sábado, 11 de março de 2017

O critério

Não demora nada e lá vem ele de novo: dilema. Topar ou não topar o emprego, aceitar ou não aceitar o pedido, trocar ou não de vizinhança, encarar chá ou café, frango ou pasta. Algumas gangorras são ridicularias cujo efeito não ultrapassa dez minutos, mas outras se espraiam e geram consequências que emprenham de outras consequencinhas, e assim se tricota uma trama de xadrez mental para especular futuros e juros e implicações e opiniões e subcomentários do tio-avô do chefe – antes de fechar contrato com a resolução definitiva. E quando o contrato está lavrado ainda não se sabe: prestou? Seguiu-se o melhor critério, tomou-se a melhor estrada, optou-se pelo melhormente razoável? Pois tio Gandhi deu dica bafo outro dia mesmo, quando cruzei com uma sua citação particularmente luminosa: “Sempre que tiveres dúvidas, ou quando o teu eu te pesar em excesso, experimenta o seguinte recurso: lembra-te do rosto do homem mais pobre e mais desamparado que alguma vez tenhas visto e pergunta-te se o passo que pretendes dar lhe vai ser de alguma utilidade. Poderá [ele] ganhar alguma coisa com isso? Fará com que recupere o controle da sua vida e do seu destino? Por outras palavras, conduzirá à autonomia espiritual e física dos milhões de pessoas que morrem de fome? Verás, então, como as tuas dúvidas e o teu eu se desvanecem”.

É evidente e ululante que ninguém espera consertar a fome mundial ao decidir comprar camiseta numa loja e não em outra, mas aí é o ponto de considerar, amados, a velha teoria do efeito borboleta: o leve bater d’asas dum insetinho aqui vai ecoando, se ampliando, se engrandecendo até gerar a corrente que causará um tufão na China. Uma das lojas frequentadas pode ter tido denúncias sérias de trabalho escravo, então recebe seu boicote – e do seu irmão – e da sua prima – e do tio-avô do chefe – e de todos os seus contatos, que têm outros contatos, que têm outros contatos. Um movimento que começou formiguinho vira epidêmico, a empresa sente o rabo de arraia da borboleta e o “seu” homem desamparado ganha alforria. Utópico? Tão utópico quanto qualquer gesto histórico de se recusar a saber o seu lugar no ônibus, organizar marcha de uma cidade a outra, teimar em estudar quando todos os colegas são diferentes, ficar parado na frente de um canhão. Utópico até que, ovo-colombomente, alguém foi lá e fez. E alguma coisa ruim da História desemperrou.

Se eu denuncio o crime, pode ser que “meu” homem desamparado se salve do criminoso – inclusive sendo o próprio criminoso. Se decido ensinar esta matéria e não aquela, “meu” homem (que é ainda menino) talvez já não esteja tão desamparado ao chegar a hora de reclamar seus direitos. Se voto no PSOL e não no PSDB, há esperança de que o homem desamparado seja contemplado em suas premências, no lugar do alto empresário. Se não jogo nunca o lixo no chão, tem boa chance de a casa do homem ser poupada da água infecta que não encontra escape nos bueiros. Se faço a faculdade que quero e não o curso que a família e a indolência de pensar escolheram para mim, é bastante provável que eu tenha – porque com asas desfraldadas em toda a envergadura – condições profissionais de ajudar o homem. O homem precisa de mim plena em quaisquer opções; inteira, consciente, racional, informada, coerente, convicta – feliz, de preferência. Não é de sacrifício nosso que o homem seguramente necessita, e sim de compromisso: que meus interesses e os dele se integrem, unifiquem, confundam sem que a ameaça de morte os separe.

Se existíssemos para nós, nos gestaríamos em cápsulas. Nascemos do ventre para lembrar que só existimos a partir da vivência em alguém. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

Sede

Uma vez uma amiga perguntou no que eu era voraz, em termos de alimentação; e sinceramente, quanto aos sólidos, eu não soube responder. Daquilo em que poderia ser voraz, se eu fosse composta de id e canalhice – batata frita, por exemplo –, acabo nem passando perto, porque superego e consideração pelo fígado me cabrestam. Mas líquido, sim; líquido está na ordem do dia, e o calor sudanês do Rio, combinado com remédio que o agrava, exige litros e litros de água, mate, suco, achocolatado sem lactose, mais água, mais água, mais água, mate, mate, mate, mate. Uma fúria. Nunca fui tão voraz como agora, a ponto de já sair com mais de uma garrafinha a tiracolo, mas “a verdade é que sempre tive sede” – frase clássica do protagonista sonhadorzão de Big fish, um dos filmes queridos. Sede de coisa doce, saborosa. Não necessariamente das que cabem no copo.

