terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Live and let livre

Não entendo qual é a dificuldade: a gente pisa na escada rolante, não está na vibe nem na precisão de correr, fica ali quietinhamente à direita – e larga a esquerda aberta, solta para os impacientes ou desesperados. É casalzito? põe o mais baixo no degrau de cima, o mais alto no degrau de baixo, beijinhos, fofura, todos felizes. Necessidade nenhuma de embarreirar a pressa alheia, sacrifício nenhum de lembrar que os outros meramente cruzam o dia em seu próprio e diferente ritmo. Escadas rolantes resumem a potencial simplicidade do mundo.

Mas não. A criatura não consegue seguir sua estrada com tranquila eficiência, fiel aos passos e pulsos individuais. Tem que ficar embaçando o andar do próximo, latifundiando o degrau inteiro: que mala. I mean, na melhor das hipóteses é um mala que se tem no meio do caminho – aquele de invadir conversas, tentar impor sua sacrossanta experiência, se instalar no tempo do amigo em momentos lindamente inadequados, dar um golpe de estado na decoração da sala da prima, distribuir as últimas palavras nos dilemas dos filhos do síndico. É o chato ingerente, muito daninho em convivências ininterruptas mas suportável em encontros bissextos. Pior mesmo é aquele que, em vez de nos aprisionar um instante ou dois, em vez de nos submeter a uma opinião ou duas, quer seu hospedeiro completo; quer tudo. Encosta numa vida usando crachá de amor e vampiriza, vampiriza, vampiriza até o desalento secar as artérias da vítima.

Por isso me arrepio até a última hemácia quando ouço uma jovem aluninha ou aluninho protestando: ah, precisa ter um pouco de ciúme, sim, professora, para confirmar o amor. O cacete, crianças. Ciúme é coisa de gente tão incapaz de se gostar que se torna também incapaz de se achar gostável. O ciumento não tem amor, tem medo; é a insegurança personificada, a baixa autoestima em formato humano, o parasita que tem raiva do anfitrião porque se sabe insuficiente para ele. Não há possível saúde quando se cola no outro não pela vida que ele lhe dá, e sim pela que lhe pode ser arrancada. O ciumento, em todas as áreas, faz muito mais do que se postar no meio do degrau e atravancar o caminho: o ciumento lhe toma o degrau, aliás toma todos os degraus disponíveis para fuga, até finalmente atirá-lo da escada. Nunca foi amada provavelmente, essa alma doentia; tanto que (sem prévias instruções) chama de amor sua avidez de posse, seu terror da perda, sua ganância de colecionar gente e não emprestar suas peças para mais ninguém. Nunca descobriu que o amor sufoca com agrotóxicos, só pode ser limpo e orgânico. Não sabe que não há transplante bem-sucedido de amor para um confinamento sem espaço de raiz, caso ele seja tirado de seu habitat natural de liberdade.

Ó só, turminha do ciúme: sai dessa. Deixa a delícia, o prazer, o objetivo, a alegria, o trabalho, o piercing, o namoro, a saia, o short, o filho, a faculdade, a música, o cabelo, a crença do outro/ da outra – deixa tudo lá no outro e na outra. Uma vida só já dá uma trocentada de suor (ainda mais no verão carioca), não desidrate acumulando a administração da existência alheia. Acredite: o que se atrai todos os dias nos pertence por escolha; o que se caça não é feito para ser nosso. Não existe plenitude em gaiola. Tudo que é sórdido desmancha no ar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Prefiro rosas

Foi bem este o verso de Ricardo Reis: “Prefiro rosas, meu amor, à pátria”. E não posso deixar de concordar com Ricardo Reis. Abraço minha terra natal não com a canção-do-exilite aguda, exaltada e furiosa que dominou os românticos, muito menos com o impulso besta que levanta a galera em Copas do Mundo, mas com o afeto medido, moderado, de quem vê as encrencas de alguém da família e mesmo assim muito lhe quer, embora sem ilusões. Isto posto, se vierem me estender bandeirinhas verde-amarelas para sacolejar na rua ou espetar na varanda, recusarei com um terminante “obrigada, eu passo”. Me nego a replicar o patriotismo de vitrine, o patriotismo de comercial de banco, o patriotismo superficial das manifestações que pintam a cara como o seu mestre manda. Sou decididamente arredia ao verde-amarelamento de nossa lealdade, como se o Brasil fosse emoção, medula, time. Prefiro rosas.

