sexta-feira, 12 de junho de 2020

Longe

livre arte de balão de coração fotos | Piqsels

"O que amamos está sempre longe de nós", diz minha adorada Cecília Meireles num primeiro verso de poema, aguda, precisa, com o típico jeito ceciliano de flechar no peito as coisas mais abstratas. (Cecília, por sinal, é um ser amado que estará eternamente longe no tempo, e que tenho de me resignar a abraçar só em alma – como normalmente são os corações que nos falam fundo sem nos serem contemporâneos.) Sim, admitamos: amamos à distância, ainda que não falemos aqui de enamoramentos platônicos, de loucuras fanáticas, de paixões, e sim de amor mesminho, aquele que Cazuza chamava sabiamente de sorte e em que punha sabor de fruta mordida. Todo o amor que houver nesta vida, por mais deitado na rede, por mais almofadado e confortável, há de ser necessariamente amor por algo que nunca se alcançará – e há de ser mais palpável e terno quanto mais souber que não alcança.

O que amamos tem vida própria. Ter vida própria é se individualizar na existência, a despeito de todos os desesperos românticos de compor uma alma xifópaga. Não há nenhuma possibilidade de eliminarmos todas as fronteiras, de expormos 24 horas corridas de pensamento, como um BBB emocional; e é lindo que não haja. É vital. Se é pedregoso o caminho para amarmos a nós mesmos, nós que acessamos todas as nossas miudezas e os menores detalhes poucos dignos de orgulho, quais as chances de aceitarmos somar nossas zonas já penumbrentas com as que vêm em outras histórias e outros pacotes, se tudo pudéssemos ver com clareza crua? Claro, não podemos amar o perfeitamente desconhecido; porém está implícito, no contrato inescrito do amor, que o outro será um parcialmente desconhecido eterno, e ainda assim aceito com braços esperançosos. (Desnecessário dizer, mas digo: estamos excluindo psicopatias e bonitezas semelhantes, que aqui ninguém quer dar depoimento para os Lobo em pele de cordeiro ou os Vivendo com o inimigo que passam no Investigação Discovery.) O acordo é amar com motivos para convicção, receber com alguns mínimos pré-requisitos para a entrega, mas SEMPRE sabendo que não há totais garantias quando se lida com material humano, que ocorrerão surpresinhas – e tudo bem. Ou se fará o possível para que fique tudo bem. Sem possessividades, sem neuroses, sem textões no Reclame Aqui só porque a criatura tem uma areazinha 51 indisponível. Todos temos. Se não guardamos ali nenhum (neeeeenhuuuuum) artefato com potencial de nuclearizar a relação, é só nossa a posse das chaves – inclusive para decidirmos quais chaves, divididas, ficariam mais leves. 

Amar é o salto de fé indispensável, amar não exige senhas, não vasculha celulares, não revira bolsos. Amar tem mais o que fazer. Ainda que não tivesse, jamais violaria os espaços de independência, uma vez que é safo o suficiente para fazer uma continha simples: ou a confiança existe e a invasão é inútil e absurda, ou a confiança não existe, a invasão é igualmente inútil – e absurda é a própria relação. O amado, a amada de verdade está sempre longe, sempre inacessível a quaisquer tentativas nossas de enjaular suas nuances, e tão mais inacessível se tornará quanto mais forçarmos a porta; quanto mais assaltamos o castelo, mais alta e mais acorrentada a torre dos segredos. "Amor" desses para quê? Para quem? Com que objetivo e com que alegria? Não bota nenhuma luz no coração obter a borboleta na base da rede para depois destruir-lhe o voo, matá-la na essência cravando-a numa superfície de dissecação. Quem a ama, se a quer (e lhe quer) realmente como borboleta, ama-a devagarinho, como diria Quintana; ama-a sabendo que ela só voará e terá a íntegra do próprio encanto enquanto pertencer a si mesma. Ama-a contemplando-a em suas distâncias e se fazendo disponível como campo de pouso, um pouso voluntário e leve que a borboleta só cede àquilo que é capaz de saciá-la em seu apetite de flor.

