sexta-feira, 7 de maio de 2021

Paralisados do tempo

São 55 anos, hoje, da morte do extraordinário Stanisław Jerzy Lec, poeta e aforista polonês que já seria notável até sem o enorme talento das letras, por ter conseguido escapar de um campo de concentração vestido com o uniforme inimigo (aaaah, como não amar um sujeito que fez aquela corja nojenta de trouxa; vejam mentalmente aqui, por gentileza, 56 emojis com olhitos de coração). Homem de engenho e arte que era, Lec gestou uma série de frases maravilhosas – feito esta que copio e que assenta justinho na gente como se já a houvéssemos pensado sem nos darmos conta: "Tantas pessoas vivem numa rotina tão exata, que é difícil de se acreditar que elas vivem pela primeira vez".

Menino, não é que é? Tem um povo que carambolas, parece que já nasceu profissionalizado na arte de fazer um determinado quê ao molho de um determinado como, e tudo indica que acha im-pos-sí-vel a receita ser minimamente outra – com outros horários, outras rotas, outros sabores. Aparentemente é uma certeza ferrenha até a última molécula de queratina que guia essa gente; eles só podem estar há dez milênios aperfeiçoando os ensinamentos do mesmo workshop, como ourives tomados pelo êxtase de uma lapidação milimétrica. Só que não. Não há paixão, não há certeza: o que há mais provavelmente é um imenso cansaço, este sim tão profundo que quase convence como herança de várias eras, como fardo de gerações acrescido em toneladas ombro após ombro. Se de paixão se tratasse, existiria mobilidade – a paixão é criativa, inquieta, faminta, insossegável –, mas justamente porque o modo passional está off é que o piloto automático agarra o leme cotidiano e lá fica, doentio em sua vontade anêmica que tem somente o exato combustível de estar, mais nada. Não que seja ruim toda e qualquer disciplina, obviamente; uma mínima organização dos dias devemos ter ou criar, sob pena de recair num outro self-esquecimento em versão descompensada que acaba indicando um igual marasmo de autoestima: tanto 100% de ordem quanto 100% de desordem são próprios de um coração que não se pensa, não deseja pensar-se. O equilíbrio é o habitat da escolha. A chance de evolução pessoal vem temperada de temperança.

Pior mesmo, em termos de rotineirices, está longe de ser o gesto repetido: bilhãomente pior é a ideia enjaulada em si mesma, escrava de ir e vir dentro das mesmas "causas" e "efeitos", fadada hoje e amanhã e depois às mesmas "conclusões". A intervenção policial chacinenta que tivemos ontem no Rio gerou reações, nessa gente de ideia marasmática (se de reações podemos chamar uns reflexos e esgares mecânicos que não diferem dos movimentos zumbis), muito ilustrativas do pensamento que permanece moscando e moscando o vidro da janela, insistindo e insistindo em sair por onde JÁ SE VIU que não existe saída. Dá um misto de náusea, ódio e comiseração ver a galera autointitulada de bem celebrando um morticínio, como se além de inominavelmente cruel uma tal ação não fosse perfeitamente inútil no combate àquilo que se afirma combater. Quem melhor formulou as interrogações devidas ao horror foi, em vídeo dilacerante, o jovem advogado Joel Luiz Costa, morador da comunidade enlutada: "Isso acabou com o tráfico de drogas? isso vai acabar com o tráfico de drogas? a partir de amanhã não vai ter mais droga sendo vendida nas vielas do Jacarezinho porque 25 pessoas foram mortas?". Conhecemos bem – nós, os que tivemos o estômago embrulhado pelo massacre – a resposta a essas questões infelizmente retóricas; e os donos dos estômagos que passaram incólumes simplesmente don't give a damn, que lhes importa saber que a tal "guerra às drogas" nunca foi de fato às drogas e nunca deu qualquer resultado, nesses moldes, em país algum? Os de ideia parada e lamacenta não querem trocar a água da ideia, não querem renovar a opinião, não querem ganhar o compromisso de tirar neurônios da rotina pasmacenta de conteúdos mastigados, afirmações desconexas, asneiras formulaicas, programas pinga-sangue; querem odiar, só – odiar (lhes) é mais agradável, mais rápido, não exige absolutamente nenhum talento (aliás, quanto menos talento melhor) e ainda lhes permite fingir que há alguma emoção ou propósito em suas pseudoconvicções emboloradas; vejam que pechincha.

