domingo, 31 de março de 2013

Por desfolhar-me

Em seu “4º. motivo da rosa” (todos os motivos da rosa são leves e bailarinos que só), Cecília epiloga lindamente com um “por desfolhar-me é que não tenho fim”. É como termina um poemeto de oito versos e duzentas léguas de extensão moral; um poemeto com cara de libélula e calibre de bate-estaca, que convida suavemente ao desapego de si mesmo.   

Porque a gente anda por aí com uma autoeconomia insana, com passo de maciez calculada e quinze toneladas de medo neurótico de entrega. A gente anda por aí aparecendo com o corpo, visitando com as pernas, trabalhando com os braços, paquerando com os olhos, consolando com os ditos, mas sonegando alma que é uma sem-vergonhice. A gente anda por aí sem escrever cartão de aniversário, pra fazer estoque de bons dizeres a serem empregados em mais gordas ocasiões. Anda por aí sem ter minuto nem tolerância de ouvir a eternésima repetição da história dos avós, pra não cansar o sorriso a ser gasto no coquetel da empresa. Anda por aí sem guardar um teco de simpatia ao caixa do mercado, pra não esvaziar o tanque de gentilezas com quem não pode garantir encaixe no médico nem desconto de IPI. A gente anda por aí fazendo o minusculamente necessário, pagando a cota mínima para assegurar a não expulsão da vida social, sem amor nem passarice nos movimentos. Sem luz nem propósito nas vísceras. Não vivendo especificamente: levando.

A gente escoa pelos dias com uma avareza de brutos, poupando o ingresso do museu para ter gorjeta pra manicure, evitando o excelente filme triiiiiste para não chegar sem rímel à reunião, desviando do carinho aos cães para não recolher micróbios, escapando ao abraço para não se onerar de amigos, jogando fora o beijo no 11 de junho para não fazer contrato de presente no 12, fugindo ao livro de agruras ficcionais para não sofrer mais do que pela tese de doutorado. A gente não quer se derramar um milímetro além, que assim diminui o ridículo pós-traição; não quer levar amanteigados pra velhinha que divide o quarto com vovó na clínica, que assim já corta o afeto destinado ao breve; não quer aninhar o pardal que está quietito de dores no jardim, que assim a filha não morre de paixão quando a vidinha se romper de todo. A gente não quer risco de ferida, não quer chance de arranhão, perigo de furar a crosta protetora, probabilidade de detonar nossa camada de ozônio. Temos horror a que vaze uma existência inteira de energia vital pelo mais ínfimo buraquinho no dique.

E no entanto é no gastar-se, é no distribuir-se que essa gasolina se pereniza. Outra é a lógica, que não a do cofre; faz-se preciso esgotar-se para render, numa poupança às avessas. Por nos desfolharmos em ajuda a mais constante, em amanteigados o mais presentes, em memória preenchida pelo aniversário do filho da secretária, em agenda tomada pela brincadeira voluntária na ala de câncer infantil, em caixinhas de papelão que ninam pardais feridos, em choros de ternura que enterram pardais desistentes, em paciências infinitas que dão help na montagem dos bem-casados da sobrinha, em flores gratuitas, em cartões de boas-sortes, em atenções de lavanda no travesseiro e massagem nas têmporas, em torcida solidária pelo time, em ombro consolante pelo time – por nos desfolharmos em pedaços, em pequenezas representantes de nós, em polens de boa vontade, é que nos plantamos em lugares múltiplos; fazemo-nos franquias, nos reproduzimos, nos semeamos. Só excedemos nossa linha particular de tempo quando voamos do pedestal, evaporamos do açude e nos caímos em chuva.

Perdura quem perde a dureza de existir sem ser interrompido.

