quinta-feira, 13 de maio de 2021

Chama com dois olhos andando

"Fire, full moon", de Paul Klee
"Fire, full moon", de Paul Klee

É maravilhosamente excessiva a energia brasileiro-literária de hoje, com os 162 anos de Raimundo Correia, os 140 de Lima Barreto e os 120 de Murilo Mendes – pra que esse desbunde letrístico todo concentrado num dia só, plantando recalque em tantas datas? (o engraçado é que, de duas em duas décadas quase redondinhas, nos aparecia um gênio escrevedor de 13 de maio, sem contar a participação especial & estrangeira de Alphonse Daudet, nascido 19 anos antes de nosso Raimundo. Encham de livros as gurias e guris desembarcados hoje no mundo, amigues, precisamos engordar essa tradição!). Na inviabilidade de honrar tantos nomes a contento, tomo aqui de empréstimo uns versos do caçula Murilo – na dúvida, agrade ao caçula –, que me desceram muito apropriados. Os primeiros, de seu poema "O homem, a luta e a eternidade": "Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,/ o mundo ainda é pequeno pra te encher". Os segundos, de seu "Mapa": "Almas desesperadas, eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes./ Detesto os que se tapeiam,/ os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens 'práticos'.../ [...]/ estou no ar,/ na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,/ no meu quarto modesto da praia de Botafogo,/ no pensamento dos homens que movem o mundo,/ nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,/ sempre em transformação".

Fiquei particularmente simpática a essa chama com dois olhos andando, espécie de mula sem cabeça ao contrário que metaforiza bastante bem a figura do escritor: uma alma impreenchível pelo mundo pequeno demais, alma tão ardente e insatisfeita que circula não em carne mas em fogo vivo – a carne já lhe foi consumida pelo caldeirão das sinapses, pela enxurrante lava de ideias que transborda e transborda e poupa somente os dois olhos enormes, gulosos de assunto. O escritor é essa criatura pairante, englobadora, estranha, volta e meia interativa, porém sempre desencaixada, que não necessariamente incendeia o que toca e que é, ao contrário, necessariamente incendiada por tudo que vem a tocar. Às vezes se cala nas letras, e no entanto nunca, nem se passar anos sem verter uma só sílaba no papel, deixa de escrever muito, muito; sua alma se atormenta perenemente das possibilidades que não conhece num dia e que imagina no outro, que são ocultas num minuto e, no seguinte, escancaradas; um trecho, um ritmo, uma frase, um nome é capaz de assombrar-lhe o ouvido do pensamento até que seja digitado ou manuscrito, uma realidade paralela pode roubar-lhe o sono uma madrugada inteira, uma vida inteiramente nova pode invadir-lhe a atenção no meio do almoço. Não há fim de expediente para o escritor: ele é o expediente – e está sentadinho no escritório de si ainda que o flagrem na praia, de papo pro mar.

Escritores são os alquimistas de sua cidadezinha, os carregadores do mal secreto de sua cidadezona, os galopadores solitários de estranha cavalgada, os sabedores dum javanês todo ancestral e próprio, as involuntárias janelas do caos, os que montam o vento em pelo, os que moram na idade do serrote, os que esgotam o azul e seus enigmas, os que contemplam à noite o astro dos loucos e sol da demência, os que acham todo encerramento de texto um plenilúnio e um triste fim, os que (atrás dum tema, um título) escarafuncham feiras e mafuás.

Os que céleres voam, nem sempre (se) voltam, mas aos corações voltam mais.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Como você vai salvar o mundo


Numa dessas páginas de motivações para desmotivados, algumas autoperguntas interessantíssimas; sobretudo esta roubadora de sono tão terrível de simplicidade: "Como você vai salvar o mundo?".