Sob vênia do poeta, obrigo-me a emendar que não apenas não se acredita que os paralisados do tempo estejam vivendo pela primeira vez; esses pensamentos de cripta estão, sobretudo, na vibe de quem espera acelerar o mais possível a vivência da última.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Dicionário (anti)prático


Alecrime: delito cometido por jovem cidadão de bem que não sabia o que estava fazendo por ser ainda um menino de 28 anos.

Brasileigo: indivíduo amador nas usanças da terra; elemento que insiste em demonstrar alguma quantidade de espanto diante de eventos ocorridos em solo pátrio.

Compartilhaminto: ato de abarrotar as redes com produtos de diarreia verbal perfeitamente isentos de coerência ou veracidade.

Desputismo: regime autoritário cujos principais líderes (e correspondentes seguidores) têm por guia de conduta o mais absoluto ressentimento contra todo e qualquer direito reconhecido como humano.

Ex-pressão: situação na qual um povo em vias de ser exterminado é impedido, pelo agente viral do extermínio, de manifestar-se coletivamente em espaços públicos contra seu exterminador-em-chefe.

Fãfarrão: endeusador de celebridades específicas, em nome das quais arrisca bravaticamente sua integridade; consequente vítima de necrose psicológica e de falência múltipla de óbvios. Cf. bolsomínion.

Gaveita: nicho de armário não submetido a processos organizatórios desde 1997 e portador de objetos oriundos da Twilight Zone.

Hierarquinimigo: personagem detentor dos meios de produção que é reconhecido como adversário natural por todos os personagens não detentores dos meios de produção e detentores de bom senso.

Interloucutor: ente com o qual não se mostra viável manter diálogos coesos, por motivos de "e o PT?".

Jornalesmo: vertente freestyle da apresentação de notícias (ou nãotícias), na qual são privilegiadas declarações anônimas ou autorais em método classificável como barata-voa.

Kafkaos: período histórico durante o qual nos descobrimos transformados em coisas crescentemente piores toda vez que acordamos de sonhos intranquilos.

Latifundos: recursos advindos de grandes proprietários rurais e investidos no desenvolvimento de leis personalizadas. Vide agro é tech, agro é pop.

Mixordem: dom de localizar precisamente a última receita do remédio entre o material didático sobre orações coordenadas e as notas de compra do Hortifruti.

Nós-talgia: saudade da pessoa que éramos em diferentes circunstâncias.

Outracismo: abandono da personalidade verdadeira em prol de um self socialmente encorajado.

Perspicaça: talento admirável para empreender pesquisas virtuais ou presenciais e obter quaisquer informações desejadas.

Quosciente: ser humano iluminado pela consciência filosófica de não ser apenas uma estatística.

Resindignação: tendência a aliar a mais absurda revolta com a mais notável passividade.

SUScesso: possibilidade real de acesso dos mais pobres ao tratamento e à prevenção de doenças.

Truculema: palavra de desordem emitida, em idioma neandertalense, por seres patologicamente fissurados em homens de farda e na produção do sofrimento alheio.

Utopique: invejável disposição para continuar assentando os tijolinhos do mundo ideal após longos expedientes no real.

Vontarde: pulsão carboidrática normalmente associada aos horários mais impróprios para a conveniente digestão dos víveres consumidos.

Wi-falha: assombração que mais acomete residências em tempos de home office.

Xilogastura: sentimento de vivo desgosto causado por arranhões e marcas de copo que têm constatada sua existência sobre pisos e móveis de madeira.

Yin-yanglo: indivíduo de psiquê repartida entre crenças do Oriente e sistemas de cultura ocidentais.

Zoombi: Homo sapiens reduzido ao estado de ex-pessoa em decorrência de interação virtual excessiva e compulsória.

(Um dia tem mais, se não me falhar a vaga-lumemória.)

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Maneiras de evolar-se


Vocês conseguem estar onde estão? Eu não consigo – e não falo obviamente de quarentenas, que nisso estou desde sempre mui sossegada e quietinha, inclusive bastantemente satisfeita por fazer calhar um dever cívico com uma conveniência pessoal (recomendarem-me não sair é só assinarem embaixo do que já digitei). Não vou achar lado bom na pandemia porque uma desgraceira assassina dessas não tem qualquer lado bom, é apenas nuvem de sofrimento denso, plúmbeo, ao estilo da nave de Independence Day; mas a circunstância do isolamento, isolada, não me causa desagrado. O que causa intenso desagrado e ansiedade é a circunstância de o isolamento ser invadido, tsunamizado por circunstâncias outras, essas ferozes e furiosas, como a política de pleno fascismo que ora vivemos e a avalanche de neo-obrigações que nasceram súbita e tortamente. Da invasão que me busca até onde me entoco é que fujo para um ainda maior entocamento; ou antes: fujo para jardins fresquinhos que se abrem só por meio de passagens duplamente secretas.

