quarta-feira, 9 de junho de 2021

Em vez de descascar batatas


Li agora comovida uns versos da portuguesa Ana Luísa Amaral, que em seu poema "Testamento" pôs o eu lírico a suspirar sobre pegar um voo e ter medo: "Se eu morrer/ Quero que a minha filha não se esqueça de mim/ Que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada/ E que lhe ofereçam fantasia/ Mais que um horário certo/ Ou uma cama bem feita/ [...] Sonhar com sóis azuis e céus brilhantes/ Em vez de lhe ensinarem contas de somar/ E a descascar batatas/ Preparem minha filha para a vida/ Se eu morrer de avião/ [...]/ E mais tarde que diga à sua filha/ Que eu voei lá no céu/ E fui contentamento deslumbrado/ Ao ver na sua casa as contas de somar erradas/ E as batatas no saco esquecidas/ E íntegras".

Mesmo sem ser mãe ou pretender sê-lo, como não empatizar com a agridoçura duma perspectiva assim? velar a filha, o filho a uma distância celeste e alimentar zelosas apreensões a respeito do que ele/ela receberá em substituição do amor insubstituível: que nó imenso para gargantas maternas. Fosse eu o eu lírico – a eu lírica – de Ana Luísa Amaral, estremeceria igualmente à ideia de uma educação fazedora de contas e descascadora de batatas (embora não negue o aspecto utilíssimo de ambos os talentos); transbordaria as mesmas esperanças de que a criaturinha em formação se formasse entre fantasias oferecidas e cantos cantados com desafinada ternura. Que pânico de lançarem a alminha moldável e fresca numa criação meramente utilitária, francamente denotativa, objetivamente supridora, que derramasse celulares, vitaminas, cursinhos, games e assinaturas da Netflix num terreno carecido apenas de vida abundante, de vida só!

Se eu fosse mãe e morresse de avião ou de qualquer outra coisa, teria desejado que a criatura-filha continuasse a ouvir poesia todo o tempo, todo o tempo; que alguém lhe ensinasse letras e músicas dOs saltimbancos; que lhe explicassem cedíssimo a treta das classes sociais e a impregnassem da máxima: na dúvida, fique ao lado dos pobres; que lhe fosse permitido tomar banho de chuva ao menos uma vez, com as devidas prevenções contra raio e pneumonia; que mãos delicadas lhe construíssem uma cabaninha na sala, devidamente almofadada e fornida de livros a botar pelo ladrão; que lhe fosse contemplado o direito de ter tradições de família, pratos-assinatura no Natal, rituais sagrados, canteiros de memórias; que as não compreensões de escola fossem somente circunstâncias, jamais centros, e não empurrassem sequer um graminha para baixo as serenidades da autoestima; que todos os próximos e amados lhe cultivassem n'alma a sereníssima verdade, a paixão e a facilidade dela, escorrente pelos poros; que lhe fosse natural escolher quaisquer brinquedos de sua preferência – com a exceção indialogável das armas de todas as espécies, banidas até sob a forma de pistolinha d'água. Eu teria sempre desejado saber a criatura-filha mais confiante que bela, mais partilhadora que bem-sucedida, mais generosa que eficiente, mais resistente que poderosa, mais criativa que focada, mais dedicada que genial. Leal, gigantescamente. Vulnerável. Humilde com robustez de brios.

E íntegra.

terça-feira, 8 de junho de 2021

Sinopses que talvez não existam para títulos que já


Bastardos inglórios Três filhos de nobres europeus (reis, inclusive) e de suas respectivas amantes, lá por aqueles séculos de não-sei-quando, se enlaçam em amizade na espécie de internato onde são criados e escondidos. Conforme crescem vão juntando pistas, trocando informações, e descobrem que tanto eles quanto os demais garotos da instituição vêm a ser herdeiríssimos renegados de vários salões e coroas. O trio organiza um motim, foge do lugar e forma, com os outros meninos, um pequeno "exército de bastardos" que desafiará cada família rejeitante, numa mistura de Peter Pan com Robin Hood, Oliver Twist e O Conde de Monte Cristo.

