terça-feira, 13 de outubro de 2020

Purple rain


Roxo é a cor do momento, de acordo com a seção Nossa, integradinha ao site do UOL. Por quê? porque a Semana de Moda de Paris acabou de acabar e a tonalidade bombou nas passarelas. Até hoje não sei, bem ao estilo dilema-Tostines, se as passarelas captam excelentemente o Zeitgeist ou se o Zeitgeist é consideravelmente fabricado no desfilar das passarelas, ou se ambos e pronto, ora bolas; mas sei que combina: uma buscazinha rápida sobre o significado do roxo e o Google já nos joga na cara, com destaque, que o tom se relaciona com "espiritualidade, magia e mistério", "transmite a sensação de tristeza e introspecção", proporciona "a purificação do corpo e da mente", "é a cor da transformação", dentro da liturgia católica é utilizado "no período da Quaresma ou nas missas pelos mortos" (só esqueceram a fase pré-natalina do Advento, em que as vestes roxinhas também representam a preparação para a vinda de Jesus, parecidamente com a época de preparação para a Páscoa). Em suma: TOTAL 2020 going on 21 – vibe melancólica mas algo esperançosa, meio barroca mas ligeiramente mais serena, de marcação de morte em vias de vida. As passarelas manjam dos paranauê.

É tempo, parece, de fazermos tim-tim de vinho tinto em amorosa honra dos que já foram e em festa aos que ficaram; um brinde aos vínculos atados, reatados e permanecidos. É tempo de assar muffins de blueberry em família, inaugurando tradições perfumadas entre os que as circunstâncias confinaram e desafiaram a novos elos. É tempo de resgatar com a filharada o mundito lilás da Princesinha Sofia, tempo de propor aventuras palacianas, gnomos, monstros do mar, passagens secretas. Faz-se já hora fundamental, necessária, de acompanhar o embate entre azuis e vermelhos da eleição americana (exclusivamente no caso ianque, torcendo para os azuis), uma vez que se trata de um planeta inteiro na labuta para salvar o pescoço de nova degola. Faz-se momento de enfrentar anemias e oxidações físicas e figuradas; de incrementar a força e o sangue com o exército púrpura de repolhos, cebolas, berinjelas, beterrabas, uvas, açaís, ameixas, figos, amoras, framboesas; de descobrir como acolher – com cuidados pessoais, políticos, terráqueos – a radiação ultravioleta; de descarregar serotoninas namorando (a)o crepúsculo. É tempo de adoçar de lavanda o perfume da casa. É tempo de vestir para Halloween as crianças (oh, please: pode sim). É tempo de espalhar tulipas, violetas, verbenas, orquídeas, lisiantos, amores-perfeitos pelos cômodos. Tempo desdobrável de espanar – não necessariamente expulsar – incômodos.

Sim, e há o mais bonito e historicamente definitivo: lilás é a cor por excelência do feminismo, da onda que não recua mais nunca; vai ter cada vez mais mulheres nobelizadas sim, mais indicadas, mais reconhecidas, mais ouvidas, mais oscarizadas – e em nenhuma das próximas décadas a tendência vai sair de moda, até o dia da explosão do Sol. 2020 esfregou no nariz do mundo o quanto as mulheres são safas na administração de crises, no emprego de orçamentos e na proteção aos seus; jamais se esquecerá essa liçãozinha translúcida, jamais soprará de ré a brisa purpurina de transformação que chegou tacando o pé na porta. Se precisar, lançamos mão de outras roxices; metemos o Coringa; metemos até (podendo escolher o que se esvai num estalar de dedos) o Thanos. Mas para trás ninguém vai, ninguém volta, nossa passarela segue mão-unicamente em frente, desfilando sua coleção de tudos: gurias na prefeitura, na ciência, na gerência, na presidência, na polícia, na política, na direção, na aviação; minas muitas, minas várias, minas de ouro, minas sim.

Ele – não.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Mas


Que é isto que a gente é, pequenos ou grandes aglomerados de mas; basicamente, bichos adversativos.

