segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Gostosura ou travessura

Montão de gente encana com a mania recém-incorporada do brasileiro de celebrar o Halloween. Montão de detratores alega que é data importada, tradição ianque, estrangeirismo inaceitável, apêndice vergonhoso de folclore, baba-ovice ridícula. Alega mesmo ser de um macabro incompatível com a realidade tupiniquim. Bobajada. Primeiro que é compatibilíssimo com a realidade tupiniquim descolar festinha extra entre Dia das Crianças e Natal – especialmente se há fantasias envolvidas. Quanto de estrago psicológico pode fazer um chapeuzito de bruxa com estrela azul? Segundo, é no mínimo historicamente nonsense exigir culturas típicas puras de contágio. Contagiar é a ideia. A good one. Misturar, emprestar, liquidificar. Ou o leitor amigo topa adotar o guarani como língua materna? Melhor: bora todo mundo papear em sânscrito. Pureza cultural rola não, gente. Evolução é a prova dos nove. Get over it.

Quanto mais não seja – para sono tranquilo dos arraigados –, o Halloween já não desembarcou americano; desceu do avião devidamente antropofagado, pra encher de orgulho nosso Oswald. Chegou em edição revista e resumida, mais farra e menos morbidez, alegrando a vida de comerciantes e cursinhos de línguas. E já que citamos morbidez, como era mesmo aquela lenda tipicamente nacional de mulher de padre que vira cavalo decapitado e sai a galope com o pescoço em chamas? Como era mesmo o lance da criatura de pés virados que pega um, pega geral na floresta (também vai pegar você)? Como eram mesmo os versos de ninar em que um boi-boi-boi-da-cara-preta ataca bebês só por terem medo de careta? Como era mesmo a história do negrinho-da-perna-só que fuma (FU-MA!) cachimbo, mesmo com aura de criança, e sai espalhando pequenas grandes maldades no entorno? Refresquem-me as ideias: não foi a esse serzito exemplar que tentaram dedicar um dia de nosso calendário patriótico? Ahã.

Convenhamos. Não são culpa do Halloween as nossas bruxas. Nem de leve. Sequer precisamos importar a atividade mais relevante do feriado americano – sair para ganhar doces ou fazer travessuras, coisa que não pegou por aqui –, por já ser e sempre ter sido uma atitude brasileiríssima. Metaforicamente falando. Quem, mais do que nós, é movido à base de toma-lá-dá-cá, ou-dá-ou-desce, me arranja isso que eu te consigo (ou não te estrago) aquilo? Que nação, mais do que a nossa, tem tamanho impulso infantil de detonar o que não serve de pronto, de depredar o que não interessa de imediato, de recusar-se a assumir 1mg de dever que não venha precedido por 25kg de direito? Quem, mais do que este nosso tanque de golfinhos gigante, só faz truque se recebe peixe? só copia a matéria se vale ponto na prova? só investiga a maracutaia se o Fantástico denuncia? só cumpre a obrigação se rola propina? só faz a inauguração se recebe voto? só vota a favor se negocia aliado? só reabre o processo se o Fantástico redenuncia? Já somos de fato, por talento, pela própria natureza, a pátria da gostosura ou travessura, a capital internacional da chantagem a céu aberto, em todos os mais criativos níveis. Não exatamente evoluímos em termos econômicos e políticos: somos empurrados pela inevitabilidade da opinião pública, pelas contrações universais. Mas achamos sempre um cantinho de feira para continuar nosso troca-troca, nosso oba-oba. Um cantinho. Que o resto do mundo não tem medo de careta.

Deixemos em paz as criancinhas, contentemente vestidas de Branca de Neve ou Harry Potter, vampiro ou Tinkerbelle. Tenhamos mais o que fazer como adultos. Discutir estratégias que nos transformem em país sem horas do espanto, por exemplo – antes que viremos abóbora.

domingo, 30 de outubro de 2011

Ouvir estrelas

Sabe quem é Sandy Wood? No Brasil, ninguém. Nos Estados Unidos – descobri pelo site do New York Times –, é a voz que, em 2011, completa 20 anos conduzindo maciamente o programinha de rádio StarDate. Dois minutos para mais de dois milhões de ouvintes. Dois minutos simpáticos, diários, que convidam americanos ocupadíssimos a “ir até o quintal e mirar as estrelas”, como diz a reportagem. Seja com o comunicado da descoberta de um quasar, seja com a informação do melhor camarote para admirar a passagem de um cometa, o StarDate seduz pelo princípio que justifica o nome: uma espécie de “namoro”, de encontro marcado – romântico – com as bonitices do céu. Uma intimação a que retomemos (brevemente, mesmo) nossa essência original de contemplação.