Amar só acontece na delicadeza com as lonjuras (maiores ou menores) dos destinatários. Nada injustifica mais um amor do que pesar sobre aquele a quem deveria servir de catapulta.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Óbvios pululantes

Poeira Porta Janela Luz - Foto gratuita no Pixabay

Às vezes a gente está cansada, apenas muito cansada do peso da conotação, por mais demasiadamente colorida que seja (ou talvez por isso mesmo), por mais derramada e fascinante. Às vezes estamos exaustos, não queremos lidar com desdobramentos. Queremos falar do vento como símbolo de nada, só como a importunação que embaraça loucamente os cabelos, esbarafunda-os sobre os olhos, perturba a saia nas estações de metrô (por que é que sempre tem um tornado morando nas estações de metrô?). Queremos olhar a nuvem gorda apenas em sua glória de chuvaréu prestes a cair, não como maus prenúncios, maus humores, obstáculos. E a pedra? Às vezes também a queremos somente pedra, pedrapedra em si mesma no meio do caminho, lindinha, redondinha, coberta de limo talvez, sem textões ou metáforas. Como são fabulosas as metáforas – mas como estafam, quando o coração só precisa do óbvio!

Há um ou outro dia em que, pelo bem do repouso d'alma, a luz é bem literalmente luz entrando pela fresta, a fresta é simplesmente a semiabertura que deixamos para não termos de lutar com o vento que é só vento. As borboletitas que esvoaçam de primavera (ih, pronto), ainda que estejamos outonais e rumo ao inverno, são insetos espalhadores de pólen, são viventes em busca de acasalamento; podem parar por 24 horas de ser fadas, flores aladas, pedaços de arco-íris, ícones do efêmero, embaixadoras da leveza? Podem as flores, por um intervalozinho de nada, ser apenas acontecimentos vegetais que olhamos com prazer, ser partes que gerarão outras partes comestíveis, em vez de representarem tudo que é novidade e juventude? O mar tem a licença de ser imenso unicamente nele próprio, sem arcar com as alegorias da força, da inconstância, da surpresa, da traição? Por um pouquitinho que seja, pode a Organização Mundial das Vozes Conotativas deixar as coisas em paz?

Tem horas que: let it be, let it go. Permita-se ao sol ser estrela, à lua ser satélite, à pena ser elemento da asa, à asa ser membro de animais quentinhos que não mamam. Até porque não é possível; não é possível evitar a beleza do óbvio mesmo por um tempinho à toa. Ainda que o coração fatigado esteja em dieta de metáfora e engula uma metonímia no máximo, o mundo transborda, o mundo é devastador: o ar em movimento faz as folhas girarem fofamente até o chão, a nuvem em algum momento não sustenta mais seus (a)cúmulos, a pedra vista em detalhe tem sempre milhões de cores e purpurinices, a luz cria jogos de sombra e dá visibilidade ao balé da poeira; as borboletas, o mar, as flores – já se extravasam em milagre sendo exatamente o que são, já não se contêm onde estão contidos, nem na ciência mais fria ficam prosaicos. E como transformar em pura objetividade uma estrela que alimenta tudo que nos alimenta? Como tornar menos romântico um astro que existe para nos escoltar e ser espelho dessa estrela? Como botar um olhar neutro sobre aquilo que desafia a gravidade sem cálculo ou raciocínio? Luta inútil: não há maneira viável de sacar o lirismo do mundo – esta ode escrita tão de propósito que continua a rimar quando não estamos olhando, e continua a espantar, por acinte, onde a linguagem nem brota. 

A realidade se impõe certamente, mas o extraordinário sempre esteve no pacote. Se, como disse Nelson Rodrigues, o Fla-Flu nasceu 40 minutos antes do nada, chegou atrasadíssimo: dois milênios antes do antes, a poesia já se havia forjado, nem que fosse pelo próprio paradoxo de sua inexistência.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Revisitâncias

Imagem gratuita: boneca, lembrança, de madeira, artesanato ...