Se a pátria que me mostram é a que nos encosta na parede com a chantagem do “ame-a ou deixe-a”, se a pátria que me empurram é a dominatrix que espanca mas exige obediência de cachorrinho – mal aí, gente: prefiro rosas. Minha pátria real não foi forjada nos livros de Moral e Cívica; nasceu vermelha de urucum e pau-brasil, vermelha de pitanga, vermelha do que sangrou nas tabas e senzalas, nos hospitais e nas revoluções. Minha pátria é feita de flores encarnadas, de guaraná e argila, da morenice-jambo de Gabriela e Narizinho. Não é mansinha nem tola não, não tem a proclamada paz que é somente escravidão amordaçada; é amazona guerreira, é Chiquinha Gonzaga, é Anita Malfatti, é Anita Garibaldi. Meu país de verdade transcende a masculinização violenta que não topa liderança feminina, que não sabe conviver com a recusa feminina, que se garante esmagando a reputação feminina. Minha terra nasceu Pindorama com matriarcado na veia; tem curvas, gingados e quadris, é útero, é telúrica. Se a sua é dura, cinza e militar, sinto muito: prefiro rosas.

Se o que se entende por pátria é o perfilamento diário para entoar um hino tão líquido e doce (não era melhor cantá-lo batucando, mordiscando manga, fazendo carinho na viola?), so sorry: prefiro rosas. Meu país é moleque no passinho e no pagode, sim, mas na vida não usa jeitinho, não aprendeu malandragem; vovó ensinou desde cedo que, se a caneta que não é sua tem de voltar ao estojo do coleguinha, quanto mais dinheiro público. Não quero dizer que essa pátria macia e inzoneira não erre; erra por demais, foi mal-educadinha, malcriada, de propósito esquecida. Só que tem memória sim, aprende sim, e não merece ser xingada hora por hora, ameaçada de troca por Miami. A danada tem jeito. Quem tem humor, tem jeito; e ela é esperta, materna, sabe embalar com música suave, sabe os versos mais lindos, sabe juntar línguas em todos os melhores sentidos. Essa pátria-jambo não gosta sempre de sapatos, como a menina de cravo e canela, porque tem (ainda) muita grama para pisar. Não gosta da paleta acanhada de só duas cores, que lhe deram para vestir com intenções e memórias europeias: quer dançar com todos os vestidos, quer usar roupa de todos os folclores, quer erguer todas as (justas) bandeiras, quer ser amiga de todos os times, quer abraçar todos os países – nada de boicotar tons, lindezas; nada de boicotar ninguém. Essa pátria-Narizinho pode ter andado com príncipes, mas pertence mesmo aos sítios, às viagens, aos sonhos, à escuta, à luta. Não é da guerra, mas peleja; não é do coturno, mas desfila; não ataca, mas resiste. E nunca, nunca há de negar sua história à força enterrada, mexida, desviada – sua história estuprada pela sujeira das versões. Não há de estancar seu rumo chorando pela beleza derramada.

Prefere risos. E rosas. 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Ainda quero

A gente sempre ainda quer – se não quer, está morto fatalmente. E menos complexo talvez fosse querer o óbvio, mesmo que caro; o óbvio é definível, buscável com endereço, está exposto em vitrine, demanda tantos reais, tantos dólares, tudo pretonobrancomente. Você entra no site, googla no trabalho, descobre, planeja: metas, metas. Só que o muito que se quer nem sempre cabe. Tem pacote turístico para voar de balão, tem escola de francês para quem se dispõe à mensalidade; mas onde se conhece, onde se alcança aquele que lhe vai apresentar uma dúzia de passagens secretas palpitantes num castelo medieval somente seu? onde o agente de turismo que vai descobrir o melhor sebo da mais ladeirosa rua do Porto – sendo que naquele sebo necessariamente estará o livro que você caça há décadas, não porque o queira ler, mas porque sua dedicatória é a pista de uma história ou um tesouro? onde a fada madrinha que lhe concederá uma centena de pandas para esmagar de fofura? onde o organizador do tour que o levará a cada cenário de cada frame de cada filme que você mais amou desde o princípio dos tempos?