Eu, por exemplo. Sempre amei os dias azuis, mas hoje acho beleza também nos dias chuvosos e densos, mas continuo sem ser fã de frio, mas já tolero o frio com muito mais ternura que nos outroras, mas ainda considero o verão bastantemente mais prático em termos de roupa, mas concordo que o verão carioca tem atingido altos índices de insuportabilidade, mas admito que malas para calor são o que existe de mais light e fácil, mas me sinto muito mais à vontsss sendo fotografada de casaco e calça comprida, mas odeio calça comprida com uma quantidade razoável de força, mas em avião só uso a cuja, mas nem chego perto da linda pelo resto do ano. Adoro o aconchego de deitar feito bolinha e ler com o descompromisso pedido pelos dias que amanhecem escuuuuuros e tempestádicos, mas me sinto culpada pelos que não têm onde estar a salvo da tempestade, mas sei que nenhum sentimento ou impressão empurra ações meteorológicas, mas permaneço com o gosto amargosinho e pesaroso, mas tenho ciência de que só voto em candidato alinhado com ideias e projetos de cidade, país, planeta o mais plenamente igualitários. Sem mas.

Desde as primeiras cenas de vida curto vermelho, mas um bocadito mais tarde adotei o amarelo, mas aconteceu de eu somar os dois e acolher o laranja, mas na verdade meu nome sempre foi rosa (e rosa meu buquê, e rosa meu sapato de casamento), mas também tenho comprida ligação com o verde, mas o vestido de formatura ensino-média foi azul, mas azul nunca esteve entre minhas definições cromáticas, mas adoro, mas me sinto mais criativamente instigada pelo turquesa, mas pintamos a parede do quarto de lilás, mas ao fim e ao cabo é quase eternamente no espectro vermelho que pairo, com a alma rósea vestida de vinho. Cresci gostando de bicho, mas jamais tive pet, mas em pequena punha uma ou outra formiguita no potinho para dizer que era pet, mas as formigas sempre me irritaram, mas evito matar serezinhos tanto quanto possível, mas não sou vegetariana, mas gostaria de ser, mas amo mais do que deveria uma carne malpassada, mas declaro remorsos – e declaro profunda atração pelas cardapices veganas. Mas não me vejo capaz de dar-lhes exclusividade tão cedo.

Sou preguiçosa, mas me adapto a mudanças. Sou urbana, mas viveria no mato. Sou louca pelo Romantismo na literatura, mas bem pouco paciente com derramamentos na vida real. Não quero filhos, mas queria formar cultural e politicamente uma criança. Não perdoo a Europa, mas moraria nela. Não voaria de asa-delta, mas talvez voasse. Não curto carros nem quis nunca aprender a dirigir, mas sou apaixonada pela fofíssima Romi-Isetta. Não sou aquática, mas se pisar na praia não saio do mar. Gosto de sossego, mas gosto de festa. Gosto da sobremesa, mas prefiro o almoço. Rio pacas, mas não suporto comédia. Amo ajudar, mas não quero que dependam de mim. Acho café e leite uma delícia, mas meu estômago e afiliados discordam. Me sinto bem deslocada e bem ajustada simultaneamente. Me ponho altas metas ou nenhumas concomitantemente. Faço que acredito que o mundo ideal é atingível e ainda dá tempo de esta geração sair do betume no qual se atirou como numa piscininha. 