As brincadeirinhas de Facebook não são novas, mas ganharam impulso durante a quarentena: entediadas ou precisadas de um desestresse, de uma mudança de foco, pessoas embarcam em desafios como postar dez cartazes de filmes que lhes foram essenciais, sete capas de livros que mudaram sua vida, vinte canções que resumem sua biografia e outrices semelhantes. Normalmente, só um item da lista é postado por dia; no post algum amigo é marcado para continuar o jogo, o amigo marca outras tantas criaturas, que marcam outras tantas criaturas – e vai a coisa crescendo em PG, num esquema de pirâmide do bem. Claro, muita gente faz a egípcia quando o coleguinha lhe passa o bastão, no que está absolutamente em seu direito: ninguém é obrigado a deixar tempo e vontade a serviço dos caprichos de seus contatos. Eu, de meu cantinho, vejo essas dinâmicas com simpatia, e confesso gostar de ser marcada; cria um pequeno compromisso de nós para conosco, não de ter um dever de casa (esses não faltam), mas de nos fazermos casa de memórias a ser revisitada amorosamente. 

As listas a que sou convocada com mais frequência são as de livros – às vezes gerais, às vezes específicos, como agora os de poesia. Não me faço de rogada, topo sempre, porém não vejo graça em repetir itens ainda que o desafio seja o mesmo; em consequência, mergulho e remergulho no já lido, no já amado, no crucial, no mais fundamental entre os fundamentais, e peso, e comparo, e abro o armário para checar as prateleiras, e consulto anotações de anos recentes. Admito: em nome de alguma variedade de autores, acabo não sendo exatamente leal à escala das importâncias (vá lá, fica chato cravar George Sand em sete posições entre dez); mas mentir, não minto. Todos os integrantes de qualquer lista são escrupulosamente queridos, embora me incomode sentir que minhas leituras de formação, as autênticas, já estejam rareadas, pelo motivo simplíssimo de a formação em si já andar em fase de manutenção. Talvez as relações – nos vários sentidos do termo – tenham perdido os apaixonamentos de primeira hora, os frescores de quem descobre preferências, de quem inaugura de cores a tela, de quem se estreia. Provavelmente. Afinal, as obras conhecidas agora não abordam olhos novatos de quatorze anos, mas de quarenta; é consideravelmente mais difícil chocá-los ou redirigi-los, sabem o que querem, a maioria dos dardos está lançada. Em compensação, parece mais satisfatório descobrir, hoje, uma pérola com maior potencial de abalo – talvez tão poderoso quanto conhecer um pedacinho terrestre capaz de superar nossas projeções infantis do paraíso. 

Engraçadamente, com os filmes a lógica (pelo menos no meu caso) é bem outra: não me surpreende que a qualquer momento, em qualquer sessão, uma produção possa entrar para minha lista de clássicos sem grandes burocracias. Não sei se porque o contato com filmes envolve imagem, trilha e uma absurdidade de coisas para além do texto, apelando para respostas mais imediatas de nossa medula; não sei se porque o cinema normalmente só dispõe de umas duas horas para capturar amores que se desenrolam, com os livros, por dias e dias; não sei se porque as tecnologias da telona vão ficando mais e mais impressionantes, atacando partes de nós que os recursos analógicos do papel não podem tocar – seja pelo que for, enfim (e me parece mais provável que seja por tudo isso junto e mais dois ou três milhões de motivos), o fato é que literatura é amor interminável de juventude, cinema é amor avassalador ou racional de maturidade. Que maravilha não precisar escolher entre ambos, que maravilha ser convidada a fazer listas em que necessariamente me questiono e me redefino por meio de ambos. A pessoa que sou (somos) é uma coleção de mudanças provocadas e atravessadas por narrativas.

