terça-feira, 7 de julho de 2020

F(r)estas

A imagem pode conter: noite

O tchonc-tchonc-tchonc da máquina de lavar, botando compasso nas musiquitas que cantarolo em acompanhamento. As filas entusiasmadamente agitadas das formigas na cozinha, insinuando sempre o furdunço de expectativa de algum evento. O bate-bate das franjas redondinhas do toldo, ventadas em balé. Os reflexozinhos de sol que vêm de janelas vizinhas e às vezes desenham na parede (foi, outro dia, um coração de luz estampado na sala). O plinc-plinc-plinc de mensageiros dos ventos também vizinhos, dançando as mudanças de clima.

As vinhetas de telejornais, aberturas de programas e jingles de propaganda que eu mesma danço malucamente. A perspectiva cantante do episódio inédito visto em sossego. Uns efeitos de certo sol, de certa hora, que fazem a fotografia da casa com mais lindeza. Umas gargalhadas constantes de alguma moradora próxima. O violino de outro morador próximo que celebra, lírico, as Ave-Marias. As palmas gerais depois do violino. O cheiro de bolo assando que às vezes se espreguiça no corredor do prédio.

Os assobios felizes dos miquinhos diurnos e dos morcegos noturnos na temporada de caça às mangas. As boas-tardes e bons-dias gritados das maritacas. O canto esdrúxulo da ave caseira que quase diz direitinho, em algum outro andar: "Tem alguém aí?". A alegria em estado puro de quando chegam as compras e tem pão francês prometido pro lanche. O Matte Leão com pêssego bebido anarquicamente no gargalo (bebo sim, que o bebo sozinha, pronto). As sacolas plásticas que volta e meia se desprendem para o mundo, em coreografia aérea. As folhas de árvore que as imitam e giram, giram, bailarinando até o chão. 

Os biscoitos amanteigados descobertos no mercado virtual com a potência de um tesouro pirata. Os achocolatados sem lactose que acarinham por dentro. As vozes nada veladas da vizinha na conversa debruçada na janela. O casal de senhores que vem demoradamente ver a chuva na janela. O casal de jovens que vem delicadamente regar as flores na janela. O gato (do casal de senhores? do de jovens? de mais outrens?) que vem governar o planeta na janela. A cadência metálica dos elevadores. A batida metálica da porta das escadas. Um concertozinho quase não notado e quase tomado como silêncio em segundo plano: o tinc-tinc de pratos usados, o plum-plum da Sessão da Tarde, o esparso das buzinas, o longe das freadas, os estalos dos móveis e grades e aparelhos, os doze ou vinte bem-te-vis seguidos, os te-vis que se seguem em harmonia e resposta, o ocasional de um helicóptero, bateres de panelas, bateres de obras, broncas de mães, fffffssshes de folhas. Esses tudinhos tão já costurados no dia que nem notamos a execução permanente do hit. 

Havendo vida, há convite.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Pelos sepultadores

Estátuas de anjos Foto stock gratuita - Public Domain Pictures

Sim, é preciso lembrá-los, e o padre que ontem celebrou a missa televisionada bem os lembrou, carinhosamente os lembrou. É preciso pensar nos sepultadores – nos literais; não nos que vão erguendo a História e varrendo para debaixo tudo que não dá gosto à memória e à vista. É preciso zelar pelos sepultadores denotativos que descem à terra as vítimas de sepultadores conotativos, e que têm o último contato com a realidade desta máquina breve que habitamos.

É preciso cuidar, em todos os sentidos, da saúde dos que lidam com o fim da saúde, dos que estão expostos ao vírus sem mesmo terem a chance e o consolo de guerrear pela vida. Heróis de jaleco labutam, pelejam, se esfalfam na trincheira, também caem, também tombam de alma e de corpo, e no entanto são reconfortados pelo prêmio de vencer muito, de triunfar contra o invisível, de escoltar entre palmas outros vencedores. Sepultadores, não. Não há vitória prevista para os sepultadores; a batalha já chega batalhada e perdida, o pulso interrompido, o ar definitivamente cessado – silêncio. O silêncio em que não existe angústia de incerteza, mas tampouco a teimosia da possibilidade. Pensemos nos sepultadores, pensemos naqueles que trabalham diariamente – e cada vez mais frequentemente, e já quase ininterruptamente – em herdar derrotas.