Preciso de amenidades, digamos. Não adiantava Mãe fazer calendário de estudo para ajudar a me organizar nos tempos de eu menina; podia até ir pro quarto com o livro, mas (a não ser em desespero de véspera) passarinhava, passarinhava mentalmente, sonhava tecer uma casinha de folhas, planejava alguma espécie de renda rústica, ruminava situações de escola, escrevia história e poema, lia um milhão de linhas que não estavam no currículo, tramava o casamento de algum brinquedo, ficava simplesmente horas e horas esquecida da obrigação sem no entanto esquecê-la, apenas procurando um caudal de agrados e levezas para atenuá-la. Não deixava de fazer dever, não deixava de tirar nota boa, só não tinha disciplina para entrar na gaiola mental mais que o estritissimamente necessário. Dava a César o que era de César com toda a responsabilidade (no final das contas) e zero prazer: o estudo me era e continua sendo frio, chato, com cheiro e gosto de couro e madeira, como gabinete de trabalho quatrocentão. Minha sede estava além desse insosso e inodoro, com exceção de Português, Inglês, Artes, História – matérias úmidas; minha sede era de belezas e liberdades vagas, nuas de números, conceitos e fórmulas, belezas que nada tinham a ver com internet e traquitanas então inexistentes, e sim com psicologia, produção de coisas legais, planos infalíveis de dar presente (sempre adorei dar presente), narrativa, Sítio do Pica-Pau Amarelo, mitologia, cor, planta, pedrinha transparente do jardim. Que me deixassem, que não me interrompessem: eu sofria, chorava, me angustiava com o horror da prova iminente, mas no fim dava certo e eu só queria estar livre para meu infinito particular, grande demais para se desperdiçar espaço com o que não sacia.

Nisso não mudei. Nada. Mudei as sedes, permaneceu a Sede. O mesmo exterior caxias, o mesmo passarinho por dentro, agreste, rebelde, conciliável só com o mínimo de jaula social. Trabalhar o que é preciso, com honestidade e sangue, mas sem uma única hora-aula além do contrato; cuidar da casa o quanto ela solicita, não mais; não ter carro, não ter filho, não ter bicho, não acrescentar despesa, não plantar âncora onde não mora o coração. Era eu criança, salivava a semana inteira pela pracinha de domingo, o balanço, os cavalitos; adolescente, salivava o ano inteiro pela doçura irrestrita das férias; adulta, salivo a vida inteira pela vida mesma, que linda!, metida em cada canto e fresta, onde puder se encaixar, flexivelmente, sem essa de ter horário certo para happy hour. A sede eterna e cada vez mais larga da montanha-russa, mais forte, mais rápida; sede dos lugares novos, dos sebos, dos cantinhos, dos mercadinhos, das fofurinhas de outros países, do ar feliz que se respira ao sair do hotel pela manhã; sede de paladares novos, pratos que passam a ser opção, maravilhas que a língua não mais rejeita e ainda pede; sede de alternativas, de respostas, de argumentos, de meios de convencer quem está imerso em burrices; sede de silêncio, do fim das conversas ocas, da extinção da histeria; sede de escuta, de olhos que veem e ouvidos que reparam, de bocas que só falam depois que interpretam; sede de desipocritização, higienização coletiva de caráter, reversão de lobotomias, limpeza de comunicações; sede de lucidez, clareza, franqueza límpida, intenção translúcida. Sede do que é transparente. Bom.

E já que esbarramos em transparência de coisa boa: um brinde a e feito com o mais simples e disputado dos drinques; que continue existindo para hidratar e conduzir a inquietude das demais gerações. Cheers!

quinta-feira, 9 de março de 2017

Ser outro

“Viver é ser outro”, geme o fascinante Livro do desassossego de Bernardo [Fernando Pessoa] Soares. “Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.”

