quinta-feira, 7 de julho de 2011

In-hearts

Depois de ouvir duas moças falando (mal) dos respectivos cunhados, numa lanchonete, minha irmã recordou a máxima de uma amiga sua: “Se cunhado fosse bom, a palavra não começava desse jeito”. Calúnias, pensou. E comentou comigo, fofinhamente, que gosta muito mais de como os falantes de inglês chamam seus aparentados por parte de casamento: in-laws. Brother-in-law, sister-in-law – novos irmão e irmã pela lei, laços que a caneta criou onde o sangue já não podia. “Se bem que eu preferia”, completou ela a fofice, “que o nome fosse brother-in-heart”.

Comprei a ideia à vista. “In-laws” é consideravelmente melhor do que os termos pouco charmosos que usamos para nomear os parentes herdados, mas ainda peca pela sisudez. Tem aquele pesadume de decisão judicial, a letra fria de uma obrigatoriedade civil: decreta-se na presente data que o supracitado passa a ser seu pai, mãe, irmão pela força da lei, revogando-se quaisquer disposições suas em contrário. Em vernáculo: vire-se. Morra de amores pelo sujeito ou queira defenestrá-lo na primeira visita, o importante é tratar de tirá-lo da frente do juiz e ir pra casa com ele ser feliz para sempre. Ao menos não cometer um pouquíssimo civilizado sogri ou genricídio por causa da piadinha infame, do cheque sem fundos, do cortador de grama. Não na frente dos vizinhos.

“In-hearts”, pelo contrário, tem a doçura da escolha. Tudo bem que o clã vem no pacote, mas a gente adota ou não – até aquele no qual se nasce. Aglomerados de leucócitos, hemácias e certidões não atam nem desatam nós sem o carimbo da vontade. Pois eu tive a gloriosa sorte de ser adotada duas vezes: pelo sangue confirmado pelo querer e pelo querer que dispensa o sangue. Pelo meu lar e pelo de meu Fábio. Por quem me trouxe até ele e por quem ele me trouxe. Família pra mais de metro.

Sem acaso, hoje é aniversário de minha (com o perdão da limitada palavra) sogra, que desmente todo e qualquer samba do Dicró. E a quem devo um saldo acumuladíssimo de parabéns e obrigadas: pela alegria de olhar e vida, pelo filho, pelo zelo, companhia, apoio, conselho, carinho em todas variadas formas – abraços, mimos, telefonemas, instruções, almôndegas e bolos de cenoura. Felicidades também para mim, alegremente impossibilitada de chamá-la senão:

Minha mother-in-heart.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Passageiro da agonia

6 de julho é – acredite – o Dia Mundial Contra os Passageiros Indesejáveis. Mais uma comemoração com algo de estapafúrdio e muito de necessário. Ou alguém nunca se irritou com os fulanos que (mesmo 432 estações antes daquela em que saltarão) aglomeram-se na porta do metrô? Com os viajantes que distribuem mochiladas com seu casco de tartaruga? Com os cidadãos que estão convencidos da excelência do próprio gosto musical e fazem questão de dispensar o fone para compartilhá-lo? Com os tipos que, em falta de assentos, apoiam-se nos sentantes? Com os sentantes que insistem em meter uma conversa no meio do sono, livro ou simples ócio mental do próximo? Com os donos de pernas que só se ajeitam nas cadeiras em ângulos de 140 graus? Isso para não falar dos elementos hardcore: portadores de ataque-de-pelanquite. Eles estão lá, azucrinando aeromoças por meio cubo de gelo a menos, aborrecendo vizinhos por meio centímetro de bagagem a mais, dando carteiradas como se. Sweethearts que fazem a gente olhar as janelas dos aviões e considerar se uma despressurizaçãozinha não valeria a pena afinal.

