sexta-feira, 12 de março de 2021

Ter duende

Acho absolutamente lindo o caminho das palavras, sou amorosa eterna das vidas várias que assumem. Veja-se o termo duende, por exemplo; acabo de descobrir que, em espanhol, duende pode significar – além da criatura óbvia – "o misterioso poder que uma obra de arte tem para tocar as pessoas profundamente". Some-se a isso a interessância da etimologia: segundo escarafunchei, a palavra procede de duen de casa, "dono da casa", já que "o caráter intrusivo [dos pequenos humanoides fictícios] 'apreende' as casas e as encanta". Não é perfeito? da noção de que aquele homenzinho dos contos de fadas tanto se mete em assuntos alheios que acaba se apossando das residências, o sentido se expandiu (me deixem crer que foi esse o raciocínio) para o de domínio exercido por algo tão, TÃO fantástico, TÃO maravilhoso que nos enfeitiça para sempre a ideia e faz seu solene assentamento em nós.

Para você que obras têm duende? Para mim as de Escher são a epítome do tiro e queda, não consigo nem por nada despregar o olho. Também não posso me despedir da doce, implorante, enamorada, melancólica Moça com brinco de pérola de Vermeer, que nos grita e nos beija com sua expressão úmida. Também não posso ignorar a agonia do Autorretrato arregalado, desesperado, descabelado de Courbet (te entendo, Gustave, eu vivo no Brasil). E o olhar indecifrável da mãezinha debruçada sobre O berço, de Morisot, que já mencionei aqui há umas tantas postagens? e o olhar algo cansado, algo irônico, algo desafiador pincelado por Sargent em sua Lady Agnew de Lochnaw? puro visgo, puro duende. Têm duende as espirais noite-estreladas de Van Gogh; as coloridices apaixonadas de Klimt; as suavidades floridas de Renoir; as pontes, as ninfeias, os crepúsculos, os jardins de Monet; os surrealismos malucões de Magritte; as bizarrices relógias e derretidas de Dalí. Têm duende os hiper-realismos INACREDITÁVEIS de Philipp Weber. Têm duende os grafites FENOMENAIS de Rafa Mon.

Nas esculturas, então! – pululantes, oferecidas, acessíveis ao toque, libertas das duas dimensões limitantes – há duendice à farta. Vide o São João Batista jovenzinho, de olhar depositado no céu e mãozinhas postas enternecedoras, que foi dado à luz por Jean Dampt; o movimento congelado dos meninos que pulam no rio Singapura em Primeira geração, obra de Chong Fah Cheong; a galopada pujante (como é que inanimada??) dos cavalos selvagens em Mustangs, de Robert Glen; o portento e a hors-concoursice do Davi de Michelangelo; a perfeição es-tar-re-ce-do-ra da Virgem velada de Giovanni Strazza, cuja perícia tirou do mármore um véu INCRÍVEL de transparente; o amor fabulosamente retratado na dinâmica perpétua do casal Ali e Nino, enorme criação de Tamara Kvesitadze em que as figuras masculina e feminina se aproximam, se fundem, se separam para nosso mais completo alumbramento. Isso, claro, para pescar apenas meia dúzia de obras-primas cá e lá, ante a impossibilidade de homenagear todo o potencial duêndico de todos os séculos de todos os povos – é aliás lastimável que faltem horas, conhecimento e pupilas para abarcar a inteireza da genialidade humana, que sempre acreditarei infinitamente superior a suas burrices (pena que também infinitamente mais delicada e seletiva nas condições de plantio).

Capta-se nisto o duende arteiro das produções que nos possuem: passemos ou não passemos na lojinha do museu, afastamo-nos fisicamente da obra carregando ainda sua imagem, curvando-nos ainda ao peso ou à leveza de sua imagem, como paredes de exposição ambulantes. Viramos a casa da obra, que se prende a nós e pende dum nicho de nós com direito a plaquinha descritiva:

Óleo sobre alma, 24 x 7, gravada nos arredores de hoje. Talvez definitiva.

