sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Capítulo de perguntativas


São dois versos de Guimarães Rosa – ou de seu "poeta anagramático" Sá Araújo Ségrim – em Ave, palavra: "O som de um violino conseguiria dissolver/ um copo de ouro?". A resposta para essa questão pulsante não sei, mas me trouxe outras mais perguntas irmãs, quais sejam:

Vaga-lume existe é para útil iluminação de aniversário de fada?

Já se viu olho assim com tom igualzinho, sem tirar nem pôr – de flor?

Nossas querências têm sístole e diástole? vivem? latejam?

Clepsidras são colocáveis nalguma lista de casamento? deliveráveis em domicílio de tijolo?

Girassóis são amor desnudado de dúvida?

Adejar em torno de dúvida forma redemoinho?

Mais vale uma libélula na mão que dois boeings voando?

Tem como fazer homeopatia de mar – cheiro de onda sarando enjoo?

O dourado da prímula persiste no mesmo ruivo em situação de madrugada?

Os doze mil olhos da borboleta enxergam maior ou menor escala pantônica que gente amando? 

Miçanga é semente de bordado ou está mais para natureza de ovo?

Música tem preferência de passarinho?

Meme nasceu do xodó da notícia com a foto da primeira página?

Polvo e aranha podem botar perna bissexta?

Bocejar é gritar vento?

Tristeza soluça pra ir desengolindo agonia?

Depois de passar por metáfora, o fato ainda uma vez redunda de volta em si próprio?

Hemistíquio casa com epitalâmio?

Menestrel fica parente de rouxinol?

Bolha quando morre vai para o arco-íris?

Em qual cadência estrela vibra para desenhar no sonho?

Quanto uma estrofe dura: mais para uma chuva ou três trizes?

Etcétera. Alguém sendo um bom desmafagafizador de dilemas, guarde bonitinhas as soluções que eu já, já vou aí não buscar; ainda tenho montão de coisa na lista para infazer.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Não viveremos em vão


Algumas janelinhas do calendário parecem abertas para o sol profundo. Hoje, por exemplo, 10 de dezembro, o midichlorianômetro explode de genialidade feminina: além dos cem anitos de Clarice Lispector, temos os 205 de Ada Lovelace (filha de Byron e primeira programadora da história), os 190 da poeta americana Emily Dickinson e os 58 de Cássia Eller. Música, poesia, romance, algoritmo – é energia para abalar todos os bangus da Força.

E, no entanto, é preciso um tão simplesinho acervo de força para abalar o mundo. Felizmente para nós, não é crucial que um relâmpago de perícia nos atravesse – como atravessou essas quatro potências da natureza – se desejarmos fazer um check-in bem-sucedido em nosso cantinho do universo. São os próprios versos da quase bicentenária Dickinson que invoco em meu testemunho (na linda tradução de Aíla de Oliveira Gomes): "Não viverei em vão, se puder/ Salvar de partir-se um coração,/ Se eu puder aliviar uma vida/ Sofrida, ou abrandar uma dor,/ Ou ajudar exangue passarinho/ A subir de novo ao ninho –/ Não viverei em vão".

Não viveremos em vão, se de nosso paradeiro enxergarmos com nitidez particular e geral as feridas que moram nos outros paradeiros, e se não sossegarmos no sofá enquanto não matarmos todas as fomes possíveis em legítima defesa da humanidade. Não viveremos em vão, se na esquina de uma quinta-feira pudermos fazer a doação da palavra certa. Não viveremos em vão, se ao menos uma vez houvermos engrossado a manifestação por justiças urgentes. Não viveremos em vão, se de repente um nosso elogio empurrar para as letras uma jovem Clarice, uma pequena Emily, que crescem talvez onde nunca se imaginariam vistas; se um nosso entusiasmo regar impulsos científicos numa Adazinha que nunca se imaginaria estimulada; se um nosso aplauso ou abraço acolher uma Cássia que nunca se imaginaria compreendida. Se um copo d'água, um tupperware recheadinho, uma bobagem de meme, uma dica de série, uma foto de cerejeira, um vídeo de criatura bochechuda saírem de nossos domínios diretamente para fazer um dia.