Mas esses, os garotos-enxaqueca do transporte nosso de cada dia, não são os piores. Marvados mesmo são nossos parasitas de estimação, os indesejáveis que levamos para passear no cá-dentro e, horror, voltam para casa conosco, acampam em nosso travesseiro, enchem de papel de bala nosso chão d’alma. A cisma do não-vai-dar-certo, a convicção do eu-não-mereço, a mágoa do eu-mereço-muito-mais, o veneno do ele-me-paga, o desespero do ele-não-me-paga, as toneladas do o-que-é-que-eu-tenho, a angústia do eu-já-deveria-ter – todos esses substantivos nada abstratos e mais do que compostos. Bando de persona non grata. Urubus de carniça. Convidados bem trapalhões que não pagam passagem e hospedagem, mas deixam a coisa porcamente situada para os verdadeiros inquilinos.

Problemas para abrir a janela? Veja se no banco desses tipinhos não tem um botãozito de ejeção. Se não tem, tome aqui um saquinho de pó de fadas reservado para emergências – e não se esqueça dos pensamentos felizes. Bon voyage!

terça-feira, 5 de julho de 2011

Todo dia é dia, toda hora é hora

Uma senhorinha nossa amiga, com quem só encontramos nos finais de semana, veio parabenizar minha irmã no domingo anterior ao aniversário dela. “Mas o presente eu só trago no domingo que vem”, completou. “Dizem que não é bom a gente comemorar antes do aniversário, né?”

Dizem; e até hoje não entendi por quê. Soa supersticioso e medievalmente culpado: ah, verme! achaste que já merecias celebrar mais um ano, cantaste vitória antes de cruzares a faixa? Audácia! Noventa chibatadas e um atropelamento na véspera do grande dia para deixares de bestice! – é crível? Talvez se vivêssemos sob a batuta dos rancorosos deuses do Olimpo, que, sem NET Virtua, não tinham mais que fazer além de vingar-se de cada mijadinha fora do penico. Talvez nem.

A sermos honestos, cada vividinha dentro do planeta é coisa digna de parabéns, parada militar e banda com trombones. Não arredondou mais um níver? Realmente sofreu o famigerado atropelamento de véspera? Vá lá; porém celebrou de antevéspera e morreu ainda com os acordes do Celebrare na cuca. Não sei para você, mas a mim me parece consideravelmente mais divertido do que ter morrido de qualquer maneira – apenas sem os acordes, balões e brigadeiros que, por razões óbvias, não ficariam acumulados para mais convenientes datas. Avareza de alegria investida em fundo perdido.

Festeje, sim – antes, durante e depois do natalício, que para esse saldo não tem conta-poupança (mas o cartão tem limites: nada de exaltações!). Se não é níver cravado, há sempre Dia do Telefonista, da Marchinha de Carnaval, 517 anos do Tratado de Tordesilhas, 9 do primeiro beijo no cinema, festa de Santo Atanásio ou Santa Eudóxia. Dia da Árvore? opa: piquenique com a galera no Jardim Botânico. Contratação em novo emprego? solta uma churrascada para cantar a fartura! Aniversário de extração da amídala? um sundae em memória da pobre. Junho, julho, agosto? já é! bandeirinhas coloridas na sala! Anote aí a prescrição sem data de validade: uma gratidãozita de 60 em 60 segundos. Beba com roupa nova – ou Roupa Nova –, saia rodada e goles de paraíso.

(Senão eu vou mandar a Cuca te pegar.)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Declaração de independência

Declaro minha independência da fúria tecnológica, da urgência eletrônica. Concedo-me o direito de só trocar o celular por ocasião de seu último suspiro, de não tuitar do metrô nem ver RJ-TV na fila do banco, de esquecer o telefone desligado na bolsa por não me querer encontrável. Renuncio ao prestígio de ser emergencial, uma vez que médica, mãe, babá, mecânica ou analista de sistemas não sou. Dou-me o dever de almoçar sem interrupções e os parabéns por ter usado duas versões do Windows, olhe lá, em minha não longa existência. Declaro minha independência de kindles, tablets, iPads, iPods, mp3s, notebooks pendurados no pescoço. Das câmeras digitais, confesso-me leal vassala; mas declaro minha independência das filmadoras.