Nesta era de plot twists em que a humanidade ressignifica suas construções, supercombina que recebamos um empurrãozinho diário para apertar o refresh de nossas páginas e renovar o preenchimento de nossas lacunas.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Piratas

Coração Risco Amor Ataque - Imagens grátis no Pixabay

Amo o Roupa Nova desde criancinha, por influência da irmã e das novelas – que me enfiaram esse amor na vida quer eu quisesse, quer não. Quem cresceu nos anos oitenta e noventa tomou surra de Roupa Nova em seu estado puro; não havia uma trilhazinha nacional em que os seis rapazes não estivessem metidos (chegando ao ápice de duas canções na mesma trama das 18h, a bonitinha Felicidade). Uma de minhas roupanovices favoritas é "Coração pirata", que vibrou em Rainha da sucata como tema da protagonista Maria do Carmo. A melodia é irresistível, mas a letra (propositalmente) nada tem de encantadora; é, ao contrário, um tão grande libelo da arrogância e da meritocracia que, pelo exagero, sublinha o ridículo do discurso. Ficamos entre impossibilidades iguais de não amar a música e de simpatizar minimamente com a bisca do eu lírico.

Há sobretudo um verso dessa voz patife, que se considera sempre com a razão, capaz de trazer escândalo aos mais empedernidos: "E nunca me dou". Nem era necessário o biltre garantir que não confessa um erro, ou que manda no sucesso sem jamais pedir-lhe qualquer coisa, para que o desprezássemos solenemente; ele nunca se dá, eis tudo, I rest my case. O que seria razoável esperar de alguém inabilitado para algo tão básico em termos humanos – e inabilitado não porque um trauma horrível o impediu de confiar, e sim porque a confiança e a entrega lhe parecem, por princípio, uma fraqueza? Nada pode ser cultivado com o menor triunfo em terra que não abra qualquer espaço para raízes. Nada medra, nada cresce, nada se fixa em torno de almas nuas de oásis, inteiramente pavimentadas de autodefesa bruta, de egoísmo da gema, impermeáveis, inatingíveis, inchoráveis, recobertas de raivas maciças sem áreas macias. 

Quem nunca se dá não consegue se instalar em relação amorosa saudável, já que, por definição, faltam a parte do "saudável" e a parte do "amorosa". Quem nunca se dá pode até obter que os outros se deem (e normalmente o obtém, porque nada como a falta de empatia para descer à sedução mais estratégica, mais baixa), mas nenhum tipo de sociedade dura se um dos parceiros investe capital e esforço – e o outro, desculpas. Lábias e justificativas de peitos ocos têm validade menor que iogurte, fedem cedo, fazem água, estufam os limites, e mesmo que o gosto pareça estável não há como não saber fortemente que ali anda veneno. Os que se dão (até em excesso) podem estar em urgência solitária, porém urgências são agudas e não crônicas, inteligências e amores-próprios ficam em suspenso sem ficarem suspensos, e um dia a Grande Ficha desaba. Junto de quem nunca se dá, está alguém que não aceitará eternamente não receber.

Quem nunca se dá pode organicamente fecundar, conceber e parir, mas de modo algum será pai ou mãe no pleno teor do nome: trará o brinquedo sem trazer o brincar, será o sustento sem o colo, o bolo de aniversário sem o sopro conjunto, a bronca sem o olhar, o quarto de designer sem o acampamento na sala ou a produção coletiva de pizza na cozinha. Quem nunca se dá pode dedicar-se até com ferocidade excessiva ao trabalho, mas não perguntará a suas ações quantos mundos individuais elas tornarão melhores. Quem nunca se dá pode ser ótimo piadista de festa, excelente animador de feijoada, padrinho generoso de casamento, parceiro ideal de pôquer, mas não há de ser amigo – aquele de vida e morte, disponível no meio do caos, autêntico na atenção, aberto às confissões mais estrambóticas. Quem nunca se dá é coração pirata, sim, e não apenas no sentido corsário que toma tudo pela frente; é pirata mui especialmente pela qualidade discutível da alma fake, da imitação barata de gente, do pacote vistosinho que embala um espírito de bugiganga. 

