quinta-feira, 7 de junho de 2012

Eu sou nós

Celebrar aniversário perfeito é como entrar na campanha que anda aí em voga, cujo slogan me comoveu pela precisão delicada: eu sou nós.

Eu sou nós quando Marido coloca de surpresa, sobre o bufê, a foto mais lindíssima do casamento abraçada pelo porta-retrato mais perfeitamente encarnado, escolhido na ponta do dedo mindinho para se adequar com suavidade ao entorno. A foto mais lindíssima do nó mais atado, do nós mais inteiro, abraçada pelo porta-retrato comprado de soslaio durante passeio em família – comprado, portanto, quando um minuto mesmo de separação distraída reforçava a juntice de intenções.

Eu sou nós quando Pais e Mana trazem o sabor preferido da torta de soprar vela, e quando me assombram com o presente tão sonhadamente impossível, tão adivinhado. Sou nós quando canto parabéns na casa de meu crescimento, onde dormem lembranças tantas de vida conjunta, alegrias tais de infância e mocidade partilhadas, memórias tamanhas do que representa Família com efezão merecido. Sou nós demais, ali onde tantas elas começaram a formatar-se num eu.

Eu sou nós quando Amigos – quase irreuníveis – reúnem-se numa farra de almoço árabe, macarons franceses, torta alemã comida debaixo de chuva mais-que-londrina, diante do mar ventadamente copacabano, entre risaradas brasileiras, abundantemente. Sou nós quando o programa que, solitário, poderia ser de índio (não se imagina a gula com que o toró devorou roupas, sapatos, bolsas, cabelos) transforma-se em festa coletiva de boas histórias, em cultivo de anedotas, em matrimônio de amizades e peripécias. Sou nós, sou absurdamente nós no meio deles, cada qual uma parte querida com querer mais extremo; cada qual uma vontade minha até de mim escondida, cada um o resumo dos saberes que mais adoro. Sou nós entre amigos porque há fácil dissolução de qualquer eu rejeitador de experiências, no caldo de vários eus que no mútuo suporte se harmonizam.

Feliz aniversário a todos que também, algum dia e para sempre, tive a sorte de ver nascidos em mim.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O maior bode

Limpo o armário de alguns jornais recentes (só por distração histórica os jornais que se acumulam não estão catalogados entre as pragas do Egito). Entre eles vem uma página do dia 25 de maio, imediatamente posterior ao jogo que eliminou o Vasco da Libertadores. Pra quem não lembra, bastava que o Gigante empatasse sem ser no zero a zero, mas o meia Diego Souza perdeu um gol embaladinho para presente no início do segundo tempo. Furor entre os torcedores. O Roberto Dinamite que preside o Vasco, entretanto – revela a folha de esportes que desentoquei –, teve a elegância de eximir Diego de toda culpa e ainda caprichou no adendo: “Costumo dizer que não perderia aquela chance porque não estava em campo. Se estivesse, poderia perder também”. Très chic.     

Como são imperdíveis os gols que não desperdiçaríamos porque não passamos no teste para entrar no time! Como são ridículas as questões que não erraríamos porque nos recusamos a fazer Enem! Como são estúpidas as decisões amorosas que não tomaríamos porque fugimos ao mergulho do compromisso! Como são disparatadas as respostas que não daríamos porque nos avestruzamos ante a iminência das perguntas! Nós – que tão infalivelmente resolvemos problemas não tidos, que tão estrategicamente saldamos dívidas não contraídas, que tão sabiamente chovemos soluções não solicitadas, que tão santamente realizamos milagres imaginários; nós, perfeitos solucionadores do que não nos compete, ideais paladinos de injustiças apontadas de camarote, heróis formidáveis de Gothans que dispensam nossos serviços; nós – que fácil é acharmos bode expiatório pra nos dar satisfação dos perrengues que não nos cabem! Alegremente nos apossamos do martelo e da toga, enfiando no erro alheio narizes repletos de boa intenção. Esse gol até minha mãe fazia, zombamos protegidos pela sagrada distância.

Não se trata de defender a omissão diante de escolhas desonestas, serviços conscientemente porcos e deliberadamente burros. Ninguém disse que devemos engolir qualquer atitude estrupícia que nos meterem na goela. Mas uma coisa é fiscalizar com zelo esperto aquilo que nos tange, e outra diversíssima é compensar nossas carências botando lente de aumento nas mancadas do vizinho, xerifando (com direito inventado) quem falha no que jamais tentamos. Uma coisa é ser crítico; outra é ser entrão. Uma coisa é ter o saudável inconformismo dos que merecem e buscam; outra é ter o muxoxento recalque dos que invejam e parasitam.