Porque você VAI salvar o mundo, certo? isso não se discute, já passamos de fase aqui, e agora só nos resta combinar como. Precisamos sentar e organizar de uma vez, direitinho, essa agenda inexorável, esse compromisso que você vai ter de cumprir mais dia menos dia; dê-se um bom gole de ar e pronto, partiu resolver com ligeireza o assunto, feito telefonema para a tia no aniversário. Prefere com múltipla escolha? Formulário do Google? Okeeeeei, vamos lá; já, já acabamos.

Primeiro bloco de possibilidades: usar sua profissão como o Capitão América usa o escudo, o Thor usa o martelo, o... você entendeu. Dar aulas, por exemplo – e não, nem é essencial aparecer em matéria do Fantástico por caminhar duas horas no mangue e avançar mais três em lombo de jegue até deliverar cada tarefa de escola na casa de cada aluno. Graças aos céus por aqueles que o fazem, mas se você suar a camisa para ensinar interpretação de texto, noções sólidas sobre como funciona o esquemão de classes sociais, informações históricas suficientes para desmascarar velhas causas e velhos efeitos, matemáticas suficientes para prevenir engodos, boas geografias e ciências para evitar a defesa de teses mortalmente ridículas, está de otimíssimo tamanho. Não é seu caso o de dar aula? problema nenhum, o que não falta são aulas a dar: de como temperar comida, aplicar papel de parede, fazer arte para transformação dos olhos, fazer olhos voltados para a transformação da arte, montar computadores, projetar carros (ecológicos), projetar pontes (concretas e abstratas), promover coleta seletiva, desenvolver vacinas, desenvolver narrativas, contar histórias. Escutar histórias – porque um passo colossal para a salvação do mundo é ter mais gentes ouvidas.

Não precisa ser coisa de profissão, claro, tem toda a razão, escancaremos o leque. Você pode ser o personal supermercader dos vizinhos idosos; pode fazer campanha de doação de sangue na família, no prédio, na rua, no bairro, na firma; pode arrecadar alimentos para funcionários desempregados; pode plantar alimentos numa hortinha pública; pode adotar o catioríneo encontrado na estrada; pode virar vegetariano ou vegano (não, eu não sou; sim, gostaria de ser); pode cuidar do bebê de sua vizinha que saiu a distribuir currículos; pode postar, postar, postar militantemente na internet; pode doar brinquedos para crianças que não tiveram ainda chance de se praticar como crianças. Mas pode também – há vagas para todos, para tudo – ser o melhor filho, melhor pai, melhor mãe, melhor tia, melhor avô, melhor marido ou esposa que alguém jamais haverá considerado ter na vida, e amar amar amar amar amar amar amar amar esse recipiente de amor sem dúvidas, sem pausas, de janeiro a janeiro.

Bem disse o Talmud (A lista de Schindler sublinhou-o): quem salva uma vida, salva o mundo inteiro.

terça-feira, 11 de maio de 2021

Absurdos permanentes

Einstein disse deliciosamente que "se, a princípio, a ideia não é absurda, então não há esperança para ela". Não é assim? A história de nossa residência como espécie na Terra é a história de conceitos absolutamente esdrúxulos – para o bem e para o mal, é verdade, mas fiquemos aqui apenas com a parte que Einstein carimbaria com o selito verde de coisa esperançável. Faria algum sentido que uma criatura de quatro séculos atrás, por exemplo, sonhasse com uma realidade em que seus semelhantes sacassem retângulos iluminados do bolso e congelassem no tempo o som, a imagem, o perfeitinho instante vivido, enviando simultaneamente esse instante quilômetros além, rumo aos retângulos iluminados do bolso de outros semelhantes? A tendência é que um tal sonhador virasse churrasquinho nas mãos de outros terceiros semelhantes, que provavelmente se teriam entreolhado com horror ante a narrativa dessa visão e imaginado de pronto que o bruxo em questão merecia aniquilamento sumário, para deixar de ser besta.