Mas acontece que é. E dá.

domingo, 11 de outubro de 2020

Meioversários


Sou uma pseudodividida com relação aos mesversários que têm virado tendência entre papais e mamães babosos; ao mesmo tempo me vejo entediada entre declarações e declarações e declarações e declarações de amor descompensado pelos mini-humanos (nada contra declarações de amor descompensado em si, desde que com uma pegada diet e estética – amor também não é desculpa para cafonice irrestrita não, misericredo!) e enternecida por impulsos legítimos de celebrar a vida bocadinho a bocadinho. Não tenho como não defender calorosamente esses impulsos; esses impulsos e o pretexto ideal para ter fotos e mais fotos de criaturinhas gorduchas, bochechudas e mastigáveis na timeline, é claro. Um terceiro motivo para pender um pouco mais em favor das festas mesversárias é o fato de elas acrescentarem onze temas ao Grande Tema do ano – e, confesso, eu como mãe adoraria ter desculpa para fazer toooodas as decorações que viessem à cabeça, como se uma só criança encarnasse todas as escolas de samba do Grupo Especial e pudesse defender cada um dos enredos. Melhor ainda que o bacuri fosse excessivamente miúdo para opinar e eu tivesse licença para aloprar segundo minha livre escolha: ia meter Beatles, Mafalda, Star Wars, Amélie Poulain, Harry Potter, Divertida mente, Viva e o que mais desse vontade de brincar de. Se algum mala reclamasse (algum mala sempre reclama), eu era bem capaz de montar a festa Comunismo e mandar uns cupcakes de foice e martelo para a casa do entojado. Pelo perfil geral dos entojados reclamantes, era certeza de irritação e, com sorte, um bloqueio sossegante no Face. 

Tudo isso só para revelar solenemente que: a fim de garantir ainda maior amofinação dos que detestam e completo delírio dos que amam o mesversário way of life, a confeitaria francesa Vahiné e a agência Gray x Ogilvy estão se unindo para lançar a vela de bolo EM FORMATO DE VÍRGULA, de modo que os meioversários também possam ser devidamente soprados (sim, sim: níver de 3,5 anos, por exemplo). A velinha inusitada ainda não está à venda – só foi disponibilizada em kits para influenciadores e em concursos abertos ao público –, mas não duvido caia no gosto popular quando vier às prateleiras, o que é aliás justíssimo: em tempos pandêmicos tudo fica, mais do que o normal, para ontem; prazos se reduzem, urgências de vida se aceleram, exigências de que um ano inteeeeiro se passe até que novo bolo seja encomendado tornam-se obsoletas. Esperar o quê, carambolas? a criança está quarentenada em casa exigindo novidades, o sujeito teve alta após dois meses críticos e covídicos, o negócio vem sobrevivendo com baby steps na versão online, o casamento não dá nenhum indício de que um vá defenestrar as roupas do outro (ou o outro) nas próximas semanas, então bora comemorar! tim-tim! santé! Partiu brindar aos décimos, às partes, às metades, aos terços, a cada passinho vencido, a cada pouso bem-sucedido, a cada colesterol reduzido; partiu jogar confete pro alto numa quarta-feira, fazer reuniãozinha virtual pelo níver de descoberta do primeiro cometa, pelos 94 anos de publicação do Ursinho Pooh, pelo dia de São Asclepíades. Se tantas circunstâncias ruins nos avassalaram e avalancharam, por que não revidar com classe, dentro das normas de segurança e com o adequado distanciamento? Venham as velas e o bolo! – o motivo, depois a gente combina.

Sopremos velas pela palavra inaugural do bebê ou da dissertação, sopremos velas pela pintura da porta ou a foto de porta-retrato, sopremos velas pela perda de quilos ou o achamento de chaves, sopremos velas pela restituição do imposto ou o nascimento do passaporte, pela estreia no Investigação Discovery ou o fim da novela, pela segunda parecendo domingo ou o amor parecendo novo, pelo garimpo incrível no Mercado Livre ou a dedicatória no livro da Estante Virtual, pela formatura da prima ou a primavera na rua. Sopremos velas pela proposta de emprego, de namoro, de redação, de renegociação; sopremos velas pela final épica da I Copa Caseira Intercômodos de Dominó; sopremos velas pelo início do horário eleitoral (sim, tem partes hilárias, admita); sopremos velas pelos CDs, desenhos, diários resgatados do limbo; sopremos velas pelas receitas facílimas recém-atinadas; sopremos velas pela assinatura do streaming, pela primeira live com os pais, pela primeira frase dita em francês, pela primeira aula da pós. Sopremos velas pela lua cheia, a visibilidade de Marte, a obra do vizinho que acabou, o dente de leite que caiu, a temporada dos Irmãos à Obra que estreou, o bolo (para as velas) que deu certo, o plano do Trump que deu errado, o avatar que ficou fofo, o produto que tirou o mofo, a montagem da árvore de Natal, o chocotone aguardando na cozinha, a temporada de caça aos presentes. O tempo está dado, é e sempre foi o exatinhamente agora – para memorar, assinalar, celebrizar o que se passa entre nossas margens. Deixar o instante correr esquecido, subestimado, frouxo? Aguardar um só Momento convencionado para todas as agendadas gratidões que se acumulam em cascata?