Pensemos nos sepultadores e em sua terrível consternação de saber que, não bastasse nunca ter havido suficientes vagas para os vivos, agora não as há para os mortos. Pensemos nos sepultadores e no peso tristíssimo de sua carga, eles que usam a terra ao contrário do pedreiro, eles que são operários de desconstrução, que veem estruturas ruir em vez de erguer-se. Pensemos na também desestruturante dor física dos sepultadores, na dor de quem se curva 40, 50, 70 vezes por dia ante a finitude do seu e de outros corpos. Pensemos no talvez pior padecer mental, na humilhação de serem ironizados pelo suposto chefe do país, na consciência da fragilidade de suas proteções, nos preconceitos vindos daqueles mesmos a quem prestam seu insubstituível serviço, na perplexidade diante das famílias envenenadas de fake news que querem escarafunchar caixões, no sofrimento permanente de ver o sofrimento. Pensemos no pouquíssimo que testam, no pouquíssimo que pagam e no muito, no excessivo que exigem dos sepultadores. Pensemos nas quase impossíveis ilusões, nas horas sobrecarregadas, nos braços dormentes do moto-perpétuo. Pensemos no custoso e insalubre das exumações, na angustiante matéria dos sonhos, nos temas de conversa aflitivos, na invisibilidade social, na ansiedade, no desprestígio, nos maus cheiros e piores julgamentos. Pensemos, pensemos nos sepultadores e em sua essencialidade nada invejada, em sua grandeza desrespeitada, em sua valentia subestimada, em sua resiliência esquecida, em sua desértica, esgotante solidão. 

Todo o nosso imbastante agradecimento, a nossa ternura aos irmãos sepultadores – anjos ocultos de resistência que ali estão sempre, esperam sempre, para que não falte a ninguém o decoro de uma última acolhida. Que a eles a acolhida também não falte, agora, já, em vida, urgente, imediata, completa, a fim de se demorar ao máximo a definitiva. Amor pelos sepultadores, reverência aos sepultadores, que não podem JAMAIS ser envolvidos no pacote de ignorância indevidamente destinado à indesejada que mais teimamos em ignorar.

domingo, 5 de julho de 2020

Conquistar o medo

File:Fearless Girl Touro.jpg - Wikimedia Commons

Realmente não sei como reagir às conclusões de um estudo publicado por psicólogos da Universidade de Chicago na segunda-feira passada, 29 de junho. Segundo a pesquisa, fãs de filmes de terror e "pessoas classificadas como 'curiosamente mórbidas' [ou seria 'morbidamente curiosas'?] sobre assuntos desagradáveis" estavam mais preparados para lidar com a pandemia, foram menos afetados psicologicamente por seus efeitos e se mantiveram mais otimistas – ora vejam só. Um dos psicólogos envolvidos no trabalho, Coltan Scrivner, sugeriu em entrevista que o terror talvez ajude numa espécie de regulação emocional, e se citou como exemplo, afirmando que assistir a obras do gênero foi algo que lhe permitiu ter medo e "depois conquistar esse medo".

Estou num mix de me surpreender (porém não muito), achar revelador, interessante, preocupante, fascinante e engraçado. Nunca fui adepta do terror, bem ao contrário: passei infância e adolescência considerando já perturbadores demais os comerciais de A hora do pesadelo, Sexta-feira 13 e semelhantes que invadiam a TV dos anos 80/90; trechos de filmes, desenhos e séries em estilo onírico-surrealista, pinçados aqui e ali, também embrulhavam tudo por dentro. Nem a Thundercats ou Caverna do dragão eu assistia, por motivos de "oh, man, que bichos mais feios e que atmosfera mais angustiante" quando tentei fazê-lo. Ao mesmo tempo, sentia um encantamento aflitivo pelo clipe de "Thriller", que me enchia de medo sem que eu conseguisse despregar os olhos. Mas eu era então miudinha demais, ainda menor do que hoje, e mesmo as mais felizes infâncias são naturalmente aterrorizadas por fantasmas próprios, que são nossas incompreensões gerais do mundo, nossas inaptidões para digerir os meandros humanos aos quais não fomos suficientemente apresentados. Crianças são sensíveis, verdes, confusas, estagiárias, estão estreando – e sequer sabem expressar o que não sabem, nem têm os recursos verbais (já limitados) dos adultos. Os adultos, espera-se, já saíram do casulo nevoento e sacudiram o verdume; pois saí, sacudi; e, embora continue não buscando filmes de terror por preferência espontânea, vejo com toda a tranquilidade um Freddy, um Jigsaw ou uma Samara – por sinal que algumas de minhas produções favoritas, como O orfanato e O labirinto do Fauno, têm um clima de pesadelo melancólico. 

