quarta-feira, 7 de abril de 2021

Quem não é mau também faz por mal

A esta altura, a maioria já viu a cena dilacerante de desabafo do professor João Luiz no último "jogo da discórdia" BBBista: João rompeu em choro após protestar, coração-partidamente, contra a atitude do co-hóspede Rodolffo, que dias antes havia comparado uma peruca de homem das cavernas com o cabelo do professor. A fala justissimamente indignada do brother puxou uma das sequências mais significativas de nossa TV (sim, EVER), pelo tanto que ilustrou da sociedade brasileira e de suas chagas incuradas; porque não foi apenas a tristeza de João que embargou todas as vozes e olhos minimamente sensíveis – foi também a reação de Rodolffo, chocante pela aparente invulnerabilidade ao conhecimento e à informação. Chocante, mas não direi que surpreendente. Tal qualzinho boa parte dos brasileiros "acostumados" a ser racistas "sem ter tido a intenção de magoar", o cantor não se reconhece racista, nem pareceu comover-se muito com a dor provocada, justamente por não tê-la compreendido. O enredo foi o de sempre nesses casos: imagina, eu jamais faria isso para te ferir, a peruca era mesmo um pouco parecida, meu pai tem o cabelo igualzinho ao seu, então eu iria atacar meu pai?, meu cabelo é crespo, está alisado, pessoal também me zoava de eu ter canela fina etc. etc. – toda aquela estrutura de defensiva que se afunda cada vez mais ao tentar justificar-se por meio de pseudoidentificações, como se a experiência de mundo (ou o que se declara como experiência de mundo) de alguém não negro pudesse ser comparada com a de uma pessoa negra. Apesar do imenso empenho da sister Camilla de Lucas em explicar longa, detalhada, serena, didaticamente a Rodolffo por que a postura deste tinha sido racista e por que NÃO era aceitável (aliás, fiquei extremamente fã dessa moça, cuja oratória espetacular eu nunca testemunhara por só acompanhar o programa pelos comentários de internet), o fato de o rapaz interrompê-la a todo instante, insistindo na história do pai e similares, deu a entender que a lição não avançou muito do ouvido para dentro. Minha esperança é que o ensino paciente de Camilla tenha encontrado alunos mais permeáveis aqui fora.

Não creio, naturalmente, que o brother confrontado seja má pessoa, tanto quanto não creio que a maior parcela do Brasil seja composta por más pessoas – ainda que o racismo configure, no país (quiçá no mundo), algo estrutural. Seria totalmente desesperador pensar que quase todos são horríveis; o próprio racista avoado costuma saber muito bem que racismo é horrível, e seu costumeiro impulso de negar que tenha feito alguma coisa por mal – conforme Rodolffo se esfalfou em jurar de várias formas – provavelmente equivale, na esfera psicológica, a fazer afirmação diferente: eu não sou mau. Ninguém que não tenha um desvio cerebral grave quer ser reconhecido como uma criatura ruim, visto que ninguém em sã consciência deseja ser rejeitado, isolado, cancelado. Entretanto, "não fiz por mal" e "não sou mau" são falas que, na verdade, NÃO se equivalem; a segunda pode (deve!) corresponder à realidade na maior parte das vezes; a primeira, muito menos do que gostaríamos de admitir.