Uma vírgula.

sábado, 10 de outubro de 2020

No embalo


Morro de invejinha desse pessoal das novelas que é dotado de uma das mais inacreditáveis habilidades humanas: fazer mala como quem passa um guardanapo na boca, vapt-vupting na cara da sociedade. Nos últimos capítulos da recém-reterminada Totalmente demais, por exemplo, chegava a dar agonia. O cidadão supostamente iria passar UM ANO em Paris, mas na véspera à noitinha ainda não tinha começado a aprontar a bagagem; acabou que o cidadão não foi, no próprio dia da viagem se arranjou para que os pais do cidadão fossem, e eis que as malas de ambos brotaram fagueiríssimas, já sendo puxadas no aeroporto; outro cidadãozinho, convocado em domicílio pelo primeiro cidadão – quando o sistema de som do Galeão JÁ PRINCIPIAVA as chamadas para o voo – a tomar seu lugar na segunda tentativa de embarque para Paris, meteu UMA MOCHILA nas costas e lá foi, rumo a 365 dias de afastamento; ainda outra cidadã decidiu topar outra aventura de doze meses pelo mundo (na véspera à noitinha, claro), e não podia ser diferente: apareceu de manhã prontérrima com uma minimalinha, praticamente bagagem de mão. O namorado (sensato) estranhou, a cidadã alegou ser bom deixar algumas coisas para trás. Algumas, concordo. Mas esse povo vai fazer turismo ou ingressar num Largados e pelados ali pelo caminho?

Qualquer pessoa cujas faculdades mentais não estejam à beira de uma interdição sabe que mala, assim como Roma, não se faz num dia – ao menos não da noite para o dia. Mala decente, que eu digo; aquela com ínfimas possibilidades de deixar de fora itens absolutamente essenciais. O processo de aconchegar as várias necessitâncias dentro do recipientão pode até durar menos de 24 horas, não discuto, porém isso é só o chapeuzinho de Mickey no cocuruto do iceberg, que coroa uma loooonga rememoração de roupas, remédios, acessórios, artefatos, sapatos, utilidades, livros, perfumarias a perder de lista. "Ââââin, mas você está exagerando, não é tudo isso" – é tudo isso sim, e normalmente quem faz muxoxo e manda umas de guru da simplicidade é o esquecidinho que vai pedir onze empréstimos diários aos parceiros de trip, ou então nunca fez mala, sempre a teve feita e providenciada por cuidadores de toda ordem. Mala é o release the Kraken, meus amigos. Mala é a cerimônia de iniciação do guerreiro. Mala é o estágio não remunerado do abismo. Mala é Esparta.

