segunda-feira, 7 de junho de 2021

Quietos fazemos as grandes viagens


Sou bastante eu nos versos do poeta, cardeal, teólogo, professor José Tolentino de Mendonça: "Quietos fazemos as grandes viagens/ só a alma convive com as paragens/ estranhas". Creio-o bem; sei que há pessoas muito derramadas, muito exteriores, completamente se-rodeantes de amigos e amados e ruídos e festas; sei que não são por isso menos plenas de insondabilidade humana, nem mais superficiais – apenas mantêm sua subjetividade numa espécie de prontidão de afetos, de fatos, de contatos que eu por exemplo não tenho, mas que é uma simples e outra forma de desdobrar as pétalas; e, apesar de saber quão perfeitamente natural é a extroversão alheia, quão necessária a agitação é para muitos, não posso duvidar das palavras de Tolentino: quietos fazemos as grandes viagens. Cerquemo-nos ou não de baladas, barulhos, camarotes, o silêncio atônito e primordial que nos compõe continua nos compondo, seja sob disfarce ou com sua carinha explícita.

Não tão quietos, convenho, adentramos este mundo biruta – não tão quietos por fora; manifestamos aos berros, aos escândalos nossa perplexidade inocente, é verdade, porém não chegamos nem a alguns metros de manifestá-la toda. Não chegamos nem dois passinhos mais perto do centro de nossa confusão primária, em torno da qual gravitamos sem grandes respostas nem quase instrumentos para colhê-las. Evidentemente o amor e o acolhimento externos diminuem com força nosso diâmetro de desconforto; ainda assim, nós-sozinhos somos os que lidamos com o medo da mudança, com as pequenas e grandes vergonhas às vezes intransmissíveis a qualquer de nossos guardiões, com a enormidão de pesadelos (e alegrias) inverbalizáveis de tanto que nos parecem ter adentrado as células. Ninguém senão nós se aflige com os sonhos que só nós vivenciamos, ninguém guarda daquele ambiente a impressão ruim que só nós guardamos, ninguém sofre precisamente com o que nós sofremos; por mais que carnavalizemos essa maçaroca de sentires, por mais que a arrastemos para o bloco ou a exponhamos num outdoor a fim de não ficarmos isolados com ela e precisarmos fazer sala, tem jeito não: o maior desenrolo entre nós e o nosso combo de impressões íntimas se dará em noites de insônia e auto-DR, em momentos de recolhimento e escrita, escrita e análise, análise e meditação, meditação e caminhada à beira-mar, caminhada à beira-mar e jardinagem, jardinagem e cozinha, cozinha e música – lá o que seja que nos aquiete minimamente. Quietos, de algum modo e sob alguma força quietos, é que encaramos o percurso sem a desnitidez dos delírios e das ressacas; na quietude sóbria é que conseguimos nos suster, dirigir, andar. Remar. Rumar.

Almas que nem por nada logram aquietar-se e conviver com as paragens estranhas avançam também, ou antes são avançadas pela viagem que as empurra; porém seguem desrumadas, aos trancos, normalmente aos círculos. Um coração pode ser o doidivanas que for, mas convém que volta e meia se sente no meio-fio em silêncio e pare para ler o mapa: que, mesmo numa caravana de alegre companhia, ou mesmo entregue por preguiça em mãos alheias que o administrem, se pergunte se é realmente para lá que ele escoa, se é de fato sua a escolha de uma vida tão passiva ou tão saltimbanca. Só suficientemente quieto (quieto para dentro) um coração pressente a viagem que é mesmo toda sua, toda de roteiro personalizado, toda com a bagagem particular e necessária. Nós somente – ao nos rendermos à tranquila percepção de nossas miudezas – podemos arrumar a própria mala e o próprio trajeto. Cada um de nós nasceu grávido da própria bússola.