Quem não é mau TAMBÉM faz por mal, mesmo que não de maneira inteiramente consciente e premeditada. Não tenho dúvida de que Rodolffo de fato não soltou a infelicíssima brincadeirinha com o intento de machucar João – por sinal, sequer PERCEBEU que o fizera até o professor mesmo declarar sua mágoa; nem as (in)diretas da cantora Ludmilla, no show para os brothers, parecem ter furado a bolha de distração do colega. Mas distração não significa inocência. Por acaso um pai congenitamente distraído que esqueça o bebê no carro não será condenado por abandono de incapaz e provável morte, embora não quisesse matar seu filho? "Ai, credo, aí não se compara" – sim, compara-se; o efeito de uma atitude racista sobre sua vítima pode até não acarretar o sufocamento do corpo como no caso do bebê, mas quem que tenha presenciado o desabamento emocional de João é capaz de duvidar de quantas outras submortes um abandono, uma negligência provoca em alguém? "Não exagere: o João não foi abandonado pelo Rodolffo." Foi sim. Não precisa ser filho, não precisa sequer ser conhecido; se cognitiva e psicologicamente adultos, temos todos uma responsabilidade tácita pelo outro, e o DEVER de não abandonarmos a vigilância sobre nós mesmos a fim de não lhe causarmos nenhum dano. Conforme a sister Camilla maravilhosamente explicou ao aluno arredio, é uma obrigação que se impõe tanto mais quanto maior se torna nosso acesso à informação, nosso contato com um mundo cada vez mais esclarecido e debatedor de situações de preconceito. Se ele-Rodolffo (muito e muito insistiu ela) tem totais condições de se instruir e atualizar a respeito da percepção do outro, da percepção do que as frequentes vítimas de racismo vivem e sentem, simplesmente NÃO HÁ DESCULPA para não se comprometer com a própria melhora.

Sabem a velha máxima homem-arânhica de que, com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades? pois então. Quem se encontra vivo, lúcido, satisfatoriamente educado e usuário de mídias sociais, neste justinho momento, se encontra diplomado em poderes bem suficientões para alçar o pensamento em fortes escaladas. Está-se condicionado ao que se possui e sabe: dispor de todos os equipamentos de proteção, das instruções de como usá-los e ainda assim dar-lhes as costas, atirando-se às cegas no vazio, NÃO é "tadinho dele" case, não é fatalidade – é escolha. É leviandade. Desconsideração. Omissão. Negligência. É, sim, por mal e para o mal próprio ou alheio; alguém necessariamente se machuca quando existe deliberação em ignorar as redes.

E quando os ouvidos têm paredes.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Repoemas


REMOTIVO

(Com o perdão da bem-amada Cecília)


Eu grito porque o farsante insiste
e minha alma está inquieta.
Mas nem por isso ela desiste
nem se afeta.

Irmã das justas rebeldias,
desejo ao Bozo o impedimento,
e, às mãos que ora estão vazias,
sustento.

Em sonho o mundo modifico
e o redesenho traço a traço:
ao pobre, glória; ao que era rico,
fracasso.

Sei que grito; e é o melhor escudo.
Tem sangue eterno a mão mancomunada.
E o tempo faz de quem quer tudo
um nada.

***
REPOEMA DE SETE FACES

(Com mil vênias do querido Carlos)


Quando nasci, um anjo curto
desses que vivem no ombro
disse: Vai, moça! ser ave na vida.

As asas espiam os homens
que correm atrás de poderes.
A água talvez fosse azul,
não houvesse tantos despejos.

O ônibus passa cheio de telas:
telas de jogos de zaps de novelas.
Para que tanta tela, meu Deus, pergunta minha visão.
Porém meus olhos
não se grudam a nada.

A mulher atrás da 3M
é arisca, dual, reticente.
Sempre se dispersa.
Está sempre voando consigo
a mulher atrás dos óculos e da 3M.

Meu Deus, não nos abandonaste,
nós é que abandonamos os teus
pequeninos, carentes e fracos.

Mundo mundo triste mundo,
pra meu desgosto profundo
um voto é um voto, não é uma solução.
Mundo mundo triste mundo,
mais triste é não ter votação.

Quem poderia não saber
que esse pulha
que esse basbaque
botava a gente presidido pelo diabo?

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Morrendo e aprendendo


Raras coisas são mais canalhas do que aquelas reportagens que pipocam sempre que a vida está impossível (desemprego, crise, preços exorbitantes; tipo agora) e metem uma Pollyanna que não é otimismo inocente nem papagaiada de resiliência – é deboche. Deboche não é certamente o que se deseja fazer, mas é o que acaba feito quando jornalistas desnocionados romantizam a precariedade e a transformam numa espécie de alternativa idílica aos hábitos grosseiros da abundância: o gás anda inacessível? volte ao fogão de lenha, a comida fica muito mais gostosa; a grana não chega para a gasolina? vá de bicicleta e transpire saúde; não dá pra carne, né? troque por ovo ou soja, altamente proteicos, inclusive confira as receitas topíssimas que colocamos no site; tá inviável estudar com essa internet porca? qual o quê, você consegue, veja aqui este guerreiro que faz as lições encarapitado no pé de manga, agradeça, inspire-se. Claro: o guerreiro que se encarapita na árvore para catar wi-fi, as trabalhadoras e trabalhadores que dão nó em pingo d'água para nutrir-se e deslocar-se do modo mais viável, esses são dignos dos olhares de maior aplauso, solidariedade, respeito, empatia; o absurdo mora nas câmeras e microfones que não focalizam o absurdo, ou que não o tratam como absurdo, preferindo exaltar o esmagado (e quase o esmagamento) sem questionar como se combate de fato aquilo que o esmaga.

