segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Parecenças


Cotonetes na caixa parecem uma jangada de céu margeada de nuvem. 

Botões de roupa parecem minibandejas para quatro microcopinhos de refri. 

Mangas parecem florestas de outono.

Corais parecem cruza do galho com a folha de outono.

Tesouras parecem ratos fazendo balé.

Xilofones parecem arco-íris cantando lullabies.

Extintores parecem bombeiros em arquivo ZIP. 

Vassouras englobam pincéis como pterodáctilos englobam morcegos. 

Esponjas poderiam imensamente ser filhas de queijos com colchões.

Petecas parecem esportes brincando de passarinhos. 

Bolhas de sabão parecem espíritos ancestrais das bolinhas de gude.

Réguas nada mais são que as rodovias do lápis.

(E aviõezitos de papel são mísseis de origami com sérios problemas de autoridade e foco.)

Donuts parecem, tipicamente, pneus dalgum Wonkamóvel; ou boias dum parque de doçuras aquáticas; ou anéis olímpicos overdosados de padaria.

Há tachinhas que são agulhas com chapéu de malandro.

Há bombons que são laços de fita recheados por fada-madrinha.

Flechas parecem, escandalosamente, restos mortais de peixe nadando no ar.

Luvas de cozinha têm parentesco materno com as de beisebol.

Samambaias parecem perucas de clorofila.

Livros empilhados parecem e são escadas.

Cones de trânsito são crias do Chapéu Seletor com candy canes (esse dia foi loko).

Bússolas são relógios com ideia fixa.

Almofadas de carimbo parecem chiqueiro para madeira engravatada.

Broches parecem condecorações do Ministério da Beleza.

Fitas cassete parecem bichos-preguiça transformados em mídia.

Tudo sempre, não mais que de repente, parece o oposto do que eu disse antes.

Tudo no mundo aparenta ser nascido para muita vez não ser a nossa velha opinião formada sobre tudo.

domingo, 8 de novembro de 2020

Ciranda de pedra

Às almas falecidas e carnívoras que babam pedindo pena de morte – como zumbis que só guardaram, da vida, uma memória deturpada de apetite, perderam a reflexão e conservaram unicamente o reflexo –, dedico sem saudosa lembrança estas palavras de Mia Couto, sempre luminoso e preciso: "Quem congemina vinganças acredita antecipar-se ao futuro. É um logro: o vingador vive apenas num tempo que já foi. O vingador não age apenas em nome de quem já morreu. Ele próprio já morreu. Foi morto pelo passado". 

Sim, corações vingativos não simplesmente matam – deixaram-se matar, deixaram-se morder pelo contágio do ódio; uma vez tornados mortos-vivos, com a oxigenação parada e a atividade cerebral reduzida às unhas e maxilares, adotam o que nenhum'alma plenamente viva e sã pode adotar, que é o canibalismo. O canibalismo em nada relacionado com aquela antropofagia ritual de quem procurava absorver forças, mas sim algo meramente catártico, destruidor, linchador, predatório. O canibalismo hidrófobo que, atiçado pela cultura de Datenas, Sikêras e seus pares, aprende nada mais que salivar pelo castigo, pelo destroçamento; instrui-se em nada mais que no primitivismo do "olho por olho", na fúria de práticas medievais, senão mesmo naquelas próprias das cavernas, quando os conceitos de humanidade ainda estavam na creche.

Vingadores e vingativos foram mortos pelo passado ou, na mais generosa das hipóteses, vivem nele: vivem em épocas neanderthais e uga-bugas, congelaram em eras milenarmente anteriores a pedagogias e filosofias – inclusive cristãs, como muitas dessas almas atônitas OUSAM definir-se. Esgoelam-se falando de Jesus, e no entanto mostram preferir como mestre um Calígula, um Herodes, um Drácula, um Átila (não o Iamarino: o Huno); botam Deus na treta do "bandido bom é bandido morto", fazendo a pêssega quanto ao fato de Seu filho ter sido morto como bandido e entre bandidos. Berram que em nome de Jesus isso, em nome de Jesus aquilo, fingindo ignorar que o nome de Jesus nunca se atrelou a berreiro e vingança – muito ao contraríssimo: ao ser invocado emanou doçura, distribuiu perdão, representou disponibilidade, recomendou misericórdia, evitou apedrejamentos, promoveu diálogos, ligou-se a curas, mudanças, recomeços, novos caminhos, novas perspectivas. Até onde sei, foi a única coleção assinada por seu nome; qualquer histeria rancorosa, violenta, armamentista, bélica, torturadora é versão grosseira, pirata – produto da concorrência.