Não viveremos em vão, se abrirmos os olhos a uma vítima encegueirada de relacionamento abusivo; se ajudarmos a viralizar uma vaquinha salvadora; se reencaminharmos para o expediente, em segurança, uma abelha que nos esteja dando cabeçadas na vidraça; se fizermos campanha pela vacina; se naturalmente pedirmos e cedermos perdões; se formos (para o que quer que seja de essencial e justo) voluntários; se nos doer até as lágrimas o disparate social; se emprestarmos a alguém a alegria inédita de ser indispensável; se cobrirmos o choro de cafuné; se cozinharmos colorido; se doarmos sangue. Não é sine qua non que tenhamos nossa hora da estrela, revolucionemos a informática, realinhemos a órbita dos planetas; se por efeito borboleta formos uma gota encorpando a cascata, não viveremos em vão. Parte imensa da grandeza do mundo se fez de depositadores de tijolinho como nós, funcionários da sombra, do silêncio, da surdina.

Orgulho, trabalhadores irmãos meus: montamos a mesma felicidade pela entrada clandestina.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Previsão de arco-íris


Entrei no site do Climatempo para checar a quantas andam os chuvaréus no Rio, e eis-me agora totalmente encantada: a página passou a contar com PREVISÃO DE ARCO-ÍRIS. Não bastassem a fofura e a poesia inerentes à coisa, o motivo da decisão deixa tudo multiplamente enfofurado. "Pela primeira vez [palavras do Climatempo], um canal de meteorologia vai incluir o arco-íris nas suas previsões para dar visibilidade à causa LGBTQIA+. Porque até entre os fenômenos meteorológicos há trabalho a ser feito pela inclusão de todos." Dizer mais o quê? aplaudir de pé por período bem estável, sujeito a pancadinhas orgulhosas nas costas do pessoal da equipe e uns trovejares de assobio em cascata. Ainda há amor, muito amor entre nuvens.

Alô, mídias todas – mirem-se nesse belezume e se ponham, por favorzinho, a distribuir mais respostas àquilo que se pergunta em technicolor. Quais os prognósticos de primeiras gargalhadas de bebês no trimestre inicial de 2021; qual o Produto Interno Brando resultante da onda inaugural de aconchegos pós-vacina; de quantos antidepressivos a fabricação tenderá a fechar seriamente, formidavelmente em queda; de quens hão de ser as melhores fotos de montanha-russa, já sem máscara camuflando o grito, nos parques despidos de pandemia. Onde no mapa moram os maiores prenúncios de points neodescolados, as maiores estatísticas de gente que resolverá ser impossível viver sem floreira na janela, os indícios mais científicos de que finalmente serão atendidos os pedidos do caçula por um doguinho, o gráfico de bicicletas que danarão a pedalar mais que o previsto (devido à retomada do fator vento no rosto). Onde a maior aglomeração de astromélias. Onde a maior inflação de beija-flores.

Queremos saber com urgência de plantão, editores caríssimos: se um arrastão de réveillons vai andar engarrafando avenidas, se blocos dum carnaval engasgado vão se acumular em zonas de convergência, se após o horror vamos dançar cicloneando de casa em casa, se haverá correção (mon)etária de aniversários, se está calculada a recuperação fiscal das valsas de casamento, se são esperadas tempestades adolescentes de pipoca nos cinemas, se torós de cartinha fofa inundarão os correios da Lapônia, se antigos modos de riso e teatro e namoro e festa entrarão em concordata. Queremos saber se animaizitos dos abrigos permanecerão adotados; queremos saber se pandinhas gorduchos continuarão nascendo em cativeiro; estamos precisadíssimos de saber se milhares de bochechas japonesas serão devidamente filmadas durante as Olimpíadas. É crucial, é capital, é primordial desbravar aventuras de um futuro possível, globo-reportar as estranhas novas ocorrências de nossa vida selvagem, broadcastear o que existe de lindo a ser aguardado para além da bandeirada desta São Silvestre de um ano. Que o quanto antes se meteorologizem mais sóis, se augurem mais aberturas de céus – já que o sonho é dos raríssimos portadores de salvo-conduto para queimar a largada. 