Por trás de toda avareza emocional há dois monstros: o infeliz que foi presa só de afetos adulterados e sua consequente evolução em predador.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

A luz difusa

Foto profissional gratuita de apresentação, audiência, balada

Tenho uma ruma de motivos para ficar de pé atrás ou nem gostar de Ciro Gomes, mas a capacidade do cabra de soltar tiradas fantásticas não entra nesses motivos. Recentemente, num daqueles debates da Globonews entre políticos de espectros diferentes, dei uma gargalhada das robustas ao ouvi-lo referir-se a Sergio Moro como uma espécie de cortesã CHO-CA-DA de se dar conta da própria atividade: "[...] dezesseis meses depois, ele, que estava ali [...] na luz difusa do abajur lilás, no samba [...], descobre que estava cercado de prostituta". Embora com seu tanto de machismo ancestral, a comparação saiu tão inesperada e inusitada que precisei explodir em riso. É isto: andam por aí, aos bandos, essas supostas almas cintilantes de Penélope Charmosa que fazem uma cena shakespeariana ao serem confrontadas com a sujeira que não viam e não podiam deixar de estar vendo. Almas que passeiam com o traje dominical de "cidadão de bem" e ignoram sorridentemente os respingos de lama no forro.

É evidente que não me refiro a crianças e adolescentes que crescem embebidos em admiração por pais, avós, tios e não têm nenhuma tarimba para etiquetar o mal, quase nenhum conhecimento das misérias humanas ou muito pouca maturidade para metabolizá-las; refiro-me apenas a adultos vacinados e minimamente instruídos, ao menos em termos de ética. Sabem aquele indivíduo que vai a toooooodos os churrascos mais íntimos do pilar da sociedade morador da vizinhança, já ouviu 55 mil vezes suas brincadeirinhas de tiozão dirigidas a (ou relativas a) mocinhas que ainda mal menstruam, mas mesmo assim abre uma boca DESTE TAMANHO quando é revelada a atividade mais escrota do vizinho na deep web? Sabem aquela amiga que perdeu a conta dos comentários e reviradas de olhos racistas da outra, já riu amarelo e mudou de assunto eight days a week e, apesar disso, fica BESTA quando a serumaninha viraliza na internet dando piti contra uma pessoa negra no shopping? Sabem aqueles parças que já presenciaram uns arranca-rabos seríssimos entre um casal amigo, já olharam desconfortáveis pro lado durante uma segurada forte de braço, já até atiçaram por zoação uns perigosos ciúmes, mas DE JEITO NENHUM acreditam quando seu companheirão é preso por feminicídio? Então. É quase certo que haverá o momento do autoengano, do autopano passado: gente do céu, eu nunca imaginaria isso, era um cara tão bacana, quem poderia ter previsto? Quem? quem? quem? Raimundo Nonato? Não, filhote: você mesmo. Vocezão. Quão difusa estava a luz, para que transbordamentos tão óbvios de machismo, fascismo, racismo, pedofilia, violência, possessividade, descontrole pudessem simplesmente não chamar a atenção em seu cantinho? Qual o diâmetro do holofote de estádio necessário para ver o horror que lhe dá bom-dia ou compartilha o elevador?

Não posso não me lembrar do Adolf Eichmann descrito por Hannah Arendt – um elemento condenado, quinze anos após a Segunda Guerra, por crimes de genocídio contra judeus. De acordo com Arendt, Eichmann não tinha histórico antissemita, não era psicologicamente monstruoso, não era perverso por natureza, era somente um sujeito que alegava "cumprir ordens" e que desejava subir na carreira, transportando pessoas para a morte sem questionamentos. Não era o Grande Mal que aparece em desenhos animados; era meramente um homem comum e "lógico", que enxergava vantagens ao não ir contra o sistema e mesmo nem atinava que deveria fazê-lo, tomado de "vazio do pensamento" e indiferença. A partir da análise desse infeliz, Hannah fala sobre a banalidade do mal, conceito que deveria nos acordar com um soco no fígado todos os dias; trata-se do mal que brota não de aberrações psiquiátricas ou ações espaventosas, mas de um acatamento "do que está aí", de um "é assim mesmo, o que se pode fazer?", de uma ausência de reflexão filosófica sobre consequências, escolhas, verdadeiras responsabilidades. O mal banal vê a tempestade crescer e politicamente se entrega à onda, abraça-a, colabora com ela. Vira pro lado para não ser testemunha, não vê nada de mais numas sonegadinhas, acha que feminista está exagerando, acha que os negros estão exagerando, assina o que for para não arriscar o emprego (a grana, o casamento, a reputação), não fala, não protesta, não reage, segue o fluxo. Pode não ser a motosserra que estraçalha, porém é o fungo que se alastra e deixa tudo quebradiço, oco, vulnerável; também mata, também destrói. Não se efetivam as grandes crueldades sem, no mínimo, o patrocínio surdo do mal banal.