A gente finge que se limita ao ainda-quero previsível e domesticado: quero morar fora por seis meses, quero visitar todas as Disneys, quero estar na abertura de uma Olimpíada, quero fazer dança de salão. Porém não é (só) isso que somos, não é o que nos basta. O que ainda queremos – diz Clarice – não tem nome. Na verdade, antes de morrer desejamos acessar o absoluto sossego, a mais plena independência de ponteiros, alarmes, agendas, obrigações. Sonhamos ver a espécie de tal forma harmonizada consigo mesma, que os opostos não serão adversários e argumentarão por longos minutos e em pouquíssimos decibéis. Pretendemos decorar a coreografia de “Thriller” ou Chicago e bailar publicamente com parceiros, datas, espaços aleatórios. Esperamos adquirir nosso teletransportador particular e tomar café, almoço e janta em países diferentes. Andamos nos adiantando no controle da Força e tencionamos usá-la para desinfetar alguns cérebros. Planejamos virar o tipo de gente que larga tudo para fazer origami ou cantar num restô de Paris. Fantasiamos tecer e distribuir casas, espalhar pão, botar todo mundo na escola para ser visto e amado. Temos o fetiche de desburocratizar tudo e todos, de limpar as mentes de complicadores, de varrer o nhenhenhém que gera demoras. Ambicionamos, pessoal e coletivamente, causar – verbo intransitivo.

E, mesmo se causarmos, continuaremos querendo: vamos querer o simples incomprável. Recuperar igualzinhamente um sabor de infância, reconquistar a proximidade da família, fazer maratona da série preferida sem que o telefone toque e toque e toque. Particularmente, ainda quero atrair os beija-flores; quero juntar o povo da turma de faculdade numa reunião decente; quero ficar livre do domínio mental de músicas persistentes, obsessoras; quero dormir e acordar sem pena tanto de acordar quanto de dormir; quero reconhecer constelações; quero aprender bicicleta (pois é, não sei andar de bicicleta); quero algumoutra vez tomar banho de chuva; quero retomar o relacionamento (infantil) com o patinete; quero reagir melhor ao frio do ar-condicionado; quero alcançar o desapego. Quero chegar à sabedoria de não me amofinar com ruídos. Quero ser uma forma de paz.

E quero descobrir sozinha uma dúzia de passagens secretas palpitantes, se alguém aí tiver um castelo medieval que não esteja usando. 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Aos que nunca souberam

Somos um álbum de influências, somos um patchwork. E nossos pais, irmãos, maridos e amigos mais colados podem todo dia sorrir ante esse espelho e se encontrar em nós: descobrem na gente um bordão que antes era deles, veem em nossa mania de limpar a faca no pão uma herança deles, brincam de constatar que nossas músicas cantaroladas nasceram neles. Nós também achamos nosso vocabulário em bocas próximas, adivinhamos um elo de telepatia, seguimos a germinação de um ritual que plantamos. Acontece, pois, de nos sabermos – e de termos em volta aqueles que se sabem – formadores de pedacinhos de gente. Isso nos diverte e comove, mas não exatamente nos surpreende: não seria mesmo de esperar que a convivência atasse os laços? que a genética do sangue ou das horas se manifestasse nas minúcias, nas reproduções? É e seria. É a praxe dos contatos. Está na letrinha implícita das ligações humanas.

Mas existe a letrinha miúda da letrinha implícita, porque não somos tão previsíveis a ponto de apenas os mais vizinhos nos gestarem. Contra todo o lógico e o previsto, temos em nós fragmentos de doadores que somente nos esbarraram, que jamais foram íntimos, que sequer nos notaram ou anotaram o nome, que nem recaíram no clichê de nos terem conhecido num momento de luz, numa data de relevo. Tornaram-se influências porque nosso aleatório (?) painel de controle assim o decidiu, escolhendo caprichosamente, selecionando com critério top secret esses formadores que pouco ou nada nos viram, que provavelmente não lembram. Que nunca souberam.