É uma doideira pessoana, mas como discordar? Se dia por dia não cresci meio milímetro, não me nutri de nenhuma fatiazinha de mundo, não aprendi o nome de nenhuma cor, não fiquei mais exasperada ou esperançosa ou melancólica por causa de nenhuma notícia, não atravessei em outro ponto da rua e finalmente namorei de longe a casa sempre amorfa de perto – que raio fiz eu em certa data, que raio ela fez em mim? Para que serviu comparecer àquelas 24 horas se não me acrescentaram uma página, um argumento, um nome, o inédito de um biscoito ou esquina ou perfume?

É essa, entretanto, a beleza: ainda que de ontem para hoje não tenhamos decidido fugir com um bandoleiro espanhol, nos converter ao hinduísmo ou comprar um apartamento na Etiópia, é impossível não termos mudado. Fomos ao mercado e resolvemos levar queijo branco em vez de manteiga, e ali, no corredor onde teoricamente não estaríamos, nos sensibilizamos com uma bochecha da mais espantosa suculência infantil, e então o relógio biológico bradou com pulmões que nem tinha; ou, ao contrário, nos aterrorizamos com a pirraça de um gremlin que bateu a cabeça no chão até a mãe comprar o iogurte, e nosso trauma foi tão definitivo que demoliu décadas e décadas sonhando com bebês. Se bem que – OK – desejo ou ojeriza de filhos é transformação ainda muito grande, e a ida ao corredor do queijo branco poderia simplesmente ter frutificado no esbarrão com um colega de escola, no acréscimo de um abraço à lembrança, no acesso à lembrança de um brinquedo ou aroma que hoje vemos tão novo. A ida ao corredor do queijo branco poderia ter rendido a mera descoberta da marca que passaria a nos fornecer a melhor comfort food. Poderia ter trazido um nojinho invencível de corredores de queijo, porque lá havia peças embolorando em plena luz do dia. Poderia ter gerado o encontro com a gôndola de revistas no caminho, e a gôndola poderia ter segredado a ultimate receita de suflê para o sábado, alguma pré-revelação de novela, o nome do ator que tentamos lembrar há dois meses, o tema da próxima aula. Por qualquer forma ou rota, com qualquer lucro ou arranhão, não sairia do mercado a mesma pessoa que nele entrou.

Raul cantou como desejo a metamorfice ambulante, mas o que o barbudão apresentou como escolha é, em verdade, nossa exata natureza: a gente vê um filme pela 84ª. vez e se encanta com um detalhe que 83 vezes nos escapulira, a gente volta do salão com outros olhos sobre aquele esmalte, a gente de repente se dá conta de que nunca (ou sempre) gostou de azul, a gente sente a velha simpatia escoar quando vê o vizinho bonachudo descompondo o porteiro. A não ser por motivos de coma afincado (e mesmo assim não podemos jurar que alguma atividade cerebral não nos agite lá por dentro), não atravessamos dia ou hora impunes de mutação. O imutável, sim, teria de ser nossa exceção escolhida; a mudança é compulsória.

A gente fica pelejando em nossa oficina interna para garantir que ela seja para melhor.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Sororidade

A gente digita a palavra e o Word sublinha, procura no Volp e não tem. É pena, porque embora esquisitinha na forma é danada de bonita no conteúdo, e merecia com um milhão de urgências estar na boca e na alma dos seres de língua portuguesa (e de todos os outros). So-ro-ri-da-de. Pra já, pro minuto anterior, pra anteontem.

Em inglês sempre foi comum, e desde meus tempos adolescentes de Brasas eu já sabia muito bem que sorority é o equivalente feminino da fraternity – aquele tipo de comunidade, normalmente universitária, de vida e residência. Quem já assistiu ao divertido Legalmente loira ou ao fofildo Universidade Monstros (ou a qualquer outra produção que inclua um bando de jovens sob a égide de duas ou três letras gregas) saca perfeitamente do que estou falando. Mas isso é nos lás; nos aquis, sororidade não designou alojamentos femininos, até onde sei, e sim essa coisa linda do sentimento de irmandade e empatia entre mulheres. A noção de que, por mais que tenhamos tido rumos e influências diferentes, somos todas guerreiras da mesma terra e vítimas das mesmas idiotices culturais – vítimas com altíssimo grau de resiliência mas fisicamente mais suscetíveis, mais expostas, e por isso necessitadas de um pacto de lealdade protetora. Carecidas de um abraço carinhosamente coletivo de gêmeas e parceiras.

