segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Holotúrias


Essas do título equivalem aos equinodermos chamados pepinos-do-mar. Pesquisei por causa dos versos ao mesmo tempo barítonos e aveludados de Wislawa Szymborska, que nos instrui em "Autotomia": "Em perigo, a holotúria se divide em duas:/ com uma metade se entrega à voracidade do mundo,/ com a outra foge.// Desintegra-se violentamente em ruína e salvação,/ em multa e prêmio, no que foi e no que será.// No meio do corpo da holotúria se abre um abismo/ com duas margens subitamente estranhas.// Em uma margem a morte, na outra a vida./ Aqui o desespero, lá o alento.// Se existe uma balança, os pratos não oscilam./ Se existe justiça, é esta.// Morrer só o necessário, sem exceder a medida./ Regenerar quanto for preciso da parte que restou". Há mais, há mais no poema (cuja translumbrante versão para o português foi feita, salvo engano, pela professora Regina Przybycien), e eu gulosamente amaria reproduzi-lo todo, caso não ficasse feio aqui um tal abuso de linhas não minhas; mas não o trago na íntegra também para poder parti-lo solenemente, como as holotúrias, nessa margem dramática – "Morrer só o necessário, sem exceder a medida./ Regenerar quanto for preciso da parte que restou". Tatuem. Eu tatuaria apaixonadamente, se.

Como estamos precisando para ontem, para anteontem, dum workshop de morte-só-necessária, dum ensino aprofundado de metade fuga, metade entrega à voracidade do mundo! Como carecemos, céus, dum manual de partição psicológica que simultaneamente nos deixe cascudos para o absurdo e resguardados na inocência! Não há sobrevivência sem adoecimento mental, me parece, se não formos capazes de ser holotúrios: reservarmos uma parte de nós para estar impávida colossa, recebendo os trancos e encarando as tretas deste mundo pandêmico, e outra parte para preservar finíssimos e transparentes os modos de ninfa. Uma face injetada com o soro do Capitão América, forçuda, inabalável, não atingível nem impressionável por bombas de efeito moral na lei ou na rua – máquina de seguir em frente, desatarraxada das próprias dores, focada e absoluta no que há a ser feito; a outra face nutrida a pó de fada, íntegra em sua faculdade de alar(-se) com pensamentos felizes, moldada de açúcar, sensibilidade e afeto – monstro de amar, chorar no cinema, chorar no noticiário, amimar filhote, distribuir no jardim pegadinhas de Coelho da Páscoa. Porção Rambo para um hemisfério da rotina, porção Amélie Poulain para o oposto, sem conflito e sem hipocrisia: enfim, a evolução.

Conseguem? deveríamos, mas é ingratíssimo atingirmos a composição psiquímica para chegar à arte do desdobramento. Dizem que as personalidades psicopatas alcançam, de boinha, um assombroso estado de dissociação, logrando ser o pagador de impostos insuspeito e o potencial estripador no mesmo pacote; isso, porém, só se realiza por não haver duas faces, e sim uma face e uma máscara – a crueldade legítima, gelada, indiferente, e a fachada social que é simplesmente casquinha. Não há divisão, há um acobertamento do que se sente; nada se dilacera de fato em termos emocionais, nenhuma lógica interna se rompe, e em vez de se bipartir holoturicamente a criatura, no máximo, troca de pele. Não vale. Nosso objetivo de aprendizes de holotúria, conforme falei, não é o de nos fazermos hipócritas, mas equilibrados e racionais o bastante para afrontar a luta sem sofrimento e existir fora dela sem amargura. Morrermos um bocadinho sim; só o estrito necessário, no entanto, para proceder ao corte de independência entre nossas partes igualmente reais e siamesas, a fim de que cada porção sobreviva de sua própria respiração e metabolismo, mesmo à custa de algumas cicatrizes cirúrgicas. Em seguida nos regenerarmos dessas mutilações precisas, esquecendo o mito platônico à medida que as metades se tornem operacionais em sua inteireza. 

Sermos, finalmente, criaturas divorciadas de nossa multidão particular – até que a morte nos una.

domingo, 6 de dezembro de 2020

A paz possível


A paz sem vencedor e sem vencidos. É o que Sophia de Mello Breyner Andresen pede, orante, em seu poema: a paz sem vencedor e sem vencidos. Sim, abraço-a e desejo-a tanto quanto, sabendo porém que seria a paz talvez imbuscável na Terra, limpa de lembranças, de suspeitas, de remorsos; a paz impossivelmente nua de história, a paz de um mundo resetado, em que nem a primeira disputa de opinião ou terreno tenha havido; a paz como projetada para uma humanidade em estado de conceito, uma humanidade botãozinhamente desligada de suas incompreensíveis pulsões. A paz prévia. A paz do Big Bang.