Pois aqui vai minha gratidãozinha aos que nunca souberam. Aqui vai ternura à colega de minha irmã que quase não vi, mas que me deixou o hábito dos substantivos superlativados: um absurdíssimo. Aqui vai afeto a meu próprio colega de escola que pouco conheci, mas de quem puxei uns termos impagáveis (Fulano deu-lhe uma bifa, Sicrano te deixou na beiça). Aqui vai carinho, ó pá, ao impaciente garçom português que ensinou: pastel de Belém se come morno, misturando açúcar e canela em cima. Aqui vai sorriso à orientadora do estágio (a culpa é dela, alunos) de quem copiei o sistema de positivos e negativos em aula. Aqui vai amoroso reconhecimento às transeuntes que me inspiraram estilo nas ruas, aos vendedores de loja que sugeriram possibilidades, aos grafiteiros que colocaram menos tédio nos trajetos de sempre, aos conhecidos de um minuto que deram dica médica certeira, aos brevíssimos contatos que me implantaram questionamentos, aos olhares inesperados que trouxeram crítica e elogio. Sem vocês – mestres de ocasião, ídolos fortuitos, cúmplices de minuto, óleos de dobradiças emocionais –, possivelmente eu não me seria; ainda menos me saberia. Mil obrigadas pelo que não imaginam terem feito, pelo que me continuarão cedendo ao longo dos próximos capítulos de transformação.

Vai aqui minha benquerença fiel aos que nunca se saberão infinitos enquanto eu dure. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Piruás

Vocês sabem: piruá é aquele milhinho teimoso que não explode em pipoca – fica lá no saco ou no panelão, disfarçado no meio dos grãos que cumpriram sua metamorfose (vem no bolo e quebra o nosso dente, o canalha). Não sei explicar por que essa desgraça vegetal acontece; ignoro se existem milhos que simplesmente nasceram gorados, sociopatas, de núcleo duro e ruim, ou se é um fenômeno do momento: apenas calha de aquele grãozinho estar na posição errada, na hora errada, não suficientemente exposto ao calor que o transformaria. Respostas para a redação. O que sei é que, em nosso enorme saco de pipoca humana, não consigo acreditar de verdade que haja elementos destinados à condição de piruá, no matter what. Será possível que a natureza, tão precisa e econômica, iria se dar ao trabalho de passar quase um ano juntando célula para fazer um cérebro incrível-fantástico-divo-extraordinário como o nosso – somente para desperdiçar tanta alma e tanto neurônio com um ser condenado à inutilidade?

Me chame de Pollyanna terminal, mas não me conformo. Não me conformo em admitir que alguém possa sair do útero unicamente para não servir pra nada. Não consigo concordar que exista milho humano estragado de fábrica, imutável, intransformável, inalcançável, fadado pela Moira. Prefiro crer na hipótese do fogo insuficiente, do cerealzinho mal posicionado: gente para quem o amor não chegou direito, gente que não teve a fortuna de cair numa família que lhe aquecesse os talentos, gente que ficou num canto tão escuro da panela que nem pôde pensar em talentos porque precisou ganhar a vida, gente até que recebeu tanta quentura quanto os grãos estourados – mas que, por estrutura própria, careceria de mais quentura ainda.

Estamos falando de pipoca, porém gente, afinal, é mais carne que qualquer outra coisa alimentícia, e cada carne tem seu ponto de cozimento. Há seres cujo potencial brilha mais in natura: por mais que vivam e recebam crueza, têm o coração espontaneamente macio e apetecem mesmo sem tempero (não quero dizer, amizades, que alguns devam ser maltratados para poder divar, é ÓBVIO; constato apenas que alguns conseguem divar no mundo apesar de todos os perrengues, e isso é um relativo consenso). Há espíritos que já atingem pleno gosto e suculência com uma seladinha rápida na frigideira; outros dependem de um mar de cuidados, esforços, tentativas e abraços até que a receita fique masterchef. Não se sabe, não tem padrão, não tem manual. O que se sabe ou imagina: todos podem ser masterchefados. Todos têm sabor insubstituível, único. Todos podem ir à mesa em seu próprio esplendor de erva, legume, fruto, especiaria, proteína. O negócio é que todos achem alguém com ternura, visão, tempo, tolerância, persistência, entendimento, desapego, entrega, respeito, empenho, desvelo bastante para guiá-los à sua inteireza.

