sexta-feira, 22 de maio de 2020

Onze nazistas

Não Negativo Muitos - Imagens grátis no Pixabay

Diz um ditado alemão que, se há dez pessoas numa mesa, chega um nazista, senta-se e ninguém se levanta – então na mesa há onze nazistas. Adoro a simplicidade faca-só-lâmina desse ditado, que vai retinha na jugular e não deixa dúvidas, não abre margem de erro. Fascismos são como aquele vírus de filme que zumbiza as pessoas: uma vez feita a contaminação, o que existe de humano falece por dentro e sobra a bestialidade, a fome de destruição cega e surda. Ninguém fica parado na categoria "mais ou menos zumbi"; pode ser um autômato furioso ou aquele pasmacento que se mistura e segue a horda, se arrastando como imbecil. Pode ser zumbi ativo ou passivo, perseguidor ou estrupício: still zumbi. Ou bem você sangra, chora, pensa e o coração bate, ou bem as funções de vida se interrompem e o que permanece se limita à casca móvel. É-se zumbi ou gente.

Não estou aqui dizendo que fascista não é gente; estou dizendo que, dentro do universo "gente", é-se fascista ou não fascista – assim como, no grupo "mulher", ou se está grávida ou não se está. Não há fascista de Schrödinger, uma criatura que pode ter suas fascistices às segundas, quartas e sextas mas é o Martin Luther King encarnado às terças, quintas e sábados. O que pode existir (e existe com fartura) é nazista disfarçado, subnotificado, enrustido. "Puxa, mas o tio que sempre foi gente boazona, paizão pros meninos, alegria da churrascada agora é fascista porque fez uma piadinha de negro?" Não, querido: o tio fez uma piadinha de negro porque é fascista. Pode ser que ele não tenha consciência ou propósito, porém a convicção da superioridade de uma etnia já entrou ali, com carinha inocente, e já se naturalizou a ponto de suar pelos poros de uma piada. Considerando que vivemos em pleno e constante genocídio negro (João Pedro e João Vitor ainda ontem estavam aqui, e hoje são duas vítimas desse inferno ininterrupto), com que possível tranquilidade d'alma, com que nível aceitável de ignorância se ri de pessoas historicamente assassinadas, perseguidas? Se o mesmo tiozão viesse em forma de alemão dos anos 30 e contasse anedotas de judeu em seus salões, quanto você demoraria para reconhecer nele o nazista que nos acostumamos a identificar só de longe, em outros tempos, outras plagas, outros filmes? Sim, amado: não é preciso portar a suástica no braço para tê-la na ideia. Regimes de horrores não se constroem só com os que atiram na testa de alguém; são necessários muitos mais que estejam devidamente confortáveis para testemunhar, relativizar, normalizar e, eventualmente, ironizar o absurdo.

Não significa que nunca mais nos sentaremos à mesa com familiares, conhecidos, colegas, clientes e demais relações compulsórias (excluo aqui os amigos e amados porque esses a gente escolhe, né, fofos?), no caso de essas pessoas estarem infectadas pelo germe maldito. Significa, sim, que nunca mais nos sentaremos à mesa com seus pensamentos, falas, conceitos, piadas, posições, atitudes malditas. Significa que não dividiremos o ambiente com o fascismo existente nelas sem escancará-lo, sem pô-lo a nu. Não ouviremos brincadeirinhas homofóbicas, machistas, racistas sem pedir docemente que o interlocutor as desenvolva com explicações detalhadas – até que se engasgue, roxo, com o refluxo do injustificável. Não sorriremos amarelo ante a insinuação da barbárie; não compactuaremos nem com o mais leve elogio do extermínio; não fugiremos, por preguiça social, de espremer a afirmação cruel a ponto de a vergonha alheia rebentar em pus. É compromisso matrimonial com a humanidade: tornar óbvio o quanto a exclusão é cafona, botar holofote e ridículo na total falta de nexo dos recalcados, gargalhar da burrice que rejeita a ciência, relacionar as bravatas do macho branco a toda uma série de incompetências íntimas. Ideário fascista é uma Hidra de Lerna que se degola, crema e enterra, sem mais. Qualquer toleranciazinha faz as ramificações rebrotarem na deep web do tempo.

