domingo, 11 de abril de 2021

A neutralidade é um roubo


Detergentes podem ser neutros. Sabonetes podem ser neutros. Pronomes podem ser neutros.

Posições políticas não podem ser neutras.

"Mas ninguém é obrigado a se posicionar." Obrigado não é; não se posicionar, porém, já é estar se posicionando – muda e eloquentemente. A não ser que se esteja sob situação arrepiante de risco à própria vida, a não ser que se esteja sob o mesmo grau de pavor e dominação das vítimas a que quereria proteger, constatar o horror e não denunciá-lo nem fazer o possível para impedi-lo significa dar-lhe uma bênção tácita. É inviável fugir aqui ao clichê de citar Desmond Tutu, que foi tão preciso: "Se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor". Simples.

OK, a vida é menos simples; mil marionetagens de persuasão, mil enredamentos de soft e hard power, milmilhões de sutilezas e durezas, de evidentes e capciosas violências embaralham pés, mãos, cérebros de quem acaba se eximindo de reagir. Pessoas são convenientemente desviadas de fontes de conhecimento libertadoras, levadas a demonizar professores e demais pensadores que "só agitam", encorajadas a focar na lida do mundo cão como um empreendimento individual, naquela base: "Quando o jeito é se virar,/ cada um trata de si,/ irmão desconhece irmão". E aí? gente carente, dependente e ignorante, na mão de seu opressor geral ou particular, dificilmente será vendaval; dificilmente incorporará a tempestade contra aqueles que a condicionaram por anos ao medo, ao preconceito, ao silêncio, ao não-se-mete, ao fica-na-tua. Só que nem todo mundo é gente carente, (100%) dependente e (de maneira até certo ponto justificável) ignorante. Sobram, também, aqueles que – como a vida do eu lírico de Bandeira – poderiam ter sido e que não foram, ou não são: os que têm sim plenas condições de informar-se, de criar opiniões embasadas, de reconhecer e desmontar falácias, de exercer e aplicar o conhecimento disponível, e no entanto seguem suas vidinhas fazendo a pêssega, imitando o avestruz proverbial. Principalmente da parte destes, a pretensão de neutralidade é um assalto à coerência histórica; NADA, em absoluto, justifica o amarelamento intelectual de quem dispõe de todos os instrumentos para a peleja.

A neutralidade (dos conscientes em potencial) é um roubo, um insulto, uma covardia, uma – vou usar aqui porque não é todo dia que se pode meter o termo numa conversa – ignomínia. Se a internet pré-5G está ali bonitinha para todos os escarafunchamentos e fact checkings, não abrir a boca contra fake news é um tapa em tudo que os personagens caluniados fizeram pela dignidade humana. Se a escola ficou aaaanos martelando em estratégias de leitura, interpretação de texto e argumentação, bancar o analfabeto político e social é uma cusparada no dinheiro dos próprios pais (fosse ele para a mensalidade do ensino privado, fosse para os impostos direcionados à rede pública). Se livros, revistas, filmes, vídeos, séries, canções, programas, documentários estão ao alcance imediato de olhos e ouvidos, trancar ouvidos e olhos para a realidade do outro é um escarro sobre suas dores expostas, um escárnio dirigido a séculos de denúncia artística e jornalística de todos os sofreres. Se há os meios, as condições e os instrumentos para SABER que existem explorados e exploradores, não se posicionar explicitamente em favor dos primeiros significa endossar a ação dos segundos; não votar diretamente em quem favorece os primeiros configura empurrá-los mais para a voragem carnívora dos segundos. Pouco importa se voto nulo e voto branco são possibilidades legais: restringir o voto por gênero e renda também já foi uma possibilidade legal, e nem por isso moral. Quem não atirou numa vítima, mas a encontrou e a abandonou à morte certa, deixou de ser culpado? quem é um nadador capaz, porém não deu sequer uma braçada para socorrer alguém que se afogava a dois metros de distância, por acaso não foi assassino, apesar de não ter empurrado a cabeça do outro na água? A negligência é um crime silencioso, a indiferença é uma assinatura na linha pontilhada da tragédia. Não se pode espoliar um infeliz de seus últimos recursos – e acontece, eventualmente, de esse recurso sermos nós.

