quarta-feira, 7 de julho de 2021

Não existe dia derrotado


Sou louca num texto de Fabrício Carpinejar, "Não existe dia ruim", porque sou dessas e muitomente concordo. Pelo título, qualquer leitor mínimo entende com perfeição do que se trata – mas não me é permitido deixar de reproduzir aqui ao menos o finalzito dessa lindeza, que deveria ser acrescentada às orações diariamente transcorridas pelos lábios das crianças: "Não existe dia que não ganhe conserto. Não existe dia morto, dia de todo inútil. Não desista da alegria somente porque ela se atrasou. Pode ter recebido esporro do chefe, ainda assim a hora está aberta. Comer um picolé de limão é capaz de restituir sua infância. Não encerre o expediente com o escuro do céu. Pode não ter grana [...] e ter que escolher o que é menos importante para adiar, ainda assim é possível se divertir com o cachorro carregando seu chinelo para o quarto. [Quando acordo com o pé esquerdo, sou canhoto. Não existe dia derrotado".

Em minha defesa prévia, e por tabela a de Carpinejar, vou protestando contra protestos potenciais: nãããão operamos aqui com romantização da crise nem com positividade tóxica, que DESSAS não sou. Operamos com pura e simples sobrevivência. Acho baratamente nojentas, já o disse e redigo na força do ódio, as reportagens que elogiam o sabor da comida feita à lenha porque não dá mais para adquirir botijão, ou as que passam maravilhosas e nutritivas receitas de omelete porque a carne está impossível. ISSO é douração de pílula e cafajestagem, uma vez que assopros brotam das mesmíssimas fontes da mordida: são exatinhamente as grandes corporações midiáticas que, com a coerência infernal de sua natureza de grandes corporações, apoiam salivantes o arrocho do que é público, a "lógica" da austeridade, as reformas que inviabilizam mais e mais os caminhos do bem-estar social. Fazem-se então de lymdas as empresas – e espalham historinhas de superação e sugestões edificantes, pollyannando a rotina para o gigante dormir. A mim, parte do gigante, não interessa nada que o gigante durma; mas interessa consideravelmente que ele sobreviva.

Porque sem ALGUMA felicidade não sobrevivemos. Sem uma consciência mínima, minúscula que seja (mas com tamanho de se agarrar) de um gosto da vida, na vida, simplesmente passamos a não estar nem existir suficientemente para o básico da luta. E é como trampolim – jamais como sossega-leão – que acredito com muitíssima força na potência das minialegrias: colhidas com diligência, elas em geral são o que faz a gente se recusar à aniquilação, ao óbito. Vivos, moralmente vivos, autopercebidamente vivos, somos possantes, ainda que o gatilho levantador da chave de força seja olhar no espelho e constatar que o cabelo está direitinho feito o de uma diva dos anos 40, sem querer, sem tentar; ainda que o contentamento energético venha da perspectiva dum sabor novo de iogurte, dum filme novo na Netflix, duns filhotitos novos que talvez desembarquem hoje ou amanhã da cadelinha prenhe, dumas cores novas que a linha de tinturas lançou para incrementar o cabelo (de diva dos anos 40). Ficamos repossantes, às vezes, de resvalar num poema, de flagrar amanhecendo com arco-íris – hoje eu vi! –, de chorar num capítulo de novela, de trocar os cadarços cinza por duas cores de marca-texto, de descobrir que recomeçou o MasterChef (e pegar o programa iniciandinho), de jogar um dominó com o neto, de reencontrar um bilhete de nossos ex-vinte anos, de tomar um chá de maçã e canela, de se assombrar com uma banda no YouTube, de se enfiar com o inverno – e mais alguém, e mais ninguém – no quentucho do edredom.

Não existe dia derrotado. Mesmo sem o crachá de dia bom.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Tudo que ninguém queria saber nem tinha intenção de perguntar


Vez em quando deparo por aí umas perguntinhas ao estilo "Você preferiria...", e fico besta de como 1) tem gente no mundo que se dedica a criar impasses e plantar dúvida nos corações humanos, e 2) em boa parte dos dilemas eu não faço a mais remota ideia do que prefiro. Mas vou fingir que superfaço, pleníssima, enquanto brinco de reunir aqui umas tantas questões a que ainda consigo responder com razoável integridade – até o fechamento do post:

Você preferiria só comer chocolate ou nunca mais comer chocolate?

Bastante cruel, porém não há muito que pensar: nunca mais comer chocolate, claro. Prefiro a parte salgada e a alegria que mora na variedade da dieta – sou vária e pássara por natureza irreprimível.