O senhor dos anéis O joalheiro mais maravilhosamente hábil do país é especializado em alianças, e molda cada uma delas em qualquer formato encomendado: ramos de trigo, arcos de rosas, fadas, pássaros, instrumentos musicais. Há duas condições, no entanto, para contratar os serviços do joalheiro: 1) não o aborrecer tentando vê-lo/ falar-lhe diretamente, uma vez que ele deseja NÃO saber quem são os destinatários dos anéis; e 2) aceitar que, seja qual seja a miniescultura pedida para o exterior da aliança, o interior dela será gravado pelo esquisitão sempre com o mesmo poema. Qual poema? – um que só ele e a mulher que foi seu único amor conhecem. Quando se separaram na adolescência, por se achar o moço insignificante demais para pretendê-la, ele jurou que lhe mandaria um sinal de constância, ainda que uma constância desesperançada; se o sinal viesse a encontrá-la comprometida e feliz, muito bem, que ela simplesmente o ignorasse e ele nem chegasse a sabê-lo. Se, no entanto, ela ainda o amasse, que então lhe devolvesse o sinal amarrado num fio de cabelo seu. Pois eis que um dia volta ao jovem ourives, para conserto, uma de suas alianças de noivado, presa a um cordãozito muito, muito fino.

A pele que habito Uma tatoo-sereia recém-desenhada se apaixona doidamente pelo surfista onde mora, e reconfigura o dilema dA sereiazinha literária pré-Disney: caso consiga que seu dono se afogue e pertença de vez ao mar, ela ganha a liberdade de existir para além dele e com ele, já que, nessa situação, a posição de ambos se inverte e o rapaz é que passa a ser uma imagem no corpo de sua Ariel particular.

Efeito borboleta Um senhorzinho e uma senhorinha vivem em pasmaceira isolada, tristonha, até que seu jardim começa a ser invadido por centenas, milhares, trilhardares de borboletas dos feitios mais distintos. De recolhido que era, o casal vira celebridade internacionalíssima; metade do mundo se enternece com o mistério colorido e metade quer cavucar as razões da panapanação de um exato jardim. Tudo fica particularmente enigmático, porém, quando as borboletas se põem a reunir pedacículos da história local: de repente trazem fragmentos de cartas, mapas, notas, fotos, documentos, provas até (talvez) de velhos assassinatos, evidências boquiabríveis de tudo quanto se passa ou se passou.

E o vento levou.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Quietos fazemos as grandes viagens


Sou bastante eu nos versos do poeta, cardeal, teólogo, professor José Tolentino de Mendonça: "Quietos fazemos as grandes viagens/ só a alma convive com as paragens/ estranhas". Creio-o bem; sei que há pessoas muito derramadas, muito exteriores, completamente se-rodeantes de amigos e amados e ruídos e festas; sei que não são por isso menos plenas de insondabilidade humana, nem mais superficiais – apenas mantêm sua subjetividade numa espécie de prontidão de afetos, de fatos, de contatos que eu por exemplo não tenho, mas que é uma simples e outra forma de desdobrar as pétalas; e, apesar de saber quão perfeitamente natural é a extroversão alheia, quão necessária a agitação é para muitos, não posso duvidar das palavras de Tolentino: quietos fazemos as grandes viagens. Cerquemo-nos ou não de baladas, barulhos, camarotes, o silêncio atônito e primordial que nos compõe continua nos compondo, seja sob disfarce ou com sua carinha explícita.

Não tão quietos, convenho, adentramos este mundo biruta – não tão quietos por fora; manifestamos aos berros, aos escândalos nossa perplexidade inocente, é verdade, porém não chegamos nem a alguns metros de manifestá-la toda. Não chegamos nem dois passinhos mais perto do centro de nossa confusão primária, em torno da qual gravitamos sem grandes respostas nem quase instrumentos para colhê-las. Evidentemente o amor e o acolhimento externos diminuem com força nosso diâmetro de desconforto; ainda assim, nós-sozinhos somos os que lidamos com o medo da mudança, com as pequenas e grandes vergonhas às vezes intransmissíveis a qualquer de nossos guardiões, com a enormidão de pesadelos (e alegrias) inverbalizáveis de tanto que nos parecem ter adentrado as células. Ninguém senão nós se aflige com os sonhos que só nós vivenciamos, ninguém guarda daquele ambiente a impressão ruim que só nós guardamos, ninguém sofre precisamente com o que nós sofremos; por mais que carnavalizemos essa maçaroca de sentires, por mais que a arrastemos para o bloco ou a exponhamos num outdoor a fim de não ficarmos isolados com ela e precisarmos fazer sala, tem jeito não: o maior desenrolo entre nós e o nosso combo de impressões íntimas se dará em noites de insônia e auto-DR, em momentos de recolhimento e escrita, escrita e análise, análise e meditação, meditação e caminhada à beira-mar, caminhada à beira-mar e jardinagem, jardinagem e cozinha, cozinha e música – lá o que seja que nos aquiete minimamente. Quietos, de algum modo e sob alguma força quietos, é que encaramos o percurso sem a desnitidez dos delírios e das ressacas; na quietude sóbria é que conseguimos nos suster, dirigir, andar. Remar. Rumar.