quinta-feira, 11 de março de 2021

Direto ao assunto

"Perdido é todo o tempo que em amor não é gasto", escreveu o aniversariante italianíssimo Torquato Tasso, 477 anos de muita poesia. Toca aqui, Tassinho: devias provavelmente viver, como vivemos muitos, em permanente estado de eye-rolling diante da constatação de que sobram gentes apaixonadas pela guerra, fascinadas pela destruição e pelo conflito, incansáveis na agricultura de tretas. Tretas (claro) são musas e divas quando se confundem com o impulso sagrado do protesto, do afrontamento cabeça-erguido de injustiças contra o self próprio e o alheio – caso em que tretar é amar automaticamente, coabitar na luta, coexistir na experiência e na dor; mas não é desse empenho exaltável que falo com o nariz torcido, e sim daquele habitual a egos molengos que plantam tempestade para disfarçar sua incapacidade crônica de navegação. Preciso mesmo exemplificar, considerando que nosso mais alto escalão executivo produz uma quantidade pornográfica de evidências quando acorda, come, anda, respira? Ou a cronologia desse povo vociferento foge à de nós mortais e é medida em unidades de Asgard, da Atlântida, do Olimpo, fazendo cem anos parecerem uma ida à padaria – ou se trata realmente duma galera infeliz e temerária que dança à beira do abismo, sem qualquer inteligência de rechear sua vita brevis de bons relembramentos e suficientes doçuras.

Seguinte: a coisa é rápida, é muito rápida; o período entre dois dezembros que (em nós crianças) levava duas décadas agora se escoa em dois meses, e a ceia de Natal por pouco não é aquecida com fondue dos ovos de Páscoa numa fogueira de São João. Não bastasse a correria dos dias sobre nós e de nós sobre eles, o mundo pandemiou-se e, súbito, nos jogou mais ainda na cara o quanto cada minuto vive na iminência de derreter-se: à constatação ocasional da ligeireza somou-se, em escala global, a bofetada da fragilidade, o berro de acorda! ao pé do ouvido. Acorda, minha gente, acorda – que ideia ridícula essa de cultivar consumições inúteis mesmo na olheta do furacão, como se nos perdendo em todas as variantes de raivas e egoísmos ficássemos, estranhamente, imunizados contra a efemeridade e a morte. Como se a recusa em nos assumir débeis nos desse mais tempo, mais força, ao invés de fazer o exato oposto arrancando-os de nós.

O tempo ruge, diria o doutor Improtta, mas precisamente porque a Sapucaí NÃO é grande e toda chance é pouca para deixar de bestagem. Deixar de arredar de si o filho que não escolheu sua orientação sexual nem quis "atingir" ninguém com ela, sempre quis apenas a liberdade de ser-se e o direito de não perder o aconchego respeitoso que a família deveria assegurar-lhe. Deixar de se amofinar com o vizinho cujo catioríneo nem incomoda tanto, é inclusive fofíssimo (por sinal, não é que o danado – o vizinho, não o catioro – faz uns muffins de comer rezando?). Deixar de defender qualquer sistema de governo que não priorize o bem-estar da BASE da pirâmide, onde a maioria de nós se encontra e onde não convém, portanto, cultivar inimigos, e sim aliados. Deixar de semear o inferno matrimonial: MOTIVO HOUVE para que duas pessoas resolvessem livremente compartilhar o banheiro, as panelas, a senha do wi-fi, não é possível que não tenha sobrado ternura no pote. Deixar de briga de torcida, de disputa por colherada de sorvete, de divórcio por divergências de BBB, de implicância com roupa, de implicância com sotaque, de implicância com cabelo, de implicância com tatuagem, de preconceito idiota (pleonasmo, eu sei), de fanatismo excludente, de fofoca de corredor, de picuinha de zap, de rixa por crush ou fiquete ou peguete. Deixar as vias limpas, leves, livres para a busca, a escuta, a aceitação, o mutirão, a cumplicidade, a convergência. A otimização da – obrigatória – coexistência.

Já que o megatrabalho em grupo é compulsório, bora organizar direitinho para (toda) a gente pelo menos enricar de conteúdo, arrasar na produção de material e se garantir na nota.

quarta-feira, 10 de março de 2021

O Monstro


Ele é o maior perverso de nossos tempos, que do primeiro abrir ao último fechar de olhos do dia respira tão mais feliz, tão mais longamente satisfeito quanto mais vítimas faz. Tudo que vive (fora uma meia duziazinha de cabeças salpicadas pelo mundo) lhe é inimigo por natureza, e pode, quando muito, ser tomado como ajuda eventual e estratégica no palanque, emprestar com inocência seu verdor e seu oxigênio para disfarce dos propósitos mau-mocistas do Monstro. Não importa nadíssima que o Monstro fale ou faça olhando bonachonamente em direção à câmera; não importam em absoluto quantos tapinhas distribua, convincente e carismático; cedo ou tarde – inevitavelmente cedo – ele trai, trai grosso, trai firme, trai rude, trai sociopata e sorridente como se nem. Porque, em seu ensurdecedor vácuo de opinião, realmente nem.

