quarta-feira, 7 de março de 2012

Bom dia & cia.

Dizem (com evidente razão) que a infância molda a vida adulta. Acontece também em menores proporções: a infância do dia dá cara às 16, 17 horas subsequentes. Fonte de inevitável mau humor, de manhã azeda, é acordar com barulho. Barulho forte. Barulho chato. Gente berrando, picareta ou martelo cantando nas proximidades, rádio-relógio mandando ver no pagode, despertador esgoelando seu pém-pém-pém neurastênico. Há perversidade no ato de sacolejar um adormecido no grito e no susto, como violência a bebê após o parto. Acordando sacudimos a placenta, chegamos à tona do mundo, achamos a margem desta dimensão depois de longa ausência (mesmo que de 2,1 minutos). Nos re-parimos. Os sentidos tornam à eficiência normal, a cabeça tira a camisola inconsciente e se põe decente como a lógica. Voltam as memórias escolhidas, as conexões controladas. Fio por fio. Cirurgia milimétrica. Só tranquilamente é que nos expele nosso útero de travesseiro; qualquer urgência indevida bota erro no download.

Como é melhor acordar? De preferência, cedo. Quando o dia ainda cheira a (café com) leite, ainda está fresco para não nos assolar com calores súbitos, ainda tem ar de sereno para serenar as últimas impressões do pesadelo, ainda se mostra escuro para não assombrar a vista com sóis agressivos. Essa doçura lenta, silenciosa de quase madrugada pega a gente pela mão e nos vai acostumando à nova data, feito mãe que acompanha no primeiro dia de escola. É preciso tempo, é preciso. Tempo para os cinco minutinhos extras que são prêmio de consolação do sono, tempo para o espreguiçar (e outro) gostoso e inteiro ainda no colchão, tempo para o constatar da hora pela posição dos raios na parede. Tempo para chegar à varanda, beber cheiro de mato molhado e aquela calma, aquela solidão benéfica de cidade adormecida. Tempo para tomar o café sentado, pausado – com boa torrada, boa digestão e Bom dia, Brasil. Tempo para a oração, o banho quente, o chá gelado, os quadrinhos de jornal, a rega no jardim. Tempo para a consciência da temperatura e o capricho no modelito. Tempo para as preliminares. Tempo para o costume.

Tempo para o dia existir de verdade – em vez de passar as horas todas com cara de aquecimento (doido) para a misteriosa maratona que não começou.

terça-feira, 6 de março de 2012

Por um nariz

Há 393 anitos, nascia Cyrano de Bergerac – o escritor, soldado, poeta, duelista que Edmond Rostand retratou em sua peça famosa, narigudamente. Eu e você sabemos pouco de Cyrano; sabemos mais de Cyrano, a obra cheia de romantismos. A obra em que o protagonista se considera feiosão e, apaixonado pela prima Roxane, não tem coragem de escrever-lhe seus amores diretamente. Prefere emprestar as palavras ao boa-pinta Christian, que acaba conquistando Roxane com coração alheio. Quando a moçoila finalmente descobre que o verdadeiro alvo de suas ternuras é o primo narigudo... tarde demais. O sujeito já está pela bola sete. Talvez a mais triste história de ghost-writer de todos os séculos.

Mas apenas história. O Cyrano verídico penou à beça com o apêndice nasal – dizem que duelou umas mil vezes por causa da chacota –, porém não consta que o cujo lhe tenha estacionado a vida sentimental. Nós é que brincamos de Cyrano fictício, e botamos na conta de nossos maiores ou menores narizes a decisão de virar avestruz. Não posso ser bailarina clássica porque tenho coxas abundantes. Não posso dar a palestra porque tenho voz gasguita. Não posso ir à festa porque já estive em três com esse vestido. Sou muito alta para a equitação. Muito baixo para o vôlei. Muito gorda para noiva. Muito magro para lutador. Muito nada para tudo; acabou-se. Baixamos a cabecinha e lá vamos, acalentados pela preguiça de resignação, terceirizar os sonhos gorados no sucesso de nossos Christians.