Ora, direis; certo perdeste o senso. Quem tem tempo para se dar ao desfrute, ao demorado desfrute de contemplar hoje em dia? de diminuir o gráfico de ações, a escala de feitos, o índice de resoluções para aumentar a porcentagem de dia “perdido”, olhando para o nada? E eu vos direi, no entanto, que a falta de contemplar nos adoece. Não sejam estrelas propriamente ditas; sejam poemas, ondas, rosquinhas de araruta, museus, refeições coloridas, um rosto mais especificamente amado. Seja o que seja, contemplar é preciso. Contemplar é mastigar a vida com os olhos, paquerá-la, sorvê-la, apaixonar-se por ela com voluntária mansidão. Escolhê-la conscientemente. Não a engolir goela abaixo apenas pelo detalhe de estarmos vivos. Contemplar é estar vivo de propósito.

Triste que a impaciência universal atualmente não contemple: fotografe. Somos práticos, somos ávidos, sedentos. Registramos e pronto. Está arquivado. Não conseguimos mais ir a um banheiro de shopping sem documentar o momento para a posteridade, posando no espelho. Nada, nadíssima a ver com o admirar sem pressão que o ato de contemplar exige. Olhar com a pulsão incontrolável de tirar foto, com a ânsia brutal de guardar materialmente, possessivamente, é feito namorar no sofá de casa, com trabuco na cabeça e olho de pai e mãe no cangote. Fotografar sem antes enamorar-se da cena arranca a espontaneidade do belo, deixa-lhe só um sentido de obrigação besta. Contemplar vem primeiro, e é coisa de se fazer com a câmera arriada. Coisa de se fazer desarmado de pressa, de posse, de urgência. Não há permanência na imagem que se copia, toscamente. A permanência mora na contemplação que dá à luz a fotografia. Mora na ternura que nasceu antes, embevecida de prazer, pálida de espanto – e apertou o botão da câmera na esperança de, somente, repetir a si mesma a certeza que já tinha.

Amai a vida para entendê-la, caros. Ou não entendê-la – tanto melhor. Amai-a (que é o amor senão contemplação por dentro?) para recebê-la, merecê-la, só então fotografá-la. Contemplação não é ficar como um paspalho, mudo, esperando ouvir ou flagrar estrelas que lhe recitem de longe, de fora. Não é ser paparazzo do mundo. Contemplação, telescópio virado ao contrário, começa no contemplador; e é, simplesmente, pretexto para abraçarmos nossa própria consciência, nossa própria medida de deslumbre, num climinha de enfim-sós.

sábado, 29 de outubro de 2011

Pegar carona nessa cauda de cometa

O mundo anda cinzinha que dói: ele escancara uma porta colorida como o armário de Nárnia. Chovendão em pleno sábado: ele e você acampam gostosamente debaixo das cobertas. Travessia na barca Rio-Niterói: ele é o passatempo almofadado que ensolara a viagem. Ônibus: também. Metrô: também. Avião: também. Férias na montanha: duvido resistir a pegar uma lareira com ele. Enem no sábado, concurso no domingo: quem mais senão ele para servir de chocolate mental? Insônia: nem com canela um leite quente o supera. Feriado nacional: ele é a luz no fim do programa. Apagão: o programa no fim da luz. Lanterninha salva.

Ele é o sinal de civilização que nos pega no colo, o calhamaço estético que nos educa, a psicologia universal que nos cria. É a cultura que primeiro nos embala. É a arte que de cedo nos cativa. É o mais velho amigo de nossas escolaridades, símbolo das conquistas inaugurais. É a fonte que chove dados, gritos, rimas, ritmos, lamentos, espelhos, memórias, sons. Lutas, pontapés, prazeres, exemplos. Principalmente exemplos. É a janela com vista pro mundo, escotilha da História. E submarino na História. É barco que nos mergulha no alheio e foguete que nos alça ao particular. É bruxo, vampiro, lobisomem que nos dá alternativas ao ser, que nos toma facetas pela mão. É pau, pedra, fim e início de caminho. É empréstimo de sonho, é filial de vida. Reinauguração de vida. Divã.