O Monstro bate continência à bandeira necessária, dá mesmo de ombros se uma suástica a marcar bem no peito; que diferença? qualquer símbolo, qualquer brasão, qualquer escudo, qualquer camisa de time lhe convém igualmente, sem esses aborrecidos encargos da lealdade (porém minto: vermelho é menos frequentemente de seu gosto, em especial se associado a instrumentos de trabalho específicos. Mas nada que não seja negociável, ajeitável, discutível até em mandarim). O Monstro – monstro sendo – não direi que tenha as preferências, antes tem as lógicas mais escabrosas; já seria horrendo o bastante se permanecesse em gelada indiferença aos que morrem de pandemia, e não, nem essa cruel neutralidade o define, uma vez que ele ESCOLHERIA a atual situação caso lhe perguntassem. É pollyânnico dizer que as mortes não o comovem: as mortes lhe agradam. Menos aposentadorias a serem pagas, ele saliva. Menos pensões, auxílios emergenciais e seguros-desemprego, ele celebra. Não vê filhos, pais, histórias, amores, famílias – vê números sem sangue nas veias e sem coração engordando o prato mais conveniente da balança.

O Monstro, por outro lado, todo se dói quando injustiças principiam a desemaranhar-se e raia alguma mínima estrelinha talvez-porventuramente propícia à sorte dos que pesam no prato inconveniente. O Monstro então esperneia no chão feito menino birrento, se debate chantagista e escandalizado que nem todos lhe cedam e lhe sacrifiquem absolutamente tudo, que nem todos se curvem muito adestradinhos à sua pseudo-onipotência mimada. Como aplacá-lo em seu showzinho de fúria? garantindo-lhe que pronto, pronto, passou, ninguém vai voltar a comer e viver e estudar se nenê não quiser, se nenê não se sentir confortável; a gente já combinou com a Cuca e ela vem pegar. Para sossegar nenê, logo lhe prometem mundos sem fundos e a posse contínua de seu brinquedo favorito – sua bolinha azul sempre estranhamente murcha num hemisfério e gorda no outro, como a manha do Monstro faz questão. Um motivo impertinente leva o Monstro malcriado a conservar assim a bolinha, e já toda a gente em volta, conformada aos caprichos do tirano ranhento, decidiu achar natural que a bola seja mantida assim desigual, esdrúxula, barroca. Não somente achar natural: DEFENDER com paixão que assim seja. Tanto e tão domesticadamente que se pode, não sem perplexidade, catalogar como seita esse povo vampirizado que oferece feliz a jugular enquanto o Monstro pirracento o explora, suga, cega, desumaniza, insulta, desonra, descama.

(Mercado – que o menino chama.)

terça-feira, 9 de março de 2021

Tudo que queremos perguntar a um homem, mas a imprensa não colabora


O dia-mor de nossa reafirmação política foi ontem; mas, como é o tipo da luta que não dorme e não faz piquenique, além das falas singelamente propostas para serem adicionadas aos parabéns de praxe, deixo aqui minhas também singelas sugestões de perguntas que amaríamos ver direcionadas a celebridades masculinas, nas próximas entrevistas:

* Como o senhor consegue conciliar a agenda de CEO com a paternidade?

* Você usou roupa íntima debaixo do collant de herói?

* A sua esposa o ajuda com as tarefas domésticas?

* Com quem as crianças ficam quando o senhor viaja a trabalho?

* Quem cuida das crianças quando estão doentes?

* Você acha que a beleza atrapalhou no sentido de as pessoas o levarem a sério em sua profissão?

* Sua mulher não se incomoda de você cortar o cabelo tão curto?

* Sua mulher lida bem com o fato de você ganhar mais do que ela?

* Sua mulher lida bem com o fato de você trabalhar num ambiente predominantemente feminino?