Como recuar as biografias, as batalhas, os enredos, as vivências com eficácia bastante para que vitórias e derrotas parem de estar no tempo? Como desexistir memórias, como desconceber no berço as vinganças, como destramar o que por milênios se constituiu sobre perdas e ganhos? De que maneira fazer essa paz mítica (sonhada por mim, por vós, pela voz da poeta) rebentar dos escombros como se não tivesse de arrebentá-los – como se NÃO HOUVESSE escombros? É tarde, é excessivamente tarde para a paz comme il faut, aquela de unicórnios saltitantes, ilibada e a-histórica: para onde olharmos, estaremos edificando sobre ruínas. Entre o que deveria ser e o que é, aconteceu o mundo.

Jamais teremos (ao menos nós não teremos), na superfície terrestre, a paz vestida de perfeição – somente a que surgir viável e cabível. Uma vez que não podemos retroceder a História, nada resta senão acolhê-la e compreendê-la em todos os trâmites; ignorá-la em nome de um desvario de harmonia universal é o que poderia haver de mais perverso. Sim, ocorreram e ainda ocorrem escravidão, nazismo, fascismo, imperialismo, capitalismo, racismo, apartheid, bullying, homofobia, tortura, ditadura e todas as semelhantes/derivadas desgraças; sangraram e ainda sangram (abertas as veias, sangrarão eternamente); e porque ainda sangram, ensoparão qualquer tentativa de bandeira branca que ignore sua pulsação e seu fluxo. É simplesmente inútil pretender que cada paz nascida a partir de agora não traga na seiva tudo que se lhe embrenhou pela raiz. É inútil se fazer incomodado porque âââin, bola pra frente, já foi, já deu, vamos deixar no passado toda a oceanidão de dor e reiniciar da tábula rasa. Não há tábula rasa: toda a narrativa que gerou o atual momento da espécie só abandonará a espécie sob influência do neuralizador dos Homens de Preto, e olhe lá, talvez nem. 

Irremediavelmente, precisaremos trabalhar com uma paz que abrace e inclua vencedores e vencidos; eles e seus descendentes. Precisaremos assumir o perrengue de conciliar um mundo irresetável. A paz possível vai ser, em igual medida, a mais complexa: terá de contar com perdões pedidos e dados, com reparações históricas urgentes, com cicatrizes sempre a um passo da hemorragia, com palavras sempre a um milímetro da borda, com acordos obtidos a muito custo e mantidos a custo inda maior, com dolorosas mas necessárias repressões a tudo quanto insistir em rasgar a paz sofridamente costurada. Unicórnios ainda não saltitarão nas ruas pelos próximos séculos – nem nós; somos da geração que continuará fazendo das tripas coração, baço, fígado, pulmões e pâncreas para que, muuuuuuuito talvezmente, alguma geração um dia saltite. Somos os limpadores de feridas, os trocadores de curativos, os administradores de remédios, os cuidadores diuturnos, os vigias, os zeladores:

É nossa EXTREMA obrigação ser incansáveis no tratamento sabendo, também, que somos muito anteriores à cura.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Memórias do cárcere


Coisa que me comove demais de muito, além das histórias que vivem na sombra (de que ontem falei), são os esforços inenarráveis de várias dessas histórias para sobreviverem à sombra; a paixão indestrutível de não perecer, de permanecer, gritar-se, dar um chapéu nos carrascos, driblar todas as vigilâncias farpadas e chutar a gol. Descobri, por acaso e por exemplo, um trabalho deslumbrantíssimo de resgate de vozes que o horror não conseguiu emparedar: a pesquisa de mais de três décadas realizada pelo maestro italiano Francesco Lotoro, que incessantemente busca e executa composições feitas por prisioneiros de campos nazistas. Lotoro corre atrás das preciosidades em acervos de consulta pública, memoriais judaicos, comunidades ciganas, casas de sobreviventes do Holocausto e/ou de seus descendentes, num empenho artístico, humanitário e arqueológico que me faz o coração querer apertar o dele contra o peito. Uma das melodias e memórias tocantíssimas é a do tcheco Rudolf Karel – encerrado e torturado por dois anos na prisão Pankrác e, em seguida, enviado ao campo de concentração de Terezín –, que escrevia suas partituras em papel higiênico com o carvão que lhe davam para tratar disenteria. Karel chegou a produzir, nesse cúmulo de condições inóspitas, uma ópera de cinco atos (Three hairs of the wise old man) em 240 folhas de papel detalhadinhas, passadas discretamente a um guarda portador de humanidade. Sei nem o que diga. Só transbordam aplausos de pé para essa potência de vida que nunca se ajoelha.