Não se cria um Adolf Hitler sem a conivência medrosa de cada Adolf Eichmann que vive em (ou entre) nós.

domingo, 7 de junho de 2020

Evasão

His Majesty humminbird | A sua majestade o beija-flor!!! | Flickr

Disse a filósofa francesa Simone Weil que "a alegria é a nossa evasão do tempo", e como estou aniversária vou me dar essa verdade de presente (embora preferisse recebê-la de futuro). Não sei bem se a pensadora se referia ao tempo como arquitetura geral, e quis expressar como nos momentos verdadeiramente alegres os minutos têm outra pegada, ou se falava do tempo como época na qual vivemos – e trouxe, com o frescor da frase, a esperança de podermos fugir um pouquinho de tantas avalanches. Seja como for a forma original da ideia, adoto-a, em especial na segunda acepção. É necessário, é urgente. Mesmo dentro de um dia a dia que reconheço como privilegiado, anda pesado demais existir no Brasil, isto que não é um país e sim um estudo de caso, um zoológico de horrores históricos, um parque temático dos Jogos mortais. Se volta e meia não nos evadimos terapeuticamente do tempo, vão vida e saúde lindinhas pro espaço.

Pois pronto: evado-me. Dou-me o direito contente de ir para a cama com as palavras cruzadas mais escabrosas, ou com Dostoiévski ou com George Sand, ou com todos os anteriores, que ninguém tem nada com isso. Acho alegria em já ter postado, enviado, lavado, pendurado, guardado ou qualquer outro particípio felizmente passado (ainda que eu não passe a ferro coisa alguma e passe muito bem nesses moldes). Penso, para me alumiar por dentro, que num certo dia liberto dos calendários vou estar andando como uma local nas ruazitas de Paris, em namoro com livrarias e bistrôs e feirinhas de comestíveis perfumosos. Penso, também alumiadamente, que ainda terei uma buganvília se enredando nas grades da varanda, que ainda voarei de balão uma vez que seja, que ainda encararei Guerra e paz, que ainda aprenderei a andar de bicicleta. Talvez nas ruazitas de Paris, entre as feirinhas. 

Lembro alegremente que há milhares de filmes clássicos e ocultos a serem encontrados, quem sabe amados com furor. Há viagens inusitadas esperando ser feitas, aguardando para inaugurar partes ermas do coração. Existem milhões de chances blowing in the wind para ajudar pessoas sequer adivinhadas. Cantores podem fazer a qualquer momento versões extraordinárias de músicas que nem nos diziam muito. Pode sair do forno algum novo livro da Martha, prestes a nos aconchegar quentinhamente. Um beija-flor pode irromper na janela (às vezes irrompe!), fazendo-se delicioso por uns tantos segundos antes de ir abençoar outras casas. Nada impede que uma blusa volte redescoberta das esquinas do armário, anunciando que agora cabe. Nada obsta a que uma notinha de vinte reais retorne de Nárnia e surja sorridente no fundo da bolsa. De repente a gente se dá conta de que um vizinho violinista toca a "Ave Maria" de Schubert todo dia, às 18h (sim, sim, esse realmente existe e é diariamente aplaudido no quarteirão). Sem querer, a "Ave Maria" violinada nos puxa para instantes atemporais de cidades pequenas, idos, românticos, embora as cordas soem no meio de um Rio de Janeiro atualíssimo. E – nesses pequenos desvios coloridos – viver fica tão mais interessante, tão súbito. 

Alegria é a prova dos nove, alegre é a despedida dos trinta e nove, insistentemente alegre é a caminhada para os cento e nove; alegre a despeito de tudo, por birra e teimosia de sobrevivência. Atrás de cada portinha feliz aberta no dia, muitos séculos possíveis nos contemplam – e, assim como Paris, qualquer alternativa à lógica vigente da morte é uma festa.

sábado, 6 de junho de 2020

Quinhentos anos

Banco de imagens : corda, velho, aço, padronizar, Comida, metal ...

