sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Coisas que também aconteceram num 11 de setembro

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William Coração Valente Wallace obteve uma vitória importantíssima sobre os ingleses. 

A primeira corrida foi realizada no autódromo mais antigo do mundo, em Wisconsin.

Uma sonda chamada Mars Global Surveyor atingiu feliz o planetinha vermelho.

Victor Hugo fez um discurso na Assembleia Nacional em Paris, opondo-se à suspensão dos jornais e defendendo a liberdade de imprensa.

Os Beatles gravaram seu primeiro disco nos estúdios da Abbey Road.

Karl Marx lançou o primeiro volume de O capital

Nasceram D. H. Lawrence, Theodor Adorno, Brian De Palma, Franz Beckenbauer, Taraji P. Henson, Luciana Lamorgese (ministra do Interior da Itália e defensora do acolhimento aos imigrantes), Jacinto Convit (médico venezuelano, criador da vacina contra a hanseníase e pesquisador de diversas doenças tropicais).

A ópera The Rake's progress, de Stravinsky – que chamava sua obra de O diabo do capitalismo, mostrando grande lucidez – estreou em Veneza.

O Auto da Compadecida estreou em Recife.

O Colégio Brasileiro de Radiologia foi fundado. 

O compositor e cantor Jacques Brel fez a gravação inaugural de "Ne me quitte pas".

A primeira história em quadrinhos da série Johan et Pirlout foi publicada no jornal franco-belga Spirou. Sabe quem começou nessa HQ como coadjuvante e terminou roubando tooooda a cena e os corações leitores? A turminha azul dos Smurfs, aqueles danadinhos cantarolões.

O italiano Armando Poppa, que tinha vindo trabalhar no Brasil com o parça Carlo Bauducco (sim, ele mesmo), abriu no Centro de Sampa sua própria confeitaria, a Cristallo. 

Os seis garotos protagonistas do "Milagre de Tonga" – caso incrível em que adolescentes náufragos sobreviveram por um ano numa ilhazinha inóspita – foram finalmente localizados por uma embarcação de pesca.

Com essa bagunceira factual de vários onzes de setembro (propositalmente desordenados, porque linhas do tempo duronas nada têm a fazer por aqui), não quero, logicamente, desvalorizar nem por um milímetro a dor dos que acabaram sendo vítimas diretas ou indiretas de Bin Ladens e Pinochets. Quero apenas lembrar, com toda a simplicidade e doçura, que: nenhuma data de nosso calendário tão rico, tão vivo, merece ser assinalada somente por Pinochets e Bin Ladens; há hoje aniversariantes de aterrissagem no mundo, de casamento, de formatura, de lançamento de filme e livro, que merecem menos ainda o peso sombrio colado ao número, e ficam sendo desde já herdeiros de cada luz e coloridice histórica que eu puder reunir. Por que eu? Por nada, por ser ninguém, simplesmente por ter me jogado ao trabalho, numa micro-homenagem aos que têm o justo e injusto pudor de mencionar sua data querida. Sei de americanos, por exemplo, que se reuniram em site de discussão e apoio para lidar com o sentimento dúbio de celebrar a existência num dia que sempre lhes será ferida recente. Apesar de não ser americana, não ser chilena nem me enquadrar no grupo dos setembrinos, compreendo o dilema – o quase constrangimento da alegria que pulsa sem excluir a memória, mas a despeito dela. A quase obrigação de preterir as referências boas por interferência arbitrária das maldades. 

Onze-de-setembrinos, caríssimos, eu os abraço. Como infelizmente não me foi dado o poder de desatar o malfeito feito, dou aqui minha humilde contribuição em forma de minilâmpadas históricas. As mortes hão de ser respeitadas e lembradas, porém nenhum dia no mundo pode ser só de morte; a vocês, toda a felicidade devida.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Como dois e dois são quatro

 200 perguntas para conhecer melhor alguém

Fosse vivo, o querido Ferreira Gullar completaria hoje redondos 90 aninhos. Não, corrijo-me: o querido Ferreira Gullar completa hoje redondos 90 aninhos, porque, se sua presença física nos trocou pelo paraíso dos poetas, nem por isso o mundo deixou de, há quase um século, tê-lo e respirá-lo; uma vez nascido, o artista não morre – só se acrescenta para gerações sucessivas. 