A omissão faz o ladrão.

sábado, 10 de abril de 2021

Obesidade grávida

No Jornal Hoje de ontem (o que por si só já é uma expressão fabulosa), a querida Maju cometeu desses pequenos deslizes tão deliciosos que ficam muito melhores do que a proposta: ao pretender falar de obesidade grave, acabou soltando obesidade grávida – e corrigindo, aos risos, logo em seguida. Mas é fato que errado não tá, a sabedoria frequenta bem assiduamente os atos falhos; existem com muita clareza a obesidade mórbida e a obesidade grávida, sem que isso tenha nadinha a ver com tamanhos de corpos, e sim com fertilidades de intenções.

Discursos baloooofos de poses e jurismos e latins e outrossins e excelentíssimos e todavias: obesidade mórbida, claro. Se o objetivo não é ser arte, não é ser literatura, mas ao contrário ser coisa bem despida de encantos e objetivazinha, PRA QUE essa prosa que arrudeia, arrudeia inchadamente e gasta papel, tempo, tinta em vez de mirar o alvo diretão, em vez de resolver questões ligeirão, em vez de ser sequer compreensível para a imensa maioria das partes implicadas nos processos? Agiliza, gente, ninguém tem o dia todo. Já não existe essa balofice estéril num contar da mesma história 46 mil vezes e mais 152, a mesmíssima história para a mesma criança, pré-noites de sono a fio; vai ser sempre um exagero grávido de entonações amorosas, de experiências confirmadas, de vínculos costurados again and again, e sempre fascinantemente novo e velhamente indispensável como os clichês do era-uma-vez.

Mensagens melequentas de carros de som contratados para dar os parabéns: não é só obesidade mórbida, é pico diabético. Juro que romperia qualquer tipo de relação amigável com alguém capaz de enviar um troço desses, já que obviamente é uma criatura capaz de tudo nesta vida e eu não quero acabar dando depoimento para o Vivendo com o inimigo (carros-de-sonadores que estão aí trabalhando honestamente, me perdoem, não é pessoal. Mas com o remetente de uma mensagem do gênero, ah! seria). Em contrapartida, se se dá ao indivíduo a ser mimado um livro transbordante de oitocentismo – com todos os suspiros poéticos, as saudades, os mares, as matas, os sabiás e palmeiras, os amores e medos demasiados, os largos desesperos –, pronto: é um jorro literário de emprenhar quaisquer corações em que haja um brotinho de paixão promissora.

O palavrê baboso, enredante e tóxico dos falsos pastores que só querem tosquiar saldos bancários: mórbido. O tanto de debate farto e colorido de cada Papo de segunda que nos adentra a telinha: grávido. O borbulhar de informações fecundantes que nos chocam, mas nos inseminam de luta, em todo e qualquer Greg news: grávido. O Mar Morto de esparrelas, mentiras, preconceitos, desserviços criminosos que permeiam a bolsosfera whatsappiana: mórbido. Texto de Mia Couto: grávido. Texto de cartão de papelaria: mórbido. Eventual viveiro de cafonices atribuído a Clarice ou Drummond no Facebook: mórbido. Bom-dia de Zaplândia: móóóóórbido! Discurso do Lula: grávido (que o Brasil possa gestar em breve). Roteiro do Jorge Furtado: grávido. Tudo de Guimarães Rosa: grávido em cada via, em cada vereda, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio.

Grávido é todo impacto fecundo que nos mantém em condições de esperar.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

As vantagens de ser invisível

Tenho umas tontices do tipo: o vizinho, a vizinha passa em frente à nossa porta rumo à dele/dela e eu sinto a louca tranquilidade de não ser ouvida, uma vez que paira um silêncio usualíssimo aqui no apê, sem absoluta e zeromente nada que chame a atenção. Ele, ela naquele momento não nos escutam, não nos comentam; atravessam o corredor com a inconsciente sensação da tarde mole e normal, e provavelmente sequer consideram nossa existência. Fique claro que nada tenho contra os vizinhos (além do incenso dooooce e odioso que volta e meia me engulha a paz), são conhecimentos só de vista e elevador; eu é que, cá deste lado da porta, me demoro doidamente no gosto de não ser percebida, de me mesclar ao andamento natural das coisas, muito como a Fita Verde de Guimarães Rosa saboreava o comum dos instantes e "divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão".