Almas que nem por nada logram aquietar-se e conviver com as paragens estranhas avançam também, ou antes são avançadas pela viagem que as empurra; porém seguem desrumadas, aos trancos, normalmente aos círculos. Um coração pode ser o doidivanas que for, mas convém que volta e meia se sente no meio-fio em silêncio e pare para ler o mapa: que, mesmo numa caravana de alegre companhia, ou mesmo entregue por preguiça em mãos alheias que o administrem, se pergunte se é realmente para lá que ele escoa, se é de fato sua a escolha de uma vida tão passiva ou tão saltimbanca. Só suficientemente quieto (quieto para dentro) um coração pressente a viagem que é mesmo toda sua, toda de roteiro personalizado, toda com a bagagem particular e necessária. Nós somente – ao nos rendermos à tranquila percepção de nossas miudezas – podemos arrumar a própria mala e o próprio trajeto. Cada um de nós nasceu grávido da própria bússola.

Cada um de nós precisa parar para se dar à luz na história que lhe cabe traçar.

domingo, 6 de junho de 2021

O óbvio


Não gosto do que diz o que eu esperava que dissesse. Não gosto dos livros óbvios, dos textos óbvios, dos poemas óbvios, das mensagens óbvias, das novelas óbvias. Odeio, odeio o óbvio – não o simples, DE MODO ALGUM o simples: o óóóbvio. Os provérbios sem contestação, os ditos populares sem refeitura e malandragem, as mensagens escorridas e melentas dos cartões de papelaria, as conversas que estacionam fáticas sem ir nem voltar, que giram inférteis em torno de frases feitas há mil e quarenta anos: odeio. Odeio "divisor de águas", "luz no fim do túnel", "leque de opções", "história de superação", "sua verdade", "escolhido a dedo", "agregar valor", "correr atrás do prejuízo", "pensar positivo", "ser você mesmo", "agradar a gregos e troianos", "tirar o cavalinho da chuva", "voltar à estaca zero", "não lembro nem o que eu comi ontem", "gosto não se discute", "ninguém é melhor que ninguém". Odeio letras de pagode com amores e dores e como-fores e por-favores. Odeio lyrics neossertanejas que andam sempre na balada bebendo, caindo, levantando e pegando. Odeio entusiasmos-padrão e frases gêmeas de youtubers. Odeio, odeio até o vômito as canalhíssimas historinhas da mitologia coach.

Detesto com a força mais aguerrida, mais intransigente, todas as cenas de personagens falando sozinhos, falando – o que é consideravelmente pior – CONSIGO MESMOS ("calma, autoFulaninha, respira, respira"), falando para si o que está se passando na tela como se o público tivesse 8 pontos de QI. Detesto estrebuchantemente diálogo de novela que a gente já previu INTEIRO ao primeiro oi, inclusive com a inserção da odienta musiquinha incidental de comédia. Detesto roteiros preguiçosos, ramerramentos em torno de ninharia, repetidores de chavões e bordões, prolongadores de situações clara e ridiculamente inúteis, com caretas de mais, gestos de mais, palavras de mais. Ah! a irritação suprema do tempo escoado com capítulos inchados de nada, que nada acrescentam! que não rendem uma sobrancelha erguida em reação, um hum de surpresa, uma lembrança de comicidade ou ternura, um mote para comentários verbais e não meramente narizes/olhos revirados – nada, nada, nequitas. Claríssima afronta a nosso sacrossanto direito de ir (mais pobres) e vir (mais ricos) após um bom investimento de minutos; safadeza de obras com alma caça-níquel, que devoram tempo e devolvem secura.