As mães que se desejavam pianistas (ou advogadas, ou ginastas, ou modelos) e pela pobreza, pelo casamento, pela fraqueza de tempo ou de patrocínio, abdicaram dos projetos para acampar na carreira bem-sucedida dos filhos. Os filhos que se imaginavam dançarinos de salão, mas pela fobia de ir à luta se esconderam no consultório equipadíssimo de papai e vovô doutores. As amigas que se fantasiavam mochileiras e, porque educadas para a solidez e estabilidade da repartição pública, exercem o fetiche pelas narrativas dos que deram a volta ao mundo. As esposas que se pretendiam diplomatas e, na falta de cabeça e gana de estudo, moram parasitas nas homenagens aos maridos. Cyranos: gente que, na linha de saída, se decidiu fracassada no intento e indigna de mandar bala; gente que por momento de contingência, por feiura de circunstância, por um trauma, por um triz, por um nariz não ganhou o direito de vencer a corrida, o sagrado direito ao primeiro passo. O passinho que muito talvezmente levasse aos já abertos braços de qualquer Roxane.

É fato que devemos sempre nascer com algum nariz que sobre. Pouco importa. Melhor pra nós, que podemos metê-lo até onde (inicialmente) não fomos chamados.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Memórias póstumas

Anteontem, Dennis Carvalho esteve no Estrelas e contou a Angélica um causo recente, de novela dirigida por ele. Na última cena de Insensato coração, todo o pessoal da equipe aparecia com uma camiseta em que se viam a foto do diretor e a mensagem “Dennis forever”. Pronto. Bastou para que alguns amigos do cabra, ao longe, se alarmassem e procurassem saber o que havia acontecido – se por acaso o gajo estava morto. Não lhes passava pela cabeça a estranheza de uma homenagem em vida, esse bicho raro. É justo. As aves que aqui gorjeiam (quase) só cantam em honra a figurões vivos se forem puxadoras de escola de samba.

Nunca compreendi o fenômeno: o sujeito nasce, cresce, reproduz-se em música, texto, desenho, amizade, oficina cultural, projeto social, projeto de arquitetura, boa comida, boa crítica, boa política... e começa a existir quando morre. Quando já está cego e surdo ao agradecimento, quando não acha serventia para abraços e tapinhas; quando não tem mais costas para receber tapinhas. Ganha o troféu após perder a prateleira. Ganha a coroa após tombada a cabeça. Ganha o obituário sentidíssimo no jornal, o minuto de silêncio no estádio, o nome do sanduíche no cardápio, a coroa de flores de 3m de diâmetro, a biografia de 400 páginas, a lápide em mármore carrara depois que não há visão-tato-gosto-escuta-olfato para trivialidades de viventes. Depois que a criatura já tem mais o que não fazer.

Não defendo, é claro, que o cidadão seja enterrado, a gente vire as costas e vá embora: circulando, circulando, borracha total no assunto, voltemos à nossa programação normal. Nada disso. Que ponhamos flores, sim, tanto no túmulo físico como principalmente no histórico. Que passemos o legado adiante, que organizemos festivais com os filmes, que botemos bloco de carnaval com as canções, que deixemos verbete na enciclopédia, capítulo no livro didático, estátua na praça, quadro na parede da ABL. Sim, sim. Mas que façamos isso na cara, em plena luz da vida. Que a gratidão se saiba, se veja. Que o contemplado ouça o nome na boca da galera, receba o sucesso em afagos e dividendos, apertos de mão sinceros e respeitos palpáveis. Na fuça. Nas bochechas. O merecedor seja frontalmente reconhecido, seja amado desavergonhadamente.