Não, o vingador não está só pensando em quem já morreu. Aliás, eu tiraria o "só": o vingador não está pensando em quem já morreu at all, apenas batiza seu próprio vulcão de ódio com o crachá do morto e usa a violência alheia como pretexto para sua ansiada erupção. O vingador existe acorrentado a raivas muito antigas e particulares, a frustrações muito suas, e portanto o que menos deseja é a racionalidade da verdadeira justiça; deseja o oposto, deseja a desculpa para o rompimento de suas comportas, deseja o alvará imaginário para seu show de agressividade há muito fantasiado. Corações doentes de vingança já vinham adoecidos antes do ato a ser vingado, e o ato em si é a mera supuração do acúmulo de ressentimentos. Isso inocenta o criminoso? de forma alguma; porém é fundamental que o criminoso em questão pague somente – e do modo mais justo e construtivo possível – pela culpa que ele mesmo carrega, jamais por todas as demais ofensas a serem exorcizadas por seus acusadores. De uma ciranda de sacos de pancada recíprocos e cíclicos não se tira um mundo que mande a bola pra frente: tira-se um clube da luta niilista em que todos acabam cegos, desdentados, inutilizados de fanatismo e exaustão.

Ou vamos à forra ou vamos adiante; quem nos quer de energia centrada na revanche – quer desviá-la da renovação e da revolução. Já é mais que hora, creio, de deixarmos de ser vermes roendo frias carnes, caso não queiramos construir um planeta senão de memórias póstumas.

sábado, 7 de novembro de 2020

Subnutridos de beleza


"Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí... Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!"

Essa boniteza em cápsula é de Mario Quintana, e nos define que nem luva desenhada em alfaiate: subnutridos de beleza, todos nós, sempre. Se o organismo funciona relativamente bem e nenhuma anemia (ou perversidade) moral nos toma, somos uns eternos famintos do belo, gulosos de algum pedaço de céu, de mar, de lua; somos poemas ambulantes fuçando latas atrás de rimas ricas, escarafunchando internets e bibliotecas na sofreguidão de encontrar carne boa sobre tantos ossos, revirando páginas e arquivos e gavetas e museus pela esmola de um afresco, uma canção inédita, uma inspiração vadia feito a bola que ninguém imaginava capaz de gol. Vivemos ansiosos da próxima paixão estética na Netflix, salivamos sobre fotos de paisagens extraordinárias, babamos programas de decoração e viagem, de comida e hotel, de passarela e vestido de noiva. Se aparecem na timeline imagens de bebês, bichinhos, bochechas adoráveis, devoramo-las com a fúria de escaravelhos carnívoros (eu devoro), febris do amor canibal que a alma tem pelo que a encanta; somos simultaneamente a necessidade da delicadeza e o impulso de zumbi esfaimado que atravessamos até ela.

Por que tanto som e fúria? Provavelmente por causa da pouquidão do regime de muitos – tantas horas por dia, tantos dias por semana afastados, alijados de qualquer possibilidade do sublime. Sim, o corpo continua respirante se entre os telefonemas para cliente não há chance de ler um livro, o corpo continua sobrevivente se não há janela nem vista nem respiro para abrir uma fuga na baia apertada, o corpo continua caminhante se não há beira de praia ou jardim secreto (ou algo que vá além da fumaça de avenida) para aquarelar os passos; respira, sobrevive e caminha, no entanto, como um tigre alimentado exclusivamente a miojo sabor frango ou costela: apenas o arremedo de vida, sem a vida mesma. A ausência da beleza, a falta da administração diária de doses de beleza enfraquece, subnutre; ainda que o orgânico atinja um mínimo para driblar a morte, atrofia-se a alegria de driblá-la. É preciso que a beleza em quaisquer formas amacie o espírito e o torne trafegável, é preciso que a vivência e a convivência da beleza areje os olhos, ventile neurônios, plante sutilezas, desareste ideias, sugira estradas. É preciso que a beleza nos ponha em contato com novas compreensões da própria beleza, nos amoleça a visão para ser berço de outras visões, nos comova a inteligência para almofadar o abraço, nos amenize, nos lapide, nos torne aptos a que experiências recorrentemente moças entrem pela mesma porta. A beleza humaniza, sensibiliza, limpa das sinapses o ranço ferrugento do cotidiano; quem seca para a beleza seca para tudo mais, quem vira inatingível e inerte ante toda materialização de beleza demonstra a última aridez de humanidade, o limiar da consciência infecunda. O quase impossível deserto absoluto, isento até da pétala, da gota, do desvio de oásis. 