Em tudo somos desses maravilhosos bruxedos; assim fomos projetados, e acaba que só não há esperança para os que teimam em sufocar seus próprios absurdos felizes e os alheios – só não há esperança para os fantasiadores medíocres que, ressentidos de seu pavor em desenrolar as asas com plena envergadura, concentram-se em derrubar o máximo de ícaros no chão. Porém os ícaros são mais, são muitos, e continuarão gerações a fio a voar, voar, subir, subir, ignorando bem solenemente o quanto são mais pesados que o ar. Continuarão tendo e executando ideias absurdas: criando mentalmente pessoas que nunca foram e nunca serão, e delas contando histórias como se sempre tivessem sido; transformando em sinaizinhos gráficos um bando de sentires e pensares bastante complexos, que se transmitem admiravelmente entre dois seres separados até por milênios, desde que ambos conheçam os mesmos sinaizinhos e os conjuntinhos de sentido por eles formados; decorando suas tocas com expressões da subjetividade de outras pessoas; se descabelando para trazer ao mundo minicriaturas que lhes provocarão toda sorte de desconforto físico, cronológico, higiênico, sonoro, financeiro, e que serão ainda assim os prováveis centros de sua rotina; usando pedacinhos de plástico e abstrações numéricas a fim de adquirir mais coisas concretíssimas para dentro da toca, e mais trabalho de limpeza consequentemente. Em se considerando (com moderação, para evitarmos o aborrecimento duma loucura definitiva), somos absurdos ambulantes, absurdos permanentes, que os demais seres animados contemplariam com ainda maior aturdimento se fossem dotados da razão que nos torna doidos.

A maior das ideias esbrúxulas ainda é o amor, este então! digno de ocupar todo e qualquer cômodo da Casa Verde bacamartiana. Ao mesmo tempo ridículo de ternurices e ansioso de antropofagias, amansador de feras e espicaçador de voracidades; dado a autoimolações sem sequer a desculpa do instinto genético; preferidor, às vezes, dos não correspondentes, e outras tantas vezes dos não exemplares; superador dos mais básicos impulsos de autopreservação, no caso de o outro (e não necessariamente um outro específico) estar em risco de perecimento; domador de egos furiosos pela própria vontade do ego furioso – eis, enfim, o projeto que tem quase perfeitamente tudo para dar errado e é o maior de nossos acertos, sem o qual seríamos como bolotas de sinuca com perninhas e penteados estranhos empurrando umas às outras contra paredes e buracos, sob o toque de uma natureza violenta.

Só com o decidido ignorar dessa força é que ganhamos a força de permanecer todos sobre a mesa.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Um pulinho no futuro


Nossos brothers do North elegeram o 10 de maio como Trust Your Intuition Day (Dia de Confiar em Sua Intuição); como de praxe, não faço ideia do porquê – mas intuo ser desnecessário buscar fundas explicações para americanos e suas festas aleatórias, ainda mais para esta, toda trabalhada no que supostamente dispensa lógica ou finge dispensá-la. O importante é que ela está lá celebrada, ela, a rainha misteriosa de nossos impulsos tão estranhamente certeiros, a curiosa boca de palpites agudos que nem chegam a escapar lábios afora, apenas são mascados pela consciência e lhes deixam um saborzito de futuro. Foi bem assim que definiu a escritora Adriana Falcão, aliás: "Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido".