Pra fazer mala tem que (ter disposição e) lembrar tesourinha de unha, cotonete, desodorante, enxaguatório, cinto, grampo, estojito de costura, cadeados, mais cadeados, chaves de todos os cadeados, capa de chuva, guarda-chuva, meia pra bermuda, meia pra calça comprida, band-aid, lixa, álcool gel, protetor solar, fio dental, gancho para bolsa (sim, sim, não é todo banheiro que tem, e euzinha aqui nem muerta ponho nada no chão), fone, carregador, condicionador, perfume, bloquinho, caneta, creme de pentear, gilete, lenço seco, lenço úmido – isso apenas como pálida amostra, e só porque não tenho filho nem uso maquiagem, o que economiza três anos de enxaqueca na hora de sair arrebanhando itens. Pra fazer mala tem que admitir: a gente sofre afta, asma, inflamação, azia, alergia, cólica, enjoo, dor de cabeça e músculo e barriga, tosse, febre, gripe, nariz-entupice, cansaço, queimadura, depressão, hipertensão, e precisa de todas as possíveis soluções portáteis, de todos os pocket tratamentos ao alcance. Pra fazer mala tem que compreender, prevendo: o lugar de destino amanhece friozinho, mas engrena um quentume horroroso, mas venta que é um desespero, mas chove quando menos se espera, e convém dispor de todo comprimento de manga, todo truque imaginável. Pra fazer mala tem que estar de atenção aberta para o fato de que aquela blusa, crucial para aquela calça, não casa senão com aquele sutiã, que não é porém o mesmo daquela camiseta reservada para aquele outro passeio, em que a roupa, aliás, deve estar apta a molhar bem e secar depressa – jeans e tênis, nem pensar. Trabalha-se enfim com uma ciência informal de hipóteses, de planos B e C (no mínimo), uns planos D e E na bagagem de mão caso a outra extravie, mil milagres para não passar do peso, mil estratagemas baseados nas diversas configurações do roteiro, consciência de que talvez não dê pra comprar nada por perto nem lavar nada no hotel: talvez o quarto não tenha onde ventilar, onde arejar, onde recuperar a tempo. OK, fazer mala é perrengue chique (e ah! se todas as amolações fossem essa), mas perrengue anyway – pelo que eu deixo aqui minha reformulação: fica a invejinha redirecionada para a galera de Hogwarts, que se teletransporta quando quer ou então enfia a casa inteira no baú e acabou-se.

Mesmo assim, declaro-me aberta a doações de passagens para Paris de uma hora pra outra. Sou uma fazedora de malas atormentada, mas ainda não sou maluca.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

De onde vem a água


Considero especialmente tocante um poema de nossa brasileiríssima Adriane Garcia, "A origem da água", no qual a autora afirma que os peixes trafegam ininterruptamente tristes, "No constante de/ Carregar o mundo.// Sem os peixes/ Tão tristes/ As correntes/ Cessariam.// Ninguém se pergunta/ De onde vem a água?/ Ninguém desconfia/ Que os peixes choram?". 

Não pude deixar de doer: sim, há um mundo inteiro carregado por peixes tristes, porque nadam incessantemente tristes e vão compondo a realidade todinha no durante de seu movimentar chorado, suado, sangrado, salgado; peixes sem guelras, sem escamas, revestidos de outros respiradouros e outras couraças; peixes bípedes, falantes, caminhantes, pedalantes, mais acostumados aos sóis que aos anzóis, mas da mesma forma fisgados para o aparentemente inevitável. Peixes que as coisas obrigam ao sacrifício fantasiado de normalidade, peixes que as coisas empurram para o sofrimento compulsório, vivido com a (em geral) imperturbada convicção de que não tem outro jeito.

Toda a camada de gente testada e condecorada nas tempestades: são esses peixes. Motores mais ou menos conscientes do sistema que os come e os bebe. Pilares da economia que a economia frita e assa com prioridade. São esses peixes – os entregadores que volteiam, serpenteiam, arriscam-se o dia todo nas correntes, desviando de sustos e tubarões, encarando temperaturas extremas e guinadas súbitas; são esses peixes – as domésticas e vendedoras que desde as 3h30 estão atravessando o curso de ônibus em ônibus, de onda em onda, empreendendo uma quase migração diária para sustentar moradias e vendas, casas e ruas, vivências e comércios, o íntimo e o profissional; são esses peixes – os pequenos produtores que dão bravamente de comer a outros peixes, fugindo como possível às intempéries e aos latifúndios, a toda sorte de pragas e de venenos. Cozinheiros que abrem e fecham o dia no calor dos fogões, estudantes que se esfalfam conciliando a lida e o livro, costureiras que submetem olhos e dedos a longas jornadas de minúcias, pedreiros que tijolam por tijolam cada estrutura das cidades: esses peixes.