Sim, explodo de ressentimento contra qualquer passo desperdiçado em território minado de obviedades, mesmo uma porcariazinha de comercial que anuncie filmes vespertinos e dominicais entre um "vai aprontar muitas confusões", um "viver grandes aventuras", um "parará do outro mundo", um "pereré quase perfeito" e um "pororó bom pra cachorro". Sou daquele povo que VÊ comerciais – boa parte das vezes sem arrependimentos, já que há sempre peças excelentes no ar (algumas são miniperolinhas de dramaturgia com textos mais instigantes que a programação oficial); mas a muita tolice histriônica que também existe, tipo propagandas de mercado e esses insofríveis anúncios sessão-da-tárdicos, me enlouquece molinho em poucos segundos. Não é questão de esperar um Macbeth a cada intervalo, gente, é só não tascar todas as fichas em frases paspalhas e sorrisos patetas – custa? Diz o nome do produto, apresenta os benefícios com dignidade, mete um jingle grudento, escala um mascote fofildo que não fale como se o consumidor tivesse 8 pontos de QI; desnecessário humilhar os atores e deixar o espectador entre a raiva furibunda e o ataque de riso (filho de humor involuntário). Criar pode ser criar só um bocadinho, o suficiente para o interlocutor não se ver na solidão de um relacionamento que o subestima, que larga em perfeito abandono sua carência dum bom beliscão cerebral. Essencial.

O óbvio está, pobrezinho (not), sempre atolado no ontem – e não será a senhora Eu quem vai passar pano para o cretino chover diariamente no molhado.

sábado, 5 de junho de 2021

Desejos vagos


Às vezes não temos senão desejos ciciantes e vagos. Subitamente (por exemplo) o querer voltar a museus, passeá-los inteiros, mas agora sem a pressa e as fotos do turismo: passeá-los simplesmente, pronto, observando pinceladas com secreta ternura no calmor da tarde, livres de guias e horários e relatórios, sozinhos ou a dois no máximo – grupos tornam museus sustentáveis no orçamento e inviáveis na circulação. Desejos vagos, também, de dar similares esvoaçagens sobre cenas da poesia contemporânea, ler nomes lá e aqui a esmo, não porque modinha est; ler em perfeitíssimo descompromisso o que não foi apontado, recomendado, solicitado, o que não entra em nenhuma banca ou currículo, o que não está sendo discutido em esferas vizinhas, o que existe apenas, vivo e limpo. Desejos alegremente sonolentos de zapear programações alternativas, de dar chances a canais faladores de línguas (sob nossa perspectiva de ouvintes nativos de Hollywood) inusitadas, com outros ritmos, outras modulações, outros respirares de mundo. Desejos não tão abstratos de escapulir pelo mundo.

Às vezes nos percorrem vácuos de qualquer coisa distinta, de descobrir numa rua paralela uma delicatessen grávida de ótimos patês e chás caramelados, de esbarrar com um cafezinho enfeitado pelo enroscar de flores na treliça, de flanar pelo YouTube ouvindo artistas anônimos de Bangladesh ou da Nova Zelândia, de rever cenas da novela só por reouvir um sotaque e uma voz (sim, eu reescuto trechos dA vida da gente, me julguem), de apertar a "página aleatória" na Wikipédia só para ver o que vem no caniço (já ouviram falar em Dinastia Bagratúnio, da Armênia? confesso que achei o nome lindão), de escarafunchar jornais velhíssimos só para flagrar pitoresquices de tantos eus precedentes, de escarafunchar imóveis velhíssimos na esperança de um cômodo secreto ou uma cápsula do tempo, de deslizar por feirinhas à beira do Sena até topar com um diário vintage como em Meia-noite em Paris, de descoser um bilhete d'amour duma peça de brechó, de achar declarações novelescas num livro de sebo, de resgatar uma foto de casal presa no fundo dum móvel de antiquário. Desejos pequeninamente suspirantes – quem nunca? – de atingir ou inventar tesouros em plena quarta ou quinta-feira.

Às vezes um não-sei-quê (sei: a programação do Home & Health) nos implanta desejos metamórficos para nossa já estabilizada vida, nos dá ganas de incrementar a decoração, de trocar os móveis, de aprender moldes, de aprender receitas, de tentar intempestivos DIYs. Desejos de nadas e tudos, desassossegados, esquisitos, feito caprichos de gato; desejos de empregar palavras nunca pensadas, de usar títulos que brotaram na memória, de pesquisar a fundo um assunto irrompido e cismado, de matar de repente uma curiosidade que não é de hoje, de arrumar gavetas sempre adiadas mas repentinamente atrativas, de encomendar biscoitos amanteigados, de FAZER biscoitos amanteigados, de estrear roupas em casa mesmo, de improvisar um acessório steampunk, de destremalhar antigas e inadequadas bijus a fim de parir novas, de bolar algum artesanato com cabides. São ora desejos-fumaça, ora desejos-cafeína, ora de pálpebras pesantes, ora de aflições insones; são desejos que espicaçamos como quem brinca, que alimentamos como quem faz um jardim de motivos, que abraçamos com espreguiçamento mas com alma, visto serem sempre uma dança de sol pondo a obviedade da sala mais colorida.