Assim preambulo para precisamente falar do que NÃO se encaixa no preâmbulo, do que NÃO romantiza as perdas que ocorrem à revelia, mas, em lógica bem outra, valoriza os necessários êxodos, as necessárias rupturas. É própria da Páscoa (por 50 dias continuaremos em tempo de Páscoa) essa lógica bem outra, sublinhada pelo padre na celebração – virtual – de ontem com a tão surpreendente quanto óbvia frase: "Só ressuscita quem morre". Estava ele avalizando com isso os sofrimentos horrorosos de Jesus nas mãos de seus torturadores? Evidentemente não; aliás, o que mais se faz nas cerimônias da Semana Santa é denunciar o quanto homens poderosos, ditos da religião e da lei, se esmeram na vileza e na crueldade ao condenar um inocente que os incomoda. O muito explicado intento do padre era tomar a morte como algo metaforicamente compulsório para uma transformação essencial: não raramente, é preciso que um lado nosso morra em nós a fim de que a vida de alguma forma caminhe, se liberte, se transfigure. No campo da arte, é tema frequente; já assim de pronto me vêm à lembrança, ilustres e ilustrativos, os casos dO lago dos cisnes – a morte do cisne branco representa o livramento da princesa Odette – e de Harry Potter – o protagonista só consegue emancipar-se de seu arqui-inimigo depois que a parte "habitada" por este em sua identidade é destruída. Quem estiver de veneta para a busca há de achar outras mil narrativas em que se manifesta essa nossa premência do "morrer" parcial para o viver completo.

É muita vez urgente, por exemplo, cortar tentáculos do que era para ser amor, mas é veneno mental e físico; mutilar inclusive aquela nossa porção que ainda se agarra ao que nos assassina, que insiste em não constatar os abusos, que nega o evidente, que se estocolmiza por motivos de autoestima desidratada. É urgente proceder à remoção de um ambiente que nos empeçonha: o trabalho de rotina absolutamente tóxica, a convivência familiar que deprime e traumatiza, o condomínio transformado em arena de perseguições doentias, as aulas cursadas na faculdade que não combinam nadíssima com a carreira pedida pela vocação genuína, aquela tão longamente sufocada. É urgente decepar de nossos dias o veeeeelho rancor que já entrou em necrose (e quer nos infeccionar junto), o vício que nos engole aos bocados, o luto antigo de que sobraram apenas raiva e gangrena, a culpa que virou um godzilla ou uma assombração emocional em vez de ser adequadamente desinfetada com perdões e similares remédios. Não é questão, não são questões de jogar o jogo do contente e pintar arco-íris de energia pra deixar o caos fakemente cheio de alegria, como desejam aquelas reportagens de péssimo gosto; ao contrário: é questão de PEITAR da maneira possível o caos que nos devora, de enfrentar o que nos mata com os recursos ao nosso alcance – quando há recursos ao nosso alcance, e quando o que nos mata nos é ou está intrínseco.

Ainda uma vez e todos os dias: feliz Páscoa, amores. Que todos os seus inimigos internos sejam batidos, que todos os terminais para recepção da dor externa sejam desativados. Em adendo, que os abrace a certeza de que nada realmente se acaba na quarta ou na sexta-feira: é o domingo que tem sempre a última palavra.

domingo, 4 de abril de 2021

Cresça e reconheça


Completaria hoje 93 anos a lindona Maya Angelou, ou Marguerite Ann Johnson, como contava a certidão. Falecida em 2014, Maya não chegou a testemunhar o mundo em período de pandemia colossal; se testemunhasse, porém, acredito não dissesse algo tão diferente do que já dissera com relação às alminhas sem luz que se limitam a rodar quilometragem no planeta: "A maioria das pessoas não cresce. A maioria das pessoas envelhece. Elas encontram vagas de estacionamento, honram seus cartões de crédito, casam-se, têm filhos e chamam isso de maturidade. O que é isso: isso é envelhecer".