Todos que leram o poeta certamente já foram tocados por uma de suas emanações mais fortes e doces, nos versos de "Dois e dois: quatro": "Como dois e dois são quatro/ sei que a vida vale a pena/ embora o pão seja caro/ e a liberdade, pequena". Eram outros (outros?) tempos quando o poema desceu do lápis, mas o pão voltou a ser caro neste nosso arremedo de política infernal e desastroso – e a liberdade, se despontou em imensidão de novas flores antes impensadas, se voou com imensidão de recursos, infelizmente ainda baqueia e baqueia muito, a ponto de volta e meia encarar caças às bruxas e dossiês. Não é menos verdade, no entanto, que por seu lado a vida continua valendo a pena, agora revista e ampliada com belezas recentes e encantos fresquinhos. 

Como dois e dois são quatro, há horinhas de ser plena, embora o coiso "governe" e sabote a quarentena. Há o esforço dos guerreiros da saúde na arena; ações, vaquinhas, projetos que gente boa coordena; vozes deixando o escanteio e protagonizando a cena; a força universalizada da mulherada chilena. Há bem menos tolerância com quem foge e se aliena, não pesquisa e não protesta, só repete cantilena. Há celulares flagrando o que o direito condena; pra cada caô da polícia, alguém de butuca e antena; povo heroico na quebrada, porreta, da gota serena. 

Como dois e dois são quatro, sei que o mundo ainda engrena: tem mais asas do que armas, mais flori do que envenena. Tem os canais de Veneza, as cores de Cartagena, as cerejeiras de Tóquio, a primavera romena; tem rosa, camélia, amarílis, lótus, gerânio, açucena; tem neve alvejando montanha e mar de azulice obscena. Tem manga, paçoca, sorvete, pavê de biscoito maisena, frevo, forró, batucada, tango, lundu, macarena. Tem ver filme com pipoca, abraçado na morena; tem rir de meme no Face; tem sonhar com a Mega-Sena. Tem perder e, mesmo assim, teimar naquela dezena.

Como dois e dois são quatro, sei que a vida é escalena; mas "um tempo de alegria/ por trás do terror me acena". 

(E tudo chega a bom porto se a alma não é pequena.)

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

O teste do beijo

 Natal, mercado de natal, feliz, beijo, amor, sorte, homem, humor, par,  romance, mulher | Pikist

Não é o que vocês estão pensando. Refiro-me à fala tão bonitinha de Fábio Porchat no último Papo de segunda: o apresentador declarou que, ao fazer shows de stand-up, considera os aplausos bastante incômodos, já que abafam o rápido fluxo de piadas e acabam atropelando o timing; o que verdadeiramente costuma ser um termômetro feliz de sucesso é quando um casal se beija na plateia. Por quê? Porque raramente os dois componentes de um casal desejam de fato ir assistir ao show, explica Porchat; em geral um quer, o outro não, e o segundo apenas concorda em acompanhar o primeiro. Porém, no advento de uma piada realmente boa, da risada cúmplice e conjunta, o beijo dos pombinhos indica que o "carregado" está dizendo ao "carregante": que legal, estou me divertindo, obrigado(a) por ter insistido no rolê. Havendo selo beijístico de qualidade para celebrar o momento, o comediante sabe que mandou bem e a audiência está conquistada.