* Sua mulher lida bem com o fato de você não querer ter filhos?

* Sua mulher lida bem com o fato de você costumar se vestir de uma maneira tão ousada?

* Sua mulher lida bem com o fato de você quase nunca estar em casa?

* Acredita que seus filhos sejam afetados, na vida escolar, pela imagem de extrema sensualidade ligada ao pai deles?

* Você se envergonha daquelas fotos? Seus filhos já as viram?

* O senhor se considera um homem prendado?

* Como foi o processo de assumir publicamente os fios brancos?

* Qual o seu peso atual?

* Que marcas de cosméticos você prefere?

* Pretende usar o terno de qual estilista no tapete vermelho?

* Quantos sapatos o senhor tem no closet atualmente?

* Acha que sua fama de ser um homem muito assertivo e de personalidade forte pode tê-lo prejudicado na carreira?

Ué, parece tudo bem loucamente inconveniente? Touché: é tudo absurdo, invasivo, afrontoso, inconveniente mesmo – e ainda assim nadinha diferente do que as manas escutam há décadas, diante de câmeras e microfones que se colam a seus narizes com um sorrisito de Inquisição espanhola. Fique registrado aqui, portanto, o meu peteleco moral na orelha dos perguntadores internacionais, que submetem mulheres a eternas entrevistas de emprego (para o cargo inalcançável da perfeição-absoluta-segundo-vozes-da-minha-cabeça) em plena luz dos holofotes, constrangendo e escarafunchando vidas sob a lógica ingerente do machismo e da arrogância.

Não, guys, mulheres e suas rotinas não são propriedade coletiva nem território júri-populado: não respondem senão a si e aos (muito) seus em primeira, em segunda e em terceira instância.

segunda-feira, 8 de março de 2021

O que dizer todos os dias junto com os parabéns de hoje


Me deixa fazer isso, você trabalha que é um exagero.

Eu achava que sabia onde a gente tava, mas você tá certa, eu não sei. Bora perguntar praquele cara.

Quem se importa se tem jogo hoje, minha linda?

Concordo, o Tom Hiddleston é bem bonito.

Você é a pessoa que eu mais admiro profissionalmente.

Vai se divertir com seus amigos sim. Papai cuida do Pedrinho hoje à noite e ajuda com a Matemática, né, meu filho? O que a gente não souber resolver, depois a gente pergunta pra mamãe.

Prefere o rosa? Legal, é o meu favorito também!

Nossa, não sei como vocês aguentam essas cólicas. Fique aí quietinha, que eu trago a bolsa de água quente num minuto.

Tenho MUITO orgulho da sua história.

Todo mundo sabe que as mulheres dirigem melhor, até o seguro para elas é mais barato.

Precisamos de uma lua de mel assim que este pesadelo da pandemia acabar. Você escolhe o destino.

Qual esmalte colocar? hum... aquele que você usou no nosso aniversário eu acho incrível.

Se essa oportunidade única na carreira te deixa feliz, todos aqui em casa vamos abraçar as mudanças para fazer dar certo.

Uber coisa nenhuma, eu mesmo levo a sua mãe.

Michelangelo tinha de esculpir você amamentando nosso filho.

Michelangelo tinha de esculpir você acordando.

Michelangelo tinha de esculpir você.

Seu cabelo está maravilhoso. Eu sei que você não fez nada; o natural dele é estar maravilhoso.

Aprendo um monte com você todos os dias.

Quase saí na porrada com o Valdir, mas até que enfim ele parou de assediar as minas. Que babaca.

Sim, fica melhor desse jeito, você tem razão.

Ele não.

domingo, 7 de março de 2021

Touro indomável


Disse muito interessantemente o historiador inglês Arthur Helps (adoro esse nome, excelente para uma empresa de consultoria: "Got a problem? Arthur helps!"), cujos 146 anos de falecimento são lembrados hoje, que "o homem invejoso deseja algum bem que outro possui; o ciumento muitas vezes se contentaria em ficar sem o bem para que esse outro não o possuísse". Eu nunca tinha pensado desse modo sobre a dobradinha infernal ciúme/inveja, e creio que Sir Helps foi totalmente agudo na distinção. A inveja – não que isso limpe de alguma forma sua barra – é cobiçadora em vários níveis, roubadora se houver ocasião, porém mais focada no próprio lucro do que necessariamente no prejuízo alheio, o qual não se apresenta a ela como um ganho direto; já o ciúme, ah! este sim é a víbora das víboras emocionais, porque não se satisfaz na posse, saliva sim pelo aniquilamento de toda criatura tomada como adversária. Se abandonados em situação de água-morro-abaixo, sua sanha e seu delírio só vão a galope na intensidade e chegam facilmente ao ponto de atirar o objeto de desejo na fogueira, desde que o inimigo (às vezes imaginário) seja atirado à fogueira pela mesma isca.