Que meios e modos existem de o coração sobreviver, escapando-se pela tangente? Não sei o de vocês; para o meu – que quanto mais agredido de Brasil mais se põe arredio – há cinco ou dez portinhas de entrar em Nárnia para hospedagens emergenciais:

Ler. Ler constante, diuturna, tenaz, afincadamente. Ler em qualquer esquina de tempo, duas crônicas aqui, seis páginas lá, mais um capítulo adiante no Projeto Gutenberg (sim, também leio online, embora prefira com paixão o livro físico; algumas obras eu não encontro físicas, afinal, e nessa antessala do paraíso que é o Projeto Gutenberg residem MILHARES de títulos baixáveis ou simplesmente clicáveis. Vida longa, próspera e com piscina de borda infinita no Éden aos desenvolvedores desse site-magia).

Garimpar o que há de ser lido. Descobrir autores inadivinháveis e obras insuspeitas de autores já tão amadamente descobertos. Esquadrinhar sebos virtuais, botar a Estante abaixo na perseguição de novidades (ou velhidades?), desenterrar nomes de sob esquecimentos injustos, cavar enfim uns bauzitos de tesouro espalhados com aleatoriedade excitante.

Escapar para dentro de narrativas vistas, não lidas – raras vezes e boas.

Caçar temas. Caçar poemas. Caçar dilemas. (Deve haver uma qualquer Artêmis flechadora galopando em minha psiquê.)

Rir de memes tolíssimos em série; em modo sério, o país não permite sobrevivências.

Ler sites de curiosidades fofas, brumosas, ternas, malucas.

Engatar um programa do Investigação Discovery no outro, sempre dando pasto à cruza de Holmes com psicanalista que habita minha alma tão diagonal.

Correr o fluxo do Face e, com frequência mais avulsa, o do Twitter, colhendo uns mosaicos de gente: mesmo em distanciamento nos abraçamos, só o que temos de sólido desmancha no ar.

Esperar.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Você-precisers


Adorei muitão e compartilhei feliz um quadrinho do @ChargesdoNiniu (não sei onde ficam as maiúsculas da arroba, mas a ideia é essa), em que um dos personagens diz ao outro: "Você precisa aproveitar a vida!", ao que o segundo responde: "Já faço isso. Só que meu jeito de aproveitar é diferente do seu". Poucas palavras e sábias. A não ser por questões muito indiscutíveis de cidadania, civilidade, saúde – você precisa ir ao médico, você precisa se hidratar, você precisa usar a máscara, você precisa respeitar o seu lugar na fila, você precisa declarar no prazo o Imposto de Renda –, nada é tão entojoso quanto um você precisa seguido por uma declaração doutrinatória a respeito da agenda e da felicidade alheias. Lhassó, amiguito: eu não preciso nada que não seja obrigação de trabalho a cumprir, conta a pagar, exame a fazer, remédio a engolir, gente a respeitar. Eu não preciso usar maquiagem, salvo se for atriz e a personagem pedir; eu não preciso ver o filme ganhador do Oscar (ou qualquer outro), exceto se consistir exatamente nisso a minha profissão; eu não preciso ter WhatsApp – gente, existe e-mail, existe Messenger; qual a dificuldade? –, uma vez não sendo médica nem mãe nem ninguém de quem a vida ou a morte de uma criatura possa depender exclusivamente e de imediato. "Ué, mas facilita." Facilitar não é fazer-se indispensável, senão só me dificulta. Sosseguem, seus viciados em necessidade e urgência.