É hoje, no Brasil, o dia dele. Dia Nacional do Livro. Dia do amante insubstituível de nossas agonias e imaginações, alma gêmea dos coraçõezinhos incompletos (e há completos?). Dia do objeto introcável por qualquer que seja a tecnologia insípida e inodora. Dia do amigo que nos acarinha e acarinhamos folheando, amassando, cheirando, marcando, sublinhando, espremendo nas almofadas, esmagando no travesseiro. Dia do nosso favorito brinquedo de pensar, nosso mais sofisticado jogo de viver. Nossa mais polpuda realidade virtual. Dia de banhos de mar em Pasárgada, machadices com torradas na Colombo, bolinhos de Nastácia no Sítio, turismo no centro da Terra, compritas em Hogsmeade. Dia de nova infância e pré-morte, desse tudo-ao-mesmo-tempo-agora que bebemos no supermercado dos outros. Dia de esconde-esconde em nebulosa, sem voltar pra casa. Dia de fazer casa em nosso lindo, maior, balão azul.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Causas impossíveis

Aproveitemos o dia de São Judas Tadeu para colocar na pauta sonhos e desejos engolidos, nossas pretensões improváveis. Aquilo que damos tanto por bom quanto por perdido, aquelas esperanças que já não encaramos por pudor de nossa inocência, as decisões que alegremente tomaríamos não fosse o fantasma da implausibilidade. Aproveitemos. Não é todo dia que damos trégua à nossa vergonha de querer.

De querer ser útil profissionalmente, por exemplo – dando aulas em escolas do município. De querer ter a ousadia de convencer cada aluno abandonado por si mesmo a resgatar-se do autoesquecimento. De pretender tornar noções como responsabilidade e consequência magicamente compreensíveis. Simplesmente normais. Pelo menos normais. De pensar em fazê-los amar pensamentos, encaixar e desencaixar pensamentos por brinquedo e não por chicote. De esperar lhes dar fome e sede – das boas – como algum legado. De cogitar não deixar-lhes apenas números defuntos no boletim, mas uma herança social que preste.

De sonhar, também, ver um contexto social que preste: papéis e latinhas guardados na bolsa até a próxima lixeira (de coleta seletiva); broncas e indignações postas para fora sem esperar a próxima eleição (do que for); maiorias convencidas de não ser imperatrizes da verdade; minorias convencidas de não ser eternas vítimas; cadeias com cartão de ponto e contracheque para hóspedes; constituições com mais sins, mais nãos e menos talvezes; governos que tornem ONGs obsoletas; hospitais que tornem planos de saúde obsoletos; futuros que tornem nosso presente um coitadinho. Futuros de se falar em aquecimento global e mula sem cabeça no mesmo folclore.

Aproveitemos o dia para nos desapegar desse triste pouco que nos habituamos a ser. Para nos liberar de nossos preconceitos contra a felicidade longínqua. Para tacar na lixeira (de coleta seletiva) nossas manias de não conseguir, nossas decisões de não buscar, nossa serena aceitação da incapacidade. Livremo-nos da aridez do perfeitamente possível.

Nos impossíveis é que mora a única razoável sobrevivência.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Proteger e admirar

Revistas femininas gostam muitão de falar de quê? Homem, claro. Matéria batata de entrar na edição é aquela que “desvenda o pensamento” dos garotos, como se fosse um dicionário de tcheco. Numa dessas Novas da vida, vinha uma série de perguntas direcionadas às criaturas do sexo oposto que eram os dissecados da vez. Achei interessante e inusitado haver uma questão do tipo “Vocês preferem uma mulher para proteger ou para admirar?”. Um sujeito de 30 anos não se fez de rogado: “Na fase em que estou, prefiro uma mulher que eu possa admirar e com quem construir alguma coisa junto. Quando mais novo, o homem tem o instinto de proteger a parceira para se sentir mais macho. Com o tempo, percebe que pode ser protegido também”.