São desejos que nem a vida.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Lógica analógica


"E então mais uma vez me fiz antigo", diz o primeiro verso dum poema de Ivan Junqueira. Me vi nele muito, muito ao precisar pegar carona no cartão de crédito da irmã para enviar presente à amiga – presente imediato, de espera incabível, de urgência incompatível com transferências e boletos. Se bem que uma quantidade absurda de sites deliverantes mostra a mesma inelasticidade para pedidos de qualquer prazo, e não faz questão de esconder uma mui estranha despreferência por pagamentos sem preâmbulos, à vista, diretos, débito em tempo real ou dinheiro na mão; os ilustres comerciantes parecem curtir mesmo o mistério do crédito, o frisson romântico de empurrar para depois (e dizem que as sentimentalidades estão mortas, tsc). Já eu, embora tradicionalmente amiga de empurrar perrengues para depois, curto nadíssima essa história de estar financeiramente pendente, e ou bem tenho e pago logo, ou bem não compro; até o imposto do Leão vai numa facada única. "Uai, mas então faz Pix, esses troços." Convenho, seria uma possibilidade adequada SE eu porventura dispusesse de um smartphone – porém, conforme já declarei ad nauseam, falta-me um desses bichinhos. Continuará faltando porque pretendo resistir enquanto puder, antiquíssima; e, caso as circunstâncias um dia me obriguem (sob argumentos de guilhotina) a comprar a traquitana, acabarei só usando para fins pagamentícios, olhe lá; para mim é no máximo xarope, definitivamente não é drink. É instrumento de aceleração; né brinquedo não.

Também já disse ad nauseam que NÃO sou a louca da casa mal-assombrada que acredita habitar o século XIX e é contra tecnologia. Jamais seria contra tecnologia; se defendo a ciência como qualquer pessoa minimamente razoável e sã, era um tremendo despropósito eu me opor aos frutos de anos e anos de estudaiada. Sou contra, sim, o uso agressivamente mercantil de inovações nos produtos, a ponto de em seis meses vermos um ciclo de nascimento, glória e obsolescência de modelos smartphônicos, e um ciclo de correspondente desespero de consumo e reconsumo. Sou contra o aspecto compulsório que determinados recursos subitamente assumiram, o que põe o mundo em rota de exclusão progressiva; duvido nada que, muito em breve, os desprovidos de smartphone consigam nem tomar um cafezinho na padaria, por terem apenas uns dinheiros bastante analógicos no bolso.

Sou pela amplidão e multiplicação das estradas, o que por sinal considero moderníssimo: faz Pix quem quer, paga com cartão de crédito virtual e descartável se lhe apraz, cheque, escambo, diamante, pulseirinha que nem as da Disney, o bom e velho cash, débito, boleto, VR, carnê, transferência bancária por leitura da retina. O que não tem sentido é endereçar caminhos a um só sentido, após tantos séculos de melhorias e alargamentos do percurso; se, afinal, estabelecimentos dos outroras aceitavam exclusivamente notinha sobre notinha, e muitos chegam agora (ao menos virtualmente, que é como são acessados e acessíveis durante a pandemia) aceitando o pagamento por crédito também com exclusividade, que raios de liberdade têm nossos tempos, que enorme e extraordinária vantagem oferecem nossas inovações em relação às da juventude de vovô e vovó, do biso e da bisa? Estamos aqui muito bonitinhos em 2021 não é para nos aborrecermos tecnologicamente, nem nos sentirmos paleolíticos, isolados (já não bastam os necessários distanciamentos da covid?): é, em tese, para nos refestelarmos com as alternativas, sermos abençoados com a chuva fresquinha de escolhas. Aventura em que não nos sentimos bem-vindos convida à desparticipação, ao desembarque.