São esses peixes os líderes comunitários que cultivam amorosamente a arte e o engajamento nas favelas; os professores que cultivam olheiras monstras apreendendo novas estratégias e recursos; os cuidadores que cultivam bem-estares infantis enquanto famílias peixas estão labutando longe de seus peixinhos. São esses peixes os médicos de linha de frente que enfrentam todas as imagináveis faltas de oxigênio; os cientistas que se debruçam dormindo ou acordadamente sobre as alternativas; os garis que tornam salubres as calçadas e fogem incansavelmente ao risco de contaminações; os faxineiros que tornam salubres os prédios e descartam contaminações com escrupuloso cuidado. São os artistas, os marceneiros, os farmacêuticos, os repórteres, os bombeiros, os eletricistas, os frentistas, os motoristas, os caixas, os funcionários do metrô e tantos, tantos, tantos, tantos outros semoventes que pulsam, propulsam, propelem o oceano de forças que a todos circunda e alimenta. 

De onde vem a água? Ninguém desconfia, porque não há quem não tenha a certeza (ainda que inconfessa) profunda: vem de cada um que tenta, teima, sua, se fere, porfia, peleja, aguarda que a maré vire, espera que algumas correntes se rompam, outras se façam, todas se redesenhem.

E nada.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Estranho dicionário amoroso


Agora vejam só alguns novos termos do "dicionário tinderês-português", como maravilhosamente escreveu a jornalista Eva Abril em sua matéria no El País – aliás, vejam a maquiavelice embutida nas PRÁTICAS adotadas em paqueras virtuais e nomeadas por esses termos: zumping (pé-na-bundar alguém por videochamada), whelming (fingir-se amorosamente requisitadííííssimo, para valorizar o passe), ghosting (fazer o Gasparzinho e simplesmente desaparecer da relação, sem explicações, sem respostas), zombieing (voltar feito um walking dead, também sem explicações, depois de um falecimento digital), benching (deixar o pretendente no banco de reservas), orbiting (ghostear em parte, sem dar satisfações, mas também continuar curtindo posts e passeando na área), snooping (meter o louco do FBI e escarafunchar tudo a respeito da criatura), kittenfishing (mostrar-se muito diferente do que se é para fisgar o parceiro), fleabagging (sair com pessoas que não nos agradam nem nos fazem bem), pocketing (esconder dos demais o indivíduo com quem teoricamente se tem algum relacionamento) etc. Sim, tem mais, tem mais – e nesse mais eu vou me ater à ação que especialmente me impressionou, pela carga corrosiva e traiçoeira: o chamado negging.

É assim. PARECE que se está dirigindo um elogio ao par, porém a base é, na realidade, a de um insulto: "Você está tão bem para a sua idade!"; "Se você participasse daqueles programas de TV, iriam te transformar numa princesa"; "Esse seu gaguejar é tão fofo. Não chegou a te atrapalhar na escola?"; "Acho meio estranha essa moda das mulheres com cabelo grisalho, mas até que ficou legal em você" – sabe como? Nem mais, nem menos uma estratégia BAIXÍSSIMA de manipulação, conforme observa a autora da matéria citada: "O objetivo é que a vítima procure transformar sinais ambíguos em apreciações inequívocas, de modo que procurará, conscientemente ou não, a aprovação do outro, que terá o controle graças a esta sutil forma de abuso". Pois é; eis uma sementinha de relacionamento abusivo, mores. Por mais que a psicóloga consultada na reportagem faça ressalvas ao emprego do termo "vítima" para adultos autônomos e bem informados que sofram negging (e eu obviamente não possa nem pretenda desdizer a profissional), creio ser válido apontar que nem todos os adultos em questão hão de ser autônomos e bem informados; muitos sequer serão adultos. E essa prática horrenda sequer se restringirá ao Tinder e outras plataformas digitais. Hoje, mais espertos para as tramas que os controladores parasitas tecem com séculos de eficácia comprovada, nem por isso deixamos de escorregar, a qualquer distração, no óleo que continuam jogando. Abusadores em potencial têm olho cliniquérrimo para inseguranças e fraquezas.