Um timbre, um tom, um reflexo, um prisma, um prato, uma forma, uma sombra, um cartaz, uma pupila, um mármore, um balé, uma página, uma lâmpada, um acordo, um acorde: nacos de estrela que desenterramos das horas e alimentam, ainda que com insuficiências para nosso vácuo, a massa estelar de que somos feitos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

De janeiro a janeiro


Qualquer aprendizagem é um livro de prazeres. Hoje, sem-querendo, aprendi que o haikai – aquele instigante formato japonês de poema em três versos – tem como uma de suas características marcantes o chamado kigo, ou seja, "palavra de estação". Eu nunca ouvira falar em kigo, mas realmente já tinha reparado na tendência haikaísta de situar a cena sempre entre indicações de brisa, floração, mês, temperatura, qualquer pistazinha que nos leve à correspondente estação do ano; é claro fruto (opa!) da muito íntima relação da cultura japonesa com os ciclos naturais e o delicado combo dos ciclos naturais com as vivências humanas. O kigo pisa no texto com seus sapatinhos de tempo – às vezes diretíssimo ("calor de verão", "vento de outono"), às vezes mais bailarino e sutil ("ipês floridos", "Dia de Finados") –, acarinhando a gente de contexto, ancorando a leveza. Achei lindo e ainda mais supremamente poético esse detalhe típico de colheita na lavoura haikaica.

Apesar de pequenina como um terceto do Oriente, e tão apaixonada quanto os nipônicos pela florada da sakura (que jamais pude ver ao vivo, infelizmente, mas está anotadinha na bucket list), não sei se conseguiria ser tão sazonal. Nasci carioca, cresci carioca; amei sempre a natureza em sua constância, em sua verdice eterna, em sua perenifolidade, por mais que a velha amendoeira do jardim ficasse volta e meia caduca a ponto de deixar o chão intransitável. Não me lembro de ter invejado nunca as crianças filhas de estações marcadas, as que colhiam abóboras no outono, ficavam presas em casa pela nevasca de inverno, acolhiam os primeiros derretimentos de primavera como um renascimento efetivo – enquanto eu tinha flores e frutos rebeldes o ano todo, calor o ano todo, céu azul o ano todo, tudo vivo, tudo verde, tudo acessível e contemplável e muitomente à mão, de janeiro a janeiro e além. Concordo que as estações assinaladas por ícones sejam românticas; eu sou (literariamente) romântica; mas sou sobretudo arredia à paciência dessas esperas, mesmo as poucas esperas naturais que cabem aos originais aqui da São Sebastião. Sou insaciável do sim, creio – o que é um dizer nada bonito, porém inofensivo no meu caso; só significa que gosto da estabilidade como base e de suas indisciplinadas surpresas como tempero, em vez do disciplinadíssimo ciclo primavera-verão-outono-inverno como ordem e método.

A estabilidade bagunçada de nossas estações me permite miniesperanças aleatórias. Viver um típico ano carioca já é fugir do típico: sabe-se que o alicerce fica aí por uns trinta graus, mas quem sabe? a gente pode muitíssimo bem torrar em pleno agosto e se sentir de mãos e pés gelados em novembro (estou assim agorinha). É um estorvo e uma diversão. Nada está dado, há espaço para se poder usar uma roupa desejada mesmo "fora de época", pode sim vir a esquentar, pode sim vir a esfriar, planejamentos roupescos de mui longo prazo exigem criatividade para planos bês e cês, tudo é esta alegre fluidez que nos caracteriza (sim, sim, especialmente nos últimos anos tem muito a ver com o aquecimento global NADA alegre; me perdoem, no entanto, não trazer a questão fundamental que neste texto soaria dissonante, e me concedam por ora trabalhar só com os o-quês e não os porquês). Tanta mobilidade contenta algumas inquietudes que se entediam com o já agendado; confesso, por exemplo, ficar suficientemente aborrecida com o certinho da lua – que se põe cheia só de mês em mês –, com a temporada tão estreita dos caquis, com a amofinação de chegar a fase do sol batendo direto na cozinha e chateando os olhos. Amo a cerejeira, mas não tenho espírito de cerejeira: não quero floradas efêmeras que se aguardam o ano todo e, uma vez chegadas, qualquer chuvaréu destrói pra só no ano que vem; não quero primavera contada nos dedos; quero abundância de flores, sempre, muito, o tempo todo, sem a pressão da raridade. Quero todas as frutas disponíveis, quero céu azul ou tempestade a qualquer hora acontecentes, quero o fluxo sem margens, quero os dias de gala presentes sem amarras, quero a vida ininterrupta, quero tudo. O tudo isento de todas as ausências.