sábado, 30 de março de 2013

A maçã no escuro

Sei lá se é sinal desses tempos em que ninguém guarda mais rigor e silêncio ou se sempre foi assim, e eu já não notava de tapada. Mas, vendo minhas alunas adolescentinhas, comecei a cismar que meninas de 13 anos não amam mais como outrora. E sustente-se que não falo de ser peguete, ser fiquete, ser qualquer coisete com urgência e sem apego; falo de amor mesmo, amorice sonhada e exclusiva, que pode mudar de feição mas está sempre lá, recolhendo suspiros de garota antes de o último abajur da casa apagar a luz. Pois até esse amor julieto, com suas qualidades tão propriamente ditas, anda mudando de cara ou de voz. Antes, na classe, era a paixão obrigatória dos meninos que se gritava e se difundia, como que forçada a empavoar-se para passar comprovante de testosterona: o João Pedro é homenzito oficial, está gostando da Gisela e a escola inteirinha sabe – da professora de Geografia ao Chuí. O gostar feminino era, usualmente, mais restrito a brincadeiras de “verdade ou consequência” feitas em fins (inícios, meios) de trabalho de grupo na casa da Carla ou da Luciana; mesmo ao explodir era sutil, dito à socapa ou proclamado não oralmente nos cadernos de pergunta que as gurias passavam uma à outra, e que eram primórdios de Facebook. Até para cair em boca de Matilde o gostar das meninas se fazia elegante, demoroso, valorizado como informação que se arranca com propina, disfarçado entre risitos e outros tudos-nadas que selam cumplicidades de décadas.

O mais delicado: tantas vezes os amorinhos das pequenas simplesmente não vinham à tona. Eram mastigados fruta-proibidamente na solidão do recreio, espiantes, insuspeitos, ou talvez suspeitos mas nunca confirmados, pois que algumas de nós tratavam aquele jovem querer com a sacralidade necessária. Para confidentes havia os diários com chavinha e essência de boneca, havia o cantarolamento no banho, os momentos de vitrola e os andares no jardim. Não era preciso nem pensável que toda a gente estivesse informada e comentosa, que de uma parte à outra da sala fossem bradados os amores como estes de minhas alunas; não era de modo algum essencial a publicidade como marco de existência, sabia-se existir invisivelmente ou quase, sem dar satisfações a cada pardal que nos filmasse os passos e nos pedisse contas. Não havia blogs que berrassem o que as chavinhas de diário mantinham calmo e intacto, não havia (se não explicitamente provocássemos) fórum tão público de parcela tão privada, tão isenta de impostos. Nem havia, que eu me lembre, detalhes palpitantes tão narrados aos professores com tanta discrição de polichinelo.

Ninguém vá pensar que eu compactue dos cantares-de-galo masculinos e ache que esses “não são modos” de mocinha. Ninguém vá risivelmente acreditar que eu tolere a prosápia dos boys e imponha freirices às senhoritas. Longe disso. Sempre lamentei o desassombro com que os rapazes divulgavam seus segredilhos, e, se lamento o mesmo nelas agora, é por ver cair uma última trincheira. Não lastimo pelo gênero de quem exibe seu amor nascente, lastimo pelo amor itself, pouco a pouco menos parecido com seu rosto próprio. Independentemente do gritador, sinto pelo amor que não é coisa de ser gritada dos telhados, como bem dizia Quintana; sinto pelo amor que perde força sem o tempo devido de reconhecimento e estufa, sem o berçário da reflexão, sem andaimes de intimidade, sem o altar das noites sorridas ou choradas só entre janela e travesseiro. E sinto pelo menino ou menina que perde em idade e poesia com esse amor muito verde, muito pele, muito cedo para tanta propaganda. Sinto pelo garoto ou garota que expõe o querer à luz depressa demais, que lhe queima com susto e sol as pétalas só crescíveis em remanso, que força a saída das asas só construíveis em recato. Amor começa sozinho, põe cimento sozinho, para depois de muita sozinhez evoluir, docemente, do um para o dois – antes, tão antes de passar ao vinte e ao mil.

Pobre do amor esturricado de olhos quando mesmo o seu não se abriu.

sexta-feira, 29 de março de 2013

De um lado só

Foi isso – “Argh, passei o dia chorando de um lado só!” – que exclamei finalmente, depois de mais uma crise aquífera do olho direito. Sim, meu olho direito às vezes dá a louca e toca de doer, doer e chorar, chorar que não é bolinho, especialmente por claridade maior. Eis que a exclamação foi, pois, denotativa, e só passados segundos é que me dei conta do teor figurado. Chorar de um lado só? ora pitombas, é o que mais fazemos rotina afora; e abençoados somos quando assim se passa a coisa. Sortudos (de loteria acumulada) somos quando o contexto nos restringe a chorar por via de mão única.