Sororidade é esquecer a conversinha mole com que tentaram nos dividir para conquistar – aquela secular esparrela do “mulheres são competitivas, nunca são realmente amigas umas das outras” – e sustentar que sim, temos as mais imbatíveis fidelidades e as mais amorosas compreensões, talhadas na dor comum e nas alegrias camaradas. Sororidade é combinar senha com as gatas do coração para afugentar o paquera que ensaia cruzar os limites, ou mesmo trazer para junto, com intimidade de infância, a desconhecida que gritou com o olhar “estou na beirinha de uma cilada”. Sororidade é saber que estupro já é estupro independentemente de “consumado”, que pode acontecer também nas casas do Morumbi e sob o peso de uma aliança, que acontece inclusive em bordel ou com garotas de programa, que NINGUÉM jamais o deseja ou provoca a não ser o estuprador, e que TODAS as vítimas desse assassinato moral merecem a mesma incondicionalidade no respeito e no acolhimento. Sororidade é não ter omissão canalha, é se meter sim em briga de marido e mulher, é chamar a polícia e tocar trombone e organizar apitaço ultrainfernal a qualquer menção de violência nos arredores.

Sororidade é cuidar de travesti e transmulher com a exata preocupação e ternura que teríamos por nossa mãe ou filha. Sororidade é nunca, jamais, sob nenhuma hipótese declarar que uma sister faz algo “como se fosse homem” quando se quer elogiá-la (nem quando se quer – afetuosamente – xingá-la, porque sisters também se xingam. Com fofura). Sororidade é não se prender a críticas do look alheio, porque afinal ninguém é obrigado a seguir moda absolutamente nenhuma e, se a mina quer sair de cabelo moicano verde e roupa de plástico transparente, e se sente linda (ou sequer leva em consideração o estar linda), pessoa alguma tem nadíssima com isso, nem tem justificativa para o mais leve desrespeito. Sororidade é não explicar nenhum desassossego de (outra) mulher com TPM, é não desmerecer nenhuma aflição tachando de frescura, é não deixar de acatar a legitimidade de nenhum sentimento – mesmo sem concordar com ele –, é não pré-julgar, é não condenar, é não ignorar toda a carga colônio-machista que pesa sobre nós para não cair em sua rede maldita.

Sororidade é ser mulher tão de propósito que nem se cogita questionar o direito de alguém o ser na mesma medida, ou em sua medida própria, porque cada uma escolha sua posição dentro deste imenso e esplendoroso time. Em sumíssima: não é assim tão diferente da sorority de manas do outro hemisfério – já que, tão igualmente, não deixamos de morar dentro da fortaleza umas das outras. 

terça-feira, 7 de março de 2017

Aprender a morrer

“Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso porque, de certa forma, o estudo e a contemplação retiram a nossa alma para fora de nós e ocupam-na longe do corpo, o que é um certo aprendizado e representação da morte; ou então porque toda a sabedoria e discernimento do mundo se resolvem, por fim, no ponto de nos ensinarem a não termos medo de morrer.” O trecho é de um ensaio de Michel de Montaigne e tem potencial para garantir quatro ou cinco insônias. Ainda que com algumas olheiras, assino embaixíssimo do autor direto e do indireto: aprender é, na última das últimas instâncias, aprender a morrer. Nada se aprende de bom que não seja para viver melhor; e o que é viver melhor, a não ser perdoar o passado (porque existiu ou porque partiu) e se concentrar no presente para atingir um futuro devido – futuro sobre o qual há uma única certeza? Aprendemos para viver felizes, nem que “felizes” seja o apelido da serenidade trazida pelo conhecer; e vivemos para morrer felizes, já que toda história se busca coerente com seu final. E vice-versa.

