quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Mal sabem eles


Que loucuras nenhum conhecido em sã consciência (ou muitíssimo distraído) diria que você seria capaz de cometer, porém seria, e não apenas em teoria sonhadora? No meu caso, apesar de me dar bastantemente a conhecer por dentro nos textos e memes e posts em geral, galerão que só tem contato de vista e sala de aula ainda prefere se fiar no estereótipo da cidadã quietinha e insuspeita. Little do they know. Que cafonice, gente, essa história de cair com ar totalmente naïf no conto dos óculos e da saia rodada, como se um viking, um Lampião, um Avenger ou um Cavaleiro do Zodíaco não pudesse estar ali confortavelmente abancado. Quando começar o apocalipse zumbi e me virem por aí metendo flecha e peixeira nuns cérebros defuntos, não digam que eu não avisei. 

Um negócio que eu faria de boinha: toparia entrar numa nave (amigável, claro) como a dos Contatos imediatos e dar um rolê por tempo indefinido. Cês perderiam a chance de interagir por um período gordo com um povo tão cheio das evoluções? Eu é que não, quero mais é um MBA em processo civilizatório, sem pressa de aterrissar. Saindo do âmbito estelar para o subsólico: eu nem pensaria duas vezes antes de aceitar o amor do Fantasma da Ópera; jamais teria dado a mínima confiança para o pão dormido do Raoul. "Uai, mas você concordaria em morar nos subterrâneos de Paris com um cara deformado??" Que pensamento pequeno, galera; ÓBVIO que sim. Amo Paris, amo passagens secretas e amaria ainda mais alguém que nunca tivesse sido amado. Que importa uma questãozinha estética de nascença? please. Vacilou rude, hein, Christine.

Eu também não hesitaria meio nanossegundo em me jogar numa tirolesa que fosse de um lado a outro do precipício – tirolesa que por sinal existe, fica no País de Gales e é um dos meus sonhos de consumo. Se anunciassem a maior e mais demorante montanha-russa do planeta, eu iria. Se houvesse convocação para a guerra e as alternativas fossem deixar partir alguém que amo ou me disfarçar de homem à la Mulan, eu me disfarçaria. Se me oferecessem voar nas costas dum hipogrifo à la Harry Potter, eu adoraria. Se me propusessem atravessar uma sala de cobras ou aranhas balofas para ganhar um milhão de dólares, eu enriqueceria. Se abrissem para além dos profissionais de saúde o grupo de testagem da vacina anticovídica, eu a testaria. Se tivesse a vocação da cura e visse a chance de me juntar um tempo aos Médicos sem Fronteiras, eu embarcaria. E nada disso, no-waymente, por ser especialmente corajosa, mas apenas por haver tido uma de duas cordas específicas vibradas: o agarrar da oportunidade que talvez não retorne e a necessidade premente do outro.

Em contrapartida, mesmo o que é sonho dos sonhos em outras leituras de vida soa, para mim, como um não inafiançável; tipo: faço a maior tirolesa das galáxias, cruzo um circuito topzão de arborismo, mas dirreininhum escalo coisa alguma. Danço rumba num agrupamento de serpentes por um milhãozinho, mas não me disponho a ter filho nem por cinquenta vezes isso. Moraria feliz com o Fantasma da Ópera nos esgotos, mas JAMAIS com um sultão entre suas farturas – e menos ainda com alguma criatura de berço ou de educação americana e europeia, onde quer que fosse. Voaria num dragão, num hipogrifo, numa vassoura, numa caixa de sapatos, num hipopótamo, mas NEM MUERTA no jatinho de um Donald Trump e seus pares. Doaria alegremente um rim a alguém necessitante, mas nem dez segundos de vida à presença daquele ser que nos desgoverna. Seguraria uma barata na mão, mas nunca de núncaras apertaria a mão desses equívocos-em-chefe. Mil vezes mais provável, inclusive, vestir um saiote fabuloso na barata e ensinar-lhe todos os passos do cancan. E da rumba. Entre serpentes.