Dizer "eu faria" é mascarar-se do "não posso". Negócio de quem tem mais o que não fazer.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Como dizer

Há algumas semanas, em Cheias de charme, o malandrão Sandro (Marcos Palmeira) tentava modificar sua preguiça e sem-noçãozice crônicas, para reconquistar as boas graças da esposa Penha (Taís Araújo). Trabalhou bonitamente e chegou, orgulhoso, com o primeiro salário, garantindo que iria ajudar mais na criação do filho. A mulher aproveitou para sugerir que levasse o menino às compras: não tinha mais uma peça decente no armário, o pequeno. Sandro saiu com o guri a tiracolo e dali a pouco voltou... naufragando em bolsas de shopping? nada: buzinando na maior felicidade um carango velho, caindo quase aos pedaços, mas descrito pelo sorriso do malandro como um negócio da China. Mais uma vez cedeu aos próprios deslumbramentos de criança grande, mais uma vez faltou às necessidades basiquíssimas do moleque, flutuando entre a excentricidade e o rematado egoísmo. Duro era a mãe transmitir ao garoto, coitada, que não contasse nunca com o sujeito para as precisões imediatas, nem se permitisse encantar por aquele universo de descompromissos. Pobres das almas viúvas que têm de explicar aos filhos algum nível de orfandade em vida.

Era o que eu vinha considerando após o episódio. E olha que Sandro, em suas confusões, não deixou por um só momento de afogar o menino em ternuras ou de ser incapaz de uma crueldade direta e consciente. Esses até, delirantes, acabam virando ídolos de seus herdeiros, que só precisam ser demovidos pelos outros familiares de uma admiração excessiva (veja-se o pai viajandão de Leonardo DiCaprio em Prenda-me se for capaz). Pior mesmo, e potencialmente fatal para um coração que valha o nome, é falar a uma criança sobre pai ou mãe carimbados com um tabu emocional. Como fazer uma criaturinha erguer-se todo dia da cama, escovar os dentes, estudar climas e datas e fórmulas e vegetações sabendo ter sido gerada por um estuprador, uma assassina, um pedófilo, um skinhead, uma corrupta que desviou verba de 180 mil merendas e hospitais? Como – senão com a amorosíssima psicologia de A vida é bela, com a criatividade sobrenatural dos protetores, com o transbordamento infinito dos que querem bem – como arrancar da convicção de um serzito o que lhe dizem os bullies, como roubar-lhe da memória o que garantem os autos, como salvar-lhe a autoestima e separar-lhe o espelho dos trotes que o passado entrega em domicílio? De que miraculosa maneira dizer, enfim, aquilo a que ninguém consegue sobreviver impune: você não é fruto de circunstâncias que lhe permitissem ser integralmente amado?

Meu palpite único: integralmente amando. A fim de criar pessoa inteira, quem ficou como ponte sobre o eterno vácuo deve apaixonar-se o bastante para transcender em família inteira.

E sobrar.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Lady in red

Perfil da estilista Mara Mac nO Gobo deste domingo. Ela confessa que, “mesmo amando a cor vermelha [...], só usa preto, marrom e azul-marinho. ‘Tenho quadris largos, só eventualmente uso vermelho’”, justifica Mara. Sei não. Também tenho quadris largos – provavelmente mais largos que os dela, ó ossatura! –, mas um vermelhito não me faz medo. Cor alguma me faz medo. Desde que, é óbvio, mantenhamos a sensatez das proporções: nada de panos grudados nem de tom mais claro na parte de baixo. Realmente não costumo julgar essas preferências alheias, nem muito menos pretendo (ai de mim) ensinar o pai-nosso à estilista; porém, visto que a própria denunciou seu gosto malogrado pelo coradão, permito-me suspirar. Por que é que as pessoas amantes de vermelho se autoencarceram numa confiável prisão de preto, marrom e azul-marinho, ainda que sejam gabaritadíssimas nas artes de corte e costura, de design e harmonização? Por que alguém que é atilada e rainha nos truques da moda sacrifica sua vontade cromática ao julgamento de um ou dois centímetros, ao receio de três ou quatro olhares? Por que se abdica de um luxozinho possível em prol da rigidez inventada?