Eu mesma. Numa floresta urbana de famílias despencadas, violentas, confusas, separadas, doentias, indiferentes, viciadas, gritosas, fragmentadas de excesso ou de falta, de herança ou de vácuo – como não ser grata pela infância sólida, normal, classe-mediamente brincada, sem brigas domésticas, sem mimos nem murros, com livros e filmes à penca, sem ciúme nem conflito de irmão? como não agradecer um mundo de Fábios fabulosos e sogras fofas, estavelmente puro de qualquer esfera nociva? Pelo lado emocional que choram muitos, não choro eu. Em contrapartida, remo há quase cinco anos nas galés do município e há oito nas do estado, e, por mais que não tenha (ainda) me calhado o pior dos mundos profissionais, parquinho de diversão é que isso não é; nem são raras as datas de profundo azedume, fome de competência, pasmaceira de ideias, desesperança de resultados. Dar aula é penoso por vocação. Dar aula em nome do governo, porém, para aqueles que o governo mesmo encaminha à burrice, para aqueles que o governo prefere superficiais e manipuláveis, para aqueles que o governo deseja estragadinhos e precocemente grávidos (alguém tem de embarrigar de eleitores para o futuro e mesmo governo), é fazer de giz e pilot os únicos soldaditos dum exército de Brancaleone previamente vencido. Eu choro desse lado só, bastante e sempre: remo nas galés tendo por antagonistas os ajudados. Remo duro e remo na contramão.

Há os profissionalmente felicíssimos que fazem guerra perpétua contra a fobia de infância. Há os realizados no casamento que despejam no travesseiro a ausência emocional do filho. Há os pais de filhos-modelo que despejam no divã a agonia do chefe perseguidor. Há os crescidos entre moedas de ouro que lacrimejam doenças. Há os búfalos de saúde que se embananam em dívidas. Há os residentes no Vale do Loire que se atormentam em dúvidas. Há os respeitados que se tomam como feios, os belos que se analisam como burros, os sábios que se amarguram de sozinhos, os populares que têm úlcera de perdões não dados, os pacíficos que se afligem de anos não estudados. Há todos, há tudo; há, sobretudo, necessidade de visão corajosa e compensante com o olho que resta.

Viver: dançar a possível festa.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Em berço esplêndido

Reli a entrevista de Stella Maris Rezende, autora infantojuvenil de A mocinha do Mercado Central. Não, não li A mocinha do Mercado Central (de 2011), mas a reportagem resgatada de 2012 não economizou incentivo: há uma protagonista de 18 anos que sai de sua pequena e mineira Dores do Indaiá para aléns cidades, e vai acrescentando nomes ao seu próprio. Vai somando trabalhos, amigos e até um personagem Selton Mello (sim, ele).  Mais interessante ainda me pareceu a linguagem da autora, pintadíssima de riquezas mineiras, gírias, brinquedos sonoros; uns críticos a dizem “a Guimarães Rosa de crianças e adolescentes”. Mais-mais interessante ainda me soou a resposta de Stella Maris à questão “como sofisticar a leitura dos jovens?”: “A juventude, ao atiçar a imaginação e a sensibilidade, se apaixona por textos mais elaborados. O jovem leitor pode ser sofisticado, exigir mais da vida, ler literatura de fato, porque o ser humano nasceu para a sofisticação, para o mais bonito e bem-feito. [...]”.

Emoção. Alguém também acha que o ser humano nasceu para o sofisticado, sobretudo e fielmente para o sofisticado. Alguém concorda que, sim, há níveis; há diferenciações para além da uniformização politicamente correta; há leituras e leituras, canções e canções, vocabulários e vocabulários. Assim não fosse, não principiaríamos a vida cultural lendo A borboleta Lilica e seu laço de fita para mais tarde levar Machado pra cama, devorando-lhe os sarcasmos. Não ouviríamos Galinha Pintadinha no berço para, anos depois, carregar o mp3 com Beatles. Não passaríamos da cartilha, não chegaríamos a Lobato, não evoluiríamos da beleza rítmica e fácil do chocalho para uma sutileza macia de violoncelo. Nunca seríamos gente de distinguir entre Biancas e Júlias de banca de jornal e um Flaubert ou Balzac na Travessa. Uma coisa é melhor que a outra? sem pudores: é melhor que a outra. Negar uma tão limpa verdade seria corroborar uma demagogia eficientíssima em nivelar-nos o mais possivelmente por baixo.