Não é que eu seja, pois, mais ou menos inclinada para gestos ardentes, impulsivos, temerários; tenho simplesmente, como todos têm, aquela escalazinha customizada que vai do "Cool! Quero e quero agora!" até o "Nem em um milhão de anos", passando pelo "Seria uma honra fazer isso se fosse inevitável", pelo "Só faço se a outra opção for pular do Kilimanjaro" e outras demarcações tais. Somos, em realidade, um coletivo de individualidades bem precisas, um balaio de idiossincrasias que a capa não revela, de heroísmos que o traje civil não denuncia, de Supermen e Superwomen que os óculos, a gravata, a saia rodada, o paletó não deduram, mas estão ali pairantes, de tocaia. Todos, toooodos somos isso; essa realidade mista e maluca que congela diante de uma lagartixa e é capaz de garrar jacaré na unha pra salvar um transeunte, ou não pisa nem na espuma do mar e discursa para multidões nadando de braçada. Paradoxais? Todo dia. Previsíveis? Não tanto quanto os rotuladores gostariam para seu sossego quentinho.

Entre a ensimesmada que fala pouco e a doida que voa de uma ponta à outra do abismo em posição de águia, sou exata e coladinhamente as duas. Entre o combo das duas e o carimbo de classificação que lhes tentarem apertar sobre a pele, já vai um Kilimanjaro de distância.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Dificuldade adquirida


O ensaísta francês Joseph Joubert tem, sobre a escrita, uma frase que adoro: "Para escrever bem deve haver uma facilidade natural e uma dificuldade adquirida". É assim, precisamente. A parte da facilidade natural eu creio não gere questionamentos; é raro topar com um escritor que de alguma forma não o tenha sido sempre – não tenha enchido diários e cadernos e páginas de redação num borbotar mais ou menos espontâneo e farto, por mais que defeituoso. Assim como os dotes para música, desenho, esportes e outrices, normalmente a mania da escrevinhação se manifesta cedo, às vezes nem no papel mas nos lábios e olhos de fazer frase, fazer rima. Isso o lado da nascença, que é fonte bruta (o "ouro nativo", a "ganga impura" de Bilac), destrabalhada, rebelde; a forma bela e insuficiente. O minério recém-colhido. O potencial. Sobre o potencial in natura, entra a dificuldade adquirida: hora de voar aresta para todo lado.

Quem escreve adquire dificuldade lendo o escrito pelos que adquiriram dificuldade. A dificuldade é a necessária, a indispensável dúvida: começa-se a pôr desconfiança e limar excessos de inocência no que se derramava num jorro e assim ficava, desorganizado, ocasionalmente tosco, filhote de cisne que podia dar em lindeza mas não passava dum ensaio despenteado de elegância. Quando se lê, e lê, e lê, e lê, e se conhece o cisne, já não se projeta vaidosamente o cisne naquele patinho cambaleante que depositamos no ninho. Para cisne, falta tornar-se; falta perder o irregular da plumagem, o descabelamento, a cor indecisa que não vai nem vem, e assumir seu rumo cromático definitivo; falta acertar o ritmo claudicante, ganhar envergadura no estilo e na proposta, levantar pescoço – ser tão mais ousado quanto mais atento ao predador e à presa, atento ao ambiente, aos exageros e às carências, aos buracos e às repetições. Não é porque palavras furaram a casca, não é porque andam e quackeiam no papel, que a ave se cumpriu. Escritor é ave que (na própria opinião) não se cumpre. Morre e ainda considera que não houve dificuldade suficiente no voo, que muitas alturas faltaram, que da ponta à ponta da asa podia ter havido mais impulso, mais diâmetro, maior cobertura. Escritor pode ser medalhista de ouro em pódio olímpico e still ser atleta descontente, com a impressão confessa ou inconfessa de que há músculos seus com lesões imbastantes.