Você preferiria ser totalmente esquecida ou ser lembrada como uma pessoa ruim?

Não vejo o que possa haver de mais horrendo do que ser uma pessoa ruim, independentemente de como firmemos domicílio na memória alheia.

Você preferiria falar todos os idiomas do mundo ou conseguir conversar com os animais?

Todos os idiomas do mundo, sem pestanejices; eu estaria feita nas literaturas e viagens todas. O fato de amar os animais não me persuade suficientemente a virar uma doutora Dolittle.

Você preferiria ter o superpoder de voar ou o de ficar invisível?

Vejamos: curto fanaticamente discrição e privacidade, o que não estaria muito à mão caso eu saísse dando pintas flutuantes pelo planeta. Vamos de ficar invisível, é sorrateiro e malemolente que chegue – e pode ajudar a obter provas bem lindas de crimes diversos. Provas de baphonizar qualquer CPI.

Você preferiria ser capaz de ler os pensamentos ou de prever o futuro?

Prever o futuro, levando naturalmente no pacote a chance de mudá-lo.

Você preferiria viver uma vida que durasse mil anos ou dez vidas de cem anos cada?

Uma vida de mil, com uma só identidade e tempo bastantão para aprender e ajudar quanto pudesse, quanto atingisse. Para que ia querer trocar de jogador tantas vezes e perder umas boas décadas reconfigurando o HD formatado?

Você preferiria se tornar um personagem do seu livro ou do seu filme favorito?

Do filme é mais negócio, hein: eu continuaria no século XXI e passaria os dias no Montmartre, como BFF da Amélie.

Você preferiria ser presa por três anos sob a acusação de algo que não fez ou passar o resto da vida livre, convivendo com uma culpa terrível por algo que fez?

Ser acusada e presa injustamente por três anos, for sure; tem prisão mais real e masmorrenta que uma consciência intranquila?

Você preferiria nunca mais precisar dormir ou não precisar se alimentar?

Concordo que pertencer à turma da fotossíntese seria um SENHOR adianto em termos de orçamento, mas comer é bom e eu gosto; a dormir, por outro lado, sempre fui avessazinha, e adoraria ser aposentada da obrigação de gastar horas! com pesadelos de provas para as quais não estudei e trabalhos que não fiz pedidos por professores que não tenho. Ô, canseira.

Você preferiria sempre saber quando alguém está mentindo ou conseguir mentir sem jamais ser descoberta?

Não tenho o mais vago interesse em mentir nem sei para que o faria; já a habilidade de meter um manual do FBI e sacar por minimicroexpressões faciais se uma criatura está loroteira – eis um velho, balofo sonho de consumo.

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E por aqui encerro a primeira sessão do jogo autobrincado, exausta de imaginários problemas. Até os próximos dilemas.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Salve-se quem puder


OK, admito, tenho voltado a dar umas acompanhaditas em novelas após um período de amofinação sabática (mesmo assim, quase sempre começo pelas espiadas de comercial, pelas esbarradas de zapeamento, até que os ois aqui e as ceninhas clandestinas ali me pesquem em definitivo – ou repesquem, como no caso dA vida da gente. Primeiros capítulos e suas fúrias de apresentação de personagens, cenários, trilhas me deixam absolutamente amargurada, com a honrosa exceção das tramas de Lícia Manzo; lembro que terminei o episódio inaugural de Sete vidas com o encantamento vibrando quentinho no peito, apaixonada até pela abertura, e só me custou um bocadito ceder à atual reapresentação das seis porque EM GERAL não gosto de revisitar nada. Dona Lícia obteve de mim que eu quebrasse essa regra e esse desconforto). Não assisti a coisa alguma das nove horas, é verdade, salvo os últimos três ou quatro dias de Amor de mãe; convenhamos que o dedo de escolher reprise para o horário tem sido podre – Fina estampa ganha fácil um canto no pódio das maiores bombas dramatúrgicas de todos os tempos; quanto a Império, FRANCAMENTE. Em compensação, me embolei ano passado com Totalmente demais, que não tinha visto em sua primeira "encarnação" (adorei), e agora pego desde os rabichitos finais de Malhação até o fim da trama das sete, a que chamo carinhosamente de "novela bocó". Sim, é bocó, odeio de morte as coisas bocós e me apeguei a essa; quem nunquinha?

