domingo, 30 de outubro de 2011

Ouvir estrelas

Sabe quem é Sandy Wood? No Brasil, ninguém. Nos Estados Unidos – descobri pelo site do New York Times –, é a voz que, em 2011, completa 20 anos conduzindo maciamente o programinha de rádio StarDate. Dois minutos para mais de dois milhões de ouvintes. Dois minutos simpáticos, diários, que convidam americanos ocupadíssimos a “ir até o quintal e mirar as estrelas”, como diz a reportagem. Seja com o comunicado da descoberta de um quasar, seja com a informação do melhor camarote para admirar a passagem de um cometa, o StarDate seduz pelo princípio que justifica o nome: uma espécie de “namoro”, de encontro marcado – romântico – com as bonitices do céu. Uma intimação a que retomemos (brevemente, mesmo) nossa essência original de contemplação.

Ora, direis; certo perdeste o senso. Quem tem tempo para se dar ao desfrute, ao demorado desfrute de contemplar hoje em dia? de diminuir o gráfico de ações, a escala de feitos, o índice de resoluções para aumentar a porcentagem de dia “perdido”, olhando para o nada? E eu vos direi, no entanto, que a falta de contemplar nos adoece. Não sejam estrelas propriamente ditas; sejam poemas, ondas, rosquinhas de araruta, museus, refeições coloridas, um rosto mais especificamente amado. Seja o que seja, contemplar é preciso. Contemplar é mastigar a vida com os olhos, paquerá-la, sorvê-la, apaixonar-se por ela com voluntária mansidão. Escolhê-la conscientemente. Não a engolir goela abaixo apenas pelo detalhe de estarmos vivos. Contemplar é estar vivo de propósito.

Triste que a impaciência universal atualmente não contemple: fotografe. Somos práticos, somos ávidos, sedentos. Registramos e pronto. Está arquivado. Não conseguimos mais ir a um banheiro de shopping sem documentar o momento para a posteridade, posando no espelho. Nada, nadíssima a ver com o admirar sem pressão que o ato de contemplar exige. Olhar com a pulsão incontrolável de tirar foto, com a ânsia brutal de guardar materialmente, possessivamente, é feito namorar no sofá de casa, com trabuco na cabeça e olho de pai e mãe no cangote. Fotografar sem antes enamorar-se da cena arranca a espontaneidade do belo, deixa-lhe só um sentido de obrigação besta. Contemplar vem primeiro, e é coisa de se fazer com a câmera arriada. Coisa de se fazer desarmado de pressa, de posse, de urgência. Não há permanência na imagem que se copia, toscamente. A permanência mora na contemplação que dá à luz a fotografia. Mora na ternura que nasceu antes, embevecida de prazer, pálida de espanto – e apertou o botão da câmera na esperança de, somente, repetir a si mesma a certeza que já tinha.

Amai a vida para entendê-la, caros. Ou não entendê-la – tanto melhor. Amai-a (que é o amor senão contemplação por dentro?) para recebê-la, merecê-la, só então fotografá-la. Contemplação não é ficar como um paspalho, mudo, esperando ouvir ou flagrar estrelas que lhe recitem de longe, de fora. Não é ser paparazzo do mundo. Contemplação, telescópio virado ao contrário, começa no contemplador; e é, simplesmente, pretexto para abraçarmos nossa própria consciência, nossa própria medida de deslumbre, num climinha de enfim-sós.

6 comentários:

francys G. disse...

Fernada minha cara vc tem talendo parabens
postagem otimo

confira se quiz meu blog

http://statusfrancys.blogspot.com/

Fernando disse...

O contemplar vem do observar, e observar é uma das atitudes que mais têm se tornado escassas em nossas vidas hoje. A vida sem contemplação e admiração torna-se vazia ao extremo, aliás, torna-se sem sentido. Porque viver para mim é saber dar valor ao que temos e aproveitar cada instante, cada lugar, cada rosto das pessoas amadas a nossa volta.
Me surpreendo toda vez que venho aqui, minha chará você é demais!
Muito sucesso em sua vida e em seu blog!!

Angelus disse...

Contemplar hoje em dia é muito raro mesmo. As coisas estão muito corridas, muito urgentes.
Contemplar faz bem para o indivíduo e também para o coletivo. Falando do ponto de vista científico, a Ciência só se desenvolveu porque pessoas com uma sensibilidade para as coisas a sua volta comtemplaram e se questionaram a respeito do que viam.
Hoje em dia, não se faz mas Ciência e sim tecnologia com o que já foi descoberto há mais tempo.
Enfim, contemplar é sinal de progresso, é sinal de evolução.

Matheuslaville disse...

É isso faz falta ,mas como acontecerá aqui o Brasil acho que nunca...

Nação Esmaltada disse...

Gostei do texto, é uma realidade =/
beijos.
http://nacaoesmaltada.blogspot.com/

O Despertar de um sonho disse...

Me surpreendo a cada texto seu...Você é puro talento.


http://odespertardumsonho.blogspot.com/