Certo, as pessoas queremos atenção, precisamos dela; sequer teríamos sobrevivido 60 minutos no planeta sem ela. Mas quase qualquer atenção que fuja à simples escuta cuidadosa – e a suas manifestações de delicadeza, delicadas conforme se espera – me perturba muito, muito; abraço bem o olhar deferente, não o olhar diferente. Em suma: se alunos estão ouvindo silenciosos e acatantes, se numa conversa não me interrompem ou atropelam, se me dão a honra de se lembrarem do que eu disse e o levarem em consideração, UEBA! estou feliz e pimpona da vida. Já se me põem em evidência num cantar de parabéns, numa mensagem animada (vade retro!), num evento, numa filmagem, viro o próprio desconforto; odeio câmeras de vídeo, a de computadores e smartphones inclusive; odeio ser fotografada sozinhamente; odeio postar fotos minhas; odeio até estar num grupo que papeie alto em local público – aliás, odeio estar num grupo que papeie alto em QUALQUER lugar, talvez mais ainda em casa, já que transeuntes são passageiros e vizinhos, não. "Ah, então você é uma orgulhosa que quer fugir de ser analisada, julgada." Nunca disse que não era; sou, ao menos, enormemente sensível a zombarias, invasões de privacidade e injustiças. É ser orgulhosa? possivelmente. Mas espero me perdoem essa falha em nome do desejo sincero de, além de não ser incomodada, na mesma proporção não incomodar ninguém.

O querer manter a desinvasão da intimidade e o anonimato da imagem a todo custo me torna inapta para o Instagram, para o YouTube, para toda carreira mais publicizável (a escrita, ainda que me impulsionasse a algum futuro, me permitiria um retiro sagrado) e até para a maternidade de crianças ou bichitos, visto que pequenos seres demandões não costumam estar familiarizados com a noção de espaço pessoal. Me admiro das constantes reclamações de pais e tutores humanos, aos risos: não consigo mais ir ao banheiro sozinha(o), não tomo mais banho sem que o Godofredinho – tenha lá o Godofredinho duas ou quatro patas – me siga até o chuveiro; e fico cá-comigomente: quê? não, isso não é para mim uma alternativa razoável. Desde eu criança que só me sinto bem em privacidade absoluta, não tendi nem por índole nem por criação a ser uma criatura amostrada, relaxada no partilhamento de espaços e emoções. Até hoje fujo ao estereótipo da mulher que vai ao banheiro de um restaurante, shopping etc. com outras mulheres; pra que isso? cada uma tem sua necessidade, seu tempo, seu ritmo, vai você, depois eu vou; não tenho a menorzinha intenção de aproveitar a "escapada" do grupo para conversar sobre nadíssima, só entro no banheiro para coisas de banheiro, todas da esfera in-di-vi-du-al. Nessa de "não me acompanhem", "não me aguardem", "me deixem", vê lá se eu prestaria minimamente como mãe – eu que só ambiciono voar sossegada, despercebida, isenta de interrupções, de pedidos, de chamamentos. Ainda bem que me conheço o bastante para saber que nem todos os amores são para todas as pessoas, e vice-versa.

Espero somente que as circunstâncias da pandemia – com todos os seus requeridos isolamentos e anonimáscaras – não tenham agravado demais em mim o vício de obscuridade galopante. Nada como um cúmulo de realidade torta, afinal, para fazer uma alminha já gauche acabar de se desencontrar.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Tire o seu sorriso do caminho


Outra cena BBBista que me deixou bastante comovida (ao lado dos episódios referentes ao racismo/combate ao racismo, que testemunhamos fortissimamente esta semana) foi o rasgo de delicadeza de alguns participantes após a eliminação de Rodolffo no paredão. O ex-emparedado Gil queria esgoelar a alegria de ter ficado, mas não queria magoar o também permanecido Caio – que, embora liberto por mais um tempinho do risco de deixar o jogo, chorava a saída de seu parça muito mais do que celebrava a própria permanência. Que fizeram Gil, Camilla, João, Juliette e Fiuk? Mocozaram-se tão discretamente quanto possível na despensa da casa, a fim de, numa pocket festinha do coração, darem livre curso aos gritos felizes sem afrontarem a tristeza dum brother órfão de seu brother. Oito trilhões de pontos de fofura para a Grifinória.