O problema de voltar a ver novelas, porém, é que mui depressa a gente relembra por que parou de vê-las. Se as irritâncias continuam ali, o que mudou para que eu entrasse novamente nesse barquito pré-afundado? vós me perguntareis, como pessoas sensatas e lúcidas. E eu vos direi: certo perdi o senso; não faço ideia do porquê de estar reaturando essas bagaças, em especial a Salve-se quem puder, cujo título não deixa de ser bem fiel ao espírito da coisa; ou ando em momento particularmente zen, ou tão traumatizada com o enredo do país que os olhos se anestesiaram e arriaram as defesas, pasmadíssimos. De qualquer modo, a fase de tolerância insólita não anula a plena consciência dos disparates que nos empurram pela goela – posso facilmente apontar uns que sapateiam sobre nós, eternos e robustos:

Personagens que, após qualquer acontecimento ou diálogo, PRECISAM resenhar o bagulho consigo mesmos em voz alta, o que depõe mil por cento contra a opinião que a produção parece ter da inteligência do espectador AND coloca os atores em situação deplorável. Tem de ser muuuito Tony Ramos para segurar na dignidade um solilóquio autoinstrutivo, senhores.

Personagens que claramente necessitam duma nebulização emergencial ou bombinha de Aerolin, já que sussurram O TEMPO TODO.

Personagens caricaturais, histriônicos, histéricos nas características, como seres de Zorra total encarcerados num só pensamento e bordão.

Personagens que, assomados pela raiva, destroem o que houver pela frente, sem a menor consideração pelos nervos pragmáticos do público – que imediatamente desembarca do drama para lamentar o valor das peças quebradas e se perguntar quem é que agora limpa e arruma aquela joça.

Musiquinha de comédia, vinhetinha de comédia, barulhinhos de comédia. Aliás, trilha sonora/incidental onissonante, avisante ao estrupício do espectador como ele deve se sentir segundo a segundo.

Flashbacks de coisas que vimos há CINCO MINUTOS na porqueira do capítulo, porque naturalmente a audiência, além de imbecil, tem memória de peixe de aquário.

Entreveros facílimos de desatar com 1,4 minuto de diálogo ou um áudio no zap, mas estendidos por 823 semanas de choro e ranger de dentes dentro e fora da tela.

Justiça seja feita, entretanto: praticamente nenhum desses e doutros miniexposed se aplica ao que Lícia Manzo já apresentou, ela sempre respeitosíssima e quase veneradora de nossa capacidade de tirar conclusões sem que obviedades algumas nos sejam gritadas na cara. Reservo as observações ranzinzas para os demais folhetins, com menção desonrosa para o das sete, ao qual tenho concedido sem cegueira um passe para me azucrinar dia após dia. Mais confiança nos neurônios do público, autores, eu vos suplico: já não estamos em grande parte diplomados nas manhas da sutileza por tantas séries que não têm nem tempo de nos subestimar? Não, os espectadores não são energúmenos com amnésia, são gente habituada às montanhas de informação da Marvel, easter eggs, referências a outras mídias, personagens cujo olhar amoroso ou arrependido ou odiento só será explicado 37 episódios à frente – e sobrevivemos todos, pleníssimos. Em caso de dúvida, 20 segundos de troca de figurinha no Face ou no Twitter resolvem.

(Mas afinal por que eu consinto em passar pela provação das 19h? Thiago Fragoso, mores. Bota Thiago Fragoso no trem – que resolve também.)

domingo, 4 de julho de 2021

As mãos e a luva

Sendo bastante óbvio que j'aime l'amour (assim mesmo em francês, língua feita para amar, quando não está derrubando a Bastilha), nada mais apropriado que eu homenageie um aniversariante de la patrie babando-lhe uma das obras mais doces, mais impressionantes – e provavelmente das mais apaixonadas em toda a história da arte. Essa lindeza aí acima, Le baiser (O beijo), veio dos pincéis de Charles Auguste Émile Durand, autoapelidado Carolus-Duran, retratista fenomenal nascido há 184 anos exatinhos. Dizem mesmo que a tela não lhe veio só dos pincéis, mas muitíssimo d'alma, colocando-se entre as primeiras selfies amorosas de que se tem notícia; afinal, os dois enamoradíssimos em questão seriam o próprio autor e sua (já então?) esposa Pauline Croizette, ela também pintora – pastelista e miniaturista –, romanticamente filha de uma bailarina francesa e parece que de um grande senhor russo. Para CÚMULO de século-dezenovice e de delícia clichê, ambos se conheceram nas salas do Louvre, aonde iam os artistas copiar obras dos velhos mestres. Suspiros oitocentistas.