Cada um de nós precisa parar para se dar à luz na história que lhe cabe traçar.

domingo, 6 de junho de 2021

O óbvio


Não gosto do que diz o que eu esperava que dissesse. Não gosto dos livros óbvios, dos textos óbvios, dos poemas óbvios, das mensagens óbvias, das novelas óbvias. Odeio, odeio o óbvio – não o simples, DE MODO ALGUM o simples: o óóóbvio. Os provérbios sem contestação, os ditos populares sem refeitura e malandragem, as mensagens escorridas e melentas dos cartões de papelaria, as conversas que estacionam fáticas sem ir nem voltar, que giram inférteis em torno de frases feitas há mil e quarenta anos: odeio. Odeio "divisor de águas", "luz no fim do túnel", "leque de opções", "história de superação", "sua verdade", "escolhido a dedo", "agregar valor", "correr atrás do prejuízo", "pensar positivo", "ser você mesmo", "agradar a gregos e troianos", "tirar o cavalinho da chuva", "voltar à estaca zero", "não lembro nem o que eu comi ontem", "gosto não se discute", "ninguém é melhor que ninguém". Odeio letras de pagode com amores e dores e como-fores e por-favores. Odeio lyrics neossertanejas que andam sempre na balada bebendo, caindo, levantando e pegando. Odeio entusiasmos-padrão e frases gêmeas de youtubers. Odeio, odeio até o vômito as canalhíssimas historinhas da mitologia coach.

Detesto com a força mais aguerrida, mais intransigente, todas as cenas de personagens falando sozinhos, falando – o que é consideravelmente pior – CONSIGO MESMOS ("calma, autoFulaninha, respira, respira"), falando para si o que está se passando na tela como se o público tivesse 8 pontos de QI. Detesto estrebuchantemente diálogo de novela que a gente já previu INTEIRO ao primeiro oi, inclusive com a inserção da odienta musiquinha incidental de comédia. Detesto roteiros preguiçosos, ramerramentos em torno de ninharia, repetidores de chavões e bordões, prolongadores de situações clara e ridiculamente inúteis, com caretas de mais, gestos de mais, palavras de mais. Ah! a irritação suprema do tempo escoado com capítulos inchados de nada, que nada acrescentam! que não rendem uma sobrancelha erguida em reação, um hum de surpresa, uma lembrança de comicidade ou ternura, um mote para comentários verbais e não meramente narizes/olhos revirados – nada, nada, nequitas. Claríssima afronta a nosso sacrossanto direito de ir (mais pobres) e vir (mais ricos) após um bom investimento de minutos; safadeza de obras com alma caça-níquel, que devoram tempo e devolvem secura.

Sim, explodo de ressentimento contra qualquer passo desperdiçado em território minado de obviedades, mesmo uma porcariazinha de comercial que anuncie filmes vespertinos e dominicais entre um "vai aprontar muitas confusões", um "viver grandes aventuras", um "parará do outro mundo", um "pereré quase perfeito" e um "pororó bom pra cachorro". Sou daquele povo que VÊ comerciais – boa parte das vezes sem arrependimentos, já que há sempre peças excelentes no ar (algumas são miniperolinhas de dramaturgia com textos mais instigantes que a programação oficial); mas a muita tolice histriônica que também existe, tipo propagandas de mercado e esses insofríveis anúncios sessão-da-tárdicos, me enlouquece molinho em poucos segundos. Não é questão de esperar um Macbeth a cada intervalo, gente, é só não tascar todas as fichas em frases paspalhas e sorrisos patetas – custa? Diz o nome do produto, apresenta os benefícios com dignidade, mete um jingle grudento, escala um mascote fofildo que não fale como se o consumidor tivesse 8 pontos de QI; desnecessário humilhar os atores e deixar o espectador entre a raiva furibunda e o ataque de riso (filho de humor involuntário). Criar pode ser criar só um bocadinho, o suficiente para o interlocutor não se ver na solidão de um relacionamento que o subestima, que larga em perfeito abandono sua carência dum bom beliscão cerebral. Essencial.