Adquirir dificuldade é lida que não acaba (e abrace lida em quantos sentidos quiser). Sinônimos hão que ser escavucados, já que termos traiçoeiros escorregam do hábito e se repetem à traição; frases que soam perfeitamente lógicas na segunda aparecem dúbias e quebradas na terça; pleonasmos nos fazem corar, os devassos; mesmo quando obedientes à gramática, concordâncias arranham o texto, sapateiam, embirram e só param com a manha se toda uma sintaxe é reestruturada a seu gosto; rimas surgem de penetra e somem em caso de convocação; o que é dito ameaça desdizer-se no depender de uma vírgula à esquerda ou à direita (ou travessão? ou parênteses?). Uma vez que vai estudando para dificultar a vida, que vai treinando a vista para o desassossego, que vai amadurecendo o jeito de não ser mais, o escritor adota inconscientemente como hard a escrita do início, a excessiva falta, o muito descuido; amolda-se à sofrência a ponto de (em certos dias) não identificá-la. Já não há facilidade senão a enrustida, nem dificuldade senão a declarada: é tudo um só amálgama de esforço, alegria, dança e suor chamado estilo – esse refogado de carnaval com sessão da Câmara. 

Tem moleza nesse ofício-rapadura não, e nada o descreve melhor que o polissíndeto gentilmente emprestado por Bilac à minha heresia: escritor trabalha, e teima, e lima, e sofre para saber qual é a sua.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Síndrome de Bela Adormecida


Cês lembram um comercial de (não sei mais do que era) em que a senhorinha chegava animadíssima, trazendo um pacote?, e tentava uma comunicação entusiasmada com o senhorzinho seu marido:

– Adolfo! Adivinha o que eu comprei! Um aparelho de som!!

– Heeeeein??...

– Som! Vitrooooola!

– Heeeeeeein??...

– AQUELE aparelho de som que a gente está juntando dinheiro desde o nosso casamento! Comprei!!

– Heeeeeeeeeeeeein??...

Se o comercial em questão já deve estar em suas bodas de prata, o casal protagonista já passara facinhamente das de ouro quando a esposa de Adolfo enfim conseguiu levar a vitroooola. Eu adorava a campanha, ria e ria me-dobrantemente e, como se vê, memorizei para a vida o "diálogo" mais hilário da publicidade brasileira (se é que as palavras que ressoam cá dentro ainda correspondem ao texto original). Mas, apesar das gargalhadas robustas que dávamos do contexto nonsense, da velhinha eufórica com uma compra que não combinava exatamente com a acuidade auditiva do marido, a coisa era triste, era até filosófica; o sonho, afinal, viera tarde demais. Ou acredito haver uma leitura ainda mais desoladora: no agarramento com o sonho de sempre, a adorável senhorinha não soubera adaptá-lo a novos formatos, não soubera mudá-lo ao mudarem as circunstâncias – talvez sequer tenha percebido com inteira consciência que as circunstâncias haviam mudado. 

Existem desses, e como: os encapsuladores da realidade em saquinhos leváveis ao freezer e a qualquer momento descongeláveis com o mesmo sabor, cheiro, textura; como se o portador e futuro realizador daquele desejo cristalizado entrasse igualmente no congelador e ali se mantivesse, tão isento quanto possível das erosões e influências do tempo, tão magicamente preservado de corrupções quanto sua suposta vontade inalterável. É uma ideia simpática como o são as ideias românticas, essa síndrome de Bela Adormecida que permanece encantada e sólida até que um beijo de ocasião feliz a libere para viver seus finalmentes; no entanto, still ideia – apenas ideia. Na nhanha, no aquém dos contos de fada, ninguém congela não, nem jurando forte: corpos oscilam nos fazeres e nos quereres, formas decadentes se transformam em Mumm-Rás, Mumm-Rás se transformam em formas decadentes, dificuldades ligam e desligam. Cabe apegar-se, dos 5 aos 87 anos, ao mesmíssimo sonho de virar primeira bailarina, medalhista de ouro, ganhador do Oscar de melhor ator, mesmo tendo quebrado 53 vezes o braço ou a perna e jamais ter interpretado nem noivo de quermesse? Cabe empenhar a poupança desejística de uma existência todinha naquela aspiração que já caducou de validade, naquele investimento que suas ambições atuais nem mais reconhecem ou escutam?