"Ah, mas um pouquinho de ciúme faz bem pro..." SLAPT! que nem naquele meme do Batman sentando a mão no Robin. Ciúme não faz bem para absolutamente nada, em quantidade nenhuma. É bicho ruim, peçonhento, doença do ego que só em raros casos entra em remissão; seu natural é escalar quickly e virar uma queimada inapagável no cotidiano das vítimas. Não me acreditam? confiram o número acachapante de feminicídios que diariamente nos esbofeteiam, todos ou quase todos fundados naquela velha e hedionda máxima do "não vai ser minha, não vai ser de mais ninguém" – o núcleo duro, a polpa congelada do ciúme. É isso, é essa desgraça: um crack psicológico que NÃO TEM dose segura; por meio dele se manifestam todos os recalques, todas as frustrações, todas as feridas narcísicas ainda e para sempre abertas, todas as infantilidades intratáveis e intratadas, todos os preconceitos de gênero longamente absorvidos, todos os vácuos de uma psiquê imatura e infértil para o amor comme il faut. Que estranho bem poderia fazer, num relacionamento que se pretende saudável, o sentimento de insuficiência vingativa (porque é isso o ciúme, uma insuficiência pessoal que se projeta no outro e se põe a arrancar dele o que não se tem), o esgarçamento cada vez maior dum coração que nunca soube ser inteiro e que acredita precisar da humilhação, da opressão, do rebaixamento e, em última instância, do sangue alheio como cola?

Ciúme não sabe jamais ser pouquinho. Vejam: seu eixo, sua fundação é precisamente o minar lento ou ligeiro da felicidade do outro, a felicidade que o ameaça e afronta; vai daí que o monstro está, por definição, impedido de não se cravar na jugular mal cria o primeiro dente. Do resmungo inicial contra qualquer amigo homem até as 58 facadas em pleno meio-dia, passando pelo aperto no braço, a ordem de trocar a saia curta, o compartilhamento de senhas nas redes, a invasão dos perfis, o stalkeamento, o isolamento crescente do ser parasitado, o tapa "porque você me deixa muito nervoso", a coisa evolui assim-ó, num estalar de dedos insuspeito apenas pela vítima entorpecida. O ciúme não é amor, não tem UMA GOTA sequer de amor, é inclusive o seu perfeito oposto: um ódio destrutivo, sanguessugo, faminto do outro corpo mas de uma maneira vampírica, daquela maneira possessiva que uma alma exilada de luz quer furtar para si (e aniquilar pessoalmente) o que é da luz. O ciumento é um ladrão infeliz de sossegos, já que incapaz de fabricar o próprio.

Por nenhum motivo sob o céu e sobre a terra se romantize o desconjuntamento psicológico de quem deseja a nota fiscal de outro ser vivente; o que parece intensidade é vício, desespero, antissociabilidade, autoestima rastejante e o impulso predador de esvaziar mais uma existência e guardar mais uma memória empalhada na coleção.

sábado, 6 de março de 2021

Questão de honra


Sei que a frase parece fortissimamente vintage, mas considerem que foi dita por um sujeito hoje completador de 538 aninhos (o historiador e estadista italiano Francesco Guicciardini, migo de Maquiavel): "Ambiciona honra, não honras". Chamo-a vintage porque honra é termo já muito caidinho em desuso, o que nem é de todo ruim, levando em conta o péssimo emprego recente da palavra – normalmente relacionada ao conceito machista de não admitir ser traído pela conje, ou, se for, não admitir que a conje sobreviva a isso. Inclusive a defesa desse tipo estranhíssimo de honra era, até quase ontem, abraçada como atenuante em tribunal, em caso de uxoricídio, porque aparentemente (na opinião masculina) ser vítima de deslealdade é a coisa mais vergonhosa de toda a existência, mas assassinar alguém não desonra ninguém não. E depois me perguntam por que eu digo que, pela evolução natural, o mundo está destinado a pertencer às mulheres.