Quinhentos anos em duas frases, comentou João Ximenes Braga no Facebook a respeito da declaração da mãe de Miguel Otávio: "Ela confiava os filhos dela a mim e à minha mãe. No momento em que confiei meu filho a ela, infelizmente ela não teve paciência para cuidar". 

Quinhentos anos.

Quinhentos (e vinte) anos de uma história desgraçada que, fingindo-se surda às forças de evolução e resistência, ainda faz o possível para nos dividir entre sinhás e mucamas pela narrativa da casa grande. Cinco séculos – a maioria dos quais em regime de escravidão oficial, o que não justificará nada nunca, mas explica muita coisa. Após meros 132 aninhos de uma abolição de papel, ainda chafurdamos no ranço dessa lógica imperial maldita que se agarrou em nós feito cica no dente. Old habits die hard, porém crianças negras vitimadas por eles morrem fácil. Muito fácil. 

São cinquenta décadas de naturalização do que há de mais grotesco: a coisificação de humanos. Humanos não são mais (em tese) comprados e vendidos em nossas terras, não são mais escolhidos pelos dentes e músculos, mas o tratamento constitucional de humanos como humanos não impede que olhares brancos permaneçam confundindo humanos específicos com as sombras. Pessoas que nhanhãs e nhonhôs se habituaram a não ver, a não distinguir de seus móveis, a não identificar senão como partes da casa que se mexiam a seu serviço, mudas, discretas, ajoelhadas no chão ou encostadas na penumbra, autômatos sem subjetividade adquiridos para limpar, cozinhar, pajear, segurar bandejas e copos, conduzir recados e fornecer prazer. Nhanhãs e nhonhôs ainda não os diferenciam das sombras; são cinquenta décadas enxergando só as peles claras para a consideração e a reverência, só as peles escuras para a desconfiança e a chibata. Ainda está total e nojentamente entranhada em nossa realidade execrável, perversa, odiosa a possibilidade de colocar uma criança negra de cinco anos, sozinha, num elevador DE SERVIÇO, como um armário ou um caixote que se despacha – um troço que incomoda na sala e se manda a esmo para ser recolhido por outrem. Uma coisa que não pode chorar, porque coisas não choram. Quem chora são crianças brancas, classificadas como não-coisas pelas especificações do radar brasileiro.

São quase 190 mil dias de surrealismo histórico, de abominação, de barbárie resumidos em: funcionários (pretos) são funcionários (pretos), e não intelectualidades dotadas de afetos e escolhas; pobres (pretos) não têm o luxo do não – e ainda assim são julgados em tribunais virtuais pelo sim compulsório; mães (pretas) são passíveis de serem consoladas pela perda mais cruel que se possa imaginar apenas com um magnânimo estender de mão branca: "Você sabe que eu te amo", "Você é praticamente da família". Não, prestadoras e prestadores de serviço não são prática nem ligeiramente da família (a não ser que se leia a frase dentro da lógica nacional escravagista: "Você pertence à família e está presa a ela"). Prestadoras e prestadores de serviço, conforme bem lembra a filósofa Djamila Ribeiro, não recebem a mesma herança de familiares dos patrões, no caso da morte destes. Funcionárias e funcionários mil têm ido trabalhar durante a pandemia em lares curiosamente incapazes de passar sem eles – incapazes de cuidar dos próprios filhos, assear as próprias privadas, comprar ou fazer as próprias refeições, passear os próprios cachorros –, e enfrentam horas de condução lotada, e se contaminam, e contaminam consequentemente suas famílias reais. Quantos patrões você conhece que tratam irmãos, pais, filhos e demais elementos da família da mesma forma que tratam os que são praticamente da família? Então. Né. 

Quinhentos anos. Em duas frases; em duas fases: ser a classe que em tudo depende da mão de obra negra e ser incompetente demais para tornar-se mão (e mãe) ela própria. 132 anos depois da assinatura, homicídios na casa grande ainda são relativizados e vidas pretas ainda estão sujeitas a pagamento.