O óbvio está, pobrezinho (not), sempre atolado no ontem – e não será a senhora Eu quem vai passar pano para o cretino chover diariamente no molhado.

sábado, 5 de junho de 2021

Desejos vagos


Às vezes não temos senão desejos ciciantes e vagos. Subitamente (por exemplo) o querer voltar a museus, passeá-los inteiros, mas agora sem a pressa e as fotos do turismo: passeá-los simplesmente, pronto, observando pinceladas com secreta ternura no calmor da tarde, livres de guias e horários e relatórios, sozinhos ou a dois no máximo – grupos tornam museus sustentáveis no orçamento e inviáveis na circulação. Desejos vagos, também, de dar similares esvoaçagens sobre cenas da poesia contemporânea, ler nomes lá e aqui a esmo, não porque modinha est; ler em perfeitíssimo descompromisso o que não foi apontado, recomendado, solicitado, o que não entra em nenhuma banca ou currículo, o que não está sendo discutido em esferas vizinhas, o que existe apenas, vivo e limpo. Desejos alegremente sonolentos de zapear programações alternativas, de dar chances a canais faladores de línguas (sob nossa perspectiva de ouvintes nativos de Hollywood) inusitadas, com outros ritmos, outras modulações, outros respirares de mundo. Desejos não tão abstratos de escapulir pelo mundo.

Às vezes nos percorrem vácuos de qualquer coisa distinta, de descobrir numa rua paralela uma delicatessen grávida de ótimos patês e chás caramelados, de esbarrar com um cafezinho enfeitado pelo enroscar de flores na treliça, de flanar pelo YouTube ouvindo artistas anônimos de Bangladesh ou da Nova Zelândia, de rever cenas da novela só por reouvir um sotaque e uma voz (sim, eu reescuto trechos dA vida da gente, me julguem), de apertar a "página aleatória" na Wikipédia só para ver o que vem no caniço (já ouviram falar em Dinastia Bagratúnio, da Armênia? confesso que achei o nome lindão), de escarafunchar jornais velhíssimos só para flagrar pitoresquices de tantos eus precedentes, de escarafunchar imóveis velhíssimos na esperança de um cômodo secreto ou uma cápsula do tempo, de deslizar por feirinhas à beira do Sena até topar com um diário vintage como em Meia-noite em Paris, de descoser um bilhete d'amour duma peça de brechó, de achar declarações novelescas num livro de sebo, de resgatar uma foto de casal presa no fundo dum móvel de antiquário. Desejos pequeninamente suspirantes – quem nunca? – de atingir ou inventar tesouros em plena quarta ou quinta-feira.

Às vezes um não-sei-quê (sei: a programação do Home & Health) nos implanta desejos metamórficos para nossa já estabilizada vida, nos dá ganas de incrementar a decoração, de trocar os móveis, de aprender moldes, de aprender receitas, de tentar intempestivos DIYs. Desejos de nadas e tudos, desassossegados, esquisitos, feito caprichos de gato; desejos de empregar palavras nunca pensadas, de usar títulos que brotaram na memória, de pesquisar a fundo um assunto irrompido e cismado, de matar de repente uma curiosidade que não é de hoje, de arrumar gavetas sempre adiadas mas repentinamente atrativas, de encomendar biscoitos amanteigados, de FAZER biscoitos amanteigados, de estrear roupas em casa mesmo, de improvisar um acessório steampunk, de destremalhar antigas e inadequadas bijus a fim de parir novas, de bolar algum artesanato com cabides. São ora desejos-fumaça, ora desejos-cafeína, ora de pálpebras pesantes, ora de aflições insones; são desejos que espicaçamos como quem brinca, que alimentamos como quem faz um jardim de motivos, que abraçamos com espreguiçamento mas com alma, visto serem sempre uma dança de sol pondo a obviedade da sala mais colorida.