(Com vários milímetros de precipitação.)

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

A gente não sabe o tamanho do dia


Foi o que uma das crianças "de" Pedro Bloch alegou (em registro feito no Dicionário de humor infantil), ao ser interpelada pela mãe a respeito do tantão que estava levando "pra passar o dia lá", seja  onde fosse: sim, era um único dia, só que a gente não sabe o tamanho do dia. Eu, que em cada saída adivinho uma miniviagem e em cada viagem suspeito uma missão Apollo 11, me vejo incapaz de discordar; as horas seguintes podem ter sempre qualquer extensão, espichar-se para qualquer área. Preceito de sabedoria.

A gente não sabe o tamanho do dia. Se vai correr ligeiro como romance de varar a noite ou manso de poesia; se vai ser toada de violão na fogueira ou batidão de academia; se vai ter urgências de menino berrando, se vai ter demoras de casa vazia. Às vezes o preço caiu no mercado (quem suporia?) e a festa vai ser mais cedo, mais logo, mais de surpresa, mui antes que deveria. Às vezes olhares e climas esquentaram na padaria – e mesmo sob máscara cada um soube que cada qual sorria. E se, antes do pôr do sol, inda vem visita de tia? presente? declaração? telefonema daquela guria? ou nada, naturalmente (mas eeeeeu não juraria: não há que prever o imprevisto até ser notícia fria). 

Ih, a gente não sabe o tamanho do dia. Tropeça-se na calçada, acampa-se na enfermaria, encontra-se o velho parça que chama pra excursão à Bahia (na pandemia??). Ganha-se o empréstimo, paga-se à senhoria, à mercearia, ao vigia: o sono recém-tempestade faz-se por fim calmaria. Um texto reforma, em minutos, nossa vã filosofia; para alguém dos arredores, se encerra a travessia; o que podia chocar-nos esvai-se, choca-nos o que não podia, comove-nos o inusitado – vemos o que ninguém via. Quem sabe as dezenas da loteria?

Ai da gente, que não atina – nunca – o tamanho do dia. Pode se esticar em DR, spleen, espera, melancolia, caminho (sono)lento de serra, dor no joelho, agonia; pode se encolher em véspera (tome tensão, correria), fluir curto feito o beijo que vem quando já não viria. Prever com qual profecia? Súbito se dobra a esquina para: o caos na rodovia; o reatiçar da fobia; a causa – a justa causa – da arritmia; um túnel do tempo, um chamado, um assalto, uma loja de galeria, um pasto de nostalgia, e mesmo (ironia) o amor que abala mais agora do que quando se sentia. Quem diria.

Não há, não há como saber mes-mo qual tamanho vai ter o dia, qual a potência da carga, do encargo, da bateria; se manancial de força ou de afogo, desconsolo ou energia. A gente não sabe – não poderia – se está no início da saga, se em berço de ninharia, nas bordas da utopia, em outra biografia, no procurados da CIA, no comercial da Sadia, na mesa da Ana Maria; a gente não sabe para onde caminha o que agora principia.

Senão não vivia.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Holotúrias


Essas do título equivalem aos equinodermos chamados pepinos-do-mar. Pesquisei por causa dos versos ao mesmo tempo barítonos e aveludados de Wislawa Szymborska, que nos instrui em "Autotomia": "Em perigo, a holotúria se divide em duas:/ com uma metade se entrega à voracidade do mundo,/ com a outra foge.// Desintegra-se violentamente em ruína e salvação,/ em multa e prêmio, no que foi e no que será.// No meio do corpo da holotúria se abre um abismo/ com duas margens subitamente estranhas.// Em uma margem a morte, na outra a vida./ Aqui o desespero, lá o alento.// Se existe uma balança, os pratos não oscilam./ Se existe justiça, é esta.// Morrer só o necessário, sem exceder a medida./ Regenerar quanto for preciso da parte que restou". Há mais, há mais no poema (cuja translumbrante versão para o português foi feita, salvo engano, pela professora Regina Przybycien), e eu gulosamente amaria reproduzi-lo todo, caso não ficasse feio aqui um tal abuso de linhas não minhas; mas não o trago na íntegra também para poder parti-lo solenemente, como as holotúrias, nessa margem dramática – "Morrer só o necessário, sem exceder a medida./ Regenerar quanto for preciso da parte que restou". Tatuem. Eu tatuaria apaixonadamente, se.