Essa definição da escritora flerta com o que a princesa de todos os sortilégios tem de mais fascinante, que é o dom de ser científica sem parecê-lo. De fato a intuição é "um pulinho no futuro", mas não forçosamente do coração e sim do cérebro, sendo os dois por sinal a mesma coisa: esse mecanismo cinzento que nos comanda se espalha pelo ambiente com uma capacidade tão absurda, tão perceptiva, tão analítica, tão leitora que capta e arquiva bibliotecariamente as informações sem que tenhamos tempo de nos dar conta. Não notamos, mas aquele cidadão que nos arrepiou de repulsa à primeira vista não é que seja regido por um signo (ou lua ou sol ou ascendente ou horóscopo chinês) incompatível com os nossos receptores cósmicos; nossos receptores sensoriais é que milionésimo-segundamente escanearam o moço – e talvez tenham captado um olhar de cobiça para alguma novinha; talvez tenham visto ou adivinhado alguma inclinação de corpo dois flashes e meio mais grudenta, mais demorada no contato; talvez tenham microflagrado uma expressão facial que reagiu, equivocada, a uma piadinha grotesca; talvez tenham decodificado um resmungo que não seguiu por bom caminho. Não percebemos conscientemente a queda da ficha, mas aquele casal de cujo relacionamento duvidávamos deu-nos uma infinidade de subpistas para duvidar: os pés de um não apontavam para o outro, a voz ganhava um bemolzinho artificial nas trocas de bobagens íntimas, nenhum brilhito de admiração clandestina faiscava nas espiadas mútuas. Nunca soubemos por que não fizemos sinal para aquele táxi e fizemos para o seguinte, mas o nosso perdigueiro mental não perdoou uma ligeiríssima guinada do carro que dispensamos; foi rápida demais para a lembrança e muito suficiente para os botões de sobrevivência. Jamais fechamos o caso interno daquela amiga com quem fizemos o contrário, demos a ela a chance que nossos instintos recusavam com fúria; e por que recusavam? porque numa tarde de quinta-feira, sem desculpas de falta de grana, sem motivo específico, ela piscou marota e embolsou o troco que veio a mais no restaurante, fazendo ainda questão de se servir de dois copinhos do chá-cortesia à porta. Nossos minisherlocks sabiam antes, nós sabíamos que eles sabiam, e só a – esta sim – pouco sensata lorota social "que besteira, não vai acontecer nada" poderia nos empurrar tão eficientemente para a cornitude.

Porque é à negação da intuição que pertence a irracionalidade: nossos frios na espinha se baseiam em indícios, e somente em wishful thinkings é que se baseiam os não-vai-acontecer-nada nossos de cada dia. Não é mágica, é mero treinamento e disponibilidade dos canais sensíveis para medir o futuro a partir de dados do presente. DADOS, disse eu – não preconceitos; nada têm a ver com intuição as cismas que desenvolvemos por escolha, as obsessões que alimentamos em livre demanda. Um ciumento intui que vai ser/está sendo traído? um segurança de loja intui que o estabelecimento vai ser assaltado? praticamente nunca: o ciumento é um possessivo insuportável de baixa autoestima que ou se acaba ou acaba com o outro, ou ambos, numa relação abusiva; o segurança é um profissional que certamente não foi treinado por profilers do FBI, mas por outros agentes de uma lógica infernal que costuma orientar sua intuição pela escala Pantone de peles de clientes. Intuição é coisa bem outra, é examinarmos a cena mais rapidamente que nós, é fazermos uma leitura dinâmica das probabilidades, honesta, limpa, sem viés de confirmação, sem querermos que os fatos se curvem a uma ideia. É enxergarmos, num só frame, em fast-forward – esperando-se que tenhamos a decência de retornar ao frame com o fim de aperfeiçoar a narrativa.

Intuição existe para riscar o fósforo na enormidão escura, dizer "viu? agora é com você" e soprar o fósforo, nos deixando com aquele tanto de quase-nada revelado. Não é, por si só, garantia alguma de que se vá agarrar um trofeuzão na linha de chegada, porém (e não é nada pouco) costuma nos dar um spoiler lindão de onde a gente está pisando.

domingo, 9 de maio de 2021

Senti firmeza


Temos hoje século redondinho do nascimento de uma heroína: Sophie Scholl, jovem integrante do grupo de resistência antinazista conhecido como Rosa Branca. Com 22 aninhos incompletos, Sophie foi presa ao lado do irmão Hans e de outro universitário enquanto espalhava panfletos oposicionistas na Universidade de Munique; apenas quatro dias se passaram entre a prisão dos jovens e sua execução na guilhotina. Era um fenômeno de coragem, a guria, que com seus verdíssimos anos mandou recado digno de ser pendurado como letra escarlate no pescoço duns cinquentões, sessentões, setentões que cá conhecemos, e que atualmente devem estar andando por aí com a fralda do pânico ante a necessidade de assumir seus feitos: "É a abordagem reducionista da vida: se você a mantiver pequena, a manterá sob controle. Se você não fizer barulho, o bicho-papão não o encontrará. Mas é tudo uma ilusão, porque elas morrem também, aquelas pessoas que enrolam seus espíritos em pequenas bolinhas para estarem seguras".