Os que têm como foco a destruição do outro não tiram férias. É nossa obrigação moral garantir que o curso da História os demita.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Para João Pedro

Rosa Flor Seca - Foto gratuita no Pixabay

João, você não teve tempo nem coração de se preparar para deixar um mundo que ainda conhecia tão pouco. Era muito, muito cedo, e a inocência se espanta sempre (nem há como ser de outro modo) com o míssil da injustiça que não deveria chegar nunca. Lá estava você, em casa, fazendo o que se espera durante uma pandemia, quando de repente foi baleado pelo choque de isso não ser suficiente; você era pobre, era negro, João, e por isso prévia e ancestralmente condenado em nossas terras, caçado por um Estado que nem sabia quem era você – nem ligava. Você não entendeu nada (ou entendeu absolutamente tudo em três segundos, o que é ainda pior), não sabia que fazia parte de um projeto bem anterior a você e até àqueles homens, não tinha antes se dado conta de que nossa história genocida não espera a presa ir à rua: o carrasco de hoje vai buscar almas e corpos pretos em casa, para destruí-los, da mesma forma que ia buscá-los e destruí-los em seu continente materno. Você não compreende, João; nem eu; ninguém compreende, porque não existe lógica no ódio. O ódio é justamente a resposta dos que não argumentam – apenas babam, grunhem, rosnam, destroem. O ódio é um inferno não verbal que não poderia ser compreensível para seu coração de criança que vivia dando orgulho a seu pai.

Sim, você era criança entre as crianças até a polícia chegar, mas, no momento em que ela entrou, abateu sua infância antes de abatê-lo; você já não era um dos pequenos, era o jovem que precisava garantir vivos a si e aos seus, em puberdade incompatível com a natureza. Eu só posso imaginar sua dor simultânea de tentar proteger e de constatar que você não seria protegido. A solidão dolorosa desse primeiro e último golpe de vida adulta, desse susto feroz misturado com a confusão infantil de não ter seus pais ao lado enquanto você era obrigado a se despedir de tudo: o improviso mais perverso com que se pode estrangular uma existência. Num relâmpago, num instante de granada, num átimo de absurdo social, aquele mundo inteiro que só começou a germinar num peito de 14 anos foi esfacelado pela raiz – pelas raízes. Não sei o que você queria ser, João (talvez médico, talvez guitarrista, professor como sua mãe, escultor, descobridor de vacina ou um monte de coisa ainda não suspeitada nem sentida); porém, embora não o conhecesse, sei o que você era: a doçura, a juventude, a inteligência, a promessa, o potencial de construção borbulhando nas veias, o dom que só você tinha e ninguém repõe, a memória de um jeito de rir que não cabe no álbum, a música preferida cantarolada pela voz que fica ecoando, o delicado processo acompanhado e celebrado com mais de dez bolos de aniversário, o sonho de alguém. O amor da vida de alguém.

João, nós nunca nos encontramos e eu não sou capaz de, apenas pela vontade, desfazer as maldades do mundo; mas eu espero humildemente que você aceite e receba o meu desejo de abraço retroativo, e pelo menos a ambição da acolhida de amor que um país inteiro ficou lhe devendo. Eu sei, não podemos nos redimir com você em nada, porém podemos semear e polinizar dia e noite a paixão de proteger outros Joões, outras Ágathas, outros primos e irmãos seus, outras crianças como você foi e como os seus filhos que nunca serão. Não lhe foram dados anos suficientes para criar uma família, e jamais saberemos quantas gerações deixaram de existir com a sua ausência; só no resta devolver simbolicamente o tempo que lhe foi amputado, plantando os anos que ainda temos nessa luta, nesse compromisso de vida. Não temos mais o seu tempo para ressarci-lo, mas temos o nosso. Que ele floresça em benefício de meninas e meninos como você, João. Que emperremos, enferrujemos e (talvez um dia) quebremos definitivamente o sistema genocida que nos rege, para que mais nenhuma história seja devastada. 