Como estamos precisando para ontem, para anteontem, dum workshop de morte-só-necessária, dum ensino aprofundado de metade fuga, metade entrega à voracidade do mundo! Como carecemos, céus, dum manual de partição psicológica que simultaneamente nos deixe cascudos para o absurdo e resguardados na inocência! Não há sobrevivência sem adoecimento mental, me parece, se não formos capazes de ser holotúrios: reservarmos uma parte de nós para estar impávida colossa, recebendo os trancos e encarando as tretas deste mundo pandêmico, e outra parte para preservar finíssimos e transparentes os modos de ninfa. Uma face injetada com o soro do Capitão América, forçuda, inabalável, não atingível nem impressionável por bombas de efeito moral na lei ou na rua – máquina de seguir em frente, desatarraxada das próprias dores, focada e absoluta no que há a ser feito; a outra face nutrida a pó de fada, íntegra em sua faculdade de alar(-se) com pensamentos felizes, moldada de açúcar, sensibilidade e afeto – monstro de amar, chorar no cinema, chorar no noticiário, amimar filhote, distribuir no jardim pegadinhas de Coelho da Páscoa. Porção Rambo para um hemisfério da rotina, porção Amélie Poulain para o oposto, sem conflito e sem hipocrisia: enfim, a evolução.

Conseguem? deveríamos, mas é ingratíssimo atingirmos a composição psiquímica para chegar à arte do desdobramento. Dizem que as personalidades psicopatas alcançam, de boinha, um assombroso estado de dissociação, logrando ser o pagador de impostos insuspeito e o potencial estripador no mesmo pacote; isso, porém, só se realiza por não haver duas faces, e sim uma face e uma máscara – a crueldade legítima, gelada, indiferente, e a fachada social que é simplesmente casquinha. Não há divisão, há um acobertamento do que se sente; nada se dilacera de fato em termos emocionais, nenhuma lógica interna se rompe, e em vez de se bipartir holoturicamente a criatura, no máximo, troca de pele. Não vale. Nosso objetivo de aprendizes de holotúria, conforme falei, não é o de nos fazermos hipócritas, mas equilibrados e racionais o bastante para afrontar a luta sem sofrimento e existir fora dela sem amargura. Morrermos um bocadinho sim; só o estrito necessário, no entanto, para proceder ao corte de independência entre nossas partes igualmente reais e siamesas, a fim de que cada porção sobreviva de sua própria respiração e metabolismo, mesmo à custa de algumas cicatrizes cirúrgicas. Em seguida nos regenerarmos dessas mutilações precisas, esquecendo o mito platônico à medida que as metades se tornem operacionais em sua inteireza. 

Sermos, finalmente, criaturas divorciadas de nossa multidão particular – até que a morte nos una.

domingo, 6 de dezembro de 2020

A paz possível


A paz sem vencedor e sem vencidos. É o que Sophia de Mello Breyner Andresen pede, orante, em seu poema: a paz sem vencedor e sem vencidos. Sim, abraço-a e desejo-a tanto quanto, sabendo porém que seria a paz talvez imbuscável na Terra, limpa de lembranças, de suspeitas, de remorsos; a paz impossivelmente nua de história, a paz de um mundo resetado, em que nem a primeira disputa de opinião ou terreno tenha havido; a paz como projetada para uma humanidade em estado de conceito, uma humanidade botãozinhamente desligada de suas incompreensíveis pulsões. A paz prévia. A paz do Big Bang.