Naturalmente achei fofíssimo e agudíssimo o parâmetro adotado pelo ator – coisa de quem conhece bem demais seu ofício, tem jogo de cintura no olho e intimidade com almas deste mundo. É isto: o melhor indício de êxito em qualquer função é a capacidade de motivar uma comemoração particular. Nem precisa ser a festa óbvia que vem da comédia, do brinquedo, do sorvete, do musical, do parque, da montanha-russa; basta botar um coração festejando a oportunidade, sendo grato pela experiência, inflando o peito com aquela brilhantura de quem saiu melhor da empreitada. De um filme blasterdramático ou de alguma forma perturbador – uma Lista de Schindler, um Dançando no escuro, um Silêncio dos inocentes, um Blade runner –, por exemplo, não se desembarca contentinho; mas, em se tratando de uma joia artística, ela passa indubitavelmente no teste do beijo, dando um pontapezinho na celebração de: que bom que eu vim, que bom que vivi/vivemos essa viagem estética pela condição e a inteligência humana. A questão não é de confete e serpentina, e sim da percepção de que algo em nós evoluiu.

A conversa foi forte, honesta e construtiva, terminando com a convicção do respeito e do apoio mútuos: passa no teste do beijo (ou do abraço, se foi conversa de fim de caso bem-sucedida). A apresentação em grupo foi um arraso, não pela tecnologia de ponta supérflua, mas porque alunos, colegas, clientes ou outros alguéns interagiram, se interessaram, não desviaram os olhos: passa no teste do beijo (ei, eu não disse que precisa ser na boca, disse?). A comida não teve nenhum fogo de artifício, nenhum ingrediente só encontrável à beira dos Alpes suíços ou no paraíso intocado de Medog, porém o tempero estava particularmente alegre e inspirado, chamando papo na mesa e sobremesa: passa no teste do beijo. O jogo foi vencido com brio ou perdido com dignidade, mas de qualquer modo brilhante e lutado: passa no teste do beijo. O livro indicado (e recém-concluído) não foi exatamente o texto mais agradável da vida, e, no entanto, não deixou célula sobre célula, neurônio sobre neurônio, marcando um "antes" e um "depois" nas opiniões formadas sobre tudo: passa no teste do beijo. Se (para o bem) atingiu, comoveu, ensinou, reorientou, redefiniu, surpreendeu, enriqueceu, gerou avanço, gestou mudança – e o fino prazer da mudança –, eis aí aprovadíssimo, nota azulzinha no teste do beijo; como em Divertida mente, acabou de ser concebida uma bolinha policor de memória-base, a ser solenizada na condição de extensão nossa que se inaugura.

O beijo: um cortar amoroso da faixa, ou um soprar de vela. Ou calendário em que abraçamos, vermelhamente, o aniversário dos novos afetos.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

O feliz

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"Quando as pessoas são felizes, não reparam se é inverno ou verão." Palavras de Anton Tchekhov, com as quais eu tendo (cautelosamente) a concordar. Compreendo que o autor não falava do clichezão "um amor e uma cabana", a velha ideia e anti-ideia de que um estado de encantamento romântico poderia manter a vida linda e funcional mesmo nas condições mais precárias. Em minha leitura, Tchekhov não se refere a condições precárias, nem a encantamento romântico especificamente; a felicidade da qual trata independe da existência de um parceiro amoroso, e, ao mesmo tempo, inclui todo o pacote básico para o sustento humano, sem privações e sacrifícios físicos. Nesse contexto de plenitude – a felicidade como paz, consciência serena, necessidades supridas, afetos bem aplicados, futurices esperançosas –, "inverno" ou "verão" entram simbolicamente no status de bônus: serão talvez preferências individuais, mas supérfluas, de que as almas já devidamente atendidas abrem mão sem sofrência. 