Sim, elas morrem também. As pessoas que mutilam suas convicções e alugam seus brios diante da garantia (ilusória, por sinal, já que o nazista de hoje é o nurembergado de amanhã), diante da promessa de terem os bolsos cheios e os pescoços preservados – morrem também. Os que arrendam o pouso de sua assinatura sobre documentos infectos, os que deitam à noite sob o peso da cumplicidade em mortes evitáveis, os que apertam com a mão nua a mão dos assassinos, os que aceitam salário da mão dos assassinos (salário para endosso de assassinato, evidentemente, não para lavar roupa ou fazer faxina), os que se submetem de olhos cerrados à colonização ou à curra psicológica dos tiranos, os que trancam no quartinho qualquer resto de nobre indignação para não melindrar o fragilíssimo ego dos monstros – morrem também. Pior: morrem feio, morrem vergonhoso, morrem infamado, morrem rude. E, ao contrário dos leais que resistem, morrem definitivamente.

Não defendo que ninguém seja temerário, é óbvio; não sou eu mesma nem um pouco temerária, no sentido de não desperdiçar segurança pessoal com quaisquer factoides sem efeito prático. Sustentar uma posição firme e abertamente não significa deitar-se por vontade própria sob a lâmina da guilhotina – nossos adversários políticos não são nossos credores, para que tenhamos com eles a dívida de honra de nos entregar a suas ruindades –, e aliás significa muito alegremente o contrário: viver o máximo possível, para honra e glória da irritação mais espumenta dos fascistas em questão. Mas nenhum ato de autopreservação e prudência envolve sequer a sombra de "negociação" com o horror. Há uma, só uma cara a ser mostrada aos que por acaso a olharem, nenhuma outra portável e suportável, nenhuma outra vestível; unicamente na plena nudez do que somos é que andamos decentes.

Onde a acessível segurança no mundo? Dentro. De fora não se espere muito, a coisa è mobile, olhares nos estapinham hoje e nos estapeiam amanhã; dentro é que podemos morar na solidez fofinha de nos saber parte de ideias que nos superam – que não nos pertencem, mas às quais pertencemos. A "desvantagem" é que não podemos vergá-las segundo nossa conveniência, a vantagem é que não o desejamos: integrar um projeto de coletividade traz como bônus as doçuras conhecidas de cada gota que se esquece numa grandeza oceânica, que ali tranquilamente se dissolve, pacífica, apaziguada, residente. Sua identidade, longe de apagar-se, amplia-se – quem era um se agiganta em todos, e passa a morar no sempre quem era meríssimo por enquanto.

Tem jeito não, companheiro: só sendo parte é que se é inteiro.

sábado, 8 de maio de 2021

Terceira leva de sinopses que não sei se há, mas poderia haver


Uma cidade vive atormentada por um rosto gigante que se forma entre as nuvens e que há décadas acompanha a (e se intromete na) rotina de todos os moradores.

Um dos cômodos de uma casa fica, certo dia, transparente e intangível, como se não mais que de repente virasse uma espécie de rascunho em 3D. Nenhum dos residentes quer ali entrar; discute-se com terror o que poderia acontecer à estrutura física de alguém que penetrasse num espaço supostamente não existente.