A maciez e a elegância da atitude ganham montão de relevo pelo fato de ser absolutamente compreensível, nessas circunstâncias, NÃO tomá-la; ninguém iria condenar Gil e sua querida entourage por desabafar alívio em altos brados no jardim, na sala, na piscina – até porque o morador que procuraram poupar não era apenas um viúvo de parceiro, era também um sobrevivente com motivos particulares de comemoração. Ilustrando bem, no entanto, o quanto o grupo em questão é sofisticado em bagagem empática, preferiu-se o melhor ao normal, o mais fino na generosidade em vez da média de comportamento, e isso é indescritivelmente encantador como amostra de sociedade ambicionável. Se posso desde já deixar encomendada uma prendinha para os fantasmas dos Natais futuros (sem exigências de prazo nem nada, no tempo deles, caso estejam passando assim de boas na calçada da loja, vai que), peço isto: um planeta habitado por uma gentaiada toda dessa vibe, muito mais amiga de refrear suas reações do que de espicaçar a aflição do outro, até quando não estiver "fazendo nada de errado". Uma humanidade que basicamente não ache graça nenhuma em botar seu riso sapateando sobre alguma dor.

Eu sei, é normal zoar o irmão, o pai, o conje, o colega quando o nosso time ganha fragorosamente, e fragorosamente o dele perde; a zoação se miltiplica se as duas ocorrências se dão no mesmo evento; mas é ainda melhor festejar com a sobriedade dos vencedores, sem agravar as já muitas chateações sérias deste mundo por causa de uma que é tão irrelevante e tão nos-alheia, visto que nem a vitória nem a derrota daquele bando de jogador nos têm como causa ou nos geram qualquer consequência (sim, considero essa bagaça apenas uma fonte de aborrecimentos, especulações, disparidades financeiras e rivalidades inúteis, me processem). É normal soltar fogos metafóricos em honra a uma promoção no emprego ou a uma aprovação na faculdade dos sonhos; mas é melhor, mais sensível, mais gentil baixar a bola diante de quem foi reprovado ou demitido. É normal querer passear com um carro de som na vizinhança para berrar aos ventos que se sobreviveu à covid; mas é melhor maneirar o entusiasmo na presença de indivíduos que a covid deixou enlutados. É normal querer decantar os prêmios, as posses, as felicidades, os feitos; mas precisa? não é melhor uma moderação cortês em meio a um público que pode conter muitas almas suscetíveis à "depressão comparativa", comum em Faces e Instagrams?

"Credo, que é isso, também não pode nada, parece que todo mundo é um floquinho de neve, a gente não deve apagar a própria luz, vai ver que você é que tem medo de olho gordo ou coisa do tipo." 1) Eu nunca disse, nem teria autoridade para dizer, que não pode nada – somente penso e continuarei pensando que ostentações são ridículas e cafonas, e que, mesmo naquilo que não configura ostentação, não custa ter um tato carinhoso com sentimentos alheios: é uma turbinada na elegância; 2) as pessoas não são floquinhos de neve, mas não são Homens de Ferro tampouco; a não ser que suas provocadas fragilidades venham de fonte ilegítima – racismo, homofobia e misoginia, por exemplo –, acredito ser mais próximo do real tomar as psiquês como estruturas potencialmente vulneráveis, portadoras de medos, traumas, feridas, dores de autoestima que não imaginamos; 3) a gente não deve "apagar a própria luz" se é realmente luz e nos pertence, em vez de ser exibicionismo terceirizado em forma de bens, títulos etc. (porém é fato: NADA de se apagar em nome de alguma relação abusiva e egoísta, meu povo!); 4) não, céus, não penso nesses troços que chamam de olho gordo e afins, nem teria motivos para isso; ademais, NÃO É sobre nós mesmos, sobre como o outro talvez pudesse nos prejudicar, e sim sobre como NÓS talvez viéssemos a prejudicá-lo. Capaz até de servir mesmo de escudo – mas a intenção primária é a de ser uma deferência, um manifesto mudo de gentileza. Custa?