Há os que se deliciam com Agatha Christie ou literatura de jornaleiro, mas não lançam mão das páginas proibidas nem em viagem de férias, para não serem apanhados em flagrante delito durante as leituras de mestrado. Há os adoradores de chocolate que não o comem nem em dia santo de ano bissexto, para não estragar a elevação espiritual da dieta macrobiótica. Há os papais e mamães que adoram game e não disputam partida com os filhotes nem em fim de semana, para não se verem humilhados em sua postura de educadores ou não serem incentivadores da diversão eletrônica. Há metades de casal que se deleitariam em chover mimo nos parceiros, mas são abstêmios de doçurices para manter a sua fama de maus. Há milhão de derramamentos não derramados, bilhão de pequeninas alegrias não vividas, quaquilhão de cores não usadas e bolos não provados e filhos não abraçados e filmes não vistos, e crepúsculos desperdiçados em nome da seriedade dos expedientes, e beijos ignorados em busca da vitória nas brigas, e baladas não dançadas em honra das reputações azedas. Há uma absurdidade de vermelhos que, embora preferidos, ficaram na orfandade dos desejos que os abandonaram na porta da idealização.

Só a síndrome do medo gratuito pode impedir a sensatez de vestir a cor que quiser.

domingo, 3 de junho de 2012

Decifro-te e devoro-te

“Canibalismo é um ato de amor.” Li essa pérola num muro qualquer do Rio; achei graça e achei-lhe razão (confiando, é claro, que o autor tenha também pensado no sentido metafórico). Pois os literalmente canibais faziam o quê? papavam o prisioneiro molengoide e covarde? Nada; eles queriam era deglutir gente forte, valente, guerreira, gente que admirassem e consequentemente desejassem incorporar to-di-nha. Mui mais que o nosso uso de chamar alguém para o almoço, o ato de almoçar alguém era coisa da maior consideração.

Curto almoçar pessoas. Não tenho escolha, em verdade: acabo fatalmente absorvendo sotaques, gostares e quereres largo tempo convividos; acabo saindo do cinema com gestos lanchados da protagonista, a música do idioma alheio pulando na fala e no ouvido, as sensações copiadas, o espírito levado de empréstimo. Durante um tempo de contato estou no outro, ele me está, sou-o – vampiricamente. É de notar que, como os antropófagos à vera, dispenso os caracteres não interessantes; não me ficam dos encontros as maneiras que irritam, os tons que desagradam, o vocabulário que incomoda: fica o que me preenche a fome de alguma espécie. Resta-me só o eco dos ditos amados e das atitudes queridas, as vozes que encontram buraquinho no peito onde se aconcheguem, as gírias que me fazem riso, as expressões apropriadas e novas, as ideias de a gente saborear com alegria, pelo frescor do inusitado. (Quase) toda criatura que vem e que passa termina deixando de herança uma merenda – no mínimo.

O delicado da história é que apropriar-se das conveniências e agradabilidades do outro é, necessariamente, tê-lo antes reconhecido no mais íntimo, tê-lo invadido amorosamente para lhe prestar homenagens melhores. O canibalismo social nada tem de inveja destrutiva; tem, quando muito, de afeto inconveniente. Ama-se tanto o som ou o jeito ou o perfume que se arde por aglutinar o ser ao nosso ser; aspira-se a protegê-lo, estocá-lo à revelia, guardá-lo numa redoma de abraços inoportuna. Quer-se parasitar a proximidade com gula. Por que é que o namorado morde a namorada, as mães abocanham inteiros os pezinhos dos bebês? Amor excessivo; febre de sorver e cuidar, servir e roubar, obedecer e reter. Antropofagia emocional é nada mais que a saudade antecipada e furiosa, principiada no carinho contido e finalizada na devoração tresloucada. Extrema.

Toda paixão permanente ou ligeira, canibal em princípio, sonha que o outro exista mais em mim do que em si.

sábado, 2 de junho de 2012

Nós na fita


Casamento da ex-vizinha de prédio do Fábio, daquelas que só conviveram até os doze anos. A desculpa perfeita para reconvocar velhas fitas – agora adequadamente DVDzadas – com festinhas realizadas no play, agregando criançada de todos os apartamentos. Divertido. Minhas, mesmo, tenho fitas poucas (ainda não convertidas), e só as de filmagem externa contratada: primeira comunhão, quinze anos, formatura. Não havia viv’alma no entorno que pudesse emprestar uma câmera, ou muito menos algum Duarte com intimidade de manejá-la. Carecia não. Dificilmente eu revisitaria minha própria infância, eu que mal posso esbarrar na reprise do Globo de ouro sem afundar perigosamente em bagunças temporais. Mas pego carona nessa cauda de cometa, nessas festas de outrem tão minhas contemporâneas, nesses instantes que (sem os frequentar) partilhei em época e espírito.