Após o falecimento da mãe, uma jovem encontra uma foto dela ao lado de um belo desconhecido, num passeio romântico em Veneza. Mas COMO, se o pai da moça tinha sido, comprovadamente, o único homem da vida de sua mãe? Vários desenrolares e pistas revelam à jovem o impensável: madrecita teve uma vida simultânea e completamente outra, numa dimensão paralela – e sequer existe a certeza de que ela também tenha morrido naquela dimensão.

De repente as sombras de tudo que o sol abraça se põem brancas, branquíssimas; não só começam a doer nos olhos como aparentemente queimam o que nelas roça. Percebe-se então, com o avanço da coisa, que os poucos indivíduos imunes às queimaduras são os quase impraticantes de mentiras, enquanto a terrível sensibilidade dos mentirosos às sombras incandescentes os obriga a refugiar-se na maior escuridão disponível.

Um homem luta todos os dias contra dois desesperos conflitantes: a impressão de que não foram escritas histórias suficientes no mundo e a constatação de que não haverá tempo suficiente para ler todas as histórias escritas.

Tendo sempre vivido em lugares muito quentes, uma mulher desenvolve uma obsessão por tocar a neve e cumprir a tradição de construir nela um bonequinho (ninguém na família sabe de início, mas foi um sonho: certa "revelação noturna" plantou na pessoa a crença de que apenas sob essa condição inusitada todos os seus desejos financeiros, amorosos, profissionais estariam liberados para realizar-se). O problema é que absolutamente TUDO acontece para que o momento Frozen jamais se consume – cancelam-se voos, somem passaportes, derramam-se vulcões, sopram no planeta ondas de calor saariano –, e o drama da perseguidora de neve ganha empatia mundial como o reality do momento.

Uma secretária se assusta com a semelhança estarrecedora de seu novo chefe com seu pai (o pai dela, naturalmente), e cria a forte suspeita de estar trabalhando ao lado do próprio irmão. Para tirar a cisma, passa a investigar a fundo a vida do chefe e descobre um provável envolvimento do moço num assassinato jamais esclarecido. Dilema-se, portanto: contar a ele sobre seu parentesco quase certo ou reunir mais e mais provas para denunciá-lo?

Alguém envia, pelo correio, dez chips rastreáveis para dez pessoas aleatórias. Cada destinatário é instruído a entrar em contato com os outros nove e montar com eles um grupo virtual, a fim de aguardarem a missão que lhes será passada. Meses depois, todos acordam na mesma casa em Tallinn, capital da Estônia, porém nenhum deles se recorda dos demais nem imagina por que está segurando uma carta de agradecimento que lhe foi dirigida.

Todo dia um desenhista desperta sob o efeito de uma última palavra em seu sonho: pai! Não tendo filhos e havendo perdido o próprio pai muitos anos antes de principiarem esses chamados, o artista conclui que se trata de algum de seus personagens inascidos; põe-se, então, a desenhar ferozmente todos os que possam ser responsáveis pelas invocações – mas os gritos engordam a cada madrugada (pai! pai! pai! pai! pai!), até que o moço, exausto, desenha a si mesmo e se esconde em sua versão de papel. Tão logo ele se refugia no outro si, alguém lhe bate à porta imaginária: pai!

Uma senhorinha se torna especialista em fazer bebíveis as memórias das pessoas; sob encomenda, transforma a cor duns olhos, o toque duns braços, a meteorologia duma tarde, a música dum encontro em variedades de chás.

(Tem mais?)

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Paralisados do tempo

São 55 anos, hoje, da morte do extraordinário Stanisław Jerzy Lec, poeta e aforista polonês que já seria notável até sem o enorme talento das letras, por ter conseguido escapar de um campo de concentração vestido com o uniforme inimigo (aaaah, como não amar um sujeito que fez aquela corja nojenta de trouxa; vejam mentalmente aqui, por gentileza, 56 emojis com olhitos de coração). Homem de engenho e arte que era, Lec gestou uma série de frases maravilhosas – feito esta que copio e que assenta justinho na gente como se já a houvéssemos pensado sem nos darmos conta: "Tantas pessoas vivem numa rotina tão exata, que é difícil de se acreditar que elas vivem pela primeira vez".