Aprendemos a morrer quando passamos a nos atirar ao amor – não à paixão, bem entendido – com o desinteresse e a irrestrição de quem sabe que não levará melhor roupa de gala para o túmulo. Aprendemos a morrer quando a consciência do limite físico nos invade e automaticamente nos consola com o arquivo da experiência, que vem no mesmo download: quanto menos o corpo nos pesa, quanto mais sua importância esvazia as prateleiras, mais espaço fica para a verdadeira bagagem. Aprendemos a morrer quando os nhenhenhéns e os tititis só merecem uns revirares de olhos e suspiros de tédio, porque afinal o prazo é curto, curtíssimo, e há melhores lembranças a carregar na viagem do que fantasmas de tretas passadas. Aprendemos a morrer quando devoramos leituras e, consequentemente, vidas e gentes – e partículas dessas ciências múltiplas nos enlaçam, confortam, orientam sem que precisemos de todas as tentativas ou de todos os erros.

Aprendemos a morrer quando aceitamos e acertamos a vida: é isso que temos, é isso-isso-isso que queremos, é assim e para lá que vamos. O fim da narrativa organiza os meios, restringe-os e os define. Quem quer que escolhamos ser, seremos sempre nosso personagem do último capítulo – e geralmente demora uma novela inteira até que ele consiga, pleno, voltar para casa.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Ninharias

Se tem coisa que me dá irritação do tamanho dos Alpes é ver (e ouvir) gente falando, e falando, e falando, e falando sobre assunto do tamanho de um parafuso. Não há conteúdo real, somente a ruminação incapaz de silêncio – o trabalho mental que não se contenta em resolver as paradas de um jeito rápido e indolor, daí ir jantar e ver tevê. Nããão; o sujeito ou sujeita não quer abandonar o tema, não quer refletir sobre o tema, quer apenas esticaaaar o tema ao máximo, por falta absoluta de perspectiva ou absoluto excesso de ócio. E normalmente são questões de um pretérito já mortinho, além de absurdamente desimportante: olha, eu não disse que este era o metrô certo? Se a gente entrasse naquele que você queria, ia acabar lá na estação Botas de Judas e a Pafúncia já ia ter mandado centenas de mensagens revoltsss. É, mas esqueceu que a última vez que eu peguei metrô foi em 1987? Falei mesmo pra você conferir tudo antes, pra não confiar muito na minha direção, a responsabilidade era sua de qualquer jeito, pô. Sim, mas por que você não se informou também, cara? Fica sempre tudo nas minhas costas, olha a cagada que ia dar se a gente fosse na sua – e nisso os infelizes já estão há 43 minutos no metrô certo e o rame-rame não dá mostras de exaustão, tornando e retornando ao início, fim e meio; quase algo místico, se não fora igualmente um belo motivo de crime passional. Crime de minha parte, claro, que a essa altura terei procedido à esganadura dos interlocutores, seguida de defenestração sumária.

Odeio barulho; odeio barulho contínuo com duplo ódio; odeio barulho-verbal-contínuo-sem-finalidade-prática triplicadamente. Feito flor, vaso, gravura, escultura, a palavra expressa tem a prerrogativa de “não servir pra nada”, de existir por pura cisma de beleza – se beleza há. Se não há, haja ao menos utilidade propriamente dita, ou é ruído puro e vago, mera exasperação da rotina. Palavra que não enfeita, que não encanta, que não comove algum tanto, que sequer preenche lacuna não devia ter greencard de espaço sonoro; não devia desperdiçar nossos intervalos entre casa e trabalho, entre serviço e vida, entre fisioterapia e lazer, quando poderíamos estar em serenidade reflexiva, em plena fabulação de criatividade. Certo, discutir o nada é estratégia de sobrevivência ao encontro com o conhecido, a quem nem se pode dar o silêncio da intimidade, nem o da indiferença. Mas, uma vez cumprido o contato fático de bom-tom, para que persistir na conversa que gira, gira e não chega? E se a relação é de declarada amizade ou amor decidido, para que buscar uma conexão rasa e deixar fugir a profundeza do entendimento mudo? Para que desidratar cordas vocais em nome do que já foi resolvido? Para que ganhar sede mantendo o papo que não sacia?

Não sei se por frieza ou cansaço, ando cada vez mais impaciente com o que é oco ou inócuo. Não sei se pelo tempo rarefeito, vivo cada vez mais farta dos rumores excedentes, dos barulhinhos que cobram e perseguem, dos monólogos que impedem a leitura, da narrativa não solicitada que interrompe o brainstorm, das interjeições gritadas que só acontecem por desrespeito ou histeria. Se há algo realmente a ser dito, diga-se com o mínimo de danos, fale-se como quem não quer maltratar o silêncio. Se é a abobrinha pela abobrinha, parnasianamente; se é a voz apaixonada por si mesma, que remói e remói o leite derramado – melhor calar, não danificar a paz alheia. Move on, meu povo: assuntos palpitantes nos esperam na esquina, bora não decepcionar os pobrezinhos.