Cabe, somente, se somente tempo houver passado – só a cronologia oficial, a de fora, a dos outros, a menos crucial. Se por dentro o talento, a motivação, a ânsia, os instrumentos físicos básicos estiverem inalterados, ainda temos um sorridente quem-sabe. Mas normalmente não estão. Normalmente, todo o pacote inscrito no correr dos anos (leituras, encontros, estudos, viagens, insights, experiências) agita com força as metas antigas, aperta frequentemente nosso F5, e não há por que nos sentirmos em falta se escalar o Everest ou publicar um livro de culinária saíram por completo do radar. Não é que tenhamos amarelado, não é que tenhamos desistido e, em consequência, superalimentemos uma frustração gorda; não, os objetivos candidamente se atualizaram, prioridades nasceram, nos demos conta de que relevante mesmo é sentar com família e Netflix comendo pipoca, ou aprender outra língua, ou publicar um livro sim mas que nadíssima tem de culinária, o negócio é poema com fotografia. E tudo bem, não há autotraição no amadurecimento honesto – ao contrário: tende a ser muito mais insalubre recusar-se a mexer no armário de velhas impressões, muito mais arriscado submeter-se ao que quer que nasça ali dentro de roedor e corrosivo. Existe uma alegria imensa em arejar pensamentos de quando em quando, ainda que seja para repô-los nas gavetas após sujeitá-los ao sol. 

Mais de duas décadas depois, continuo na torcida por Adolfo e sua abstrata esposa; que tenham, por exemplo, cambiado a vitroooola em dois passaportes e duas passagens, que tenham se jogado numa aventura realmente conjunta. Não faltam jeitos F5 style de conhecer todas as bandas.

domingo, 4 de outubro de 2020

Monstros exemplares


Vou tentar resumir tão bem quanto possível a matéria interessantíssima que linko aqui. Basicamente diz que: de modo geral, o mundo sempre olhou com aprovação as pessoas de grande autocontrole, que tendem a praticar mais exercícios, comer mais saudável, evitar usar drogas, ser melhores alunos e funcionários, praticar menos crimes, essa lindeza toda. Lá pelos anos 2010, entretanto, o pesquisador Liad Uziel (da universidade israelense Bar-llan) se pôs a testar a hipótese de que o autocontrole é simplesmente um meio utilizado para alcançar bons ou maus fins, e procedeu a um experimento – o "jogo do ditador" – em que o participante recebe uma grana e pode, se desejar, compartilhá-la com outra pessoa. Segundo Uziel, normalmente os "jogadores" liberam pelo menos um terço da quantia para o coleguinha, porque é socialmente fofo dividir; mas olhem só que significativo: os mais autocontrolados eram dadivosos apenas se achassem que alguém iria julgá-los mal no caso de serem egoístas; se tivessem a certeza de que ninguém iria saber, eram muito mais sovinas do que os poucontrolados e embolsavam praticamente tudo. Feio, feio, feio.