Naquele serzinho desperdiçado na cracolândia, a gente talvez nunca saiba que mora um Beethoven com ouvido absoluto. A aluna que mil vezes se repete burra e incapaz talvez nunca tenha pilhado alguém que tivesse um estalo e lhe dissesse: você já tentou assim? A menina que foi vendida pelo pai a se prostituir desde os onze – quem pode jurar que não vive nela a capacidade de uma física nuclear, de uma Jane Austen, de uma Fernanda Montenegro? O senhorzinho que espera a vez, conformado, na fila imensa da aposentadoria – quem põe a mão no fogo se seus quarenta anos de comércio morno não poderiam ter sido quarenta anos de gloriosa vida de circo, de medicina revolucionária, de acompanhamento esportivo lacrador? Os que vemos às vezes com desprezo, não raro com nojo, na maioria dos casos com pena, vejamos – ainda, sempre – com expectativa. Mais que um ponto fraco, o piruá tem sim um ponto forte, pode sim ser tocado em sua tecla power, guarda sim o segredo de um incêndio que o ressuscitaria para si mesmo.

Tudo que eu queria desta vida: de propósito ou até inadvertidamente, ser esse incêndio.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Crianças humanas

Primeiramente (fora, Temer!), peço vênia de todo coração para submeter os amigos a um trechinho de Hitler. Sim, de Hitler – dói mais em mim que em vocês, mas enfim é preciso escancarar o olho no escuro para melhor ter certeza de quem está nos cuspindo. O pedacito de (aaaargh!) Mein kampf que tenho o desgosto de citar é mais ou menos assim: “A arte da propaganda consiste precisamente em ser capaz de despertar a imaginação do público através de um apelo aos seus sentimentos, encontrando a forma psicológica correta que irá prender a sua atenção e apelar para os corações das massas. A grande massa de pessoas não é formada por diplomatas ou professores de jurisprudência, nem por pessoas capazes de fazer julgamentos sensatos, mas sim por uma multidão vacilante de crianças humanas que estão constantemente oscilando entre uma ideia ou outra”.

Pode-se acusar aquele Adolf de todas as piorices, menos de imbecilidade. Poucos manjaram tanto dos paranauê da manipulação. Tanto assim que uma das dez técnicas de fantochice midiática apontadas pelo tio Noam Chomsky vai direitinho ao encontro do que disse o danado: quanto mais a mídia deseja enganar o público, mais o infantiliza. Quanto mais procura fazê-lo abdicar das escolhas adultas, mais lhe fala em bebezês. Convido especialmente os cariocas, por exemplo – a título de experiência –, a assistir aos telejornais globais das primeiras horas da matina e confirmar a tese. É quase o Xou da Xuxa para altinhos: muito risinho forçado e alegria incompatível com o horário e a cidade, muita interação com os espectadores que mandam vídeo sorridente para dizer “olha a hoooora!”, muito tatibitate do menino do tempo que explica a chuvinha, a nuvenzinha, o “amarelão” do mapa como numa aula de Geografia da segunda série. Se tivermos a doce malícia de imaginar quem seria o alvo da atração, quem estaria normalmente acordado antes do sol (para talvez pegar um trem e dois ônibus até o emprego?), vamos facilmente concluir a quem seria mais interessante tratar como beócio. A grande massa de pessoas não é formada por diplomatas ou professores de jurisprudência, cof, cof.

Por que nos tomar por crianças? Para que assim nos tomemos. Porque tal qual se dirigem a nós – assim reagimos. Nossa tendência é imitar e corresponder ao que nos é dado; e ser criança, afinal, passa por terceirizar decisões e responsabilidades. Se nos infantilizam, também cuidam de nós, nos dão tutela, nos alimentam de ideias, nos guiam sobre o que convém em sociedade e roteirizam nossos dias, nossas metas. Crianças de qualquer idade vão para a rua com a camisa auriverde que papai escolhe, crianças torcem pelo time que mamãe ensina, crianças acreditam nos monstros e fadas que os adultos rotulam, crianças elegem heróis (juízes, por exemplo) que as salvarão dos homens feios. Crianças precisam de cavalinhos falantes para acompanhar os gols da rodada, precisam de cenas pastelão na novela das seis para concordar que o mundo é realmente bom e vai bem, precisam que lhes contem histórias da carochinha por tooooooda a tarde e noite, senão não conseguem dormir. Crianças não abstraem bem os maniqueísmos, não são eficazes em separar o argumento da opinião, o racional do impulsivo, o debate do xingamento. Crianças são mentalmente acomodadas se não as estimulam, são preguiçosas na leitura se encontram algo já mais colorido e mastigado, são mais afeiçoadas a passar os olhos na manchete e nas figurinhas do que em mergulhar nos conteúdos. Crianças são alarmáveis e impressionáveis – mas normalmente não contra os perigos reais, e sim em relação a seus próprios moinhos de vento.