Podem ver que é batata: montões de casos entre os que nos chegam pela TV começam com alguém carente de algo que vai muito além de uma companhia – carente de uma validação. Adolescentes, jovens, até pessoas de meia-idade cuja autoestima está de algum modo esburacada; que ouvem a cantada oblíqua e tendem a pensar "Quem esse aí acha que é? Hum, vamos ver se não consigo que goste de mim"; ou que demonstram estar encantados com o fato de uma criatura se predispor a lhes dar atenção entre outras tantas opções maravilhosas, e acolhem com gratidão (faiscante, embora não percebam) as primeiras "declarações" que são, na realidade, pequenas arapucas: a migalhinha de elogio é a isca, a vontade (sugadora) do outro é a gaiola que cai em volta. Aparentemente engrandecida por um lado, a vítima – sei que não é a expressão ideal, mas usemos em falta de melhor termo – se habitua a achar que "não custa" ceder por outro: se ele tem interesse e diz que sou bonita assim, mas ficaria ainda mais perfeita assado, por que não mudar o cabelo? a saia? os seios? o sotaque? a risada? os óculos? os hábitos? Por que não cozinhar com outro tempero? Por que não passar mais tempo em casa? Por que não me afastar daqueles primos que realmente me olham estranho? daquelas amigas fofoqueiras? daquela parte invejosa da família?... Sim, aqui em nosso confortável "de fora" parece e é absurdo; porém a escalada psicológica é tão insidiosamente construída, com tão convincente falsificação de amor vivida por dentro (sobretudo se o sujeito passivo do abuso não tem com o que compará-la), que o efeito acaba semelhante ao da famosa experiência do sapo que se permite cozinhar vivo, por não notar que a água morninha vai se aquecendo em progressão lenta e mortal. 

Queridões e principalmente queridonas: olho aberto, coração escaldado e atenção no volante amoroso. Se o impacto das palavras dói, arranha e tira pedaço, mude-se a rota, que isso aí é um paredão muito do sem-vergonhamente pintado – não é caminho. Caminhos têm espírito de pássaro e alma de ar fresco na cara; não se parecem nem um bocadinho com os cômodos que vão diminuindo, se estreitando e esmagando os ossos nos filmes de ação.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Mal sabem eles


Que loucuras nenhum conhecido em sã consciência (ou muitíssimo distraído) diria que você seria capaz de cometer, porém seria, e não apenas em teoria sonhadora? No meu caso, apesar de me dar bastantemente a conhecer por dentro nos textos e memes e posts em geral, galerão que só tem contato de vista e sala de aula ainda prefere se fiar no estereótipo da cidadã quietinha e insuspeita. Little do they know. Que cafonice, gente, essa história de cair com ar totalmente naïf no conto dos óculos e da saia rodada, como se um viking, um Lampião, um Avenger ou um Cavaleiro do Zodíaco não pudesse estar ali confortavelmente abancado. Quando começar o apocalipse zumbi e me virem por aí metendo flecha e peixeira nuns cérebros defuntos, não digam que eu não avisei. 

Um negócio que eu faria de boinha: toparia entrar numa nave (amigável, claro) como a dos Contatos imediatos e dar um rolê por tempo indefinido. Cês perderiam a chance de interagir por um período gordo com um povo tão cheio das evoluções? Eu é que não, quero mais é um MBA em processo civilizatório, sem pressa de aterrissar. Saindo do âmbito estelar para o subsólico: eu nem pensaria duas vezes antes de aceitar o amor do Fantasma da Ópera; jamais teria dado a mínima confiança para o pão dormido do Raoul. "Uai, mas você concordaria em morar nos subterrâneos de Paris com um cara deformado??" Que pensamento pequeno, galera; ÓBVIO que sim. Amo Paris, amo passagens secretas e amaria ainda mais alguém que nunca tivesse sido amado. Que importa uma questãozinha estética de nascença? please. Vacilou rude, hein, Christine.