Outra pesquisa que não pegou naaada bem para a galera disciplinada e contida: na universidade australiana de Nova Gales do Sul, o psicólogo Thomas Denson chamou um povo para (ARGH) colocar insetos num moedor de café, dizendo que "o objetivo era compreender melhor certas 'interações entre humanos e animais'". Os voluntários não sabiam que a versão miniatura dos Jogos mortais era, na verdade, construída por um Jigsaw do bem, e que os bichinhos conseguiam escapar antes de serem massacrados; só o que ficou de assustador foi o ruído que o troço fazia enquanto os insetos eram supostamente moídos. Pois mesmo com esse barulhinho do inferno os participantes autocontrolados mandaram bem no concurso para psicopata, obedeceram com preocupante mansidão aos cientistas e se mostraram ótimos exterminadores em potencial. Bem parecidamente com os integrantes de um jogo experimental realizado há alguns anos na França – um falso episódio-piloto de um programa que se chamaria La zone xtrême –, e baseado nos experimentos de Stanley Milgram na década de 1960 (em que se testou o quanto uma pessoa seria capaz de aplicar choques elétricos em outra, caso a "ciência" pedisse). No jogo francês, foi dito aos participantes que eles formariam pares, sendo um o "interrogador" e o outro, o "concorrente"; o primeiro deveria dar um choque no segundo a cada resposta errada, e ir aumentando progressivamente a voltagem – até chegar a mais que o dobro da que existe numa tomada europeia. E não deu outra: mesmo sem nenhum prêmio prometido para a dupla "vencedora", tome choque e choque e choque e choque; nem gritos (forjados) de dor vindos da outra sala impediram a crueldade, principalmente dos mais disciplinados e menos impulsivos. Laurent Bègue, psicólogo que analisou a desgraceira, mandou a real: "Pessoas acostumadas a serem organizadas e dóceis, com boa integração social, têm mais dificuldade em desobedecer". Ouch.

Ouch, sim, mas sinceramente: nenhuma surpresa. A equipe de Bègue, eu e qualquer outra criatura que tenha lido até aqui automaticamente fizemos a relação com a "banalidade do mal" de Hannah Arendt – verdade ou não? Impossível negar o que tantos estudos corroboram: indivíduos que se atam e se atêm apaixonadamente ao rigor das normas tendem que é uma beleza a usar essas mesmas normas como pretexto para as maiores perversidades. Os "certinhos" que temem dar um pio em protesto, que não discutem uma vírgula com o chefe ou professor, que viram para o outro lado porque não é problema seu, ele deve ter merecido, que deduram o colega sem grandes questionamentos, que "não criam problemas", que se ajoelham ante as regras pelo fato de serem regras, que não elaboram crítica autônoma, que agem com a irrepreensível brutalidade de um Javert – todos os conhecem; na Bíblia, aliás, eram aqueles fariseus severíssimos no seguimento da lei, tão severos que esqueciam constantemente o detalhe de ela ter sido criada para o homem e não o contrário, conforme Jesus bem apontou. Os "certinhos" se escandalizavam com o jovem nazareno rebelde que ousava pôr a caridade acima das conveniências, curava gente no dia "errado", andava com pessoas de má fama e ligava ZÍROU para as opiniões de superfície. Os descendentes morais desses "certinhos" não incomumente usaram sobre o peito, ao longo dos séculos, a mesma cruz em que teriam pendurado o jovem nazareno; não raramente se tornaram soldados-modelo que apenas obedeciam às ordens e atiravam sem hesitar na cabeça de humanos parecidos com o jovem nazareno. Como é confortável ser um monstro quando se tem de ser – quando foi ele que mandou!

Não é que todos os "pilares da sociedade" vão se tornar serial killers na primeira brecha, óbvio, mas estudos como os citados dão um quentinho no peito ao ajudar na justa valorização dos que CRIAM problemas para um sistema doente, dos que não se conformam em abaixar a orelha se SABEM que é um burro que fala, dos que não se encaixam em moldes escabrosos de hipocrisia, dos que portam o pensamento crítico como arma e não têm medo de usá-la. É evidente que, pela mesma lógica que impede os pilares de serem sempre canalhas, os caóticos e outsiders também não são sempre santos; conta bastantíssimo a seu favor, porém, a muito maior flexibilidade em considerar o lado do outro, a beeeem maior disponibilidade para não endeusar a própria reputação, o muito menor apego a simpatias e julgamentos sociais dos quais já nada esperam. Entre um autocontrolado que se alimenta da consideração alheia e um poucontrolado brigão e questionador, sei lá, mas creio que meu coração preferiria ficar no time daquele que estivesse menos inclinado a parar seus batimentos. 

