez do perfeitamente possível.

Nos impossíveis é que mora a única razoável sobrevivência.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Proteger e admirar

Revistas femininas gostam muitão de falar de quê? Homem, claro. Matéria batata de entrar na edição é aquela que “desvenda o pensamento” dos garotos, como se fosse um dicionário de tcheco. Numa dessas Novas da vida, vinha uma série de perguntas direcionadas às criaturas do sexo oposto que eram os dissecados da vez. Achei interessante e inusitado haver uma questão do tipo “Vocês preferem uma mulher para proteger ou para admirar?”. Um sujeito de 30 anos não se fez de rogado: “Na fase em que estou, prefiro uma mulher que eu possa admirar e com quem construir alguma coisa junto. Quando mais novo, o homem tem o instinto de proteger a parceira para se sentir mais macho. Com o tempo, percebe que pode ser protegido também”.

Incrível a maturidade da resposta. A percepção. Normalmente tenderíamos a pensar que gajos mais novos querem uma extensão da mamãe, querem acabar de ser criados, querem ser acolhidos debaixo das asas – e os mais velhos, já resolvidões, protegem. Mas o cidadão da reportagem disse tudo. Pelo menos trouxe um ponto de vista saindo do forno. Sinal de evolução, mesmo, é aprender a admirar. Aprender a precisar. Aprender a depender num sentido total e alegremente distinto do post anterior: aprender a recuar nas onipotências para aceitar os acréscimos alheios, para abraçar as capacidades doadas, os dons, os saberes que nos faltam. Crescemos – todos – quando nos permitimos tocar nos pontos com mais terminações nervosas; nossos membros-fantasma, nossos às vezes embaraçosos vazios.

Ser o eterno fornecedor de proteção é a maneira mais fácil de autoproteger-se. O zeloso é, também, aquele que controla. Aquele que dá as cartas conforme deseja manipular sua imagem, defensivamente. Quem faz o itinerário para ter a chance de desviar-se dos próprios obstáculos. Quer ação mais infantil do que pretender guiar a vontade adulta? Os protegidos, por sua vez – protegidos maduros, não bebezões que na realidade são reizinhos possessivos –, assumiram renunciar ao faz de conta. Admitiram que não dão conta. Não sozinhos. Protegidos são os realistas: sem deitar eternamente em berço esplêndido, penduram no pescoço sua parcela de fragilidade e, necessário sendo, carregam-na frequentemente para o conserto. Estão abertos (não acomodados) à verdade de suas fraquezas. Protetores compulsivos estão nadando no vício de suas forças.

Querendo saber quem é quem, observe. Protetores machões são os que desejam dar download imediato de um programa de cartografia e reinventar o mapa. Protegidos maduros são os que param para pedir informações.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Razões emprestadas

Foi, se não me engano, no capítulo de ontem da novela A vida da gente. O médico que cuida de Ana, a protagonista em coma, alertou a mãe possessiva da mocinha: sua dedicação interminável à filha era muito boa, muito bonita, mas já estava em tempo de dar também alguma atenção à sua vida particular. “Minha o quê?”, repetiu Eva, tão aturdida como se a tivessem mandado escalar a seleção do Zaire. O doutor esclareceu do que se tratava. Aquela coisa, sabe, que se tem fora do hospital? “Ah, não, doutor” – ela sorriu, mais ou menos compreendendo o que ele tentava dizer – “eu não tenho vida particular. Minha vida é a Ana, sempre foi. Nós somos in-se-pa-rá-veis.” E ali permaneceu a motherzilla interpretada por Ana Beatriz Nogueira, observando a filha com carinho aterrorizante.

Eva é fictícia; seu comportamento insano não é um poço de realismo. O discurso, sim, é realista. No que há de péssimo. Não somos poucas as criaturas que vivemos de razões emprestadas: seres sanguessugas que terceirizam a própria existência vampirizando o cangote de outra criatura – ou de um trabalho, ou de um propósito. Menos pior quando é de um propósito, em especial se muitíssimo elevado. Acabar com a fome no planeta, por exemplo. Ruim demais se for de um trabalho: mutilam-se outras necessidades, sedes e mundos, e aquele ser se torna monofacial, monotemático, monótono. Mas terrível, perverso mesmo, quando cravamos os caninos num outrem que deve gerar energia suficiente para viver por dois. Que desde sempre carrega o fardo parasita ao qual, por acréscimo, tem o fardo pior de não poder decepcionar. Uma relação a três – o viciante, o viciado e sua tonelada mórbida de expectativas. Bom para ninguém, aberrante para todos.