Não quer dizer que eu rejeite a arte (digamos) mais primeira; sou mesmo amiga de umas necessárias bobices em festa, dancei o tchan como toda mortal de minha adolescência, curto umas tolices kitsch pelo menos pra dar risada. Ninguém perde 5 pontos de Q.I. toda vez que grunhe “ai, se eu te pego” lavando roupa. Mas a questão está na variedade. Na variação. O que não é possível, gente, é a criatura de 34, 46 anos conservar Teló como ícone supremo e vaiar um infeliz que lhe queira fazer a caridade de tocar Vinícius. O que não pode é o sujeito, na existência toda de seis décadas, lembrar-se só e vagamente de uma fotonovela Whatever do coração que saía no Cruzeiro e bater pé que aquilo, sim, era literatura. O que não pode é o cinquentão pseudoevoluído bocejar perante Monet e declarar que a tia-avó entrou para um cursito de pintura e anda produzindo iguais rabiscos. O que não pode é não ter olho, é não ter cabeça, é não ter outros sentidos nem vísceras bastantes para diferenciar a palha da lenha, a ideia do engenho, a fogueira do incêndio. Não pode igualar as fases da criação; não pode confundir os dois acordes do hit chicletoso com as dissonâncias estudadas da rapsódia; não pode nivelar o filmeco-Disney-para-a-família e o oscarizável de tanto roteiro e polimento. Durma com essa: não-po-de. A turma do “pode” quer só cobrir de álibi ideológico (esburacado) o mau e velho populismo, a péssima e idosa preguiça.  

Somos feitos sim para a sofisticação. Feitos para atravessar fases, ter olhos progressivamente desbastados, constantemente abertos, despertados, instruídos. Somos feitos para aceitar ligeiramente o entretenimento de produção ligeira, e cair de joelhos ante a composição meticulosa. Somos feitos para, também em termos de maturidade crítica, passar da infância à juventude e à adultice, sendo mais e mais seduzidos para os detalhamentos que antes nos achavam cegos; que antes achávamos chatos. Somos feitos para construir camadas umas sobre outras, empilhando experiência – que, se tira um pouco o prazer mais inocentinho, retribui com silêncio mais feliz. Somos feitos para não gargalhar sempre das mesmas piadas. Somos feitos para pilhar furos no roteiro. Feitos para identificar músculos e artérias na escultura de Rodin. Feitos para gastar horas embevecidas xeretando os enigmas de Escher. Feitos para ir enjoando de quadrinhos e passar à graphic novel. Feitos para sentir pelitos eriçando ao ler Castro Alves em voz alta. Feitos para – enxergando sombras, enxergando degraus, tons, entonações, nuances, ironias, demais figuras de linguagem, âmbitos, níveis – feitos para ser conquistados pelo muito e não engabelados pelo pouco. Feitos para ser público perigoso e atento, eleitor matreiro. Feitos para ser só muito artisticamente impressionáveis. Docemente difíceis.

Somos (astronautas) feitos para ver o chão muito de cima. Azul.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Quero um dia

“Quero um dia para chorar./ Mas a vida vai tão depressa!” – escreve Cecília Meireles em doçura e lamento, resumindo-nos todos. Eu também, Cecília. A vida vai tão angustiosamente depressa quando não escolhemos o tempo; quando o recebemos empacotado de afazerinhos e afazerões que, sem pergunta nem paixão nem verdadeira posse, lhe calharam. A vida vai tão depressa quando os meses passam a se amontoar, os doze, nos arredores do Natal; quando as semanas escorrem gêmeas a ponto de não se distinguir o dia vivido no início desta do experimentado no final da retrasada, a ponto de não se recordar o último filme, os fatos do último filme, o período que nos separa do último filme. A vida vai tão depressa. Quanto mais preenchida a manhã, quanto maior a são silvestre de cada 24 horas, quanto mais acarpetada de tarefas a agenda que parece estufar por conta própria – menos o tempo rende, menos brota, menos oferece. Quanto mais há no tempo, menos tempo há, digno e lembrável como se precisa. A vida vai tão, tão, tão depressa em suas urgências (que crescem quando atendidas), vai tão corrida em suas ocorrências, vai tão afoita em suas importâncias, que só se deixa possuir inteira naqueles segundinhos em que nos passa diante dos olhos, agarrada a nós pela ameaça de virar o seu contrário. A vida anda besta, anda vaidosa, anda prosa demais de si mesma, crendo-se eterna feito poesia.

É por isso que quero um dia.