Por mais que a cadela do terror, da crueldade, do fascismo esteja sempre no cio, felizmente não faltam provas de que a irrepresável vontade humana lhe responde quilometricamente teimosa, resistindo (ao menos por dentro, para compensar nossa estrutura física tão vulnerável) a todas as suas dentadas. Diz-se que Santa Cecília, depois de não morrer asfixiada por vapores ferventes a mando do prefeito de Roma, e de não ser decapitada com três machadadas no pescoço – OK, às vezes nossa estrutura física também não é tão vulnerável assim –, dava conselhos carinhosos a quem ia visitá-la em seu leito de pré-morte e entoava louvores, o que lhe valeu o título de padroeira dos músicos. Antonio Gramsci redigiu milhares de páginas de teoria política, filosofia e análise cultural enquanto estava nos cárceres fascistas, sendo que apenas após a Segunda Guerra (que Gramsci, morto em 1937, sequer "pegou") foi publicado todo esse colosso de pensamento. Anne Frank... bem, vocês sabem. Tomás Antônio Gonzaga cantou, dirceumente, liras e mais liras à sua Marília nos dois anos de aprisionamento na Ilha das Cobras. Victor Jara, poeta popular chileno assassinado pelo governo Pinochet, cantou literalmente, alto e forte – para animar seus companheiros –, enquanto os militares destroçavam suas mãos a coronhadas. Julio Fuchik, jornalista conterrâneo de Rudolf Karel e tão porreta quanto, na mesma prisão de Pankrác fez anotações em papeizinhos de maços de cigarro, devidamente contrabandeados para fora; em 1947, quatro anos após o enforcamento do autor, sua esposa Gusta (que foi encarcerada em galpão próximo ao de Julio, e para quem ele cantava a fim de avisar que ainda estava vivo) publicou os escritos no tocante Testamento sob a forca. Gente renhida, criativa, criadora, rija e topetuda mesmo na fraqueza; gente interminável. Forças de permanência que, ao contrário de seus algozes, deram jeitinho de simultaneamente ficar e fazer falta.

Obviamente não estou dizendo, com essa meia duzinha de exemplos entre os milhões disponíveis na História, que somente os vigorosos, resistentes e "produtivos" fazem falta, ou que é necessário passar assobiando pelo horror supremo da tortura para ter legitimadas sua existência e sua memória. Não; toda violência destrói uma experiência insubstituível de mundo, nenhuma dor precisa ter enredos de heroísmo para ser válida. Toda dor de injustiças e opressões é uma dor mártir. Mas é riquíssimo e essencial que haja, entre essas dores, as que berram testamentos, as que registram para a posteridade a extensão do absurdo, as que falam pelas que não puderam, as que chamam luz sobre eventos de que os culpados sempre desejam apagar o arquivo. É lindo e grandioso que algumas vozes mantenham o encargo de ecoar por suas irmãs de luta e timbre: embaixadoras de classe, representantes de turma, líderes sindicais de narrativas e aflições recorrentes na espécie. Quem permanece coletiviza. Potencializa. Torna-se relicário de lágrimas e risos que eletrocardiogramiza o coração duma época.