Um dos piores emprecisadores da existência alheia é direitinho esse do cartum, o gourmet de lazeres e propósitos, constantemente empenhado em que outras vidas tenham o Grande Sentido. Suas espécies são diversas, vão desde a tia dos namoradinhos – "E aí, e os namoradinhos? Aproveita agora, idade boa!" –, que faz ao longo dos anos as devidas atualizações para tia do casamento, tia do filhinho e tia do mais um filhinho, até o coach autocontratado, cuja missão crucial no planeta parece ser a de abduzir suas vítimas para uma quase seita de dicas infalíveis. Não afirmo que os você-precisers sejam inevitavelmente empatadores e importunos, de modo algum; muitos são, inclusive, a corda que desce um baldinho de objetivos frescos ao fundo do poço, onde se encontram alguns amigos isentos de toda luz e de todo estímulo; e outros tantos são, senão isso, ao menos o empurrãozito de energia e vontade que pontapeia uma carreira, um hobby, uma viagem transformadora, um casal talhado para ser. Abençoados esses – os que cuidam de seus cuidáveis com uma alquimia bem certa de afastância e se-metência, os que sentem finamente até onde podem ser incentivo sem forçar nenhuma barra, ou forçando só as barras estritamente necessárias; mesmo que volta e meia venham a parecer azucrinantes em sua intervenção, estes-uns agem com aquelas intenções sinceramente boas que não enchem o inferno, já que é de amor e não de vaidade sua insistência. Não, os você-precisers que ninguém merece são de outra laia, são satélites buscando satélites – insistência de vaidade, não de amor. Garantir que o outro seja ou esteja feliz lhes é secundário; querem mesmo é ter razão.

Relativamente à reprodução humana, um você-preciser raiz é em geral pleníssimo de convicções: você só vai entender o amor quando tiver um filho, você vai se arrepender se não tiver, você não vai ter quem cuide de você na velhice (não é encantador esse conceito de gerar seus futuros enfermeiros não remunerados?). Evidentemente o opinador serial não leva em conta a total desvocação de algumas – tipo euzinha – para a maternidade, nem considera que as prioridades diferem em escalas colossais: acredita, ou acredita acreditar, que todas as humanas são cortadas pelo mesmo molde nesse quesito, sem admitir que a coisa é tão absurda quanto atribuir às mulheres um gosto idêntico em cores, sabores, cheiros, músicas, características do parceiro ou da parceira. Você-precisers também curtem bastante (a charge o ilustra) determinar fontes específicas de alegria para outrens, normalmente relacionadas aos clichês da balada, da bebida, da praia, da pegação – enquanto os alguéns tipo euzinha têm como habitat natural as bibliotecas, os sebos e o afastamento deslumbradamente feliz de tudo quanto seja ajuntamento; poucas coisas me amargariam mais a existência do que uma rotina exterior e rolezeira. E os você-precisers em versão guia turístico? Aff; é só a gente mencionar incauto que vai visitar tal ou tal país e lá vem roteiro descarrilado – vai aqui, vai ali, esse é passeio obrigatório, se não entrar naquela loja é como se não tivesse ido à cidade. Dicas de viagem são certamente preciosas, porém convenhamos: há o modo elegante "se quiser umas sugestões, eu depois anoto para você" e há o despejo inconvidado de tens-que-tens-que em cascata, infalivelmente para impressionar a audiência. Existe, claro, o ímpeto de apontar as atrações mais bafônicas para aqueles a quem se conhecem bem as preferências (adianta alguém recomendar para mim a maior Chanel do universo, se sou das feiras de rua?), e com quem se tem a mais esmagante intimidade; fora isso, eita troço uó.

Mas o você-preciser que mais do que todos, ever & ever, se supera na arte de aporrinhar a paciência é o feedbackeiro, o que COBRA opinião sobre o produto oferecido que nem loja virtual: não apenas nos mete a sugestão goela abaixo como ainda quer DEVOLUTIVA do bagulho. Aí parei. Não peço muito, peço somente que os influencers selvagens me deixem na paz de minhas calmas descobertas, meus amores; custa? Custa nada. Na vida, sou aquela que suspira, ardente, por NEM PRECISAR dizer que só está dando uma olhadinha.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Na centésima primeira