(Na maioria das vezes, coincide com quem tem menos a perder se deixar de apertar um botão.)

sábado, 3 de outubro de 2020

Pequeno compêndio de coisas grandemente irritantes


Torneira que precisa de full contato com a mão para girar. Controle remoto que carece de palmadas para reagir. Barbante que engata na rodinha da mala. Papel alumínio que vem com manchas suspeitíssimas. Papel higiênico que sai do pacotão econômico com o rolo achatado. Maçã farinhenta. Massa molenga. Videochamada. Pronunciamento daquela criatura no meio da novela. Tubo de pasta de dente que rasga do lado. Shampoo que vaza durante a viagem, mesmo embalado como uma amostra do ebola. Palavra que é perfeita no texto, mas faz rima indesejada. Alergia. Furadeira. Gente em fila de mercado que apoia o cotovelo no nosso carrinho. Detergente que faz que acaba, quase acaba e não acaba. Bichinho da luz. Cabelo no chão. Obra no vizinho. Festa no vizinho. Futebol no vizinho. Fonética e fonologia. MANCHA em roupa (ódio, ódio). Horário da NET 132% desencontrado dos programas que estão efetivamente passando. Filme dublado. Série dublada. Coisa que só passa dublada.

Personagem que fala sozinho e dá altas explicações para si mesmo. Gente que papeia em grupo no metrô. Gente que insiste na piada do pavê (apenas parem, eu imploro). Gente que prevê ou explica cada maldito frame no cinema. Fiozito de cabelo solto – presente o bastante para amofinar a pele e fiiiiiino demais para ser capturado. Chave que se emaranha na própria argolinha. Película de produto que se subparte em 8.413 tiras aleatórias. Música inconvidada que fica tocando num carro de som do pensamento. Garfo que escorrega inteirinho para o molho. Pulinhos que o olho dá de vez em quando. Leite e café solúveis que não são tão solúveis. Casais que nunca escolhem os imóveis claramente melhores nos programas do Home & Health. Pontinha de durex que humilha a camuflagem do exército em termos de invisibilidade. Lojas que nos impedem a alegria do garimpo solitário. Sites que atualizam no meio da leitura. Calças que marcam (ora, o quê. Tudo). Branquice que o chocolate ganha na geladeira. Mangas compridas molhaditas na borda. Tupperwares pós-molho de tomate. Imagens faiscantes de bom-dia. Clichês. Pop-ups. 

Não poder escolher com o que se sonha. Usar band-aid no dedo, senti-lo perigar a qualquer movimento, ficar com a pele local tão enrugada e pálida como se emergisse da Transilvânia. Deparar-se com o dinossaurinho que anuncia, sádico, a ausência de internet (OK, acho fofo vê-lo piscando). Receber solicitações facebookas de seres que não abrem a timeline para uma análise básica de perfil. Achar O meme para o compartilhamento DA VIDA, mas com erro gramatical que atira no baço à queima-roupa. Achar a blusa DA VIDA no brechó, mas para um você de quinze anos atrás. Achar bolha após a aplicação do contact. Não saber onde carambolas guardou o papelzinho (sempre há um papelzinho). Não saber por que dói. Não conseguir localizar o epicentro da coceira. Jurar que hoje sim vou dormir cedo e ser abduzido por uma série policial às 2h04 da manhã. Se perder no quinto asterisco da senha e digitar tudo de novo. Trocar a senha esquecida pela exata senha esquecida. Ler texto de lista. Caçar itens para texto de lista. Estar às 4h16 na sala, sem arrematar o texto de lista, com música inconvidada tocando bumbo, fagote e cavaquinho no pensamento.

Ainda ter de encontrar o papelzinho.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Las hermanas

Declaro para os devidos fins que estou inadimplente com relação a Joaquín Salvador Lavado Tejón, o Quino, e seguirei eternamente impossibilitada de pagar o impagável. Eu não haveria, como sou, se Mafalda não tivesse havido: amor de infância que ajudou a gerar minha versão de alma adulta.