E, quando os encontrarmos, bora não assassinar o sossego que por aí habita para pô-los em seu lugar.

domingo, 5 de março de 2017

Estado de enigma

Um dos personagens principais do romance O margal, de Georges Ohnet – esquecido autor francês do século XIX – é um velho nobre arruinado que nada vê, nada sente, nada toca além de sua mania ensandecida de invenções. Não importa o inimigo mortal que virou credor e o quer expropriado e mendigo, não importa a família que o protege que nem criança das dívidas que mastigam a casa; importa, exclusivamente, o forno moderníssimo que ele tenta desenvolver há décadas e que (esperança!) levará seu sobrenome à riqueza. O problema é a inconclusão doentia, eterna, porque “o aperfeiçoamento era o vício do marquês. Uma invenção nenhum interesse tinha para ele senão em estado de enigma. Uma vez decifrado, cessava de agradar-lhe. Seu espírito inquieto punha-se à cata de um outro resultado. E raras vezes ficava no que havia descoberto. Era-lhe sempre necessário o melhor, esse destruidor do bom”.

O melhor, esse destruidor do bom. Quem nunca? Fomos criados para correr do medíocre, fazer inglês, informática, balé, teatro, xadrez, faculdade, mestrado, doutorado, Harvard, Sorbonne, MBA – em busca, sempre em busca. Às vezes o salário nem cresce tanto, ou cresce 10% enquanto o serviço triplica, mas quem somos nós para recusar uma promoção? a chance do milênio? a empresa de todas as invejas? Quem somos nós para aceitar permanecer, credo!, mais de um ano no mesmo cargo? Uma pista: somos gente que tem sonho erótico com feriado, que capota em vez de brincar de treinamento jedi com os filhos, que no fundo só queria uma bicicleta e uma plantação de tangerina. É pedir muito? Pior, é pedir pouco, pouquíssimo, e nenhuma casinha com varanda pode nos interessar, a nós que temos a obrigação lavrada em cartório de querer só o mais e o muito que continuam em estado de futuro, em estado de enigma. Vivemos o inferno compulsório de desbravar ou fracassar.

Call me crazy, mas fracassar não parece tão ruim quando se tem horário flexível, não se precisa dormir com 30% do olho porque a Bolsa pode ter um infarto fulminante, há tempo para livros e séries, cinema em dia de semana e terra molhada. OK, mediocridade deixou de ser in lá nos mil e setecentos, e nem eu aconselho a ninguém que estacione na frustração e no sofá. Aconselho, sim, que se escolha com pupilas sensatas o seu enigma perpétuo – de preferência um que não envolva cifrões nem condices de Monte Cristo, nem diplomas sem tesão, nem ambições de Nobel. De preferência um que a morte não leve, e que, ficando, aumente perenemente e não bote os herdeiros em luta. De preferência um mais abstrato e que empunhe sabre azul. Ou verde.

Se for para ser fanático por enigma, que seja o modo de fazer a informação chegar às sinapses de mais pessoas, que seja a forma de interrogar o Google sobre o presente perfeito, que seja o projeto de extinguir a fome pelo menos da multidão mais próxima. Que se fique insaciável por estratégias de colocar mais gente feliz, por viagens a lugares subestimados, por jeitos simples de melhorar o bairro, por maneiras de deixar a água amplamente acessível, por truques caseiros e baratos para tirar mancha, por lares definitivos para bichinhos órfãos de gente, por filmes que nunca imaginamos o quanto poderiam ensinar, por ideias bafo de decoração prática, por doações de tempo e ombro e roupa e sangue e alimento e medula, por coleções de amigos intermináveis. Que seja nosso enigma de estimação a caça ao bom e ao belo, e a certeza de que haverá os melhores meios de distribuição.

(Ao menos os meios de distribuição possíveis no momento. Que ninguém fique sem o necessário porque um orgulho teimoso não desiste de enfiar um hipermercado no caminhão de entregar.)