Hoje faria 172 anos, se a expectativa de vida humana fosse compatível com as nossas justas ambições (SIM, Paulo Guedes, quero atingir o centenário, e se possível dois; ENGULA sem água a sua necropolítica), um sujeito interessante chamado Jacob Riis. Riis nasceu na Dinamarca, terceiro duma ninhada de quinze irmãos – entre os quais só ele, uma irmã de sangue e uma adotiva atingiram vivos o século XX. Aos 21, o rapaz migrou para os EUA e foi lá que, para encurtar conversa, acabou se tornando um mui prolífico jornalista e fotógrafo de documentário social; seus registros da pobreza existente em Nova York tiveram um enorme peso nos esforços de restruturação urbana entre fins do século retrasado e o início do passado. E Riis não teve apenas sua importância no combate às más condições de vida na cidade (embora não fosse de modo algum um canonizável, já que não estava isento de ideias de meritocracia e racismo pseudocientífico; panos não hão de ser passados aqui): foi também considerado um dos pais da fotografia, por ter adotado cedinhamente o uso do flash. Entre seus cliques, acho especialmente dilacerante aquele que ilustra cá o texto, e que retrata adormecidas três crianças sem-teto de Nova York; impossível não ver ali a influência da formação inicial do fotógrafo, cujo pai o estimulava a ler – inclusive para aperfeiçoamento na língua inglesa – a revista literária editada por Charles Dickens.

Mas não quero somente citar fotos, quero citar umas palavras de Jacob Riis que tenho como bastantemente apropriadas para nos consolar um bocadinho nestes tempos de horror: "Quando nada parece dar certo, vou ver o cortador de pedras martelando sua rocha talvez cem vezes, sem que uma única rachadura apareça. Mas na centésima primeira martelada a pedra se abre em duas, e eu sei que não foi aquela que conseguiu isso, mas todas as que vieram antes". Valeu, Riis, estamos precisando com URGÊNCIA recuperar a inteireza da fé em cada uma de nossas marteladas, que tão inúteis nos têm parecido nestes dias de barbárie oficial. Batemos, batemos, batemos esfalfantemente, com uma fúria que aparenta as maiores ingenuidades e as esperanças mais loucas, ao longo de toda a pedreira de horrores: postamos dados carimbados de ciência no Whats, no Face, no Twitter, exaltamos a vacina, tiramos fotos da vacina, tretamos online com negacionistas ociosos, tentamos a didática, a energia, a racionalidade, a chantagem emocional, berramos ainda que virtualmente contra cada absurdo, fazemos campanhas, vaquinhas, debates, lives, arrecadações. Divulgamos eventos (cada um em sua casa, que somos responsáveis), recomendamos programas, compartilhamos textos e vídeos, sugerimos especialistas, argumentamos em família, entre amigos, entre colegas, apelamos para memes e charges, tentamos dar alguma publicidade ao belo trabalho de doação de alimentos do MST e do MTST, combatemos a demonização da esquerda, do ensino, da ciência. Escrevemos, papeamos, trocamos mensagens, trocamos informações, muito e sempre teimosos de desamassar com nosso martelinho de ouro os pensamentos que andam por aí danificados, circulando pelo país numa lata-velharia acachapante – e encontramos a frustração inevitável, a desolação cotidiana, ante a impressão de que gritamos no deserto feito um São João desbatizado de Batista e retachado de Comunista.

PARECE que não adianta nada; mas adianta. É que "há um milagre que não estamos vendo" quando nada acontece, já diria Guimarães Rosa. Há pelo menos UMA consciência sendo retomada pelo lado luminoso da Força cada vez que voa no ar uma declaração desgracenta do coiso e seus coisinhos – ou acham que ninguém se sentiu ofendido com a insinuação de que devemos morrer logo (sem nem ter gozado a vida após a aposentadoria, que querem empurrar sempre para mais adiante) a fim de não pesarmos sobre as contas públicas? ou acham que nenhum coração que anda de luto por algum parente se fechou em definitivo para a corja que promoveu e celebrou essa morte? Há gente desiludida com o próprio empobrecimento que começou a nos ouvir, e a se lembrar de como viveu bem a partir de 2003: memórias felizes têm extremo talento de persuasão. Há gente meio tonta em termos econômicos, porém sensível em termos ecológicos, que nunca se recuperou de ver queimar o Pantanal e espumou de ódio do "governo" com o recente caso da madeira apreendida. Há gente finalmente convicta de que já perdeu tudo que podia e agora não dá mais para negar, é necessário votar contra os Comensais da Morte. Há gente, sim, numerosa e envergonhada, e nem que seja uma alma por dia – bem-vinda seja; lamentavelmente não é por milagre, conforme preferíamos, mas é por dor, por exaustão, por indignação que elas vêm (ou voltam), é pelo andamento natural da História que elas se apercebem, é como uma onda inexorável que elas romperão o dique martelado dia e noite, dia e noite, e fadado à destruição. Fascismos tombam – todos. Certo como a queda duma árvore de base apodrecida. Enquanto a empurramos e ela não cai, pode até posar de rija e fulgurante; no momento-gota-d'água, soma e cúmulo de todos os anteriores, qualquer brisazinha a derruba.