Se o custo parece muito alto, vai ver que não ser invejado é o que te assusta.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Quem não é mau também faz por mal

A esta altura, a maioria já viu a cena dilacerante de desabafo do professor João Luiz no último "jogo da discórdia" BBBista: João rompeu em choro após protestar, coração-partidamente, contra a atitude do co-hóspede Rodolffo, que dias antes havia comparado uma peruca de homem das cavernas com o cabelo do professor. A fala justissimamente indignada do brother puxou uma das sequências mais significativas de nossa TV (sim, EVER), pelo tanto que ilustrou da sociedade brasileira e de suas chagas incuradas; porque não foi apenas a tristeza de João que embargou todas as vozes e olhos minimamente sensíveis – foi também a reação de Rodolffo, chocante pela aparente invulnerabilidade ao conhecimento e à informação. Chocante, mas não direi que surpreendente. Tal qualzinho boa parte dos brasileiros "acostumados" a ser racistas "sem ter tido a intenção de magoar", o cantor não se reconhece racista, nem pareceu comover-se muito com a dor provocada, justamente por não tê-la compreendido. O enredo foi o de sempre nesses casos: imagina, eu jamais faria isso para te ferir, a peruca era mesmo um pouco parecida, meu pai tem o cabelo igualzinho ao seu, então eu iria atacar meu pai?, meu cabelo é crespo, está alisado, pessoal também me zoava de eu ter canela fina etc. etc. – toda aquela estrutura de defensiva que se afunda cada vez mais ao tentar justificar-se por meio de pseudoidentificações, como se a experiência de mundo (ou o que se declara como experiência de mundo) de alguém não negro pudesse ser comparada com a de uma pessoa negra. Apesar do imenso empenho da sister Camilla de Lucas em explicar longa, detalhada, serena, didaticamente a Rodolffo por que a postura deste tinha sido racista e por que NÃO era aceitável (aliás, fiquei extremamente fã dessa moça, cuja oratória espetacular eu nunca testemunhara por só acompanhar o programa pelos comentários de internet), o fato de o rapaz interrompê-la a todo instante, insistindo na história do pai e similares, deu a entender que a lição não avançou muito do ouvido para dentro. Minha esperança é que o ensino paciente de Camilla tenha encontrado alunos mais permeáveis aqui fora.

Não creio, naturalmente, que o brother confrontado seja má pessoa, tanto quanto não creio que a maior parcela do Brasil seja composta por más pessoas – ainda que o racismo configure, no país (quiçá no mundo), algo estrutural. Seria totalmente desesperador pensar que quase todos são horríveis; o próprio racista avoado costuma saber muito bem que racismo é horrível, e seu costumeiro impulso de negar que tenha feito alguma coisa por mal – conforme Rodolffo se esfalfou em jurar de várias formas – provavelmente equivale, na esfera psicológica, a fazer afirmação diferente: eu não sou mau. Ninguém que não tenha um desvio cerebral grave quer ser reconhecido como uma criatura ruim, visto que ninguém em sã consciência deseja ser rejeitado, isolado, cancelado. Entretanto, "não fiz por mal" e "não sou mau" são falas que, na verdade, NÃO se equivalem; a segunda pode (deve!) corresponder à realidade na maior parte das vezes; a primeira, muito menos do que gostaríamos de admitir.