Sim, é bonita demais a tradição do pensamento, da expectativa, da orientação temporal escorados no kigo. Mas não comigo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Palavras que eu não poderia viver sem ter conhecido


A gente vive bolando planos extraordinários de lugares a visitar pós-pandemicamente, ainda mais que estamos quarentenados, assistindo a tooooodos aqueles programas que jogam a normalidade sanitária e financeira na nossa cara: um percorre lindamente a Califórnia, outros se esbaldam num balanço australiano radical (frio na espinha só de ver), uma família se encanta com a aurora boreal na Noruega (ou Dinamarca? sempre me enrolo), a diva Titi Müller agita todas na África do Sul, um martírio. Queremos copiar tudo, adentrar os mercados, provar iguarias, voar em tirolesas, garimpar lojinhas, chacoalhar os hormônios em montanhas-russas; só que não dá, não pode, estamos reféns de duas pragas que já são as maiores do século, sendo que apenas para uma existe vacina previsível. Suspiro. Desolação.

Enquanto não há chance de pousar em outros cenários, de desbravar lonjuras geográficas, cá fico brincando de desbravar as ortográficas, as vocabulares; aterrisso louca, louca nos verbetes tão improváveis como cidades de cheiro desconhecido, aquelas em que ainda é tudo mato dentro da gente. Ontem mesmo, cavucando a lusofonia, descobri um termozito que é quase excursão a uma praia deserta, e bate todos os índices de espetacularidade: bambúrrio – equivalente a "sorte", "acaso feliz". Onde estavas tu minha vida inteira, bambúrrio, seu lindo, que não te enfiei em diálogo nenhum? Outra palavra que é uma preciosidade de usar com aqueles jovens empreendedores de sapatênis que começaram do zero, fora os 300 mil investidos carinhosamente pela família: lampinho. Significa "imberbe", meramente; mas não vem à cabeça todo um kit Faria Limer de ser, vestindo camisa social e mandando um mindset? Não há como não chamar de um quadro torcionário – ou sejinha, feito para o tormento e a tortura. Ninguém merece esses besnicos (criancinhas) escondendo as crueldades do mercado debaixo de uma tagarelice estúrdia (tola, desajuizada), que não muda em nada as ideias horrípilas (sim, é isso mesmo que parece). 

Sendo quase certo, infelizmente, que quanto ao vírus não estejamos passando por um processo perfunctório (rápido, efêmero), e sim cuntatório (demorado), é necessário vigiar nosso centro e viajar pela letra para que nossa fome de coisas novas não mergulhe em astenia (diminuição da força); é tempo de indúcias (tréguas) com relação a todas as expectativas grandonas – tempo de zumbrir-se (curvar-se) às evidências. Não nos cabe a pesporrência nem a filáucia (arrogância, orgulho) de lidar com o que temos da forma como lidamos com o que tínhamos, o que só geraria absonância (falta de harmonia). Se a situação é nupérrima (nova, recente), fósmea (confusa) e metuenda (amedrontadora), precisamos avançar de coração estrênuo (corajoso), porém húmil (humilde): qualquer experiência de conhecimento é experiência bem-amada, qualquer estrada vinda é estrada linda, por mais que não provoque ginge (arrepio de emoção). Acobilhemos, acobilhemos (acolhamos), que não adianta perdermos vida com renuídos (movimentos de negação com a cabeça); neste error (viagem sem rumo) de 2020, todo caminho que se abre é pérvio (transitável). 