São desejos que nem a vida.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Lógica analógica


"E então mais uma vez me fiz antigo", diz o primeiro verso dum poema de Ivan Junqueira. Me vi nele muito, muito ao precisar pegar carona no cartão de crédito da irmã para enviar presente à amiga – presente imediato, de espera incabível, de urgência incompatível com transferências e boletos. Se bem que uma quantidade absurda de sites deliverantes mostra a mesma inelasticidade para pedidos de qualquer prazo, e não faz questão de esconder uma mui estranha despreferência por pagamentos sem preâmbulos, à vista, diretos, débito em tempo real ou dinheiro na mão; os ilustres comerciantes parecem curtir mesmo o mistério do crédito, o frisson romântico de empurrar para depois (e dizem que as sentimentalidades estão mortas, tsc). Já eu, embora tradicionalmente amiga de empurrar perrengues para depois, curto nadíssima essa história de estar financeiramente pendente, e ou bem tenho e pago logo, ou bem não compro; até o imposto do Leão vai numa facada única. "Uai, mas então faz Pix, esses troços." Convenho, seria uma possibilidade adequada SE eu porventura dispusesse de um smartphone – porém, conforme já declarei ad nauseam, falta-me um desses bichinhos. Continuará faltando porque pretendo resistir enquanto puder, antiquíssima; e, caso as circunstâncias um dia me obriguem (sob argumentos de guilhotina) a comprar a traquitana, acabarei só usando para fins pagamentícios, olhe lá; para mim é no máximo xarope, definitivamente não é drink. É instrumento de aceleração; né brinquedo não.

Também já disse ad nauseam que NÃO sou a louca da casa mal-assombrada que acredita habitar o século XIX e é contra tecnologia. Jamais seria contra tecnologia; se defendo a ciência como qualquer pessoa minimamente razoável e sã, era um tremendo despropósito eu me opor aos frutos de anos e anos de estudaiada. Sou contra, sim, o uso agressivamente mercantil de inovações nos produtos, a ponto de em seis meses vermos um ciclo de nascimento, glória e obsolescência de modelos smartphônicos, e um ciclo de correspondente desespero de consumo e reconsumo. Sou contra o aspecto compulsório que determinados recursos subitamente assumiram, o que põe o mundo em rota de exclusão progressiva; duvido nada que, muito em breve, os desprovidos de smartphone consigam nem tomar um cafezinho na padaria, por terem apenas uns dinheiros bastante analógicos no bolso.

Sou pela amplidão e multiplicação das estradas, o que por sinal considero moderníssimo: faz Pix quem quer, paga com cartão de crédito virtual e descartável se lhe apraz, cheque, escambo, diamante, pulseirinha que nem as da Disney, o bom e velho cash, débito, boleto, VR, carnê, transferência bancária por leitura da retina. O que não tem sentido é endereçar caminhos a um só sentido, após tantos séculos de melhorias e alargamentos do percurso; se, afinal, estabelecimentos dos outroras aceitavam exclusivamente notinha sobre notinha, e muitos chegam agora (ao menos virtualmente, que é como são acessados e acessíveis durante a pandemia) aceitando o pagamento por crédito também com exclusividade, que raios de liberdade têm nossos tempos, que enorme e extraordinária vantagem oferecem nossas inovações em relação às da juventude de vovô e vovó, do biso e da bisa? Estamos aqui muito bonitinhos em 2021 não é para nos aborrecermos tecnologicamente, nem nos sentirmos paleolíticos, isolados (já não bastam os necessários distanciamentos da covid?): é, em tese, para nos refestelarmos com as alternativas, sermos abençoados com a chuva fresquinha de escolhas. Aventura em que não nos sentimos bem-vindos convida à desparticipação, ao desembarque.