Os brasileiros pedimos perdão, João; mas o Brasil não tem desculpa. Cada brasileirinho como você é o que temos de belo, forte, impávido colosso. Cada tombar desses brasileirinhos nos escancara como o borrão da América.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Nem que o mundo caia sobre mim

Still Waiting For My Train | Henry Burrows | Flickr


Cantarolei no modo aleatório aqueles versos do Lupicínio – "Nunca,/ nem que o mundo caia sobre mim,/nem se Deus mandar, nem mesmo assim/ as pazes contigo eu farei..." – e fiquei automaticamente pensando em quais seriam os meus nuncas. A primeira ocorrência vem logo das entranhas: eu nunca, nunca, nunca! daria qualquer espécie de apoio a essa fábrica de aberrações que agora nos governa. Nunca trocaria nem aperto de mão, nem aceno de cabeça, nem o mais ligeiro bom-dia com o Voldemort-em-chefe, pela simples razão de que não respiraria por dois segundos o mesmo ar – a não ser que eu depusesse contra a criatura num tribunal internacional, com grandes exclamações, requintes e demoras. Mas não, também não o deixaria morrer sem atendimento, se dependesse de mim. A força de humanidade, creio, se sobrepõe a qualquer memória de desumanidade, nojo, desprezo, rancor. Eu o socorreria, sim, que não sou desses Comensais da Morte que o servem.

Fica implícito, pelo parágrafo anterior, que eu nunca permaneceria a menos de cinco galáxias de distância de nenhuma suástica, capuz da Klan ou camisa verde-amarela de mesma laia. (Aliás, nunca torcerei pelo Brasil com esse agora uniforme de capitão do mato, maldito por todo o sempre.) Nunca endossaria qualquer tipo de preconceito – e esse não endossar implica nunca tolerar os intolerantes. Jamais renegaria a minha fé – e esse não renegar implica jamais me agregar aos que segregam. Eu jamais trairia. Jamais teria opiniões de encomenda. Jamais entraria em esquema de propina. Jamais maltrataria um animalzinho, incluindo os de nossa espécie (OK, não posso prometer muita coisa com relação a baratas, formigas e assemelhados; mas estou tentando, estou tentando). Jamais usaria um casaco de pele legítima, JAMAIS caçaria se a morte não fosse a única alternativa – embora eu ainda consuma carne e ainda tenha no armário algum cinto ou bolsa de couro. Estou tentando, pô.

Para subir a esferas mais leves, posso jurar que nunca vou acampar voluntariamente em regime de "ó, o banheiro é ali no mato". Me recuso sequer a pensar em comer algum acepipe que Timão e Pumba comeriam e que ainda esteja se mexendo. Nas novelas, eu não seria o personagem imbecil que cede à chantagem, e escancararia logo o segredo pra geral (eu, hein; sou bagunça? Sem tempo, mano). Nas ficções teen, eu não deixaria o colega "esquisito" da sala desabraçado e descarinhado – por sinal, os outros é que são esquisitos. Em nenhuma realidade oficial ou paralela eu seria craque em esporte, xadrez, sudoku, videogame; nem beberia até transtornar as ideias; nem seria tomada pelo encosto do ciúme a ponto de escarafunchar redes e roupas do crush, assim como sob NENHUMA hipótese aceitaria o ciúme de quem quer que fosse. Nunca, nunquinha mesmo, jamé. E não trocaria de time, não usaria salto agulha, não fumaria, não furaria a orelha, não me hospedaria num hotel de gelo, não aprenderia a dirigir, não dormiria em barraquinhas à espera de ingressos ou de ídolo algum (não, nem se eu tivesse filho e ele ensaiasse uma greve de fome), não faria plástica just because, não escalaria Everests de nenhuma altura, não pisaria num clube de tiro, não tocaria sequer numa arma de fogo. Asco. Horror.

Há nuncas que não posso lavrar em cartório: fazer tatuagem, voar de ultraleve, mudar de país e outras tantices. São improváveis, mas não a ponto de jurar em tribunal. Barreiras de medo, cisma ou desinteresse podem cair com o tempo, molinhas – e é necessário e saudável que haja espaço para muitas simpatias se abrirem. O que nos revolve nas profundezas dos princípios, no entanto, não está em negociação, e não se supõe que devamos fraturar o esqueleto que nos forma em nome de qualquer mindset desconstruidão. Sou esvoaçante, gulosa de vida, curiosa, adaptável, amiga de experiências felizes e seguras; mas abrir mão de uma paz convicta só por quererem me colonizar com alguma necessidade importada?

NEVER.

terça-feira, 19 de maio de 2020

O amor nasceu ontem

Banco de imagens : luz, vidro, cabo, linha, verde, cor, Trevas ...