Mas a coisa beeeeem que podia desenroscar na base do bambúrrio.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Desperfumes


Agorinha há pouco, no Face, um post perguntava aleatório: de qual cheiro estranho vocês gostam? O autor da dúvida existencial se declarava fã, vejam só, do cheiro de obra, aquele de quando as casas e apês ainda estão em processo. OK; cada um tem o comfort smell que lhe apetece – as estruturas cerebrais lá sabem quais associações e histórias avalizam um odor, não outro, e contra as razões crushescas do cérebro não há argumentos. Já vi relatos de gente que: curte fertilizante porque se liga à memória feliz do bisavô jardineiro, ama incenso antimosquito porque lembra as noites mediterrâneas, adora cheiro de CONTROLE REMOTO (sim, tem isso), de consultório médico, de tinta de caneta, de tinta de carro, de tinta de cabelo, de pneu novo, de coco embolorado, de batom rançoso, de poeira, de cano, de corda, de CREOLINA, de comprimido, de rádio (o aparelho, não o elemento – espero), de gelo recém-tirado do congelador, do plástico que encapava fita cassete, da pasta que os dentistas usam pra fazer molde, you name it. Acho lindinha essa variedade humana, pronta a colar o olfativo no afetivo com sua poesia biográfica única, intransferibilíssima – embora eu não imagine lembrança, entre o céu e a terra, capaz de redimir a creolina –, e não pude deixar de autoinstaurar inquérito. De qual cheiro estranho vocês gostam, neuroninhos meus? O que os comove a ponto de abraçar aromaticamente o que não foi convocado para ser perfume?

Um desperfume do meu Boticário amoroso: vela apagada há segundos. Não sei se é porque vela apagada está grudada em gosto de bolo de aniversário, em cerimônia de Semana Santa ou Natal, mas aquela essência de chama defunta bota o coração quentinho. Outro frasco: prova de concurso. Detesto fazer prova, como quase todos os mortais, porém não tenho memórias ruins do vestibular – fiz de boa –, e o perfume característico do papel ou da impressão ajudou muito a gerar tranquilice; de alguma forma, todas as avaliações oficiais nos embebedam com perfume igualzinho (e olha que nem de leve estou me referindo às velhas folhas alcoolizadas de mimeógrafo, primeiro vício de várias gerações). Outro frasco: jeans e malhas ainda não estreados. E Melissas novinhas, fragrantizadas de chiclete. E detergente para bolhas de sabão. E um nosso móvel laqueado da sala, que ainda exala fooooorte quando abrimos. E as páginas duma coleção livro + LP de compositores eruditos que mora na casa dos pais. E as páginas da revista A recreativa. E as páginas de quase qualquer outra revista. Ou jornal. Ou livro. Basicamente, páginas.

Tem os aromas que não sabíamos lá, não sabíamos antes, e muito terça-feiramente nos atravessam assim no susto, nos engancham um elo perdido. Dia desses, foi sal – a caixinha do sal, onde o guardo há anos sem que jamais um fantasma olfativo tenha sido invocado; pois abri a caixa numa hora randômica e, não mais que de repente, aquele cheiro de fumaça iodada virou um cheiro de ar-condicionado de Orlando, um cheiro-Disney reconstituído por um segundo. Às vezes é coletiva a impressão, de tão forte que a lembrança se entranha sem a termos percebido: aconteceu simultaneamente comigo e com o Fábio, ao entrarmos no elevador de um prédio de consultórios e recebermos uma lufada do ar – que, brevíssima, acordou em ambos também um cheiro-Disney, idêntico ao das filas de atrações. É experiência muito imediata e muito excêntrica, só sabida por quem se acha flechado de improviso no centro do afeto, se entreolha e ri, tendo certeza de que não delirou tão conjuntamente e tão rápido. Toquem aqui, madeleines de Proust, suas lindas.

Evidentemente estou labutando para fugir à listagem clássica dos desperfumes – café, pão, chuva, mato, gasolina, pizza, pipoca –, porém declaro incluídas aqui essas (quase) unanimidades, de maneira tácita. Como clichês nasais, clóvis bornays da desperfumaria, não entram na conta do estranho, e nem sei como já não foram enfrascados (na verdade, alguns foram). Estranho é listar cheiro de contact, fumacê, vitrola, sacola, açúcar, museu, elevador de hotel, nota fiscal, fim de tarde – e mais imperdoavelmente estranho é não acrescentar aquelas nossas pessoas feitas para guardar num potinho.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Mais que vidro