No mais agudo surto de modernice, estreitamentos inexplicáveis de passagem parecem somente ecoar o método de priscas eras: welcome to the Jurassic Park.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Gaiolas


144 anos do pintor, desenhista, ceramista, gravador, ilustrador de livros, de tecidos, de tapeçarias e de móveis, decorador de interiores e de espaços públicos (ufa!) Raoul Dufy. Fascina-me em geral a coloridice de suas telas, inicialmente mais impressionistas e, na sequência, mais fauvistas, flertantes com o cubismo; mas talvez nenhuma tenha me impressionado tanto quanto La cage à oiseaux (A gaiola de passarinhos), esta que vos sorri sobre o texto, cheia de instigâncias. Caindo nela, meu primeiro olhar foi de – look! uma daquelas colchas tradicionais americanas (perdoe-me o francesíssimo pintor pela heresia geográfica), uma daquelas costuras retalhadas de vida, compostas de vários tantos do que se é. E o fato de se tratar de uma gaiola deixou a conclusão irresistível: são também compostas de vários tantos as nossas gaiolas; nunca é de uma só matéria nossa jaulazinha personalizada, nunca é feito duma única sombra o nosso fantasma portátil, il faut que vários pedacitos de trava e de medo entrem em concerto para nos aferrolhar.

Nascemos envelopados numa carência abissal, absoluta, e desde os momentos iniciais fomos presas fáceis de todos os terrores: que mamãe sumisse, que ninguém estivesse perto, que o velho e preferido brinquedo simplesmente evaporasse, que os quadros de família se mexessem, que Papai Noel não viesse. Anos adiantando-se e nós com medomedomedo de enjoar no ônibus, de aparecer com aquele corte de cabelo na escola, de ver nossa nota baixa divulgada pelo aluno mais entojado da turma, de comprar (ou ganhar) presente porcaria no amigo oculto, de resolver a equação no quadro, de apresentar o seminário lá na frente, de deixar o bilhete-declaração na mochila do crush. Em especial na infância tudo se agiganta, tudo nos paralisa, tudo é proporcionalmente excessivo dentro de espaço de vida tão curto – e isso as infâncias redomadas, protegidas; que dizer então daquelas sujeitas à pestilência da morte cravando-lhes balas perdidas diariamente à porta? que dizer daquelas vividas em áreas de tráfico, milícia, guerra civil, guerra étnica? que dizer também das que vivenciam o terror de portas adentro, entre pais/padrastos/tios/avôs abusivos, entre os assaltos de doenças, ausências e fomes? que dizer das identidades crescidas sob uma gama de horrores absolutos, em acréscimo à sua justa cota de horrores inocentes?

Do azul da adolescência em diante, são mais não-sei-quantos apavoramentos e dissabores que as asas soltam – prisões diurnas e noturnas (agora talvez mais distintas entre si, interiormente, do que eram nas vaguidões da infância), como aliás a gaiola de Raoul Dufy bem ilustra, com seu lado mais ensolarado e seu lado mais penumbroso, sua porção de pássaro aparentada com a tradicional pomba da paz e sua porção de pássaro que poderia grasnar "nunca mais!" num verso de Poe. O dia engaiola jovens e adultos com horários de assinatura de ponto, catracas eletrônicas, jaulas ambulantes das quais só consegue fugir quem se materializa no emprego, jaulas fixas que estão no próprio emprego, assédios morais, aumento do gás, contas que não fecham, mensalidades que não se pagam, WhatsApp que apita, solicita, chama, faz drama. A noite oprime com o cansaço que desencoraja leituras e demais lazeres, oprime com a insônia que acaba de transtornar psiquês e corpos, oprime com caraminholas filhas da insônia que saltitam num festim sádico: você é gordo, você é feia, você é incompetente, você é mãe ausente, você nunca bate as metas, você nunquinha vai dar matches, você não merece likes, você é uma fraude. Umas e outras gaiolagens então se retroalimentam, se apoiam e se abraçam num mesmo aramado, uma mesma instalação de Jigsaw com múltiplas penas para o mesmo passarinho.