Isso é envelhecer, amigos – sem tirar, mas pondo anos e mais anos em aglomeração uns com os outros, quase em pasmada passividade. Quase porque, claro, sequer se envelhece em passividade completa, há que se cumprir cada requisito de sobrevivência; fora isso, fora essa manutenção da vida impulsionada pelo orgânico, pelo biológico, o engordamento da idade é coisa compulsória, que se realiza sem pedir muito de nossa anuência e sem nos fornecer, em troca, um grande tanto de mérito. Evidentemente há os processos que não são biológicos no senso estrito, mas o são no lato, como encontrar as vagas e honrar os cartões de que falou a autora: habilidades entranhadas à vida moderna e urbana, na qual, se normalmente não precisamos nos orientar por sol e estrelas nem fazer fogo com pedrinha, em compensação não escapamos ao mínimo conhecimento sobre trajetos de ônibus e metrôs, uso de caixas eletrônicos e captura de QR codes. Desenvolver uns tais skills da cidade – precisâncias gerais que estão dentro das precisâncias fundamentais de locomoção, lazer, abrigo, alimentação, acasalamento (ai, como eu tô naturalista) – não nos torna maduros, só nos torna mamíferos adultos adaptados ao ambiente. Primatas bem-sucedidos com um bocadinho mais de verniz.

Maturidade humana, mesmo, honrosamente nossa e propriamente dita, vem com skills bem outros: uma sólida, desembaraçada, eficiente interpretação de texto, manhosa e esquadrinhadora o bastante para fugir a arapucas de manipulação; uma (como extensão da primeira) firme honestidade intelectual, limpa de preconceitos, sensível a argumentos, a evidências, e consequentemente capaz de se inclinar para o justo ainda que uma mudança da opinião inicial seja requerida; uma força considerável de empatia (o que NÃO significa abonar quaisquer comportamentos, mas sim compreender suas razões); e uma índole decisivamente soprada por bons ventos, o que embala também decisivamente todo o buquê de predicados – já que, sem a disposição de agir pelo benefício coletivo, danou-se a perspicácia, danou-se a inteligência: vira tudo uma sagacidade perigosa. Ordenha-se fácil o pacotão completo da maturidade a partir dessas quatro joias do infinito; a pessoa generosa, intelectualmente honesta, com boa percepção dos demais e do mundo contém, sem dúvida, a cota necessária de responsabilidade para executar devidamente seu trabalho, a quantidade essencial de lucidez para reivindicar o que lhe é de direito, a porção indispensável de serenidade para encarar perdas sem descontrole, a dose imperativa de brio para não se infantilizar, não manipular, não se aceitar escrava nem algoz numa relação. Extrai-se daí, enfim, um bom e velho adulto humano – aquele ser fantástico que tem autonomia emocional mesmo que a não tenha física, aquela entidade incrível que não se põe nem no centro nem na margem da história: põe-se no fluxo do texto. No contexto.

A todos que já fizeram sua Páscoa da infância moral para a posse madura de si, um feliz, feliz, feliz! hoje, com todas as suas amplitudes. Aos que ainda estão voluntária ou involuntariamente pendentes de uma realidade alternativa na qual não se comandam e não se encaixam: que a grande pedra role, em breve, de cima de seu discernimento, e o libere para a luz à qual pertence. Não tarde muito mais, assim, o abraço na vida plena e consciente que os aguarda fora da caverna.