Menino, não é que é? Tem um povo que carambolas, parece que já nasceu profissionalizado na arte de fazer um determinado quê ao molho de um determinado como, e tudo indica que acha im-pos-sí-vel a receita ser minimamente outra – com outros horários, outras rotas, outros sabores. Aparentemente é uma certeza ferrenha até a última molécula de queratina que guia essa gente; eles só podem estar há dez milênios aperfeiçoando os ensinamentos do mesmo workshop, como ourives tomados pelo êxtase de uma lapidação milimétrica. Só que não. Não há paixão, não há certeza: o que há mais provavelmente é um imenso cansaço, este sim tão profundo que quase convence como herança de várias eras, como fardo de gerações acrescido em toneladas ombro após ombro. Se de paixão se tratasse, existiria mobilidade – a paixão é criativa, inquieta, faminta, insossegável –, mas justamente porque o modo passional está off é que o piloto automático agarra o leme cotidiano e lá fica, doentio em sua vontade anêmica que tem somente o exato combustível de estar, mais nada. Não que seja ruim toda e qualquer disciplina, obviamente; uma mínima organização dos dias devemos ter ou criar, sob pena de recair num outro self-esquecimento em versão descompensada que acaba indicando um igual marasmo de autoestima: tanto 100% de ordem quanto 100% de desordem são próprios de um coração que não se pensa, não deseja pensar-se. O equilíbrio é o habitat da escolha. A chance de evolução pessoal vem temperada de temperança.

Pior mesmo, em termos de rotineirices, está longe de ser o gesto repetido: bilhãomente pior é a ideia enjaulada em si mesma, escrava de ir e vir dentro das mesmas "causas" e "efeitos", fadada hoje e amanhã e depois às mesmas "conclusões". A intervenção policial chacinenta que tivemos ontem no Rio gerou reações, nessa gente de ideia marasmática (se de reações podemos chamar uns reflexos e esgares mecânicos que não diferem dos movimentos zumbis), muito ilustrativas do pensamento que permanece moscando e moscando o vidro da janela, insistindo e insistindo em sair por onde JÁ SE VIU que não existe saída. Dá um misto de náusea, ódio e comiseração ver a galera autointitulada de bem celebrando um morticínio, como se além de inominavelmente cruel uma tal ação não fosse perfeitamente inútil no combate àquilo que se afirma combater. Quem melhor formulou as interrogações devidas ao horror foi, em vídeo dilacerante, o jovem advogado Joel Luiz Costa, morador da comunidade enlutada: "Isso acabou com o tráfico de drogas? isso vai acabar com o tráfico de drogas? a partir de amanhã não vai ter mais droga sendo vendida nas vielas do Jacarezinho porque 25 pessoas foram mortas?". Conhecemos bem – nós, os que tivemos o estômago embrulhado pelo massacre – a resposta a essas questões infelizmente retóricas; e os donos dos estômagos que passaram incólumes simplesmente don't give a damn, que lhes importa saber que a tal "guerra às drogas" nunca foi de fato às drogas e nunca deu qualquer resultado, nesses moldes, em país algum? Os de ideia parada e lamacenta não querem trocar a água da ideia, não querem renovar a opinião, não querem ganhar o compromisso de tirar neurônios da rotina pasmacenta de conteúdos mastigados, afirmações desconexas, asneiras formulaicas, programas pinga-sangue; querem odiar, só – odiar (lhes) é mais agradável, mais rápido, não exige absolutamente nenhum talento (aliás, quanto menos talento melhor) e ainda lhes permite fingir que há alguma emoção ou propósito em suas pseudoconvicções emboloradas; vejam que pechincha.

Sob vênia do poeta, obrigo-me a emendar que não apenas não se acredita que os paralisados do tempo estejam vivendo pela primeira vez; esses pensamentos de cripta estão, sobretudo, na vibe de quem espera acelerar o mais possível a vivência da última.