E vale para todos. To-dos. À faxineira que há vinte e sete anos sabe com capricho a posição das almofadas e ainda deixa pronto aquele feijãozinho de mãe? Contracheque gordo, férias, décimo terceiro, décimo quarto, beijocas na mão e lugar vipérrimo na plateia de show à escolha. Ao marido que celebra níver de encontro, piscada, namoro, casamento? Bombom, massagem, bilhetinho na pasta, passeio-surpresa de balão, declaração nos classificados, bolo de cenoura. À mãe que... enfim, foi mãe com tudo a que dá direito o pacote? Rosas, girassóis, serenatas, visita no almoço, convite pro jantar, companhia pro cinema, carona pro teatro, alegrias, obediências. Ao chefe que incentiva, à secretária que cumpre, à irmã que orienta, ao filho que orgulha, ao avô que relata, à tia que relembra, ao amigo que apadrinha – uma dose generosa de camisetas estampadas, de torcidas e obrigados administrados de vinte em vinte minutos, de duas em duas horas. Uma medalha pelos feitos do dia. Uma placa pela meta do mês. Um telefonema pela piada do último segundo. Um champanhe pela aprovação no último concurso. Ou no próximo. Aplausos pelo objetivo. Tim-tices pelo esforço.

Ao menos uma vez por semana, um Oscar honorário. Pelo conjunto da obra.

domingo, 4 de março de 2012

Se eu quiser falar com Deus

Mas eu não sou religioso, alegará o leitor, prevendo tédios. Que me importa seja hoje o Dia Mundial da Oração? No que me compete? Em que me afeta? E eu responderei num abraço: afeta, de igual maneira, o leitor fiel a uma crença e aquele que não se enamorou de nenhuma (ou não saiu com ela em público). Compete tanto ao que acredita na divindade quanto ao que se mantém em dúvidas; tanto ao que vai à missa, ao culto, à sinagoga – quanto ao que fica com suas ressalvas e não abre. Oração não é estritamente o recitar de textos famosos, não é a repetição de poemas prontos, não é murmurar vazio que escorre pelos dedos. Oração não é apenas gesto: é prontidão. Oração não é sobretudo fala: é escuta. É encontro marcado com a própria nudez de alma, seja diretamente pelo silêncio ou por meio da palavra que prepara a disposição interna, que nos varre por dentro, que deixa pronto o salão. Oração não é o retiro da festa. É a festa mesma.

Oração é a festa em que lamentos, quereres, alegrias nossas ficam rodando sob a agulha do DJ. A celebração em que nos tocamos, nos autopercebemos. Há os que a confundam com meditação. É o oposto. Meditantes esvaziam a mente; orantes preenchem-se de toda a reflexão, toda a claridade disponível, toda a sede possível, toda a análise cabível. Orantes se afastam do barulho externo para melhor ouvirem a própria voz no telefonema. Para lerem com mais fidelidade a própria partitura. Observe-os: orantes podem estar downloadeando uma ideia fresquinha nos dez segundos que seu olhar entrou em descanso de tela. Orantes podem ter baixado uma sinfonia inteira nos dez segundos do mais aparente silêncio.

Oração é, sim, falar com Deus – mas pode vir antes (ou independentemente) de se crer nele, antes de chamá-lo pelo nome específico. Como quem ama de modo intransitivo; como quem sente o desejo da mensagem sem atinar com o endereço do destinatário; como quem se descobre prestes a ser feliz e acabou-se. Oração é uma véspera de felicidade. Um estado de gratidão e melhoria aguda. Ora-se também lendo (de toda alma), separando lixo (com toda a atenção), preparando mamadeira (como se fosse de rei), se metendo numa música (como se fosse a última), se enfiando num abraço (como se fosse o único). Ora-se sendo melhor explicitamente, sendo bom em particular, sendo gente em voz alta. Ora-se sendo inteiro rumo à evolução. Aspirando lições, transpirando medos. Ora-se, às vezes, engolindo sapos. E gritos. Deixando-se, como a célula, invadir pelo alimento e abandonar pelos restos. Ora-se aprendendo.