A história com Mafalda começou numa coleção de livros de psicologia infantil que pertencia à minha mãe e que – entre páginas sobre desenvolvimento, nutrição, brincadeiras, trabalhos manuais e a carambola a quatro – contava com várias tirinhas da pequena cabeluda. Eu passava horas folheando os volumes de capa dura azul, gostando dos muitos assuntos e, de quebra, sendo apresentada àquela nova melhor amiga, que não era ainda famosíssima no Brasil, especialmente em tempos pré-internet. Cresci lendo Mônica, Luluzinha e outras tantas; adorava, claro – não as excluí; mas a argentinazinha sem papos furados na língua era diferenciada, flechada certeira. Em algum Natal da adolescência, pois, meus pais me deram um dos maiores presentes de todos os séculos: o livro Toda Mafalda, que me fez atravessar a noite com centenas e centenas de tirinhas da fofa pela cintura, subindo para a altura do queixo e finalmente me afogando de deslumbramento. Eu era toda Mafalda.

Era também (quase) todos os demais integrantes da turma, principalmente o imaginativo e preguiçoso Filipe, a minúscula e combativa Liberdade, o caçulinha Guile – gourmet de terra e apreciador de chupetas on the rocks –, os pais amorosos, esforçados e perplexos; em menor escala, o ingênuo Miguelito e suas questões nonsense; com quase nenhuma simpatia, a egoísta e futriqueira Susanita e o burro, bruto, protofascista Manolito (de personalidades constantemente detestáveis, mas fundamentais para boa parte do peso criticômico das histórias). Leitura após leitura, incorporei de tal modo o texto genial de Quino que até hoje, se alguém mencionar uma tira aleatória, descrevo-a e completo-a sem dificuldade: ah, é aquela que diz assim, assim e assim. Eu e minha irmã temos, como referências comuns, diálogos mafaldos inteiros, que repetimos com ternura ou às gargalhadas. Ainda como aluna no curso de inglês, cheguei a falar da cabeludinha num show and tell, com direito a algumas tirinhas devidamente traduzidas; como professora de português, uso-as em provas sem moderação (ALGUM professor não usa?); tive camisetas da hermanita antes de ser modinha; usei bolsa estampada com sua famosa versão sonolenta; comprei um toy de pano da personagem como um dos primeiros objetos de decoração para o endereço pós-casamento. Só não fui ainda agarrar a pequena heroína em seu banquinho de Buenos Aires porque, quando planejávamos fazê-lo, veio uma tal pandemia e botou mosca na sopa – o que não deixa de ser uma digna ironia mafáldica.

O abraço na estátua ainda não chegou; mas precisa? Enlaçada, enleada, engajada já vivo há décadas no monumento-mor de Quino, na obra-prima de análise social, humor, encantamento, doçura que o traço do gênio esculpiu nas Américas. Nem posso, nem podemos imaginar quantas partes de nós não existiriam se Joaquín Lavado não nos tivesse feito o que sugere seu sobrenome – não nos tivesse enxaguado a alma com a força e a sabedoria de nossa jovem musa latina. 

Choramos todos por ele, Argentina.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Raio eternizador