sábado, 3 de abril de 2021

Peso-plena

3 de abril, ao menos norte-americanamente falando, é uma datazinha leeeeve: configura, entre outras bobagices adoráveis, o Dia de Não Ir ao Trabalho a Não Ser Que Seja Divertido – vamos fingir por um momento que isso é viável, OK? então OK –, o Dia de Encontrar um Arco-Íris, o Dia da Guerra de Travesseiro (esse, aliás, comemorado internacionalmente no primeiro sábado de abril), o Dia da Mousse de Chocolate e o Dia de Brincar Lá Fora (para os brothers, todo primeiro sábado do mês). Não sei como tantas flutuâncias convergiram para uma só data, mas enjoyemos a abertura do portal, que estamos precisando, e nos demos ao desfrute de celebrar – porque sim – tudo que por um triz não desmancha no ar:

Suflê de cenoura; papel de seda; biscoito Globo (doce ou salgado, freguesa?); tutu, mantilha, véu, filó; pão de ló; arzito da manhã; chá de hortelã; Amélie Poulain; nuvem alvigordinha; pena, pluma, bruma, espuma; bolacha de água e sal; laço de Natal; chuvisco; balão; dente-de-leão; algodão. Algodão-doce. Tudo que não pensa como seria, se fosse. Tudo que não é tardo e não é precoce.

Bailarina. Gelatina. Cetim. Carpe diem. Pudim, manjar, sorvete. Flerte. Prímula, verbena, açucena, lisianto, agapanto na varanda. Lavanda. Ciranda. Salada. Página. Pássaro. Pétala. Pipa, fita, chita, crepom. Semitom. Vida sem batom – sem cinto – sem salto – sem sapato. Vida sem relógio, sem agenda. Vestido de renda. Vontade de menos. Locus amoenus.

Mais xilofone, menos smartphone. Pouca dieta, muita borboleta. Violeta. Maleta vazia. Suco de melancia. Fantasia de fada. Abobrinha ensopada. Recheio de goiabada. Recreio que não acaba: férias, quintal, brinquedo. Dia de não acordar cedo. Sede de água – e pronto. Compra com (MUITO) desconto. Canto de uirapuru. Peito de peru. Chuchu. Cheiro de pós-chuva. Cheiro de pão recente. Ar quente. Artes de picadeiro. Dança com parceiro que encaixa feito luva.

Merengue. Suspiro. Poema do Casimiro. Poema da Cecília. Almoço em família (sem papo de Biroliro). Musseline de baroa. Manhãs em Lisboa. Mamães amamentando. Parques de Orlando. Organza, crepe, tafetá. "Bora lá." Borda-mar. Bordado em lenço. Pedalinho em São Lourenço. Louça provençal. Floral. Aurora boreal. Outono tropical. Troca de aff por a fim. Menos job, mais Jobim. Mais alegria sem nem causa, sem nem estopim – e ainda assim:

Carpe diem.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

No limite

Fada-sensatamente até a última célula, reclamava ontem a queridíssima amiga Renata Esteves, no Facebook, de "quem faz pouco dos sentimentos dos outros. Quem diz que é palhaçada, show, frescura... seja lá o nome que for". Afinal, "a gente não sabe [...] quanto de sofrimento a pessoa já aguentou até desabar. O que dispara uma crise de choro, de ansiedade, de pânico, de raiva... muitas vezes é uma besteira. É a gota d'água. É o acúmulo de várias vivências e não aquela coisa boba que enxergamos como espectadores de uma vida que, na maioria das vezes, desconhecemos. Todo mundo tem direito a dar chilique. Todo mundo tem direito a ser respeitado quando precisa desabafar, seja como esse desabafo for. Ninguém morre por não emitir opinião sobre o sofrimento alheio. Mas muita gente morre por ter sido ridicularizada em seu sofrimento". Alguém me empresta as mãos, que eu estou aqui sem palmas suficientes para bater.