Milênios, milênios, milênios e (é para nos esperançar que estão aí essas vozes) a morte continua sem poder frear o que não tem freio. A vida – sempre! – encontra um meio.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Verdades secretas


E a família americana que, totalmente ao acaso, realizou um de meus sonhos douradíssimos? Galera se mudou para uma casa nova (nova para esses moradores, bem entendido) e simplesmente descobriu que a escada "levantava" ao estilo alçapão, revelando passagem-secretamente um muquifinho onde estavam guardados vinhos de pelo menos meio século, além de pedaços de madeira, cachimbos e outras antiguices. Cá fico eu fascinada e invejante: sou simplesmente ensandecida por passagens secretas, bibocas ocultas, artefatos escondidos, cartas e diários reencontrados, tudo isso que alimenta de literatura e cinema a rotina certinha e medidinha. Amo histórias – mas creio que, ainda mais que às histórias, amo o desvio das histórias; o que não é devassado, o que mora nos recônditos e recôncavos com cheiro de limo e pedra, de umidade e papel amarelo, romântico, lírico, poético, vulcânico. As almas tristes que não foram acolhidas, os amores que driblaram montecchios e capuletos, os prisioneiros injustiçados, os refugiados protegidos, os parentes clandestinos, tudo o que várias categorias de desesperos humanos acobertaram com melhores ou piores intenções. Tudo que edifica a gigantesca cidade subterrânea ao cânone, o subconsciente coletivo e monumental debaixo da pele que habitamos. 

Tá certo que a descoberta dos americaninhos não foi, ao primeiro look, daqueeeelas mais escabrosas; mas super me bastava identificar o mecanismo da escada fake, o quartinho pirata, e estaria feita na vida. Não ia sossegar na poltrona enquanto não esquadrinhasse quem, quando, como, onde, por quê; enquanto não mandasse descer o arquivo completo da biblioteca local, dos registros de imóveis, do cacete a quatro, até sherlockear satisfatoriamente a trama in-tei-ri-nha de como a casa acabou presenteada com a pequena Sala Precisa. Esta seria, aliás, meu esconderijo e refúgio – ninguém tasca –, com as devidas livraradas e os devidos sofás, que só não poderiam ser instalados antes de um pente finíssimo no cômodo: vai que ainda brota uma mensagem malocada num buraquito, um túnel cimentado, um esqueleto na parede? Sim, vi muito CSI e muito Criminal minds neste mundo, o que, entrando em reação química com as narrativas góticas dos mil e oitocentos, não podia realmente prestar. Deu nisso; uma criatura que efetivamente considera a possibilidade de haver gente emparedada. Não digam que não avisei com que tipo de mentecapta vocês estão lidando.

Mas não é gente morta que me interessa (I mean, não pelo fato de estar morta); é gente viva, oblíqua, enviesada, cujo enredo diagonal escapou aos autos, escorregou pelas frestas, mocozou-se ou foi mocozado num universo paralelo. Os anjos tortos drummondianos, desses que vivem na sombra, gauches na vida; os que precisam ou precisaram existir na alternativa, por alguma razão mutilados da superfície. Não à toa – e olha que desde muito antes de CSIs, até de gotiquices românticas – tive sempre o mais profundo amor pelo Fantasma da Ópera, ícone dos rejeitados, um rei dos atingidos pela crueldade que reside à tona. Ternura, também, pela Fera, pelo Homem da Máscara de Ferro, Quasímodo e todos os semelhantes domiciliados no quarto escuro, todos os espíritos humanos relegados ao alçapão (mesmo que numa torre, vocês entenderam), todos os desprezados, os desamados, os varridos; tudo que é ou já foi respirante, suspirante, mas sem ter muito a que aspirar. 

Meta acarinhada: topar e destampar uma dessas quaisquer caixinhas de Pandora particulares – não liberadora de males para o mundo, no entanto, e sim liberadora daqueles que os males do mundo aferrolharam. Pouca coisa me seria mais tocante que realizar (e fazer realizar) o sonho da saga própria.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Intraduções


"A distância que separa os sentimentos das palavras", vagueia Clarice em Perto do coração selvagem, "já pensei nisso. E o mais curioso é que no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é, seguramente, o que eu sinto mas o que eu digo."

Sim, sim, sim. Sentir, assim purinho, é imaterial demais, etéreo demais para sozinhamente nos mover a algo; é um vento, uma brisa, uma pulsação, um susto, um estado, amorfo e sem imediata concretude. Qual é o moinho que concretiza o sentir soprado? Dizer. Dizer falando ou escrevendo, mas verbalizar em regra; pôr em papel ou tela ou onda sonora o que existe frouxo e desorganizado na bagunça do coração. Em contrapartida, não se pode pretender que nada fique lost in translation, que não fique para trás algum imposto ou pedágio do sentimento original após ser esculpido em fonema e letra. E talvez ainda bem. A arte literária seria quase certamente menos pródiga, menos fecunda, se o artista atingisse o orgasmo expressivo a qualquer texto – se bastasse querer manifestar redondinho o que lhe atormenta as veias para conseguir prontamente manifestá-lo, de uma tacada, sem insatisfações, sem arestas. Só que não, o escritor é bicho engasgado que dificilmente se realiza: nunca era exatamente desse jeito, nunca era assim. Desta vez veio assim, porém não era assim. E nessa aflição insaciada brotam textos e textos e textos que, para nós outros, parecem sempre que desde o Big Bang nasceram para ser direitinho assim, sem tirar nem flor.