O sujeito ou sujeita, digamos, conta com uma família amorosa, uma família que lhe providencia todo o suporte emocional, e que não tem a menor obrigação de ser tradiça, ao estilo foto-oficial-de-1900; pode se compor de irmãos incríveis, de pai e avô, de mãe e tia e prima, de madrasta e parentes postiços, de marido ou esposa e parentes postiços, de filhos e seus agregados, de amigos profundamente leais aptos para telefonemas na madrugada – o essencial é que a rede afetiva e apoiadora seja sólida, constante, palpável, real. Além da família abraçante, o cidadão ou cidadã em questão dispõe de moradia totalmente de acordo com sua dignidade humana; nutre-se de maneira completa e eficiente; cuida-se ou é cuidado(a) financeiramente sem que o dinheiro lhe venha de nenhum desconforto, humilhação, martírio; goza de saúde em todas as instâncias, ou lida com um ou outro probleminha sem grande sofrimento; tem tempo para si, os seus e os demais (que um coração feliz é, por lógica, acolhedor e macio). Pronto. Se é de fato saudável em todas as instâncias – o que, admito, o mundo tem procurado dificultar –, a tendência dessa criatura será a felicidade em sua forma estrutural, ainda que haja lágrimas, ainda que haja desgostos pontuais, ainda que haja incompletudes. Incompletudes haverá: lei da natureza. Porém o feliz sabe discernir, inconscientemente que seja, o aborrecimento da ameaça, a vontade da falta, o frio ou calor que chateia do frio ou calor que ataca.

O feliz adora a primavera, o verão, o inverno como agrado e benefício, não como condição. O feliz tem predileções sem atrelar-se a elas; ama sem depender e sem desesperar-se. O feliz normalmente já está mobiliado por dentro de todos os quesitos para seu conforto mínimo, e o que mais vier é complemento alegre, luxozinho, decoração. O feliz adquire, como consequência espontânea, uma segurança que o tranquiliza: é valente e seguro para adaptar-se, é valente e seguro para não competir. Como outra consequência, o feliz não se mede pela régua dos infelizes nem se torna agressivo para defender sua "honra", por sabê-la isenta da necessidade de ser defendida; normalmente é o bem-estar de outrem que faz o feliz mais incisivo e aguerrido. Mesmo assim, por saber que leva em si o que ninguém tem autoridade ou jurisdição para arrancar, o feliz dispensa a violência até o último segundo; ela, sabemos, é estratégia dos perdidos, desatendidos e autodesorganizados, que põem no afã de destruir o desejo de destruir-se. O feliz tem uma confiança orgânica no que é (ou pode ser) bom e sólido. O feliz constrói.

Quantos felizes você conhece, por mais que a consciência do mundo eventualmente os entristeça? Espero que não poucos. Esses espécimes circulam por aí fazendo questão de inocular, em grupos cada vez maiores, seu caronavírus de livre expansão, para seguirem insistentemente felizes carregando o maior número possível de contagiados na garupa.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

O dia dela

 Borboleta Monarca Colorido - Foto gratuita no Pixabay

Sete de setembro é um dia incontestavelmente glorioso e heroico, um dia talhado para honras e homenagens, o dia dela – de Neerja Bhanot, claro. Nascida nesta data em 1963 e morta na antevéspera do níver de 23 anos, Neerja foi uma corajosíssima comissária de bordo indiana que se sacrificou para salvar colegas e passageiros do voo Pan Am 73, sequestrado por quatro terroristas num aeroporto do Paquistão. A comissária era chefe de cabine e conseguiu alertar a tripulação tão logo os bandidos embarcaram, o que permitiu que comandante, copiloto e engenheiro de voo fugissem por uma escotilha. E impedir que o avião saísse do solo foi apenas a primeira bravura da incrível Neerja. Após receber ordens dos sequestradores para recolher os passaportes de todos os passageiros, ela soube que os cidadãos americanos presentes na aeronave seriam rapidamente identificados, e corriam o risco de ter o mesmo fim de um conterrâneo "descoberto" e assassinado pelos terroristas bem no início do sequestro. Pois a SuperBhanot e os demais atendentes (que estavam sob o comando da jovem, por ser ela o membro mais antigo da tripulação) esconderam, embaixo de assentos e numa rampa de lixo, os passaportes dos 41 americanos embarcados. 