O menos mau é que uma leva de penas não deixa de nos dar asas, eus-passarinhos não deixam de reagir pavões-misteriosos, e não deixa de haver dores (relevem o mix de biologias) que nos empurram para o parto, para a porta, para fora. Há dores de definhar e permanecer – mas também há dores de fechar a cara, fechar a mala, perder o medo, ganhar a vida, ganhar o mundo; dores de ir embora.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Matando no peito o "respeito"


Vou apenas reproduzir o que eu soube da treta por matéria do Yahoo. Consta que tanto Caio Castro quanto Rafa Kalimann compartilharam vídeo em que um pastor diz ser contra relações homoafetivas, "mas respeitar". Obviamente pegou mal – para ser fortemente eufemística –, e o ator tentou consertar esclarecendo que é a favor dos relacionamentos homossexuais, "mas existem pessoas que não são, existem pessoas que têm suas convicções e seus costumes diferentes! Mas precisamos respeitar, não precisamos e nem devemos aceitar! Mas precisamos respeitar! E o vídeo que eu compartilhei é sobre esse ponto que o pastor está falando! Respeito, respeitar as pessoas independente de qualquer coisa! Eu sou contra ele ser contra, mas eu respeito a opinião dele! Tudo começa no respeito".

Caio, meu caro: não concordo senão com uns 3% disso aí, bem-entendidamente a parte do respeitar as pessoas independente de qualquer coisa, e mesmo assim com ressalvas. Defendo, claro, que se respeite incondicionalmente a integridade física de quem quer que seja, que não se humilhe ninguém, que não se promova qualquer tipo de tortura corporal ou psicológica; é porém impossível exigir respeito moral, pessoal, intelectual, todo vindo de convicção íntima, por criaturas que sustentem posicionamentos descabidos, sobretudo no século XXI. Vamos logo aos exemplos extremos: sou absolutamente contrária à pena de morte e seria sempre, ainda que tivéssemos no banco dos réus um assassino nazista, digamos; eu não me veria capaz de quebrar (ou deixar que alguém quebrasse) nem o menor dedinho do pé desse monstro; mas daí a respeitá-lo? Devemos então mostrar QUALQUER espécie de consideração com relação ao fato de que essa pessoa "tem suas convicções e seus costumes diferentes" – a opinião é por acaso um salvo-conduto, um passaporte para todo psicopata ou depravado ou salafrário ser ouvido com ALGUMA deferência? Se, digamos, um desequilibrado grava um discurso defendendo o extermínio de cães ou um projeto de poluição deliberada e agressiva das águas, convém ficarmos apenas sendo contra em nosso cantinho, mas respeitando a opinião dele? Ah! Caio, Caio: ISSO É QUE NÃO, meu querido. Não é nada educativo nem respeitoso com a humanidade em geral tolerar qualquer tipo de intolerância, calar-se diante do despropósito colossal que é dar à fala de um preconceituoso o mesmo peso, o mesmo espaço dado às falas antipreconceituosas. O peso JAMAIS pode ser o mesmo, se não é o mesmo – é aliás oposto – o valor.