Eu também não hesitaria meio nanossegundo em me jogar numa tirolesa que fosse de um lado a outro do precipício – tirolesa que por sinal existe, fica no País de Gales e é um dos meus sonhos de consumo. Se anunciassem a maior e mais demorante montanha-russa do planeta, eu iria. Se houvesse convocação para a guerra e as alternativas fossem deixar partir alguém que amo ou me disfarçar de homem à la Mulan, eu me disfarçaria. Se me oferecessem voar nas costas dum hipogrifo à la Harry Potter, eu adoraria. Se me propusessem atravessar uma sala de cobras ou aranhas balofas para ganhar um milhão de dólares, eu enriqueceria. Se abrissem para além dos profissionais de saúde o grupo de testagem da vacina anticovídica, eu a testaria. Se tivesse a vocação da cura e visse a chance de me juntar um tempo aos Médicos sem Fronteiras, eu embarcaria. E nada disso, no-waymente, por ser especialmente corajosa, mas apenas por haver tido uma de duas cordas específicas vibradas: o agarrar da oportunidade que talvez não retorne e a necessidade premente do outro.

Em contrapartida, mesmo o que é sonho dos sonhos em outras leituras de vida soa, para mim, como um não inafiançável; tipo: faço a maior tirolesa das galáxias, cruzo um circuito topzão de arborismo, mas dirreininhum escalo coisa alguma. Danço rumba num agrupamento de serpentes por um milhãozinho, mas não me disponho a ter filho nem por cinquenta vezes isso. Moraria feliz com o Fantasma da Ópera nos esgotos, mas JAMAIS com um sultão entre suas farturas – e menos ainda com alguma criatura de berço ou de educação americana e europeia, onde quer que fosse. Voaria num dragão, num hipogrifo, numa vassoura, numa caixa de sapatos, num hipopótamo, mas NEM MUERTA no jatinho de um Donald Trump e seus pares. Doaria alegremente um rim a alguém necessitante, mas nem dez segundos de vida à presença daquele ser que nos desgoverna. Seguraria uma barata na mão, mas nunca de núncaras apertaria a mão desses equívocos-em-chefe. Mil vezes mais provável, inclusive, vestir um saiote fabuloso na barata e ensinar-lhe todos os passos do cancan. E da rumba. Entre serpentes.

Não é que eu seja, pois, mais ou menos inclinada para gestos ardentes, impulsivos, temerários; tenho simplesmente, como todos têm, aquela escalazinha customizada que vai do "Cool! Quero e quero agora!" até o "Nem em um milhão de anos", passando pelo "Seria uma honra fazer isso se fosse inevitável", pelo "Só faço se a outra opção for pular do Kilimanjaro" e outras demarcações tais. Somos, em realidade, um coletivo de individualidades bem precisas, um balaio de idiossincrasias que a capa não revela, de heroísmos que o traje civil não denuncia, de Supermen e Superwomen que os óculos, a gravata, a saia rodada, o paletó não deduram, mas estão ali pairantes, de tocaia. Todos, toooodos somos isso; essa realidade mista e maluca que congela diante de uma lagartixa e é capaz de garrar jacaré na unha pra salvar um transeunte, ou não pisa nem na espuma do mar e discursa para multidões nadando de braçada. Paradoxais? Todo dia. Previsíveis? Não tanto quanto os rotuladores gostariam para seu sossego quentinho.

Entre a ensimesmada que fala pouco e a doida que voa de uma ponta à outra do abismo em posição de águia, sou exata e coladinhamente as duas. Entre o combo das duas e o carimbo de classificação que lhes tentarem apertar sobre a pele, já vai um Kilimanjaro de distância.