No mais agudo surto de modernice, estreitamentos inexplicáveis de passagem parecem somente ecoar o método de priscas eras: welcome to the Jurassic Park.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Gaiolas


144 anos do pintor, desenhista, ceramista, gravador, ilustrador de livros, de tecidos, de tapeçarias e de móveis, decorador de interiores e de espaços públicos (ufa!) Raoul Dufy. Fascina-me em geral a coloridice de suas telas, inicialmente mais impressionistas e, na sequência, mais fauvistas, flertantes com o cubismo; mas talvez nenhuma tenha me impressionado tanto quanto La cage à oiseaux (A gaiola de passarinhos), esta que vos sorri sobre o texto, cheia de instigâncias. Caindo nela, meu primeiro olhar foi de – look! uma daquelas colchas tradicionais americanas (perdoe-me o francesíssimo pintor pela heresia geográfica), uma daquelas costuras retalhadas de vida, compostas de vários tantos do que se é. E o fato de se tratar de uma gaiola deixou a conclusão irresistível: são também compostas de vários tantos as nossas gaiolas; nunca é de uma só matéria nossa jaulazinha personalizada, nunca é feito duma única sombra o nosso fantasma portátil, il faut que vários pedacitos de trava e de medo entrem em concerto para nos aferrolhar.

Nascemos envelopados numa carência abissal, absoluta, e desde os momentos iniciais fomos presas fáceis de todos os terrores: que mamãe sumisse, que ninguém estivesse perto, que o velho e preferido brinquedo simplesmente evaporasse, que os quadros de família se mexessem, que Papai Noel não viesse. Anos adiantando-se e nós com medomedomedo de enjoar no ônibus, de aparecer com aquele corte de cabelo na escola, de ver nossa nota baixa divulgada pelo aluno mais entojado da turma, de comprar (ou ganhar) presente porcaria no amigo oculto, de resolver a equação no quadro, de apresentar o seminário lá na frente, de deixar o bilhete-declaração na mochila do crush. Em especial na infância tudo se agiganta, tudo nos paralisa, tudo é proporcionalmente excessivo dentro de espaço de vida tão curto – e isso as infâncias redomadas, protegidas; que dizer então daquelas sujeitas à pestilência da morte cravando-lhes balas perdidas diariamente à porta? que dizer daquelas vividas em áreas de tráfico, milícia, guerra civil, guerra étnica? que dizer também das que vivenciam o terror de portas adentro, entre pais/padrastos/tios/avôs abusivos, entre os assaltos de doenças, ausências e fomes? que dizer das identidades crescidas sob uma gama de horrores absolutos, em acréscimo à sua justa cota de horrores inocentes?

Do azul da adolescência em diante, são mais não-sei-quantos apavoramentos e dissabores que as asas soltam – prisões diurnas e noturnas (agora talvez mais distintas entre si, interiormente, do que eram nas vaguidões da infância), como aliás a gaiola de Raoul Dufy bem ilustra, com seu lado mais ensolarado e seu lado mais penumbroso, sua porção de pássaro aparentada com a tradicional pomba da paz e sua porção de pássaro que poderia grasnar "nunca mais!" num verso de Poe. O dia engaiola jovens e adultos com horários de assinatura de ponto, catracas eletrônicas, jaulas ambulantes das quais só consegue fugir quem se materializa no emprego, jaulas fixas que estão no próprio emprego, assédios morais, aumento do gás, contas que não fecham, mensalidades que não se pagam, WhatsApp que apita, solicita, chama, faz drama. A noite oprime com o cansaço que desencoraja leituras e demais lazeres, oprime com a insônia que acaba de transtornar psiquês e corpos, oprime com caraminholas filhas da insônia que saltitam num festim sádico: você é gordo, você é feia, você é incompetente, você é mãe ausente, você nunca bate as metas, você nunquinha vai dar matches, você não merece likes, você é uma fraude. Umas e outras gaiolagens então se retroalimentam, se apoiam e se abraçam num mesmo aramado, uma mesma instalação de Jigsaw com múltiplas penas para o mesmo passarinho.

O menos mau é que uma leva de penas não deixa de nos dar asas, eus-passarinhos não deixam de reagir pavões-misteriosos, e não deixa de haver dores (relevem o mix de biologias) que nos empurram para o parto, para a porta, para fora. Há dores de definhar e permanecer – mas também há dores de fechar a cara, fechar a mala, perder o medo, ganhar a vida, ganhar o mundo; dores de ir embora.