"O meu amor nasceu ontem. Eu nasci um segundo depois." (Miguel Esteves Cardoso)

Sim, nosso amor nos antecede; nem que seja por um segundo, tem de ser mais velho que nós para fazer nosso parto. Pode-se nascer sem o colo do amor do outro, sem ter sido projetado e desejado, mas não se nasce sem desejar. Pensar em nascer sem desejar é como supor que um novo humano vá sair do ventre e automaticamente flutuar, sem precisar de berço; que não necessite de uma razão que o acolha, de um objetivo que o aconchegue. A possibilidade, a sina, a destinação de amar – como queiram – é a nossa gravidade. É o amor que nos pousa.

"Ah, mas há seres que não amam." Há sim. Uma coisa, porém, é não terem ainda endereçado essa pulsão ancestral de amor para nenhum algo ou alguém, e outra é não terem a tal pulsão. Isso é impossível, tenho para mim que francamente impossível. Mesmo os psicopatas, ainda que sejam realmente incapazes de amar, não creio que consigam escapar ao menos da febre ou da faísca de desejarem ser amados; mesmo um cérebro aleijado de empatia será assombrado sempre pela aflição de querer – senão a de se dar, no mínimo a de ser recebido. Está preso à nossa condição um gatilho de preservação para além de nós. Nascemos cofres com uma ou mais chaves perdidas, e sem a perspectiva de uma abertura não nos justificamos. O que guardaríamos tanto para nós, se o tão guardado não tivesse uso?

Nosso amor, nossa causa, nosso alvo de vida, nosso recipiente para transbordamento, nossa vaga de estacionar uma alma saltitante, nosso motor, nossa explicação, nosso destinatário – abre os olhos antes que nosso coração homo-sapiano abra os seus, para que esse pobre e recente coração seja convencido a bater. O caminho não é decidido, mas a fome da caminhada é compulsória. Nascemos com a paixão do percurso; as hipóteses já estavam lá para nos pegarem no colo e nos serem madrinhas, as sereias já cantarolavam nosso tema de abertura antes da inauguração, a sedução que nos injetaria a fúria da vida foi nosso primeiro sopro e já nos fez entrar no mundo com choro e gana. Não somos só pessoas, somos perseguidores.

O que escondem, não raro, é que muitas vezes somos barquinhos encarregados de construir seus faróis.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Apesar

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Não parece – porque estamos com a nossa jangadinha num Atlântico de novas ansiedades e de notícias deprimentes –, mas tem coisa boa colorindo o mundo; mesmo o Brasil, esta última estação antes de Mordor (inclusive na temperatura). Eu sei, isso não nos consola totalmente nem põe a nocaute o Kraken fascista que quer nos merendar, mas dá uma força. Até porque, de acordo com o otimismo orgânico que é minha mais enraizada teimosia de vida, é matematicamente impossível que eles sejam maioria. Se os "krakeners" (os destruidores, os devoradores de universos, os gananciosos de divisão e morte) fossem maioria, já não tínhamos planeta. As anacondas mais vorazes são em geral as mais ricas – consequentemente, as mais raras; embora levem o Thanos na barriga e tendam a colecionar todas as joias, são numericamente inferiores às almas protetoras. Não, a destruição não é inevitável: nós somos homens e mulheres de ferro. 

Olhem só. Apesar de toda a propaganda, os clientes estão fugindo do Madero, aquele restaurante que tem um ótimo hambúrguer e um péssimo dono. Apesar de todo o jornalixo de grande empresa praticado em nossas terras, surge de repente uma potência luminosa em forma de Gabriela Prioli, que torce, mastiga, janta e faz passar vergonha no debate qualquer heil-hitlerzinho que lhe ponham na frente. Por sinal, a mesma Gabriela Prioli começa a fazer a querida Anitta e seus seguidores entenderem um pouco mais de política, compreenderem a grandeza e a importância de ter um posicionamento. E a mesma Gabriela Prioli integra a equipe de O mundo pós-pandemia, conversa das noites de sábado na CNN, sempre com entrevistados deliciosos que acendem um lampiãozinho no coração. 2020 is a bitch, mas já estaria perdoado nem que fosse só pelo advento de Gabriela Prioli.