Também as declarações: abençoada a impossibilidade de os apaixonados se significarem inteiros num dito só, de uma vez para todos os tempos. A felicidade de boa parte do planeta advém desse impossível, que força os amores a buscar renovações e criatividades, novidades do mercado em termos de explosão emotiva, vaivéns angustiados de metáforas, sinestesias, hipérboles e outras figuritas para todos os gostos, em tentativa sísifa de ilustrarem a própria grandeza sem parecerem uns pamonhas. E é o que há de mais adorável no universo, o amor gaguejante, abafado, apamonhado pela árdua procura do não apamonhamento; se fosse desde o início pleno e bem-sucedido na palavra, em vez de um condenado à insuficiência de seus esforços, fatalmente se faria mais vaidoso que zeloso e, muito em breve, menos real. Ser perfeitamente incompetente para se externar e continuar tentando – eis o que leva o amor às bodas de tudo. 

Como bem diz a narração clariceana, é o falado que empurra o (com trocadilho) sentido; é a azáfama de retratar o abstrato que nos põe apegados àquilo que, a duras penas, alcançamos de concreto. Embora nossa limitação tradutora acabe nos afastando da pseudoperfeição do sentimento motor, aproxima-nos do que ele tem de honesto, de persistente, de viável; obriga-nos a transformar a fé em obra, o desejo em trabalho, o privado em coletivo. Somos apenas se fazemos. Somos conforme confeccionamos. 

É de boas construções que o céu está cheio.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Viagem ao seu


Quando você se achar muuuito crazy, lembre-se do médico britânico Phil Davies, de 55 anos, que declarou em entrevista ser dono de Marte – apenas. De acordo com o cidadão, as regras da ONU para reivindicar o território de um planeta rezam que os pleiteantes devem "comprovar a preparação do terreno desejado para uso sustentável" (uia! seriam as normas extensivas à Terra?), e Davies jura estar cumprindo bonitamente o protocolo: seu programa das noites é direcionar um laser poderosão para nosso vizinho de Sistema Solar, o que estaria tornando mais habitável a atmosfera marciana. Mas por que pitombas siderais a criatura cismou com a posse? Para impedir que EUA e Rússia, especialmente, cismem por seu lado com a construção de superbases militares ali no Vermelhinho. Errado não tá, admito. Enquanto não vem o apoio oficial que pediu (sim, ele pediu) ao governo britânico, a fim de poder solicitar formalmente a propriedade à ONU e à Corte de Direitos Humanos da União Europeia, o médico já meteu o monstro grileiro e latifundiário, e LOTEOU MARTE para distribuir nacos de 22 km² entre seus 151 mil simpatizantes de 195 países. É, amiguinhos. Pelo menos de tédio, na Terra, a gente definitivamente não morre.

Maluqueiras à parte (considerando que a coisa se mantenha em nível de loucura mansa e nas imediações do pitoresco), confessemos: são no mínimo instigantes a simplicidade do conceito e a envergadura da cara de pau. Ninguém está usando Marte, é meu, pronto. Quem impede? OK, a ONU impede, mas burocraticamente apenas; o fato de não ter a escritura na gaveta não parece deter em nada o sonho consciente de Phil Davies, que se mostra jogadíssimo no projeto com a seriedade de uma criança. Nenhuma ironia: não existe gente mais aferrada à posse de impossibilidades do que criança – até que as gentes crescem, se aferram à posse de possibilidades e perdem muito da poesia inerente às almas quixotescas. Algumas almas, porém, mesmo crescentes se escondem no recuo da bateria, montam acampamento no ponto cego, no apêndice, no desvio, no vinco formado entre o sóbrio e o insano. Querem, querem muito, querem de um jeito faca-só-lâmina, sem atrapalhar a realidade mas sem igualmente deixar-se atrapalhar por ela; entre o que pode haver e o que há, traçam uma ponte de mero detalhe. 