Ontem comentei sobre o fato de não nos percebermos vidro; hoje, por coincidência (juro: foi coincidência), fiquei sabendo de um desses distúrbios psicológicos estranhíssimos em que as pessoas passam a acreditar que SÃO feitas de vidro – sem metáfora. Diz-se que os primeiros registros foram na Idade Média: o rei francês Carlos VI, por exemplo, morria de medo de se estilhaçar caso alguém o tocasse, e se acolchoava enrolando-se em cobertores (mega te entendo, Carlos, a respeito do desejo de viver enrolado em cobertores; evitemos exagerices, porém). Lá pro século XIX, a frequência dos casos deu uma caída – talvez porque, segundo uma teoria, o vidro já estivesse "normalizado" na sociedade, e aquela percepção aflita que se costuma ter de avanços tecnológicos praticamente não o envolvesse mais. Mas passar, passou não, tanto que o psiquiatra Andy Lameijn pesquisou e identificou ocorrências dessa neura nos anos 30 e 60 do século passado, até ele mesmo acabar testemunhando um caso recente: o rapaz em questão tinha sofrido um acidente pouco antes, e a família do moço se tornara superprotetora; assim, de acordo com Lameijn, o delírio de ser vítreo serviu ao paciente como uma espécie de fuga pela transparência, já que ele imaginava ter ganhado o poder de sumir e reaparecer conforme quisesse. "Virar" vidro, ao que tudo indica, devolvia um pouco de privacidade ao jovem que andava de saco cheio dos excessivos cuidados.

Fico de queixo realmente desabado com a criatividade do cérebro em termos de elaboração da realidade e autodefesa. Enquanto a provável maioria (de que falava o texto anterior) tende a lidar com a caçambada de demandas metendo carteirada de Homem de Aço ou Wolverine, fingindo demência com relação aos próprios limites e à própria finitude, tem esse povo cuja estratégia é contraríssima e não menos esdrúxula: hiperbolizar a finitude e os limites até o extremo do extremo. Uma gente em que a insegurança, a inaptidão social, o pavor de qualquer ação ou atitude possivelmente doem tanto, tanto a ponto de seu centro de controle vestir a paralisia do medo com um álibi físico; um corpo que se enxerga estilhaçável à mais levinha proximidade, afinal, está automaticamente se redomando também de tudo que traga pressão psicológica debaixo do braço – nada de trabalho, nada de filhos, nada de amores. Que pode uma estrutura tão quebradiça senão ficar apenas respirando e existindo na cristaleira, justificada para si mesma, sob atestado médico autoassinado e rigorosíssima receita de "proibido viver"? Embora a alucinação específica dessa síndrome (de que não sei o nome, infelizmente) seja bastante rara, quase todos conhecemos pelo menos algum caso leve ou moderado de congelamento, de travamento, de perplexidade total diante deste mundo barafundo – e posso lamentar, mas de modo algum julgar uma tamanha pane no sistema; sinceramente, até me admira não haver, no atual caos de estímulos, uma quantidade de pacientes bem mais significativa. Duvideodó qualquer ser da Idade Média resistir por duas horas ao nosso ritmo multitaskeador e decisivamente aloprado.

O que mais me comoveu no distúrbio misterioso, porém, foi a variante que se manifestou no paciente acompanhado por Andy Lameijn; nessa exatinha situação, o portador parecia não querer se defender precisamente do seu medo, e sim do medo alheio. Não tenho maiores informações a não ser as da matéria linkada, mas os poucos elementos havidos sugerem que o jovem Mr. Glass injetou uma quase insolência em seu transtorno: ah, vão me tratar como cristalzinho? tratem; só que cristal também fica invisível, peguei vocês!! Espero carinhosamente que sim, que haja muito dessa insolência no cérebro do analisado de Lameijn, que haja lotsa dessa rebeldia que se recusa ao mimo e à estufa mesmo que inconscientemente; espero ele tenha conseguido romper o domo de vidro com suas desaforadas asas de vidro, tenha feito valer sua voz e visibilidade com sua capa de invisibilidade. Se romantizo a situação, se os dados científicos (que não possuo) apontam outro caminho, a medicina me perdoe – mas fique claro que não é exame, é torcida: torcida pela superioridade da teimosia humana sobre todo e qualquer tipo de morte.

Torcida para que o diagnóstico do doutor Drummond se aplique, e as reações do moço transparente sejam só mais um caso de poesia.