Tive a sorte de crescer em família amorosa, porém este particular me incomodou sempre muito: a sensação de não poder passar por uma explodidinha em grito, choro ou assemelhados, de vez em quando, sem que esse rompante fosse classificado como "fazer teatro", "dar show". Não sei se também por isso (não excluindo outros fatores óbvios, como a natural tendência à introversão) fui passando de um bebê e pós-bebê extremamente nervoso, chorão, histérico a uma criatura intensa e progressivamente sensível ao ridículo, até chegar a esta adulta 24-horasmente tensa de estar falando alto demais, chamando a atenção demais, sendo observada demais. Boto lágrimas com facilidade, mas com o máximo alcançável de discrição – só uma dor de quase-morte para me fazer verter soluços em público; olho sempre ao redor avaliando reações e julgamentos, relaxo exclusivamente em sozinhez; me vejo milmente mais à vontade para derramar ternura fora do núcleo familiar primário, onde, apesar de haver bastante amor, uma certa vergonha invencível me mantém em contenção. Talvez não seja tão herança dos primeiros tempos, talvez seja até mais do que imagino, talvez tenha germinado daí minha descompensada preferência pelos personagens mais carentes e mais tortos, que eu poderia cobrir de amor sem nenhuma economia (especialmente na ficção); seja como seja, sinto nas fronteiras d'alma o movimento simpático por esses que a amiga Renata descreveu, esses que irrompem em meltdown, que implodem dalguma angústia aparentemente intempestiva, mas em geral longamente cultivada. E não creio sequer que me identifique, já que a esta altura não me enxergo capaz ou mesmo necessitada de tais erupções (só quero que me deeeeeeixem em paz, por gentileza); acredito mais ter mesmo um fraco irresistível pela vulnerabilidade que se deixa ver sem defesas, sem hipocrisia. Um fraco pelos que se mostram fracos – nenhum alfa entojadinho tem, para mim, força maior.

Falar de alfas e pseudoalfas entojados, por sinal, me estala uma ocasião de esclarecimento: não respeito de modo algum chilique de opressor frustrado, piti de gente que não aprendeu a ser contrariada e se vomita em grosseria, violência, preconceito; a esses desprezo, como não poderia deixar de ser – no máximo tenho piedade de uma alma doente, às vezes até potencialmente boa, mas desviada por turbilhões do trajeto. Piedade é o que tem pra hoje, olhe lá. O roar dos oprimidos, dos perseguidos, dos escanteados, sim: esse me move e comove como é devido, a esse eu respeito por mais escandaloso e desenfreado que seja; há muito, muito dilaceramento, muito amargor já na borda dum coração que se arrebenta por causa de uma pergunta, um risinho, um esquecimento, um desenho no quadro-negro. Porque NÃO É uma pergunta – são todas as mãos pesadas da cobrança social e da discriminação velada querendo saber "e os namoradinhos?", "e as namoradinhas?", "e os bacurizinhos?", "credo, você curte isso?", "Fulanélson não reclama de você usar o cabelo tão curto?"; NÃO É um riso – é todo um looongo passado de risos mais ou menos explícitos, de olhares mais ou menos encarões, de expressões certamente condenantes da fala, da voz, da roupa, do gesto, do jeito; NÃO É um esquecimento – é um conjunto asfixiante de esforços solitários (da neomaternidade, por exemplo), de exaustões insuspeitas, subestimadas, incompreendidas, premiadas pela distração de alguém com quem se contava e com quem nunca se foi distraída; NÃO É um desenho no quadro-negro – é o septuagésimo oitavo episódio de bullying do dia, somado a piadinhas anônimas na aula, gelo social, isolamento, deboche do cabelo, do corpo, do sotaque. Não é UM: são todos, é tudo; tudo de cansativo que se viveu, tudo de chorado no travesseiro, de não contado aos pais por vergonha, de somatizado em questões de saúde, de engolido em silêncio, de ruminado na culpa que não sabe que não tem culpa, no engasgo doloroso da injustiça que nem sabe ainda definir injustiça. E ainda vem passivo-agressivozinho dizer que "âin, que doido, que desequilibrado, sua louca, histérica, não era pra tanto"?? Chama aí o Batman esquentando a cara do Robin na porrada, por gentileza.