E nem só. 2020 colocou cervos descansando sob cerejeiras no Japão – uma cena em que eu cobiço viver e pousar como meu novo endereço. 2020 pintou quadros fofíssimos de demais animaizinhos recuperando, curiosos, os espaços que temporariamente abandonamos. Mulheres brasileiras de 2020 também cultivaram espaços de amor e beleza, criando grupos nas redes sociais em que se apoiam, se fortalecem, pagam-se contas recíprocas, trocam serviços, se abraçam em depoimentos. Crianças de 2020 inventaram ajustadores de máscaras (para que o EPI não aflija as orelhas dos profissionais de saúde), desenvolveram a "cortina do abraço" (para que avós sejam convenientemente amassados contra o peito sem risco de contágio). Pessoas de 2020, em geral, passaram a fazer compras para vizinhos antes desconhecidos, bateram palmas nas janelas para heróis antes subestimados, deram online um suporte psicológico gratuito para os angustiados, teceram amizades improváveis mesmo entre distâncias proibitivas, penduraram em varais máscaras novinhas para a colheita, uniram-se em ONGs que alimentam, disponibilizaram hotéis, tocaram violino nas varandas, botaram todo o condomínio em aulas de ginástica presenciais mas remotas. A maioria ama, se importa, se comove, compreende o importante mesmo que não capte o científico, colabora, auxilia, empatiza. A maioria continuará seguindo a evolução – essa, sim, inevitável – que, a despeito de todos os espécimes frustrados, nos empurra como gente.

Estamos aqui, ainda somos nós, apesar de 2020. Resta saber o que ainda seremos por causa dele.

domingo, 17 de maio de 2020

Internamente

cadeira, cátedra, descalço

Se há um troço bonito no confinamento, é o fato de as pessoas ficarem reduzidas à sua forma mais simples, como as frações. Não a mais simples de mais simplória, e sim de essencial – essa coisa tão linda. De repente foi descoberto que você é perfeitamente capaz de pensar e trabalhar usando uma samba-canção do Mickey, em vez de dois sufocos de manga comprida e um pedaço de pano amarrado no pescoço. De repente você é competente descalça e com o rosto pintado só de luz; incrivelmente, não há qualquer necessidade de se equilibrar a 15 cm do chão, até pelo contrário, já que o cérebro pode dar seus passos sem lidar com um bizarro desvio de foco. De repente os ouros e pérolas ficaram na gaveta, tolos, inúteis, só mais uma tranqueira a ser desinfetada em caso de saída. Pedaços de pano bem basiquetes, sim, riem da cara dos diamantes na condição de acessórios do momento  embora nunca, em hipótese alguma, amarrados no pescoço. 

Não desgosto de enfeites ou da rotina de pensar a roupa para outrem: a blusinha temática de mandar mensagens, a alegria quase infantil de estrear um colar fabuloso. Divertido. Mas sou professora; meu dress code é fluido e vário, ninguém me cobra saltos que não sejam de fé, ninguém me faz passar as maledettas mangas compridas  só passo matéria e exercício , deixo pros boletins o vermelhinho que não uso nos lábios. Pelo menos ESSAS amofinações não pesam sobre uma classe já naturalmente amassada e descabelada. Fico pensando mais nas carreiras atochadas pelas mil regrinhas de superfície, esses nhenhenhéns da "boa apresentação" profissional, que queimam mais tempo, conforto e calorias do que os neurônios gostariam de admitir. Com a eliminação momentânea dos escritórios, o que conta, o que fica? Ficam só as ideias, as palavras lançadas com ou sem batom, digitadas com ou sem esmalte; ficam as sinapses firmes e fortes, mesmo de pijama. Ficam as essências desmascaradas do artifício. Só as inteligências. Os talentos. As emanações.

Sei: é um pensar romântico, tio Platão estaria orgulhoso, mas a coisa não é tão plana assim. Não é, claro. Still, por mais que a quarentena nos chateie e tire de nós a sociabilidade que nos humaniza como espécie, também (re)força a autoconsciência que nos humaniza como indivíduos, uma vez afastados dos personagens para consumo externo. Se cada um de nós costuma ser pelo menos dois  uma pessoa de andar em casa e outra de sair , neste instante praticamente só nos resta o eu mais íntimo, para alívio das almas quietas e transtorno das derramadas. Evidentemente, há as casas (não poucas) em que o eu está íntimo mas não está isolado, as casas em que muitas individualidades atropelam suas aflições, as casas em que sequer existe o luxo de uma mudança de realidade. Falo aqui especificamente, porém, de um mundo classe-médio que está se confrontando na marra com o ridículo de seus consumos, com o patético de seus códigos, com a piada de suas etiquetas, quando a primeira coisa que se faz é arrancar o supérfluo ao primeiro sinalzinho de apocalipse.