Conquistei o medo? Talvez sim, parece que sim, não sei. Deve haver aí algum indício, somado ao fato de que tenho efetivamente (shame, shame) uma curiosidade morbidinha de acompanhar os programas de psicopata do Investigação Discovery, como já falei. Certamente não é impulso sádico nem masoquista, pelo amor!, mas uma certa paixão de entender do que é capaz a mente humana, esse balaio de Jasons. Coincidência ou não, reconheço com embaraço que estou nesse grupo dos menos afetados psicologicamente pela pandemia. É evidente que o que me garante nessa posição não são os assassinatos do canal 639, e sim a estabilidade material, o conforto doméstico, o sossego de morar com quem é aliado da e na paz; mas haveria algum componente da tal "regulação emocional" somado à operação? Vendo os resultados da pesquisa, escorrego para a crença de que haja – possivelmente porque os que se interessam por histórias de psicopatia (como meros observadores, é óbvio, e dentro de certos limites) podem amar a bondade e a doçura, mas sabem do que as pessoas são em princípio capazes, o que talvez atenue ligeiramente a consternação e o susto. Estou, com frequência, sendo duas por dentro: a que acredita na força do final feliz que vive na maioria e a que já espera a sabotagem de uma minoria sacana, indiferente, ególatra, desregulada ou simplesmente má. Creio por natureza no melhor, mas constantes narrativas me educaram para a realidade de que o pior também existe; apenas não costuma ter a última palavra antes do the end. 

Conquistar o medo pode não necessariamente depender do gosto pelo terror ficcional, porém exige renúncia à exclusividade de arco-íris e unicórnios. A lógica é quase clara: se nos enclausuramos num universo de Ursinhos Carinhosos, o choque é excessivo quando o mundo real nos atropela a nuvenzinha; mas, se nossa dieta artística e midiática é equilibrada o suficiente para jogar luz em nossos abismos sem nos jogar dentro deles, ficamos já um tantinho workshopados, mais treinados e tranquilos para a hora de esbarrar com os verdadeiros monstros.

sábado, 4 de julho de 2020

Palavraria

Imagem gratuita: mão, colorido, luz, pele, corpo, laser, escuridão ...

Crônica é um texto delício porque é que nem parque da Disney vazio: você pode brincar no que quiser, tão repetida e loucamente como quiser, sem impaciência nem fila. Um dos espaços escritos (na prosa, ao menos) em que há maior fartura de legos e menos cercadinhos, menos monitores, menos manuais de instrução. A crônica é: me deixa. Me deixa aqui na minha Nárnia verbal, saltitando ou cavalgando em livre escolha, contando um causo da última semana ou as peripécias da bisavó Gertrudes, discutindo o energúmeno que preside os Estados Unidos (quem dera que SÓ os Estados Unidos) ou o último grito fashion de combinar a máscara com a roupa. Acordei na veneta de falar sobre a cor do porcelanato lá de casa, e daí? me deixa. Falo sim e, se cismar, ainda meto um latim no meio, ou uma língua da Terra Média. Acabou-se. Crônica – maravilha! – tem menos regras que o Clube da Luta, já que nada nos impede de falar sobre a crônica. 

Nem todas são palavrório, mas todas podem ser palavraria, uma sapataria gratuita de palavras: a gente calça e experimenta quantos termos desejar, da cor que der na telha, mistura pares, mistura saltos, bagunça os modelos, passeia, lasseia e customiza até servir – ou nem servir; o que nos impede de desfilar uma palavra que está dentro da margem de erro, duas sílabas para mais ou para menos? Não tem banca para examinar, não tem ABNT de butuca pra botar forma no que é puro amor e sacanagem linguística, não tem nem o compromisso firmado de interromper a trip e seguir com a história. História? Que que eu tava dizendo mesmo? Ah, sim, era sobre aquele dia na infância em que fui visitado pela fada do dente; mas esquece, não era nada não, vocês já repararam como em português a gente tem riqueza de construir sintagmas disparatados e lindos? "Ideia alagartada", "discordância preferida", "lampejo de parede jubilosa", "finura vibrante", you name it. Bem lembradamente, aliás: essas outras línguas vivas e mortas e inventadas entram também no baile; em se plantando, na crônica, dar-se-á nela tudo, por bem dos mimos que tem.