Amigues que andam à beira dum ataque de nervos, bem-vindes sejam a meus braços; a pandemia não impede que eu lhes aplique um abraço beeeeeem apertadinhamente solidário em vontade e espírito. Notadamente no Brasil em que temos vivido, só posso mesmo chamar irmãos aos que, nem que seja da boca pra dentro, estão prestes a perder as estribeiras.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Dos necessários abrigos


Olha, Da Vinci (se foi realmente o grande Léo que mandou essa letra – embora aqui a autoria não afete em nada o teor); olha, a ideia é bonita demais da conta, mas HAJA meditação e evolução espiritual, meu lindo. A ideia, no caso, é a seguinte: "A paciência faz contra as ofensas o mesmo que as roupas fazem contra o frio; pois, se vestires mais roupas conforme o inverno aumenta, tal frio não te poderá afetar. De modo semelhante, a paciência deve crescer em relação às grandes ofensas; tais injúrias não poderão afetar a tua mente". Simplesmente maravilhoso e enormemente verdadeiro; eu só não diria totalmente verdadeiro por existir, nessa interessante comparação, também o seu tantão de injustiça. Me abstenho de completar "e de canalhice" porque se trata (se trata?) do querido Léo, e seria anacronismo repassar-lhe a fatura do emprego patife que se poderia dar a suas palavras hoje em dia – mas que é bom conservá-las loooonge da galera coach-quântico-meritocrata-gratiluz, lá isso é.

Vejamos. Léo, se foi ele, mandou bem como sempre ao botar em nossas mãozinhas a chave de uma sala que podemos alegremente trancar por dentro: assim como é mais viável controlar a quantidade de roupas do que controlar a temperatura, fica bastantemente mais acessível ajustar o isolamento acústico interior que impedir a barulheira de fora. Num primeiro e muito direto nível – em que se trabalha com o ideal, ou ao menos com o médio –, está certinho: pressupõe-se que nem o frio nem a injúria são mortais, e que a vítima, nos dois casos, passa algum desconforto mas dispõe de tudo que é necessário para defender-se naquele momento, o qual não reverberará para além de si. Essa pressuposição, no entanto (já dizia Lulu), é ideia que não tem a menor obrigação de acontecer: o frio pode muito bem ser de proporções siberianas e superar fatalmente todo e qualquer agasalho, o indivíduo exposto ao frio pode muito admissivelmente NÃO POSSUIR qualquer agasalho para se defender da morte ainda que queira, a ofensa pode muito crivelmente extrapolar a cerquinha da briga pessoal e enlamear de modo quase irreversível a vida pública, a paciência pode perfeitamente não ser arma que chegue contra uma máquina institucionalizada de difamações. Em suma: por melhor que tenha sido a intenção e por maior a lucidez de Da Vinci ao sapecar aquele pensamento – que não está errado –, não é justo reproduzi-lo jogando ainda mais na conta da iniciativa individual a solução de questões que frequentemente a superam.

Quando o frio é excessivo para as forças e os recursos, não basta a vontade do casaco: deve haver quem financie o casaco, quem garanta o mínimo de abrigo e calefação, o mínimo de bebida e comida quentinhas. Quem morreria congelado por gosto, se pudesse evitá-lo? E, não podendo este alguém evitá-lo, a quem cabe fazê-lo senão ao olhar zeloso do Estado, que não se justifica se sua existência não conseguir representar também a existência de seus cidadãos? Da mesma forma (hoje trago tudo, sim, para o rés do chão, que não estou muito de veneta para abstrações e comparações e metáforas), quando o agravo é excessivo para as forças e os recursos, não basta a vontade da paciência, da ioga, da elevação espiritual, da psicanálise; quando o bullying devora a saúde e a autoestima, quando a demonização de anos pela imprensa resulta em destroçamento da imagem e até dos direitos políticos, quando o linchamento virtual promovido por gabinetes de ódio trava a carreira, a paz, a vida, quando boatos criminosos levam até a um linchamento real – só a intervenção de instâncias sociais, jurídicas, muito superiores à mera determinação particular, oferece algum grau razoável (se bem que ainda insuficiente) de proteção. Esperar que pessoas já emocionalmente fragilizadas por afrontas profundas e recorrentes ganhem, por milagre, o dom de pairar sobre todas as dores e suas consequências enquadra-se como cumplicidade numa asfixia; configura, nem mais nem menos, passar de barco no pertinho de um náufrago que se esgota às braçadas e considerar que a energia do nadador dá e sobra para o salvamento.

Pronto: aí as metáforas novamente como leitura possível do mundo. Mas, desde que não se usem para falácias e amaciamentos de falsos paralelismos – paciência.