"Mas pelo amor de Deus, o pastor que se pronunciou sobre homoafetividade não é um depravado, um salafrário, um nazista como seus exemplos aí, sua maluca!" Eu seeei, gente, nem eu disse que essa pessoa que sequer conheço se enquadra nessas categorias; como falei, minhas únicas informações sobre o furdunço foram da matéria do Yahoo, mais nada. Não sei nomes ou rostos. Quis exclamar simplesmente, apelando aos exemplos exagerados que costumam ser os mais didáticos (já que nos obrigam a redimensionar tudo, rearrumar tudo em perspectiva), que não passa de falácia consumada e redonda essa história de "respeitar opinião". "Respeitar opinião" se aplica quando um prefere novela, o outro filme; quando um curte montanha, o outro praia; quando um considera aquela a música da vida, o outro falece de tédio nos primeiros acordes. Em quaisquerzinhos terrenos que conduzam a preconceitos, que deslizem de encontro à dignidade e integridade humanas, no entanto, cabô negociação, cabô escuta, cabô diálogo: não tem cirandice de respeito à opinião não – é VOADORA (metafórica, naturalmente). De ouvidos moucos em ouvidos loucos foi que chegamos a este estado de calamidade factual, discutindo entre supostos adultos o formato de um planeta sobre o qual costumávamos já não ter dúvidas aos seis anos de idade. "Opinião" uma pitomba encarquilhada: em determinados casos, o direito do opinador se resume a calar a boca.

Mesmo na frugal descrição do enredo feita pelos yahoozers há elementos bastantes para fazer supor que se trata de um desses casos. "Mas gente, o cidadão não pode manifestar suas impressões a respeito de...?" – não, não pode; se não for para expressar apoio e solidariedade, pode é ficar quieto, do jeitinho que eu tenho de ficar quieta num congresso sobre física quântica: quem não pertence àquele espaço e/ou não tem nada a acrescentar, que ao menos não tumultue. Ora, se o pastor em questão não é gay e não foi pedido em casamento por nenhum homem, que carambolas de parte lhe toca para "gostar" ou "não gostar", ser "contra" ou "a favor" num assunto em que nada o atinge e nada lhe foi perguntado? Por acaso faço vídeos criticando a seleção da Croácia, o sistema de nomenclatura das estrelas ou a tecnologia dos balões meteorológicos? "Não, porque você não traria nenhuma contribuição para a área e, caso tivesse algum nome como influencer, possivelmente ainda prejudicaria o trabalho dos principais envolvidos." Mar num é, menino? bingão. Dependendo da quantidade de seguimores com que um indivíduo conta nas redes, uma interjeição, um suspiro, um muxoxo já causam considerável comoção, quanto mais afirmações contrárias a direitos tão penosamente conquistados – quanto mais essas faíscas de predisposição para a raiva caídas sobre a prontidão feroz da palha seca. O MÍNIMO que se pode esperar da decência daqueles que âââin, que saco, não sou obrigado a gostar é sentirem-se obrigados a engolir sua não-gostagem com farofa, e se recolherem à insignificância silenciosa dos "desabafos" sufocados que serviriam a perfeitamente ninguém.

A regra é e sempre foi claríssima: se felicidade, dignidade, plenitude do ser humano estão em jogo, "opinião" que não tenha sido treinada para ajudar baixa a cabeça e senta no cantinho do banco, ou senta melhormente na plateia e fica assistindo. Não pode de jeito nenhum é catimbar a vitória dos que estão há séculos pelejando em campo.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Os dias que nos fazem felizes


O poeta inglês John Masefield, nascido no primeirão de junho de 1878, escreveu lindamente que "os dias que nos fazem felizes fazem-nos sábios". Pois fico felicíssima de concordar com um nativo do abre-alas do "meu" mês, esta metadezinha fofa do ano, inclinada a festas coloridas e guloseimas abundantes. Nunca duvidei, nem por um minutriz: é principalmente a alegria íntima, a alegria dos amores tidos e partilhados, dos sonhos desimpossibilizados, dos esforços acolhidos, das doçuras colhidas, das necessidades acatadas, dos olhos vistos e da pulsação pressentida cariciosamente de perto, das estradas franqueadas e das chances chovidas em abundância – é principalmente essa alegria farta que nutre os neurônios, dá comida na boca da criatividade, bota robusto o discernimento. Não, pessoas não nasceram em hipótese alguma para a angústia, para a tortura; e não são dignas da própria homo-sapice as almas canalhas que romantizam o sofrimento ALHEIO, alegando (obviamente em autobenefício) que "a provação enobrece", "o padecimento forma caráter" ou qualquer afirmação nojenta da mesma laia. Da mesma laia e do mesmo nível de cinismo, por exemplo, que a inscrição espúria dos portões de Auschwitz, Arbeit macht frei, "o trabalho liberta" – situação-metonímia de exploradores malditos tripudiando sobre esmagados a partir dum uso "moralizante" da dor (sabemos bem qual era o trabalho em questão). "Eita, mas credo: trazer Auschwitz à baila??" Sim, e sem nenhum exagero, já que é bem igualzinha a lógica dos sempre empenhados em fazer a ode ao sofrimento dos outros; quem acha PREFERÍVEL a descida de seu semelhante ao inferno como uma espécie de método educativo costuma estar pessoalmente interessado em assumir o papel do diabo.