E se, ao findar, a gente der em nada, nada, nada, nada do que pensava encontrar – é porque acertamos. Não há como a vida para surpreender um bom aluno positivamente.

sábado, 3 de março de 2012

Quando oiei a terra ardendo

Hoje faz 65 anos que Luiz Gonzagão e Humberto Teixeira gravaram a perolíssima “Asa branca”. Música fadada à perenidade pela melodia reta, limpa, facílima, casada a alguns dos versos mais doídos do cancioneiro (“Por falta d’água/ perdi meu gado,/ morreu de sede/ meu alazão”: de matar). Toda “Asa branca” é um desabafo de ternura antiga, o choro da separação maior – entre o vivente e a vida amada, entre o conhecedor e tudo quanto lhe é conhecido. E é oceanão filosófico que cabe, entretanto, dentro das notas mais simplinhas; as primeiro descobertas por qualquer tocador de flauta doce, acordeão, piano. Como se o fácil da partitura universalizasse o direito à tristeza.

Mas a tristeza de “Asa branca” não tem os rigores do sertão ardendo. Nem mesmo o nublado da cor que voa no título. É tristeza da cor do olhar de Rosinha, como dizem os versos que prefiro: “Quando o verde dos teus oio/ se espaiá na prantação,/ eu te asseguro:/ não chores não, viu,/ eu vortarei, viu,/ meu coração”. Não consigo ouvir ou cantar a estrofe sem me encher de ameaça de lágrima. Porque há lamento, sim, porém banhado de esperança e promessa. O sertanejo que parte não voltará “se”, voltará “quando”; o verdejar do campo que era braseiro e fornaia, por mais improvável, é dado como líquido e certo. Há mais que pressentimento, vontade; há certeza. A certeza dos que se recusam a aceitar a seca de coração inteiro. A certeza dos que são tão férteis que não a compreendem.

“Asa branca” assumiu extraoficialmente a condição de hino do Nordeste, mas é hino de todos nós. Nós que (vez por outra) vemos queimado nosso horizonte próximo, vemos palha e desolação até perder de vista; nós que nos despedimos de nossos Joões e Rosinhas em busca da sobrevivência implacável; nós que perdemos gado e prantação no caminho, que ficamos longe muitas légua da gente mesmo, e que no entanto temos a doçura de esperar a chuva cair de novo pra nós vortá pro nosso sertão. Sem dúvidas de que uma bênção providencial iluminará nossa terra de origem.

Feliz aniversário, “Asa branca” – melô da confiança irrestrita, profissão de fé teimosa, trilha sonora dos que brasileiramente não desistem nunca. Guarda contigo nosso coração.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Circle of life

Para meu imensíssimo desgosto, termina hoje a novela A vida da gente. Todo o tempo em que esteve no ar, fez jus ao título. Nada de histrionismo, nada de vilã de desenho animado, nada de núcleo cômico-roceiro, nada de vampiros e simpatizantes, culturas longínquas recheadas de sáris e deuses, tempos longínquos abarrotados de cartolas e anquinhas, nem mesmo as princesices e cangaceiros de meu saudoso Cordel encantado. Nem cidades cenográficas de praia eterna, nem cidades imaginárias de chocolates e roseirais, nem vidas que não a vida presente, o mundo presente, os homens presentes. De nenhum artifício – além de nós proprinhos – precisou a obra de Lícia Manzo para se estabelecer absoluta.

A vida da gente foi, no ótimo sentido, novela de esquina. Novela de vizinhança, de atravessar a rua e tropeçar na história de um personagem, de ir à padaria e esbarrar com o drama da protagonista, de pilhar na família o mesmo dilema do coadjuvante. Teve a briga da paixão sonhada com o amor sereno, teve a luta do amor correto contra o tempo errado, teve a guerra do corpo operado contra o sexo pretendido, teve a maternidade possessiva, a maternidade doentia, a de escolha, a de circunstância, a de adoção, a de inseminação, a sem vocação. Teve adolescente tardia e adulto precoce virando parente acidental no meio do caminho. Teve coma e morte, amizade e vida costurando novas genealogias. Gente se atando sem afeto e se desatando sem falta dele. Traindo qualquer alguém com qualquer algo e qualquer idade. Tendo qualquer surto em qualquer idade. Sobretudo falando – três, quatro, cinco vezes – a cada capítulo o mote maior de nossos capítulos pessoais: será que a gente pode conversar?...