O que mais adoro em Le baiser é absolutamente tudo; não há um cantito, uma pincelada que não seja um combo de desejo e ternura. A luz intensa sobre o casal, fora do qual praticamente não sobra senão escuridão (em qual encontro de dois ébrios recíprocos NÃO é esse o sentimento?); a rosa nos cabelos da amada, certamente posta aí pelas mãos do moço, uma das quais já está mesmo perdida entre as ondas castanhas e as sustenta com o mesmo tanto de ímpeto e de delicadeza; as outras três mãos, cada uma um poema à parte: a direita dele – tocando-a não tão alto que possa desrecatá-la como uma flor de seu tempo, e não tão baixo que não roce sofregazinha e meio sem querer o seio; a esquerda dela – tentando e não tentando deter as pequenas ousadias de seu amoureux, levemente tensa talvez, mas não tensionada o suficiente, mais entrega do que restrição; a direita dela – afundando-se nos cabelos dele e presumivelmente puxando-o para si, embora conte muitíssimo menos uma história de posse que de incondicionalidade e carícia autoabandonada.

Esse erotismo suave de avanço e recuo, de receio e confiança encontra uma metonímia a mais no vestido da suposta Pauline: as mangas são longas comme il faut, porém graciosamente transparentes, e deixam ver por inteiro os braços que cobrem por inteiro; e o próprio branco rendado, etéreo, denotador clássico de inocência é recoberto pela sensualidade vermelha da manta – sobre a qual, aliás, pousam os dedos querentes e maliciosos (mas maliciosos devagarinho) do suposto Charles. Há outros sinais marotos da linha fina, deliciosa, entre ingenuidade e volúpia, como a meia duzinha de pétalas escapadas à rosa que enfeita a bem-amada, o próprio caimento da manta sob a bem-amada – em formato de rosa –, a promessa de nudez simbolizada pelas luvas largadas e displicentes (em outro retrato de Pauline, no ano seguinte aO beijo, o artista usou explicitamente a metáfora ou o fetiche, pintando a esposa vestida toda de negro para conferir mais destaque à luva languidamente branca a seus pés, e a seu movimento de ir despindo com certo ar de desafio a segunda luva), além do leque igualmente negligenciado; um leque, afinal, é código de sociedade e salão, e sociedade/salão não parecem achar lugar na possança do encontro amoroso. Abaixo da luva, das flores, do leque, ainda uma piscadinha para o contemplador voyeur na forma duma pequena folha desenhada com contornos de coração: um OWN para selar nossa rendição eterna.

Não pode enfim deixar de comover-me um arrepio, essa eletricidade que há na boa e velhíssima arte, no bom e velhíssimo amor, de correr por nós e falar a nós em completa liberdade de contexto e de tempo. Nenhumas outras linguagens, nenhumas! nos transformam num eco tão possível de verdades humanas; um beijo dado ontem nos acarinha hoje na memória não vivida, quase como se bastasse ter vivido para que a lembrança pulsante do outro – no outro – seja o nosso número.

sábado, 3 de julho de 2021

Da arte de virar específico


Uma frase pinçada às páginas íntimas do querido Kafka, que hoje completaria 138 aninhos bem fornidos, perturba-me: "Dizer que me abandonaste seria injusto, mas dizer que estava abandonado e, no momento, terrivelmente abandonado, isso é verdade". Não é estranho considerar que se possa estar abandonado, assim de maneira adjetiva como quem está irado, parado, cansado, sem ter sido abandonado por nenhum agente da passiva isento de coração? E entretanto é coisa até bem ilustrável; alguém pode se ver congelado de bater queixo ainda que seu cuidador tenha se esmerado em empilhar edredons, bastando para isso que a criatura a ser aquecida esteja devorada duma febre toda particular: não foi negligenciada, não foi desassistida, simplesmente algo muito superior à intervenção alheia a consome, algo potente demais a assoberba e nem tudo quanto por ela se desdobre há de ser capaz de saciá-la.