Quero um dia desagendado, desorário, um dia-bônus, um dia inexistente; um 30 de fevereiro, um 45 de março, um 82 de julho que desabe sem querer na folhinha, que a gente perceba mas seja impegável pelo trabalho, inquantificável pelos boletos de conta, indescobrível para efeitos de prazo, imponderável por compromissos de toda sorte. Inclassificavelmente imprevisível. Quero esse dia livre, livre para carpir a vida sem telefones; quero o dia de solidões opcionais, sem nariz torcido de aluno nem obrigação de novela. Um dia sem jornais. Um dia sem capítulos. O dia-mar no qual se lembra de cheirar e tocar a vida como ser presente que é, não o quiabo que finge estar sendo. O dia sem notícias no qual se sofre à larga pelas notícias constantes e anteriores, o dia em que a gente não precisa virar a cara por não ter tempo, o dia de 9 mil horas no qual se tem todo o tempo suposto, renovável por igual período. O dia sem pragmática, psicodélico para os que quiserem, árcade para os que assim o desejarem; o dia sem vontade de sumir nem morrer, porque ele mesmo já é brincadeira de morte e sumiço; o dia sem aspirador, dia sem louça, dia sem Omo Progress, dia com salário próprio, dia no qual todos os restaurantes estão disponíveis. Quero um dia com inacabáveis horas para fazer tantas necessárias listas, ou dia sem listas necessárias para todo o lindo sempre. Quero um dia com outros assim posteriores dias, e outro e outro, até um diferente dia seguinte desistir de haver. Até um diferente dia seguinte abdicar, por cansaço, de atas e assinaturas e despertadores. Quero um dia humilde de suas horas infindas, um dia que mesmo intérmino não fique prosa de ir além do dia. 

Um dia-poesia.

terça-feira, 26 de março de 2013

Criar repertório

Na época do carnaval, a Revista dO Globo fez matéria de capa com a recém-eleita Musa dos Blocos do prêmio Serpentina de Ouro: Daniela Bahiense. Linda e leve, a menina de 26. Lembro que elogiou alegremente o ato de caminhar pelo Centro do Rio, onde trabalha, e para justificar o entusiasmo meteu essa: “Gosto de andar, de ver os prédios antigos. Se você fica em casa esperando as coisas acontecerem, não cria repertório”. 

“Não cria repertório”, fiquei mastigando o conceito. Concordo à-beçamente com Daniela; é preciso criar repertório. Só não sou partidária do método. Detesto, admito, ser levada a me enfiar naquelas multidões do Centro – inandáveis se você não vai de tênis com amortecedor para triunfar de paralelepípedos, irrespiráveis se você percorre minicalçada que não deixa desviar do cigarro à frente, chovíveis em excesso se você pega outra minicalçada que não deixa desviar de ar-condicionado mijão. Adoro o Centro espiritualmente e não lhe aturo o corpo. Mas a sorte é que ir ao Centro é metonímia. Até sair de casa é metonímia. O que Daniela quis dizer, aprofundando as camadas, foi que a inércia mental e cultural de uma criatura que fica vendo a banda passar impede-a de crescer, amanhecer e dar fruto. Pouco importa se o ser humano em questão caminha como um alucinado do Largo do Machado ao da Carioca, do Catumbi à Cinelândia, conhecendo todas as bodegas e bibocas na maratona. Se é com janela trancada que caminha, ar fresco não entra. Se é com olhar vidrado e ouvido mouco que caminha, todo possível repertório bate e volta.

Criar repertório é uma olimpíada sobretudo interna. Demanda estado de prontidão, fervor de atenção, mais do que quilometragem rodada. Já vi gente classe-média, professora, com uma década de vida a mais do que eu e total ignorância a respeito dA noviça rebelde e Mary Poppins – para ficar em dois batidões de Sessão da tarde. Por quê? porque é pessoa que seguiu os anos sem tomar posse deles, distraída dos arredores, isenta de apropriação dos vários tipos de inteligência espalhados na rotina. Para se criar repertório colaboram gordamente os livros, os filmes, os jornais bebidos com suficiente devoção. Colaboram as histórias colhidas na padaria, os comentários pilhados no shopping, as cenas garimpadas no YouTube, os causos entredescobertos no ônibus, os acintes presenciados na esquina, os assaltos narrados na portaria, as piadas fisgadas no elevador, os sintomas relatados por senhorinhas de metrô, as tendências semeadas e brotadas de novela. A flor que você não sabia que era a do mês, a cor que você ignorava que era a da hora, o santo que você não desconfiava que era o do dia, a informação de rádio-relógio que te fez finalmente entender a questão árabe-israelense, a aula gratuita de yoga que te apresentou músculos perdidos na faxina, a revirada de gavetas que te retornou um eudolescente perdido na mudança, a colega de seção que te vendeu com elogios o amaciante perfeito – todas essas miudezinhas de vida, esses cacos de tempo que andam aí salpicados na vida mesma e no tempo mesmo, equivalem a criar o mais sólido repertório, quando há respeito e ternura bastantes pelos microconteúdos que nos constroem. Excetuo, naturalmente, os conteúdos que crescem vira-latas, erva-daninhos: fofocas e boatos e mexericos de toda sorte, além de aprendizados perfeitamente envenenantes, como a feitura de uma bomba. Esses não são repertório, são lixo hospitalar a ser incinerado com outros tantos, outros similares efeitos colaterais de estar vivo.

