terça-feira, 25 de outubro de 2011

The end

Eu estava lendo (oh, surpresa) uma crônica da Martha – que, por sua vez, lera uma crônica da Clarice – sobre nossas últimas palavras. As últimas ever. O fechamento verbal da vida. Martha comentou a tremenda responsabilidade, o tremendo peso, de não se poder garantir que toda uma existência não acabará num "putz", ou expressão igualmente cretina. Algo que não faça jus a nossa abundância vocabular, a nosso eldorado interior. De fato, não é questão para se perder no travesseiro entre um dia e outro. É para amofinar. E, na total impossibilidade de se ter controle sobre o momento da declaração final (ainda mais numa cidade estúpida, súbita, como este Rio de Janeiro), resolvi já ir adiantando meu testamento, que segue pelo menos em rascunho. Just in case.

Declaro para os devidos fins que esta foi uma boa vida. Não pode ser uma vida ruim aquela que tem Fábio, casa, família, salário. Que teve amendoeira no quintal. Que teve quintal. Que teve irmã mais velha, show do Roupa Nova, visão capaz de identificar o rosa e o laranja, paladar sensível ao toque da manga, olfato bastante competente para cheiro de café e fornada nova de pão francês. Que teve amigos, Cabo Frio, Magic Kingdom, rua arborizada, agradecimento de aluno (uuuuum que seja). Que escutou piadas, elogios e necessárias broncas. Que teve mãe e pai – só isso já assegura bônus para mais de século.

Declaro que, pela ausência de chance (e cara de pau) e tempo, posso não ter mergulhado com bastância nas atividades mais amadas, posso não ter sido a mais eficaz e exemplar entre os projetos queridos, mas em compensação tentei, sem amargura, dar o rumo mais nobre aos trabalhos que se mostraram possíveis. Tentei, se não ser a melhor, ser melhor do que a eu-mesma de ontem e anteontem. E tanto me afeta, tanto me absorve a palavra que talvez eu não tenha conseguido suportar o choque de usá-la para demonstrar o que mais me afeta e absorve. Talvez eu não tenha amado o suficiente em voz alta. Talvez não: é certo. E me desculpo pelo mau jeito. Reconheço não ser, por acanhamento – diante dos verbos e dos quereres, que tanto medo respeitoso me dão –, a mais expansiva, a mais fluente das sentidoras. Sinto tudo baixinho, a não ser quando trovejo. Prefiro o papel à voz, o teclado ao fone, a ação à declaração. Gosto de favores, abraços, olhadas e presentes no lugar dos eu-te-amos que não me escapam porque me fazem enrubescer.

Por fim, declaro que me esfalfei para ir jogando foras as mágoas e, pelos meus cálculos, devo chegar ao cabo sem nenhuma. Reciclá-las todas antes de cada próximo capítulo. Não sou ainda a recicladora turbo que gostaria de ser, e por outro lado não sou mais a antiecológica criatura que acumulava ressentimentos de magistério sem fazer uma coleta seletiva. Mudo-me, trabalho-me; tento, ao menos. E creio. A vida inteira não deixei de crer. Sou incapaz tanto do otimismo idiótico quanto do pessimismo convicto. Mas, na escolha, entro no time do primeiro, porque creio – e procuro convencê-lo a moderar a pieguice e falar de outro modo as mesmas esperanças.

That's all, folks. Se qualquer coisa que eu tenha dito, ainda que esquecida ou inadvertidamente, deu cria feliz no pensamento de alguém, vali a pena. Saio aqui da história para continuar na vida. Espero que por tempo mais do que suficiente para aperfeiçoar meu último texto através das décadas. Umas quinze. Não tenho pressa de postar a versão definitiva sem certa qualidade na revisão.

3 comentários:

hrdoblush disse...

falar e ler tenho que terminar de ler meus livros. rs
lindo seu blog

boa sorte!

http://www.hrdoblush.com/

Franciele Câmara disse...

Não gosto muito de pensar nessas coisas, tenho medo. :/

http://apaixonadasporcosmeticos.blogspot.com/
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Pamela Dal'Alva. disse...

oie. Fernanda. então teve um tempo q fiz uma playlist de algumas musicas, porem coloquei o site deles logo do lado das musicas para que as pessoas possam escuta-las.. kisu