Incrível a maturidade da resposta. A percepção. Normalmente tenderíamos a pensar que gajos mais novos querem uma extensão da mamãe, querem acabar de ser criados, querem ser acolhidos debaixo das asas – e os mais velhos, já resolvidões, protegem. Mas o cidadão da reportagem disse tudo. Pelo menos trouxe um ponto de vista saindo do forno. Sinal de evolução, mesmo, é aprender a admirar. Aprender a precisar. Aprender a depender num sentido total e alegremente distinto do post anterior: aprender a recuar nas onipotências para aceitar os acréscimos alheios, para abraçar as capacidades doadas, os dons, os saberes que nos faltam. Crescemos – todos – quando nos permitimos tocar nos pontos com mais terminações nervosas; nossos membros-fantasma, nossos às vezes embaraçosos vazios.

Ser o eterno fornecedor de proteção é a maneira mais fácil de autoproteger-se. O zeloso é, também, aquele que controla. Aquele que dá as cartas conforme deseja manipular sua imagem, defensivamente. Quem faz o itinerário para ter a chance de desviar-se dos próprios obstáculos. Quer ação mais infantil do que pretender guiar a vontade adulta? Os protegidos, por sua vez – protegidos maduros, não bebezões que na realidade são reizinhos possessivos –, assumiram renunciar ao faz de conta. Admitiram que não dão conta. Não sozinhos. Protegidos são os realistas: sem deitar eternamente em berço esplêndido, penduram no pescoço sua parcela de fragilidade e, necessário sendo, carregam-na frequentemente para o conserto. Estão abertos (não acomodados) à verdade de suas fraquezas. Protetores compulsivos estão nadando no vício de suas forças.

Querendo saber quem é quem, observe. Protetores machões são os que desejam dar download imediato de um programa de cartografia e reinventar o mapa. Protegidos maduros são os que param para pedir informações.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Razões emprestadas

Foi, se não me engano, no capítulo de ontem da novela A vida da gente. O médico que cuida de Ana, a protagonista em coma, alertou a mãe possessiva da mocinha: sua dedicação interminável à filha era muito boa, muito bonita, mas já estava em tempo de dar também alguma atenção à sua vida particular. “Minha o quê?”, repetiu Eva, tão aturdida como se a tivessem mandado escalar a seleção do Zaire. O doutor esclareceu do que se tratava. Aquela coisa, sabe, que se tem fora do hospital? “Ah, não, doutor” – ela sorriu, mais ou menos compreendendo o que ele tentava dizer – “eu não tenho vida particular. Minha vida é a Ana, sempre foi. Nós somos in-se-pa-rá-veis.” E ali permaneceu a motherzilla interpretada por Ana Beatriz Nogueira, observando a filha com carinho aterrorizante.

Eva é fictícia; seu comportamento insano não é um poço de realismo. O discurso, sim, é realista. No que há de péssimo. Não somos poucas as criaturas que vivemos de razões emprestadas: seres sanguessugas que terceirizam a própria existência vampirizando o cangote de outra criatura – ou de um trabalho, ou de um propósito. Menos pior quando é de um propósito, em especial se muitíssimo elevado. Acabar com a fome no planeta, por exemplo. Ruim demais se for de um trabalho: mutilam-se outras necessidades, sedes e mundos, e aquele ser se torna monofacial, monotemático, monótono. Mas terrível, perverso mesmo, quando cravamos os caninos num outrem que deve gerar energia suficiente para viver por dois. Que desde sempre carrega o fardo parasita ao qual, por acréscimo, tem o fardo pior de não poder decepcionar. Uma relação a três – o viciante, o viciado e sua tonelada mórbida de expectativas. Bom para ninguém, aberrante para todos.

Passar adiante a procuração de nossa felicidade é um tipo de ódio. Deve-se, no fundo, desprezar profundamente o bem-estar daquele em quem sapecamos arreios, cabrestos, correntes. Precisa-se nutrir tanta reverência, tanta admiração pelo objeto hiperamado como senhores de engenho nutriam pelos escravos que eram suas mãos e pés. Depender não é amar: é escolher a vítima conveniente, o alvo de abate. Amor que mereça o rótulo necessita já a princípio ser livre, no sentido de pisar macio para não virar hóspede que incomode. Amor caminha plumamente, delicado na atenção, de sobreaviso na leveza; voa mansinho, flutua, não se arrisca a pousar e pesar. Pousa como quem sopra e permanece com a suavidade de quem não estivesse.