A comissária não terminou aí sua missão de poupar o máximo de vidas. Quando os sequestradores – já depois de 17 horas daquela operação infernal – começaram a atirar loucamente e disparar explosivos, Neerja abriu uma das portas e se pôs a guiar passageiros para que escapassem por ela; durante a ação, no entanto, foi flagrada pelos criminosos, que a seguraram pelos cabelos e a alvejaram. A moça impávida e colossa morreu, ao que consta, protegendo três crianças americanas do tiroteio. Não sei se estava entre essas, mas dizem a história e a Wikipédia que uma das crianças sobreviventes, "então com sete anos de idade, hoje é capitão de uma grande companhia aérea e afirmou que Bhanot foi sua inspiração e que ele deve todos os dias de sua vida a ela". Sinceramente não consigo imaginar uma honraria maior, por mais que Neerja tenha ganhado uma justíssima série de prêmios póstumos – sendo inclusive a primeira mulher e a pessoa mais jovem a receber o Ashoka Chakra, mais alto reconhecimento da Índia por bravura em tempo de paz. 

Impossível não ficar profundamente enternecida com a doação valente da supercomissária, com sua generosidade, prontidão, presença de espírito, disposição gratuita para proteger e salvar quem quer que fosse, sem se deter pelo fato de não serem conhecidos, amigos, amados, familiares, sequer irmãos de pátria. E por isso não vejo melhor conceito de pátria do que o demonstrado na prática por Neerja, a quem acabo de conhecer e considero desde já como irmã e conterrânea. Se existe pátria, quero ser dessa desfronteirada, mais bela e forte que qualquer, gigante pela própria natureza de se fazer escudo sem fazer pergunta, sem averiguar passaporte: porque sim, porque é o certo, porque é gente. Não quero ser de pátria que bote a mão no coração pra cantar hino, mas não bote na consciência pra taxar rico; não quero ser de pátria que tenha cores privilegiadas e exclua todas as outras (e não, nem estou falando de bandeira); não quero ser de pátria que festeje com bala de canhão e finja demência sobre bala perdida. Quero ser de pátria que vista camisa não de seleção, mas de mutirão, de ocupação, de ação, de criação, de construção. Quero ser de pátria que dê o sangue inteiro para evitar vítimas, em vez de escolhidamente entornar sangue sempre das mesmas. Quero ser de pátria que não se limite a ser mãe gentil de poucos filhos deste solo; que não cochile em berço esplêndido enquanto ignora os brados retumbantes das quebradas; que não cante os risonhos lindos campos enquanto tolera grileiros, garimpeiros e queimadas; que não trate as próprias abundâncias culturais como umas quaisquer entre outras mil. Quero ter carimbada no passaporte a cidadania ideal de Neerja: abraçante, atenta, ativa, inclusiva, zelosa, protetora, amiga do esclarecimento, da libertação, da independência enfim.

Aquela: a que faz não temer (quem a adora) a própria morte.

domingo, 6 de setembro de 2020

A fórmula da água

 Congelados Lágrimas Ferroviária

Há exatos 151 anos, nascia na Hungria (embora com um mês de vida se tenha tornado austríaco) o responsável indireto por milhões de litros chorados no cinema: Felix Salten, autor de Bambi, a life in the woods, que nas mãos da Disney fez a gentileza de traumatizar gerações. Eu sinceramente gostaria de prestar carinhosa homenagem ao escritor, e em intenção já a deixo registrada, porém me vejo distraída demais com um trauma ou antitrauma particular relativo à mais famosa adaptação da obra de Salten. É preocupante, sei, mas vá: nunca consegui chorar – como 97% da humanidade dizem que choram – na famigerada cena em que a mãe de Bambi é alvejada e morta. Provavelmente isso me transforma num pária social com ainda mais gritante intensidade do que o fato de não usar WhatsApp; mea culpa, mea maxima culpa. E, já que estou aqui em mood de confissão autoflagelante, vou piorar pro meu lado e acabar de pendurar a letra escarlate na minha reputação: também sou incapaz de chorar na morte do pai de Simba. AND sou incapaz de chorar no filme Sempre ao seu lado. Eu sei, eu sei, mereço estrelar um episódio de Criminal minds e um cartaz de mais procurados da Interpol.