Mas se houver uma só escolha de método repertorial: viagens. Sem dúvida, as viagens – que é quando você finalmente mora nas leituras e filmes, ou quando melhor os metaboliza. Aí não é andar no Centro, é abdicar do centro e andar no mundo, engolfado pela instrutivíssima constatação da própria ignorância.

Entender-se vazio é véspera faminta de aprender.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Coisas nossas

Dias atrás vi uma forma de morte: quadros no lixo.

Se eram, se deixavam de ser belos; se eram ou não jovens picassos e monets, magrittes e rembrandts; se mil ou ninguém mataria para tê-los no cofre ou no lugar de honra sobre o piano de cauda – importa pouco. Importa nada. Havia quadros no lixo; quadros em si, nus de assinatura ou de adjunto adnominal. Filhos de arte tosca ou excelente, flores de habilidade ou inexperiência, manifestos ou sussurros, obras-primíssimas ou tentativas: importa nada. Havia quadros no lixo. E subitamente o entorno suspirou, magoado de decepções; o mundo se provou um bocadinho mais pobre e ignorante porque havia quadros no lixo.

Por que não pode haver quadros no lixo? Porque há coisas, simplesmente há coisas e seres envolvidos em metáfora e dogma, por lei imunes ao incêndio, ao mofo, ao esquecimento, ao desprezo, ao rasgo, ao consumado abandono. Há coisas que descem à raiz de nós, nos essencialmente abraçam e pegam aura de sagradas por empréstimo da gente. Assim os quadros – sempre, com ou sem técnica, nascidos de uma visão ou de um rojo. Cada vez que se deitam quadros à lixeira (a não ser que injuriosos), joga-se fora um momento de escolha, um grito pessoal de cor, de opinião, de necessidade mesma. Cada vez que se taca na indiferença uma imagem que alguém elaborou pelas artes que tinha, sobra um mundo menos disponível, menos disposto a encontrar um olhar alma-gêmeo para qualquer versão de beleza. Sobra um tantinho mais de cinismo plástico, que não deixa de secar mais um galhito da árvore gorda de possibilidades.

Também os livros. Que assassino quem dispensa, para todo o sempre, livros! Livros não são entes que desçam à caçamba da Comlurb, livros são amostras d’alma que até fisicamente ganham alma própria, com seu cheiro e sua amorável tinta, e sua-tão-sua textura singular ao tato. Livros são excertos de pessoa, quase humanoides com cara e voz, bebês que não se desperdiçam ao léu sem antes providenciar-se adoção. Livros são tão úmidos de vida quanto o cachorrito que rói a cortina e a velha samambaia que transformou a cabeceira em franquia da Amazônia. São igualmente indispensáveis sem ter futuro assegurado, quente e macio em outra mão, em outro seio. Livros não são bicho de lixo. São filhos eternamente em processo, amores chegantes pela própria natureza.    

Também as bonecas de pano (nem as digo industrializadas, de plástico substituível). Também os DVDs de filme que apenas não nos encontram mais em modo de palpitação. Também as cartas convenientemente idosas e ridículas. Também os álbuns de figurinha que nos moveram meses a fio numa sofreguidão de Copa do Mundo. Também as caixas de lata ou madeira descascante com relíquias do que fomos – não relíquias somente cacarecas, mas daquelas que dão laço escoteiro em alguma esquina do miocárdio, de tão estreitamente coladas àquele período de apaixonamento, àquela esperança, àquele dia. Também a coleção de futebol de botão, de desenhos do filho na creche, de desenhos seus na creche, de redações na escola, de poemas distraídos em aula, de diários com essência de morango socados na gaveta. Metonímias demasiado cheias, demasiado nossas, para de repente irem acabar no limbo do como se nunca. Como se nunca, nelas, alguém houvesse por determinado tempo existido.

Jogar fora é preciso. Mas a vida, a vida, a vida – também só existe reavivada.