Não deixa de ser a lógica dos amores incorrespondidos de qualquer espécie: o frio não cede a cobertor que não seja específico. Quando Kafka suspirou abandono, poderia, sabe-se lá, estar falando duma solidão direcionada e pontual, solidão com nome e sobrenome do ausente escritos na respectiva lacuna; poderia estar falando de um vácuo afetivo que não era vácuo afetivo, era ferida aberta, possivelmente tratada e mesmo assim sangrante, mesmo assim dolorosa. É também uma verdade dolorosa, esta, para os não abandonadores dos abandonados crônicos: toda a ternura empenhada recebe no máximo, em retorno, uma vaga gratidão, um reconhecimento intelectual e solene, não exatamente consolador para quem se desvela. Embora quem se desvela tecnicamente o faça por amor, claro – e tecnicamente não deva aguardar pagamento; mas isso não é sentir, é saber, e convenhamos que ao menos em caso de amor romântico essa gratuidade se complica. O perpétuo-abandonado-insatisfeito (a não ser que seja um fela) acaba acrescentando a culpa a seus males íntimos, o outro lado pode incorporar amargura e o caldo entorna de vez, com ninguém fazendo bem a ninguém, quando ambos queriam estritamente o melhor um para o outro.

Qual a solução para um descompasso tamanho entre lacunados e preenchedores? Amadíneos, se eu soubesse não estaria em residência purgatória no Brasil, já me encontraria RYKAH em Paris comprando flores diárias para a mesa da sala e croissants em volumes industriais. Porém me arrisco a chutar que a solução, se há, é uma quente, amorosa e macia paciência por parte dos que se dispõem a não abandonar os arredios. Não é autoanulação, autoimolação; é paciência. Uma esperteza muito tranquila no saber fazer-se agradável, em seguida necessário, mais adiante fundamental, progressivamente saudoso. Uma alegria muito mansa no limpar das feridas, no atar das fraturas expostas – devagar, devagar, como uma fisioterapia moral, um bocadinho a cada sessão. Uma doçura tão constante, risonha e sem fadiga que as velhas exclusividades, as velhas exigências do coração inconsolááável vão derretendo num banho-maria despercebido, um conforto com cheiro de carro novo brota da presença recente, os tijolinhos da resistência magoada viram ganache. Um único ensinamento é líquido, brega e certo: o amor habilidoso tem o monopólio de conquistar amor; mas quando digo habilidoso eu uso escala Florentino Ariza, o que me faz desrecomendar esperanças a qualquer um que se veja suscetível demais à ansiedade, ao ressentimento, à chantagem emocional (que inferno em vida, Senhor), à autodepreciação e à cólera.

Em caso de amor persuasivo, a carência de amor se deixa amar, e enfim ama; porém é verdade que o processo, na íntegra, transcorre sem prazo. Os que seguem com pressa não brinquem, que se tornar específico é arte dos que, nas demoras, só têm tempo a ganhar.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Como reticências entre parênteses

Fosse viva, a assombrosa poeta polonesa Wisława Szymborska completaria hoje seus belos 98 anos. Já a citei aqui muito, se tudo der certo virei a citá-la mil vezes ainda, ela que parecia levantar ovos de Colombo a cada linha: versos tão precisos, tão perfeitamente sólidos que é como se sempre tivessem sido, como se fosse óbvia sua existência potencial até que alguém finalmente os constatasse. Maldade ter de escolher um só texto entre sua floresta de monumentos, mas na impossibilidade mesma de ser justa eu fotografo, sem maiores dúvidas ou dramas, o poema "Dia 16 de maio de 1973" (na tradução de Eneida Favre), irresistível porque imediatamente intrigante: "Uma daquelas muitas datas/ que já não me dizem nada.// Aonde fui nesse dia,/ o que fiz – não sei.// Se houvesse um crime nas proximidades/ – eu não teria álibi.// O sol brilhou e se apagou/ e nem me dei conta./ A Terra girou/ sem menção no caderninho.// Para mim seria mais fácil pensar/ que morri por um tempo/ que pensar que nada lembro,/ embora vivesse o tempo todo.// Eu, afinal, não era um espírito,/ respirava, comia,/ dava passos/ que podiam ser ouvidos,/ e as marcas dos meus dedos/ devem ter ficado nas maçanetas./ Eu me refletia no espelho./ Vestia algo de uma cor qualquer./ Certamente algumas pessoas me viram. [...]// Sentimentos e sensações me preenchiam./ Agora tudo aquilo/ é como reticências entre parênteses.// Onde me escondi,/ onde me enterrei –/ até que é um bom truque/ sumir assim da própria vista." Avança só um tiquitito mais o texto, mas o grande ramo que extraí e de que mal pude eliminar uma ou duas folhinhas basta; já não é, em sua aparentíssima simplicidade, um chute existencial nos chakras ou na canela? Eu, ao menos, não pude me abster dum desconforto feito de reflexões nada inéditas ou desconhecidas. O poema me fala em particular porque sempre existiu para mim até que Wisława o pusesse de pé.