Más e boas línguas (vivas, no caso) dirão que é por isso que me encosto na crônica em preguiçoso serão. Estão certas. Se é sesta e festa, se é ensaio sem jogo, se é menos limitada que amarelinha por (em tese) não ter casa proibida de pisar, se é molecagem que corre descalça atrás das asas ligeiras das borboletas azuis, por que pitombas vou me enfiar em outra vibe literária – ou pior, imperdoavelmente: NÃO literária?? Nada, nada. Eu bem queria ter a paixão dos estudiosos que se emaranham num assunto e viram bibliografias respirantes, eu bem queria ter a veia genial do enredo que tece, tece, tece e desfia, desfia, desfia a seu bel-prazer; mas nasci desfocada e passarinha, rebelde às bordas e inadequada para trilhas. O mundo já dói tão compulsoriamente! Por que vou me mentir na maratona se só me sei feliz na esquivança, na clareira que não tem no mapa, no atalho com mais cheiro de flor e terra bruta?

Prazer: deslocada crônica. Me deixa.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Eu não sou uma sonhadora

HD wallpaper: spark, wonder, girl, woman, sparklers, dream, dreamy ...

A voz instigante da personagem Ângela, do romance clariceano Um sopro de vida, super me representa ao afirmar: "Eu não sou uma sonhadora. Só devaneio para alcançar a realidade". 

Não, eu não sou uma sonhadora, embora devaneadora sempre tenha sido. Desde criança não me concentro; as boas notas disfarçavam, mas, para cada dez minutos de algum estudo que prestasse, eu me alongava por três horas em outros mil passeios mentais: e se eu montasse uma casinha no quintal, e se descobrisse como fazer um tearzinho, e se fosse dona de uma escola diferente no futuro, e se arrumasse um jeito de mandar uma bonequita de papel em viagem pelo mundo. Mas não eram propriamente sonhos, vale notar. Metade era pura brincadeira cerebral que, como diria Lulu Santos, não tinha a menor obrigação de acontecer – e a outra metade eram algumas vontades, eram alguns projetos mais ou menos vagos, pensados muito mais como distração ou atividade imediata do que como necessidade do espírito. Em suma: ou eu divagava sobre coisas irreais demais para serem sonhos, ou me divertia simplesmente "decidindo" o que faria de fato. Ou eu espairecia pensando no irrealizável, ou começava a moldar o realizável. Não sonhava; pirava ou fazia. 

"Ter um sonho" – não sei como é para vocês – me soa curiosamente doloroso, por parecer um meio-termo que reúne o que há de pior no delírio e no projeto: é fundamental demais para se contentar com o primeiro e longínquo demais para caber no segundo. Sonho é uma necessidade que dói, e definitivamente não simpatizo com a dor. Quero querer o que posso efetivamente buscar por algum caminho, ou ajudar a construir com minhas pedrinhas, ou acreditar que as pedrinhas da coletividade se encaminham para construir; é raríssimo que eu perca sangue e sal desejando, em fogo, algo que more absolutamente fora de qualquer viabilidade, qualquer controle (talvez com uma única exceção: sonho ganhar na loteria, sonho ardentemente – até porque isso passaria para a gaveta de "projetos" alguns delírios). Juro, no entanto, que nada levo de pessimismo; ao contrário: por não achar apetite na dor, tendo a tomar o partido das possibilidades. Entre ser possível ou não, prefiro que sim. Entre ser esperável ou não, escolho que seja. Não sou nem a alma romântica que se muda para castelos inabitáveis, nem a que se gasta sofrendo pelo inatingível, mas sou a que confia alegremente em alternativas, criatividades, macgyverismos, portas ainda não abertas, estradas subestimadas, soluções. Nada de soluços.

Basicamente não sonho, creio eu: ou pretendo ou me distraio. E pretendo, firme, ver um país menos canalha quando ele tiver vencido e expurgado o atual círculo do inferno; pretendo ver abatidas as desigualdades que esta primavera das ruas começou a derrubar; pretendo ver o "governo" da morte tão arrancado de seu trono quanto as estátuas escravistas de seus pedestais; pretendo ver a falta de lógica espezinhada pela ciência, a verdade metendo o pé no peito das fake news, os mentirosos engolidos pela onda de consequências, os monopólios de comunicação quebrados pela maior experiência dos futuros líderes, as vacinas desenvolvidas em tempo recorde, os fascismos esmigalhados, os fascistas punidos, a história escrita e estudada em novos moldes, em novos termos. Não é de sonhar que se trata, nem de ficar à espera; não há tempo para o abstrato. Temos urgências. Sonho demora, sonho é etéreo, sonho a gente não controla, sonho é subconsciente, sonho se estende em "ahs", "ohs" e "ses", sonho cansa. Sonho é muito afastado. Sonho senta à janela para ver a banda passar e às vezes se atrasa demais para as coisas de amor. 