Queridos! ânimo, ânimo; na centésima primeira atitude talhada para um bem, podem vir os juros das outras cem.

domingo, 2 de maio de 2021

De exílios


Hoje, parece, é o Dia da Limonada (Lemonade Day) para os brothers dos States, que celebram a curiosa data no primeiro domingo de maio, não me perguntem por quê. Foi só descobrir essa festa insólita que me ocorreu: eis algo que não posso celebrar sem crime de leso-estômago; minhas estruturas digestivas talvez não gastritas, mas certamente esofagitas, proíbem qualquer contatinho com limões, abacaxis, maracujás, acerolas e cítricos afins, de modo que a velha máxima do "fazer do limão uma limonada" nunca me pertenceu nem me pertencerá nunca. Desse não pertencimento nascido por motivos de acidez maior, a lembrança desenrolou outros, o que me põe aqui meditante sobre os tantos territórios humanos dos quais estou (definitivamente?) exilada.

Por exemplo: andar de bicicleta. Em verdade ainda não tentei a fundo, vejo aqueles filmes de crianças pedalando spielberguianamente pelos subúrbios e fico só na saudade do que não vivi, mui duvidosa de que viesse a ter a ginga essencial para não quebrar um fêmur. Precisa nem de duas rodas, aliás; de salto eu também não ando, inclusive acho estapafúrdio que alguém ande em sã consciência, a não ser que sejam pernas de pau usadas com intenções circenses ou limpadoras de teto – e não, dessa aberração de passar o dia sustentando o corpo num ângulo para o qual ele jamais foi projetado (falo do salto, naturalmente) eu não tenho nenhuma saudade. Nenhuma saudade, tampouco, da capacidade de dirigir automóveis que nunca tive ou terei (vê-se que minhas limitações de deslocamento não se atêm à questão do equilíbrio, ao menos do físico); fazer o quê? se o mero conceito de estar no controle dum veículo motorizado, articular um monte de movimentos simultâneos e me tornar uma potencial ameaça a qualquer erro já elimina toda possibilidade de tentativa? A ser sinceríssima, ao contrário do caso bicicleta, não há tentativa porque não há vontade; carros não me atraem – com exceção dos minúsculos, pela fofura –, eu não consigo reconhecer nenhum que não o bom e velho Fusquinha e amo demais a ausência dessa responsabilidade e dessa despesa. Sem dor alguma no coração: passo.

Ah, o passo – o meu precisa ser moderado, já que os pulmões não autorizam nem 30 segundos de corridinha. Também não me garantem sequer 2% de intimidade com ambientes aquáticos; fazer mergulho é inviável, pelo desespero que me dá aquela estranha respiração pela boca, e mesmo o nado é bastante temerário devido ao desconcerto pulmonar, aliado ao pânico de afundar indesejadamente. Sou capaz de sereiar de um lado a outro da piscina, se souber que posso ficar de pé em caso de urgência, serve? No mais, passarinha que sou, devo admitir que natações não são para o meu bico. Outros esportes não o são either, pelo menos os que demandam time; sou péssima de time, times me intimidam. Fico muitíssimo mais preocupada em não dar o mais absoluto vexame do que em jogar propriamente, e por sinal não me adapto de modo algum a competições – nem para assistir eu presto; provavelmente me ajustaria melhor até a atividades radicais que não implicassem nenhuma disputa. Nenhuma disputa e nenhum dever relativo ao sucesso ou fracasso alheio pesando DIRETAMENTE em minhas costas, horror que me afasta não só do esporte como, por exemplo, de qualquer possibilidade de interesse pela medicina ou mesmo pela maternidade: pelamor, não me exijam reflexos rápidos, decisões imediatas, habilidades a tirar de dentro do bolso, com plateia, com a bola vindo sei lá de onde, com gente esperando, olhando, buzinando, morrendo, dependendo, chorando. Me deixem com meu espaço e meu tempo de ir fazendo o que dá, do jeito que dá – prometo que o melhor possível.