Foi um instantinho breve e (ao menos para mim) comovente aquele em que minha xará, participante do mais recente episódio do MasterChef, respondeu com lindeza ao chef Henrique Fogaça a respeito do motivo de estar chorando: "Estou aproveitando este momento para eternizar o fato de eu estar nesta cozinha hoje, chef". Achei simplesmente fabuloso que a competidora tenha verbalizado com tanta precisão e candura a sensação de reservar um minuto para emocionar-se, para apenas se embebedar daquela alegria em estado puro que veste as ocasiões solenes. Não solenes pelo aparato ou pelas conveniências externas, que contam poucos pontos por dentro, e sim por um pedacinho de maravilha que o coração encontra no formato de gema, de pepita, e na dimensão intransferível que só ele mede, só ele vê. Nossos fatos eternizáveis são particularíssimos; às vezes coincidem sim com realizações publicamente grandonas – feito a da Fernanda cozinheira, que não somente estava participante como foi vitoriosa na competição gastronômica mais famosa do Brasil (embora tenha chorado bem antes de chegar à vitória) –, mas se vinculam à consciência da coisa, não à coisa em si. É a lembrança da primeira cena do "filme" e a impressão de estar no clímax; é o fenômeno The Flash, em que o mundo parece rodar em câmera lenta e nós sentarmos num cantinho, em contemplação muda; é a adrenalina do point of no return; é a serenidade livre de quem de repente se vê de férias, já que um ciclo se fecha e o calendário foi rebootado; é o apreensivo alívio de quem constata não estar dormindo, o universo ao redor tem mesmo ruído, cheiro, toque e acontece em tempo real. É uma pocket avalanche, uma tsunami portátil da qual a gente faz foto ou vídeo mental para grudar no álbum que nos define.

Uma dessas "eternizadas" espontâneas me bateu ao entrar no Cavern Club, bar de Liverpool em que os Beatles começaram a estourar – e que também me explodiu em lágrimas à primeira descida de escadas, como se eu acessasse território sagrado. Confesso que, apesar de fã de anos do quarteto fantástico, nunca fui tão ardorosa a ponto de esperar reagir dessa forma ao pub icônico; mas vejam só, a gente se dá susto. A gente não tem plena ciência de alguns significados nossos que moram na realidade profunda. O caso é que fiquei focando e tocando os cantinhos da casa com uma espécie de transe e os olhos úmidos, tentando absorver de todo o fato de ser abraçada por paredes históricas (mesmo que reconstruídas, parece – o que não modifica em nada a energia local). Não é necessário que o raio eternizador desça tão epifânico, porém; ainda que mais contido e voluntário, vem como um print amoroso, reverente, daquele determinado marco no tempo: um olhar que prega uma tachinha em nosso mapa, o carimbo de um país emocional visitado. O fundamental é que, pelo menos numa mínima porção desse processo de registro, seja acionada unicamente nossa polaroid interna; nada de selfie pro Whats, nada de consumição pela foto perfeita para o porta-retrato da sala, nada de obsessão pelo melhor ângulo de filmagem – memória, somente; memória se construindo sensorial, anotando os aromas, dirigindo ternura aos últimos raios do dia maravilhoso, apertando com lucidez a experiência contra o peito, carinhando-a, sorvendo-a. Memória arrumada para festa. Memória se vendo no espelho em traje de gala. 

Toda ocasião memorável é de gala, por mais que o painel da foto seja o corredor de casa numa terça-feira de desaniversário. É preciso eternizar esse corredor, se o filho improvisou ali uns primeiros três passos; é preciso eternizar o último passo com que se adentra uma escola como aluno; a última olhada para o hotel no táxi rumo ao aeroporto; o último clarão espocado de um show de fogos da Disney; o último frame de um filme que deu nó no entendimento da vida. É preciso eternizar os dias de escolha: do sofá, dos padrinhos, do filhote, do noivo, da faculdade, da cidade, do nome do bebê. É preciso eternizar o abraço no ídolo, é preciso eternizar o "Hey, Jude" cantado em coro no show, a visita à locação da série favorita, o desfile da melhor amiga em direção ao altar, a refeição inaugural na casa nova, a palestra que gerou cócegas profissionais, o barulho assombrado das crianças na manhã de Natal, o banho de chuva, o bolo feito caoticamente em família, o formigamento da decisão certa, os acordes iniciais daquele musical no teatro, as páginas finais daquele livro arrasa-coração. É preciso eternizar o que houver de revolucionário e genuíno, o que assinalar qualquer "antes" e "depois", o que rearrumar em nós qualquer gaveta, qualquer conceito, qualquer categoria de existência. Tudo, perfeitamente tudo que for uma transição sensível. Tudo que entrar com porcentagem visível em nossa composição. 

É preciso emoldurar os bocadinhos de momentâneo que nos constroem para o eterno.