Não, não nasci para sonhadora; talvez para fazedora (de bocadinhos minúsculos) e acreditadora. Sou substantivo simples, comum, primitivo – mas concreto.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Estamos vendo alguma coisa acontecer

HD wallpaper: disney, castle, fireworks, night, illuminated ...

Falar da Disney é um mil-folhas verbal: camadas sobre camadas sobre camadas de questões puramente afetivas AND consciência de sua agressividade capitalista (se deixar, a bonitinha compra o mundo) AND fascínio pelas obras e parques e personagens AND reservas a respeito de seu criador manipulador e genial – tudo junto, embolado, com orelhinhas redondas na ponta. Eu, pessoalmente, amo há décadas o universo, me formei gente embalada nas músicas e desenhos; mas é de uma ultramegablastergigante empresarial que estamos falando, e não sou tonta nem tenho tendências de Mickey feiticeiro para ficar passando uma centena de panos, vassouras, esfregões. A Disney é maravilhosa e é um trator corporativo. É de um apuro estético inimaginável e de uma vocação preocupante para o monopólio. Um problema, enfim, para o psicanalista que ainda não tenho. Mas numa coisa a gente concorda, já dizia o velho comercial: a empresa de Mr. Mouse tem estado cada vez mais atenta ao sopro dos tempos, aprende velozmente a reconfigurar-se (e até dar risadas eventuais de si mesma, como em WiFi Ralph, Frozen, Encantada), acompanha criativamente o mundo. De Auroras e Brancas de Neve passivas – salvas por beijos masculinos não consentidos – a Moanas, Meridas, Elsas e Vanellopes solteiríssimas e 100% donas de si, a evolução é incontestável; ventos de feminismo e sororidade invadem lindamente as produções, há crescente valorização da diversidade étnica (a escolha de uma atriz negra para protagonizar A pequena sereia foi bola dentríssimo) e uma já tradicional cultura gay-friendly nos parques. Está looooonge do perfeito, mas vai caminhando, e não resisto a querer saber how far it goes.

O mais recente aceno à evolução foi a declaração de que a Splash Mountain, um dos brinquedos mais superclássicos nos complexos da Califórnia e da Flórida, vai ser todinhamente remodelada: saem os personagens do racistérrimo A canção do Sul, filme de 1946 que mostra os tempos de escravidão nos EUA de maneira romantizada, e entra a galera de A princesa e o sapo, primeiro desenho do estúdio protagonizado por uma jovem negra. Segundo a empresa, a mudança já era prevista desde o ano passado – e acredito que o fosse realmente, uma vez que a produção de 46 sempre recebeu duras e justas críticas, não ganhou VHS nem entrou ou entrará no catálogo do streaming; era há tempos o filho renegado e constrangedor da companhia. Ainda que a cúpula disneyana já não houvesse encaminhado o projeto, porém, deste ano ele não poderia passar sob nenhuma hipótese: não existia POSSIBILIDADE de uma aberração como A canção do Sul continuar sendo remotamente lembrada num mundo de primavera antirracista, um mundo que se dispõe com força a encarar e limpar feridas escancaradas pelo assassinato de George Floyd. 

É fato que, na Splash Mountain, não se encontravam referências diretas aos personagens humanos do longa maldito, aqueles que celebravam o período da escravidão de um jeito imperdoável; sobraram ali apenas os bichinhos animados e a musiquinha (chiclete e adorável, admito) "Zip-a-dee-doo-dah". A mera alusão à obra infame, entretanto, era já ofensiva, como aliás o são todas as homenagens aos propagadores de qualquer horror. Naturalmente a Disney – por mais antenada que se mostre – não se mexeu sozinha na mudança, foi pressionada por fãs e petição online, mas enfim ouviu e acatou a sugestão de trocar (a memória da representação de) afro-americanos estereotipados, estocolmizados, pela imagem da mulher negra empoderada, focada e decidida. É um pequeno passo para o Mickey, um big splash para a sociedade, já que o que nos constrói vem necessariamente do projetado, do amado, do vivido, do visto, do simbólico: mergulhar – literalmente – no mundo vibrante de Tiana, participar de sua realidade como heroína, é um aconchego de representatividade nas crianças negras, um convite irresistível de empatia, um tipo de materialização emocional do universo igualitário. E uma sinalização poderosíssima: afinal, Tiana vai ser um dos principais corações dos parques que são, por sua vez, os corações de seus complexos. Deixa a gente com um qualquer acalento no peito, como um abraço quentinho. 