Desde há muito me incomoda, sim, essa nossa debilidade de memória, essa nossa impossibilidade crônica de nos abraçar inteiros a ponto de nada de nós nos ser ignorado; confesso meu susto ao esbarrar em qualquer anotação antiga, rabisco antigo, bilhete antigo e não fazer ideia do que aquilo significava para a menina ou moça da qual eu era o endereço. Como é que um pedaço tão relevante de um dia, uma época pode ser simplesmente cancelado de nosso registro de afetos? Como é que o sentimento de um dia só que seja – unzinho mais amargo ou preocupado ou contente que chegamos a viver – some assim dedo-estalarmente, bastando para isso que continuemos inexoravelmente vivendo? Lembro um espanto profundo, um abalo perplexo de constatar, certa ocasião em que revirava uns meus papéis de escola adolescentes, que era INCONCEBÍVEL ter morado em mim a pessoa que estudara aquelas fórmulas, que as soubera, que as aplicara; olhar materialmente para os números antes compreendidos, para as informações frequentadas antes, foi ter em mãos as cinzas dum eu cuja existência se finou sem que me enviassem um avisozinho de passamento, e me doeu um pouco uma culpa misteriosa, como se eu tivesse faltado à responsabilidade de nutrir alguém morto de inanição.

No entanto era essa mesma a pessoa-em-mim que eu sempre soubera moribunda, já que apagar todas as matemáticas odiadas era um anseio e uma promessa solene. Se ainda assim me chateou a perda de acesso aos arquivos de meus velhos eus, que dirá o escoamento totalmente involuntário de memórias que, ao contrário, eram em sua época importantes, significativas, queridas. Não que me agrade ficar nostalgiando – sou muitíssimo o oposto; inclusive me perturbam vivamente os perfumes, os filmes, as cenas, as músicas que foram marcos existenciais de alguma idade, algum momento; mas me perturba também a noção da perda do controle sobre as camadas de identidade, machuca-me a compreensão constatar que partes inteiras de quem somos desaparecem em limbos, dificultando consideravelmente uma plena autotomada de posse. Não quero saber tudo, lembrar tudo, sentir de novo tudo, vade retro! eu precisaria ser internada ou sumariamente explodiria; porém eu TALVEZ quisesse ter a consciência do que não recordo, em especial a consciência de que não há nada ali que tenha sido relevante o suficiente para ser recordado, e que pode, portanto, receber autorização cem-por-centíssima de descansar em paz.

Não quero guardar tudo. Mas quero saber o que não guardo mais.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Só eu acho que:


o Ed Sheeran está a cara do Beetlejuice no novo clipe?

o tema dos Vingadores lembra terrivelmente aquele que tocava em Pantanal?

café da manhã (ou qualquer outra refeição) na cama NÃO é romântico, já que necessariamente transforma o lençol num Beto Carrero World das migalhas – e, em consequência, numa locação de Vida de inseto?

morangos são superestimados?

o amor midi-chlorianizado pela Força entre Rey e Ben merecia mais que um beijo – tipo, quem sabe, a eternidade? (Não quero saber se cabia no contexto, meus padawans, só sei que o casal me dava millennium falcons no estômago. E eu me liquefaço inteira pelos vilõezinhos que são, láááá na esquina d'alma, pessoas adoráveis.)

de todos os filmes culinários, Ratatouille é o que mais deixa com vontadezita de cozinhar?

os algoritmos vêm arranjando jeito de saber o que PENSAMOS?

a capivarinha da Piraquê é um dos pets mais fofíssimos da Via Láctea?

Felicity Jones e Mel Lisboa são de uma parecença incrível?

deve ser mó legal fazer o teste de Rorschach em consultório?

A vida da gente caberia com honras no horário nobre?

olhos cor de mel não são exaltados em versiprosa tanto quanto deveriam?

"Memory", a principal canção de Cats, acaba com toda a alegria de viver que existe num ser humano?

armários brancos são uma escolha evidentemente soprada pelo Alexandre dA viagem no coração dos decoradores?

não faz o MENOR sentido colocar o feijão por baixo, uma vez que a função prioritária do arroz neste planeta é servir de caminha para seu parceiro e evitar o excessivo esparramamento de caldo? (Sério, people: qual a dificuldade de compreender que arroz é um instrumento de CON-TEN-ÇÃO?)

nosso mundo já queimou fatos DE MAIS no Tribunal da Sagrada Opinião?...