Nos estretantos, me defendo ou explico. Se esses marcos da desidratação humana não conseguem me empurrar para além de uma leve tristeza empática, há outros que me fizeram encher mais baldes que goteira de shopping, e que aliás já citei aqui recentemente: E.T., Meu primeiro amor, Toy story 3, Divertida mente, Viva – a vida é uma festa, Marley e eu (para ninguém me acusar de insensibilidade a catioríneos) – fora aquele flagelo chamado Up, que não quer saber de esperar os momentos finais e picota a gente em pedacinhos nos dez ou quinze primeiros minutos. Bem se vê que não, não sou nenhuma serial killer desalmada, inclusive animações me comovem e comovem rude; normalmente é a Pixar que mais me destrói na sala escura, por sinal. E não sou nada de chorar difícil: choro com meme, frase de livro, capítulo da novela das sete, reportagem do RJ-TV, texto de Face, MasterChef, Os Busbys + 5 – é só fazer direitinho. Então por que a secura ocular em determinados clássicos da torneirinha? Por que continuo Saara onde me querem Pacífico?

Uma hipótese a que me agarro é a de que sou basicamente motivada às lágrimas por identificação com a complexidade humana; mesmo antropomorfizados, aparentemente os personagens não humanos (me) deixam a desejar em termos de alcance aos cantinhos d'alma. E não é que não adore animais. Realmente adoro. Mas creio PRECISAR, para o choro, da projeção nos processos que são só nossos, exclusivamente nossos: a consciência da passagem do tempo, dos fins de fase, das despedidas, da solidão após toda uma vida conjunta, do desejo de preservar memórias, da doçura de que não estão isentas algumas tristezas. Ainda que retratados quase à semelhança de nossas atitudes, ainda que dotados de fala e sentimentos, animais como os de Bambi e O rei leão têm vivências animais; espelham certas experiências do mundo sapiens, porém é muito raro que efetivamente as reproduzam. O real desamparo de crianças humanas ao perder os pais nunca será o de filhotes mais fortes e dotados por natureza. Certo, isso é racional demais, mas é também questão de timing cinematográfico, acredito: em acréscimo à limitação da possibilidade de espelhamento, há o fato de a Disney não ter investido em catarse. O luto em Bambi é breve e seco como o tiro na corça, e o pequenino, embora aflito, é logo recolhido e reencaminhado pelo pai; o luto de Simba, a despeito da morte em cena grandiosa, não tem seu tempo muito mais respeitado, uma vez que o bichinho "precisa" evaporar-se de seu reino numa decisão ligeiríssima e não demora a travar contato com o núcleo cômico da selva. Não existe (para esta insensível que vos fala, ao menos) clima algum para a construção do choro, que demanda uma costura e manipulação da angústia não necessariamente longa – tanto que um comercial pode me inundar os olhos –, mas necessariamente certeira. E o drama de Hachiko, o protagonista canino de Sempre ao seu lado? Fácil de imaginar por que não me abala tampouco: a perda não é sofrida pelo humano, mas sim pelo cão, e consequentemente não se reverte em linguagem como a conhecemos. É triste, é lancinante, no entanto passo de olhos secos; sem uma catarse bem aplicadinha à nossa espécie, não saio do lamento protocolar.

Explicações convincentes? Talvez nem tanto, mas sinceríssimas, juro. Literalmente no apagar das luzes, enfrentamos a individualidade de nossos pontos fracos, e nos deixamos seduzir até a entrega somente por uns; por outros, não. Se há uma fórmula, uma química, há de ser uma química específica de elemento para elemento, de algumas histórias para algumas histórias, de certas trilhas para certas audições, de coração ficcional para coração real – tudo demasiado íntimo para ser apreendido, e no máximo imaginável. Nem há por que me justificar por estes ou aqueles amores: cada cultivo é para cada terreno, e cada filme ou narrativa afim encontra seu ambiente ótimo sob olhos diferentes. Cada um desses olhos diferentes aprendeu, por caminhos vários, a derramar-se em determinado ponto de fusão.