Como recuar as biografias, as batalhas, os enredos, as vivências com eficácia bastante para que vitórias e derrotas parem de estar no tempo? Como desexistir memórias, como desconceber no berço as vinganças, como destramar o que por milênios se constituiu sobre perdas e ganhos? De que maneira fazer essa paz mítica (sonhada por mim, por vós, pela voz da poeta) rebentar dos escombros como se não tivesse de arrebentá-los – como se NÃO HOUVESSE escombros? É tarde, é excessivamente tarde para a paz comme il faut, aquela de unicórnios saltitantes, ilibada e a-histórica: para onde olharmos, estaremos edificando sobre ruínas. Entre o que deveria ser e o que é, aconteceu o mundo.

Jamais teremos (ao menos nós não teremos), na superfície terrestre, a paz vestida de perfeição – somente a que surgir viável e cabível. Uma vez que não podemos retroceder a História, nada resta senão acolhê-la e compreendê-la em todos os trâmites; ignorá-la em nome de um desvario de harmonia universal é o que poderia haver de mais perverso. Sim, ocorreram e ainda ocorrem escravidão, nazismo, fascismo, imperialismo, capitalismo, racismo, apartheid, bullying, homofobia, tortura, ditadura e todas as semelhantes/derivadas desgraças; sangraram e ainda sangram (abertas as veias, sangrarão eternamente); e porque ainda sangram, ensoparão qualquer tentativa de bandeira branca que ignore sua pulsação e seu fluxo. É simplesmente inútil pretender que cada paz nascida a partir de agora não traga na seiva tudo que se lhe embrenhou pela raiz. É inútil se fazer incomodado porque âââin, bola pra frente, já foi, já deu, vamos deixar no passado toda a oceanidão de dor e reiniciar da tábula rasa. Não há tábula rasa: toda a narrativa que gerou o atual momento da espécie só abandonará a espécie sob influência do neuralizador dos Homens de Preto, e olhe lá, talvez nem. 

Irremediavelmente, precisaremos trabalhar com uma paz que abrace e inclua vencedores e vencidos; eles e seus descendentes. Precisaremos assumir o perrengue de conciliar um mundo irresetável. A paz possível vai ser, em igual medida, a mais complexa: terá de contar com perdões pedidos e dados, com reparações históricas urgentes, com cicatrizes sempre a um passo da hemorragia, com palavras sempre a um milímetro da borda, com acordos obtidos a muito custo e mantidos a custo inda maior, com dolorosas mas necessárias repressões a tudo quanto insistir em rasgar a paz sofridamente costurada. Unicórnios ainda não saltitarão nas ruas pelos próximos séculos – nem nós; somos da geração que continuará fazendo das tripas coração, baço, fígado, pulmões e pâncreas para que, muuuuuuuito talvezmente, alguma geração um dia saltite. Somos os limpadores de feridas, os trocadores de curativos, os administradores de remédios, os cuidadores diuturnos, os vigias, os zeladores:

É nossa EXTREMA obrigação ser incansáveis no tratamento sabendo, também, que somos muito anteriores à cura.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Memórias do cárcere


Coisa que me comove demais de muito, além das histórias que vivem na sombra (de que ontem falei), são os esforços inenarráveis de várias dessas histórias para sobreviverem à sombra; a paixão indestrutível de não perecer, de permanecer, gritar-se, dar um chapéu nos carrascos, driblar todas as vigilâncias farpadas e chutar a gol. Descobri, por acaso e por exemplo, um trabalho deslumbrantíssimo de resgate de vozes que o horror não conseguiu emparedar: a pesquisa de mais de três décadas realizada pelo maestro italiano Francesco Lotoro, que incessantemente busca e executa composições feitas por prisioneiros de campos nazistas. Lotoro corre atrás das preciosidades em acervos de consulta pública, memoriais judaicos, comunidades ciganas, casas de sobreviventes do Holocausto e/ou de seus descendentes, num empenho artístico, humanitário e arqueológico que me faz o coração querer apertar o dele contra o peito. Uma das melodias e memórias tocantíssimas é a do tcheco Rudolf Karel – encerrado e torturado por dois anos na prisão Pankrác e, em seguida, enviado ao campo de concentração de Terezín –, que escrevia suas partituras em papel higiênico com o carvão que lhe davam para tratar disenteria. Karel chegou a produzir, nesse cúmulo de condições inóspitas, uma ópera de cinco atos (Three hairs of the wise old man) em 240 folhas de papel detalhadinhas, passadas discretamente a um guarda portador de humanidade. Sei nem o que diga. Só transbordam aplausos de pé para essa potência de vida que nunca se ajoelha.