É evidente que pessoas aprendem na dor, mas porque são pessoas, não porque sentem dor; aprendem a despeito dela e não por sua causa. Se é consenso irrefutável que um ser humano necessita de ar limpo, água limpa, boa alimentação, afeto, cultura, lazer, segurança e tudo que sabemos e ninguém contesta, como é que AO MESMO TEMPO esse exato ser humano fica muito mais evoluído ao lhe tirarmos boa parte do essencial? Ora, mes amis, não precisa ser Poirot para entender que os vendedores do sofrimento são seus exatos produtores, e seriam seus primeiros consumidores – quereriam para si e seus filhos lotes e lotes do produto supostamente maravilhoso – caso não soubessem de antemão que vendem coisa envenenada, ideia pútrida, nem um pouco estimulante e inclusive atrapalhadora de qualquer evolução. A lógica desses fãs da provação alheia, simultaneamente sádicos e hedonistas: servir água de esgoto a uma quantidade gigantesca de clientes e usar os dois ou três que sobreviveram como garotos-propaganda dos benefícios da água de esgoto. Dizem que se esses dois ou três puderam, todos poderiam; dizem-nos altamente portadores de mérito; dizem os demais fracos, despreparados e sem têmpera, tsc, tsc. Ao fim e ao cabo, entrevistam os sobreviventes com os olhos cheios d'água (metaforicamente, também de esgoto) e fazem lives comovidíssimas à beira da piscina, proclamando que o mundo é dos fortes.

O mundo é – ou foi feito para ser – dos felizes. Na infância rica de aconchego e estímulo se plantam os mais crescedouros grãozinhos de empatia, curiosidade, pensamento científico, alumbramento diante das diversidades, consequente respeito às variadíssimas manifestações do ser. Na alimentação transbordante de sabor, natureza, afago se escoram as multiplicidades possíveis do cérebro, que tão mais flexível será quanto mais (e mais cedomente) for provido. No repouso da residência sólida, confortável, razoavelmente a salvo de intempéries e violências, povoada de memórias e braços queridos, de corações macios, duma estrutura familiar abarcante e compreensiva – moram as inteligências a serem desenvolvidas nas relações extrafamiliares, moram as seguranças do futuro profissional, moram as confianças no sonho que serão holofotes dos anos e décadas seguintes. Note-se: não é de mimo, sequer um momento, que falo; é de um terreno firme e fértil no emocional, no sentimental, no residencial, no nutricional, no cultural, no intelectual; é de uma felicidade que deveria ser mínima, óbvia e não de luxo, acessível a todas as mãos como fruta de rua. Que a felicidade nos pareça – ao menos a nós, brasileiros – um artigo de ostentação e não um direito basiquérrimo dá bem a medida da Síndrome de Estocolmo desoladora em que nos encontramos, conformada em baixar expectativas e sobreviver à gaiola, e como que envergonhada de qualquerzinha alegria que soa quase um insulto.

Felicidade não é Chanel, é cesta básica: em nós uma biografia inteira floresce dessa necessidade tão primeira.