Lá está a agora noiva Viviane, botinha, trancinha, cinto de tachinha, rebolando xuxamente com a parceira de danças – igual estrutura física à de hoje, os mesmos olhos de sorridente ressaca. Lá está o menino mais velho do time incentivando meu cunhado quatro-anito a enviar caretas para a filmadora, e denunciando desde sempre a paciência com crianças que o tornaria o atual pai de família. Lá estão os meninos muito controlados pelo pai durão, olhar comprido de quem queria brincar mais do que consegue: nuvens familiares se formando. Lá estão meus sogros já distribuindo cuidados e amores; ali o avô do Fábio ainda vivo, quietinho e reservado como o neto (aparentemente) seria; acolá a priminha com meses de vida, preparando o olhar esperto para capturar o Mickey noivo que joguei no casamento. E o Fábio, ele próprio, ele especialmente, já anunciando numa discussão sobre personagens: “sou mais o Tio Patinhas!”, ou descarregando na mesa de totó a gana futebolística que lhe nascia furiosa.

Emociona-me rever essas infâncias, não sendo as minhas embora, pelo mergulho em algumas origens e prenúncios; pela constatação de que algumas coisas que são – parecem ter sempre sido. Por outro lado, pulam diante dos olhos criaturas que insinuamos ser e já não somos, estranhezas que entretanto nos pertencem, surpresas de nós para conosco; há flagrantes de outros alguéns em nossa imagem, ali dentro alguém que viveu em tempo específico e nos abandonou quando foi adequado, deixando-nos na ilusão lindinha de nossas coerências. Existem alguéns em gestos imemoriais, em brincadeiras impensadas, em danças jamais cogitadas, em gargalhadas nunca repetidas, que em lugar algum encontraremos senão nas gravações – nas fotos, nas amarelices de diário – traidoras do ego. Somos, sim, quem conhecemos e decidimos; mas somos também desejos e lamentos e alegrias que num canto qualquer se alojaram de nosso quartinho de despejo, e provavelmente não partiram sem largar cartão de visita ou madeleine possível. Há um mapa. Há um X. Há um raio ou shazam que lancemos, uma canção que recitemos, um cheiro que pressintamos.

Há um play filmado, um play pressionado. E voltamos para nós.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Impregnados de medo

O Segundo Caderno dO Globo de hoje aponta: fomos, os brasileiros, retardatários ao extremo em começar a encarar de vez nossa ditadura passada, finalmente lançando os primeiros filmes – e produções similares – que enfiassem o dedo no horror. Explica Silviano Santiago que não houve aqui a premência de Chile e Argentina, onde a ditadura foi mais violenta e, por isso, a reação artística se deu naturalmente mais forte. É fato. Parágrafo após parágrafo da matéria, outras análises se desenrolam; somos malemolentes, somos varredores de problema para o tapete, era como que feio falar daquilo, queríamos rápido esquecer. Porém enterneceu-me mais a observação do jornalista Flávio Tavares sobre o período: “Mesmo depois da abertura, a sociedade brasileira ficou impregnada de medo. A arte tinha liberdade, mas não estava mais acostumada a exercê-la. Havia uma vigilância indireta ao pensamento [...]. Não havia como se acabar com o terror de uma hora para outra, por decreto. [...] Para esse exorcismo, a Comissão da Verdade será fundamental”.

Coisa oleosa e traiçoeira, o medo. Uma vez que entre a valer, que escorra pelos nossos cantos – e ele entra com a velocidade milimétrica do vírus, aproveitando a menor ferida como portal –, tão gorduroso se espalha que não há lavá-lo com o sabonete mais terapêutico; deixa sempre sangue, digital, cabelo, fibra em nossas cenas de crime. O medo, péssimo conselheiro que é, sobretudo nos convence de nossa inadequação e nos coloniza com a ideia (pior: com o sentimento) de que liberdade é montanha-russa radical, mero brinquedo que se admira de longe mas no qual só ingressam doidos imprudentes. O medo nos faz invejar a nós mesmos em momentos anteriores; nostalgia excessiva de tempos míticos, de infâncias projetadas em nuvens, é sintoma inconfundível do mais entubado medo de espelhos ao redor. O medo nos deixa perdidos ou amarrados na realidade; porque temos ME-DO!, ou negamos a existência do caminho, ou só o percorremos empurrados. A maior metástase do medo é justamente nos amputar de autonomia, nos castrar de vontade, e delito mais cruel: nos cegar para alternativas. Pessoas em que se incute o medo crônico são como os dementados do universo Harry Potter: seres virtualmente incapazes de enxergar cenas felizes no futuro.

Isso resume. O medo é um ladrão de futuros. Um arrombador de tranquilidades que nos prende, para sempre, ao instante do arrombamento – Dia da Marmota emocional. Do primeiro segundo do trauma em diante, vive-se em torno de apagá-lo ou reacendê-lo. Somem agendas que não sejam as do horror ou de paraísos imaginários. O medo nos injeta um parasita que nos instrui a odiar-nos. O medo nos enche de fatalismos não digeríveis.

O medo nos coloca na eterna, inútil defesa daquilo que já perdemos.