Por mais que a cadela do terror, da crueldade, do fascismo esteja sempre no cio, felizmente não faltam provas de que a irrepresável vontade humana lhe responde quilometricamente teimosa, resistindo (ao menos por dentro, para compensar nossa estrutura física tão vulnerável) a todas as suas dentadas. Diz-se que Santa Cecília, depois de não morrer asfixiada por vapores ferventes a mando do prefeito de Roma, e de não ser decapitada com três machadadas no pescoço – OK, às vezes nossa estrutura física também não é tão vulnerável assim –, dava conselhos carinhosos a quem ia visitá-la em seu leito de pré-morte e entoava louvores, o que lhe valeu o título de padroeira dos músicos. Antonio Gramsci redigiu milhares de páginas de teoria política, filosofia e análise cultural enquanto estava nos cárceres fascistas, sendo que apenas após a Segunda Guerra (que Gramsci, morto em 1937, sequer "pegou") foi publicado todo esse colosso de pensamento. Anne Frank... bem, vocês sabem. Tomás Antônio Gonzaga cantou, dirceumente, liras e mais liras à sua Marília nos dois anos de aprisionamento na Ilha das Cobras. Victor Jara, poeta popular chileno assassinado pelo governo Pinochet, cantou literalmente, alto e forte – para animar seus companheiros –, enquanto os militares destroçavam suas mãos a coronhadas. Julio Fuchik, jornalista conterrâneo de Rudolf Karel e tão porreta quanto, na mesma prisão de Pankrác fez anotações em papeizinhos de maços de cigarro, devidamente contrabandeados para fora; em 1947, quatro anos após o enforcamento do autor, sua esposa Gusta (que foi encarcerada em galpão próximo ao de Julio, e para quem ele cantava a fim de avisar que ainda estava vivo) publicou os escritos no tocante Testamento sob a forca. Gente renhida, criativa, criadora, rija e topetuda mesmo na fraqueza; gente interminável. Forças de permanência que, ao contrário de seus algozes, deram jeitinho de simultaneamente ficar e fazer falta.

Obviamente não estou dizendo, com essa meia duzinha de exemplos entre os milhões disponíveis na História, que somente os vigorosos, resistentes e "produtivos" fazem falta, ou que é necessário passar assobiando pelo horror supremo da tortura para ter legitimadas sua existência e sua memória. Não; toda violência destrói uma experiência insubstituível de mundo, nenhuma dor precisa ter enredos de heroísmo para ser válida. Toda dor de injustiças e opressões é uma dor mártir. Mas é riquíssimo e essencial que haja, entre essas dores, as que berram testamentos, as que registram para a posteridade a extensão do absurdo, as que falam pelas que não puderam, as que chamam luz sobre eventos de que os culpados sempre desejam apagar o arquivo. É lindo e grandioso que algumas vozes mantenham o encargo de ecoar por suas irmãs de luta e timbre: embaixadoras de classe, representantes de turma, líderes sindicais de narrativas e aflições recorrentes na espécie. Quem permanece coletiviza. Potencializa. Torna-se relicário de lágrimas e risos que eletrocardiogramiza o coração duma época.

Milênios, milênios, milênios e (é para nos esperançar que estão aí essas vozes) a morte continua sem poder frear o que não tem freio. A vida – sempre! – encontra um meio.