Crianças do meu Brasil: assumam suas mais de duas décadas de mundo, deem um tempo na amarelinha. Vivam sua plenitude de adulto, sua prerrogativa de sair do quadrado, do cercado, do que nos é delimitado. Não achemos que nossa ingenuidade malandra pega algo ou alguém no pulo; a carniça é que somos nós.   

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Insolações

Já me defini aqui como primaveril: não gosto de aridez fria nem quente, de deserto branco nem amarelo. Gosto daquela serenidade colorida que enfeita romance do século XIX – parapeito com flor, hera tomando meio muro, musgo aveludando a pedra, buganvília abraçando a pérgula, renda verde de flamboyant contrastando com céu impecável, com dourado de tarde caída, com cacho de acácia, com azaleia toda rosa em botão. Gosto de janela azul sobre parede branca, gosto de varanda com mensageiro dos ventos tilintando leve, com cinco ou treze vasinhos fofos. Tudo poético, tudo perfume e delicadeza. Essa é a chave mestra: delicadeza. Mesmo curtindo montanha-russa, sou ligeiramente avessa ao exacerbado.

Digo isso porque olha o carnaval aí, gente; lá vem ele, lá vem ele, e esse exagero ensolarado me irrita. Sou órfã do fim do ano, adoro outubro-novembro-dezembro com seu clima de “acabou o tempo, cozinheiros: hora de empratar”. Há uma graça romântica nos preparativos, luzinhas escorrendo das árvores, a combinação de verde e vermelho com cara de Europa. Embora ridícula, a presença da neve artificial nos distrai um pouco de nossas escaldâncias. É tempo mais suave, mais temperado, menos histérico (OK, tem a histeria comercial dos presentes – mas eu amo tramar presentes). No carnaval a primavera evapora, já estamos há mais de mês sem decoração fofinha, os programas há semanas fazem especial de verão que é sempre areia-surfe-coqueiro, o Rio é um permanente meio-dia – 48 graus e subindo –, é muito suor mesmo no corpo recém-banhado, não se pode dar um passo sem lançar mão de lencinho úmido para recuperar a dignidade, não se consegue manter a pele fresca e lisa: fica animalesca, peguenta. Aqui o verão já anda o cúmulo, e o carnaval é o cúmulo do verão. Sua-se o bastante em casa e sozinho, mas por que não (pensa essa gente doida de pedra) suar baldes e bicas em coletividade, debaixo dum sol fritador de neurônio e pulando, tresloucando e desidratando? Nada mais estimulante do que necessitar de soro caseiro na primeira esquina.

Mal aí, queridos, mas não consigo deixar de achar insalubres essas insolações malucas. Juro que não é frescura: é frescor. Prefiro o calor ao frio, só que ultimamente moramos no Vesúvio, e não há possibilidade de ouvir samba-enredo sem associá-lo ao efeito estufa de cada fantasia, ao desgaste de atravessar a Sapucaí em dança contínua, ao mar humano de lava e loucura. Nada contra os desfiles, desde que eu os veja do camarote que tem meu CEP. Sou do tipo que busca o locus amoenus, vai à praia somente para permanecer no mar, estar com ele; sou do tipo que ama a doçura e não o cítrico, o esperto e não o cômico, o dito e não o gritado, o agradável sem escândalo. Sou do Natal, da água de coco, do mate, do strudel, da brisa cheirosa de chuva, do livro na cama após o banho, da renda, do bordado (não, não faço bordado), do chocolate intenso mas não amargo, do entorno de cachoeira, da cerejeira, da kokeshi, do silêncio, do luar, do passarinho. Não me venham com o áspero, o arenoso: quero o mundo macio e batido com leite condensado.

Com pouco gelo e muita montanha-russa, por favor.