Passar adiante a procuração de nossa felicidade é um tipo de ódio. Deve-se, no fundo, desprezar profundamente o bem-estar daquele em quem sapecamos arreios, cabrestos, correntes. Precisa-se nutrir tanta reverência, tanta admiração pelo objeto hiperamado como senhores de engenho nutriam pelos escravos que eram suas mãos e pés. Depender não é amar: é escolher a vítima conveniente, o alvo de abate. Amor que mereça o rótulo necessita já a princípio ser livre, no sentido de pisar macio para não virar hóspede que incomode. Amor caminha plumamente, delicado na atenção, de sobreaviso na leveza; voa mansinho, flutua, não se arrisca a pousar e pesar. Pousa como quem sopra e permanece com a suavidade de quem não estivesse.

E só assim – desengaiolado, desengaiolante – consegue ser-se. Amor pode e deve ter documento. Desde que limite as algemas às ocasionais de pelúcia rosa, para eventualidades de lazer.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

The end

Eu estava lendo (oh, surpresa) uma crônica da Martha – que, por sua vez, lera uma crônica da Clarice – sobre nossas últimas palavras. As últimas ever. O fechamento verbal da vida. Martha comentou a tremenda responsabilidade, o tremendo peso, de não se poder garantir que toda uma existência não acabará num "putz", ou expressão igualmente cretina. Algo que não faça jus a nossa abundância vocabular, a nosso eldorado interior. De fato, não é questão para se perder no travesseiro entre um dia e outro. É para amofinar. E, na total impossibilidade de se ter controle sobre o momento da declaração final (ainda mais numa cidade estúpida, súbita, como este Rio de Janeiro), resolvi já ir adiantando meu testamento, que segue pelo menos em rascunho. Just in case.

Declaro para os devidos fins que esta foi uma boa vida. Não pode ser uma vida ruim aquela que tem Fábio, casa, família, salário. Que teve amendoeira no quintal. Que teve quintal. Que teve irmã mais velha, show do Roupa Nova, visão capaz de identificar o rosa e o laranja, paladar sensível ao toque da manga, olfato bastante competente para cheiro de café e fornada nova de pão francês. Que teve amigos, Cabo Frio, Magic Kingdom, rua arborizada, agradecimento de aluno (uuuuum que seja). Que escutou piadas, elogios e necessárias broncas. Que teve mãe e pai – só isso já assegura bônus para mais de século.

Declaro que, pela ausência de chance (e cara de pau) e tempo, posso não ter mergulhado com bastância nas atividades mais amadas, posso não ter sido a mais eficaz e exemplar entre os projetos queridos, mas em compensação tentei, sem amargura, dar o rumo mais nobre aos trabalhos que se mostraram possíveis. Tentei, se não ser a melhor, ser melhor do que a eu-mesma de ontem e anteontem. E tanto me afeta, tanto me absorve a palavra que talvez eu não tenha conseguido suportar o choque de usá-la para demonstrar o que mais me afeta e absorve. Talvez eu não tenha amado o suficiente em voz alta. Talvez não: é certo. E me desculpo pelo mau jeito. Reconheço não ser, por acanhamento – diante dos verbos e dos quereres, que tanto medo respeitoso me dão –, a mais expansiva, a mais fluente das sentidoras. Sinto tudo baixinho, a não ser quando trovejo. Prefiro o papel à voz, o teclado ao fone, a ação à declaração. Gosto de favores, abraços, olhadas e presentes no lugar dos eu-te-amos que não me escapam porque me fazem enrubescer.

Por fim, declaro que me esfalfei para ir jogando foras as mágoas e, pelos meus cálculos, devo chegar ao cabo sem nenhuma. Reciclá-las todas antes de cada próximo capítulo. Não sou ainda a recicladora turbo que gostaria de ser, e por outro lado não sou mais a antiecológica criatura que acumulava ressentimentos de magistério sem fazer uma coleta seletiva. Mudo-me, trabalho-me; tento, ao menos. E creio. A vida inteira não deixei de crer. Sou incapaz tanto do otimismo idiótico quanto do pessimismo convicto. Mas, na escolha, entro no time do primeiro, porque creio – e procuro convencê-lo a moderar a pieguice e falar de outro modo as mesmas esperanças.

That's all, folks. Se qualquer coisa que eu tenha dito, ainda que esquecida ou inadvertidamente, deu cria feliz no pensamento de alguém, vali a pena. Saio aqui da história para continuar na vida. Espero que por tempo mais do que suficiente para aperfeiçoar meu último texto através das décadas. Umas quinze. Não tenho pressa de postar a versão definitiva sem certa qualidade na revisão.