E só assim – desengaiolado, desengaiolante – consegue ser-se. Amor pode e deve ter documento. Desde que limite as algemas às ocasionais de pelúcia rosa, para eventualidades de lazer.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

The end

Eu estava lendo (oh, surpresa) uma crônica da Martha – que, por sua vez, lera uma crônica da Clarice – sobre nossas últimas palavras. As últimas ever. O fechamento verbal da vida. Martha comentou a tremenda responsabilidade, o tremendo peso, de não se poder garantir que toda uma existência não acabará num "putz", ou expressão igualmente cretina. Algo que não faça jus a nossa abundância vocabular, a nosso eldorado interior. De fato, não é questão para se perder no travesseiro entre um dia e outro. É para amofinar. E, na total impossibilidade de se ter controle sobre o momento da declaração final (ainda mais numa cidade estúpida, súbita, como este Rio de Janeiro), resolvi já ir adiantando meu testamento, que segue pelo menos em rascunho. Just in case.

Declaro para os devidos fins que esta foi uma boa vida. Não pode ser uma vida ruim aquela que tem Fábio, casa, família, salário. Que teve amendoeira no quintal. Que teve quintal. Que teve irmã mais velha, show do Roupa Nova, visão capaz de identificar o rosa e o laranja, paladar sensível ao toque da manga, olfato bastante competente para cheiro de café e fornada nova de pão francês. Que teve amigos, Cabo Frio, Magic Kingdom, rua arborizada, agradecimento de aluno (uuuuum que seja). Que escutou piadas, elogios e necessárias broncas. Que teve mãe e pai – só isso já assegura bônus para mais de século.

Declaro que, pela ausência de chance (e cara de pau) e tempo, posso não ter mergulhado com bastância nas atividades mais amadas, posso não ter sido a mais eficaz e exemplar entre os projetos queridos, mas em compensação tentei, sem amargura, dar o rumo mais nobre aos trabalhos que se mostraram possíveis. Tentei, se não ser a melhor, ser melhor do que a eu-mesma de ontem e anteontem. E tanto me afeta, tanto me absorve a palavra que talvez eu não tenha conseguido suportar o choque de usá-la para demonstrar o que mais me afeta e absorve. Talvez eu não tenha amado o suficiente em voz alta. Talvez não: é certo. E me desculpo pelo mau jeito. Reconheço não ser, por acanhamento – diante dos verbos e dos quereres, que tanto medo respeitoso me dão –, a mais expansiva, a mais fluente das sentidoras. Sinto tudo baixinho, a não ser quando trovejo. Prefiro o papel à voz, o teclado ao fone, a ação à declaração. Gosto de favores, abraços, olhadas e presentes no lugar dos eu-te-amos que não me escapam porque me fazem enrubescer.

Por fim, declaro que me esfalfei para ir jogando foras as mágoas e, pelos meus cálculos, devo chegar ao cabo sem nenhuma. Reciclá-las todas antes de cada próximo capítulo. Não sou ainda a recicladora turbo que gostaria de ser, e por outro lado não sou mais a antiecológica criatura que acumulava ressentimentos de magistério sem fazer uma coleta seletiva. Mudo-me, trabalho-me; tento, ao menos. E creio. A vida inteira não deixei de crer. Sou incapaz tanto do otimismo idiótico quanto do pessimismo convicto. Mas, na escolha, entro no time do primeiro, porque creio – e procuro convencê-lo a moderar a pieguice e falar de outro modo as mesmas esperanças.

That's all, folks. Se qualquer coisa que eu tenha dito, ainda que esquecida ou inadvertidamente, deu cria feliz no pensamento de alguém, vali a pena. Saio aqui da história para continuar na vida. Espero que por tempo mais do que suficiente para aperfeiçoar meu último texto através das décadas. Umas quinze. Não tenho pressa de postar a versão definitiva sem certa qualidade na revisão.