Não satisfeitos com os crimes cometidos por questões de ordem cornística, até meados do século XIX os moçoilos se batiam em duelo fatal por qualquer dá cá aquela palha, para usar uma expressão com o mesmo nível de mofo. Bastava um ter acordado de ovo virado por causa do desprezo da bela e chamar publicamente o outro de cara de mamão, pronto: era uma baixaria polidíssima de tacar luva na cara, mandar os padrinhos de um e outro combinarem local, hora e arma, amanhecer no dia seguinte metendo uma bala ou uma espadada no peito do desafeto, tudo deveras cavalheiresco e ridículo. Em boa parte dos lugares essa palhaçada era proibida e a punição, severa; a carnificina, porém, acontecia anyway, porque a honra, a honra! que seria dela se não tirassem satisfação após alguém os ter declarado feios, chatos e bobos em praça pública? Uma hecatombe. Toda a treta, enfim, termometrada pela percepção alheia, pela opinião geral, por ações vindas de fora – prova de que esses moços, pobres moços, nunca tiveram um Papo de segunda na vida, com um Francisco Bosco alertando repetidamente que não se pode ser desonrado por algo que lhe fizeram, apenas por algo que VOCÊ fez, bonitón.

Embora estruturalmente vintage e cronologicamente século-dezessêisima, a frase de Guicciardini comporta até uma leitura contemporânea, uma vez que põe em oposição (como deve ser) as honras puramente externas e a honra toda interior, legítima, não obrigatoriamente atrelada a nenhum reconhecimento oficial. É bem suficiente ver quantos torturadores, milicianos, genocidas, farsantes, assassinos já foram medalhados com fartura no correr da História, exaltados em nomes de ruas, em museus, em estátuas equestres; quantos receberam e recebem "doutor", "coronel", Meritíssimos e Excelências; quantos têm a mão beijada e as nojeiras esquecidas em nome de seu duplo talento de poder e dinheiro – ah, sim: e da falta total de escrúpulos que lhes permitiu consegui-los. OK, estão chafurdados num poço de prestígio humano; e daí? Seus netos (filhos de um mundo futuro que está fadado a civilizar o pensamento) poderão dizer com ternura e orgulho que o vovô jamais provocou dor de qualquer tipo, ou fechou os olhos a que ela fosse provocada? Seus pequenos penduricalhos de metal, suas fitinhas grudadas no peito, vão ser motivo de saudade para conhecidos ou desconhecidos? Sua ausência vai ser de fato lamentada, após a presença ter sido tão opressiva? Sua morte há de ser mais fonte de vácuo do que de alívio? Entre os mesmos que os bajularam e condecoraram, haveria realmente quem desse por eles a vida, quem lhes doasse um rim, quem os acompanhasse a cada dia de uma velhice solitária e doente, apenas por gratidão e amor? Que bagaça de honra é essa que cessa quando cessa a influência, a dependência, a conveniência, o medo, o interesse, a dívida, e não deixa nenhum coração sinceramente choroso à beira do túmulo?

Honra não nos visita, não nos é concedida, não vem de fora – e da mesma forma não pode ser retirada com calúnias ou banimentos; impõe-se no exílio, na masmorra, na fogueira, atrás das grades, sobre a cruz, sobre o cadafalso, sob a letra escarlate. É código que não cede nem à maciez da propina, nem às cócegas da fama, nem à pressão da família, nem à chantagem do arbítrio. É pulsão que desnecessita de aprovações ou recompensas por se firmar toda no eixo da tranquilidade de si. Em última análise, é nada mais que uma intransigente do bem, perfeitamente indiferente se vai ou não ser chamada de tola no fazer jogo limpo, no respeitar o adversário, no manter a lealdade – contanto que esteja ciente de que não produz mal algum ao guardar as convicções, e de que prejudica no máximo a si mesma (do ponto de vista "utilitário") com sua heroica teimosia.

Honra não mata, frequentemente morre, em geral detesta câmeras e tem preferência por atuar quando ninguém está olhando. Por supuesto não é à toa que sua concepção essencial anda tão alarmantemente fora de moda.