Declaro minha independência dos preconceitos, todos – o que não quer dizer, absolutamente, que não tenha conceitos próprios. Proclamo a liberdade de discordar sem humilhar, isolar ou agredir. Declaro minha independência dos comentários à boca-pequena, dos apelidos implicantes, do jornal de boatos, das anedotas racistas, das manifestações pitboycas, das revistas de celebridades, dos programas exploradores, das pegadinhas estúpidas, das torcidas organizadas, das fofocas (que dispensam adjetivo: não há senão as maldosas). De tudo que foi “pensado” – se é que se aplica o termo – para fazer parecer que os respectivos criadores estão em melhor situação humana que suas vítimas.

Declaro minha independência de nicotina, cafeína, álcool, drogas, chiclete, chocolate, baralhos, roletas, tabuleiros, mentiras e muletas tais (embora ainda tome um pouco mais de analgésicos do que o aceitável). Declaro minha independência do cartão de crédito, mas não da vitrine. Do salto, mas não do sapato. Da maquiagem, mas nunca! do perfume. Da chapinha, mas não do leave-in. Do esmalte, mas não da lixa. Da esteira, mas não da bicicleta. Da Coca-Cola, mas não do Ades. Do samba, mas jamais! do cinema. Da maternidade, mas não da fraternidade.

Declaro minha independência de todo colonizador que não esteja com o nome na portaria, ou que não queime seus navios bélicos imediatamente após a entrada.

Sem mais, assino-me.

domingo, 3 de julho de 2011

Espelho, espelho seu

Segundo aqueles sites doidões de cartões virtuais, hoje é o Dia de Cumprimentar Seu Espelho. Críticos de si mesmos: tremei. Mulheres que abominam suas sardas, suas pintas, seu narizinho arrebitado ou embatatado, bochechas mui longas ou pescoço muito curto, orelhitas maiores ou menores do que é decente, seios mais ou menos centimetrados do que é devido, cintura e pernas mais ou menos abauladas do que a lei permite: estamos de olho. Homens que observam deprimidos a fita métrica envolvendo braços, bíceps, tríceps e otras cositas: beware! Teens que amanheceram trancados com um arsenal de guerra da Cacau Show, chorando as espinhas derramadas: libertai-vos! Vós que discutistes cobras e lagartos com a régua e a balança, sem esperança de reconciliação: contemplai um novo mundo. Choro, hoje, só de cavaquinho; vela, só em alto-mar desfraldada. Dia de dar um french kiss em si próprio e cair de boca na vida.

Grite um bom-tarde descarado à sua imagem, experimentando pouco se lixar para os fios grisalhos, as sobrancelhas grossas, o queixito proeminente – qualquer neurose de estimação. Você não nasceu Angelina ou Brad, e daí? nem eles: construíram-se. E, não houvessem se construído, seriam igualmente plenos de alegria e imperfeição. Contanto que seu espelho não o cumprimente com a estampa de um sujeito que não merece a boa cara que tem (seja a cara que for), tudo certo. Contanto que o reflexo visível fique sempre vários níveis aquém do invisível, maravilha. Seu coraçãozinho desfila na vida com pernas e requebros de Gisele; seus pezitos andam caminhos que os tornam dignos de Cinderela; seus braços e ombros dão inveja em peitoral de Hugh Jackman na hora de consolar as amizades. Não aparece? Azar dos míopes. Fica só entre a gente e nosso espelhinho embutido.

Mas cumprimente o espelho de fora mesmo assim – quanto mais não seja, por educação. O coitadinho não sabe o que está perdendo.

sábado, 2 de julho de 2011

Mil e uma noites

Em sua coluna de ontem no caderno Rio Show, dO Globo, Deise Novakoski relatou o caso de um amigo que, sem muita habilidade para contar historinhas de boa-noite, fazia os filhos dormirem sugerindo-lhes problemas estapafúrdios. Por exemplo: como poderiam levar um elefante (ou girafa, ou zebra) ao dentista? Os pequenos matutavam, às vezes, noites a fio na dúvida cruel – e tanto torravam as celulazinhas cinzentas que acabavam capotando no travesseiro. Nem preciso dizer que adorei a técnica. O primeiro misto de revista Coquetel com boi-da-cara-preta de que já tive notícia.

