sábado, 28 de janeiro de 2012

Onde cortar

Os prédios do Rio caíram porque teve empreiteiro fazendo caquinha: cortou onde não devia. Eliminou parede e pilastra que, oops, não podia sair. Pois a gente é igual. Na ânsia de realizar algumas simplificações de vida, de arejar a rotina, de mergulhar na moda, corta muito peso morto, sim – mas não raro se empolga e derruba, na onda, certas estruturas de apoio. Fica-se um tempo livre, solto, contentinho da vida. Até que soam as doze badaladas e ploft, um primeiro vento detona com o castelo de areia.

Não estou nem mencionando religião e família: pilastras hors-concours. Falo dos andaimes outros, particulares, intransferíveis, folheados de exclusividade. Há os que ponham suas fichas no trabalho; nele se reconhecem, se pessoalizam, e ao se aposentar é como se perdessem o RG. Fazer o quê? não se aposentem. Não se imponham a obrigação de vagar em casa, estrela apagada, enfiada em pijamas. Brilhem onde costumam, sem limite desta ou daquela idade, que número de calendário é um dado impertinente que não pede licença à verdade interna.

Há os que se escorem no amor. Perigosíssimo. Ou não tão perigoso, se amor de fato. Mesmo assim, é absolutamente essencial distinguir onde começam as paredes de cada um dos edifícios geminados. Que não cortem o amor, nunca; mas que cortem a excessiva dependência. Esta não faz falta: sua ausência supre a falta. A falta que a gente tem de si mesmo quando cisma de se hospedar na vida alheia.

Há os que se apoiem em elementos químicos, e aí é a suprema furada. Não é pilastra, é muleta. Corte certo. Sem dó. Cigarro, drogas e semelhantes cositas nasceram unicamente para botar ferrugem e mofo nas vigas estabelecidas. Espertos não trabalham com esses materiais de quinta: constroem-se de bom concreto por fora, tubos e conexões Tigre por dentro.

Há os sustentados por um hobby – coluna forte, que pode se ampliar em parede inteira. Fica. Há os firmados na vaidade – cimento péssimo, que estilhaça num quebrar de unha. Corta. Há os que se fiem em sobrenome – muito fraca estrutura, incapaz de conter rachas de caráter. Corta. Há os que se encostem no serviço voluntário – pilar resistentíssimo, capaz de equilibrar quarteirões. Fica. Superfica.

Importante é nos erguermos sobre o que é sólido pela própria natureza. Aquelas paredes, aqueles chãos tão fincados em si mesmos que desabamentos próximos não abalam, o clima não pega, a geografia não afeta, a economia não toca, a crítica não fere, a medicina não critica, a moda não descarta. Tão confiáveis para abrigo (nosso e alheio) que passam em qualquer teste do Lobo Mau.

2 comentários:

Keles e Marcos disse...

Legal o texto. Vou visitar mais o seu blog.

http://meninosdefleur.blogspot.com/

Samira, disse...

Muito interessante o texto. Parabéns!

thebookofmydreams.blogspot.com