Certo, ainda é pouco em termos gerais, mas seguimos, seguimos; isso é viver, é aprender. O que não pode nunca! é pessoa física ou jurídica fechar as orelhinhas, fingir que não viu lá na curva o que é que vem e fugir da construção deste (irreversível) whole new world.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Perfeitamente agora

Tempo, perdendo tempo, relógio Foto stock gratuita - Public Domain ...

Hoje faz 216 anos que o mundo ganhou minha adorada, minha bem-querida George Sand, mãe de alguns de meus maiores amores em forma de papel e tinta. Foi também o amor humano de gênios a fio, de Chopin a Musset, o que me parece dizer muito sobre a autora mesma: nenhum coração tão em carne viva é capaz de se enlaçar tamanhamente em outro que não seja da maciez, da extensão do dela. Sand era tão ardente, prodigiosa, terna na literatura como na vida, e é lastimável que tenha ganhado tão poucas traduções em português, em comparação com a fartura da obra. Por algum motivo francamente inexplicável, tem andado um tanto quanto esquecidinha em nosso século, o que amofina um bocado aqueles que acabamos ficando sem grande margem para amá-la confortavelmente em nossa própria língua. 

Me apego forte numa de suas frases que diz: "Nunca é demasiado tarde para seres aquilo que devias ter sido". É um diamante, é um aconchego de escritora nos relembrar que, até prova em contrário, temos todos o mesmo tempo – o daqui para diante. Se já fizemos e acontecemos de tudo em prol de nós mesmos, se já desde os primeiros botões de vida entendemos o que nos cabia ser e nos carrapateamos a toda e qualquer chance de sê-lo, muito bem, formidável. Aplausos da assembleia. Mas não acontece sempre, acontece até pouco, porque: não há vivências bastantes, do lado de fora, para endossar nossas impressões de dentro; ou há vivências que abertamente nos achatam e desencorajam; ou há aquelas que, mais ainda, nos agridem e traumatizam; ou há não opiniões alheias jogando contra, mas circunstâncias sociais outras, prementes, urgentes, esmagantes. Há de tudo, de tudo, para nos afastar de nós – às vezes um mundo inteiro para nos adiar e adiar e adiar até nos convencer de que nos adiamos irreparavelmente; e, no entanto, há também vozes como a de Sand para desmentir essa Síndrome de Estocolmo em que nos enfiamos e mandar a real: oh, please, ainda é hoje, não é amanhã; tome vergonha. Só acaba quando termina. Um dia, um mês em que se seja, na plenitude do termo, é infinitamente maior do que nunca. 

Claro que isso não é desculpa para mal-interpretar o dito e desandar insanamente a fazer besteira (que isso não é ser, isso é destruir-se, que vem a dar no efeito oposto), nem é desculpa para ir embarrigando os projetos por décadas, com a mentalidade torta de que "um dia vejo isso, lá mais para frente ainda não vai ser tarde". Não vai ser tarde – e morreu. Pensar que nunca é demasiado tarde é empurrão de usar no presente, não presta para enviar ao futuro; é para nos motivar onde estamos, não onde estaremos numa realidade imprevisível. Podendo, tendo os necessários ou suficientes elementos (improvisando talvez alguns), a hora é perfeitamente agora: hora de amar com a alma inteira, hora de voltar aos estudos, hora de virar o pai ou mãe que não se soube ser, hora de saber virar filho, hora de mergulhar na vocação que berra nas veias, hora de peitar as velhas fobias, hora de buscar tratamento, orientação, ajuda. Hora de oferecer ajuda. De voltar ao que causava sorrisos, de encarar a sério (no pós-pandemia) as viagens sonhadas, de desatar pendengas, de concluir pendências, de retribuir benefícios, de perdoar estragos, de germinar estradas, de brotar alternativas. É hora; bem right-nowzinho, bem agorinha, bem já. Não é demasiado tarde começar agora, mas é talvez impossível partir de depois.

Se ignoramos nossos prazos de validade, é para que sejamos atentos, porém estreantes perenes: todo dia está igualmente apto para ser o dia do sucesso estrondoso de um nosso eu inédito.