Quem não é mau TAMBÉM faz por mal, mesmo que não de maneira inteiramente consciente e premeditada. Não tenho dúvida de que Rodolffo de fato não soltou a infelicíssima brincadeirinha com o intento de machucar João – por sinal, sequer PERCEBEU que o fizera até o professor mesmo declarar sua mágoa; nem as (in)diretas da cantora Ludmilla, no show para os brothers, parecem ter furado a bolha de distração do colega. Mas distração não significa inocência. Por acaso um pai congenitamente distraído que esqueça o bebê no carro não será condenado por abandono de incapaz e provável morte, embora não quisesse matar seu filho? "Ai, credo, aí não se compara" – sim, compara-se; o efeito de uma atitude racista sobre sua vítima pode até não acarretar o sufocamento do corpo como no caso do bebê, mas quem que tenha presenciado o desabamento emocional de João é capaz de duvidar de quantas outras submortes um abandono, uma negligência provoca em alguém? "Não exagere: o João não foi abandonado pelo Rodolffo." Foi sim. Não precisa ser filho, não precisa sequer ser conhecido; se cognitiva e psicologicamente adultos, temos todos uma responsabilidade tácita pelo outro, e o DEVER de não abandonarmos a vigilância sobre nós mesmos a fim de não lhe causarmos nenhum dano. Conforme a sister Camilla maravilhosamente explicou ao aluno arredio, é uma obrigação que se impõe tanto mais quanto maior se torna nosso acesso à informação, nosso contato com um mundo cada vez mais esclarecido e debatedor de situações de preconceito. Se ele-Rodolffo (muito e muito insistiu ela) tem totais condições de se instruir e atualizar a respeito da percepção do outro, da percepção do que as frequentes vítimas de racismo vivem e sentem, simplesmente NÃO HÁ DESCULPA para não se comprometer com a própria melhora.

Sabem a velha máxima homem-arânhica de que, com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades? pois então. Quem se encontra vivo, lúcido, satisfatoriamente educado e usuário de mídias sociais, neste justinho momento, se encontra diplomado em poderes bem suficientões para alçar o pensamento em fortes escaladas. Está-se condicionado ao que se possui e sabe: dispor de todos os equipamentos de proteção, das instruções de como usá-los e ainda assim dar-lhes as costas, atirando-se às cegas no vazio, NÃO é "tadinho dele" case, não é fatalidade – é escolha. É leviandade. Desconsideração. Omissão. Negligência. É, sim, por mal e para o mal próprio ou alheio; alguém necessariamente se machuca quando existe deliberação em ignorar as redes.

E quando os ouvidos têm paredes.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Repoemas


REMOTIVO

(Com o perdão da bem-amada Cecília)


Eu grito porque o farsante insiste
e minha alma está inquieta.
Mas nem por isso ela desiste
nem se afeta.

Irmã das justas rebeldias,
desejo ao Bozo o impedimento,
e, às mãos que ora estão vazias,
sustento.

Em sonho o mundo modifico
e o redesenho traço a traço:
ao pobre, glória; ao que era rico,
fracasso.

Sei que grito; e é o melhor escudo.
Tem sangue eterno a mão mancomunada.
E o tempo faz de quem quer tudo
um nada.

***
REPOEMA DE SETE FACES

(Com mil vênias do querido Carlos)


Quando nasci, um anjo curto
desses que vivem no ombro
disse: Vai, moça! ser ave na vida.

As asas espiam os homens
que correm atrás de poderes.
A água talvez fosse azul,
não houvesse tantos despejos.

O ônibus passa cheio de telas:
telas de jogos de zaps de novelas.
Para que tanta tela, meu Deus, pergunta minha visão.
Porém meus olhos
não se grudam a nada.

A mulher atrás da 3M
é arisca, dual, reticente.
Sempre se dispersa.
Está sempre voando consigo
a mulher atrás dos óculos e da 3M.

Meu Deus, não nos abandonaste,
nós é que abandonamos os teus
pequeninos, carentes e fracos.

Mundo mundo triste mundo,
pra meu desgosto profundo
um voto é um voto, não é uma solução.
Mundo mundo triste mundo,
mais triste é não ter votação.

Quem poderia não saber
que esse pulha
que esse basbaque
botava a gente presidido pelo diabo?

