sexta-feira, 6 de julho de 2012

Memória colorida

Não chego a sofrer de sinestesia aguda – aquela condição orgânica em que se faz um mix incontrolável de sensações: enxerga-se um som retangular, um perfume gritante, um sabor macio. Não vejo barulho se tornando espectro, não escuto Chopin ao morder barrinhas de cereal. Mas carrego memória colorida. Memória difusamente colorida. Muitíssimo olfativa também, e sobretudo colorida. Desde criança. Certo, a escola dos primeiros anos ajudou a reforçar essa tendência; mandava-nos pintar partezinhas da folha quadriculada conforme o número a ser aprendido, e cada qual tinha sua tonalidade intransferível. Resultado foi que, para mim, até hoje o um é branco, o dois é de azul fechado, o três é vermelho, o quatro é verde, o cinco meio azulado meio oliva, o seis laranja, o sete amarelo, o oito entre marinho e preto e roxo, o nove marrom. O zero, por natural equivalência de sentido, fica transparente. Vai daí, desse jeitinho é que estranhamente registro datas, senhas, telefones, querendo ou não querendo: uma enfiada de cores, uma quantidade com matéria e espírito.

Se fosse só isso. Por extensão de semelhança, ou sem qualquer explicação razoável que não a logística mental, letras (consequentemente, palavras) receberam também suas chuvas de tinta. Cada porçãozita soa a um tom, porém o quadro final nem sempre leva em conta apenas individualidades: a palavra tanto pode sair mosaico quanto degradê, ou mesmo assumir por inteiro a cor de uma das letras – não precisamente a de fonema mais forte. Meu nome, por exemplo: é rosado, por causa do agrupado de enes. Fábio tem um tanto de vermelho e só um pontinho azul-noite, embora brilhe claro e aberto. Minha irmã Renata recebeu denominação fluida entre azul, branco e verde-água à praia tropical. Lembro-me de, em pequena, visitar algumas vezes o trabalho de Mãe; nunca estava lá um determinado colega que, ela dizia, iria gostar de me conhecer. Bem mais tarde ela fez referência ao mesmo colega e eu recordava direitinho: Lúcio. Impressionaram-se de eu ter conservado a informação, dado tratar-se de gente desconhecida. “Sei que era um nome azul-escuro”, justifiquei criançamente. Ninguém contestou.

Brasil é meio anil, meio tomado de transparências, ainda que aqui se viva no país do oculto e do opaco. Rio de Janeiro principia branco e termina em crepúsculo amarelo, um tanto salpicado do preto de gaivotas em silhueta. Paraty tem cor de palmito. Mãe é fogueira de matizes quentes. Irmã é rosa levinho, tom de sutiã com renda. Chão é escuro. Anel, dourado. Lua, lilás. Sábado, azul. Talvez, de amarelo ácido, cítrico, tendendo a preto. Chuva é plúmbeo. Pássaro é solar. Ninguém é vermelho. Matemática é vermelho. O que termina com ade guarda laranja, com ado é cinzento, com aço já é grafite. Porta tem alma esverdeada, janela e tigela rimam de cor – amarela. Vidro é da cor inexistente do zero; cristal, de translucidez inda mais branca e maior. Domingo é pele rosadinha de férias. Olho tem cor de sombra.

O mundo, balé de maravilhosa inexplicação.

Um comentário:

Wanessa Guimarães disse...

Que lindooo!!! *-*

Beijo,
www.estanteseletiva.com