O curioso é que, normalmente, são os problemas que nos mantêm acordados. E não digo isso no mau sentido da insônia, daquele virar e revirar na cama que não resolve nadinha (nascemos com baterias ecologicamente corretas: recarregam mesmo é na luz do sol). Falo conotativamente, recordando Sherazade. Problema – desde que não seja gravíssimo, coisa mais de morte que de vida – é o maior gancho de nosso folhetim. É impulso, é combustível. É bicho que não nos deixa sossegar numa pasmaceira improdutiva. Termos vida razoavelmente imperfeita é o que mais contribui para irmos nos achegando à perfeição – ainda que devagarinho, de levinho, aos bocadinhos. Problemas nos aporrinham e nos salvam. Salvam-nos de nós mesmos, da overdose de nós. Quanto mais nós substantivos, menos nós pronomes; menos ego enjaulado em sua própria inutilidade.

Problemas alheios valem? Valem. Valem mais, por sinal (contanto que nossa preocupação seja de amor e não de mexerico). Valem tão mais quanto nos distraem de nossas pequenas necessidades. Colocam-nos em perspectiva. É bom e justo gastarmos tempo de mundo nos desviando do ócio para o desafio; mais justo e bom (e urgente) é migrarmos do desafio para o serviço. O ócio hiberna; o desafio desperta; o serviço movimenta. A quem se põe a serviço, não sobra tempo de ter medo de careta ou da Cuca que vem pegar. Pode vir, vem. O corpo dorme, mas o coração leva as horas de olhos bem abertos.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Obrigado por minha ajuda

Eis que o Tremendão Erasmo Carlos está completando 70 anos de (boa) vida, 50tinha de carreira, e vai ter festa de arromba no Municipal – com direito a Rei Roberto e Marisa Monte dividindo os vocais. Uma brasa. Mas, apesar de achar que Erasmo põe mesmo para derreter e tem mais é que celebrar em grande estilo suas bodas de ouro com o Brasil, nem foi isso que considerei o mais bacana. Curti montão o fato de o cantor declarar que vai repassar toda a renda do evento para o Criança Esperança. E, principalmente, curti montanhão o que disse, ontem, em entrevista ao RJ-TV: “Agradeço aos organizadores do show por me permitirem fazer isso”. Erasmo não agradecia por ajuda recebida: agradecia a ajuda aceita. Não só não via nada de extraordinário em seu gesto como ainda se mostrava encantado que lhe tivessem concedido esse favor.

Sermos úteis é um favor que nos concedem. Um empréstimo que fazem à nossa autoestima, um selo do Inmetro em nosso amor-próprio, um asterisco feliz no verbete de nossa enciclopédia particular. Aceitar uma doação parece a muitos oportunismo, esperteza, comodismo, humilhação, dependência e coisas tais – e no entanto é generosa oferta: prova de confiança (de que o ato gratuito não virará cobrança moral), delicadeza de namorado (é preciso permitir aos amantes a alegria de presentear), porta aberta para que o outro prive de sua vida íntima (que há mais íntimo do que a necessidade)? Por outro lado, que há de mais frustrante para os amorosos do que a dor que se fecha orgulhosamente em si mesma, a autossuficiência turrona fantasiada com o luto da discrição?

Ajudar sem pesar em ombros alheios é uma arte; aceitar o auxílio com a leveza que mora entre a ingratidão e o sentimento de dívida eterna requer o dobro de dotes artísticos. Tão difícil necessitar com elegância. Palmas duplas, portanto, para a equipe do Criança Esperança e sua doçura de receber. Presenteia duas vezes quem dá licença de ser acolhido no abraço dos irmãos camaradas e amigos de fé.