Em qual impossible dream você assentaria como rei e soberano? Eu provavelmente não iria me arvorar em proprietária desses espaços por aí além, para ter mais cansaço com aridez e poeira cósmica; já que a regra é pegar carona nessa cauda de cometa, declaro-me loteada no próprio sonho: viro dona da p**** toda em espaços aquém. Escolho imperar no subconsciente, escolho escolher os rumos (ao menos os rumos gerais) da ópera mental de cada noite, a fim de evitar terrorismos que me têm pesadelado tanto – assim como Phil Davies pretende brecar o criadouro de intenções nefastas em seus domínios. Quero também repartir entre os parças meu território onírico; nada do peso de obrigações esquisitas que o inconsciente cria para a parte acordada, nada de cenários desassossegantes, nada de medos sacados dalgum beco de infância, nada que bagunce a linha do tempo para mais ou para menos, nada de confusões, nada de angústias; o cérebro que lute para metabolizar o cotidiano sem nenhum método de escangalhá-lo. Aqui é nóis, tá tudo dominado, mano: tem que ser selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado se quiser sonhar. 

Para Marte a taxa pode passar a ser alta e requerer identidade; tanto faz-me. Me importa que, em viagens no autouniverso, seja preciso meu carimbo dando sim, sim, sim, sim – no reino de mim.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Fica, vai ter Boulos


Sei que não foi ainda desta vez, e intimamente nem pensei que seria, embora torcesse com todas as avenidas do coração (em prol de uma cidade que sequer é a minha, aliás). Mas sei também que foi lindo, foi lindo; que a eletricidade de renovação botou a imprensa com suor gelado na testa; que a força demonstrada se revelou imensa – levando-se em conta o tratar-se de um Davi achacado por fake news, tachado de "invasor" na rede de zaps da trafabra (tradicional família brasileira), sabotado cristalinamente pela mídia, contra um Golias abençoado pelo governador, empresas, empresários, jornalistas, tradições de estado e olhinhos fechados para crimes eleitorais. Dentro das possibilidades de quem faz política no chão, no afeto, na limpeza, foi um abalo sísmico, sobretudo em época de bolsonarismo ainda galopante (ou talvez, no máximo, trotante; amém?). Um psiuzinho que convoca à resistência, um (p)solzinho que prova que não está morto quem lampeja.

E o muito, muito querido Guilherme Boulos tem lampejar todo seu, sendo ao mesmo tempo um espécime dessas forças de linhagem; ainda que com origem e biografia profundamente distintas das do ex-presidente, aproxima-se bem do carisma lulesco no bom humor, no papo reto, no genuíno carinho do contato, no interesse mais do que evidente pelas necessidades-raiz do povãozão. Seria injusto com ele e com Lula reduzi-los a tipos repetidos, como Neos de uma Matrix, porém não se pode tampouco deixar de honrá-los com o que existe de comparável em suas belezas: há em ambos uma autenticidade na forma de se achegar ao público e de representá-lo que desperta mais do que admiração – desperta o instinto da familiaridade, do afago, da simpatia. Boulos nem ninguém será um novo Lula, cuja trajetória é irrepetível até onde conseguimos ver; e no entanto, assim como Lula, Boulos irá fatalmente evoluindo na condição de Boulos, a ponto de se tornar inevitável em algum momento que o país o constate e o adote como liderança. 

A esse respeito, parafraseio um conhecido de Face e suas melhores certezas: é tempo de me cuidar o mais animada e possivelmente, beber água, ajeitar o sono, tratar a alimentação, fazer exercício – tanto quanto necessário para espichar a vida até poder ver e aproveitar Boulos recebendo a faixa, assumindo um Brasil novamente ciente e cioso de si, protagonista, orgulhável. Porque é preciso querer enorme, do tamanho que temos de fato e não em situação de sequestro; é preciso nos querer como somos ou fomos feitos para ser, se não nos tivessem historicamente raptado para a rapina: terra de abrigo, de asilo, de alternativa, de nau para todas as intenções não predatórias, de refúgio contra todas as exclusões. Terra-casa, enfim, de colo potencialmente tão espaçoso quanto sua metragem – o teto geral e particular que (Boulos é o primeiro a defendê-lo) todos merecem ter como um seu monumento à dignidade humana. 

Por ora se guarde e se preserve também, querido Boulos; há construção robusta pela frente, para breve. Uma equipe inteira de corações prestes ao mutirão estima as suas e as nossas melhoras.