2020 nos ensina dando livradas de capa dura na cabeça, como o professor Snape, mas consegue passar lá suas liçõezinhas  que enxergamos porque não sobreviveríamos de outra forma. In the end, the love you take (de si próprio, inclusive) equivale ao que você vem a ser ou continua sendo sem janela, sem live, sem treino, sem uber, sem story, o gosto que fica quando o volátil evapora, o noves-fora de toda a construção de dentro. Você  você realmente  é o que sobra após o contexto e a plateia.

sábado, 16 de maio de 2020

Distraídos morreremos

Iceberg São João - Foto gratuita no Pixabay

Num meme que andou passeando recentemente pelas redes, alguém suspirava que não queria mais ser testemunha ocular da História: muito exaustivo. Não posso discordar. Os que nascemos entre a rabeira do século XX e as primeiras manhãs do XXI vivíamos simplesmente encantados com a mansidão de estudar História nos livros; nossos choques eram distanciados, seguros. Peste bubônica matou a Zoropa toda? Nossa, que horror, felizes de nós que não crescemos entre a ratalhada do mundo medieval, aquele período remelento. Crash da Bolsa? Que droga, hein; força aí, gente. Fascismo, nazismo, ditadura? Misericórdia, QUE TIPO de povo pode ter deixado isso acontecer??? (interrogações, interrogações etc. etc.). Ainda bem que estamos isentos, ainda bem que nossa era é outra, esperta, evoluída, tecnológica, estável, de uma normalidade quase tediosa. Quando éramos crianças, História era coisa já ida e feita; não morta, mas sonolenta, em seu transcorrer de papel no qual não parecíamos estar inseridos. No máximo um Plano Real aqui, um advento de iPhone ali: abalos episódicos que sacudiam sem revirar as entranhas.

E aí 2013 nos deu aquele primeiro susto arregalado de filme-catástrofe, godzíllico como a tsunami cuja gestação não se vê, não se suspeita. Ainda dopados de infância e adolescência, batemos no iceberg e ele nos rasgou. Não nasceu ali de madrugada: sempre ali esteve, imenso, uma inevitabilidade surda. O portal nos atropelou com sua paciência de esperar que caminhássemos para ele, e engoliu como não engoliria se entendêssemos de leme – se apenas tivéssemos nos dado ao trabalho de crer que é preciso ter sempre um plano B contra monstros que engordam no silêncio e na calmaria. Vieram outros anos e seu ciclone de horrores, suas Cilas e Caríbdis que iam acordando em cada quarto do inferno, e nós chocados, indefesos, negacionistas, as entranhas finalmente reviradas, o coração demoroso de entender que nunca estivemos protegidos, nunca houve garantias, nunca na aventura humana existiu navegação serena. Inocentes de nós, que somente nascemos na entressafra e não tínhamos ainda presenciado a troca da guarda. 

Mas está aí; o fato se impondo, o mundo esfregando na nossa cara que é sobre nós que os futuros alunos lerão (provavelmente resmungando: que gente burra), o roteiro do filme sendo impiedoso com os que já tiveram tempo de perceber que deu ruim mas insistem em permanecer na cadeira de balanço, empaspalhados, sem fuga nem reação. Se PELO MENOS a ficção se coçou para tentar ensinar o mínimo a toda uma geração de distraídos, foi que: os egoísmos sempre agravam qualquer ameaça; os egoístas costumam ter a cabeça comida primeiro e ser os primeiros esquecidos pelo público; existe um protagonismo ardente em quem age, mas ele só se torna possível com a assessoria de quem estuda e analisa; o monstro que acreditamos mais improvável é o que mais tempo tem para se fortalecer nas sombras; as histórias contadas por pais e avós vão fatalmente repetir-se em escala Júpiter; os paralisados de horror não terão a folguinha do coffee break: ou descongelam ou se veem (junto com os seus) destruídos. Toda a bananice que desprezamos num personagem é a mesma que precisamos desprezar em nossos egozinhos bocejantes e nossos entendimentos incompletos. 

Alecrins dourados de uma era de transição, achávamos que era tudo literatura, cinema, spielberguice. Quem diria: era workshop.