"Caramba, então você não consegue fazer nada??" Não sejam rudes, alguma coisa eu consigo. Consigo encarar quase qualquer montanha-russa ou tirolesa (deslizaria com tranquilidade, sim, naquelas que vão duma parede à outra do desfiladeiro), provar quase qualquer comida que não seja viscosa nem esteja se mexendo, lavar roupa a contento, fazer arborismo, fazer ovos mexidos, dar aula para adolescentes, decorar os nomes dos alunos com relativa rapidez, reconhecer rostos e animais nas formas do granito com incrível facilidade, ler devorantemente, ler (apenas ler) em francês sem ter estudado a língua, escrever aqui todos os dias (perdão por isso). Não sei, é fato, se são habilidades muito prometedoras em caso de apocalipse zumbi, mas afinal é o que temos para hoje, pegar ou largar. Eu pego – e vou me esconder num qualquer cantinho.

Para quem cabe dentro de um livro, todo lugar é ninho.

sábado, 1 de maio de 2021

Filme de baixo orçamento


"Para o amor, um banco de praça já basta. Ou ficar na frente de um portão. Ou uma xícara de café. Amor mesmo é um filme de baixo orçamento."

São palavras fofas do querido Fabrício Carpinejar, em cujos textos se tropeça talvez com o maior número de citações conquistantes e derretedoras por centímetro quadrado. Sublinhe-se que o poeta não quis, com o dito, atribuir ao amor o tédio das coisas amareladas, paradas, desviçosas; quis apenas reforçar o fato factualíssimo de que o amor dispensa fogos porque dispensa artifícios, basta-se grandemente para enfeitar o momento e o local onde pisa. Estará ele feliz em Paris? sim (até porque quem não está feliz em Paris está equivocado), mas não mais pela cidade do que por si mesmo, e não mais pela declaração aos pés – ou no alto – da Torre Eiffel do que por um chocolate quente num café qualquer, uma tarde folheante na livraria de esquina, uma conversa com o crush no metrô em rush. Para o amor é (quase) indiferente, em termos de existir-se e garantir-se, andar na Champs-Élysées ou na Avenida Paulista ou no Mercadão de Madureira, uma vez que seu espaço é tão psicológico quanto seu tempo, é palco de teatro onde tudo pode se tornar, tudo pode ser; o amor não é filmado necessariamente em locação: faz-se locação.

OK que a paisagem da Toscana ajude a extravasar-se um coração sensível à vida, porém um programa de viagens tomado com vinho no sofá de casa não desengrandece em nada as falas do roteiro. Ninguém duvida de que uma noite gélida e coladinha sob a aurora boreal sirva de lenha à história conjunta, porém uma noite (não tão) gélida e coladinha sob a luminária que projeta borealices no teto do quarto esquenta com a mesma potência. Não se discute que uma montanha-russa da Disney possa unir o casal numa adrenalina partilhada, porém um filme no final da quarta-feira também pode, e pode desenrolar muito mais conversações inclusive. "Ah, mas não é a mesma coisa." Lógico, como experiência biográfica não é a mesma coisa, nem pretende; o amor é aquele que se acontece por dentro, para dentro, e filma o enredo com seu smartphone embutido para registro próprio. O amor não é o diretor que ajusta luz, câmera, som, lente, figurino em nome da narrativa que deseja produzir para fora e pela qual deseja exibir-se e fazer-se premiar – seu prêmio reside no enquanto-isso, no enredo itself, no durante, no chocolate dividido na mesa da cozinha, nos pratos lavados em dupla, no sossego livre e desglamouroso dos bastidores. É nos bastidores seu endereço e é com o parceiro de script que se dá a convivência, não com qualquer possível espectador.

Se se mostram indispensáveis o espectador, o cenário, a direção de arte e os efeitos especiais tãomente à vida amorosa quanto à vida que se fotografa para a Caras, e que se projeta para os amigos no Insta e no telão, tem boi na linha: uma boa, consistente história íntima se conta sem pirotecnia. Um bom e consistente pas de deux se dança sem maquiagem, sem tutu, sem paetê, sem elementos de cena, até sem música; ultramegaessenciais são só os dançarinos e seus movimentos, afinada coreografia e precisão na entrega. Amor é balé que baila em si, é história que se autonarra – tudo ao redor pode no máximo enriquecê-lo, nada fora dele é suficiente para construí-lo.

Nenhuma abundância do que não seja amor torna suas faltas menos precárias. Todo arrasa-quarteirão que se ergue na ausência do amor já nasce com sérias restrições orçamentárias.