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Morrendo e aprendendo


Raras coisas são mais canalhas do que aquelas reportagens que pipocam sempre que a vida está impossível (desemprego, crise, preços exorbitantes; tipo agora) e metem uma Pollyanna que não é otimismo inocente nem papagaiada de resiliência – é deboche. Deboche não é certamente o que se deseja fazer, mas é o que acaba feito quando jornalistas desnocionados romantizam a precariedade e a transformam numa espécie de alternativa idílica aos hábitos grosseiros da abundância: o gás anda inacessível? volte ao fogão de lenha, a comida fica muito mais gostosa; a grana não chega para a gasolina? vá de bicicleta e transpire saúde; não dá pra carne, né? troque por ovo ou soja, altamente proteicos, inclusive confira as receitas topíssimas que colocamos no site; tá inviável estudar com essa internet porca? qual o quê, você consegue, veja aqui este guerreiro que faz as lições encarapitado no pé de manga, agradeça, inspire-se. Claro: o guerreiro que se encarapita na árvore para catar wi-fi, as trabalhadoras e trabalhadores que dão nó em pingo d'água para nutrir-se e deslocar-se do modo mais viável, esses são dignos dos olhares de maior aplauso, solidariedade, respeito, empatia; o absurdo mora nas câmeras e microfones que não focalizam o absurdo, ou que não o tratam como absurdo, preferindo exaltar o esmagado (e quase o esmagamento) sem questionar como se combate de fato aquilo que o esmaga.

Assim preambulo para precisamente falar do que NÃO se encaixa no preâmbulo, do que NÃO romantiza as perdas que ocorrem à revelia, mas, em lógica bem outra, valoriza os necessários êxodos, as necessárias rupturas. É própria da Páscoa (por 50 dias continuaremos em tempo de Páscoa) essa lógica bem outra, sublinhada pelo padre na celebração – virtual – de ontem com a tão surpreendente quanto óbvia frase: "Só ressuscita quem morre". Estava ele avalizando com isso os sofrimentos horrorosos de Jesus nas mãos de seus torturadores? Evidentemente não; aliás, o que mais se faz nas cerimônias da Semana Santa é denunciar o quanto homens poderosos, ditos da religião e da lei, se esmeram na vileza e na crueldade ao condenar um inocente que os incomoda. O muito explicado intento do padre era tomar a morte como algo metaforicamente compulsório para uma transformação essencial: não raramente, é preciso que um lado nosso morra em nós a fim de que a vida de alguma forma caminhe, se liberte, se transfigure. No campo da arte, é tema frequente; já assim de pronto me vêm à lembrança, ilustres e ilustrativos, os casos dO lago dos cisnes – a morte do cisne branco representa o livramento da princesa Odette – e de Harry Potter – o protagonista só consegue emancipar-se de seu arqui-inimigo depois que a parte "habitada" por este em sua identidade é destruída. Quem estiver de veneta para a busca há de achar outras mil narrativas em que se manifesta essa nossa premência do "morrer" parcial para o viver completo.

É muita vez urgente, por exemplo, cortar tentáculos do que era para ser amor, mas é veneno mental e físico; mutilar inclusive aquela nossa porção que ainda se agarra ao que nos assassina, que insiste em não constatar os abusos, que nega o evidente, que se estocolmiza por motivos de autoestima desidratada. É urgente proceder à remoção de um ambiente que nos empeçonha: o trabalho de rotina absolutamente tóxica, a convivência familiar que deprime e traumatiza, o condomínio transformado em arena de perseguições doentias, as aulas cursadas na faculdade que não combinam nadíssima com a carreira pedida pela vocação genuína, aquela tão longamente sufocada. É urgente decepar de nossos dias o veeeeelho rancor que já entrou em necrose (e quer nos infeccionar junto), o vício que nos engole aos bocados, o luto antigo de que sobraram apenas raiva e gangrena, a culpa que virou um godzilla ou uma assombração emocional em vez de ser adequadamente desinfetada com perdões e similares remédios. Não é questão, não são questões de jogar o jogo do contente e pintar arco-íris de energia pra deixar o caos fakemente cheio de alegria, como desejam aquelas reportagens de péssimo gosto; ao contrário: é questão de PEITAR da maneira possível o caos que nos devora, de enfrentar o que nos mata com os recursos ao nosso alcance – quando há recursos ao nosso alcance, e quando o que nos mata nos é ou está intrínseco.

Ainda uma vez e todos os dias: feliz Páscoa, amores. Que todos os seus inimigos internos sejam batidos, que todos os terminais para recepção da dor externa sejam desativados. Em adendo, que os abrace a certeza de que nada realmente se acaba na quarta ou na sexta-feira: é o domingo que tem sempre a última palavra.