Foi novela de conversas, como somos nós. Conversas cheias de apesares. De como Alice tinha o apoio dos pais adotivos em sua busca pela origem biológica, apesar do risco de decepções. De como Ana guardava um travo de pertencimento a Rodrigo, apesar do casamento marcado com Lúcio. De como Dora não podia continuar unida à irresponsabilidade cotidiana de Marcos, apesar de adorar seu capricho paterno. De como nos vemos irremediavelmente repletos de forças opostas em equilíbrio, opções contrárias de igual atração, rotas que estraçalham com cada um dos gumes. De como o nosso principal esporte é medir decisões pelo seu peso em palavras.

Ainda assim, a cena-chave de toda a trama se deu (esta semana) num quase-silêncio esmeradíssimo. Brigadas por culpa de desencontros amorosos, as irmãs Ana e Manu fizeram as pazes. No capítulo em que discutiram de morte, passaram longos minutos vomitando a alma uma na outra; assunto que não acabava mais. Trincheiras de argumentos. Acusações em jorro e em granada. Na reconciliação, tudo que era importante não era coisa de dizer: em segundos olharam-se, abraçaram-se e protagonizaram um dos mais bem redigidos scripts da história. Sem os excessos verbais com que vestimos o indizível. Sem intermediários gramaticais entre gente e vida. Sem nada que não fosse o que somos quando nus das folhas de parreira buscadas no dicionário.

Parabéns a Lícia Manzo pela novela que deu certo pelo básico: metade de nós é silêncio, a outra se fantasia de idioma. Para tecer a costura: tempo, tempo, tempo, tempo.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Procura-se

... Cidade que não careça lembrar data de fundação, porque não vê mérito no tempo que dura, no tempo que subsiste, e sim no que resta até que todas as assistências e saneamentos estejam cumpridos. Cidade que não insista em se orgulhar da beleza que lhe coube sem culpa, sem merecimento ou escolha, como a beldade oca que só se fia de seus encantos; cidade que core ante os elogios, que argumente (com razão) não ser responsável pela própria lindice, que prefira cumprimentos pela inteligência das realizações, pela precisão dos feitos, pela justeza das atitudes. Cidade que não se veja justificada pela formosura involuntária. Perdoada de seus deveres por meia dúzia de peles e curvas. Inocentada de suas ausências por duas dúzias de mares e sóis. Cidade com vergonha na Cara de Cão, cidade com força de ganhar o Pão. Inda que sem Açúcar.

Procura-se uma qualquer cidade que respeite a pobreza sem normalizá-la, que valorize a favela sem santificá-la, que sorria com o malandro sem mitificá-lo. Que traga a visita sem desprotegê-la. Que trate sequestro como lenda urbana, falta de decoro como perplexidade desconhecida. Que só por álbum recorde a última greve, só por arquivo descubra um último assalto, só por fantasia conceba a inimaginável violência, a falcatrua de ser vista com olhos arregalados de susto inédito. Uma cidade de causas possíveis. Uma cidade de desesperanças perdidas.

Procura-se uma cidade que não (des)monte na preguiça de seus verões, que tenha pachorra de caminhar com o resíduo até a próxima lixeira, que não crie desculpa para transferências, ineficiências, insuficiências de saldo, adiamentos de inauguração, incompletudes de inauguração forçada. Cidade de oceanos turquesa e intenções mais translúcidas, de bairros verdes e orçamentos mais, de crepúsculos de aplaudir e prefeitos idem. Cidade que só sambe se não há quem caia. Que só sapuque se não há quem chore. Que só seja sapeca se não há quem se veja sapecado. Logrado. Que no máximo exploda de confete e blusa de time, que não atine o que seja explodir de bueiro.

Quem encontrar, manda pro meu endereço. Aqui no Rio de Janeiro.