segunda-feira, 5 de março de 2012

Memórias póstumas

Anteontem, Dennis Carvalho esteve no Estrelas e contou a Angélica um causo recente, de novela dirigida por ele. Na última cena de Insensato coração, todo o pessoal da equipe aparecia com uma camiseta em que se viam a foto do diretor e a mensagem “Dennis forever”. Pronto. Bastou para que alguns amigos do cabra, ao longe, se alarmassem e procurassem saber o que havia acontecido – se por acaso o gajo estava morto. Não lhes passava pela cabeça a estranheza de uma homenagem em vida, esse bicho raro. É justo. As aves que aqui gorjeiam (quase) só cantam em honra a figurões vivos se forem puxadoras de escola de samba.

Nunca compreendi o fenômeno: o sujeito nasce, cresce, reproduz-se em música, texto, desenho, amizade, oficina cultural, projeto social, projeto de arquitetura, boa comida, boa crítica, boa política... e começa a existir quando morre. Quando já está cego e surdo ao agradecimento, quando não acha serventia para abraços e tapinhas; quando não tem mais costas para receber tapinhas. Ganha o troféu após perder a prateleira. Ganha a coroa após tombada a cabeça. Ganha o obituário sentidíssimo no jornal, o minuto de silêncio no estádio, o nome do sanduíche no cardápio, a coroa de flores de 3m de diâmetro, a biografia de 400 páginas, a lápide em mármore carrara depois que não há visão-tato-gosto-escuta-olfato para trivialidades de viventes. Depois que a criatura já tem mais o que não fazer.

Não defendo, é claro, que o cidadão seja enterrado, a gente vire as costas e vá embora: circulando, circulando, borracha total no assunto, voltemos à nossa programação normal. Nada disso. Que ponhamos flores, sim, tanto no túmulo físico como principalmente no histórico. Que passemos o legado adiante, que organizemos festivais com os filmes, que botemos bloco de carnaval com as canções, que deixemos verbete na enciclopédia, capítulo no livro didático, estátua na praça, quadro na parede da ABL. Sim, sim. Mas que façamos isso na cara, em plena luz da vida. Que a gratidão se saiba, se veja. Que o contemplado ouça o nome na boca da galera, receba o sucesso em afagos e dividendos, apertos de mão sinceros e respeitos palpáveis. Na fuça. Nas bochechas. O merecedor seja frontalmente reconhecido, seja amado desavergonhadamente.

E vale para todos. To-dos. À faxineira que há vinte e sete anos sabe com capricho a posição das almofadas e ainda deixa pronto aquele feijãozinho de mãe? Contracheque gordo, férias, décimo terceiro, décimo quarto, beijocas na mão e lugar vipérrimo na plateia de show à escolha. Ao marido que celebra níver de encontro, piscada, namoro, casamento? Bombom, massagem, bilhetinho na pasta, passeio-surpresa de balão, declaração nos classificados, bolo de cenoura. À mãe que... enfim, foi mãe com tudo a que dá direito o pacote? Rosas, girassóis, serenatas, visita no almoço, convite pro jantar, companhia pro cinema, carona pro teatro, alegrias, obediências. Ao chefe que incentiva, à secretária que cumpre, à irmã que orienta, ao filho que orgulha, ao avô que relata, à tia que relembra, ao amigo que apadrinha – uma dose generosa de camisetas estampadas, de torcidas e obrigados administrados de vinte em vinte minutos, de duas em duas horas. Uma medalha pelos feitos do dia. Uma placa pela meta do mês. Um telefonema pela piada do último segundo. Um champanhe pela aprovação no último concurso. Ou no próximo. Aplausos pelo objetivo. Tim-tices pelo esforço.

Ao menos uma vez por semana, um Oscar honorário. Pelo conjunto da obra.

5 comentários:

@Tomajeitorapaz disse...

"O sujeito nasce, cresce, reproduz-se em musica, texto, desenho [...] e comaça a existir quando morre"

FATÃO !!! Infelizmente u.u'

Lucas Adonai disse...

Muito bom!

Guru do Metal disse...

a maioria só é reconhecido quando morrem

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Matheuslaville disse...

Concordo com Guru Do Metal... Só é reconhecido alguns quando faz falta!!!

Diiga X disse...

Muitos só merecem o reconhecimento após sua morte..

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