sábado, 2 de julho de 2011

Mil e uma noites

Em sua coluna de ontem no caderno Rio Show, dO Globo, Deise Novakoski relatou o caso de um amigo que, sem muita habilidade para contar historinhas de boa-noite, fazia os filhos dormirem sugerindo-lhes problemas estapafúrdios. Por exemplo: como poderiam levar um elefante (ou girafa, ou zebra) ao dentista? Os pequenos matutavam, às vezes, noites a fio na dúvida cruel – e tanto torravam as celulazinhas cinzentas que acabavam capotando no travesseiro. Nem preciso dizer que adorei a técnica. O primeiro misto de revista Coquetel com boi-da-cara-preta de que já tive notícia.

O curioso é que, normalmente, são os problemas que nos mantêm acordados. E não digo isso no mau sentido da insônia, daquele virar e revirar na cama que não resolve nadinha (nascemos com baterias ecologicamente corretas: recarregam mesmo é na luz do sol). Falo conotativamente, recordando Sherazade. Problema – desde que não seja gravíssimo, coisa mais de morte que de vida – é o maior gancho de nosso folhetim. É impulso, é combustível. É bicho que não nos deixa sossegar numa pasmaceira improdutiva. Termos vida razoavelmente imperfeita é o que mais contribui para irmos nos achegando à perfeição – ainda que devagarinho, de levinho, aos bocadinhos. Problemas nos aporrinham e nos salvam. Salvam-nos de nós mesmos, da overdose de nós. Quanto mais nós substantivos, menos nós pronomes; menos ego enjaulado em sua própria inutilidade.

Problemas alheios valem? Valem. Valem mais, por sinal (contanto que nossa preocupação seja de amor e não de mexerico). Valem tão mais quanto nos distraem de nossas pequenas necessidades. Colocam-nos em perspectiva. É bom e justo gastarmos tempo de mundo nos desviando do ócio para o desafio; mais justo e bom (e urgente) é migrarmos do desafio para o serviço. O ócio hiberna; o desafio desperta; o serviço movimenta. A quem se põe a serviço, não sobra tempo de ter medo de careta ou da Cuca que vem pegar. Pode vir, vem. O corpo dorme, mas o coração leva as horas de olhos bem abertos.

8 comentários:

Lineker Pablo da Silva disse...

Muito bom seu blog
estou seguindo
passa la no meu
http://linekerpablo.blogspot.com/

Doce trollagem disse...

gostei muito desse poste e principalmente do blog,pode ter certeza virei aki sempre =)

http://docetrollagem.blogspot.com/

Viviane Camacho disse...

vou te adicionar.
ainda prefiro contar uma historinha para criança dormir.

Iguimarães disse...

Apreensão de amor é tensa!
Prefiro qualquer outra coisa! hehe

Lívia Neves disse...

É uma nova estratégia, mas acho que contar histórias ainda é mais eficiente. texto bem legal, assim como o blog, parabéns.

Andy A. disse...

Adorei essa idéia que ele teve ...

http://andyantunes.blogspot.com/

Poquiviqui disse...

Além de enigmas e problemas, nossos e de outros, outra coisa que traz a insônia é a ansiedade! Pelo menos comigo! Mal consigo pregar o olho quando se aproxima um momento muito esperado, e isso até prejudica.

Sobre procurarmos a perfeição, me fez lembrar uma frase do Fernando Pessoa:
"Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos, se a tivéssemos. O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito."

Adorei o blog! Abraço! :)

Marcus Alencar disse...

É uma idéia muito interessante. Também penso que, por uma questão lógica, os problemas são os principais responsáveis por nos manter acordados e, por isso, acaba sendo curioso pensar que eles podem nos ajudar a dormir. O curioso de pensar em problemas que não nos pertencem faz com que possamos ter momentos de distração e, por que não, um certo lazer também. Acho que alivia soltar o foco por uns instantes e dar um tempo pensando em outros pois quando voltar, talvez a mente esteja melhor preparada para refletir e pensar em soluções. O curioso é que independente do tipo de problema que se pensa antes do sono você alimenta o combustível dos sonhos e, assim, tem a oportunidade de fortalecer a própria imaginação.

Post muito interessante. Como disse lá comunidade, gosto muito deste blog. É um prazer.
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