sábado, 5 de setembro de 2020

Eu vi o que você fez no post passado

 Más de 400 imágenes gratis de Espiando y Espía - Pixabay

Até compreendo que os algoritmos do Face e assemelhados comecem a me jogar na cara anúncios de coisas que procurei no Google ou adquiri em lojas online (embora não seja razoável esperar que, se já as adquiri, eu logo em seguida venha a adquiri-las outra vez. Os algoritmos conhecem assim tantos consumidores agulha-empenados que compram a mesma blusa, o mesmo livro, a mesma frigideira over and over?). É um tanto desagradável saber espionados nossos passos virtuais, mas que seja, deu tempo já de pegar costume – e dá mais ou menos para entender que os vendedores queiram direcionar seus produtos para gente que ativamente mostrou interesse, varrendo a internet na busca, entrando em vários sites, comparando preços. Estratégia passável. Só que o negócio vem desandando de maneira bem creepyzinha; não é um nem são dois amigos que andam relatando casos de stalkeamento sonoro, como se cada um tivesse na escrivaninha ou no bolso um hipermercado conveniado com a CIA.

Há alguns meses mesmo, pouco antes do advento covídico, estava eu fagueiríssima com o Fábio dentro de um ônibus (urbano, não de viagem) quando fiz um comentário aleatório a respeito de hotéis fazenda. Não estávamos procurando nenhum, nem em momento algum eu googlara o termo; apenas comentei rapidamente e em voz alta sobre como são repousantes, sobre como eu havia gostado de um deles ou algo parecido. Quem me conhece sabe: não tenho internet no celular, que está sempre desligado e metido na bolsa, nem navego jamais pelo do Fábio (que mantinha o aparelho ligado – logado no Face dele –, mas também guardado na ocasião). Pois eis minha gloriosa surpresa quando, em casa, acesso o Face pelo computador e vejo o quê, o quê, o quê? Anúncio de hotel fazenda, naturalmente. Pelo MEU login. Aquele que NÃO estava ativo no único celular próximo com capacidade de "ouvir" conversas fortuitas. Não bastasse ser bisbilhoteiro no atacado, o algoritmo treinado em Quantico aparentemente faz o serviço no varejo, reconhecendo vozes e relacionando-as corretinhamente ao perfil de seu dono. Que fofo esse 1984trinho de uma figa, eu ri, aterrorizada.

Só sei que não estou ficando docemente maluca porque muitos, como falei, contam dessas participações involuntárias no Show de Truman, estarrecidos com propagandas que pipocam sem outra motivação que um diálogo doméstico, uma lembrança expressa entre amigos, um dito qualquer de esfera íntima. Às vezes é também um programa a que se assiste na TV e ao qual, não mais que de repente, o feed de notícias começa a fazer referências, metendo o louco. A gente engole em seco, finge que não toma conhecimento das teorias de conspiração e compõe uma serenidade de quem não se espanta com mais nada. Mas piora, sempre piora, e agora a impressão que dá é a de que os algoraptors não deixam escapar nem pensamento: recorrentemente me vejo perplexa com a "materialização", na timeline, de ideias sequer digitadas ou oralizadas, além de não relacionadas a assuntos du jour. Seja porque o movimento de nossos olhos na tela é acompanhado e escaneado por esses demoninhos tecnológicos (apesar de eu manter a câmera do computador coberta por adesivo desde que vi Snowden no cinema); seja porque emitimos ondas e informações das quais nem suspeitamos; seja porque na realidade damos pistas desses pensamentos em e-mails, blogs, comentários, mensagens privadas; seja porque somos menos específicos e mais coletivos e previsíveis do que poderíamos supor – o fato é que a vibe de Black mirror anda se mostrando frenética, e vários percebem, e vários comentam, e a gente gargalha apavorado e segue o jogo fazendo a pêssega, com a carinha desconstruída de yo no creo en los ojos del sistema

(Pero que nos miran, nos miran.)